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D. Manuel Clemente (2012)

Portugal, se fosses só três sílabas, escreveu Alexandre O’Neill, olhando o país com raiva, zanga e ternura. Portugal, rectângulo com que temos uma relação passional, à beira do precipício, na iminência de soçobrar, e agora? Portugal, eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos,
queixou-se o poeta Jorge Sousa Braga. Portugal, país de velhos do Restelo, de egrégios avós, do Zé Povinho, de ilustre gente lusitana. O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, acredita no futuro de Portugal.

 

Um dos seus títulos e objecto de reflexão: Portugal e os Portugueses. O senhor tem 63 anos, Portugal mudou substancialmente desde o tempo em que aprendeu a ser português. O que é que destacaria como gritantes diferenças?

Na minha infância, e mesmo na juventude, Portugal era mais visto de dentro, pelos critérios internos, e agora é muito mais visto de fora. Tudo o que aprendíamos, desde a história de Portugal, aos reis cujos nomes decorávamos, os rios e os afluentes, e o então chamado Ultramar Português, era de dentro. Tínhamos a noção de que existiam outras coisas para além da fronteira com a Espanha, mas a Europa para nós acabava na Alemanha, e o centro era Paris. Até se apregoava que Portugal, nos seus territórios ultramarinos, sozinho, era quase metade da Europa. O estrangeiro entrava aqui se entrasse às boas. Se entrasse às más não era bem considerado.

 

Quando é que isso mudou?

A partir do final dos anos 60, mas sobretudo nos anos 70 e depois com a integração europeia. Hoje somos vistos a partir de fora. Basta ver que o que determina a vida nacional, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico e financeiro.

 

Era sobretudo um isolacionismo o que marcava a vida do país e a percepção que o país tinha de si próprio?

Mas era um isolacionismo com fundos de um imperialismo que já não existia. Tinha dez, 11 anos quando foi a tomada de Goa pelos indianos: aquilo foi um desastre nacional. Sentimos e chorámos durante dias. Logo a seguir começaram os problemas em Angola e no resto do Ultramar; tudo isso era sentido internamente, e do ponto de vista português que nos era apresentado na escola primária. Só a pouco e pouco é que foi alargando, para nos vermos a partir da Europa e do mundo. Foi uma longa mudança, mais cronológica do que mental. Mentalmente vamos mais devagarinho. Ainda hoje temos alguma saudade daquilo que não fomos [riso].

 

Alguma vez fomos? Isso que descreveu como a nostalgia do império, ainda nos alimenta?

Tínhamos um sentido muito triunfalista do nosso passado. Mesmo quando havia crises, como Alcácer Quibir, depois vinha a Restauração, e cantávamos a plenos pulmões: “Os valentes de 40 que lutaram com ardor…”. O passado pátrio, como me chegou, como fui educado, numa vila de província, era assim encarado. Como um triunfo inédito. Como é que tão poucos tinham feito tanto pelo mundo além.

 

Então predominava essa narrativa épica?

Claramente. Havia hinos para tudo nas escolas. Quando entrávamos no ensino secundário éramos, quase forçosamente, inscritos na Mocidade Portuguesa, que tinha hinos. Não havia nada que não fosse pontuado epicamente. Também havia outra narrativa, igualmente épica – a resistência – de que a pouco e pouco me fui apercebendo. Não era o ambiente em que crescia.

 

Era a resistência do Partido Comunista em relação ao antigo regime?

Sobretudo do Partido Comunista. Também tinha um hino. Tudo o que acontecia na Europa, até chegarmos a estes tempos pós-modernos em que essas narrativas se esfumaram, era apresentado em termos épicos, deste lado ou daquele, em grandes contrastes. Cantava-se o Avante Camarada, a Internacional. Tudo isso era sintomático dos grandes movimentos colectivos.

 

Quando é que começou a emergir o sentimento de que o país se vai afundar no abismo, de que não existe amanhã? Um sentimento que nestes anos de crise conhece o apogeu.

Se olharmos a literatura, que regista a memória colectiva, um certo sentimento de que teríamos tido ao alcance, mas não conseguimos lá chegar, ou chegando não conseguimos manter, vem do século XVI. Encontramos isso no Camões. O António José Saraiva dizia que Portugal viveu até ao século XVIII à volta do que ele chamava o mito da cruzada. Portugal tinha um destino de cruzada mundial que havia de protagonizar. Quando começaram as naus e as caravelas a regressar e a não partir outra vez, foi-se afirmando o contra-mito da decadência. Afinal Portugal não tem possibilidades para tanta coisa, e mesmo quando teve algumas, acabou por não ser capaz de as agarrar. Tudo isso aparece e contrasta.

 

É um discurso corrente: o de que malbaratamos possibilidades. Uma forma de morrer na praia.

No século XIX encontramos os fumos do Império, a realidade triste e dura daquilo que não conseguimos fazer ou fizemos mal, ou que não nos deixou crescer à medida desses sonhos. Entretanto aparece uma outra coisa entremeada, quando começa a Revolução Liberal, a partir de 1820, e que vem até aos nossos dias: que podíamos voltar ao viço, aos genes originais que nos criaram, voltar à nossa terra, voltar ao nosso povo. Essa ideia da regeneração a partir de nós próprios ainda hoje está patente. E julgo que tem razão, tem mais razão do que as duas outras coisas opostas.

 

Porquê?

O povo português, naquilo que vai fazendo, que vai perdendo, que vai ganhando, mostra uma grande capacidade de se refazer. Não digo que seja um caso único, mas é um caso muito interessante. Não é por recorte geográfico (não temos nenhum, estamos integrados nessa grande unidade que é a Península Ibérica). Nem por recorte étnico (que também não temos, somos uma grande mescla de aportações, daqui e dacolá). Do ponto de vista genético, não temos grande originalidade. Nem do ponto de vista dos recursos naturais, (também nunca tivemos nada por aí além). Nada nos fadava para sermos uma entidade autónoma e tão resistente ao longo de tantos séculos.

 

É verdade que temos fronteiras estáveis há oito séculos, e uma língua única.

E uma nacionalidade assumida em termos de sentimentos básicos e de mitos colectivos. Facilmente os reencontramos, às vezes fora daqui. Nesse título que referiu, Portugal e os Portugueses, menciono encontros no estrangeiro com portugueses, e imediatamente estamos a contar histórias comuns. Como se fôssemos da mesma família.

 

Haver uma narrativa comum, que funciona como pano de fundo, dá um sentimento de pertença?

Dá, e é muito importante. Em países mais pequenos do que o nosso, como é o caso da Bélgica, não existe; entre os valões e os flamengos não é a mesma narrativa. Não é uma questão de extensão territorial. Portugal existe aqui, somos cerca de 15 milhões e um terço não está cá, está no estrangeiro.

 

Quais são as narrativas mais constantes e duradouras, e que nos dão essa sensação de pertença?

Há um contraste entre a santa terrinha, o nosso rincão, a que com simpatia ou aparente antipatia nos referimos, onde há sempre alguém que é conhecido de alguém, e acabamos por ser todos primos; e a grandeza e universalidade que nos fazem sentir facilmente, em qualquer lado, em casa. Ter uma certa consciência própria dá-nos, confessado ou não, o gosto de ser de cá. Mesmo que não estejamos cá, ou que tenhamos que ir lá fora à procura do que aqui não temos. É como quem anda: só mete um pé para a frente se o de trás estiver seguro, senão estatela-se.

 

Na literatura, caso paradigmático, há expressões pouco abonatórias acerca de Portugal e dos portugueses. “A choldra” é um dos mais violentos. Grassa uma falta de auto-estima.

Mas depois temos o Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras

 

A verdade é que o personagem Jacinto de A Cidade e as Serras

volta para Portugal depois de uma vida em Paris.

Volta. Aquela primeira conversa quando o comboio entra em território português: “Anda aqui, anda à janela, vem ver o teu país”. Chega à janela: “Cheira bem” [riso]. Há qualquer coisa que cheira bem em Portugal, sabe lá a gente dizer porquê.

 

E a si, o que é que lhe cheira bem em Portugal? Que é também uma maneira de perguntar como é que aprendeu a ser português e a gostar disto.

A memória histórica que se contava, a convivência, os ritmos, as celebrações. Tudo isso era aconchegante e criava um caldo de cultura onde apesar de tudo nos sentíamos bem, nos reconhecíamos portugueses. Uns contavam a nossa história com mais glória, outros com mais pena, mas havia uma história nossa. O que Portugal tem de melhor são os portugueses. E isso não desilude. Não desiludia na minha infância dos anos 50, e continua a não me desiludir hoje. O português é um tipo humano excelente.

 

Pode concretizar isso?

Posso concretizar na capacidade com que facilmente adere a boas iniciativas e a boas propostas. Na capacidade de valorizar coisas pequeninas que são capazes de nos dar muita alegria. Não é só o facto de o Fado ser agora Património Imaterial da Humanidade, é o próprio fado que de uma maneira ou de outra todos cantamos. Esta maneira de nos cantarmos também nos une. Há uma sensibilidade comum que facilmente manifesta carinho e vontade de ajudar, e que é muito bonita.

 

Queria que me contasse algumas histórias particulares que marcam o seu contacto e relação com o país.

O meu país é muito o meu povo, o povo a que pertenço. Até pelo rumo que tomei, pela dedicação à vida da Igreja como seminarista e como padre, como bispo. Fui de História, um bom curso de memórias. Tudo isto me põe em contacto directo e permanente com o povo, em particular com o povo cristão e católico, nas suas variadíssimas expressões.

O povo português manifesta uma grande disponibilidade para acreditar e para se integrar em boas causas, desde que não sejam muito abstractas, desde que sejam quase impulsivas – do impulso para o bem. Verifico-o todos os dias. Verifiquei muito antes, durante, e continua, na crise em que estamos. As pessoas continuam disponíveis, o que requer por parte das lideranças uma atitude comprometida, pedagógica, clara, para estar à altura dessa disponibilidade que as pessoas têm. Hoje é uma questão de sobrevivência drástica num mundo complexo, onde já não há um pretexto exterior tão forte como foi a Europa dos anos 80.

 

O que é preciso é uma liderança para essa disponibilidade que, em si, é existente?

Sim, e que esteja constantemente, não só com muita integridade naquilo que faz, mas também com muita convicção naquilo que diz. E creio que vamos lá. Somos capazes de nos encontrar colectivamente e de nos refazermos. Creio que há na sociedade portuguesa capacidade para aterrar.

 

Aterrar?

Aterrar é muito perigoso. É uma linguagem aeronáutica, mas tem a ver com uma velha conversa que mantemos connosco entre a terra e o mar, entre o partir ou tomar a sério o que temos aqui. O mar é sempre um enorme desafio. Tem-se dito, e bem, que é uma fronteira aberta. Já referi algures que Portugal parece um povo-cais, que está constantemente a partir ou a chegar. Mas falo de encontrarmo-nos aqui, no que é o nosso território, assentarmos os pés na terra, naquilo que podemos, e vivermos menos a crédito, e acreditarmos mais em nós.

 

Levantou pistas interessantes. A vocação para a aventura, nem que seja por uma motivação desesperada (parte-se para as descobertas porque este território não nos basta, e depois vêm África, Índia, Brasil). Mas o gigante ficou com pés de barro. Não resolvemos um desnível entre a dimensão do sonho e uma falta de solidez nisso que é o ponto de partida.

Não sei se alguma vez o conseguiremos resolver. Isso é que é a tragédia portuguesa. Mas também é a beleza da história de Portugal. É uma espécie de claro-escuro. Nunca fomos este território a que hoje teremos de voltar, onde hoje nos temos de encontrar, bastantes para nos sustentar. Há sempre um impulso para ir mais longe, a necessidade de fazer outras coisas, noutro lugar. É uma velha tensão. Quando digo regresso à terra, é levarmo-nos mais a sério como povo e como capacidade de inovação e de criação. Essa, temos, às vezes, e sobretudo empurrados pela circunstância. Gostamos muito de divagar, da festa, da praia, daquilo que não puxa imediatamente por nós e que nos deixa sonhar.

 

Somos propensos à lassidão, se nos deixarem.

Também, com um território destes, tão bonito, não admira [riso]. Mas, nas circunstâncias, temos capacidade de nos refazermos.

 

Crescemos para as ocasiões, é essa a sua convicção?

Uma convicção constatada. Porque é que Portugal não foi absorvido pela monarquia espanhola? Porque é que não desapareceu no Império Napoleónico? Por que é que não desapareceu quando o Brasil se autonomizou? Por que é que Portugal continua? Por que é que Portugal, que vive a crédito no final do século XIX, apesar de tudo, consegue sobreviver? E já estamos no século XXI a crédito, também. É porque há aqui uma vitalidade própria, senão desapareceria. E não é o facto de ser uma finisterra da Europa. A Bretanha, cheia de cultura própria, identidade, literatura, foi absorvida pela França.

 

Essa vitalidade fez-nos sobreviver a todas as crises. Mas vivemos um momento particularmente agudo, em que há uma dependência do exterior muitíssimo maior. E falta-nos um desígnio, e alguém que encaminhe.

Hoje o “alguém” só pode ser colectivo. Os sebastianismos não nos fizeram bem. Eles simbolizavam o destino colectivo que se tinha perdido no areal de África, e voltariam numa manhã de nevoeiro. Esse tipo de liderança muito personalizada hoje não nos serviria. Esta liderança plural que todos fazemos – e é isso que uma democracia requer, pela participação, pelo risco assumido, pela inscrição na realidade social e política, e depois com os governantes que vamos tendo, porque os escolhemos ciclicamente – é que é fundamental para nos recriarmos.

 

O grau de imprevisibilidade é imenso. E, insisto, a ligação a uma rede é impossível de desligar. Dois contras.

O que temos em relação ao futuro é um campo aberto. O que puxa pela nossa capacidade de inovação. Sabemos que vamos ter que viver com apoio externo mas sobretudo com esforço interno. Teremos que ser mais módicos e frugais nos gastos, teremos de explorar outras zonas de nós próprios que estão inexploradas. E o campo artístico e cultural é imenso; mesmo que requeira algum investimento, é sobretudo de nós que depende. Temos que nos recriar em termos de vizinhança; perdemos a antiga e não criámos uma nova, sobretudo nos grandes espaços urbanos.

 

A família continua a ser a célula fundamental de sociabilidade e de entreajuda.

E de que maneira. É o nosso vínculo natural, as primeiras relações são as mais determinantes na vida. Muito curioso: mesmo nos romances e nas novelas, [as histórias são de] laços parentais torcidos ou distorcidos, ou desconhecidos; voltamos um pouco àquele tipo romântico em que toda a gente andava à procura de uma identidade que não sabia muito bem qual era, e que depois descobriam finalmente.

 

Se pensarmos em Portugal, à luz disso que diz, um caminho pode ser a procura dessa primeira vinculação, do que é o laço determinante, daquilo que, para além do acessório, nos dá o sentido?

Hoje, não só faz sentido, como é uma exigência absoluta. Darmos à família e à vida familiar aquela prioridade que ela tem é fundamental. Em meados do século XX, vivíamos em torno de duas abstracções: o indivíduo, o existir individualmente, sem grande referência grupal, fosse familiar fosse outra; ou então a massa, o eu diluído nas grandes massas colectivas e no seu destino, que assim se queria histórico. Mas não somos nem indivíduos nem massas. O melhor que a reflexão do século XX trouxe para o século XXI foi a reflexão de tipo personalista, que nos faz entender como seres de relação que tem vários elos.

 

O familiar é o primeiro.

Sim. O das vizinhanças também é importante. E depois os variadíssimos patamares comunitários onde nos recriamos. Esta nossa dimensão pessoal, personalista, em que me entendo na relação, em que a minha própria consciência é uma consciência reflexa (vejo-me pelo olhar dos outros, percebo pela compreensão que os outros têm de mim), é fundamental. Na presente crise, até laços familiares que estavam perdidos acabam por se recuperar, quanto mais não seja por sobrevivência.

 

Também temos um ditado que diz: “Casa onde não há pão, todos ralham, ninguém tem razão”. Muitas dessas relações acabam por ficar instáveis ou são desfeitas. Não são capazes de resistir à erosão da dificuldade.

Sem dúvida nenhuma. Mas mesmo depois de dispersas, ou se reencontram ou têm que encontrar outro tipo de relacionamento, porque sozinhos não sobrevivemos. É muito curioso o retorno à terra, a recuperação do lugar, das memórias locais.

 

O regresso à terra e o recentramento no que é essencial são feitos porque somos empurrados, por uma pressão desesperada. Isso traz consigo uma atitude amorosa?

Acaba por trazer. Pensamos, idealizamos, sonhamos, aspiramos. Isso define-nos como pessoas, e nem é preciso que sejam os poetas a dizer-nos tal coisa. Tanto caminhamos com projecção, com idealismo, como caminhamos como resposta a desafios a que temos mesmo que responder porque se trata de sobrevivência.

 

Insisto nesta falta de desígnio, que nos animou em 74, quando se fez a revolução, que nos animou nos anos 80 com a ideia da Europa – “Com a Europa é que vai ser”. E agora, falta um ânimo.

Aí iremos pela educação, pelo desenvolvimento da nossa potencialidade de nos recriarmos. Quando visito escolas e converso com professores e alunos [constato que] estamos prontos para partir. O que nem sequer significa deslocar-se do sítio em que estão, mas desenvolver as capacidades humanas de conhecimento científico ou especulativo.

 

Essa disponibilidade que encontra nas escolas, nas pessoas, nas empresas, é diferente da que encontrava há dez anos?

É mais qualitativa hoje do que quantitativa ontem. Ontem era no sentido de ir mais longe, fisicamente, hoje é cada vez, e necessariamente, ir mais longe naquilo que conseguimos descobrir, quer para nos melhorarmos colectivamente como sociedade, quer para nos aprofundarmos interiormente como Humanidade.

 

Na era da Internet, a possibilidade de estarmos com o outro, virtualmente, é ilimitada. Por outro lado, e é um lugar-comum dizê-lo, estamos cada vez mais confinados ao nosso reduto. São novas maneiras de estar socialmente e individualmente. Partimos com os outros numa aventura de modo diferente.

Por isso falava das vizinhanças, dos patamares de sociabilidade. Para não acontecer como o outro dizia: que estava tão apaixonado pela Humanidade e pela causa da Humanidade que não tinha tempo nem paciência para ninguém em particular. Tem que ser ao contrário. Não pensarmos na Humanidade em abstracto mas pensarmos em cada um de nós na relação que mantém com o outro, concreta, continuada, positiva, solidária (essas palavras bonitas mas concretamente vividas).

 

O seu discurso é mais optimista do que pessimista, o que não é surpreendente num clérigo. Mas tem também uma formação em História e por isso não pode escamotear a força da realidade. Teme que a História se repita e replique o seu pior ciclo? O da guerra, o do desencontro total, que é o que culmina uma escalada de crise, desemprego, instabilidade social, motins.

Tudo é possível no curto e no médio prazo. Há coisas que já podiam estar feitas no que tem sido o progresso humano se não tivéssemos perdido tanto tempo e tanta gente com lutas, com guerras, com tudo o que de sombrio a História nos demonstra como possibilidade. Acredito que possa haver demoras, que possa haver recuos, mas acredito mais que a Humanidade como um todo, e Portugal como parte, tem futuro.

 

Um título de Alexandre O’Neill, A Ampola Miraculosa, refere genericamente estas entrevistas no Negócios. Estamos à espera, e desde sempre à espera, dessa ampola miraculosa?

Se não houver uma expectativa, a pessoa não avança. Vivemos dessa ampola, todos nós, como seres humanos. A nossa expectativa, a nossa imaginação, ultrapassa sempre a nossa realidade, e é isso que nos faz viver e apesar de tudo esperar. E é isso que faz com que, mesmo já muito idosos, partamos, olhemos com expectativa para aqueles que entram no mundo, porque irão mais à frente do que sonhámos. Mas isso é a história da Humanidade, senão seríamos meramente repetitivos e ficaríamos como os outros animais. A Humanidade define-se com essa ampola.

 

Outra leitura para este título é a de procurarmos uma cápsula que nos resolva instantaneamente os problemas sem que isso implique forçosamente uma inscrição da nossa parte.

Aí entramos no campo das alienações que estão sempre disponíveis, arranjamos um pretexto ou um derivativo, uma maneira de não estar cá. Não é a isso que me refiro. Essa ampola, não a acho nada miraculosa, antes pelo contrário.

 

A expressão inscrição e não-inscrição tem sido usada desde o livro de José Gil, Portugal, Hoje – O Medo de Existir. Aí se descrevia os portugueses como um povo de não-inscrição.

Com medo de existir.

 

Como se estivéssemos um pouco fora da nossa órbita e pouco comprometidos com o nosso próprio destino.

Estamos muito perto de uma história que imaginámos grandiosa, e estamos muito perto das grandezas de outros (os países de ponta da civilização estão aqui ao lado). No passado já não nos podemos inscrever, o passado passou – se é que alguma vez existiu como o imaginámos. E nesse presente, só emigrando para lá, e alguns fazem isso. É mais fácil isso do que manejarmos o que temos à mão. Mas o que temos à mão é muito, sobretudo em nós próprios.

 

Estava a pensar numa frase famosa das Confissões de Santo Agostinho: “O meu amor é o meu peso, onde eu for, ele me levará”. O que temos de ponderar é onde o nosso amor nos leva? Que é uma maneira de saber para onde é que pendemos.

Lá temos a tal relação activa, que é outra maneira de falar do amor. O amor tem uma doença que é o amor-próprio; o amor que se retém em si próprio, e procura em si aquilo que só na convivência e na co-responsabilidade pode acontecer. Daí que esses vários patamares de sociabilidade seja necessária para efectivar o amor. É o que fica. E basta ver pela nossa memória: por mais ou menos anos que tenhamos o que ficou do outro senão essa relação e a convivência que mantivemos? O resto, devaneios, fumos. O sentimento compartilhado, a responsabilidade assumida com o outro, o destino que criámos conjuntamente, isso é que é a nossa verdade.

 

Fala da relação com o outro como sendo vital. Isso, passado a fase do pós-modernismo, em que havia a hegemonia do eu.

Não sou muito mau para os pós-modernos [riso]. A minha juventude é nos anos 60, e nessa altura começou a sentir-se o pós-modernismo, que ainda não sabíamos que se chamava assim. Ainda não tinha lido o Lipovetsky nem o Lyotard. Mas havia já propensão para o “eu” individual em contraste com as sociabilidades estandardizadas. Há alguma compreensão do pós-modernismo porque ele reage às ideologias estabelecidas, ferozes, que tinham tomado o campo e a sociedade até à Segunda Guerra Mundial, e que ainda se mantiveram na Guerra-fria. Todas prometiam que quando ganhassem seria maravilhoso. As famosas metanarrativas narravam mais do que realmente conseguiam.

 

Amanhãs que cantam.

Uns cantavam de uma maneira, outros de outra maneira, e as pautas eram muito diferentes, mas todas cantavam! Eu passei a vida inteira em movimentos, em grupo, em conversas que não me empurraram para esse intimismo pós-moderno. Pelo contrário, fizeram-me continuar a acreditar em desígnios colectivos mas personalisticamente concretizados. Creio que é o melhor caminho. No meu caso resultou.

 

Como se o “eu” fosse um lugar de partida e não um lugar de chegada?

Como um “eu” que só se encontra no reflexo do outro. Eu sou aquele por quem o outro pergunta.

 

A que é que as pessoas aspiram? A ambição era mais quantitativa, tinha mais que ver com o sucesso.

Com o sucesso, com o chegar mais longe ou ter mais coisas. Hoje, todos aspiramos àquilo que chamamos a nossa realização. É uma palavra muito bonita, talvez um pouco existencial. A consciência que temos de que cá dentro há uma vontade, uma disponibilidade, um desejo de criar, de ir mais longe, de fazer diferente – isso é que nos realiza, isso é que torna real o que seria apenas uma aspiração difusa, confusa.

 

Temos a percepção de que está tudo escaqueirado, em fractura. Estamos a desenhar uma outra ordem mundial?

Começámos um bocado desumanos, ainda estamos. Estamos a falar da esfera europeia, mas se alargarmos um bocadinho o zoom, o que é que fazemos da África, da Ásia, de regiões onde as populações ainda estão à nossa espera, e nós à espera delas? Não vai ser com o grupo da frente muito afastado do pelotão, em que uns conseguem sempre mais, e conseguem quase só para eles. Assim não vai ser, assim não pode ser.

 

Vendilhões do templo, e esses que estão no pelotão da frente, sempre houve.

Mas agora não vão ganhar competição nenhuma. Só poderiam ganhar se os outros subsistissem. Senão, não há frente porque não há trás. Temos que ser todos mais primeiros. E isso é outra maneira de olhar para as pessoas. Reparo no gosto e no interesse que há na nossa juventude, católica, em tudo quanto seja voluntariado, de trocar no verão a praia por acções cá em Portugal ou em África, a disponibilidade para fazer coisas juntos e lutarem por elas.

 

Há muitas situações em que as pessoas estão prostradas porque isto é uma lambada monumental. Contraria as expectativas de uma vida, obriga a redimensionar aquilo que norteou o seu percurso. A expressão das manifestações das Geração à Rasca é um sintoma disto. Há muitos que não têm ânimo para levantar os braços. E para esses?

É um facto. Não poderemos ir ao todo senão pela parte. O que devemos ter são as tais lideranças pedagógicas, que tenham em vista o todo, porque é essa a obrigação no campo político, económico e cultural. Mas isso tem que ser mediado por concretizações mais próximas, pela fermentação que mostre que é possível atingir objectivos mais satisfatórios.

Há dois caminhos sem saída: um é refluirmos, cada um para si abocanhe o que puder; o outro é estar à espera de um grande movimento de massas para resolver seja o que for. Nós agimos, reagimos e progredimos por responsabilidades compartilhadas, com vizinhanças activas, com projectos comuns. Não há outra maneira.

 

Na sua comunidade sente uma relação notoriamente mais próxima das pessoas nos últimos meses, nos últimos dois, três anos?

Há a proximidade da necessidade. Há cada vez mais pessoas que vêm ter com as instituições, no caso a Igreja, à procura de apoio, até de subsistência. Mas não era só a isso que me referia. Encontro muita gente longe de deixar cair os braços e muito menos de fechar o coração ou a imaginação. E comprovo muito do que estou a dizer: nesta escola não se deixa de avançar com este projecto, naquela associação não se deixa de manter aquele voluntariado, nestas paróquias as pessoas não deixam de se encontrar e de levar por diante a acção evangélica. E às vezes, vidas carregadas de trabalhos e de encargos, mas arranjam tempo.

 

Não são pessoas que se contentam com a aurea mediocritas, não é disso que estamos a falar…

Não, não. Mas acabam por se concentrar no essencial. Não é na mediocridade de querer pouco para manter alguma coisa, não. É perceber que há coisas mais importantes na vida do que o consumismo e ter a felicidade presa a este ou àquele objecto, embora alguns objectos sejam necessários.

 

Neste redesenho das prioridades, acha realmente que o paradigma do “ter”, que foi aquele que nos dominou, está a partir-se?

É mais necessário agora “termo-nos”, do que “ter”. Termo-nos uns aos outros.

 

O papel da Igreja em momentos de crise é importante porque, como disse, apoia uma necessidade mais imediata? Porque funciona como farol?

É sobretudo importante pela mensagem, pelo legado que transporta. Tem locais, tem disponibilidades, tem símbolos, tem tudo o que faz com que uma ideia perdure. A Igreja é o legado do que Jesus disse e fez, e isso hoje continua a ser tão estimulante, para os crentes, e até para a sociedade, como referência, em variadíssimos níveis de pertença, como foi há dois mil anos.

 

Não falámos ainda do fracasso, de como isso dissuade e massacra.

Mas o fracasso também pode ter vários patamares. São negativos os fracassos de coisas que sonhámos e depois não foi nada assim. Mas quando aquilo que sonhámos fomos nós próprios, o significado da nossa vida, isso, mesmo que aparentemente fracasse, se foi vivido e sofrido até ao fim, na nossa tradição cristã sabemos que é vencedor. Os cristãos existem porque aquilo que aparentemente foi um fracasso, a vida de Jesus de Nazaré, depois se mostrou viva, com a ressurreição de Jesus Cristo. É um fracasso vencido. Foi uma aparente derrota que acabou por redundar numa vitória daquilo que realmente valia.

 

Metaforicamente como é que ressuscitamos?

Dizia São Paulo que o verdadeiro amor nunca acabará. Quando é uma doação completa a uma causa verdadeira, e é por isso que é uma doação e não é um empréstimo, isso vence. E é por isso que histórias que ouvimos do passado, quando foram verdadeiras, quando foram de dádiva, de entrega ao ideal onde cabiam todos, continuam a enternecer-nos e a motivar-nos.

 

Queria que me dissesse um verso que seja para si iluminante.

Podia dizer um verso da Sophia sobre o que fizemos pelo mundo. Mas vou dizer-lhe uma quadra muito simples que vem na Liturgia das Horas, ao sábado, e é tão simples como isto: “Passa o tempo, corre a vida, hora a hora o dia foge, mas a fé nos anuncia que vem perto o grande encontro”. Na simplicidade de uma quadra tão banal, preenche muito a minha vida: a activação do encontro.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2012

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