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António Câmara

António Câmara teve uma vida aventurosa. Ele é o académico que diz que o sistema de ensino por imersão é uma seca do pior. É o empresário que acredita que cinco mil pessoas são suficientes para arrancar o país a uma letargia (e um atraso) de séculos. Tem 52 anos e é um homem do seu tempo.

Estudou engenharia civil no Técnico, partiu para os Estados Unidos no final dos anos 70, doutorou-se na Virgina Tech. Mas do que ele fala, mais que tudo, é da passagem pelo MIT, o prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachussets.

Durante anos, viveu como um pé rapado (e perceberão que a expressão merece uma leitura literal), fanou cartões perfurados de computadores, andou de autocarro com os pobres da América. Também foi adoptado por uma lenda da engenharia, entrou para a aristocracia estudantil, penetrou em todos os circuitos com uma raquete de ténis debaixo do braço. Foi jogador profissional, e sabe que se isto correr muito mal pode sempre dar umas aulas no Estádio Nacional.

Quando no fim dos anos 90 voltou a Portugal, após sucessivas idas e vindas, encontrou no lamaçal do Monte da Caparica o cenário ideal para o filme que queria fazer. A Ydreams nasceu em 2000. Como explica para o fim, n’ “A Rosa Púrpura do Cairo”, [Woody Allen], havia um actor que saía do filme. O meu sonho passou a ser pôr um actor dentro do filme”.

O actor e autor do enredo é ele mesmo. Um homem sem medo. Se é inevitável, de que adianta ter medo? Um homem com gosto pela aventura. Conversámos dias depois da atribuição do Prémio Pessoa, que pela primeira vez distinguiu alguém na área das empresas. Foi uma conversa instigante e saí de lá com vontade de fazer coisas! Quem é ele? Creio que não se pode dissociar daquilo que ele faz.

 

 

Na primeira conversa que tivemos enfatizou a ideia de a sua vida ser o que é porque pôde escolher. Gostava que desenvolvesse a ideia da escolha, para começar.

Um professor que tive nos Estados Unidos dizia sempre: “A vantagem de estudarem e adquirirem mais capacidades é que passam a poder escolher. Podem escolher trabalhar aqui ou noutro sítio, e no sítio onde trabalham passam a ter um leque mais alargado de opções”. Foi algo que retive, porque poder escolher é a liberdade, e prezo muito a liberdade.


Isso vem de trás e da sua família, também? Nascer na família em que nasceu permitiu-lhe essa liberdade, esse conforto de poder escolher.

Venho de um meio privilegiado, não posso negar isso. Tive todas as possibilidades de poder optar desde cedo. Essa é uma base que depois tem de ser consolidada. Tenho familiares que não estudaram e o curso da vida deles não teve as mesmas opções que eu tive. O estudo e a investigação são fundamentais.

 

Vasco Pulido Valente escreveu numa crónica recente que os pobres raramente podem escolher, raramente ousam e raramente podem pensar além do horizonte estrito da sobrevivência.

Tem razão. É óbvio que para uma pessoa poder ousar tem que ultrapassar o limiar da sobrevivência. Abaixo, não há grandes hipóteses. Nasci num meio que estava muito além desse limiar, e era quase o meu dever ter ousado e desenvolvido.

 

No texto que escreveu para o Expresso com os seus desejos para 2007, falou da aventura – e de estarmos mais talhados para o conforto. Penso que essa característica (dominante) tem uma relação íntima com o facto de sermos desde sempre pobres.

Sem dúvida. Um pobre, a primeira coisa que deseja é o conforto. Isso acontece mesmo nas famílias mais privilegiadas em Portugal, porque houve sempre uma memória de tempos difíceis. O que penso é que já ultrapassámos esse limiar em grande medida, há uma percentagem significativa da população que vive confortável há muitos anos. É altura de passarmos à aventura.

 

Conforto significa uma casa com luz, electricidade e esgotos, significa ter comida na mesa todos os dias?

Isso são condições básicas. Nós temos quatro a cinco empresas tecnológicas na China, os finlandeses, que têm metade da população, têm quatrocentas; e porquê? Porque há pelo menos 395 finlandeses que resolveram empreender uma aventura. Multiplicando por dois, em Portugal é necessário haver mais mil empreendedores. Não me refiro à generalidade da população, mas de mil portugueses que se aventurem. Para uma taxa de sucesso de uma empresa à volta de 20%, estamos a falar de um horizonte de cinco mil pessoas. Ora, há cinco mil pessoas em Portugal que vivem num conforto suficiente, e têm a formação suficiente, para empreenderem uma aventura.

 

Quem são essas cinco mil pessoas?

Podem ser desde professores universitários a estudantes. O país mudava. A vantagem do empreendedor é que cria empregos. Directos e indirectos. Hoje, na Ydreams, temos empregos directos, aqui, e temos um ecossistema de empresas, na sua generalidade portuguesas, que trabalha connosco; e esperamos, com o nosso desenvolvimento, contribuir para o seu crescimento.

 

Estamos a fazer esta entrevista no início do ano, nos dias em que se fala da entrada da Roménia e da Bulgária para a União Europeia; e, a propósito, falava-se na rádio esta manhã do salto da Irlanda. O sucesso irlandês deve-se, também, à reforma que foi feita na educação e nas universidades – que é o que defende para Portugal.

Gosto muito de falar, não só sobre a Irlanda, mas sobre a Finlândia. É óbvio que houve reformas de base extremamente importantes, em termos políticos, na saúde e na educação. Mas a reforma fundamental deve-se a pessoas. A Finlândia, se o antigo presidente da Nokia não tivesse imaginado que o futuro iam ser telemóveis... Aliás, a história desse presidente é trágica: suicidou-se. Estava à beira da falência, a Finlândia estava à beira da falência, e só dois anos mais tarde [depois da sua morte] a Comunidade Europeia adoptou o GSM, e a Nokia explodiu, e com ela toda a economia finlandesa.

 

Não conhecia essa história. É como se sentisse o peso de um país nas costas.

Sim, mas foi essa pessoa que transformou a Nokia. A Nokia é cinquenta por cento do PIB, tem um impacto brutal. É óbvio que, por ter havido as reformas de educação e saúde, o país estava preparado e surgiram os milhares de empreendedores que deram origem a mais quatrocentas empresas tecnológicas. Na Irlanda, mais do que as reformas na educação, houve uma liberalização total, um esforço dos irlandeses por irem buscar o investimento americano, utilizando a comunidade irlandesa nos Estados Unidos; e houve a aventura de criar empresas. As pessoas que fizeram a nova Irlanda são para aí duzentas. Criaram duzentas empresas de grande significado.

 

Tudo está, então, nas mãos das pessoas, e menos nas medidas do governo?

Toda a gente pôs assente que vão ser as políticas do governo que vão mudar. E vai ser um conjunto finito de pessoas. Depois, toda a gente beneficia, há um efeito de arrastamento. Tendo dado seminários pelo país inteiro, acho que já existe uma massa enorme de juventude pronta para isso. Portugal tem uma vantagem em relação a outros países, porque tem uma economia muito pequena. Se houver um sucesso, a contaminação é total.

 

Acredita deveras que seja possível fazer essa mudança?

Quando eu jogava ténis, fui jogar com o Luís Cruz à Checoslováquia, que era a campeã do mundo; e ele disse-me: “Vamos ganhar, já houve maiores surpresas no mundo”. Perdemos. Mas é verdadeiramente possível Portugal dar a volta. Como ele dizia: “Já houve maiores surpresas no mundo”.

 

Essa percepção, tem-na agora. Já a tinha quando decidiu voltar dos Estados Unidos? 

Não. Quando voltei no meio dos anos 80, Portugal era um país mesmo pobre. E nessa altura, eu próprio, era muito pobre. Não tínhamos dinheiro para ir a um país nórdico. E não tínhamos recursos humanos treinados. O grande progresso de Portugal nos últimos vinte anos, diga-se o que se disser da educação, é que temos hoje uma massa crítica de pessoas. A nível de formação avançada houve dez mil, quinze mil bolsas conferidas. Há os tais milhares de pessoas que podem fazer a diferença. Quando cheguei, não havia ninguém.

 

Então, porque é que insiste na mudança das universidades como a grande aposta que Portugal tem de fazer?

A maior parte das pessoas que tinha estado no estrangeiro, (e fui um deles), não teve uma educação virada para o mundo empresarial. Eu era um teórico. Na universidade tentamos ensinar e investigar o melhor possível. No processo de organização das universidades, o fundamental é o contentamento democrático, é toda a gente estar feliz; mas não é, de nenhuma forma, a excelência, a competitividade, a criação de empresas. Era a universidade do passado. Não há nenhuma universidade portuguesa que permita ao país competir. A universidade portuguesa não cria líderes. A universidade portuguesa forma pessoas para serem empregados, docentes.

 

A mudança passa por aí, pela alteração de um paradigma, pelo empreendedorismo?

O caminho é abrir aos nossos estudantes o espírito de aventura.

 

Em Portugal, esse empreendedorismo é sempre confundido com uma ambição desenfreada. E parece mal ser muito ambicioso. 

Sem dúvida, e isso está completamente errado. Há um código de valores por que a sociedade portuguesa ainda hoje é regida que é desastroso para esse espírito. Mas esse código também está a ser substituído.

 

Estou a ouvi-lo e penso que a sua visão é muito mais optimista do que aquilo que se ouve na rua e lê nos jornais.

Por uma razão muito simples: nós estamos no meio da aventura e vemos que é possível. É muito difícil, muito duro, mas é possível. A maior parte dos empresários portugueses destas áreas tecnológicas tem uma visão mais optimista do país do que a maior parte das pessoas que não estão [nestas áreas].

 

Fiz recentemente um trabalho com imigrantes que vivem em Portugal, de diferentes proveniências. Três deles diziam que é triste o facto de os portugueses dizerem tão mal de si próprios, confiarem tão pouco em si, quando o país tem potencialidades incríveis.

Senti esse pensamento negativo quando era jogador de ténis e jogava por Portugal. A imagem no exterior, sempre, era a de que íamos perder. É impossível ganhar pensando que se vai perder. Se os portugueses querem ganhar, têm que arranjar forças para ter um pensamento positivo. Se eu tivesse um pensamento negativo julgando que a Ydreams ia falhar, não tínhamos sobrevivido o primeiro mês. Eu e a maior parte das pessoas na Ydreams achámos que íamos ter um sucesso estrondoso a nível global.


Ainda na universidade, pode especificar o que é que entende por “mudar”? O que é o que propõe?

Há uma medida, que o governo já anunciou, que é mudar o sistema de governação. Há um problema gravíssimo nas universidades: deixaram-se envelhecer. As pessoas foram contratadas há vinte anos, ficaram, e hoje em dia a média de idades na maior parte dos departamentos ultrapassa os quarenta anos. Isto ocorre quando Portugal, pela primeira vez, tem talentos jovens a quem pagou bolsas e que não consegue empregar. Se não houver professores novos, o que vai acontecer com Bolonha, é que os portugueses talentosos, novos, chegam ao terceiro ano e vão para fora.

 

E nunca mais voltam.

Vai ser a luta dos países no futuro: a luta pelo talento. O que as universidades europeias vão fazer é recrutar os portugueses talentosos. E os portugueses talentosos, vêem estes professores envelhecidos, vêem uma falta de excitação absoluta nos estudos e vão, naturalmente. Como não há dinheiro público, o que devia acontecer, (e está a acontecer em Espanha), era as grandes empresas portuguesas darem cátedras a juniores. A Ydreams vai colaborar nisso com a Universidade Nova, há três pessoas a quem pagamos o tempo de aulas, porque achamos que é decisivo.

 

Pessoas que vão dar cursos para a universidade?

Sim, o tempo de aulas é pago por nós.

 

Isso faz-me pensar no que é verdadeiramente a universidade portuguesa. Conto uma cena: assisti à arguição de uma tese de doutoramento na área da Filosofia de uma pessoa muito jovem. Um professor espanhol vinha muitíssimo bem preparado e durante quarenta e cinco minutos interpelou o doutorando. O português que a seguir interveio, e que era de uma outra universidade, a primeira coisa que sublinhou foi o facto de, na bibliografia, não constarem autores portugueses que se tinham debruçado sobre aquele tema, nomeadamente ele mesmo!

Isso é típico. É trágico. Em 92, eu estava a preparar a minha agregação e resolvi estudar a sério o método de ensino. Cheguei à conclusão de que, não só as universidades portuguesas, mas as universidades de todo o mundo, seguem o método da infecção. Nós tentamos infectar os estudantes e depois chegamos aos testes e testamos a infecção. E como é óbvio, dois ou três dias depois, as pessoas já deixaram de estar infectadas.

 

A matéria desapareceu...

Se formos ver, as universidades que têm melhores sistemas de ensino são Oxford e Cambridge. Têm um sistema de ensino por imersão. As pessoas estudam, reflectem, fazem trabalhos. O MIT tem esse sistema desde o primeiro ano, as pessoas para além das cadeiras têm um projecto de investigação.

 

Em Portugal, o paradigma é o da infecção?

Na maior parte das universidades, sim. Para além disso, a maior parte dos exames e das provas são baseados em perguntas convergentes. A pessoa face a um problema tem que arranjar a solução. Não somos ensinados, treinados, nem recompensados, a pensar divergentemente.

 

O conflito ainda é uma coisa a evitar.

Estudos mostraram que o ensino por infecção penalizava os alunos criativos, visionários, exactamente aqueles que são importantes numa sociedade; e promovia os rotineiros e os normais. Na universidade portuguesa, quem é que são os professores universitários? Aqueles que foram melhores no ensino por infecção. Replicam o sistema. E não são nem os visionários nem os criativos.

 

E cortam as asas a esses.

Se eu olhar para o meu curso, os mais criativos e visionários, nenhum deles é professor universitário. E esse é um problema gravíssimo.

 

Ouviu isto que eu lhe disse de cortar as asas aos criativos? É um aspecto muito sério: estou a falar da inveja, que é muito própria da natureza humana.

Não posso comentar. Nunca senti isso na pele e nunca fiz isso. Mais do que as pessoas, o sistema liquida os criativos, o sistema (que é feito pelos professores), não premeia os criativos.

 

Que tipo de professor é? Como é que avalia os seus alunos?

Sou um professor baseado na emoção e cada vez mais os testes e os trabalhos têm que ser abertos. O caso extremo a que cheguei foi fazer um exame que era para casa, [para desenvolver] numa semana: tinham que escrever as perguntas e responder às perguntas que eles próprios formulavam. Depois, eu classificava as perguntas e as respostas.

 

Estamos a falar de um filosofia de ensino completamente diferente da que existe.

O sistema de ensino tem que ser debatido e mudado.A forma de ensino de hoje é uma seca do pior.

 

Não se lembra de nada do que foi o seu curso de Engenharia Civil?

A única coisa de que me lembro é que, após as primeiras aulas, a minha vontade foi de nunca mais meter lá os pés. A opção era muito clara: era preferível ficar a jogar ténis no Estádio Nacional e depois estudar por mim.


Quando se olha para o seu percurso, impressiona a diversidade de vidas e territórios, e a rapidez com que passa de um a outro. Gostava que voltasse atrás, até à infância, se for preciso, para perceber esta abertura à mudança e este desejo de aventura.

Começo pelos meus pais. A minha mãe veio dos Açores e a família da minha mãe foi sempre aventureira. A qualquer parte do mundo onde eu vá tenho um familiar açoriano.

 

Nasceu em Lisboa?

Sim. Mas passava as férias nos Açores e a minha família dos Açores tinha esta condição viajante.

 

Então, o bucolismo e a insularidade, não o tocou?

Não. Só o outro lado, só o lado da aventura. Por outro lado, o meu pai era um rebelde a sério. Eu, a partir dos quinze anos, passava as férias sozinho, viajava, jogava ténis e era estimulado na liberdade absoluta. Nunca me forçou a estudar e compreendia até que eu não fosse às aulas. Mais tarde, fui influenciado pela vida e pelos professores que tive na América. Tive uma sorte imensa em ter sido adoptado por uma lenda, o Donald Drew; inventou a faixa Bus, foi um dos pioneiros dos semáforos, ganhou duas medalhas de engenharia nos Estados Unidos.

 

Parece-se com a figura do mestre e tutor, que desapareceu do nosso imaginário.

Ele convidou-me para ser assistente, para além de me ter dado uma bolsa. Quando cheguei, tinha uma bolsa miserável, vivia na pobreza, e com esta bolsa passei a viver na aristocracia estudantil, cheio de dinheiro. O que me permitiu comprar todos os livros que queria. O Donald Drew era exigentíssimo, mas tratava todos por igual. Tive vários professores, bem-sucedidos, que eram acessíveis. Combinavam essa acessibilidade com uma ambição extrema, que é algo que choca.

 

Já falámos de como a ambição cai mal...

Todos eles aspiravam a ser líderes no seu campo. Líderes mundiais. Quando fui educado por estas pessoas, sentia: “Tenho que ser bom no meu campo, senão o que é que ele vai dizer?, sou um falhado...”. Sempre que escrevia qualquer artigo, lembrava-me dos meus professores: “O que vão achar quando lerem esta peça miserável?”.

 

Habituou-se a ser zurzido, a ouvir: “Isto é uma porcaria, tem de fazer muito melhor”?

Ouvi isso muitas vezes, claro. Nos anos 80 fiz o seguinte: escrevia para várias universidades onde tinha amigos, ficava em casa deles e ia dar seminários. Não tinha dinheiro nenhum e andava de autocarro. (Só um tipo pobre na América viaja de autocarro, os ricos têm carros ou andam de avião). Oferecia-me, ninguém me convidava para nada. Chegava lá, dava o seminário e tinha a agressividade dos estudantes sobre o que eu fazia.

 

Dos estudantes?

Ouvia tipos a dizerem: “Isso já foi feito há dez anos! Para que é que isso serve?”. E isso fazia o trabalho muito melhor, dava o “feedback” que nos permite ir longe. Essa lógica de ir para arena vem muito da experiência do ténis. Algo verdadeiramente importante na minha educação é o ténis. Uma pessoa aprende a perder e percebe que é quando perde que fica melhor.

 

Isso é de um estoicismo incrível.

Uma coisa importante é a pessoa não se levar a sério. Mas cá, é o oposto. Um gajo faz uma intervenção miserável, “congratulo-me por esta intervenção”, e aquilo não vai a lado nenhum. Tive aventuras incríveis nos States, porque eram todos tipos pobres [aqueles que encontrava no autocarro]. Uma vez ia com uma senhora que ia a fumar ao meu lado, fumava, fumava até ter a cinza deste tamanho [enorme]: depois punha a cinza na minha perna!

 

Essas aventuras e esses encontros foram importantes para perder o medo, também?

Por acaso, nunca tive medo.

 

Temos falado muito de aventura. Para a qual é precisa a coragem. Por que é que nunca teve medo?

Não sei. E mais, gosto de risco. Uma das coisas de que gosto na Ydreams é a enorme pressão que temos para ser bem-sucedidos.

 

Mas quando se pensa no medo, pode ser o medo da morte, da doença, da miséria, de ser desamado.

Todos esses acontecimentos finais são naturais e acontecem alguma vez na vida. De que é me adianta ter medo? É óbvio que tenho medo que pessoas de quem gosto, como a minha mulher ou os meus filhos, sofram. Essas são as vulnerabilidades. Agora em relação a mim, não tenho medo.


Quando foi para a América teve uma vida de pobre, depois de ter tido uma vida confortável...

Fui educado na austeridade. Trabalhei desde os quinze anos.

 

Como é que era a casa da sua infância?

Era uma casa na Infante Santo, em Lisboa, sem grandes luxos. Estudei no Pedro Nunes, tive uma excelente educação.

 

E a primária, onde fez?

Na Escola Ave Maria Cheia de Graça. Mas o ensino no Pedro Nunes fez a diferença. A partir dos quinze anos, dava aulas de ténis.

 

O seu pai tinha dinheiro?

Os meus pais tinham algum, mas não era uma fortuna. Vivíamos confortavelmente, mas não éramos uma família rica e nunca me deram dinheiro. Nunca tive um carro. O meu pai era arquitecto paisagista. E a minha mãe tratava das terras dela e das vacas nos Açores. Tenho mais quatro irmãs.

 

Quando foi para a América, presumo que tenha ido por sua conta...

Tinha uma bolsa baixinha, passei dificuldades. Só tinha um par de sapatos e o meu único par de sapatos teve um buraco. Não tinha dinheiro para pagar ao sapateiro!, era [equivalente a] comprar uns sapatos novos. Havia cartões que se usam nos computadores, e descobri que davam uma óptima sola! Passava a vida a roubar cartões perfurados, (tinha um stock em casa) e ia metendo no meu sapato. Durava uma semana. Um dia, houve uma tempestade de neve e dificuldades no abastecimento de cartões. O meu departamento precisava de fazer um programa e não tinha cartões; então, eu emprestei as minhas solas! Nunca expliquei que aquilo eram as minhas solas.

 

Seria aviltante?

Não sei. Não era nada dramático. Acho que achariam piada.

 

Isso hoje, contado, é uma extravagância deliciosa. Mas estou a tentar perceber como é que na altura lidava com este facto.

O primeiro ano foi duríssimo. No segundo ano comecei a dar aulas de ténis, eu e um colega. A maior parte dos nossos estudantes eram mulheres de professores. O meu parceiro meteu-se com a mulher do professor e fugiu! Não acaba aqui, a história: o professor foi atrás deles e enfiou-lhe três balas.

 

Isso é a América, mesmo.

A América pura. Enfiou-lhe três balas, veio dar uma aula e o xerife prendeu-o no meio da aula. De filme. Depois dessa sessão, não que me tivesse metido com mulheres de professores, mas disse: “Isto é um negócio perigoso”. Passei a ser treinador assistente da equipa de ténis – era mais seguro.

 

Foi sozinho, sem contactos de espécie alguma. É fácil para si criar uma rede?

Há uma fórmula, que uso sempre, que é imediata: a raquete de ténis. Os meus amigos eram todos jogadores de ténis.

 

A sua tese de doutoramento era sobre sistemas ambientais. Por que é que escolheu essa direcção?

Fiz um sistema para optimizar estações de tratamento de esgotos. Foi um programa muito inovador, comprado pela maior empresa sueca de engenharia. Eu podia ter continuado com aquele programa, a fazer todas as variantes, todas as combinações aleatórias, que davam cinquenta artigos. Mas era uma vida o mais secante possível! Vim a Portugal respirar, cheguei à Caparica e aquilo era um lamaçal descomunal, o edifício era miserável. “É exactamente isto que quero”. Aquilo era a fronteira.

 

A fronteira do novo mundo.

Nem sequer quis ir para outra universidade estabelecida. Ali, podia fazer tudo o que queria, e foi o que fiz. O nosso primeiro grande triunfo foi comprar um computador! Tínhamos um computador para o departamento inteiro, professores e estudantes. Comecei sem um tostão, com alguns projectos completamente loucos.

 

Se agora conhece o sucesso...

Ainda conheço o insucesso todos os dias. Numa empresa, publicitamos e celebramos os sucessos, mas temos imensos insucessos. Há propostas que submetemos que não ganhamos.

 

O que quero saber é se esse período americano pobre, em que as coisas não corriam bem, em que era zurzido pelos alunos, tem para si um sabor a insucesso ou a investimento.

A investimento. Também tive sucesso na altura, não fui só miserável. Descobri um erro no principal modelo de ambiente no mundo. Portanto, tive um grande sucesso, que me levou a sair para o MIT. Nunca pretendi o sucesso pelo sucesso.

 

Para que é que serve ter sucesso?

O sucesso serve para termos mais opções. Fora isso, não serve para nada.

 

Se pensarmos nas expressões do poder, (como o dinheiro ou a influência), curiosamente, a liberdade é a menos considerada.

Eu acho que a liberdade é importantíssima. Mas não me considero verdadeiramente bem-sucedido, ainda. A meta é colocar a Ydreams na bolsa internacional. Quando estive no MIT tive um seminário com o Bill Elliot, o fundador da HP (Hewlett Packard); tinha 73 anos, recebeu um cheque de oito milhões no final do seminário, morreu dois anos depois.

 

Porque é que ele o impressionou tanto?

Ele dizia que a universidade deve ser o sítio onde se estimula a criatividade. A filosofia da HP foi revolucionária. Investiu [no seguinte]: tratar bem os seus empregados. Quando foram bem-sucedidos deram 98% do que ganharam a inúmeras causas.

 

Para si, isso é inspirador?

No dia em que for bem-sucedido, o que me vai dar mais prazer é dar. Há um enorme gozo em dar. É quase aquela coisa católica de redimir os pecados.

 

Redimir o pecado do lucro. É católico?

Não. Quer dizer, tive uma educação católica, sou católico não-praticante, se um não-praticante se pode definir como católico.

 

Acha que se deve dar sem se responsabilizar aquele a quem se dá? Repete que a sua máxima é: “Todos iguais, todos responsáveis”...

Não vou dar assim por aí... Uma das coisas mais giras que existem no mundo é a nova filantropia.

 

Ficou contente com a atribuição do Nobel da Paz ao banqueiro dos pobres?

Fiquei. É importante uma pessoa dar inteligentemente. Pode ter um efeito multiplicador incrível. É um luxo enorme uma pessoa ter os recursos para fazer isso.

 

Fale-me do que deixa aos seus filhos, e dos seus filhos. Essa também é uma ideia muito portuguesa e antiga: o património que se deixa.

O principal é dar-lhes a possibilidade de poderem escolher. E isso vem na educação. Tenho sido particularmente activo na educação desportiva.

 

Está certo que foi tenista profissional e tem, por isso, uma relação forte com o desporto. Mas por que é que o acha tão importante?

Importantíssimo. A parte mais educativa é a do desporto de competição, porque ensina a perder, a ter o sentimento de equipa, ensina a pessoa a superar-se. O tempo livre que tenho tem sido a conduzir os meus filhos para o desporto. Não tenho ambição nenhuma em deixar-lhes fortunas.


Que idade é que eles têm?

Um tem 20 e outro tem 10. O meu filho mais velho está em Economia, viveu esta vida aventurosa, também, a saltar de sítio para sítio, foi um excelente jogador de basquetebol; e o mais novo também joga basquetebol. São enormes. O meu filho mais velho tem dois metros e o mais novo é capaz de vir a ultrapassar os dois metros.

 

O que é que gosta de ler?

Autores americanos. Portugal tem o melhor poeta da História, Fernando Pessoa. Um autor que me marcou muito foi o George Orwell. Do Aldous Huxley li imensos. John dos Passos. Também leio muita ficção científica, ainda hoje.

 

Há um conto do Philip K. Dick, que foi adaptado pelo Spielberg ao cinema. No filme, Tom Cruise entra numa loja e é identificado a partir da leitura da pupila. Lembrei-me do filme quando soube que um dos vossos projectos na Ydreams tem que ver com a mudança de padrões e de cores nas roupas, consoante os dias e as pessoas.

Sou completamente viciado em cinema. Passei grande parte do Técnico a ir às sessões clássicas do Monumental e do Império. Mas o filme que mais me influenciou, e influenciou muito a Ydreams, foi “A Rosa Púrpura do Cairo”, [Woody Allen], em que havia um actor que saía do filme. O meu sonho passou a ser pôr um actor dentro do filme. Muitos dos trabalhos que fizemos vêm desse filme.

 

Para terminar, gostava que fizesse uma pergunta e desse uma resposta.

O que eu fiz aos alunos? Essa é a pergunta mais difícil, inesperada.

 

Outra forma de colocar isto é: se não lhe der nenhum ponto de partida, do que é que falaria imediatamente?

O que me ocorre é o seguinte: sinto cada vez mais, sobretudo depois deste prémio [Pessoa], que tenho uma responsabilidade. Às vezes, no limite, sinto-me como o antigo presidente da Nokia, com a responsabilidade de contribuir decisivamente para ajudar a mudar o país. Tive todas as condições, toda a formação, todo o apoio que alguém pode ter. Sinto a necessidade de retribuir. Na Ydreams sinto a responsabilidade de sermos bem-sucedidos e constituirmos um exemplo que ajude o país em geral. É o passo mais difícil.

 

E acreditar que isso não é megalomania.

Sabemos que é totalmente exequível com o que temos hoje, com o que estamos a germinar em investigação, e o conhecimento de mercado que temos. Portanto, a minha pergunta é: “Qual é a responsabilidade?”. É a responsabilidade de contribuir para que Portugal seja um país completamente diferente. Custa-me este estado de espírito derrotista.

 

Nunca teve vontade de se suicidar?

Não, nenhuma.

 

Estou a pensar no presidente da Nokia, claro.

Aguento muito bem o falhanço. Se falhar, vou dar aulas de ténis para o Estádio Nacional com um balde de bolas. Não tenho nenhum desses ímpetos. 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Junho de 2008

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