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João César Monteiro

João César Monteiro é o maior cineasta português da sua geração. Nasceu na Figueira da Foz há cinquenta e oito anos, o que não conta muito para o caso. Tem um filho rapaz com treze anos. Criou alguns  dos mais belos filmes do nosso cinema e neles apresentou-nos o senhor João de Deus, personagem criado por si que muitos consideram ser um prolongamento manifesto da sua loucura. Se me permitem, prefiro chamar-lhe extravagância. O João César não se importa nem um bocadinho com o que lhe possam chamar. Filhos da Puta é uma expressão que lhe é particularmente cara.

O encontro no Príncipe Real, numa Lisboa cálida e luminosa, perto da casa que comprou com o dinheiro do novo filme, era, justamente, para começar por falar do que acabou de rodar e que está agora a ser montado. Le bassin de John Wayne é um título ainda provisório e aparentemente pouco revelador. John Wayne é, curiosamente, um dos preferidos de João César. Conta o realizador, horas mais tarde e já levemente toldado pelo whisky, que um dia o cowboy se envolveu numa luta com um outro actor, de porte consideravelmente inferior. Achou este que tinha conseguido bater aquele. Puro engano, na perspectiva de João César. John Wayne é que deixou ser agredido pelo outro. Teve a  delicadeza de perceber que não seria justo envolver-se com quem não era da sua igualha.

Lamento que não possam ouvi-lo dizer o que vão ler a seguir.         

 

Quer começar por apresentar o filme?

O filme apresenta-se a ele próprio. A minha cabeça esvaziou-se. O filme saiu-me da cabeça e está registado. Não tenho a noção de conjunto, do que está feito. Se calhar daqui a uma semana já tenho; é que ainda não o vi.

 

Nesta fase de montagem não tem, paradoxalmente, uma ideia muito mais precisa? Há um visionamento do que foi feito.

Mas é parcelar e descontínuo. Trabalha-lhe sobre parcelas e não sobre a totalidade.

 

Também se filma em parcelas. O filme corresponde ao que idealizou, ao que começou por existir na sua cabeça?

Sim. É um filme cheio de peripécias que deveria ter sido feito em 92. Foi inicialmente pensado para ser rodado em Paris e depois andou em bolandas. Por razões que têm a ver com produção, orçamentos, etc, foi-me proposto que fosse feito em Évora. Mas achei que não dava, a minha relação com a cidade... Depois pensei no Porto; andei a ver lugares e chegou a ser escrita uma versão portuense. Mas faltaram-me alguns apoios locais, nomeadamente da parte de cenografia, e optei por Lisboa.

 

Não deixa de ser interessante que, apesar de todas as peripécias, Lisboa continue a ser a sua cidade; mesmo sendo uma cidade diferente da que filmou nas «Recordações da Casa Amarela».

Sim, mas o filme tem muito pouco de Lisboa porque ao fim da primeira semana de rodagem levou uma grande volta. Apareceu-me um actor, muito bom actor, que vinha para fazer um papel pequenino; achei que seria uma pena desperdiçá-lo e resolvi confiar-lhe a parte que me estava destinada. Era para ser uma viagem numa carroça puxada por um burro, uma espécie de périplo joyciano com visita a vários lugares. Resolvi mandar tudo às urtigas e o périplo ser confortavelmente narrado.

 

Mas continua a ser um périplo joyciano, no sentido de falar da condição humana?

Sim, sim. O filme é maioritariamente falado em francês. Ainda pensei em fazer uma versão portuguesa mas não pude contar com os actores com quem me apetecia trabalhar, não estavam disponíveis.

 

Voltando à essência do filme e ao périplo joyciano. Quais são, no filme e para si, os pontos chave do percurso?

É preciso que eu faça um pequeno preâmbulo. O objectivo era fazer o filme para comprar uma casa, não sei se me faço entender, ganhar massaroca. A fórmula que me deu dinheiro foi um contrato, vantajoso financeiramente, que eu assinei com o meu produtor para fazer este filme.

 

Filma, então, para comprar casas?Fiz este filme para comprar uma casa. Pode ser que faça outro para comprar uma segunda residência. Portanto, parece haver da minha parte um certo interesse no chamado investimento imobiliário. Isto é uma coisa muito segura; o filme é mais duvidoso. Para já há um pequeno paradoxo: não faço a mais pequena concessão ao comércio, ao público, embora um filme seja um objecto comerciável, com um determinado valor enquanto mercadoria. Mas eu aí já ganho muito pouco.

 

Como assim?

Poderia ganhar se me fossem pagos os direito de autor, se houvesse uma sociedade que se ocupasse disso e não há. Posso dizer-lhe que até hoje, em direitos de autor, ganhei trezentos e quarenta escudos e tenho mesmo o recibozinho que vou emoldurar.

 

Mas vive-se hoje uma fase diferente no cinema português. Com este filme ganhou dinheiro para comprar uma casa.

Ouça, se me pagam para poder comprar uma casa suponho que não é pelos meus lindos olhos. Suponho eu.

 

Nunca questiona o seu talento?

Eu não sei se tenho talento, começo por aí. Não me ponho essa questão, nunca na vida, quero lá saber. A única coisa que faço questão... Como eu costumo dizer, é merda mas é a minha. Deixar as minhas marcas. Num filme, no mundo.

 

Mas esse é um processo que envolve prazer? Os filmes dão-lhe prazer?

Não me dão nenhum particular prazer. A não ser episodicamente. Posso entusiasmar-me com determinados planos, porque sinto que há uma conjunção de factores múltiplos favoráveis a um bom resultado. Dá-me imenso prazer ver o jogo de actores e a relação que estabelecem com a luz e com o resto.

 

Faz filmes exclusivamente porque precisa de ganhar dinheiro, não os faria de outra forma?

Não.

 

O que é que gosta de fazer?

Nada. A sério.

 

O que é o seu ideal de um dia perfeito?

[Hesita] Não sei se há dias perfeitos. Sou sensível aos ruídos, à luz, às pessoas, mas não sou antropocêntrico. Estou cada vez mais céptico em relação aos seres humanos.

 

Está desencantado?

Eu nunca gosto de ser muito afirmativo. Digamos que estou pouco encantado. Desgosta-me a sociedade da qual me tento excluir na medida do possível. Mas isso tem um preço, não é muito agradável. Não tenho à minha volta as pessoas que eu queria.

 

Essa margem de desencanto foi-se agudizando com a idade? Deixou de ser ingénuo?

Não sei se perdi inteiramente a inocência. Se não perdi inteiramente estou em vias de. Mas tento preservar o meu lado infantil. O mundo é das crianças.

 

O princípio das crianças é o princípio do prazer.

Não tenho tido muita convivência com crianças. Sinto-lhes a falta. Acho que é o meu mundo. A sua espantosa capacidade de curiosidade e sua espantosa incapacidade de verbalizarem o que vêem, o que ouvem e o que sentem.

 

Olhando para si não se consegue imaginar como foi o João César Monteiro Criança.

Eu venho de uma pequena cidade de província, uma pequena cidade chamada Figueira da Foz, e estabeleci logo uma reputação que não era boa, devo confessar. Diziam que eu tinha comprimidos atómicos dentro do corpo, que era muito endiabrado. E dizia-se pior ainda: que eu era o terror da cidade. Fazia, em suma as piores patifarias, coisas mesmo atrozes. Uma vez pus uma cana na porta de saída do autocarro para as peixeiras caírem. Outra coisa que também me agradava muito era apalpar mamas, sobretudo a criadas. E por isso fui punido com um bofetão. Tinha sete, oito, nove anos.

 

Uma hiper-sexualidade?

Não diria tanto. Seguramente era a sexualidade difusa da idade. Outra coisa que eu gostava muito de fazer era levantar saias às meninas. Fui suspenso do liceu quinze dias.

 

Dava-se com rapazes ou com raparigas?

Com rapazes. As meninas era só para espreitar debaixo das saias.

 

Qual é para si a grande diferença entre ter uma amiga mulher e um amigo homem?

Bom, eu não tenho... A pergunta é embaraçosa. Como não tenho amigos, nem amigos homens nem amigas mulheres, isso coloca-me alguns embaraços. Eu aceito mal algumas expressões, como “gosta de mulheres, gosta de homens”. Não é verdade que eu goste de mulheres. É rigorosamente verdade que posso gostar de algumas mulheres. Poucas. E homens a mesma coisa. Mas isto não responde à questão da amizade. Tratando-se de amizade não há diferença nenhuma. Só que, às vezes, com as mulheres acontecem outras coisas que já não têm a ver com amizade. Têm a ver com desejo ou com paixão. Evito falar na palavra amor. A diferença entre amizade e amor é que o amor é sempre, sempre exclusivo.

 

É um homem de muitas paixões? O cepticismo de que falou também se estende ao campo amoroso?

Sou sensível às fraquezas da carne e normalmente fico-me por aí. A minha rota é uma rota de gratidão, Obrigadinho por este bocadinho. Vai-se além disso uma, duas vezes na vida. Sei do que estou a falar porque já tenho cinquenta e oito anos - embora não pareça... Homens, nada!

 

Transporta sempre essa sexualidade à flor da pele para os seus filmes?

Ah! Pois com certeza.

 

Neste filme como se inscreve o desejo?

O desejo está inscrito no corpo do filme e na cabeça das personagens masculinas.

 

Parece que na sua cabeça as mulheres não têm desejo, são só objectos de desejo.

Trouxeram-me uma vaca francesa para este filme, o que é que poderia fazer? Não tenho culpa nenhuma. Os actores eram muito mais interessantes que as actrizes e isso conta. Digamos que este é o meu primeiro filme misógino. O que não quer dizer que suceda no próximo.

 

Na sua cabeça está sempre tudo a mudar.

Ai isso está.

 

Ao cabo de uma semana de rodagem decidiu alterar tudo com a chegada de um actor francês.

Repare que foi ele que decidiu. Se não fosse aquele actor...Foi ele que fez mudar o curso das coisas.

 

Mas foi você que orientou a mudança das coisas.

Mas esse é o papel de um cineasta.

 

Qual é a sua atitude? Mudar diariamente, adaptando-se às circunstâncias?

Exactamente. É um processo muito pouco egocêntrico, isto é, há um ego que não impõe nada, que se deixa visitar como uma fêmea e que recebe as coisas.

 

Eu diria que é terrivelmente egocêntrico, está nos seus filmes de todas as formas. Mas enquanto cineasta há aqui uma pequena incoerência. No começo da nossa conversa falámos de si enquanto general e da equipa que existe para executar as suas ordens; agora estamos a falar das sugestões da equipa e da sua relação com o general.

Eu faço uma distinção entre equipa e actores. A um fotógrafo eu peço que seja feita uma fotografia assim e não assado; isto é acordado e não tem discussão. Este é um filme feito com um projector e o resto com luz natural. O som acordou-se que era directo. Isto são coisas traçadas desde o início do filme. O relacionamento com actores é de outra ordem. No meu caso recuso a palavra director de actores, não sei dirigir actores, não quero dirigir actores, é uma relação de cumplicidade e empatia para que as coisas funcionem. Ou não. Se não se estabelece uma troca não há funcionamento possível. Foi o que aconteceu com a vaca francesa que me foi impingida pelos produtores. Neste filme, por circunstâncias várias, houve um óptimo relacionamento.

 

É mais sensível ao talento ou à componente humana?

Sou sensível às duas coisas, tenho preferência por uma humanidade talentosa. Ainda agora tive um susto com um actor. Sabia que era talentoso, simplesmente apareceu-me num estado inconcebível, a cair de bêbedo e sujo. A minha primeira reacção foi Este tipo vai para Paris, já, e cheguei a falar-lhe nisso. Depois dormi sobre o assunto e preparei-me para o aguentar três ou quatro dias, era um papel pequenino, podia transformar a personagem dele num bêbedo insuportável. No dia seguinte ele apareceu-me lavadinho, vi-o num primeiro plano, fulgurante, pensei que ia bem com o outro e poupava-me trabalho a mim - porque era eu que ia fazer o papel...

 

Você não gosta mesmo de trabalhar, pois não?

Não tenho o direito de dizer que não gosto de trabalhar porque o meu trabalho num filme é privilegiado, sou omni-senhor. Nesse sentido gosto. O que acontece é que eu não estava em condições físicas de suportar a dureza de um filme. Adaptei-o à minha debilidade física e até, de certa maneira, psíquica. Fiz um filme em cinco semanas trabalhando quatro horas diariamente.

 

Qual é o seu esquema, ensaia as coisas, prepara-as minuciosamente?

Nem sempre sai, mas tento filmar à primeira. As coisas estão devidamente preparadas, sobretudo neste filme com sequências bastante longas – alguns planos têm dez minutos. Para os actores é formidável, nem sequer têm aquele aparato da luz...

 

A luz e a música são elementos fundamentais nos seus filmes.

Sob esse ponto de visto este tem coisas fabulosas. Tive sorte, apanhei dias de nuvens com vento e, como os planos são longos, as variações luminosas são muito grandes.

 

Filmar com a luz natural...

É o grande iluminador, o Nosso Senhor...

 

Isso prende-se com uma ligação maior à vida e às pessoas de todos os dias?

Sobretudo permite rodar com uma grande rapidez. Chegámos a filmar vinte, vinte e cinco minutos por dia. É mais que nas telenovelas sem ter o ritmo das telenovelas. Há só um ângulo, que foi aquele que eu escolhi, e não há mais nada, não há rede.

 

As coisas já estão grandemente definidas quando chegam à montagem?

A montagem de imagem fez-se numa semana. O som dá mais trabalho.

 

Mas voltando à luz e às pessoas. De que estímulos é que se alimenta para a sua construção, enquanto cineasta e enquanto pessoa?

Onde vou beber? Tirando a parte alcoólica da questão alimento-me do que fui sedimentando ao longo dos anos, das minhas memórias, das coisas com que me fui cultivando. Livros, músicas, filmes, bacalhau com batatas...

 

E observa muito as pessoas?

Agora menos.

 

Não me diga que as personagens da Comédia de Deus ou da Casa Amarela saem todas desses livros, dessas músicas e desses filmes. Você está com essas pessoas?

Um bocadinho. Quer dizer, há umas camadas sociais que eu não aprecio assim muito. O que resta de certas camadas populares, certas tascas antigas...

 

Porquê essas camadas populares, é a procura da simplicidade?

Há um certo modo de estar, que curiosamente não é preconceituoso, um certo à vontade, até no modo de expressão, por vezes grosseiro, que me agrada. Não é um modo simples, é um modo franco.

 

Estava a pensar que todas as entrevistas suas que li foram feitas por homens e que a sua linguagem era, por vezes, grosseira – para usar o seu termo – e mais próxima daquela que é a sua linguagem fílmica.

Mas eu posso ser extremamente delicado.

 

O que é que o faz ser delicado?

A alteridade, isto é, o reconhecimento do outro.

 

Significa que se eu fosse um homem e usasse outras palavras...

Não, significa que eu posso ser extremamente delicado quando sou afectuoso, quando há um embrião de afecto. Sou uma pessoa doce, de um modo geral. Mas também tenho fúrias.

 

Tem um conhecimento e um controlo de si na doçura e na agressividade?

Normalmente controlo-me; ou faço as coisas deliberadamente. Quando não gosto de uma pessoa, cinco minutos depois dou-lhe a entender isso mesmo, para que não haja equívocos; e quando gosto, utilizo os meus estratagemas.

 

Vai treinando?

Um bocadinho. Agora como descobri que sou actor, um péssimo actor, mas enfim...

 

Acha mesmo que pode dizer isso de si? Até já ganhou um prémio muito sério...

Acho que não sou um bom actor.

 

E realizador?

Acho-me francamente bom, atendendo ao que há para aí...

 

Agora é actor...

Sim, faço os meus exercícios. E como criei uma personagem dá-me um certo prazer, na vida real, de vez em quando, comportar-se como o senhor João de Deus.

 

Mas ele não é uma parte de si, um dos seus heterónimos? Há o Max Monteiro – Actor, o João César Monteiro – Realizador, o João de Deus – Personagem...

É um personagem com determinadas características, um ser livre. Praticamente tudo lhe é permitido. Utilizo-o como um teatro. Por vezes torna-se chocante. É verdade que isto incide sobretudo em meninas ou em senhoras.

 

E como é que elas reagem ao seu treino de senhor João de Deus?

Digamos que em cada dez há uma que marcha. As outras nove manifestam pouco interesse na personagem e a personagem não se torna demasiado insistente. Não vale a pena pregar no deserto.

 

Você é muito mais lúcido do que parece.

Toda a gente que me conhece sabe isso. De maluco tenho muito pouco.

 

Gosta de representar, então.

Mas não acha que o nosso quotidiano é muito cinzento? Eu raramente me aborreço. Um dos meus prazeres é olhar para as meninas, vê-las passar, cheirá-las, extasiar-me com elas.

 

De alguma forma é uma relação unilateral.

Felizmente é uma relação unilateral, senão não tinha mãos a medir!

 

Esse é o seu primeiro pensamento? Estamos aqui na esplanada...

Sim, pode dizer-se. Se eu fosse um sucesso total tinha de abdicar, não fazia mais nada. Tenho de catar melhor a vizinhança, talvez haja alguma mãe solteira nas redondezas.

 

Poderia viver num outro país, numa outra cidade?

Eu pensei em ir viver para o Porto. Noutro país nem pensar! Não me imagino a viver em Paris ou em Barcelona.

 

É assim tão português?

Sim, sim.

 

Os nacionalismos preocupam-no?

Os nacionalismos preocupam-me. E o Bundesbank também. Mas eu não sou um nacionalista; tenho é ligações com isto. Por acaso, não especialmente com Lisboa.

 

Não especialmente com Lisboa? Quase parece um contra-senso, depois de o ver e de o ler.

Eu cheguei à conclusão de que podia viver no Porto. Não poderia viver, ou viveria mal, em Évora ou na Figueira da Foz.

 

Do que é que precisa nos sítios para lá viver?

Preciso de uma casa.

 

Também pode ter uma casa em Évora.

Uma segunda residência, para os fins-de-semana. Preciso de uma ou duas mulheres, não mais, e de crianças, que até já podem estar feitas.

 

E crianças um bocadinho mais crescidas? Raparigas tenras como as que apareceram nos seus filmes.

Gosto de crianças. As adolescentes da Comédia [de Deus] sabem mais do que eu, foram muito bem industriadas e já não são assim tão novas como parecem. Não é que eu tenha um gosto especial por crianças; gosto de algumas. Até suponho que tenho uma; por acaso é rapaz.

 

Se fosse rapariga mudava alguma coisa?

Mudava porque se trataria de um outro Ser.

 

O que é que tenta passar ao seu filho?

Eu tenho uma boa relação com o meu filho. Neste momento não faço grande coisa com ele porque não o tenho visto. Mas gosto de levá-lo a passear, impingir-lhe umas coisas, o gosto pela leitura, desviá-lo da televisão na medida do possível – o que é difícil para um pai hoje em dia. Temos alguns gostos comuns, não necessariamente cinematográficos.

 

Ele vê os seus filmes?

Vê, não estou seguro que goste de todos; mas isso para mim não tem importância nenhuma.

 

Há alguém a quem mostre os seus filmes e cuja apreciação crítica seja relevante para si?

Tenho imenso respeito por alguns críticos de cinema. Que já morreram. Aqui há uns dez anos atrás havia uma pessoa que tinha bastante importância a quem eu mostrava os argumentos que escrevia, o Carlos de Oliveira. Morreu e não encontrei substituto.

 

Não me diga que nunca se sente inseguro?

Acho que sim. Num filme, por exemplo, é uma coisa que toda a equipa sente. Tenho uns truques. Normalmente passam por... Bom, não devia estar a revelar isto... Faço umas birras e não sei quê. O intuito é, quase sempre, ganhar tempo, se se trata de uma cena mal pensada ou qualquer coisa no género.

 

Além da insegurança, revela sentimentos como a sensibilidade extrema ou a comoção?

Por vezes sinto-me empedernido, mas ainda me consigo comover.

 

Lembra-se da última vez que chorou?

Lembro-me que chorei depois de ter sido agredido por três ou quatro polícias. Chorei de raiva e de humilhação. Ainda por cima foi uma história disparatada. Eu encontrei um tipo que é deputado do Partido Socialista, por acaso um rapaz do Porto, e entrei com ele em S. Bento, na Assembleia, a conversar; depois, ele deixou-me num corredor e eu andei para ali sozinho até que, de repente, me saltam três ou quatro polícias em cima.

 

E agridem-no sem você fazer nada?

Exactamente.

 

Está a falar a sério?

Estou a falar a sério. Chamei-lhes logo Filhos da Puta, uma expressão que eu utilizo muito. Gosto imenso da expressão Filho da Puta. Tenho uma engatilhada há anos. O meu sonho é ser julgado em tribunal e quando o juiz disser “levante-se o réu” a minha resposta é “levante-se você, seu filho da puta”. Agora, como para chegar até ao tribunal é uma maçada, estou a pensar em metê-la num filme.

 

Seria óptimo para si viver numa anarquia.

Seria bom para todos. A anarquia é uma coisa muito ordenada.

 

Qual é o seu ideal de sociedade?

Eu sou por uma transformação radical da sociedade, por meios violentos. Se pudessem ser pacíficos tanto melhor, mas já se sabe que assim não se vai lá. Vai haver uma nova revolução, mas não nos mesmos moldes das fracassadas revoluções.

 

Não se sabe é quando.

Todo o sistema capitalista está agónico, é um sistema autofágico. A revolução será menos classista e, se calhar, serão os próprios ricos – deixe-me usar esta linguagem simples - que vão ter de a fazer. O mal-estar está perfeitamente instalado na classe dominante. A classe dominada tem os problemas do costume, de sobrevivência, etc; a outra tem toda a estrutura familiar desfeita, os filhos tresmalhados... Se não lhe quiser chamar revolução chamo-lhe, pelo menos, reciclagem do sistema.

 

Consegue imaginar-se daqui a vinte anos, com ou sem essa revolução?

Consigo. Imagino-me na mesma.

 

Há vinte anos imaginava que iria ser o que é hoje, fazer o que faz hoje?

De maneira nenhuma. Fazia uns filmezecos, sem pretensões nenhumas. Eu não melhorei; os outros é que pioraram. Piorou o cinema. Emergi por desmérito dos outros, não tanto por mérito próprio.

 

Vai fazer o culto do antigo? Dantes é se faziam bons filmes, escreviam bons livros, compunham boas músicas. Não há coisas que agora se façam que aprecie?

De um modo geral não. Não vou ao cinema. Gosto de um iraniano, o Kiarostami, até lhe mandei um telegrama a dar-lhe os parabéns pelo prémio. Na poesia fiquei-me pelo Herberto Helder e gosto do Joyce.

 

Nós começámos por falar de um périplo joyciano. Se tiver de procurar a essência de si, como o Ulisses, o que é que encontra?

O que eu encontro é uma coisa muito confusa e muito diversificada. O ser humano é múltiplo, tremendamente contraditório e não gostaria de catalogá-lo em termos de bem e de mal.

 

 Quem estipula as balizas de bem e de mal?

Como sou evidentemente ateu sou eu que estipulo as minhas balizas de bem e de mal.

 

Nunca se agarra a nada quando se sente desesperado?

Agarro-me à Ana! [a namorada, que está ao lado]. E agarro-me a uma garrafa de whisky. Enquanto cineasta é a mesma coisa; só que não me agarro à Ana, agarro-me aos filmes. Não é importante ter uma mente sã; só é importante ter um corpo são. Odeio a ideia de ser imobilizado pela doença.

 

Tem medo da doença?

Tenho medo por várias razões. Inclusivamente porque não tenho assistência social, os médicos são uma fortuna, os hospitais, como diria o Baudelaire, são matadouros, e, como tenho medo, nunca adoeço. Apanho umas bebedeiras e no dia seguinte estou bom.

 

Do que é que tem medo, além da doença?

Para ser franco, da miséria, da fomeca, de não ter onde cair morto – e não tenho medo de morrer.

 

Tudo isto vinha a propósito das noções de bem e de mal.

Sim. As noções remetem para uma atitude moral, não exclusivamente da esfera pessoal, também toca o cinema. Para mim o cinema não tem nada a ver com a moral, mas sim com o que é sagrado e o que não é sagrado.

 

O seu cinema, curiosamente, está cheio de rituais. O que é sagrado para si?

O sagrado é o que toca a criação. Quer seja um filme, quer seja um filho. São os meus limites, a fasquia que eu não devo ultrapassar. Ultrapassar isso é matar, ou, se quiser, matar-me matando.

 

 

O filme. Algumas notas da ficha técnica.

Le bassin de John Wayne (A bacia de John Wayne) é uma co-produção da portuguesa Fábrica de Imagens e da francesa Euripide Films. Ainda não há certezas quanto à distribuição, mas o autor gostaria que fosse Paulo Branco a fazê-la. O Festival de Veneza abriu uma excepção e, fora de tempo, aceitou ver o filme. Quase todos os intervenientes têm papeis duplos ou mesmo quádruplos. João César Monteiro interpreta nada menos que quatro personagens. Pierre Clementi e Hugues Quester, os outros dois protagonistas, interpretam dois cada um. Manuela de Freitas, actriz fetiche do realizador, dá corpo a uma puta de cabaret. Joana Azevedo é descoberta para este filme e interpreta duas personagens. É da boca dela, enquanto Ariene, que podemos saber do estranho mistério que envolve a bacia de John Wayne. “Não há mistério nenhum. É muito simples: O John Wayne arrasta ligeiramente a perna esquerda, porque é mais pesada que a direita. Os velhos alfaiates sabiam-no e, por isso, provavam as calças sempre à medida. Na perna esquerda, junto aos órgãos genitais, desenhavam a giz uma bolsinha e perguntavam escrupulosamente aos clientes: “Está bem assim, ou quer um nadinha mais folgada?”. Ora aí tem!”

A ideia para o filme surgiu a partir de uma conversa com um crítico francês entretanto morrido (segundo o autor, grande filósofo destes tempos) de nome Serge Daney. Um dia este telefonou a João César e contou-lhe: “ J’ai rêvé que John Wayne jouait merveilleusement du bassin au Pôle Nord.”

A sinopse do filme é longa, aparentemente confusa e irreproduzível. O João César Monteiro ainda não sabe quando vai ser possível saber da história no grande ecrã. Como foi muito simpático cedeu-nos estas fotografias de rodagem para poderem ver, antes dos outros verem, algumas das mais belas imagens de Le bassin de John Wayne.  

 

 

Publicado originalmente no DNa, do Diário de Notícias, em 1997

João César Monteiro morreu em  2003

 

 

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