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Mario Testino

Mario Testino nasceu no Peru há 45 anos. É um dos maiores fotógrafos de moda do mundo. Para a Vanity Fair fotografou uma esplendorosa Princesa Diana poucos meses antes de morrer, fotografou uma embevecida Madonna com a sua Lola recém nascida. Para todos os cantos do mundo concebeu uma sensualíssima campanha para a Gucci quando Tom Ford deu novo fôlego à casa. Depois desta entrevista é impossível esquecer o seu nome.

Confesso que fiquei mais ou menos histérica com a possibilidade de entrevistar Mario Testino, o grande Mario Testino, numa manhã de sexta feira. O seu nome era-me familiar há anos, porque há anos sou viciada em fichas técnicas. Pois, fichas técnicas que anunciam pomposamente quem tratou dos pés da Meg Ryan, das mãos da Michelle Pfeiffer, das sobrancelhas da Jodie Foster. (Cito estas três por terem aparecido juntas numa fotografia recente). É uma tara, como a de outros que sabem a quantidade de cavalos que correm num carro ou conhecem as múltiplas funções de um aparelho de vídeo.

Eu sabia que tinha sido o Mario Testino que tinha dado uma volta à vida da Eva Herzigova, lhe tinha pintado o cabelo e dado um tom menos voluptuoso à figura. Se não viram, não sabem o que perderem! Ela estava maravilhosa, vestida de talhante (palavra de honra!), com um avental levemente conspurcado de miudezas.

Também sabia que tinha sido ele que tinha descoberto uma menina que se chama Jacquetta e que, além de tornar a Gucci mais apetecível de há uns meses a esta parte, tem uns braços que lhe chegam quase até ao joelho e que essa tinha sido justamente uma característica apreciada. Evidentemente sabia das muito famosas imagens da Princesa Diana, quando ela já tinha posto em caixotes para instituições os trastes que vestia por alturas do casamento e resplandecia uma felicidade que algumas mulheres só podem exibir quando atiram o peso da monarquia para trás das costas. Conhecia-lhe bem o nome por causa da tal tara pelas fichas técnicas, e é tudo.

O que não podia imaginar é que me iam telefonar a perguntar se estava interessada em falar com sua excelência que por acaso passava férias na Serra da Malveira. Adivinhem qual foi a minha resposta.

Em Outubro, Mario virá novamente a Portugal apresentar uma exposição de fotografias de moda, integrada na Moda Lisboa. Mas até lá, talvez esta seja a única oportunidade de o ver e ler e saber tudo o que há para saber do mundo que ele habita.

A conversa decorreu numa varanda virada para o mar e o infinito. Ele apareceu com uns calções e uma camisa verde talvez para não me fazer esquecer que estava de férias. No princípio o telemóvel ainda tocou ou tremeu por duas ou três vezes. Passou-o então a uma amiga, a mesma que ao fim lhe disse que tinha falado a Kate Moss a dizer que estava ali ao lado, de férias em Ibiza.

 

 

Conhece «O Retrato de Dorian Gray», de Oscar Wilde?

Sim, claro. Adoro o livro. Li-o quando tinha vinte anos, antes de mergulhar no mundo da moda.

 

Quando se vive num mundo como o seu, é muito fácil ficar ofuscado pela beleza.

Para ele [Dorian} ficou uma obsessão. Para mim, a obsessão da beleza é a dos outros, não a minha. Talvez a minha alma tenha ficado jovem, como Dorian Gray. Tenho uma curiosidade muito grande, que me faz ficar jovem. Mas a beleza é tão subjectiva. No livro é apenas uma. No meu trabalho a beleza muda. Tenho de mudar com o tempo.

 

Acontece-lhe folhear trabalhos de há dez anos e achá-los horríveis?

Faço isso com trabalhos que têm dois anos, um ano! Vejo agora: fui fazer um trabalho à Holanda, faz um mês e meio, para a L’Uomo Vogue. Tinha deixado de fazer homens. Quando comecei fotografei muito os homens; era mais fácil. Também para eles é mais fácil. A pobre mulher tem de fazer muito mais para aparecer como a sociedade espera que apareça. A mulher não pode deixar os pêlos na perna, debaixo dos braços.

 

Agora exibe-se a penugem dos sovacos.

Agora.

 

Você gosta?

Sempre apreciei a liberdade da mulher. Estou contente que tenha um maior controle sobre si mesma. Tantas vezes estou nas festas e vejo mulheres incríveis com homens horríveis ao lado. No homem atende-se mais à personalidade. Sempre gostei de uma ambiguidade, tanto num como noutro. Nunca gostei de um homem muito masculino, porque não acredito; como não acredito na mulher muito feminina, ela tem de ter um lado forte. Não gosto de mulheres que para chegar a um jantar ou a uma festa precisam de um homem ao lado; gosto da que chega sozinha.

 

O seu ideal de beleza é andrógino?

Sim. O ser humano tem um lado frágil e um lado forte, gosto das pessoas que estão em contacto com os dois lados.

 

Isto tudo vinha a propósito do trabalho que foi fazer à Holanda.

Sou fotógrafo há 20 anos e consegui agora fazer uma coisa em que sou mais eu que nenhuma outra que fiz. Sou muito democrático. Trabalho com outras pessoas e gosto de ouvir a opinião delas. Mas o trabalho da Holanda foi uma coisa muito minha. Estou muito interessado nas pessoas em geral (há muita gente nas fotos). Isso faz-me olhar o trabalho de Janeiro e achá-lo menos forte, mais banal; sai menos de mim. É muito difícil fazer sair o que está dentro.

 

Essa é uma das suas mais fortes características enquanto fotógrafo. Quando se pensa nos seus trabalhos, pensa-se nas produções que fez com a Princesa Diana ou com a Madonna, que até fogem ao universo da moda, e que aparecem como nunca tinham aparecido.

Procuro muito isso, sim. Procuro isso também em mim. Penso no que tenho para dar. As pessoas perguntam-me, «O que vais fazer agora que chegaste aí?» O que tenho de fazer é ficar bom fotógrafo, verdadeiramente bom fotógrafo.

 

Tem essa humildade, a de olhar para as suas coisas e dizer que algumas não são boas?

Não é humildade, é um facto. Eu olho ao lado, olho o que as outras pessoas fazem. Como compro fotografia, vou sempre às galerias. Vejo coisas fantásticas que me fazem pensar que o meu trabalho é efémero. A fotografia de moda tem um lado de ver e deitar fora. As revistas são feitas assim. Uma revista para ser boa, é uma coisa que você olha e põe de lado; não é uma coisa que se olhe e se guarde. Isso é para um livro. Perguntam porque é que a Vogue América tem o sucesso que tem. Acho que é por isso. Gosto da realidade das coisas, não gosto das coisas que tentam ser o que não são. Sempre critiquei os fotógrafos que fazem muito arte na moda.

 

O que acha do trabalho do LaChapelle? Ele representa o feérico, o delírio encenado.

Não gosto, é muito falso. Acho que tem talento. Tenho uma foto dele, de quando começou, e acho-a linda. Parece-me que, porque as pessoas gostaram, foi completamente por ali. Não estou muito convencido com o computador.

 

Não manipula as imagens?

Não, nunca. Estou mais interessado na pessoa que no computador. Entrei nesse negócio porque gosto das pessoas: de falar com elas, de rir com elas, de passar o tempo com elas. Os meus amigos dizem que não sou um solitário; é verdade, estou sempre com pessoas.

 

O nascimento da Magnum impôs uma nova linguagem fotográfica. A definição do Cartier Bresson para a fotografia era «Instantes Decisivos»; quer dizer, a realidade é aquele momento e é imutável.

O lado mágico da fotografia é num milésimo de segundo poder capturar uma coisa que não se dá antes nem depois. Mais a fotografia é assim, mais eu gosto. Voltando ao LaChapelle, (e não gosto de criticar os fotógrafos, acho genial que tenha tido o sucesso que teve, há espaço para todos e para todos os gostos); quando trabalha em computador, a foto já não tem essa magia de uma coisa que só pode acontecer num instante. Qual é a magia das fotos de Diana? Essas fotos não poderiam ter sido feitas seis meses antes, porque ela não estava naquele momento, e não poderiam ter sido feitas seis meses depois porque entretanto morreu. Gosto muito da ideia do instante e gosto do lado que documenta uma época. Olhamos para os fotógrafos que trabalharam antes e isso faz-nos aprender o que aconteceu, quem eram as pessoas.

 

Como consegue perceber em que fase é que as pessoas estão, qual a sua essência e mostrá-lo numa fotografia?

Faço o trabalho e a vida de uma maneira puramente instintiva: sigo o que sinto. De cada vez que não segui o meu instinto foi mau. Todas as pessoas que trabalham para mim, encontrei-as em cidades diferentes, e muitas não tinham feito antes o trabalho que dei para elas. Senti que eram bons para aquilo, e até agora deu certíssimo. Para lhe dar um exemplo. Uma amiga minha arranjou uma casa em Cascais, disse «Vem para Portugal». Vim no mês de Abril para ver e passei as melhores férias que tive em muito tempo.

 

Conte lá então como é que veio parar a Portugal.

Graças a uma amiga de há 20 anos, a Vitória Fernandes. Ela dá conselhos aos criadores de moda, aos estilistas. É colombiana, mas conheço-a de Londres (moro em Londres faz 25 anos). Eu tinha vindo já uma vez. Fui para Óbidos, Sintra, Lisboa; adorei, mas não voltei. Talvez porque como turista você não vê realmente o que é o país. Entretanto conheci pessoas que a Marta Mantero (amiga) me apresentou; abriu-me tantas portas, fez-me ver tantas coisas, e tudo muda: saber onde jantar, a que praia ir, que pessoas ver, que museus e que galerias.

 

As suas amizades são de há 20 anos?

Os meus melhores amigos, que estão aqui comigo, são de há 25 anos. É uma outra coisa em que as pessoas se perdem da realidade. Quando o trabalho corre bem, entra-se em contacto com muitas estrelas, celebridades. Mas não para deixar os amigos e fazer novos amigos. Porque afinal não são amigos. No dia em que não estiver em cima, eles deixam-no. Já passei por isso.

 

No seu mundo tudo é efémero.

Muito efémero. É preciso ter consciência desta realidade. [pausa] Voltando ao que falava antes, tenho a noção da importância do verdadeiro, do real.

 

A realidade é imperfeita. Uma das vantagens da manipulação computorizada, é tornar uma imagem absolutamente perfeita. Não sente a tentação da perfeição?

A perfeição não existe. Por muito tempo, a perfeição era para mim uma causa; as minhas fotos eram perfeitas. No dia em que decidi que o imperfeito é muito melhor, apareceram muito mais vida e energia nas minhas fotos.

 

Que momento foi esse?

Comecei em 1980. Em 82, 83, 84, tive imenso sucesso como jovem fotógrafo. Quando passa de moda, se não está preparado para sair com outra coisa, ninguém o quer porque há outro que apresenta uma coisa nova. Passa por um período em que não tem muito trabalho, e a qualidade do que faz começa a descer, descer, descer. Até ao momento em que ou trabalha para as piores revistas ou não trabalha.

 

Como é que deu a volta à situação?

Para voltar a ter trabalho, fiz muito os nus. Queria trabalhar a pessoa. Ouvi muitos conselhos, «Como é possível que tu que tens um feeling tão forte com as pessoas, faças a pessoa tão perfeita que não tem mais o feeling dela?» Vi que o problema era esse: a pessoa não era interessante. Talvez o décor fosse lindo, (tenho gosto, posso ver e mostrar as coisas lindas do mundo). Punha a menina no quarto e era como uma outra mesa ou cadeira, era só uma decoração. Comecei a fazer nus para trabalhar a luz, para fazer a pessoa mais bonita.

 

Despida de artifícios, para perceber como ela é na essência?

Nessa época encontrei Carine Roitfeld, a produtora com quem trabalho mais. Ela viu os meus nus e disse, «Vai a essa revista, a Glamour, e mostra à directora os teus nus, não leves o trabalho de moda». Porque, como não tinha trabalho, passei a fazer trabalho de menos nível, onde tudo tinha menos nível: a modelo, a produtora.

 

Como foi o encontro com a Carine?

Fiz um trabalho para a Vogue Bambini, e pegámos na filha dela que era amiga de. Foi assim que nos conhecemos. A nossa base de trabalho é a mesma, o gosto complementa-se. Ela, como francesa, tem mais de vanguarda; eu, como peruano, tenho mais de clássico. Foi com ela que comecei a fazer as fotos onde as pessoas são o mais importante.

 

A viragem aconteceu cerca dos anos 90?

Julgo que sim. Em 88, 89 não tinha trabalho. É impressionante como se pode subir e depois descer. Para mim foi muito bom, vi a realidade do meu mundo, que é um business; tem amizade, mas não pode ser misturada com o business. Podes ser um amor de pessoa mas se as fotos não são boas...

 

Ajuda trabalhar com quem se gosta, ou não?

Adoro as pessoas com quem trabalho, mas se não tivessem o talento que têm, não poderia trabalhar com elas. Percebi que a única maneira de uma imagem funcionar é fazer o que gosto. Só posso defender uma imagem com a qual me sinto bem. Por exemplo, não gosto de pegar num modelo se ainda não o vi, porque a personalidade é uma coisa muito importante. É também a minha vida, tenho de passar o dia com ele. Os dias são dez horas de trabalho, e podem ser as últimas dez horas da minha vida. Prefiro estar sempre com pessoas de que gosto e que me vão dar algo.

 

É mesmo preciso que as pessoas conheçam o melhor e o pior para perceberem o real valor das coisas.

É verdade. Fui para Londres como estudante com o meu pai a pagar-me tudo.

 

A sua família era confortável financeiramente?

Meu pai começou a trabalhar aos 15 anos. Trabalhou como um louco para fazer dinheiro. É um homem que ganhou bem a vida e que, em vez de gastar com ele, gastou com os filhos.

 

São seis filhos?

Cinco, morreu um entretanto. Tive a sorte de ter uma educação como poucas pessoas têm: estudar na melhor escola do Peru, viajar muito, ter poder aquisitivo. E tive a sorte de ter uns pais com ideias muito claras que não viviam num mundo de coquetéis. Sempre ouvi, «Trabalhei muito para te dar isto». Mas aos 17 anos só pensava nas festas, em gastar. Durante muitos anos não fiz nada. Meu pai disse-me que enquanto estivesse na universidade me pagava tudo. Então fiz dois anos de Economia, um ano de Direito, Relações Internacionais na Califórnia, e a seguir Londres. Fui para Economia porque era bom nos números, Direito pensando que ia entrar no corpo diplomático. Mas no Peru o governo era militar, um desastre, e fui para os Estados Unidos pensando que depois trabalharia nas Nações Unidas.

 

Quando jovem, tinha a consciência de viver num país cujo governo era militar e que funcionava como um espartilho na vida das pessoas?

Viajei desde muito cedo. Vinha de Nova Iorque e olhava para o Peru como se fosse uma província. Comprava roupa na América e no Peru as pessoas gritavam-me na rua. O Peru é muito clássico. Mudou porque tem televisão. As pessoas vêem hoje no Cabo o que antes tinham de viajar para ver. Ao mesmo tempo é muito convencional, gostam todos de vestir o mesmo. Lembro-me de na escola nos dizerem que havia uma festa e que toda a gente tinha de vestir um fato azul ou cinzento. Eu cheguei com um rosa e bordeaux. Perguntava-me porque me havia de conformar se já conhecia mais. Não podia fechar os olhos ao que a vida me tinha dado.

 

No Peru os conceitos de masculinidade e feminilidade são muito estanques. Há pouco dizia que é a androginia que o seduz.

Já nessa época era um pouco difícil. Comprava roupa nas lojas para menina. Não comprava vestidos, comprava calças. As mesmas calças, o mesmo feitio: para mulher faziam com muitas flores, para homem de uma só côr. Queria com muitas flores. Sempre gostei de chocar, chocar a sociedade. Percebia que era diferente dos outros jovens, que tinham de decidir muito cedo o que haviam de fazer com a vida.

 

Os seus irmãos também preferiam calças às flores?

Os meus irmãos são todos especiais. Não são tão extremados como eu, são mais convencionais. Não sei porque sou assim. Desde muito jovem tive gosto pela roupa.

 

Por causa da sua mãe?

Por causa da minha mãe. As pessoas vestiam-se muito bem. Quando vejo as fotos da minha mãe, das minhas tias, são como uma foto de moda. Vestidos perfeitos, que traziam de fora ou mandavam fazer no Peru. Tenho essa formação da imagem da minha mãe. Quando tinha cinco anos ouvia-a dizer, «É horrível como pôs estes sapatos com esta saia!». Há uma educação visual que se vai formando e que tive dela.

 

Significa que repara em tudo o que as pessoas usam? Ainda faz isso?

Eu olho tudo, tudo. Adoro olhar, ser inspirado. É também assim que apanho ideias. Eu como, vou digerir e depois vai sair numa outra coisa. É interessante porque depois não me lembro exactamente do que vi. Mas prefiro não me lembrar porque não gosto de copiar nada. 

 

Voltando à sua mãe.

Ela deu-me essa educação visual e eles juntos deram-me a liberdade de fazer o que queria. Para ir de fato rosa à festa tanta força tinha de ter eu para o pôr, como os meus pais para não pensarem no que os outros diziam. Depois de estar em Londres há quatro anos, o meu pai disse-me «Se não estudas, tens de trabalhar; não posso continuar a enviar-te dinheiro todos os meses». Era muito caro e o Peru teve uma desvalorização de 2000% ano, vários anos. Deu-me três meses para encontrar trabalho.

 

Fez o quê?

Primeiro fui empregado de mesa num restaurante. Depois comecei a fazer fotos porque pensei que tinha de encontrar um trabalho para a vida. Como gostava de roupa, pensei «Vou fazer roupa». O meu pai, que foi criticado por me ter dado tanto dinheiro para comprar roupa e fazer festas, fez sem saber o seu maior investimento. Porque foi disso que fiz a minha carreira. É interessante, não é?

 

É, e é tremendamente irónico. Mas porquê a fotografia?

Foi uma necessidade.

 

Não pensou ser estilista, ou mesmo modelo? Tem muito bom ar.

Pensei em tudo. Modelo não, porque não havia beleza em mim. Quando me vejo ao lado dos modelos, penso, «Que horror, não olhar para o espelho!» Ser modelo não tem muito futuro, é uma coisa passageira para alguém de 18, 19, 20, 22, 23 anos. Pensei ser estilista, é verdade. Mas não sei nem desenhar nem coser. Não sei fazer nada com as mãos. Tenho um bloqueio mental em relação às mãos.

 

É extraordinário num fotógrafo, mesmo que a sua sensibilidade seja sobretudo visual.

As ideias são a minha força. E tenho um gosto. A questão não é ter bom ou mau gosto, é ter um gosto. As pessoas que surpreendem mais não têm um gosto convencional, e muitas vezes, no começo, não é um bom gosto.

 

No princípio impera a excentricidade.

Há um processo: alguém que está a começar (um fotógrafo, um estilista), tem de fazer algo que vá chocar.

 

Qual foi a sua primeira imagem que chamou atenção sobre si?

Hoje vemos mais pessoas latinas no business. Na minha altura, em Londres, uma visão peruana era diferente (no gosto, na cor). As revistas pediam-me para pôr as meninas a rir. A minha resposta foi um riso ridículo. Fotografei durante um ano todas as pessoas com o mesmo rosto, rindo, fazendo o ridículo, não rindo de felicidade. Também fiz fotos muito estáticas, onde tudo era muito gráfico. Foi o meu primeiro sucesso e durou dois, três anos. Quando passou de moda, não estava preparado com outras coisas: não tinha qualidade, porque não sou muito técnico. Aprendi que preciso de ter uma pessoa que faz bem isso (técnica). Aprendi que preciso de ter o melhor maquilhador (sei o que gosto mas não sei fazer). Com a luz é a mesma coisa.

 

Trabalhava sozinho ou coordenava uma equipa?

No princípio fiz tudo sozinho. Depois tive assistentes.

 

A luz é mesmo fundamental, não é?

Sou louco da luz. Enquanto o assistente está fazendo a luz, estou trabalhando com o maquilhador, com o cabeleireiro. No primeiro dia não faço uma foto. Com as modelos que já conheço, trabalho muito o look, o que vou dar para elas, qual é a pessoa que vou fazer. Gosto de criar caracteres para elas. Um pouco como no cinema onde se dá uma personalidade ao actor.

 

O seu papel é o de um realizador que põe todas as partes a funcionarem?

Sim.

 

Que influência tem o cinema em si?

A minha maior influência é o cinema italiano. Visconti, Antonioni, De Sicca. Talvez seja o meu lado clássico. Pasolini, por exemplo, tem coisas muito loucas mas ao mesmo tempo é de um classicismo exterior muito forte. Há pouco falámos no LaChapelle; ele trabalha o décor, eu trabalho a pessoa. Mais interessante que ter uma loucura ao redor da pessoa, é ver que a pessoa é louca. O cinema italiano tem muito isso, é o que se parece mais a mim. Venho de uma sociedade conservadora, mas a minha cabeça não é nada conservadora.

 

Voltemos ao arranque da sua carreira nos anos 90.

Os nus fizeram-me trabalhar a luz. Comecei a trabalhar com pessoas de um outro nível. Todas as pessoas dão conselhos, ou ouve ou não ouve. Uma falou-me, «Quando fotografas a Christy Turlington ela vai dar-te o que deu ontem ao Peter Lindbergh. Tens de fazer com que essa foto seja tua e de nenhum outro». Outro falou-me, «Se fazes dez páginas de uma modelo, o rosto tem de ser diferente em cada página». Outro ainda, «Tens de aprender a fazer a luz porque vai abrir-te muitas portas». (Durante 15 anos só tinha feito luz natural!) Passei seis meses sem gostar do que fazia; mas depois de experimentar meio ano, encontrei uma porta que me possibilitava fazer qualquer luz.

 

Foi nessa altura que trouxe o seu irmão para trabalhar consigo?

Ele era agente de barcos, e não gostava do seu trabalho. Disse-lhe, «Vendes espaço para barcos, é a mesma coisa que vender fotógrafos». Pu-lo, para aprender, numa agência de modelos, depois numa agência de fotógrafos e por fim passou a ser o meu agente. Alugámos um escritório pequenino numa agência de modelos, que acho que era o sítio onde eles colocavam o material de limpeza. Existimos aí. Foi muito bom trazê-lo porque tem um olhar exterior. É importante porque estou rodeado de pessoas com um gosto muito sofisticado, que sai da realidade das pessoas normais. E comecei a crescer, crescer, crescer.

 

Publicar na Vogue ou na Vanity Fair é prestigiante, é uma montra do trabalho desenvolvido. Mas é na publicidade, nas grandes campanhas, que se ganha verdadeiramente dinheiro. Não é assim?

A América é o único país onde se ganha um bom dinheiro nas revistas. É um negócio gigantesco: A Vogue América vende 1,3 milhão, a Vogue France vende 80 mil. Os europeus não têm dinheiro, mas têm muita liberdade. Com os americanos é o inverso. É verdade que essas revistas são o nosso portfólio. Mostram o que fazemos, o nosso gosto. Se vejo uma menina na rua e a ponho numa revista, isso mostra o que estamos fazendo, o que estamos gostando, onde estamos indo. É assim que conquistamos as campanhas e é nas campanhas que fazemos dinheiro. Por isso nunca deixei de fazer editoriais, mesmo quando tinha todas as campanhas. Penso sempre a longo prazo. Na moda muito facilmente te substituem, toda a gente é substituível.

 

Descobriu há uns meses a nova menina da Gucci, a Jacquetta. O normal é que seja o Mário a encontrar os modelos?

Escolho tudo! Foi difícil, uma luta de anos, escolher as modelos que gosto, fazer as fotos que gosto.

 

Quando fez as campanhas da Calvin Klein, a Kate Moss e a Christy Turlington eram marcas da casa.

São meninas de que gosto, trabalhei muito com elas. Várias meninas dizem que as fotos que faço delas são as mais bonitas.

 

A Kate Moss diz que é o melhor.

Ela fala sempre isso. Pu-la em todas as revistas. Crio um mercado para elas também. Trouxe a Eva Herzigova para a Calvin Klein. Quando falei no nome dela pensaram que estava louco; mas quando trouxe as fotografias, disseram que era uma nova menina.

 

Que é que lhe fez, mandou-a perder kg e pintar o cabelo de escuro?

Não era gorda, quando a conheci era perfeita. Sempre a puseram assim (evidenciando o peito), porque é o que o mundo gosta. Mas ela não é assim; anda de t-shirt, sem o wonderbra em baixo. Falei com a minha equipa e concluímos que o problema era a cor do cabelo, esse louro falso. Fi-la voltar à cor dela, cortei um pouco, e disse-lhe, «Não quero mais esse look glamour, quero fazer de ti uma nova menina». A Anna Wintour (directora da Vogue americana) diz que encontrei muitas delas. Cada semana recebo 200, 300 compositos de modelos de todo o mundo, do Brasil à Suécia, de Londres a Milão.

 

Tem paciência para esses 200, 300 ou tem alguém que lhe faz uma triagem?

Eu faço. É muito trabalhoso, mas é o meu gosto, o meu olhar. Tantas vezes encontro pessoas, mostro à minha volta e dizem, «Ah não, é ruim». Ela chega, faço o cabelo e todos, «Uau!». É um instinto. Sou muito receptivo ao que está a acontecer. Faz um ano e meio vi que todas as meninas que saíam tinham cabelo longo e o corpo com formas. Fui dos primeiros a pegar nelas para as revistas. Normalmente faço as coisas grandes, entre 16 a 20 páginas. As directoras têm medo de dar 16 páginas a uma menina que nunca ninguém viu. Agora têm mais confiança, creditam que tenho olho para o que vai vir.

 

Tem medo que as coisas voltem a piorar?

Ah sim, sempre. Nunca dou nada por seguro.

 

É pouco provável que aconteça.

É pouco provável se trabalhar dez horas por dia como faço agora. Se começar a trabalhar menos, meter-me nas festas e pensar «Eu sou o Mário Testino», muito facilmente pode ser. Já vi muita gente desaparecer. Quando comecei havia pelo menos 30 fotógrafos da minha geração; não tem ninguém hoje. 

 

O segredo é trabalhar?

Trabalho como um louco, das oito da manhã às dez da noite todos os dias, sábado incluído.

 

O método e a disciplina são fundamentais. Mas curiosamente uma das imagens mais fortes que temos do mundo da moda é o da mundaneidade, com o champanhe e as linhas de coca.

Se há pessoas que levam essa vida, são os jovens. Os mais velhos não conseguem ter essa vida e trabalhar. Toda a gente critica as modelos por causa das drogas, mas os jovens todos consomem drogas. É normal que uma rapariga de 20 anos se queira divertir. A maior parte das meninas de 18, 20 anos não estão trabalhando. Estão na universidade ou em casa. É muito duro o trabalho de uma modelo, não é o que as pessoas pensam. Têm 20 pessoas que lhe estão tocando todo o dia, todo o momento. Tem de ter uma paciência infindável! O Calvin Klein? Gosta de festas, mas trabalha! Não dá para não trabalhar e controlar aquele império.

 

O Mario Testino é uma empresa.

Tem muitas pessoas que dependem do que ganho para ganharem o seu dinheiro. Tenho um escritório com oito pessoas fixas, que contrata depois muitas outras.

 

Está rico?

Eu? Não sei o que quer dizer rico. Tenho amigos riquíssimos, industriais de vários pontos do mundo; se me comparar com eles, sou pobre. Não me vejo rico, vejo-me confortável. Já passei por períodos em que não tinham nem para comer nem para apanhar um autocarro. Hoje posso apanhar o Concorde para ir aos Estados Unidos trabalhar. Mas posso não ter nada amanhã.

 

O facto de ser uma pessoa tão influente, deve fazer com que esteja sempre muita gente à sua volta a bajulá-lo, a mostrar-se. Acontece-lhe permanentemente?

É normal, não? Sempre achei que a fama não era para a pessoa famosa, era para a pessoa que olha a famosa. Não sei que ideias têm de mim, mas tudo o que faço é trabalhar. O maior luxo é a liberdade de decidir. Decidir o que faço, quando faço, com quem faço. Esse é o luxo; não é o dinheiro. Não tenho tempo para gastar o dinheiro!

 

Nesta fase ainda corre atrás de campanhas?

Os agentes fazem isso, os fotógrafos estão preocupados em fazer a foto. Há uma competição enorme. O mundo ficou muito pequeno. Os fotógrafos franceses não vão ter os trabalhos franceses. Os trabalhos franceses vão para todo o mundo. Um cliente italiano escolhe um fotógrafo de Londres, de Nova Iorque, de qualquer lugar.

 

Como é a sua relação com os outros grandes fotógrafos de moda, o Demarchelier, o Meisel? Tem amigos fotógrafos?

Amigos, amigos, é verdade que não. Cada um cria o seu núcleo, o seu mundo. Tenho muitos amigos na área da decoração, no cinema. 

 

Tem uma fotografia preferida?

Estou louco com as que fiz agora em Amesterdão! Vou fazer uma exposição delas em Londres, no mês de Setembro.

 

Que vai ser a exposição de Lisboa?

Vou trazer o meu trabalho de moda. Não gosto quando a personalidade do fotógrafo é mais importante que o trabalho dele, tento controlar muito isso. As pessoas dizem Mário Testino, Mário Testino, mas não sabem porque é que o nome é conhecido. Acho importante que conheçam o nome com o trabalho, e não pensem que sou um social (di-lo com acento americano) que sai para as festas.

 

Onde tem a sua casa?

Em Londres, que é a minha base. E tenho uma outra em Paris, onde fico quando estou a trabalhar. Na América fico sempre no mesmo hotel, no mesmo quarto.

 

Que tendências julga que vão acompanhar o virar do milénio?

Voltamos a um glamour, a uma celebração da vida. Fiz agora 24 páginas para uma revista sobre o sorriso, uma coisa positiva. Up!

 

Quem são os seus fotografados predilectos?

Adoro a Kate Moss, nas modelos é a minha favorita. E adorei a Princesa Diana. Foi a Christies que me pediu para a fotografar para a Vanity Fair, para promover o leilão de vestidos. Numa mulher linda, rica, que tem tudo, o seu lado humano era extraordinário. Tenho que dizer que adoro a Madonna. Gosto de pessoas que trabalham, trabalham, trabalham; como ela.

 

 

Publicado originalmente no Diário de Notícias 

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