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Pedro Santana Lopes

«Mas devo dizer-lhe uma coisa: estabeleci desde muito cedo que estava primeiro a procura da minha felicidade pessoal. Não é por causa da política que sigo um caminho e não outro. (...) E tenho um lema: se Deus nos deu esta vida – e acredito que sim e dou graças por ela constantemente – não podemos desistir de ser felizes, de tentar ser felizes. A acomodação, a resignação a uma situação em que não haja essa chama viva, não faz sentido. Tenho a obrigação de lutar por ser feliz».

Provavelmente nenhum outro político poderia dizer o que este diz. Nenhum ousaria expor os veios que o atravessam. Nesta entrevista não se fala do túnel das Amoreiras. Nem de promessas por cumprir. Nem do mandato que vai a meio. Pedro Santana Lopes fala da massa que o faz ser como.

Nasceu em 1956. Formação em Direito. Político. Presidente da câmara municipal de Lisboa.

 

Gostava que me contasse a história do seu pai e da sua mãe.

A minha mãe estudava enfermagem. A família vivia em Alcácer do Sal e, em Lisboa, estava em casa de uns tios, ali no Arco do Cego. Estava à janela e o meu pai ia a passar com o grande amigo dele, que foi depois meu padrinho de baptismo. Começaram com um galanteio para a janela. Depois casaram, muito novos, o meu pai com 21, a minha mãe com 23. Estiveram casados 40 anos. A família assentava na figura da minha mãe, que tinha uma personalidade mais marcada. Tornou-se diferente depois da morte dela, há quatro anos. Não digo que se desagregou, mas nada ficou igual. Foi uma história de amor bonita. O meu pai era uma pessoa mal aceite pela família da minha mãe. A família da minha mãe tinha supostamente um traço aristocrático e o meu pai era de família de operários da Beira.

 

Aos olhos da família da sua mãe, o seu pai seria o rapaz pobretanas que pisca o olho à menina de família.

É. E que não entrava nos bailes da família da minha mãe, no Saldanha. Entravam os namorados das primas da minha mãe, que eram oficiais de Marinha ou assim, e o meu pai não. A mãe do meu pai era porteira de um prédio da Avenida da República, o meu avô era operário da Central de Cervejas. O meu pai, apesar de estudar Direito, não tinha direito a entrar nessas festas.

 

O seu pai estava a estudar Direito com a intenção de ascender socialmente?

Ele era filho único, já devia ser atilado. É um homem muito calmo, ponderado e sensato. Mas depois perdeu-se. Por amor não chegou a acabar o curso. Casou e foi trabalhar como empregado de escritório para a Companhia das Lezírias.

 

Explique-me essa história dos bailes.

Eram bailes em casa de famílias. O meu pai levava a minha mãe até à porta e não podia entrar. São problemas de famílias, mais daqueles tempos, que não se esquecem. Embora o meu pai tenha perdoado. É um espírito generoso. A minha mãe viveu sempre em Alcácer até vir estudar para o Instituto de Oncologia. Na altura era um género de TAP: as meninas bonitas iam para enfermeiras do IPO.

 

Era bonita, a sua mãe?

Dizem que sim. Eu acho que sim, mas sou suspeito. Tinha classe, o que é muito importante.

 

O que é que acha que no seu pai encantou a sua mãe?

Acho que foi o facto de o meu pai misturar muito bem a inteligência com a ponderação. A minha mãe era muito voluntariosa, enérgica. Apreciava no meu pai principalmente o equilíbrio, o bom senso. E o meu pai era, como diria a minha avó, «Bem parecido».

 

Foi então da sua mãe que herdou o arrojo, o espírito voluntarista?

Mais da minha mãe. Do meu pai é mais o sentido do rumo, que é preciso ter um rumo. Sou muito parecido com a minha mãe.

 

É verdade que nunca ligou muita importância à família da sua mãe pelo facto de terem ostracizado o seu pai?

É. Os meus irmãos não gostam muito que fale disso, dizem que são assuntos de família, mas acho que sem revelar os factos mais reservados, devo contar. É verdade que nunca me aproximei nem nunca esqueci. Hoje em dia não me dou com ninguém, praticamente. Só com o irmão da minha mãe, mas esse passou pelo mesmo.

 

O que não suporta nessas pessoas, a sobranceria?

A distinção das pessoas em função da origem ou dos rendimentos é absolutamente inaceitável. E tenho veneração pelo meu pai, não consigo perdoar a quem o tenha tratado mal. Há coisas que perdoo e não esqueço. Há outras que não perdoo mesmo.

 

Foi distinguido, também? É distinguido no partido, no país, enquanto político, por não corresponder ao cânone?

Sim, embora tenham cada vez menos coragem para o dizer publicamente. Mas nos corredores e nos bastidores, acontece. É uma opção que fiz, de não me importar por não corresponder ao cânone. Também tenho que aceitar a contraparte.

 

Foi uma opção ou é tão naturalmente assim que não poderia ser de outra maneira?

Por mim, não poderia ser de outra maneira. Muita gente me disse que é importante na política não mudar de família; o próprio Dr. João Soares me atirou isso à cara antes das eleições. Diz o povo que pela boca morre o peixe... Eu de família, também não mudo. Da família de sangue não se muda. Em relação a um divórcio, é melhor evitá-lo. Mas não consigo. Não posso aceitar que se mantenham as situações em que não há o fundamento, a essência.

 

O que é o fundamento?

É o amor. Achando eu que a família é a célula fundamental da sociedade, não compreendo que se mantenham situações sem o que é a essência. Considero que tenho sido infeliz nesse lado da minha vida. Preferia ter uma relação de estabilidade. Ao contrário do que as pessoas julgam, não fico contente, não é uma opção pela inconsciência, ou pela alegria ou pelo divertimento.

 

Sofre muito realmente com os divórcios? Encara-os como falhanços?

Os falhanços das relações são a marca mais negra da minha vida. Procuro assumir as responsabilidades, mesmo dos erros, mas detesto falhar. Consome-me, e é uma grande frustração. Agora, não sou cínico, não sou hipócrita, não sou capaz de manter uma relação só por manter. E tenho um lema: se Deus nos deu esta vida – e acredito que sim e dou graças por ela constantemente – não podemos desistir de ser felizes, de tentar ser felizes. A acomodação, a resignação a uma situação em que não haja essa chama viva, não faz sentido. Tenho a obrigação de lutar por ser feliz. Mas sei as responsabilidades que tenho, as funções que exerço e entendo que a minha infelicidade – infelicidade entre aspas, infelizes são os que têm fome –, os meus problemas não devem gerar situações que choquem as pessoas, principalmente depois dos 40 anos.

 

Depois dos 40 passou a dizer que quer ser um exemplo para os seus filhos.

Exemplo tenho procurado ser sempre, e falo muito com eles sobre os meus falhanços nesse campo. Procuro transmitir-lhes que o ideal é conseguir uma relação de amor com uma pessoa para toda a vida

 

Qual é a sua definição de família?

Família são aqueles por quem temos amor. E os laços de sangue, com certeza que sim. Somos 6 irmãos, dou-me mais com um dos meus irmãos, o Paulo. Não vou dizer que é a pessoa mais importante da minha vida, mas é ex-aequo, isso de certeza absoluta.

 

O que é que ele faz?

Hoje em dia está no ramo imobiliário, fora de Lisboa. Em Lisboa não, como calcula. É um ser humano fantástico, o bombeiro da família.

 

Que tipo de conversas tem com ele que não tem com mais ninguém?

É a pessoa com que falo todos os dias quando acordo. Que tipo de conversas tenho com ele? Sobre tudo da minha vida. Sabe tudo da minha vida. Excepto os segredos de Estado que tenho de manter.

 

Não teria propriamente interesse em falar com ele sobre segredos de Estado, pois não?

Não. Ainda ontem estive em casa dele, lá fui almoçar. Ele e os meus filhos e o meu pai são o núcleo fundamental da minha família.

 

Tudo homens!

Tenho uma filha. Tive que ter gémeos para ter uma filha, como costumo dizer. 

 

Soube da existência do seu irmão Paulo porque vi uma fotografia sua num triciclo. Comentava que era das poucas de quando era pequeno em que não aparecia com o seu irmão, e que ele era a grande referência.

Se estou no estrangeiro, para além dos meus filhos, é a pessoa de quem sinto mais a falta. Crescemos muito juntos, temos 22 meses de diferença. Mas isso! Há irmãos que são mais próximos e não se dão tanto. Ele é muito o meu pai, eu sou muito a minha mãe, se quiser.

 

Algumas das suas mulheres aproximavam-se do paradigma da sua mãe? É forçado fazer um paralelo entre o casamento dos seus pais e os seus casamentos, quase sempre com meninas de família? A relação com Teresa Arriaga, (filha de Kaúlza de Arriaga), por exemplo, mereceu a oposição dos pais dela, que não assistiram à cerimónia

É verdade. Talvez, talvez tenha acontecido.

 

 

 

Não me diga que nunca tinha pensado nisto assim?

Não! No paralelismo com o meu pai, nunca tinha pensado. Mas isso aconteceu inconscientemente. Quando as encontrei não sabia que ia ter oposição da família. No caso da Teresa Arriaga, tive por ser divorciado.

 

Foi por ser divorciado? Ela era uma rapariga de uma família conservadora que namorava com um rapaz arrojado, disposto a partir a loiça.

Sim, mas foi mais por ser divorciado. É uma posição religiosa, que respeito. Depois aconteceram mais divórcios na família...

 

Nessas alturas pensa outra vez: «Pela boca morre o peixe»?

Não vou dizer que não. Sofri na pele, eu e os meus filhos, os efeitos dessas distinções. Não interessa dizer com que família, mas cheguei a ir jantar a casa dos meus sogros a dias diferentes dos dias a que iam os outros filhos, por ser divorciado. 

 

Li algures que teve uma conversa com o Sá Carneiro, numa altura em que ele já tinha assumido a relação com Snu Abecassis, em que lhe dizia que as pessoas tinham uma expectativa em relação ao comportamento dele, e que não podia decepcioná-las. Como é que um miúdo de vinte e poucos anos diz isto a alguém que é para ele um ídolo?

Deixe-me fazer uma ressalva: eu disse-lhe isso não por causa da Snu, mas por causa do que ele arriscava a viajar de avião. Foi uma vez em que íamos a aterrar no Porto. O comandante do avião veio dizer-me que não tínhamos tecto para aterrar, que tínhamos de ir para Viana do Castelo. O Dr. Sá Carneiro deu um salto: «Nem pense nisso. Não temos tempo para ir para Viana do Castelo. Arranje lá um buraco para aterrarmos no Porto». Ficámos todos um bocadinho assustados. Ele era assim, um homem de algum risco. E ao almoço, no Solar do Vinho do Porto, ele foi fumar um charuto, que era uma coisa que eu não percebia e achava insuportável... Só gostava de ver a maneira como fumava charuto.

 

Como é que era?

Era lindíssimo. Muito calmo. Os gestos eram muito lentos, vagarosos. A maneira como levava o charuto à boca e como dava a sua passa, o prazer com que o fazia, a cadência daquele gesto… Era um homem de um charme quase insuperável. Um príncipe, como dizia a Natália Correia.

 

Apesar da altura.

Apesar da altura. Mesmo torto. Mas a força daqueles olhos era uma coisa… Eu disse-lhe aquilo a propósito do risco. «O senhor doutor não pode fazer estas coisas. O senhor doutor representa muita gente». E ele respondeu-me, nesse passeio: «Ó Pedro, é capaz de ter razão, mas a vida sem risco não faz sentido».

 

Como foi a primeira vez que o viu? Sá Carneiro é a sua figura tutelar em termos políticos. Era uma espécie de pai putativo para si?

O meu pai não simpatizava com ele. Tinha sido mais ou menos contemporâneo dele na faculdade.

 

Andaram juntos no primeiro ano, não foi?

Penso que sim. O meu pai não simpatizava com ele mas dizia-me para ler os seus artigos. Acho que sei perceber muito bem as pessoas que têm carisma, passe o pretensiosismo; quando o ouvi a primeira vez fiquei absolutamente siderado. Ele não era um grande orador, mas tinha uma força impressionante. O que lia sobre as intervenções dele, sobre os direitos humanos, sobre a coragem de ser deputado à Assembleia Nacional e ir visitar os presos políticos a Caxias, de lutar contra o visto prévio, de chamar «O Visto» àquela coluna do Expresso, achava tudo aquilo notável. Gostava muito do estilo de escrita dele. Escrevia com períodos curtos e vocábulos impressivos. Como o Lenine também fazia. Eu achava-o politicamente genial. Um dia conheci-o. Resolvi ir a um congresso do PSD para o defender, em 76, quando ele foi afastado do partido.

 

Foi com que intenção?

Fui defendê-lo e abrir o caminho em que acreditava e de que queria fazer parte.

 

Tinha portanto uma intenção clara de lhe ser apresentado e de fazer parte da «entourage».

Oiça, gostava que isso acontecesse. Fui defendê-lo por defender. Hoje em dia há muitos Sá Carneiristas. Não estou a dizer que sou mais do que os outros, mas sabe quem me conhece que foi o único ídolo que tive na vida. Com certeza que gostava de lhe ser apresentado, um dia. Mas sou muito orgulhoso. Nunca olhei para ele antes de mo apresentarem. Passava e desviava a cara, não cumprimentava. Não queria que ele pensasse que me estava a insinuar.

 

Foram apresentados em 78 no Cinema Roma, num congresso.

Ouviu muitas palmas e perguntou: «Quem é que está a falar?», «É o tal miúdo de Direito» – eu era presidente da Associação [de Estudantes] em Direito. Mandou-me chamar: «Gostava que a partir de hoje ficasse a trabalhar comigo, e para já na área da revisão constitucional». Eu ia caindo para o lado! E a partir daí, de facto, nunca mais me deixou. Logo depois fui para a Alemanha com uma bolsa de estudo e ele nunca preencheu o lugar de assessor jurídico. Fui para a Alemanha para me doutorar, para ficar 3 anos ou 4. Resisti uns meses, mas depois não aguentei. Vim cá na Páscoa, encontrei-o na Assembleia, «O lugar está vago à sua espera». Quando a vida nos diz isto, não podemos virar as costas.

 

É uma interpelação directa? Foi isso que sentiu?

É uma interpelação directa da vida, exactamente. A vida estava a dizer-me que eu tinha que vir. Se não tivesse vindo, a minha vida seria completamente diferente. E a minha vida era para ser isto.

 

Na Alemanha viveu num colégio da Opus Dei.

Na altura, em Colónia, não se conseguia encontrar casas. Comecei por estar fechado numa aldeia da Floresta Negra a aperfeiçoar o alemão.

 

Já sabia alemão?

O meu pai sempre achou que eu ia ser político ou algo do género. E sempre se preocupou em formar-me como deve ser. «Saber línguas é fundamental. Quanto mais souberes, melhor». Falo várias línguas. Tive alemão no 6º e 7º anos e depois o meu pai manteve uma professora. Apesar de não ser rico, nunca foi. Tinha essas preocupações comigo. No Verão mandava-me para Inglaterra aperfeiçoar o inglês,

 

Não havia casas em Colónia.

Não queira saber o que era! Consegui arranjar um quarto num lar da Opus Dei. Não se podia ver mulheres. Acabávamos de almoçar e de jantar e tínhamos que passar os pratos por uma janela para as empregadas da cozinha. Eram as regras.

 

Que tortura!

Mas era engraçado. O director até esperava por mim à noite, para me abrir a porta – saía até às três, quatro da manhã. Isto coincide com as insistências do doutor Sá Carneiro. Curiosamente consegui depois encontrar casa graças a uma amiga do sogro do doutor Durão Barroso.

 

Quer dizer que não foi um investimento da Opus Dei?

Não, não, não! Concorri por mim. Fui às provas a um concurso da Embaixada alemã e fui o único de Direito que entrou. O doutor Durão Barroso foi para a Suiça na mesma altura.

 

O doutor Durão Barroso tem a contenção do seu irmão Paulo e do seu pai. São menos emotivos e inconstantes.

O doutor Durão Barroso é uma pessoa muitíssimo importante na minha vida. Temos uma amizade com períodos muito difíceis, como é público, de confrontação até, outros muito bons. Hoje em dia é dos grandes activos que tenho na minha vida e que não quero nem pouco mais ou menos pôr em causa. Acho que até é importante para alguma harmonia na vida dos dois esta reconstituição, o nascer de um tempo novo na relação.

 

Sofria quando estava zangado com ele?

Bastante. As pessoas não sonham, mas no Congresso de Viseu estava a sangrar por dentro. Acho que ele também. E por isso lhe correu tão mal; disse uma série de coisas disparatadas que o iam fazendo perder o congresso. Na noite em que achei que podia ganhar não dormi até às 8 da manhã. Custou-me fazer o que fiz, mas achei, pelo país, que tinha de o fazer. Achei que ele estava a liderar mal o partido, que eu podia fazer melhor e que, por isso, ele devia sair. Embora estivesse convencido que a maioria do partido ia ter outra posição. Mas custou-me muito. O que é natural é o que está a acontecer hoje. Era disto que falávamos aos 20 anos. Sabíamos os dois que algo parecido com o que se está a passar ia acontecer nas nossas vidas.

 

Como é que tinham essa impressão?

Por nos conhecermos. Ele já era líder na faculdade. Eu também liderei. Liderávamos em campos opostos.

 

Fazia-lhe espécie que ele estivesse tão à esquerda?

Não, não! Quer dizer, havia coisas que ele dizia que achava completamente sem sentido. Mas tinha admiração por ele, sempre tive. E quando saiu do MRPP, aproximámo-nos. Foi algo automático, instantâneo. Diria que a partir daí nunca mais nos largámos. E por isso, os quase 9 anos em que estivemos afastados foram duros e difíceis. Hoje em dia ele está mais parecido comigo e eu mais parecido com ele. Eu estou mais racional e ele está mais emotivo, mais sentimental.

 

Impressiona-me a relação que Durão Barroso tem em público com a mulher. Há uma imagem de há poucos anos muito forte: ele procura a mão dela. Tacteia e vai à procura da mão dela.

Eu lembro-me dessa imagem, por acaso.

 

Isto para dizer que um homem que procura em público a mão da mulher não é só contido e frio.

Mas não é, nem pouco mais ou menos. Não quero entrar na intimidade dele, mas acho que não é mal nenhum dizer que essa imagem revela muito. Ele gere é de uma maneira diferente da minha o equilíbrio entre razão e emoção. A diferença entre as pessoas está aí.

 

Como é que eram há 20 anos? Tenho alguns relatos fugidios que os dão como uns rapazes que andavam muito à pancada.

Um com o outro?

 

Não, não. Que participavam…

Ah, em cenas de pancadaria? Sim, sim, mas isso mais há 25 anos que há 20. Há 20 já estávamos formados. Fazemos 25 anos este ano que nos formámos.

 

Hoje ninguém anda à pancada na faculdade.

Na altura a faculdade era muito difícil e havia cenas de imposição física.

 

Imposição física é um bom eufemismo!

Imposição física é por exemplo a Juventude do PCP e também do MRPP procurar impor situações que não deixavam liberdade às outras pessoas – eles proibiam outra propaganda que não a deles. E quando se começou a furar esse cerco houve cenas de confrontação física. E aí nunca me coibi, é um facto. Ele também teve situações de grande confrontação. No nosso último ano de faculdade, vivi em casa dele.

 

Não sabia.

Não é muito público. Vivi na Cova da Piedade em casa dele. O pai tinha morrido, a mãe casou outra vez e foi viver para o Alentejo, ele vivia sozinho. Fizemos o quinto ano na mesma casa, vivíamos juntos. Entre aspas, não é? Chegávamos a casa às 3, 4 da manhã e estudávamos o resto da madrugada. Ele era um aluno sempre 2 valores acima de mim. Acabou o curso com média de 17, eu acabei com 15. E sempre nos divertimos à grande e à francesa.

 

Porque é que decidiu sair de casa dos seus pais e ir viver com ele?

Achei que seria bom. Os pais gostavam que andássemos com pessoas que estudavam. «Podem estar descansados que vou para casa de uma pessoa que é responsável. Eu também sou, por isso está tudo bem». Os meus pais gostavam dele. O meu pai ainda gosta dele. Estávamos sempre juntos, de manhã, à tarde, à noite.

 

Quem é que tomava conta das vossas coisas, das vossas vidas?

Das roupas? Ele tinha lá uma empregada, mas eu levava a roupa para casa dos meus pais. Vivíamos nisto. Lá em casa dele havia muito os pudins.

 

Pudins? Instantâneos?

Era, era. Havia também o irmão dele do MRPP, que chegava a casa ainda mais tarde que nós, vinha das acções revolucionárias, já o Zé Manel não era do MRPP. E aquele irmão comia os pudins! Tínhamos que comer alguns pudins antes dele, porque a acção revolucionária dava-lhe fome e limpava 3 pudins assim de seguida!

 

E o que é que comiam? O que é que cozinhavam?

Batidos, pudins, ovos estrelados e pouco mais.

 

E cheta, como é que era?

Ele tinha dinheiro, o normal, como se estivesse em casa da mãe. Eu tinha a semanada que o meu pai me dava. E já ganhávamos dinheiro, é verdade! Éramos os dois monitores do professor Jorge Miranda. Ganhávamos três contos e duzentos. Verba com que comprei o meu primeiro carro, um Honda 600: CA-81-57, que depois lhe vendi a ele.

 

Ganhou dinheiro na venda?

Não. Pedi 30 contos emprestados a um tio para comprar o carro, porque o meu pai não me dava dinheiro. Achava que não me podia desviar do estudo. Uma injustiça tramada: tinha boas notas e não tinha nada, o meu irmão, que se via aflito para passar, tinha uma vespa. Pagava dois contos e tal de prestação por mês com esse dinheiro da faculdade. E um dia vendi-lhe o carro, que ele gostava muito do Honda, e comprei uma Diane a um então cunhado dele. Isto para dizer que partilhávamos tudo. Fazíamos viagens ao estrangeiro juntos…

 

É verdade que tiveram uma mesma namorada, uma Petiz?

Não, não. Essa história correu, mas não é verdade. Não foi namorada dele nem minha. Não gosto de ter louros que não me cabem.

 

Há 20 anos prognosticavam esta vida que têm agora?

Sim. Não como tontos, fúteis. Ambos dizíamos que queríamos ter intervenção política, que queríamos fazer vida pública. Falávamos sobre as pastas que cada um gostava de ter ou o tipo de cargo que cada um gostava de ter.

 

E então?

Ele sempre foi talhado para os Negócios Estrangeiros, pasta para a qual nunca tive especial vocação. Mas falávamos muito de coisas que estão a acontecer agora. Lembro-me de irmos de carro ao cinema, eu, ele e a mulher dele, a descer para São Sebastião da Pedreira, e de a Guida já na altura dizer: «O problema é que vocês, politicamente, ou se entendem ou vai ser muito complicado». Tenho essa imagem gravada. Devíamos ter 22 anos.

 

Eram os dois igualmente ambiciosos?

Vou contar isto, ele vai ficar zangado, mas não me importo porque tem graça. Eu era presidente da Associação em Direito e convidei-o para uma organização, uma coisa das Nações Unidas. Foi o primeiro acto político dele quando saiu do MRPP, e aparecer comigo na faculdade foi muito falado.

 

Ainda por cima, estava muito conotado com a direita. De tal modo que ao seu Movimento Independente de Direito chamavam Movimento Independente de Direita. Para os maoístas, deve ter sido uma traição.

Sim. Mas eu já era do PSD. Fui presidente da Associação já com o PSD. E propus-lhe: «Eu fico como presidente, tu ficas como secretário-geral». Secretário-geral era o cargo onde se mandava. Presidente, naquela organização, era uma figura decorativa. E ele disse: «Isso não faz sentido. Tu já és presidente da Associação, acho que devo ficar eu presidente dessa entidade». (Ele nessas coisas não brinca em serviço). E eu disse: «Ó Zé Manel, desculpa lá, mas não tenho tempo para ser secretário-geral dessa associação; os estatutos dizem que o secretário-geral é que manda». «Está bem, mas as coisas têm que ser equilibradas entre nós». Portanto, já na altura percebia-se que ou éramos inteligentes e nos entendíamos, ou então dava faísca.

 

Eram os dois igualmente ambiciosos e queriam a mesma coisa.

Talvez. Com certeza que sim. E houve um dia, depois do Congresso de Viseu, em que tivemos a certeza os dois que não queríamos a mesma coisa. Eu não queria voltar a disputar a liderança do partido.

 

Porque é que não quis? Para mim é um enigma.

Tudo tem um tempo. As pessoas dizem que fui várias vezes candidato. Não fui. Candidato mesmo, fui uma vez, nesse congresso de Viseu. Outras vezes desafiaram-me e estive quase para ser. Não podia ser candidato a líder do partido sendo presidente do Sporting, como foi no congresso de Santa Maria da Feira. O Marcelo [Rebelo de Sousa] bem se fartou de me picar. Acho que não fazia sentido voltar a ser [candidato], principalmente sendo ele o presidente do partido. As cenas fratricidas são horríveis. Se ele chegou lá primeiro do que eu, é a vida, é o que está escrito. Não faço questão, há outras coisas.

 

Que outras coisas são igualmente estimulantes?

O que me fascina mais, ao contrário do que as pessoas sempre julgaram, não é ser líder partidário. Não é esse o estilo de trabalho que mais gosto de fazer. E desde que descobri o trabalho autárquico, que permite mexer com a vida das pessoas, mais me distanciei disso. Não gosto de rituais nem de unanimismos, nem de regras estereotipadas, e os partidos são isso tudo. Sou vice-presidente do partido, mas é dos cargos que menos se adequa a mim. Não tenho jeito para dirigente partidário. Não tem a ver com a minha maneira de ser. Sou demasiado heterodoxo para poder ser...

 

Mas está resignado à sua heterodoxia?

Estou. Faço, por exemplo, aqueles comentários de televisão ao domingo. É uma grande dificuldade conciliar o que sou com o que devo ser. Ainda ontem critiquei um ministro, como já critiquei várias vezes. Isto do ponto de vista da ortodoxia partidária, não cai bem. É evidente que as pessoas já se habituaram que comigo ou é assim ou não é.

 

Dão um desconto.

Se calhar, chame-lhe assim.

 

Dar-lhe um desconto não é uma coisa muito simpática... Continua a fazer de si o «enfant terrible» que não é levado a sério.

É que não é ser «enfant terrible». O meu partido percebeu uma coisa finalmente – demorou, mas percebeu: ganha mais tendo-me como me tem, sendo eu como sou, do que querendo tornar-me diferente do que sou. Acho que ajudei o meu partido a mudar a situação em Portugal, a voltar a chegar ao poder. Foi o doutor Durão Barroso que chegou a nível nacional, mas dei um contributo forte para isso. E dei um contributo forte sendo como sou. Evoluindo como todas as pessoas, corrigindo alguns aspectos, com certeza. Estou mais maduro, a idade traz sabedoria.

 

Quando desiste finalmente de lutar pela liderança do partido...

Percebi como funcionam os partidos, e não gosto.

 

Não foi também para fazer as pazes com Durão Barroso?

Também. Também. Eu tinha dito há muito tempo, numa entrevista ao Fernando Madrinha e ao Fernando Diogo que estava escrito nas estrelas que um dia nos havíamos de defrontar. E cumpriu-se. Juro que não fiz de propósito. Aquele congresso aconteceu porque eu, depois das eleições de 99, disse que o partido tinha de fazer uma reflexão profunda, não ganhava eleições há 10 anos. Ele achou que aquilo era uma provocação à liderança dele, resolveu fazer um congresso. E lá fui e lá fiz o congresso. E depois disse chega.

 

Explique-me o que percebeu do funcionamento dos partidos.

Desgostou-me muito o modo de funcionamento do partido. Quem está no poder, em princípio ganha. Porque tem o controle do aparelho. Eu gosto que tudo funcione livremente, sem regras viciadas. O meu irmão também era um bocadinho batoteiro; naqueles jogos da Majora que fazíamos em miúdos, às vezes ele era um bocadinho batoteiro. Sempre detestei isso. Prefiro perder com tudo certo. Não é por ser melhor ou pior que os outros. Nos partidos não gosto das coisas que estão viciadas à partida. Não é totalmente livre.

 

«Gosto de voar sozinho. Ao candidatar-me à liderança do PPD-PSD deixo de poder. Tenho de voar em bando». Mas porquê esta dificuldade em voar em bando? Ainda há três anos, depois do Congresso de Viseu, justamente, aventou a possibilidade de formar o seu partido. E mais atrás, nos tempos de faculdade, o seu MID não chegou aos 100 votos, mas recusou-se a fazer alianças.

Foi, foi.

 

Porquê esta dificuldade se os partidos não servem senão para congregar num bando aqueles que querem voar?

É por isso que o trabalho autárquico é bom. Gosto muito de trabalhar. Mas gosto de trabalhar à minha maneira. Nasci mais para coordenar, para dirigir, do que para ser dirigido. Aqui na câmara tenho a vantagem de fazer as coisas como entendo que devem ser feitas, com uma equipa de gente fantástica. Preciso muito dessa liberdade. Não me pergunte porquê, não sei. Só podia ter profissões liberais ou dirigir uma equipa ou lançar projectos.

 

É esse o seu talento? Mobilizar pessoas, formar equipas, mais do que a concretização?

Não consigo separar isso da concretização. Não concebo ter uma série de ideias e projectos e depois não os levar a cabo. É um falhanço. Tenho conseguido nos sítios por onde passei fazer obra, embora saiba que as pessoas têm uma ideia diferente. Dou-lhe um exemplo: fui secretário de Estado da Presidência do Conselho; quem lançou a reestruturação do funcionamento do governo, criou as reuniões, os conselhos de secretários de Estado, fui eu. Francamente trabalho muito. Muitíssimo. Mobilizar equipas? A quantidade de gente que trabalhou comigo noutros sítios e quis vir comigo para a câmara... O trabalho é em equipa, mas é também muito solitário. Estou cada vez mais sozinho.

 

Mais sozinho? Dá-se com as pessoas do seu partido?

Há muitos dirigentes partidários que fazem o culto do telefonema, do apoio, da cunha, do pedido deste, daquele. Nunca fiz. Não faço vida com a gente do poder. Faço vida com a minha família e com o meu pequeno círculo de amigos. Como imagina, podia passar os fins-de-semana em sítios muito fascinantes. Quando estamos no poder convidam-nos para passar fins-de-semana em sítios fascinantes. E não vou, não vou. Sei que tenho a imagem do social e detesto social. Não vou a festas.

 

Está numa fase nova?

Não. Tive essa imagem quando vivi sete anos com uma pessoa que gosta dessa vida. Eu, por tabela, levei. Não foi à força. Mas era uma fonte de problemas permanente. Quase não vou a jantares oficiais, quase não vou a recepções. Vou a um jantar oficial por ano, na Ajuda, do Presidente da República, para não ofender ninguém. Não gosto de vestir smoking.

 

Tinha noção que esse comportamento o descredibilizava?

Nessa fase em que aparecia nessas revistas?

 

Sim, e em que aparecia em figuras...

O quê? Está a dizer o quê? A história do lenço?

 

Sim. Continuamos a tê-la no Contra-Informação, continua a ser uma imagem de marca.

E já viu o que é preciso fazer para passar por cima disso tudo e ganhar? Já viu? É preciso muito.

 

É aí que gosta de si e que se admira? Podemos pôr a coisa nestes termos: «Gozam com a história do lenço, mas quem ganha eleições sou eu»?

Gostar de mim, não sei. Agora que me motiva ainda mais, sim. Foi isso que nunca perceberam. É que quanto mais me espicaçam, mais risco correm. Porque puxam pelo que pode haver de melhor em mim. Espicaçam o meu sentido de dever, de responsabilidade e de luta. Dão-me uma força quando me tentam destruir!... Mas dão mesmo, não estou a brincar.

 

Aquele princípio nietzschiano «Se não me mata, alimenta-me»?

Alimenta mesmo. Quando vejo essas coisas, como imagina vejo, até tem graça, a maior parte.

 

Ah, não me diga que tem graça! Imagino que veja aquilo e que não ache graça nenhuma!

O quê? Do lenço?

 

Sim!

No Contra-Informação ou o lenço? O lenço foi uma partida incrível. Pus aquele lenço para aí um minuto para entrar numa festa. Quando estava a tomar o pequeno-almoço e me trazem os jornais e vejo aquilo na capa da revista, nem queria acreditar. E nunca me esqueço de quantos chapéus pôs na vida o doutor Mário Soares. Agora o doutor Jorge Sampaio dirigiu uma banda. Olhe, não fui de mota para a inauguração do Hard Rock Café por causa disso. Não tinha mal nenhum, mas não me largavam 5 anos ou 10 se fosse de Harley Davidson.

 

Agora já se coíbe.

Já. Porque não vale a pena. Não quero ser cínico, mas acho que as pessoas preferem os calculistas. Quando era secretário de Estado da Cultura vinha todos os dias na Harley Davidson do meu irmão para o governo. As pessoas nunca souberam, nunca fiz alarde disso.

 

No Contra-Informação deixaria de aparecer o lenço...

Passava a aparecer de Harley com as santanetes à volta, na 24 de Julho.

 

E disso das santanetes, gosta ou não?

Acho graça. O político do amor, ou não sei o quê, isso acho graça. Dizem que tenho várias mulheres bonitas a trabalhar comigo, mas a única coisa que sei é que são genericamente fantásticos quadros. Como tenho homens com um rendimento espantoso a trabalhar comigo. Mas é evidente que os homens comigo não dão nas vistas. As pessoas só querem saber das santanetes. Corresponde ao estereótipo. Foi uma história que se criou e na qual tenho responsabilidades pela matriz atribulada da minha vida pessoal. Compreendo isso.

 

Tem assumidamente, e desde sempre, ambições políticas. Porque é que deixou que se vinculasse a si uma imagem que não é consentânea com o que se espera de uma figura de Estado? Porque é que não se protegeu?

Não se esqueça que sou o político que está há mais anos no activo em Portugal. Vinte anos e tal, sem interrupções. Estive sempre na luta, no poder, na oposição... Foi uma fase atribulada da minha vida pessoal. Vivi com uma pessoa, cujas irmãs inclusivamente dirigiam revistas desse meio. Era uma pressão constante, uma solicitação constante disto, daquilo.

 

E se arrependimento matasse?

[riso] Não... Acho que faz parte. Cada um tem os seus carmas, as suas contrariedades para ultrapassar, os seus pecados para descontar. Se não tivesse esses teria outros. Se me arrependo de algumas coisas? Não. Isso motiva-me para ser melhor. Posso ter dado trambolhões, ter-me distraído e saído da estrada, mas, na essência, tenho vindo pela estrada da minha vida.

 

O que é que quer ser?

Quero ser feliz. Quero sentir-me realizado. Sei que dizem que quero candidatar-me a isto e àquilo. As pessoas não me conhecem. Não é assim que funciono. Fui presidente da Câmara da Figueira. Não sonhava ser e fui. Dediquei-me e trabalhei loucamente. Não tinha nos meus planos candidatar-me a Lisboa. Acabei por ser candidato a Lisboa.

 

É verdade que foi num jantar, organizado pelo seu grande amigo Rui Gomes da Silva, que foi espicaçado para se candidatar à câmara de Lisboa? O próprio João Soares, que estava presente, teria dito qualquer coisa como: «O senhor seria o único que me faria frente».

Ele já me tinha dito isso numa entrevista que lhe fiz em 1997, para a PM. Até abona a favor dele, com graça, com humildade. «Tenho este palpite, este pressentimento que você pode ganhar as eleições cá. Candidate-se à Figueira, candidate-se onde quiser, mas aqui em Lisboa não». Em 2000, num jantar em casa do doutor Gomes da Silva, perguntou-me se era candidato a Lisboa. «Não tenho nada previsto. Andam a desafiar-me para ser candidato a Coimbra. O mais natural é candidatar-me à Figueira». Ele voltou a dizer-me aquilo, e eu disse: «Não sou capaz de me candidatar sem ver a sua obra». Não sou capaz de me candidatar contra quem tenha feito uma boa obra.

 

A sério?

Se chegasse à conclusão que ele tinha feito um bom trabalho, não fazia sentido ser candidato.

 

Porque não alinha para perder?

Se concorro é para ganhar mesmo. E para ganhar tenho que ter a convicção de que devo ganhar. Ganhar só porque o meu clube tem que ir para o lugar do outro não tem graça. Se alguém jogou bem não deve ser substituído. A democracia obriga a que se dispute.

 

Sim, mas eu queria dizer outra coisa. Não se candidata contra alguém que fez um bom trabalho porque essa pessoa, supostamente, vai ser reeleita.

Mas não é por isso! Por esse lado até me espicaça. Dou-lhe a minha palavra de honra. Com o doutor João Soares: «Acho que o senhor fez bem algumas coisas. Acho também que vou fazer melhor do que o senhor fez». Tem que ser assim. Até para sair da Figueira para Lisboa... Porque gosto muito da Figueira.

 

Até disse «Esta é a decisão mais difícil da minha vida»! Diz coisas assim, como disse que se ia retirar da política por causa do sketch do Big Show Sic, como se fosse um personagem trágico, como se fosse o fim do mundo.

Viu aquele filme, não me lembro do nome, em que uma mulher chega atrasada ao metropolitano e perde o metro e a vida se divide em duas?

 

Sim, o «Sliding Doors», com a Gwyneth Palthrow.

Tenho permanentemente essa sensação. Sempre tive, desde muito novo. Em determinadas alturas sinto muito fortemente que estou a escolher um caminho e a excluir outro. Sofri imenso para tomar essa decisão. Havia uma componente de gratidão muito forte. Devo muito à Figueira e àquela gente. E sabia que eles adoravam que eu ficasse.

 

Deve-lhes muito porque eles o quiseram, porque lhe deram uma oportunidade quando o partido o deixou cair? Foi para a Figueira porque Pacheco Pereira, presidente da distrital, não o quis pelo círculo de Lisboa.

Também. Não darmos valor a isso é mau. Acho a gratidão das duas ou três coisas mais bonitas da vida.

 

Quais são as outras duas?

Saber ser amado. É das coisas mais bonitas e mais difíceis da vida. Normalmente quem é muito amado tende a não saber dar valor a isso. E pormo-nos no lugar do outro.

 

Foi uma pessoa muito amada? Não estou a referir-me às relações amorosas, mas à sensação de que somos queridos, desejados, reforçados.

Sim. Tenho a sorte de ter muita gente que gosta muito de mim. Como tenho muita gente que, infelizmente, não gosta nada de mim. Mas não é fácil estar ao meu lado.

 

O poder que tem é afrodisíaco para as mulheres?

Dizem que sim. A partir da altura em que me tornei um personagem público, procurei manter a lucidez sobre aquilo que interessa do personagem público e aquilo que interessa do personagem privado. Quando era mais novo chamavam-me muito Pedro Miguel. Hoje em dia sou Pedro Santana Lopes. Não deve haver diferença entre os dois, mas há. Com certeza que sei que o poder interessa a mulheres e homens. Mas não tenho ilusões. Já me deram como politicamente morto, hoje em dia tenho poder. Quando saí do Sporting passaram-se semanas em que o meu telemóvel quase não tocava. Procuro viver esses momentos até ao fim. Devemos sangrar as feridas todas. A vida é assim, já conheci os dois lados. 

 

É preciso ter uma boa dose de auto-estima e segurança.

Mas isso tenho. Lembro-me sempre da máxima «Conhece-te a ti mesmo». Procuro ser muito consciente das minhas qualidades e defeitos. Não devemos ter nem vaidade nem daquilo com que nascemos. Não podemos fazer nada quanto a isso. Podemos ter orgulho naquilo que fazemos por nós, com as armas que Deus nos deu. E afasto-me. Nestes centros de poder há muita gente fútil, muita gente que se preocupa com coisas que não me interessam nada. Adoram dinheiro.

 

E o dinheiro? A ideia que tenho é que não gosta particularmente dele, mas que é fulcral na sua vida.

Fulcral como?

 

Porque acabou por determinar umas quantas opções. Tem 5 filhos e ex-mulheres, tem encargos mensais consideráveis. Foi por causa desses encargos que decidiu aparecer nos «Donos da Bola», por exemplo?

Não foi um factor determinante...

 

Mas pesou.

Com certeza. Vivo do meu trabalho. Já houve alturas em que a minha família me ajudou. Tenho responsabilidades grandes e as remunerações do que faço às vezes não chegam. Uma vez uma jornalista foi ver a minha declaração de rendimentos ao Tribunal Constitucional e depois telefonou-me a dizer: «Já vi que tem um depósito de x milhares de contos neste banco, este noutro, este noutro». E eu disse: «Olhe, vá lá ver bem porque não são depósitos, são financiamentos. Está um bocado enganada. É que isso é o meu martírio, a minha cruz». Influenciar? Com certeza que influencia um bocadinho, mas não é o determinante.

 

Não o obriga a tomar opções.

Não, não, não! Nunca pode ser a razão principal. Tomar uma opção por causa do dinheiro, não.

 

Não é verdade que pediu para ir para o Parlamento Europeu em 87 para ganhar mais dinheiro?

Pesou, mas a razão fundamental foi detestar esses períodos. Comecei com o professor Cavaco Silva quase sozinho. Pelo país fora, de ténis, a escrever-lhe notas para intervenções. Quando ganhámos a maioria absoluta, vi chegar caravelas e caravelas, galeras e galeras de gente, tudo cavaquista desde sempre. Nessas alturas gosto de me afastar. Causam-me repulsa. 

 

Não estava ferido pelo facto de não ter sido escolhido para ministro? Tendo sido um dos primeiros, um dos que esteve sempre lá, não esperava esse tipo de reconhecimento?

Não é uma questão importante...

 

Nunca foi ministro.

Como nunca fui outras coisas e fui outras.

 

Mas gostaria de ter sido ministro? Comentava-se que Cavaco não o tinha convidado para ministro porque Maria Cavaco Silva não simpatizava particularmente com a sua inconstância amorosa.

Isso só o professor Cavaco Silva poderá dizer. Houve uma altura em que foi grave para Portugal a cultura não ter passado a Ministério. (O engenheiro Guterres fez bem). Em 92, quando presidimos à União Europeia, eu era o único secretário de Estado, todos os outros eram ministros. E disse ao professor Cavaco Silva: «Não deixe de fazer a Portugal o que deve ser feito por estar eu neste cargo. Se acha que não posso ser ministro por alguma razão, substitua-me, porque Portugal deve ter um ministro da Cultura. Não pense que me magoa ou que me incomodo por, em vésperas da presidência da União Europeia, me substituir».

 

E magoá-lo-ia?

Não. Eu sabia que nunca seriam razões que tinham a ver com o meu valor, com as minhas qualidades. Entregou-me uma secretaria de Estado que era na prática um ministério.

 

Então tinha a ver com quê? Com a imagem pública?

Só ele poderá dizer, ele é que era o primeiro-ministro. Ele entendeu que não devia passar a ministério. Deu-me uma explicação, que não vou revelar, que não tinha a ver comigo, tinha a ver com outros equilíbrios. E presidi ao conselho de ministros da União Europeia sendo secretário de Estado.

 

Foi muito penalizado?

Foi a altura mais complicada da minha vida pessoal. Acredito que isso tenha influído na opção do professor Cavaco Silva. Mas não posso deixar de dizer que o professor Cavaco Silva foi sempre de uma grande sensibilidade nessa matéria. Quero dar este testemunho público.

 

E a sua mãe, como é que reagia?

Sofria muito, coitadinha.

 

Contava com ela como cúmplice?

Ao meu pai contava os factos. Com a minha mãe discutia as explicações e as motivações. À minha mãe pedia ajuda. Conhecia-me como ninguém, éramos iguais. Nas alturas mais complicadas procurava explicar-lhe o que se passava cá dentro. Eram as alturas de maior proximidade entre nós. Ela era enfermeira, como lhe disse, e dizia-me: «Quando tens uma ferida ou uma dor, telefonas-me sempre». Se há falta que sinto hoje em dia... Se há uma ferida, não posso falar-lhe disso.

 

Como se chama a sua filha?

Carolina.

 

Que idade tem?

Tem 11 anos. É gémea do Diogo. Foi uma bênção da vida, poder ter filhos e filhas. A certa altura achei que não ia ter filhas nunca. Tive um, dois, três filhos. Quando soube que ia ter gémeos julguei que eram mais dois rapazes. Depois foi um e uma.

 

A que brinca com ela e com eles?

Com eles jogo muito à bola. Com ela brinco pouco, falo mais, passeio mais. Nas férias gosto muito de nadar. É muito séria, nunca ligou muito a bonecas nem a brincadeiras. É uma grande ginasta. Faz-me muita impressão ver a minha filha a fazer mortais pelos ares.

 

Faz-lhe impressão porque tem medo?

Sim. Quando a vejo pelos ares.

 

Há pouco falámos no querer ser um exemplo para os seus filhos. De que é que os seus filhos se podem orgulhar?

É muito estranho ser filho de uma pessoa com uma dimensão pública tão forte. Devem ter uma vontade enorme de privacidade, de reserva. Aquilo que podem gostar mais em mim é de ser verdadeiro. É de os respeitar. E acho que admiram a coragem que tenho, o não virar a cara à luta, o assumir as responsabilidades. É o que lhes procuro transmitir.

 

Trata-os a todos por você?

Por você.

 

E os seus pais como é que o tratavam?

Por tu.

 

Agora há muitos pais que tratam os filhos por você, um bocadinho a armar ao fino. Não estou a dizer que seja o seu caso, até porque as mães dos seus filhos são quase todas de boas famílias, onde o trato é muitas vezes esse.

Elas por acaso até os tratam por tu, eu é que os trato por você. Mas não é para armar ao fino, que eu detesto essas finuras. Eles estão uma semana sim, uma semana não em minha casa. E têm uma ligação enorme os cinco.

 

Com a menina é diferente, pelo facto de ser menina?

Até hoje não tem sido, agora começa a ser. Tem 11 anos, começam a querer que vá a festas... Tenho que ter um acompanhamento especial, isso tenho.

 

Agora tinha graça que fosse um pai muito conservador.

Sempre fui. Com as minhas irmãs era muito duro.

 

Não me diga que lhes delimitava o caminho?

Sempre, e até aos 18 anos a acompanhá-las.

 

Essa é boa! Então porquê?

Ao contrário do que possa pensar, não defendo a libertinagem.

 

Defende para si mas não para as suas irmãs.

Defendo a liberdade, mas tem que se ter regras. Com as minhas irmãs assumi essa responsabilidade. Muitas vezes os meus pais diziam que elas podiam sair para aqui e para ali e eu dizia que não. Se fosse preciso, ia com elas.

 

O que é para si uma rapariga séria?

As pessoas têm de ser educadas para serem responsáveis. Ser sério é ser coerente e ser respeitador de si próprio e dos outros. 

 

Na fase de estruturação é rígido, é rigoroso.

Muito. Com todos os meus filhos. O meu segundo filho aos 14 anos teve uma fase muito complicada e eu tive que estar muito, muito presente, deitar-lhe muito a mão, e graças a Deus consegui. Hoje em dia está em Direito, é bom aluno, e principalmente é uma pessoa equilibrada.

 

É curioso que não tenha conseguido esse equilíbrio para si, mas que tenha essa preocupação em relação aos que lhe são mais próximos.

Talvez por isso mesmo, por aprender comigo.

 

Porque é que acha que isto tudo, ou seja, todas as complicações na vida pessoal lhe aconteceram?

É a massa de que somos feitos. Tive muita coisa muito novo. Fui assessor de um primeiro-ministro com 23 anos. Fiz um projecto de revisão constitucional com 24 anos. Fui presidente da distrital de Lisboa do meu partido com 25 anos. Estive na vida pública, com poder, muito cedo. Não foi deslumbrar-me com o poder, mas...

 

Mas também. Deve ser inebriante para um rapaz tão novo.

Não é inebriante. É uma velocidade louca na vida. Isso perturbou alguma tranquilidade de que as pessoas precisam para a levarem da maneira certa. Isto consome-nos. Esta vida pública e política consome-nos a vida pessoal.

 

A instabilidade emocional funda-se antes. Na infância com a família, ou na adolescência quando se desperta para o exterior. A instabilidade emocional não tem uma relação directa com essa outra parte.

Mas acho que tem muito a ver com isso. Nunca tive tempo para a minha vida pessoal. Nunca tive tempo para cuidar suficientemente da minha vida pessoal, a não ser dos meus filhos. E não foi fácil, principalmente para pessoas que estiveram ao meu lado, conviverem com essa minha vertigem permanente, de vida e de política.

 

Alguma vez teve por uma mulher uma paixão tão forte como aquela que tem pela política?

São paixões diferentes. Mas devo dizer-lhe uma coisa: estabeleci desde muito cedo que estava primeiro a procura da minha felicidade pessoal. Não é por causa da política que sigo um caminho e não outro. Hoje em dia, com as responsabilidades que tenho, há coisas que deixo de fazer por causa da política. Não quero expor a minha vida pessoal, sou muito mais reservado. Com toda a franqueza, quando era secretário de Estado da Cultura, eram funções muito importantes, mas...

 

Mas era imaturo.

Não tinha as responsabilidades máximas de um país. Hoje não tenho as responsabilidades máximas de um país, mas sei que tenho um papel importante na condução dos destinos da principal cidade do país. E mesmo no país tenho algumas.

 

Tem agora um sentido de Estado mais apurado, é isso?

Se quiser chamar de Estado, sim. Tenho de ter esse sentido apuradíssimo. Tenho de respeitar a comunidade em que me insiro, os padrões fundamentais da sociedade onde pertenço. Seja a minha vida o que for tenho de ter esse sentido de responsabilidade permanente. São fases da vida. E nesta fase já não posso fazer o que fazia na outra.

 

É agora mais feliz do que era antes?

Mais sereno. Quando perdemos alguém como uma mãe, nunca mais sorrimos da mesma maneira. Concilio a serenidade e a tranquilidade com uma dor permanente. Também aí estou noutra fase da vida. Às vezes apetece-me ir sem gravata para a televisão ao domingo. É uma maçada naqueles debates com o engenheiro Sócrates ter de pôr gravata. Mas depois lembro-me da minha mãe. Quando a minha mãe ainda era viva, uma vez fui sem gravata para a televisão. E ela disse-me: «Nunca mais voltes a fazer isso. É horrível!».

 

Um elogio da sua mãe era diferente de um elogio de qualquer outra pessoa?

A minha mãe elogiava-me muita vez. Dizia-me: «Eu gosto tanto de te ouvir». E estava sempre, sempre a ouvir tudo. Era um bocado sentimentalona e repetia-me: «Eu gosto tanto de te ouvir». Um elogio de uma mãe é outra coisa.

 

É diferente de um elogio do seu pai?

É. O meu pai não é de dizer assim coisas bonitas. A minha mãe mexia comigo por dentro. Ia para o liceu com um terço nas mãos, a acompanhar as minhas orais. Não dispensava a minha mãe nas minhas orais.

 

Não se sentia embaraçado?

Não, não. Fazia questão que ela fosse e sentia um grande orgulho. Vi sempre a minha mãe com aquelas vestes de enfermeira, que sempre achei muito bonitas. (Acho a profissão de enfermeira muito bonita). A minha mãe era quem estava ali, sempre.

 

O anjo.

É.

 

Tem pena que ela não o veja, agora que está mais sereno, e em cima?

Eu acho que ela vê.

 

A fase que vive agora é um tributo à sua mãe?

Também é. Mas eu acho que ela vê. Lá de cima, ela vê.

 

 

Publicado originalmente no Diário de Notícias em Junho de 2003

 

 

 

 

 

 

 

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