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Fla-Flu no Maracanã, com Nelson Rodrigues

No último domingo de Agosto [de 2008], fui ao Maracanã ver o Fla-Flu. Na verdade, fui à bola com Nelson Rodrigues – que era tudo o que me interessava. Porquê? Porque o Nelson Rodrigues escreveu coisas deste calibre: “Pelé põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha”. “Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: “Como vai, colega?”. Ainda sobre Pelé: “Vá jogar assim no diabo que o carregue”. Cinquenta anos depois de Nelson ter eleito Pelé o seu personagem do ano, eu peguei no pesado livro de crónicas e sentei-me na bancada. A vibrar com o Nelson, a sonhar ver um Pelé.

Primeira coisa: por quem torcer? O futebol não tem graça se não nos fundirmos com o “time”, com a “torcida”. Para mim, o futebol não tem graça se não olhar para a cara das pessoas, para ver como se transformam em animais. Para assistir aos “espasmos colectivos que só o Tolstoi de “Guerra de Paz” ousaria descrever”. Eu preciso de detectar as “náuseas de pavor homérico”. De perceber como “sob o estímulo da pusilanimidade, tubarões e pé-rapados largam a mesma baba, elástica e bovina”. Perguntaram-me de quem eu era – é-se de alguma coisa, e o sentimento de pertença é vigoroso, exclusivista, definitivo. Mário Filho, irmão do Nelson, jornalista desportivo que deu o primeiro nome ao estádio do Maracanã, dizia que se podia mudar de país, de mulher, de emprego; menos de clube de futebol. Eu respondi: “Sou Flu”. Serei redundante se disser que torci pelo clube do Nelson Rodrigues.

Estava desde logo em desvantagem. Porque o Flu estava no fundo da tabela (no momento em que escrevo, está em penúltimo lugar…), e porque a torcida do Fla é a maior do planeta. Mas o futebol interessava-me muito pouco; para ser franca: não me interessava absolutamente nada. Desconhecia em absoluto o nome dos jogadores, mas fiquei enfeitiçada com as categorias em que se subdividem: volantes são o quê?, zagueiros são os que fazem ziguezague pelo campo?, goleiros são guarda-redes – essa até eu entendo. Desconhecia as canções, mas fiz um esforço para aprender: “Eu canto ‘Nense quando o time está bem/ eu canto ‘Nense quando o time está mal/ um gol sofrido não vai me abalar/ não vou parar de cantar”. A dos outros era mais enfática e exortava à vitória: “Somos Flamengo/ Vamos ser campeão/ Vamos Flamengo/Amor e paixão”.

Desconhecia os insultos, mas rapidamente fiquei inteirada: vai tomar no cu é forte e é capaz de ser equivalente ao nosso filho da puta. Não é que não se use o filho da puta, mas essa não é uma fórmula de insulto preferencial.

Uma mulata que estava atrás de mim quase partiu as cordas vocais de tanto berrar. Ainda a estou a ouvir a pronunciar caralho, sílaba após sílaba, como se a estivessem a matar e ela cuspisse nos seus assassinos. Chamar-lhe histérica seria pouco. Estava endemoninhada. E nem o exorcismo do golo ou a sensualidade dos jogadores a acalmou. Fazia de caralho um sufixo, para gritar coisas tão simples quanto: solta, corre, chuta. Uma menina fina confidenciou-me em surdina: “Estava a pensar dar-lhe qualquer coisa para dormir… um pouco de veneno mesmo!”. Não era o facto de debitar o palavrão de forma incontinente que transtornava a bancada. Era porque a criatura impedia que cada um dissesse alto o seu palavrão – e que se ouvisse. E o palavrão tem um efeito libertador. Uma catarse que essa mulata não podia impedir. A outra razão, talvez principal, para que a bancada inteira lhe rosnasse, era a mulata torcer pelo Fla numa zona ocupada pelo Flu.

Para quem não sabe, e eu não sabia, “nenhum clássico se compara, em alma, chama, personalidade, ao Fla-Flu”. Era assim em 1958, e os adeptos do Benfica-Sporting deste fim de semana devem dizer o mesmo. Na verdade, equivalem-se: o Flamengo, como o Benfica, é o clube popular, sanguíneo. O Fluminense, como o Sporting, é o clube elitista, fleumático – se é que o adjectivo pode ser usado quando se fala de futebol; é aquele que tem classes AB, como as estratificam na televisão. É o clube dos intelectuais, que dominam a verve e que são capazes das maiores grosserias. Muito mais aterrador do que o caralho da mulata foi ouvir a claque gritar, a um minuto do fim, com vantagem no marcador: “Favela, favela, silêncio na favela!”. Um australopiteco levantou-se ainda para a última marretada: “Vai passar fome!”. Vermelho, ufano, fascista. Uma pessoa engole em seco e tem vergonha de torcer pelo Flu, apesar do Nelson… E não consegue não aplaudir quando “o Flamengo persegue a bola com fanática disposição” e marca golo logo a seguir. A justiça (social) divina, vinda do Cristo Redentor, que se via de todo o lado, ou dos Céus mesmo, repôs a igualdade. (Repôr a igualdade é tudo o que eu sei dizer em futebolês).

Nelson tinha simpatia pelo Flamengo. É muito estranho constatar isto. Não se imagina um adepto do Benfica a ter simpatia pelo Sporting. Conheço um troglodita que diz que não quer que o Sporting ganhe, quer é que o Benfica perca… Mas é normal que no futebol todos se transformem um pouco em trogloditas e digam idiotices chapadas. Quanto mais trágicas, espasmódicas, um pouco pulhas mesmo, as coisas que se dizem, tanto melhor. Menos saem cá fora, no emprego e na família. E se vamos ver o espectáculo, ao menos que ele contenha pathos

Mas Nelson Rodrigues, além de escritor genial, tinha gestos magnânimos. Poucos, mas tinha. E tinha simpatia pelo adversário. “A raiva dos 22 homens deu um colorido muito especial à batalha”. Oh, que saudades dos tempos em que o relvado era um campo de batalha, em que se jogava com raiva… Nunca vi o Cristiano Ronaldo jogar com raiva, mas posso estar a precisar de ir ao oftalmologista. Vi-o jogar com brio, com peneiras, com empenho. Mas nunca com raiva. Mourinho, que é tu cá tu lá com a raiva, sabe bem da importância de puxar pela besta que há em cada jogador. E pela do torcedor. É por isso que o Mourinho é o Mourinho. (Não levem a sério que eu nunca vi um jogo do Mourinho, mas é o que me parece numa análise comportamental de trazer por casa).

Como o Nelson, a mim interessam-me mais os estados de alma do que a condição física. “Uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocupou de uma dor-de-cotovelo que viesse a acometer um jogador e a incapacitá-lo para atirar um vago arremesso lateral. (…) Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse frequentado, previamente uns cinco anos, o seu psicanalista”. Ou seja, senhores técnicos do Benfica e do Sporting (não tenho ideia quem sejam): ponham os rapazes no divã que é tão importante quanto a marquesa e o relvado. Os rapazes podem estar machucados, mas é preciso saber se estão magoados.

No Maracanã, alguns jogadores saíram machucados, num carrinho que parece um papa-móvel. Eu gostava mais quando, na minha aldeia, se espatifavam todos no solteiros contra casados e iam de maca, a verter sangue, para os balneários. Ninguém diz que um jogador está magoado – porque isso seria dizer que ele tem os sentimentos feridos. Nem tão pouco aleijado – porque isso seria dizer que estava incapacitado (manco, estropiado, perneta, coisas assim).

Eu saí a cantar o “Cant take my eyes off you”, que o Flamengo adaptou. E cheia de sede. Por uma razão que não consigo descortinar, as mulheres não são obrigadas a passar pelo detector de metais – onde já se viu uma mulher usar arma de fogo??? – mas não podem levar para o interior do recinto uma garrafinha de água. Saí desiludida por não ter visto um jogador como aqueles que Nelson descreve: “Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”. Me desculpem, pô, depois de uma frase dessas não consigo escrever mais nada…

Apesar disso, consigo seguir o coração: desci as escadas e fui posar junto ao busto do irmão de Nelson, Mário Filho. Muito perto estavam as pegadas de Pelé e Garrincha. Muito perto estavam os milhares de pessoas que foram à guerra (uma guerrinha…) e voltaram. Extenuados. Felizes. Pais e filhos. Maridos e mulheres. Amigos e amigos. Muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Muita “camiseta” do Fla – eles são mais do que as mães. Os candidatos às eleições municipais aproveitaram para encher o ar com a sua música estridente. Silenciou-se a bateria do samba. Na verdade, o que ali se passou foi uma dança. Tribal.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008. 

 

 

 

 

 

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