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Anabela Mota Ribeiro

Ana Lopes

06.02.14


«Trabalhadores do sexo, uni-vos» abre com uma citação de Marx: «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneira diferente; a questão, porém, é transformá-lo». A antropóloga Ana Lopes cita o filósofo no seu livro e apresenta o activismo e a participação cívica como essenciais à sua vida.

É uma “menina de boas famílias” que trabalhou na indústria do sexo durante quatro anos (como operadora de linhas eróticas, modelo e dançarina de striptease). Simultaneamente desenvolveu a sua tese de doutoramento na Universidade de East London sobre os direitos e a organização laboral nesta indústria. É uma tese polémica, condensada num livro recentemente editado em Portugal pela Dom Quixote.

Ana Lopes tem 27 anos, e regressou agora a Portugal onde trabalha na criação de uma nova associação: «Tem como objectivo fomentar e desenvolver a sustentabilidade daquilo que chamamos a sociedade civil. Para que os cidadãos possam cada vez mais influenciar o local onde vivem, a sociedade onde vivem, o mundo onde vivem».

A palavra é uma arma, e a intervenção a sua divisa.

 

 

“Se pensa que vai aqui encontrar descrições picantes do mundo do sexo e da prostituição está enganado”, escreve na contracapa do seu livro. Mais do que o resumo da sua tese de doutoramento, pode ser lido como um manifesto político?

Pode. Escolhi fazer um doutoramento muito político. Comecei por querer fazer uma investigação ortodoxo da indústria do sexo. Achei que era um tema fascinante, do qual se fala muito, mas do qual se sabe muito pouco.

 

Há em relação ao grupo um sentimento de pertença – é one of them. Se não tivesse pertencido à indústria do sexo, teria esta visão que lhe permitiu fazer uma tese de doutoramento tão original?

Penso que não. Não sentiria autoridade para falar destas coisas da forma como falo, teria sempre que dizer “acho que”, “penso que”. Como já fiz parte e sou uma activista internacional, sinto-me à vontade para falar em “nós”.

 

Quando nos referimos à indústria do sexo, temos quase sempre uma atitude moralista - mesmo que tentemos descartá-la. A posição comum é a de que não pode ser a mesma coisa vender o corpo e vender uma caixa de sapatos…

Não sou diferente das outras pessoas. Até há alguns anos, nunca tinha pensado nestas questões. Descartar-me desses resquícios foi à força de passar muito tempo com trabalhadores do sexo, de me aperceber que são trabalhadores como quaisquer outros, que não há nada de transcendente nesta coisa de vender serviços e fantasias sexuais.

 

Disse “vender serviços sexuais “ e não “vender o corpo”.

É das tais coisas que nos habituamos a ouvir e que não questionamos. Não é o corpo que se vende, vende-se um serviço, que é feito com o corpo, se for - pode ser um serviço de voz, como é feito nos telefones. A maioria das pessoas com quem convivi não sente esse problema da venda de um serviço que é feito com o corpo. São muitas vezes pessoas que se sentem à vontade no seu corpo e na sua sexualidade. Se viesse à Conferência Europeia de Profissionais do Sexo que aconteceu em Outubro de 2005, tinha estado com um grupo de 200 pessoas de quase todos os países europeus que têm essa postura: “Eu não sou uma aberração”.

 

Não é essa a imagem que passa na comunicação social. Esta incide sobre o voyeurismo, a exploração e a indignidade.

Existe esse discurso dominante, as pessoas não têm a coragem de afirmar um discurso alternativo. É uma visão muito a preto e branco. Ter conhecido este grupo de pessoas, e ver que não estava sozinha, encorajou-me a afirmar o meu discurso.

 

Este livro, além de subversivo, é interpelador. Uma ideia base é a de que os trabalhadores do sexo não querem ser salvos, querem é ter direitos iguais aos dos outros trabalhadores. A outra é a de que a percentagem desses que não querem ser salvos é significativa.

As pessoas que estão em condições aberrantes não querem ser salvas da prostituição, querem ser salvas de todo o tipo de abusos: das teias de máfias criminosas, de relações violentas, de um problema de toxicodependência. Existe um mundo de problemas associados à indústria do sexo: são esses que devem ser resolvidos. Para muitas pessoas, o facto de trabalharem na indústria do sexo não é o problema em si. É uma mínima parte da indústria do sexo que está em condições de semi-escravatura.

 

A ideia corrente é a contrária: que aqueles que podem escolher são uma parte irrisória.

Conheci pessoas que trabalham nesta indústria que têm cursos universitários, mestrados, que já tiveram outro tipo de carreiras e optaram pela indústria do sexo. Também não acho que isso seja a maioria. A grande maioria dos que trabalham na indústria do sexo podemos compará-los àqueles que fazem trabalho não-qualificado.

 

Aos que trabalham numa fábrica?

Uma fábrica ou qualquer coisa. É evidente que não é trabalho ideal, mas é uma das poucas escolhas possíveis. Depois, há uma minoria que é realmente forçada. Acho que a pobreza não pode explicar a indústria do sexo, há muitas pessoas muito pobres que não vendem sexo. Os números sobre tráfico, normalmente, vêm de amostras muito pequenas e tendem a confundir a prostituição de rua com indústria do sexo.

 

A definição mais genérica, que consta do livro, abre para filmes, linhas telefónicas, fotografias e até publicidade.

Isso é a indústria do sexo. A prostituição de rua é uma pequena parte se compararmos com a prostituição que se faz em locais escondidos. Mas, por ser visível, é aquela que leva as pessoas ao pânico, porque são todas traficadas e emigrantes!

 

Pensa-se que esta é uma realidade sobretudo feminina. É assim?

Não temos bem a consciência de como o número de homens e transgéneros na indústria do sexo é significativo... Se os juntarmos são quase metade.

 

Por que é que a mulher tem sempre a aura de pecadora ou de perseguida e indefesa? Os homens, mesmo nas rugas, não são condenados pelo seu desejo e procura…

São valores morais muito antigos, e uma pressão sobre a mulher de séculos. A indústria do sexo era maioritariamente feminina e importava castigar a sexualidade feminina. Para o homem era natural ter desejos sexuais, vários parceiros. Muitas das pessoas que são abolicionistas, que dizem que a prostituição não devia existir, não percebem o potencial de trabalhar na indústria do sexo.

 

O que é que quer dizer?

É quase revolucionário para a mulher passar por cima dessa opressão moral, assumir que tem muitos parceiros sexuais e que leva dinheiro por isso. É mesmo empurrar as barreiras dos papéis do género, porque não é isso que a mulher deve fazer: deve ser monogâmica e ter muito controlada a sua sexualidade. Até aos anos 60, às conquistas do movimento feminista, as profissionais do sexo tinham mais direitos do que qualquer outra mulher, tinham acesso a uma educação sexual que outras mulheres não tinham.

 

Essas mulheres eram olhadas como “coitadas”, coisa que hoje, muitas vezes, ainda acontece?

Havia uma diferença entre as mulheres respeitáveis e as pessoas que trabalhavam na indústria do sexo. As mulheres dos descaminhos não eram só aquelas que vendiam serviços sexuais, o leque era mais abrangente.

 

Vemos nos filmes que trabalhar num saloon era o que acontecia a uma mulher que perdia a honra.

Ser artista de cabaré, ser corista - todas essas coisas que agora vemos com o maior respeito...

 

Todavia, continuam a ser olhadas por sectores conservadores como “mulheres perdidas”.

Muito conservadores. Se recuarmos duas ou três gerações, se eu quisesse ser artista de teatro, toda a minha família, não só se oporia como não quereria falar para mim. Hoje, isso não aconteceria.

 

Por que é que decidiu dedicar a sua vida a esta causa? Por que é que sente uma atracção por aqueles que são estigmatizados?

Porque quero fazer deste mundo um mundo melhor e mais justo. Sinto a necessidade de tentar estabelecer os direitos daqueles que não os têm, que estão oprimidos, marginalizados. Os que já têm esses direitos garantidos, não é preciso fazer nada por eles. A minha vida não é toda isto. Mas dediquei-me de corpo e alma a este movimento durante os últimos seis anos.

 

Porquê?

Fui para Inglaterra com 20 anos trabalhar com um antropólogo, Chris Knight, que tem uma teoria sobre a origem da cultura que é controversa, embora cada vez mais aceite: faz uma ligação entre o sexo e a economia, onde nos tornámos humanos modernos. Por outro lado, [pesou] o facto de ter começado a trabalhar nas linhas eróticas.

 

Em que circunstâncias começou a trabalhar nas linhas?

Vi o anúncio numa revista e achei que podia ser fascinante. Em Inglaterra todos os estudantes têm um part-time, e trabalhei em bibliotecas, em cantinas. E depois apareceu-me aquele anúncio. Podia ter passado à frente, mas era curiosa e quis experimentar, saber como é que funciona, ir para além daquilo que vem nas reportagens.

 

Interessava-lhe conhecer verdadeiramente o outro, quando ele não está a posar? Trata-se de conhecer o humano as suas múltiplas dimensões.  Para um antropólogo é isso que se faz todos os dias, a toda a hora, em qualquer sítio.

 

Como é que criou o International Union of Sex Workers – iniciativa que integrou no seu doutoramento?

Estava a trabalhar nas linhas eróticas quando defini a linha do meu doutoramento. Nas entrevistas-piloto que realizei tive a sensação que as pessoas me estavam a dizer que faltava uma coisa. Não era mais um estudo, era uma associação na qual pudessem reivindicar os seus direitos. Reuni outra vez as pessoas que tinha entrevistado e perguntei-lhes se queriam mesmo formar essa plataforma. A resposta foi positiva. Fiquei como uma espécie de resource person, a ser usada para levar a acção em frente, mas sempre guiada pela vontade deste grupo.

 

A leitura que na sua família e socialmente fazem de si é marcada pelas suas posições nesta matéria?

O meu trabalho é político. Acho que tenho argumentos muito bons, acho que foi por isso que tudo isto funcionou, que consegui a filiação no sindicato geral [inglês], que consegui o apoio do movimento laboral de Inglaterra. Quando tenho tempo de explicar às pessoas por que é que faço isto e por que é que penso como penso…, para já não houve ninguém que deixasse de me falar, ou de ser meu amigo.

 

Porque é que decidiu contar que tinha trabalhado na indústria do sexo?

Tenho muitos amigos e amigas na indústria do sexo que optam por não dizer às famílias aquilo que fazem. Eu optei por ser sempre aberta. Nunca estive numa posição de pedir desculpa. Faço aquilo em que acredito, tenho muito orgulho em tudo aquilo que faço. Acho que sou coerente nas minhas acções e nos meus argumentos, portanto estou aqui, sem vergonha. Ou me aceitam ou não me aceitam. Mas sinto-me muito valorizada por aqueles que conheço.

 

 

Publicado originalmente na revista Máxima em 2006

 

 

Posso ter cem florins de prazer contigo? (exposição sobre prostituição em Amesterdão)

06.02.14

Lovely. Putain. Sugar. Helga. Loose Woman. Lulu.

Estes são alguns dos nomes das mulheres que encontramos nas salas do Historisch Museum de Amesterdão. Numa das salas, no andar de cima, entro no simulacro de um quarto. O espaço é exíguo, a cama estreita, a colcha enrugada sobre a cama estreita. A mesa de cabeceira, o je t’aime escrito com o dedo no pó da mesa de cabeceira, o perfume barato. Aos pés da cama, sento-me no maple para ver a velha Henriette, a Henriette Espanhola, desfiar memórias num vídeo contínuo.

Henriette tem o cabelo esticado num rabo de cavalo. A boca é fina, quase severa de tão fina. Irá pelos 70 anos. Ou então está longe disso, e foi só a vida que lhe deu um ar gasto. Desconheço se há uma afinidade etimológica entre gasto e agastado. Mas gostaria que houvesse.

Todas as prostitutas têm um ar agastado com a vida. Uma fúria que o tempo não consegue desvanecer. Que está no ar distante e desinteressado das que nos olham por detrás das montras do Bairro Vermelho.

Amesterdão é a cidade da prostituição. Passear nas ruas do Red Light District é um percurso turístico. O bairro ergueu-se debruçado sobre o porto, escancarado para os marinheiros que procuravam

fun fun fun

depois de meses de alto mar.

(O que procuravam eles?, o que se procura quando se procura uma prostituta?).

Henriette aportou na cidade quando era ainda jovem. Julgavam-na espanhola, mas provinha da Suíça. De uma Suíça esquartejada pelo aprumo e pelo asseio. Seria fácil imaginar uma história para Henriette. Mas a ficção resulta sempre mais pobre que a realidade. Era boa no que fazia, garante ela olhando a câmara, era realmente boa. Fez sucesso e dinheiro, di-lo com o mesmo empenho que outros usam para falar dos negócios que proliferam longe. O dinheiro fácil, abundante e fácil, fê-la prosseguir: «Se não tivesse tanto dinheiro, pararia». Fica provado que não se trata apenas de dinheiro, de cheta. Às vezes, simplesmente, já não é possível parar.

Que vida poderia ter Henriette depois daquela vida? E para que quereria ela desfazer-se daquela vida? Aquela vida quer dizer a vida de meretriz que vende

fun fun fun

como quem vende tabaco e ostras e vinho, também procurados por quem procura o prazer no corpo de uma mulher.

Aquela vida não parece importuná-la mais do que esta importunaria. Para o vídeo, Henriette é uma mulher seca, que não lacrimeja como as porto riquinhas. «O nosso único pecado», pronunciam estas num tom exaltado, de costas voltadas para a câmara, «é vender o corpo para sustentar as nossas famílias». Não recorre à lamúria como outra, que se justifica: «É claro que não queria esta vida para a minha filha».

Porque haveria ela de querer mudar de vida?  

Os casos difíceis seguiam para ela, para a sua casa, cujo reflexo se desenhava no canal. E esses pagam sempre bem. Os bons clientes apreciam a bizarria. Nas Massage Parlour, num tempo em que a prostituição era proibida, usavam-se expressões como Russo (sado-masoquismo), Francês (sexo oral) e Grego (sexo anal) para disfarçar a bizarria. A bizarria corresponde a todas as histórias que já ouvimos sobre bizarria; nada, portanto, de realmente bizarro.  

Há em Henriette uma satisfação indisfarçável quando fala da sua competência. Quando desdenha dos alemães e dos ingleses, «ordinários», quando elogia a afabilidade no trato dos suecos e dos holandeses. Quando diz que nunca foi com japoneses. «Não, não, o meu pai esteve num campo japonês durante a guerra, não, não». Quando recusou alguns cuja cor a repugnava; sem alguma vez dizer, de qualquer modo: «Não vou contigo porque não gosto de ti».

Não gosto de ti é uma coisa que não se diz.

Um cliente, no pedestal do poder, acenando com notas e virilidade, não suportaria ouvir uma prostituta dizer que o não quer, que não gosta dele.

(Que procuram eles? Procuram que gostem deles? Procuram um corpo que faça de conta que gosta deles?)

Esquivou-se sempre aludindo a compromissos inventados na hora, à urgência do cliente com hora marcada, prestes a chegar, já aí. O tempo deixaria de ser livre.

Henriette Espanhola é uma loose woman. Perdida para a honra, que é o que isso quer dizer. Os que procuravam o colo de uma mãe talvez lhe chamassem Sugar. Ou Putain, os que aspergiam arrogância e superioridade. Não parece mesmo nada incomodada com isso. Quem domina quem no confronto prostituta-cliente? Quem cede mais da sua honra no confronto prostituta-cliente?

Daqui a alguns anos Henriette morrerá. Que pessoas acompanharão o seu féretro, que dirão da sua vida? É costume enaltecer a virtude, obnubilar o desvio. Que dizer de uma mulher pecadora? Teria sido ela a estar lá, com aqueles homens? Que parte de si manteria incólume, impenetrável à ameaça do mundo?

Talvez Henriette fosse a menos agastada de todas. Aparentemente a vida não a devastou como às outras.

«Posso ter cem florins de prazer contigo?»

Cem florins correspondem a um período de tempo e a um pedaço de corpo. Correspondem, em última instância, a posse e a satisfação.

À entrada do Historisch Museum passa no vídeo uma imagem que impressiona. Num plano aproximado, as mãos de uma mulher lavam-se uma à outra, sob a água corrente do lavatório. Lavam-se longamente, quase se abraçam. Ambas as mãos sabem porque se lavam assim, cúmplices. Há o desejo vigoroso de apagar, mandar pelo ralo, com a água suja que em breve será dos esgotos, as marcas do que se passou.

O que se passou não foi nada do outro mundo. Um homem e uma mulher copularam. Não se beijaram, não se fundiram. Os papéis estão distribuídos; ela é a prostituta, ele é o cliente. Pode imaginar-se o que se passa entre eles. Não se pode saber o que intimamente pensam e sentem. Ela faz a parte dela; reserva-se o direito de não o desejar, não o querer, não sentir prazer com ele. Ele quer cem florins de prazer, seu prazer, com ela, seu instrumento. Talvez não lhe ocorra o modo como ela esfrega as mãos depois de ele sair. O modo como as mãos de reconciliam, em paz, em casa, uma com a outra. A ferocidade com que se esfregam, esfregam-se muito bem, querendo arrancar e mandar pelo ralo aquela marca.

Que importa?

Diz-se que a prostituição é a mais velha profissão do mundo. Quase sempre se omite que o utilizador é o mais velho utilizador do mundo.

Em Amesterdão, a história da prostituição conta-se em quatro séculos e confunde-se com a história da cidade. O Historisch Museum apresentou esta história chamando-lhe «Love for Sale». O título é bom, na apropriação da canção de Cole Porter. Chico Buarque compôs um tema inequivocamente dedicado às Anas de Amsterdam:

«Sou Ana do dique, das docas

Da compra, da venda, das trocas, das pernas,

Dos Braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas

Sou Ana das loucas

Até amanhã

Sou Ana, da cama

Da cana, fulana, bacana

Sou Ana de Amsterdam (...)

Arrisquei muita braçada

Na esperança de outro mar

Hoje sou carta marcada

Hoje sou jogo de azar

Sou Ana de vinte minutos

Sou Ana da brasa, dos brutos, na coxa

Que apaga charutos

Sou Ana dos dentes rangendo

E dos olhos enxutos

Até amanhã, sou Ana

Das marcas, das macas, das barcas, das pratas

Sou Ana de Amsterdam»

As mulheres que aparecem na exposição, bem como as 20 mil que se crê venderem o corpo na capital holandesa, não exclusivamente nos limites do Bairro Vermelho, são Anas de Amsterdam. O seu amor está à venda. Amor é um eufemismo para designar um pedaço da sua coxa, onde se apagam charutos, no espaço de vinte minutos.

O cartaz da exposição tem uma mulher de perna cruzada, de ventre redondo, que observa a rua a partir da montra onde se exibe. Ao contrário do Red Light District, onde as prostitutas são observadas pelos transeuntes, na exposição os transeuntes são observados pelas prostitutas. «Love for Sale», escreve-se no texto que acompanha a exposição, «mostra o que se passa num mundo onde o sexo é pago». Condensa quatro séculos em pintura, fotografia, vídeos, documentos, recriação de espaços (na mezanine do primeiro andar, logo depois de cortinas de tule branco, quadros de grandes dimensões revelam cenas de sexo explícito. À entrada da exposição há uma indicação que adverte: «Pode escolher não ver»). A informação está exposta em grandes painéis e delimita as fases de aceitação, tolerância, proibição e legalização da prostituição na cidade de Amesterdão. A palavra é dada às prostitutas. Falam das suas motivações, dos seus sentimentos. De medo e de repugância.

É de manhã. Maria tem calçadas galochas e luvas de borracha. Lava o vidro da sua montra, deixando-o a brilhar. «O vidro faz-me sentir segura». Por isso é importante que fique asséptico, que lhe dê a ilusão de um contacto que, mesmo perpetrado, não chega a existir. Porque há um vidro de permeio, mesmo quando o cliente entra, depois de acertado o preço.

Maria conserva parte de uma beleza que deve ter sido efusiva. Antes de a vida lhe ter posto, como um emplastro, a cor macilenta no rosto e a melancolia no olhar. Num dia calmo vai com cinco homens. Num dia bom vai com dez, vai com vinte. A maneira como se lhes dirigem, a coacção que pode sentir no olhar deles, a assertividade que usam na abordagem (as palavras coacção e assertividade foram as que empregou), fragilizam-na sobremaneira. Maria tem o olhar murcho das flores que deixaram de o ser. Anseia pelo momento em que partem para acender um cigarro.    

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2002  

       

Leonardo Da Vinci

06.02.14

Leonardo, o revolucionário, encontrou na corte de Milão, sob o patronato de Ludovico Sforza, o espaço ideal para pensar, explorar, descobrir. O que resta desse período seminal, entre 1482 e 1499, pode ser visto na National Gallery, em Londres. Aviso: a exposição está esgotada até ao último dos seus dias, 5 de Fevereiro. A única hipótese de conseguir uma entrada é fazer fila desde madrugada e conseguir um dos 500 bilhetes que diariamente são disponibilizados. Os bilhetes só podem ser usados nesse dia.

Porque é que é indispensável ver Leonardo Da Vinci, Painter at the Court of Milan? Algumas respostas breves.

Leonardo, o experimentador, estava convencido de que a arte não era apenas um espelho no qual nos podíamos rever. Dominava-o a preocupação com a harmonia, a beleza, a emanação divina, o encontro com o humano naquilo que ele tem de tremendamente humano. Como num desenho no qual são visíveis dois cabelos, isolados, a cair sobre a cara de uma mulher.

Primeiro sintoma de uma revolução que operou: passou dos retratos em perfil, em posição rígida, em que o status daquele que era pintado era dado pela riqueza das sedas e das jóias, para um retrato em que importava a expressão facial, os gestos, a sugestão de movimento, o que isto nos dizia daquela personalidade. O indivíduo, com força e vontade próprias, era eternizado no quadro. Dois exemplos: A Dama com Arminho, para a qual posou a belíssima amante de Sforza, Cecília, então com 16 anos, e a mulher deste, Beatrice, em A Bela Ferronnière.

Nos incontáveis desenhos que acompanham as telas é possível perceber o processo de descoberta, infatigável, tantas vezes interrompido quando a solução foi encontrada, quando ela já é um degrau sobre o qual é possível continuar.

Leonardo, o pintor-filósofo, experimentou uma nova técnica para o fresco da Última Ceia. Usou, entre outros materiais, ovo. Infelizmente o resultado não foi brilhante, e pouco depois as cores deixaram de ser vívidas, apelativas, sensuais. Numa das salas, é possível ver numa fotografia gigante o fresco (que permanece em Milão) nas actuais condições, e no espaço contíguo uma tela imensa que é a melhor amostra disponível do que foi a Última Ceia pintada por Leonardo. É uma peça concretizada por um dos seus discípulos dilectos, incumbido pelo mestre de fazer uma cópia exacta do trabalho. Deste modo, é possível reencontrar hoje essa peça misteriosa, onde o espanto, o horror, a exaltação se encontram nas figuras de Cristo e dos apóstolos.

A exposição da National Gallery proporciona um encontro inédito, e provavelmente irrepetível, entre as duas versões que Leonardo fez para A Virgem nos Rochedos. A primeira foi pintada entre 1483/85 e a segunda entre 1491/92 e 1506/8. As duas telas, uma do Museu do Louvre e outra da National Gallery, aparentemente, são muito semelhantes. Mas quando apresentadas na mesma sala, uma em frente à outra, permitem assinalar diferenças notórias. Na natureza envolvente, na figura de S. João Baptista ou na intensidade das cores. Leonardo nunca as terá visto em conjunto.   

Há quem aponte Salvator Mundi como o grande quadro desta exposição. A restauração recente da tela permitiu perceber muitos dos métodos de trabalho de génio renascentista. O mais surpreendente: na mão de Cristo está uma esfera de cristal – um quartzo – que não era possível esculpir no século XVI pela ausência de ferramentas para esse efeito. Que dizer: Leonardo, o criador, pintou uma forma geométrica que nunca terá visto naquele material.

No total são nem 20 telas (Leonardo pintou muito poucas e terminou ainda menos), muitos desenhos, diferentes formas de uma luta contra a morte e o esquecimento. A arte, para um interpelador como Da Vinci, era uma forma de entendimento, de relação com a beleza e o eterno. O trabalho deste artista plural, que conheceu o seu período mais produtivo e fundador na corte de Milão, é um estímulo que nos deixa na interrogação.

Nota final: quem patrocina a exposição? Quem tem dinheiro para suportar uma exposição com estas características e quer associar a sua imagem a ela? Um banco suíço.  

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2011