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Sicília

O Leopardo

“É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”, a celebérrima frase do príncipe de Salina, em Il Gattopardo, é repetida por políticos, pensadores, gente comum no mundo inteiro. Ficou como epitáfio de um tempo e de um lugar. E funciona como um anagrama: que quer realmente dizer?

A obra de Lampedusa, que Visconti adaptou ao cinema, é uma obra sobre o fim de um tempo. O livro, e o filme, concentram a decadência e o desejo num mesmo plano. Burt Lancaster e Claudia Cardinale são a expressão dessa síntese e dessa contradição. A Sicília é isto: uma oposição de termos, uma combinação improvável, um diálogo impossível. Vai directamente às entranhas e não sabemos por que ficamos cativos.

O livro de Lampedusa descreve com rigor uma matéria impossível de ser descrita: o sangue, a tradição, a terra vermelha, a impetuosidade da juventude, a estratificação social, a beleza, o pavor da decrepitude. O filme traduz isto em imagens, com o génio de Visconti.

No centro de Palermo fica o palazzo onde foi filmada a mágica cena do baile. Um dos maiores filmes de todos os tempos. Uma obra maior da literatura. Imprescindíveis para entender, ou começar a entender, a Sicília. 

 

Goethe, Viagem a Itália

O melhor guia para visitar a Sicília foi escrito em 1787 e é um diário de viagem. O autor, o escritor (e sábio) alemão Johann W. Goethe, encontrou na Sicília “a rainha das ilhas”. Ultrapasse a estranheza de ter na mão um guia com mais de 200 anos: as impressões de Goethe não são extemporâneas, e, mais do que tudo, chamam a atenção para o melhor da Sicília. A “fertilidade luxuriante”, “a pureza dos contornos”, “a harmonia do céu, do mar e da terra”, o “Monte Pellegrino como a mais bela das pequenas montanhas do mundo”, “os frutos e legumes são deliciosos, em especial a alface, tenra e saborosa como um leite; entende-se a razão por que os Antigos lhe chamaram lactuca. O azeite, o vinho, é tudo muito bom. Os peixes são dos melhores, muito delicados.” Tudo isto se mantém.  

Goethe passou meses percorrendo a ilha, subiu ao Etna (vulcão colossal, símbolo de poder, criação, destruição) de mula, preso a uma corda, para, em segurança, admirar a paisagem que se estendia de Taormina até Siracusa. Hoje, a vista não é tão fabulosa, mas as expedições ao Etna são uma aventura a não perder. Ficamos a sentir-nos do tamanho de uma pedra. Ideia: traga uma pedra no bolso e guarde-a num canto onde a possa ver diariamente (uma saboneteira, por exemplo). Desde modo, tem um pedaço do Etna consigo e a memória da viagem.

Goethe desenhou um plano para a incursão na Sicília. Refazê-lo é um possível enredo para a viagem. Faça-o. A verdade é que a Sicília tem tanto para ver que é importante definir, antes de iniciar a viagem, o que é que procura. Faça escolhas, é impossível ter tudo. O plano do autor alemão preteria as praias, incidia sobre as pedras, a botânica, os vestígios de uma glória milenar, o encanto das pessoas que encontrava. E cruzava isto com os livros, com a expectativa que trazia: «Quanto a Homero, foi como se me caísse uma venda dos olhos. As descrições parecem-nos poéticas e afinal são extremamente naturais, embora criadas com uma pureza e uma autenticidade que nos assusta». Na Sicília, percebeu que a Odisseia é uma palavra viva.

 

Teatro Grego de Taormina

O mais belo teatro grego do mundo fica na Sicília, em Taormina. Construído no século III antes de Cristo, oferece uma vista insuperável sobre o Etna, o mar, a baía. Parece um milagre que entre rochedos se tenha erguido aquilo a que Goethe chamou “a mais incrível obra da natureza e da arte”. Corta a respiração. Não é à toa que lhe chamam morada dos deuses.

Descalce-se, procure a vibração das pedras no contacto com os pés, pense nos milhões de pés e de dias que aquelas pedras conheceram, nos grandes que por ali passaram, na sapiência das tragédias que ali foram representadas. Além das fotografias, escreva postais em diferentes pontos do anfiteatro, teste a acústica nos diferentes degraus, meça a vista para o Etna, para o azul, para Naxos (localidade mítica, ali tão perto). Roube outra pedra, guarde-a numa gaveta, pense na beleza de Taormina sempre que a vir.

O teatro continua a ser usado para espectáculos no Verão. Tem ali lugar um famoso festival de cinema. Se for de manhã cedo, estará menos cheio. A vantagem é que terá o anfiteatro só para si. Taormina é muito, muito visitado. Conte com milhares de americanos, japoneses, turistas do mundo inteiro.

Um outro teatro grego é especialmente bonito e está em bom estado: o de Siracusa. Mas a localização não tem a espectacularidade do de Taormina. Em todo o caso, veja ambos. Entre as duas cidades há apenas 80 quilómetros de distância.

Não deixe de brindar com prosecco a visita a Taormina. Mesmo que seja de manhã cedo! Numa terra excessiva, gestos excessivos!

 

Stromboli

Ingrid Bergman era a actriz mais bem paga do cinema americano quando entrou num cinema de bairro para ver um filme de um autor italiano, Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini. Ficou tão impressionada com Roma que decidiu escrever ao realizador disponibilizando-se para trabalhar com ele.

Começou assim uma grande história de amor e uma colaboração cinematográfica que durou tantos anos quantos os do casamento – sete. A despeito de terem sido mal recebidos na época, os filmes são obras-primas absolutas. Entre eles estão Viagem a Itália ou Europa 51.

O primeiro filme que fizeram foi rodado integralmente em Stromboli, uma pequena ilha vulcânica que faz parte do grupo das ilhas Eólicas. Foi na Primavera de 1949. A casa onde viveram, de fachada cor de telha, tem uma placa de mármore que o anuncia. “In questa casa… “. Nem sempre a casa é visitável, mas pode sentar-se na soleira da porta!, e pode comprar postais evocativos.

A casa fica a dois passos da praça principal, no largo da igreja, em frente a um café chamado Ritrovo Ingrid. Tome um pequeno-almoço no terraço, com o mar aos seus pés, de um azul incandescente, e a imponência do vulcão no lado oposto ao do mar. Opte pelo clássico da ilha: granita com brioche e panna. Ou seja, um granizado de café, limão ou framboesa, entre outros sabores, onde se molha o pão, misturado com natas ou gelado. (Gelado ao pequeno almoço, sim!)  

Para chegar a Stromboli apanhe o barco em Messina. Se o fizer muito cedo, às sete da manhã, por exemplo, chegará à ilha uma hora e meia depois (num barco lento, comum, barato). A viagem é belíssima, com o dia a acordar sobre um azul cobalto. A ilha, quando se avista, parece um pedregulho – de tão pequena. Mas é encantadora. Tem imensos sardões, que cruzam a pedra a todo o instante. Calor abrasador no Verão. A praia, como é próprio num solo vulcânico, tem calhaus em vez de areia, mas a água é transparente. Não raro, vê-se uma espécie de fogo-de-artifício… Assistir às erupções do Stromboli é memorável. Seguramente, um dos sítios mais bonitos do mundo.    

 

Palermo

É uma cidade onde esquecemos quem somos e passamos a ser outros. É uma cidade, que nos toca num sítio que não identificamos, como se não fosse atravessada pela razão.

A arquitectura, a temperatura, a atmosfera é idêntica à de Nápoles. Misteriosa e superlativa, portanto.

Tudo nela é fascinante. As igrejas, as caras das pessoas, o lixo nas ruas, as ruínas. Esquinas onde não se sabe o que esperar. Mulheres e homens que parecem saídos de um desfile de Dolce &Gabbana. Mulheres que riem, voluptuosas, com ar de quem acabou de pôr talco nos pés ou fazer raviolis para toda a família. Homens que desafiam com o olhar, de têmpera orgulhosa, sanguínea, animal. Observe-os numa esplanada, demore-se, sentirá o feitiço. 

Outros encantos de Palermo: o jardim botânico, onde está uma figueira imensa (uma das maiores do mundo).

 

A Antica Focacceria di San Francesco, um clássico da cidade cuja história remonta à Idade Média: era o restaurante onde se encontravam viandantes, peregrinos, gente humilde. Pão com rim fatiado é a principal atracção. Sugere-se um esparguete com pesto de pistachio, (molho muito popular na Sicília). A Cappella Palatina, o Museu Arqueológico. O Grand Hotel e des Palmes, que parece cenário de um filme sofisticado, nebuloso, palco de intrigas e transacções.

Coma gelados por tudo e por nada. Ande pelas ruas sem destino. Experimente uma colónia duvidosa feita à base de citrinos na Sicília. Deixe-se ir…

 

10 coisas obrigatórias na Sicília

- A roupa do criador António Berardi, de origem siciliana e inglesa. Segundo o próprio, é autor do estilo baroque ´n´roll. Ou seja, está entre a tradição e o sangue siciliano; e a modernidade e a precisão britânica. Kylie Minogue é fã. E Sarah Jessica Parker usa Berardi no Sex and the City. Precisa de mais argumentos? 

A Terra Treme, filme de Luchino Visconti. Um retrato neo-realista de uma aldeia piscatória. As caras, sulcadas pelo mar e pela terra, são duras. O dialecto é incompreensível. Mas os gestos, os olhos dizem tudo o que há para saber.

- Um banho de lama em Vulcano, uma das ilhas Eólicas. Fica-se com pele de bebé. Conselho: não leve para a ilha nada de que goste. O cheiro a enxofre é tão intenso que nunca mais desaparece!

- Os vinhos licorosos Malvasia e Marsala. O Malvasia é originário de Salina, outra das ilhas Eólicas. Vendem-se em todo o lado. Com brioche, fazem uma refeição ideal para o fim de tarde.   

- As Crónicas Italianas de Stendhal. Sentimentos exacerbados à flor da pele. Leia-as à sombra, nas horas de máximo calor.  

- As criações de Massimo Izzo, um joalheiro originário de Siracusa. As peças são realmente bocados de mar. Laboriosas, com aspecto artesanal. As cores dominantes são o azul e o coral.   

- Corleone é uma pequena localidade no coração da Sicília. Habitada por mulheres vestidas de preto, mafiosos de fato riscado, um silêncio suspeito, uma ameaça no ar. Tem a certeza que quer ir lá? Saiba como é a partir da saga O Padrinho.

- Os sabonetes e perfumes Ortigia. Transportam consigo o cheiro, a cor, a memória da ilha. Laranja, figo, amêndoa são odores dominantes. Vendem-se no mundo todo.

- A procissão de Santa Rosalia, padroeira de Palermo, no meio de Agosto. Faça uma promessa, ponha uma vela. Não importa que não seja crente. Assistir à devoção à Santa Rosália envolve-nos mesmo sem querermos. 

- Agrigento. As ruínas do Templo de Júpiter levam ao Vale dos Templos milhares de pessoas. Em tempos, as uvas cresciam nas colunas do templo…

 

Publicado originalmente na revista Máxima

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