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Anabela Mota Ribeiro

Cristiana Miranda

31.07.14

Cristiana Miranda nasceu em 1983. É realizadora. O que é que vimos dela? Por exemplo a chuva de azeitonas num anúncio do Oliveira da Serra. Entre a publicidade e o cinema, entre Londres e Lisboa, mostra que o segredo está… no trabalho. Vejam como ela olha.

 

Porque é que se mudou para Londres? É também um modo de perguntar em que momento decidiu pegar na sua vida e fazer dela um enredo extraordinário.

O meu filme, em relação à minha viagem para Londres, começou quando tinha 18 anos. A maior parte dos cursos que encontrava em Portugal tinha uma componente fortemente teórica, e pouco prática. Não queria cair no erro de fazer aquilo que muitas pessoas que eu conhecia faziam, que é seguir os passos dos pais. Se os pais são médicos, são médicos, se os pais são advogados, são advogados. Estava confusa em relação ao que queria seguir. Mas em Londres podemos misturar ciências e fotografia no mesmo curso.

 

Conte-me do que está para trás. Contextualize a sua família, o meio social em que se movia.

Nasci em Lisboa. Estudei nos Salesianos no Estoril. Tive a grande vantagem de os meus pais gostaram muito de viajar. Quando tinha oito, nove anos, em pleno Verão, o meu pai decidiu pegar no carro e fomos até à Noruega. Acampámos, ficámos em hotéis, conhecemos a Europa toda. Apesar da minha idade, tenho memórias nítidas de coisas que se passaram. Lembro-me de ter achado a Holanda o país mais fantástico do mundo porque tinha auto-estradas para bicicletas. Ficou desta experiência a cultura de viajar de carro, ver paisagens, tentar perceber o que se passa à nossa volta.

 

Tudo isso importa, mais adiante, para perceber como é que se forma a sua identidade artística. Como aprende a olhar.

Há também uma curiosidade em saber como vivem outras pessoas, como é que se comportam. O facto de ser exposta a culturas diferentes fez-me olhar para as características que definiam as pessoas, lidar com as expectativas (eu achava que em Paris as mulheres vestiam todas Christian Dior e passeavam cachorrinhos). Foi também importante receber dos meus pais muita liberdade, o que me obrigou a ser responsável. Aos 18 anos, senti que não podia ter a vida fácil. Como dizem os ingleses, I dont want take it for granted.

 

Consegue perceber melhor a recusa desse conforto, a razão de não querer ter isso como adquirido?

Às vezes, é preciso pormo-nos numa situação de risco. Queria sentir que era o meu valor, a minha garra, a minha ambição que estava em causa. Era também o ser rapariga, nesta profissão.

 

Contam-se pelos dedos da mão as realizadoras. Já lá vamos. Antes disso: qual era o seu quadro de vida em Londres? Partilhava a casa com cinco pessoas? Trabalhava em part-time?

Não conhecia ninguém, a não ser um amigo que me ajudou. A sobrinha da dona da casa tinha um quarto para alugar. Começou assim. Passados três meses respondi a um anúncio no jornal, mudei de casa e conheci uma senhora fantástica, de 60 anos, a Drussila. O nome é como ela: qualquer coisa de muito especial. Filha de condes russos, casou muito nova, e aos 20 anos decidiu que não era aquilo que queria; tornou-se modelo, viveu os sixties, era fotografada pelo David Bailey. Criar faz parte do respirar dela. Viveu uma vida diferente do rumo que lhe tinha sido traçado.

 

E esse aspecto já entronca na sua história.

Sim. Não queria usar a palavra rebelde, que tem uma conotação pejorativa. Mas gosto da aventura. Gosto de ver que há mais coisas do que aquelas que estou a ver. Drussila ajudou-me a solidificar uma ideia que vinha de trás, dos meus pais e do meu irmão: a de que tudo está em aberto. Os meus pais nunca me disseram: “não vais conseguir” ou “não, não é possível”.

 

Até onde é que experimentou o desconforto?

Não posso ser dramática. Sempre tive uma boa qualidade de vida. Mas a adaptação a Londres foi dura. É tão diferente culturalmente, o acesso às pessoas, a rapidez com que se vive. É duro sobretudo quando estamos numa fase de nos descobrirmos. Tive muito medo de errar. Mas no fundo, no fundo, sabia que era nova o suficiente para voltar atrás se a aposta estivesse errada. Tento transformar o desconforto como uma coisa a ultrapassar, e não como um desafio cuja pressão não consigo aguentar.

 

O seu sonho era o cinema. A publicidade acabou por ser uma derivação desse sonho original. Que filmes queria fazer?

A publicidade foi um acidente. Quando fui para Londres sabia que queria trabalhar com imagem, com fotografia. Era obcecada por fotografia de moda. Desde os 12 anos que coleccionava editoriais de moda. Tudo o que Richard Avedon fotografava, eu tinha.

 

Nesse universo, tradicionalmente, a mulher é o objecto fotografado, não o sujeito que fotografa. Ela está no coração do anúncio, mas não dirige o anúncio.

Não era a imagem da mulher que me fascinava, mas a concretização. Como conseguir uma performance fenomenal numa imagem estática? Em Londres, a meio do meu primeiro ano, peguei numa câmara, comecei a filmar e percebi que queria ser realizadora. Disse: “É isto”. Não sei explicar o clique que aconteceu, mas foi imediato.

 

Qual era o assunto? Ou interessava-lhe todo o edifício do cinema?

Gostava muito de cinema brasileiro. Walter Salles, Fernando Meirelles. Sempre gostei de histórias reais que nos fazem questionar o que é que faríamos se fôssemos aquela personagem.

Gosto muito do Alejandro Iñárritu e do David Lynch. A história que eu gostaria de realizar é uma mistura do 21 Gramas com o Mulholland Drive. Gosto que o autor não me diga o que devo pensar ou sentir. Gosto que me dê esse espaço de interpretação.

 

Estava no mundo do cinema, antes da deriva para a publicidade, quando entrou para uma produtora como recepcionista. Como é que tudo aconteceu?

Acabei o curso Media Studies, na University of Westminster. Pelo meio, trabalhava num clube de vídeo para poder levar os filmes para casa… Nos últimos seis meses do curso fiz o equivalente a um Erasmus na Austrália. Matrix e A Guerra das Estrelas tinham acabado de ser filmados em Sydney. Quando voltei a Londres comecei a procurar trabalho. Fiz um pacto com os meus pais: tinha seis meses para saltar de estudante para trabalhadora. Fiz uma lista dos 10 filmes que estavam em produção e nos quais gostaria de trabalhar. À cabeça estava Mrs Herderson Presents, do Stephen Frears. Contactei-os. “Sou estudante, posso passar algum tempo aí?, sirvo cafés, faço o que for preciso”. Depois de uma semana à experiência, no escritório da produção, contrataram-me para trabalhar um mês. Pagavam-me uma coisa simbólica, mas podia estar sentada ao lado do Stephen, ver como ele fazia, ver o que eram filmagens, ver o que era um set

 

… ver o que era dirigir uma actriz como Judi Dench.

Tem uma força incrível, um dom magnético. Inspira, faz-nos querer fazer parte desta indústria. O filme acabou. Explicaram-me que precisava de um agente, mesmo que estivesse a começar. Passados dois ou três dias, comecei a trabalhar com uma fotógrafa de moda (que tinha sido assistente do Nick Knight). Passado um mês, a produtora Knucklehead, que estava a ser montada de raiz, propôs-me trabalhar como recepcionista. Eu não sabia nada de publicidade, mas era preciso ser realista: não estava numa fase em que pudesse recusar projectos. No primeiro dia montei o telefone. Passava o dia, não só a atender telefones, mas a fazer pesquisa de imagens. Comecei a dar-me muito bem com os realizadores. Referiam uma imagem com a Cindy Crawford…, e eu sabia quem tinha sido o fotógrafo, em que ano tinha sido tirada.

 

Passo seguinte: como é que começou a trabalhar para o Discovery Channel?

O Discovery Channel propôs aos realizadores da empresa que dessem ideias para o canal. Perguntaram-me: “Não queres fazer uma proposta?”.

 

Foi sua a ideia de fazer um mini-documentário com a Dita von Teese? Porque é que ela a fascinava?

A Dita vinha fazer actuações ao Lux. O link com a Dita partiu, estranhamente, de Portugal, e de pessoas que a tinham visto ao vivo. Visualmente é tão apelativa… Fiquei empolgada quando comecei a descobrir o mundo dela. E quanto mais descobria, mais fascinada ficava. Ela era obcecada pelos filmes e pelo look dos golden years de Hollywood. Mudou o nome, a imagem. Uma borboleta. Transformou-se.

 

Assistiu alguma vez à metamorfose? Viu-a de cara lavada?

Nunca. A Dita não faz isso. Acredita que beleza tem de passar por transformação, mas com um conhecimento enciclopédico do que isso representa.

 

Tinha 20 e poucos anos quando a dirigiu. Teve sempre confiança em si? Achou desde o princípio que era capaz?

Acho que sou capaz de fazer seja o que for. Não quer dizer que acredite que seja talentosa ou extraordinária. São dois tipos de segurança. Acredito que o talento vem 90% do trabalho, e que tem de ser construído. Conheço muita gente com talento que nunca vai ser reconhecida; falta-lhes a parte da concretização. Se calhar, eu sou menos talentosa naturalmente, mas trabalho o suficiente para compensar isso. Numa série de pessoas que admiro, o talento advém do trabalho e de uma necessidade de fazer mais. Quando percebi que isso é a receita do sucesso, não tenho medo de apostar.

 

Tem trabalhado com nomes conhecidos. O piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton ou a cantora Dido. Como é que não se deixou deslumbrar ou intimidar por pessoas que nos habituámos a admirar? Como é que aprendeu a olhar para eles como pessoas com quem se trabalha?

A única pessoa em frente à qual os meus joelhos fraquejaram, por ser um ícone tão grande, foi o Daniel Day Lewis. O resto das pessoas que conheci e com quem trabalhei: estou sempre mais interessada em ver o que está por detrás, e menos na fachada. No primeiro olhar mostro-lhe que não as vou tratar como pessoas diferentes. 

 

O seu olhar, a sua maneira de realizar, traduz uma síntese, uma multiplicidade de interesses, condensados num trabalho árduo?

O que caracteriza o meu olhar é realmente a concentração de influências que venho trazendo, misturada com um grande interesse em descobrir pessoas. O que está por detrás de um olhar, um gesto, uma palavra. Odeio a palavra, mas vou usá-la: gosto de fazer as coisas de forma orgânica. Presto atenção ao instinto. Sabendo que o instinto também é formado por informação que vamos acumulando.

  

 

Publicado originalmente na Máxima em 2010

   

Fernanda Tavares

30.07.14

No banco de trás do carro, troca as sandálias ponteagudas por uns ténis All Star. Dinho, o assessor, confirma que não haverá fotógrafos por perto. Dirigem-se ao último dos jantares da estadia em Lisboa. Providencia um sumo de laranja para acompanhar a entrevista _ «Tem de tangerina?», pergunta ela.

É uma rapariga como as outras quando recorda as cartas que escrevia ao pai quando era pequena: “Estou morrendo de saudades, te amo muitão”. Contava tudo, desenhava corações, fazia recortes. E não é uma rapariga qualquer quando cede a sua imagem à Associação Laço para apoiar o Programa Nacional de Rastreio do Cancro da Mama.

Tudo começou quando Mário Testino a fotografou para a capa da Vogue francesa. «Cheguei em Paris em Fevereiro, e em Abril fotografei para a Vogue francesa, com Mário Testino!». Tinha 15 anos. Começou, então, uma fulgurante carreira internacional. Fez incontáveis desfiles, campanhas publicitárias, produções de moda. A completar dez anos de carreira, considera que o mais gratificante  é a associação da sua imagem a causas nobres.

Desde 2002 que, a par de Cindy Crawford, percorre mundo para promover esta campanha. (Mariza ou Fátima Lopes são dois dos rostos da Laço em Portugal). Veste a t.shirt desenhada por Ralph Lauren que a Lanidor comercializa a 19,90 euros (a cadeia de lojas comprometeu-se a entregar o equivalente à venda de 15 mil t’shirts).

FernandaTavares é brasileira, tem 25 anos. É um ícone de beleza. Conheça a sua história nas próximas páginas.   

 

Podemos começar por falar da sua mãe?

Começamos pela pessoa certa. O nome dela é Sheilha Correia, tem cinquenta anos, mora em S. Paulo. Foi ela que me incentivou nesse trabalho. Sempre viajou comigo, sempre me deu a maior força, cuida das minhas coisas. Quando engravidou, falou assim: “Se for menina, vai ser modelo”. Ela adorava ser miss. Só que meu avô era muito autoritário, “Imagina, miss, coisa de mulher leviana”. Como não realizou esse sonho, botou na filha.

 

Cresceu sabendo que era bonita?

Sempre fui muito vaidosa. Com seis anos, adorava me maquilhar! E tinha essa coisa que a minha mãe sempre falava, “Vai ser modelo”. Cada vez que eu caía, não queria mostrar, queria esconder, porque ela dizia: “Não, você não pode ter marcas, modelo tem as pernas lindas, não pode ter marcas nas pernas”. Mesmo hoje, quando caio, fica desesperada: “Não, você tem trabalho!”.

 

Que cicatrizes é que tem?

Tenho uma no rosto, mínima [sobre a sobrancelha, imperceptível]. Eu tinha três anos, o meu irmão fingia que era um monstro e corria atrás de mim; quando olhei, tinha um vaso de plantas na minha cara! Me lembro disso até hoje. Minha mãe chorava mais do que eu.

 

O sonho dela corria riscos...

Aos nove anos, frequentei um curso de modelo. Sendo uma menina vaidosa, adorei fazer o curso. Mas quando tinha catorze anos, pude realmente escolher. Minha mãe não me pressionou em nenhum momento.

 

Seria um desgosto se não tivesse condições físicas para realizar aquele sonho. Imagine que era gordinha...

Em 91 fui morar no Rio de Janeiro com a minha mãe e o meu irmão. Só que do Rio, não gostei; estava cheia de saudades do meu pai, era muito apegada ao meu pai. E voltei para Natal. Morei oito meses com os pais da minha mãe. Tinha tudo o que queria em casa da minha avó: se acabava o pudim, ela fazia biscoitinhos, se acabava o chocolate, fazia bolo. Em Setembro de 92, minha mãe chegou em Natal e fui buscá-la na rodoviária. Olhou para mim três vezes! Não me reconheceu, foi um choque! “Mamãe, o que você fez com a minha filha?”. Alimentou, né? Nessa época, pesei cinquenta e cinco quilos!

 

Obrigou-a a fazer dieta?

Comprou uma calçola, apertada. Não é que fosse gorda, era só barriga. Dormia toda a noite com essa cinta que me machucava. Para fazer cintura. Funcionou. Em 92, era magríssima. Minha mãe me botou nos eixos.

 

Eram pobres?
Não. O meu pai era cantor. Brega. O nome dele é Fernando Luís. Estourou com uma música, em 85, estourou mesmo. O meu pai sempre fazia show, a minha mãe cuidava das coisas dele. Depois de os meus pais se separarem, a coisa foi ficando mais delicada. Foi o tempo das vacas gordas e depois o das vacas magrinhas. Mas nunca passámos fome. O meu avô sempre ajudou muito.

 

Não era, então, pelo dinheiro que a sua mãe queria que fosse modelo?

Não. Era pelo glamour. Eu ouvia a minha mãe falando: “Ainda vou ver minha filha desfilando para Christian Dior”. E realizei esse sonho para ela, graças a Deus.

 

Que importância tem o dinheiro na sua vida?

Necessito ajudar a minha família. Quando comecei a trabalhar, pude dar de volta tudo o que me deram. O prazer maior não é ter um património impressionável, não é mudar de uma casa de dois quartos para uma de quatro. O prazer maior é ajudar pessoas que não têm condições e te ajudaram.

 

O seu nome figura entre o das modelos mais bem pagas do mundo.

Já disseram no Brasil que ganhava não sei quantos milhões por ano! Como é que eles fazem?, eu nunca falei. No mundo da moda é tudo imprevisível: pode fazer um desfile maravilhoso para ganhar porcaria nenhuma. Ou pode fazer uma coisa que ninguém nunca ouviu falar e está ganhando centenas, milhares. O primeiro dinheiro, ganhei quando tinha quinze anos.

 

Nessa altura, mudaram-se para S. Paulo, com o intuito de apostar na sua carreira.

A gente vendeu tudo em Natal. Maínha e eu fomos de ónibus para S. Paulo.

 

Quantas horas de viagem?
Cinquenta. Dois dias de ónibus. A casa virou um bazar, todo o mundo comprou tudo. Menos a casa, que ela não vendeu. Morámos um mês com a prima da minha mãe. Aí, encontrámos nosso apartamentozinho, um ovinho, o banheiro era menor que essa mesa. Eu vivia de empréstimo de agência, cem reais por semana, que na época valia cem dólares. O primeiro trabalho foi para uma loja de lingerie. Morria de vergonha no meio das mulheres mais velhas.

 

Por que é que tinha vergonha?

Era novinha, tímida, vinha de uma cidade relativamente pequena. Imagine, nunca tinha sido beijada, tudo em calcinha e sutiã..., e tinha homem. Deve ter sido o meu primeiro grande cachet, tipo mil reais.

 

Sabe gerir o seu dinheiro?

Confio até hoje na mamãe. É ela que pergunta: “Já ligou para Paris, cadê o dinheiro dos cachets do trabalho tal?”. É o meu braço direito. A agência fala primeiro com ela. É a pessoa que negocia.: “O que é esse trabalho?, é para quem?, é quanto tempo?”. 

 

Na adolescência teve crises de rebelião? As típicas crises em que as mães são odiadas...

Porque pegam no nosso pé? Nunca me separei da minha mãe, desde que os meus pais se separaram. Mudei para S. Paulo com a minha mãe, para Nova Iorque com a minha mãe, para Paris com a minha mãe. Nessa profissão, você não quer se separar da mãe. No meu caso foi assim. Nunca fui menina de festas, de sair, nunca fui louca na vida. Ela sempre foi o meu pilar, a minha fortaleza. Nunca foi de me proibir de nada, muito pelo contrário, foi me mostrando o caminho certo.

 

Quando descobriu o amor e o sexo, a sua mãe sentiu isso como uma ameaça?

Uma ameaça para o trabalho? Não. Sempre fui tímida. Quando comecei a  namorar, já era modelo: aqui está meu trabalho, aqui está a minha vida pessoal, não posso misturar, não posso me distrair. Esse negócio de namorar nunca levantou problema: eu sabia pôr a barreira

 

Como é que foi quando foi menstruada? O seu corpo mudou?

Virar mocinha? Como toda a menina, foi uma festa. Eu sempre tive corpo, muito corpo, me lembro de épocas em que estava um pouquinho corpuda demais. Ficava lindo para ser uma mulher, mas não uma modelo. Depois dos quinze anos, nunca mais fui magérrima. Não quis ir para Paris porque sempre me falaram que as mulheres lá eram lindas, magérrimas. E daí fui, e trabalhei super-bem.

 

Nas fotografias parece ter mais curvas do que na verdade tem. É magríssima!

Ai, que bom que aparenta. Você acha mesmo? Eu me acho cheia de curvas. Hoje em dia não me incomoda tanto não. Fui fazendo campanhas, óptimos trabalhos... Tenho que me cuidar, sei que não vai ser assim para sempre.

 

Houve um tempo em que diziam que tinha celulite e que mesmo assim tinha conquistado o contrato da L’Oreal...

Tinha não, tenho.

 

É verdade que tem contrato até 2007.

Não, não é o contrato, é a celulite, ainda tenho celulite. Qualquer mulher tem, acredite. Adoro comer o meu chocolate, o que é que posso fazer? Quando vim aqui jantar na quarta-feira, tinha aquele petit-gateux... Mas não como sempre. Não tenho na minha casa. Na minha casa tem leite de soja e cereal, mais nada.

 

Acontece-lhe ter pesadelos? Que engordou, que ficou feia, que ganhou uma cicatriz?

Isso não. Mas quando fui para Paris a primeira vez, passei um período muito preocupada: tinha medo de envelhecer! Não gostava nem de pensar que ia ter ruga...

 

Que idade tinha?

Dezasseis. Quando imaginava: “vou ter sessenta anos um dia”, isso me apavorava. Estava na fase: “todo o mundo me ama porque sou novinha”. Hoje em dia, que estou chegando perto dos trinta, (tenho vinte e cinco), não. Pelo contrário, falo em ser mãe, feliz, daqui a dez anos! Não quero fazer plástica, botar botox... Eu quero assumir, quero cuidar bem da minha pele para ter orgulho nela e envelhecer bem.

 

Já lhe aconteceu ser recusada?

Pelo menino que estava paquerando? Já, tinha treze anos. Namorei a primeira vez com catorze anos. Sabe, essa coisa de menina: “ai que gato!, ai mãe, que gato!” O meu pai falava: “Jesus, se a gente olha e sai fumaça, é Fernanda que está lá”! Eu era muito foguenta! Mas nunca fui de estar sempre trocando de namorado. Todos os namorados foram sérios. Foram quatro.

 

Deixou de estudar muito cedo. Gostou de andar na escola?

Agora morro de saudade, mas, na época, a gente nunca gosta. Em 95 fui para S. Paulo, e me falaram assim: “Se quiser seguir essa carreira, vai ter que parar de estudar, vai ter que escolher”. Foram noites de sono perdido. Eu sabia que ia começar a viajar e ia ter que parar de estudar. Me lembro do meu irmão falando, (ele é mais velho cinco anos): “Deixa de ser boba, quantas meninas estudam, estudam, estudam e acabam desempregadas? Estudar, você pode estudar em qualquer época; e isso não, isso tem que fazer agora”. O que me deu conforto foi pensar que posso estudar daqui a dez anos, e isso só posso fazer agora.

 

A sua vida é uma viagem permanente. O normal é que não saiba em que parte do mundo vai estar daqui a cinco dias.

Exactamente.

 

O que é que entende como casa?

Nos últimos anos, o Brasil é a minha casa. Já estive em Paris. Vou ainda muito a Nova Iorque, e entendo-a também como casa, mas é uma segunda casa. Nesta fase, tenho minha casa em Natal e meu apartamento em S. Paulo, que é onde trabalho.

 

Como é a sua casa? De que objectos precisa, que coisas a fazem sentir em casa?

Gosto de colocar retrato e fotografias que tiro em viagem. Adoro fotografar. Já tive uma parede com algumas capinhas. Mas não gosto de ter a minha casa enfeitada com as minhas fotos_ eu lá, linda, fazendo pose. Acho meio narcisista, sabe? As fotos espalhadas pela casa são fotos normais.

 

Na sua mala de viagem, que objectos lhe fazem lembrar casa?

Não tem muito, não. Na minha mala, o que não falta é a máquina de fotografar. O telefone! Ligo para minha mãe, quando tenho saudades. Quase todos os dias a gente fala.

 

Onde é que tem ginecologista, dermatologista, cabeleireiro, as suas pessoas indispensáveis?

Tudo no Brasil. Houve um período da minha vida em que eu ia ao Brasil uma vez por ano_ Natal e Ano Novo. De há um tempo para cá já posso me dar ao luxo de falar: não quero, vou para o Brasil, vou para casa.

 

O consumo de drogas e a cobiça sexual por homens poderosos são frequentemente associados ao mundo da moda. Escândalos como o de Kate Moss e, há uns anos, o da agência Elite dão-nos uma ideia do que por aí se passa.

Não conheço tão bem assim esse mundo, porque o mundo em que vivo é o do trabalho. Estou ali das nove às cinco, e nunca misturei as coisas.

 

Significa que não vai a festas?

É muito raro. Não curto. Não bebo, não fumo, nunca usei drogas. Vi uma vez na minha vida pessoas usando drogas e isso me deixou tão chocada, mas tão chocada! “Mãe, você não acredita no que eu acabei de ver”! Acho que ela nunca se preocupou; meu irmão tem trinta anos e nunca bebeu uma gota de álcool. Vem muito da criação. Por isso é que é importante ter uma pessoa ao seu lado.

 

Se tivesse uma filha, deixá-la-ia sozinha no mundo da moda?

Nova? Não. Muitas dessas meninas vão começando a fumar com quinze, treze anos; porquê? Porque estão sozinhas. Estão em depressão, saem com más companhias e começam. Às vezes você ouve: “Fulana, drogada no banheiro”. É uma história triste. Sou muito orgulhosa em mim mesma por nunca ter feito isso na minha vida.

 

 

Publicado originalmente na Máxima em 2005

 

 

 

Leonor Xavier

29.07.14

Raul Solnado, com quem viveu, dizia: “Ai, a minha vida é tão frágil, cuidado. Se ela cair da estante parte-se aos bocados, estraga-se toda”. A vida de Leonor Xavier, contada no livro Casas Contadas, não caiu da estante e não se estragou. A obra mereceu o prémio Máxima de Literatura deste ano e a propósito dele conversámos de manhã cedo, na sua casa cheia de livros, de pintura, de retratos, de marcas da vida. A vida de Leonor, nascida em 1943, pode contar-se a partir das suas casas, dos encontros fundamentais, olhando para quem foi sendo, para as fracturas, para o Brasil onde soube que também era outra.

Uma pessoa é sempre ela e as suas circunstâncias. E é um livro em movimento, que precisa de ser escrito, para depois ser lido.

 

Foi para o Brasil em 1975, existia sobretudo numa função: a da mãe, esposa burguesa, da menina bem comportada. Foi no Brasil que adquiriu uma identidade própria?

Adquiri a consciência da identidade. O António Alçada Baptista, na introdução do meu livro de entrevistas Falar de Viver, comparava-me àquelas árvores japonesas que estão dentro de uma cápsula, pequeninas, e que crescem quando saem da cápsula. O Brasil deu-me uma consciência de um outro mundo, que não este, tão ordenado, onde nasci e vivi.

 

Vamos detalhar as duas fases para perceber melhor a eclosão dessa árvore que está encapsulada e depois resplandece.

Vivia-se, e vive-se, numa sociedade onde não se conjuga muito a primeira pessoa do singular. Em geral, fala-se de política, viagens, filhos, estudos, doenças. Raramente alguém diz: “Eu nasci, fiz, aconteci, a minha vida é esta, sou feliz, sou infeliz”. A felicidade, a alegria é vista com uma certa desconfiança. 

 

Na sociedade em que vivemos é de bom tom o pudor em relação à vida privada, aos sentimentos.

Exactamente. Pensa-se que a vida privada tem de ser discretamente levada, que não pode ter falhas. Se há alguém na família que bebe, não se fala disso. No Brasil, percebi que o que interessa é o nome próprio, muito mais do que os nomes de família. No Brasil somos avaliados pelo que somos, e não pelo que temos ou pelas pessoas com quem saímos. Outro dos ingredientes que fizeram essa consciência da identidade foi o conviver todos os dias com o diferente. O meu marido era professor de Direito, fomos para S. Paulo, uma cidade gigantesca, com pessoas completamente diferentes de nós. Eu sabia lá o que era um libanês! Era outro mundo. Não havia telefone em casa, havia telefone de recados no patamar do prédio. Em Portugal estamos sempre relacionados com, protegidos por, situados em.

 

Que relação interiormente mantinha com Portugal? Estou também a perguntar por aquela que tinha sido, que ainda era.

A sociedade múltipla que S. Paulo era deu-me a consciência de ser portuguesa, fez-me gostar mais de Portugal. Ganhamos a lucidez da distância. Às vezes até a pequenez e o provincianismo são comoventes. Percebemos como tudo é fugaz e tão pouco importante. Não importa se se é ministro, banqueiro, mulher a dias.

 

A vivência do corpo e dos sentidos, que é diferente no Rio, teve um papel decisivo na sua emancipação? Na grande babel S. Paulo não há uma permanente exposição do corpo ao sol, a praia ao dobrar da esquina.

O que se passa é que Portugal é uma sociedade de véus. Se vamos fazer uma aula de ginástica, até hoje, em 20 pessoas há pelo menos duas que têm um casaco amarrado na bunda. Porque é que as pessoas, além de estarem tapadas a fazer ginástica, ainda se tapam com uma coisa amarrada? Em S. Paulo e no Rio há em comum um cuidado das pessoas com elas próprias. Não se encontra uma pessoa, por mais favelada que seja, que não arranje as unhas dos pés e das mãos todas as semanas. Vendi cremes a certa altura; as pessoas gastam imenso dinheiro em cremes, cuidam-se, fazem ginástica. No Rio ganhamos a sorte de ficar descomplexados. Vemos pessoas altas, magras, gordas, brancas, pretas, mulatas. Andam na rua e na praia tal qual são. Eu era BBG: baixinha, gordinha e gostosa.

 

Essa consciência do seu corpo interferiu com o seu casamento?

Não teve nada a ver com o fim do meu casamento. Acontece que fizemos uma travessia, tivemos sete anos de namoro, mais 19 de casamento. O meu marido seguiu um caminho de pensamento em relação às coisas e eu outro. Pensei que havia uma vida além dessa, partilhada com pequenos conflitos que decorriam de gostar de uma pessoa, uma conversa, um lugar, e a pessoa com quem vivia não. Como eu já não tinha 25 anos nem estava nesse circuito fechado, quis separar-me. Foi uma separação civilizada.

 

Seria impensável para a que foi daqui, para esse quadro social e familiar, um divórcio após 26 de relação.

Sim. Fui a única do meu grupo de amigos que se separou. E não era comum, na minha geração, serem as mulheres a quererem a separação. Fi-lo sem pensar nas consequências práticas de uma separação – é uma coisa cara. Habituei-me a administrar bem os meus dinheiros, a casa, as coisas. Os meus filhos eram adolescentes. Percebi o que era ser-se mulher na idade boa da vida.

 

Que quer isso dizer?

É poder seduzir pessoas (não tem que ver necessariamente com cama). Estar à vontade para resolver onde é que se quer ir, com quem é que se quer estar, como é que se recebem pessoas em casa. E isso a tempo, e não na viuvez. Ter 40 anos e recriar tudo isso bem, sem perseguições, litígios, conflitos.

 

A Clarice Lispector, escritora que admira, teve um percurso semelhante, ela que viveu anos a ser a mulher do senhor embaixador. É preciso confiança para rasgar a convenção, perceber que há uma vida que se vai começar.

Eu tinha duas vidas. Quando mudei para o Rio, em 1979, casada, comecei a trabalhar no jornal O Mundo Português. Todos os dias ia de ônibus de Ipanema até à Cinelândia (o lugar mais povão que se possa imaginar). O jornal era numa rua de putas, ladrões, botecos. Eu fazia os percursos do povo por aquelas ruas. É importante sentir esse anonimato. Percebemos como é que circulamos naquele ambiente, como é que nos defendemos se há um incidente. Depois tinha a vida de pessoa da zona sul do Rio, saía para jantar fora em restaurantes bons. Por isso, eu tinha já desenrascanço no dia a dia. Algumas amigas portuguesas que viviam no Rio nunca tinham andado de ônibus.

 

As pessoas que conheceu e com quem se deu não eram apenas as da comunidade portuguesa. A abertura aos jornalistas, poetas, intelectuais do Rio germinou em si.

Como dizia o António Alçada, gosto muito de quem gosta de mim. O Millôr Fernandes, conheci-o porque o quis entrevistar. Hoje, sempre que vou ao Rio estou com o Millôr. Quando se está dentro, o circuito acaba por ser muito pequeno.

 

Contou a sua história no livro Casas Contadas. Mas é possível contá-la, também, a partir dos encontros que teve. Que encontros apontaria como os fundamentais para a pessoa que é hoje?

O António Alçada foi uma pessoa importantíssima na minha vida. Uma pessoa que me fez vir para Portugal, simbolicamente, foi o Mário Soares. Em 1987 fez a primeira viagem como presidente ao Brasil e levou uma comitiva de 150 pessoas. Eu vivia há 13 anos no Brasil e fiquei de boca aberta. Portugal era um país que sentava à mesma mesa o ex-comunista José Luís Judas e o coleccionador de arte Jorge de Brito (que não podia ser mais conservador). O reencontro com o presente do meu país fez que eu tivesse o impulso de voltar. O que aconteceu ainda nesse ano. Outras pessoas importantes: a Elsie Lessa, que me disse: “O mais importante que você tem é o seu capital vida. Não desista de fazer coisas”; a Tônia Carrero, que me escreveu numa carta: “Você e o Raul [Solnado], que glória!” Depois de me separar, saía imenso com ela. Ela usava um shortinho, eu roía as unhas, não usava saltos altos. Conversávamos muito de coisas de mulheres.

 

O romance com Raul era glorioso, mas improvável.

Foi uma ligação muito importante. Eu não estava nada disponível para romances, vim com três filhos, queria era perceber como é que se vivia aqui. No Brasil, nessa viagem, ele não tinha dinheiro brasileiro e eu emprestei-lhe o que tinha – ele achou aquilo uma coisa transcendente. As coisas aconteceram naturalmente. O Raul era um grande sedutor, fazia aquele ar muito frágil, que era uma grande arma. Explorava imenso as suas distracções, entornava xícaras, copos…, e deu certo. Não foi uma paixão louca. Nunca tinha visto o Raul no teatro, não sabia A Guerra de cor. Em Cuba, no começo da relação, sentou-se e contou-me a história da sua vida. Sem ser para fazer rir. No Rio, deixava-me recados: “É o Raul lusitano…”. Pouco a pouco, ficou uma ligação intimíssima, criativa, fundamental.

 

Tinha 46 anos quando o romance começa. Uma altura em que normalmente as grandes histórias de amor já estão arrumadas.

Mas estão longe de estar arrumadas. Há um verso do Drummond de Andrade que diz: “Na perigosa curva dos 50 derramei nesse amor”. São fases de grande viragem.

 

Porque há um desejo de manter uma efervescência da juventude? Porque a partir dessa curva da vida passamos a ser mortais?

Não se tem aos 50 anos a noção do ocaso. Têm-se agora, com 66. Por isso é que há urgência em viver. Se há 20 anos me perguntassem: “Queres ir a Paris?”, eu responderia: “Não me dá jeito, vou daqui a seis meses”. Hoje vou. Sabe Deus se amanhã não parto uma perna ou estou tonta. Depois dos 50 e tal pergunta-se como se sobrevive no futuro, se esse futuro existir. Tem-se a noção da precariedade, sim. De cada vez que vou ao Brasil, tenho consciência dos que já morreram, dos que estão perto de morrer. É complicado esse confronto. A maior parte das vezes já sou a mais velha dos lugares onde estou. Tenho a sorte de ainda ter energia, resistência, actividade.

 

Há um momento da vida em que começamos a replicar os nossos pais, mesmo sem disso ter consciência? Como eram os seus pais?

Sou completamente diferente dos meus pais. O percurso que fiz não tem nada a ver com o percurso deles. São tempos muito diferentes, é o antes e o depois da Segunda Guerra. O meu pai era um médico conhecido em Lisboa, de feitio talvez seja parecida com ele. Era uma figura forte, respeitada, educou-nos com uma grande exigência. Eu fazia frente, era mais rebelde do que os meus irmãos. A minha mãe era de uma grande inteligência, intuição, lia muito. Deu-me um sentido estético da vida, as mesas de almoçar e de jantar bem postas, as coisas limpas e arrumados, o estar-se bem na vida. Tinha uma grande preocupação que eu acabasse o meu curso, trabalhasse, fosse independente – o que não era comum.

 

A sua formação é católica. Essa dimensão nunca perdeu importância na sua vida, mesmo no Brasil, onde mudou tanto?

Sempre foi uma dimensão importante. Descobri no Brasil uma igreja de alegria na qual as pessoas acreditavam no reino de Deus sobre a Terra. As pessoas intervinham. Essa formação religiosa não tem a ver com o cumprimento dos rituais, integra a personalidade das pessoas. Não se está em pecado mortal porque não se foi à missa e se está na praia ou a fazer o almoço. Se acreditar na vida eterna, estou menos angustiada, não estou em solidão. Se tenho o privilégio da Fé, não estou sozinha.

 

Disse que se comoveu até às lágrimas quando soube que tinha ganho o prémio Máxima de Literatura.

Pois foi. É um trabalho muito solitário, exposto. Imagine pessoas como a Teolinda Gersão ou a Hélia Correia, que têm textos maravilhosos e já foram premiadas: não é todos os dias que são citadas na imprensa. Não estava nada à espera de ganhar. É muito comovente um reconhecimento. Tive a sorte de na minha vida terem acontecido coisas interessantes. Acredito que todas as vidas são contáveis. É também um testemunho do meu tempo.Tinha as facturas, as cartas, imensas coisas anotadas; sustentei a minha narrativa em coisas concretas. O Rui Zink disse no outro dia que cada homem é um livro em movimento. Eu acrescentaria: cada mulher é um livro em movimento. É uma boa definição. 

 

 

Publicado originalmente na Máxima em 2010

 

Francisco Campos

29.07.14

Quem faz cirurgia plástica em Portugal? Quais são as vantagens desta prática? É possível rejuvenescer sem perder a singularidade da expressão? É possível corrigir o peito sem que isso seja evidente para todos? Como resolver o problema da auto-imagem expresso na frase «Começo a não me parecer comigo»? Francisco Campos responde a estas questões no livro «O meu olhar sobre a cirurgia plástica». As diferentes técnicas, as vantagens e desvantagens a considerar, as sucessivas etapas são ilustrados por dezenas de fotografias que situam um antes e um depois, e esmiuçadas num texto assaz acessível. Nas próximas páginas, conheça o posicionamento deste cirurgião plástico num mundo fascinante e sempre rodeado de polémica.

 

Dedica o livro a todos os seus doentes, em especial àqueles cujos resultados ficaram aquém das expectativas. O comum é que os resultados fiquem aquém das expectativas ou que superem as expectativas?

Os meus doentes, em geral, têm resultados além das expectativas. Controlo um pouco as expectativas que trazem, passo-lhes informação, mostro-lhes milhares de imagens (como aquelas que se vêem no livro). Quando uma pessoa quer fazer um aumento mamário, no meu portfólio há alguém com um «antes» parecido com o seu; portanto, imaginam o resultado como sendo próximo desse que acabam de ver. É uma expectativa realista. Felizmente as coisas correm bem, não tenho nenhum desastre cirúrgico, tenho muito cuidado com a cirurgia plástica. Até porque sou um crítico da cirurgia plástica...

 

É crítico da cirurgia plástica?!

Sou um crítico no bom sentido: vale a pena ser feita, com bom senso.

 

Perante a hipótese de uma cirurgia, o doente deve medir sempre o risco/benefício?

Deve discutir isso com o médico. Os doentes devem fazer todas as perguntas e não devem sair do consultório sem saber quais são os riscos.

 

Qual é a atitude dos doentes que procuram um cirurgião plástico? Levam consigo as estampas das revistas, querem corresponder a um cânone cada vez mais impositivo, integrar-se numa sociedade em que o culto do belo é dominador?

Sou conhecido por ser prudente, quem vem ter comigo tem uma noção real daquilo que faço. A crítica é esta: a procura da beleza é alimentada nos circuitos da cirurgia plástica. Mas é impossível transformar uma mulher feia numa mulher bonita, uma mulher baixa numa mulher alta! Alimenta-se isto, vê-se sistematicamente nas revistas e jornais clínicas novas que põem o Botox, que fazem as pessoas perder quilos e ficar elegantérrimas, que rejuvenescem cinquenta anos com choquezinhos! Isso é tudo uma ideia falsa e o livro foi escrito também por isso: para esclarecer.

 

As pessoas aderem facilmente a técnicas miraculosas porque estão subjugadas pelo desejo da perfeição. A sua perspectiva é crítica nesse sentido. Mas como conciliar as pessoas com a sua imagem, ainda que melhorando-a?

É o que tento fazer. Uma das coisas básicas para se ser candidato a cirurgia plástica é ser-se inteligente, sensato, estar tranquilo.

 

Escreve no seu livro que a cirurgia é aconselhável a todas as pessoas, excepto a quem padece de instabilidade emocional.

Esses são não candidatos. Nunca vão ficar bem.

 

Nunca vão ficar satisfeitos?

Nunca, nunca. A perturbação emocional exclui [alguns candidatos], e também devia excluir toda a gente que engole a publicidade dos emagrecimentos, das máquinas que fazem musculação por elas. Tudo quanto é facilidade em cirurgia plástica significa inequivocamente um erro. Consultar um cirurgião plástico, dizer «Eu quero ficar muito bem» e ele responder «Esteja tranquilo que vai ficar óptima», nunca dá resultado, nem aqui, nem no Brasil, nem nos Estados Unidos.

 

Até onde se deve obedecer ao desejo do doente? É tudo fazível?

O desejo do doente é uma coisa. As possibilidades técnicas e as capacidades para o cumprir, são ou não compatíveis. Os problemas passam pela falta de ordem que existe no meio: há gente que diz que é cirurgião plástico e não é, e os doentes vão [à mesma]. Quem vai a estes médicos são doentes insensatos. É preciso resistir muito ao dinheiro e à necessidade de o ganhar, porque estamos a lidar com a saúde das pessoas. Fazer uma cirurgia plástica em prestações desvirtua a relação do médico com o doente, leva o médico a ter que ter muitos doentes, e lá ficam os cheques em cima da secretária... 

 

Mas, por outro lado, possibilita uma espécie de democratização da cirurgia plástica. O preço é um dos grandes obstáculos...

 E se houver um azar? Vai ficar mais caro ao doente. Tenho conhecimento directo de centenas de problemas. As pessoas têm que estar prevenidas quanto às más consequências da cirurgia plástica. Operar a prestações é o puro facilitismo! Assusta-me, porque está a tornar-se uma questão de saúde pública.

 

Quando é que é um luxo e quando é que é uma necessidade recorrer à cirurgia plástica?

O luxo em cirurgia plástica não existe. As pessoas têm necessidade, e ou têm dinheiro ou não têm dinheiro. Ninguém se opera sem um motivo, mesmo que seja um motivo errado. Querer reencontrar uma relação, é um motivo errado. O meu grupo de doentes é um grupo alegre, felizmente! Ninguém me procura porque o marido anda com a secretária ou houve um divórcio. Concordo que isso possa fazer bem, mas há um motivo físico pelo qual as pessoas querem fazer cirurgia plástica.

 

É possível dissociar o motivo físico do motivo psicológico?

Na minha opinião, é.

 

Há pessoas que vivem bem com um nariz irregular. Há pessoas que aos cinquenta anos precisam desesperadamente de fazer um face lift. Há pessoas que precisam de fazer um implante mamário aos trinta e cinco. E há pessoas que não precisam de todo!

Quem não precisa de um cirurgião plástico, não o procura. Não acredita na história da Miss Brasil que fez dezoito operações, pois não? É impensável.

 

Diz que opera pessoas que querem ficar bem para elas mesmas e não para terceiros.

Para agradar a terceiros, não é uma indicação cirúrgica.

 

Fazer um implante mamário porque o marido gosta de mulheres com peito grande não é uma boa opção?

Não. Grande parte das minhas doentes que me procuram para um aumento mamário, as casadas, vão com o marido. Não é que o marido esteja preocupado, mas apoia essa decisão, «Ela está bem, mas acha que deve...» E eu fico encantado. Partimos todos para a operação com tranquilidade. A cirurgia provoca sempre ansiedade, mas se essa ansiedade for nivelada, pode ter a certeza que faz as operações bem feitas.


Explique-me qual é a importância da componente psicológica no antes, no durante e no depois.

Essa pergunta é giríssima, mas a resposta é muito fácil. A componente psicológica não cabe no sector da cirurgia plástica bem feita, bem planeada e bem explicada. Nunca tive, que me apercebesse, uma doente com uma necessidade psicológica de aumentar as mamas. O primeiro motivo é físico. A parte psicológica tem um lugar qualquer que não é, nem de longe nem de perto, o primeiro. As pessoas não fazem a cirurgia plástica pela parte psicológica, fazem porque têm qualquer coisa que fisicamente as incomoda.

 

A parte psicológica é gostar ou não da imagem que o espelho devolve, e sentir-se bem com ela. O espelho e outros.

Quando penso na parte psicológica, penso na ansiedade dos tais doentes a quem as coisas não vão correr bem. Uma mulher faz um aumento mamário porque não tem mamas grandes ou porque o peito caiu ou ficou mais pequeno no pós-parto: não gosta de se ver, sofre e quer aumentar ou reduzir o peito. Psicologicamente melhora tremendamente, mas não tem antes nenhum problema psicológico.

 

A vida das pessoas muda mesmo depois de fazerem cirurgias plásticas?

A qualidade de vida melhora colossalmente.

 

O que é que as pessoas mais procuram?

Face, aumento e redução mamária, lipoaspiração ultrasónica. Uma cirurgia tem que ter visibilidade. Procedimentos cirúrgicos mínimos que não resultam em nada... Não estou com merdices: ou opero ou não opero. Tenho a sorte de conseguir fazer um face lifting em que as pessoas ficam com a mesma expressão, mas claramente mais novas. As pessoas operam-se para elas, mas quando alguém lhes diz «Estás tão bem», ficam contentes.

 

Normalmente assumem que se submeteram a uma cirurgia?

Assumem. Veja o livro. Há outro grupo que não assume, mas isso não me diz respeito. Eu também fiz e assumi. Dirá: «Foi marketing»; se calhar não foi. A cirurgia plástica está muito mal divulgada e espero que este livro contribua um pouco para a compreensão das coisas. Ao fim e ao cabo, estou a meter-me contra a indústria da cirurgia plástica...

 

Utiliza as suas técnicas, trilha o seu próprio caminho. Fez estágios nos Estados Unidos, no mítico Brasil...

Ex-mítico.

 

Na Áustria, na África do Sul. Absorveu técnicas praticadas um pouco por todo o mundo e depois enveredou por qualquer coisa que é exclusivamente sua.

Eu não inventei nada. Mas a prática diária da cirurgia plástica permite adaptar técnicas dos outros que se tornam as nossas. Quando um cirurgião opera cem doentes, o número cem já é operado com a própria técnica. Já alterou a forma de suturar, de remover tecido mamário. É a experiência. Para um cirurgião plástico, se calhar esta idade é a melhor de todas: ainda temos energia física, ainda gostamos de viver...

 

Opera muito melhor agora do que operava há dez anos?

Inquestionavelmente. Dantes baseava tudo naquilo que lia. Agora, raramente leio um livro, um artigo – mas quando sei que há qualquer coisa nova, vou aprendê-la. A cirurgia plástica está bem mais na cabeça do que nas mãos, está na experiência, que, a partir de certa altura, passou a ser a minha.

 

Como apresentar o seu modo de operar? Como perceber que «aquelas» maminhas foram operadas por si? Há um estilo pessoal, como um escritor tem o seu, um artesão tem o seu?

Há técnicas de aumento mamário que demonstram inequivocamente que houve uma operação. Com as técnicas que utilizo, não se nota. Os doentes esquecem!, o que é bom. Mas certamente falam de mim numa altura própria a alguém.

 

É a melhor publicidade, o trabalho?

É. Não são revistas cor-de-rosa. Eu não rejeito, mas não estou nada ansioso. Colocar uma mama pela axila permite perceber que há uma operação. Num ginásio faz-se um movimento, o músculo contrai-se e a prótese sobressai. Há próteses colocadas pela axila que estão excelentes, mas a maioria não está, e há uma enorme percentagem de casos com complicações. É uma técnica cega, não se visualiza o que se está a fazer.

 

O risco é muito maior?

Eu nem executo.

 

Prefere fazer com um corte submamário.

É aquela que permite visualizar todas as estruturas onde estamos, controlar vasos sanguíneos..., é simples, eficaz. Algum tempo depois, aquela cicatriz não se vê.

 

A sua experiência de trabalho na África do Sul foi determinante. Começou por fazer microcirurgia da mão, muito antes de se dedicar à cirurgia plástica.

A cirurgia da mão é supermeticulosa. Aprendemos a manusear os tecidos com extrema delicadeza, com muito pouca agressão, e foi isto que transplantei para a cirurgia plástica. Quanto a instrumentos, só utilizo tesoura para cortar um bocado de pele num face lift e nas pálpebras. Utilizo bisturis, cortes limpos, superfícies claramente perpendiculares umas às outras.

 

Mas isso exige uma segurança muito maior.

Veio da mão. Quando fui para a África do Sul vivia-se cá um período pós-revolucionário. Comecei a trabalhar três dias depois de ter chegado. Não foi nada difícil adaptar-me às circunstâncias. Tudo aquilo parecia sensato, feito para salvar vidas, salvar mãos, a favor do doente, independentemente de serem negros ou brancos. Os médicos eram também professores, tínhamos discordâncias, mas tomávamos chá todos os dias, juntos. Não havia guerras. No Brasil a guerra entre os médicos atinge o ridículo, em Portugal é surda, e absurda. Na África do Sul trabalhava-se mesmo, e essa aprendizagem foi determinante na minha vida.  

 

 

Publicado originalmente na Revista Elle em 2004

Francisco Campos morreu a  29 de Julho de 2014

 

 

 

 

Soraia Chaves

28.07.14

Cresceu na Trafaria. Fez o liceu. Quis fazer cinema. Fez moda (“Nunca foi um objectivo de carreira, simplesmente servia para ganhar dinheiro e viajar”). Apaixonou-se por Roma, trabalhou em Atenas, Londres, África do Sul, Holanda.

Saiu pela primeira vez quando representou Portugal num concurso de beleza. “Éramos 100 miúdas, de todo o mundo, fiquei fascinada com as diferenças culturais ali presentes. Fiquei surpreendida por existirem tantas mulheres bonitas”. Foi em Nice, tinha 15 anos.

Portugal ficou a conhecê-la como Amélia, em “O Crime do Padre Amaro”. Depois deu-se o encontro com António Pedro Vasconcelos, que não lhe poupa elogios, em “Call Girl”. Em Dezembro, estreia o novo filme do realizador, em que é novamente a protagonista. “A Bela e o Paparazzo” é uma comédia. No dia da entrevista, depois de meses em que foi uma loura desequilibrada, Soraia Chaves voltava à sua natureza morena. A ela mesma.     

  

Em “A Bela e o Paparazzo” é uma actriz de telenovela, cuja vida pessoal é vampirizada pela imprensa cor-de-rosa. A tentação é a de colar esta personagem à sua condição de figura mediática.

Eu não tenho a exposição pública de uma actriz de telenovela. Não entro em casa das pessoas todos os dia. Ando por Lisboa tranquilamente, faço a minha vida normalmente, vou aos cafés, a um quiosque comprar um jornal. Há uns cochichos, uns comentários, uns olhares indiscretos; mas são raras as vezes em que sou abordada. Sou muito diferente [de cara lavada]. Se eu usar saltos altos, uma roupa justa, um look apelativo, a associação é feita imediatamente.

 

Entrou no mundo da moda com 14 anos. Como é que descobriu que podia ser outra? Como é que descobriu em si a femme fatal que produz um impacto erótico nos outros?

Só me dei conta do impacto erótico mais tarde, não aos 14 anos. A transformação, percebi-a na primeira sessão fotográfica. Por instinto. Vestir um vestido glamoroso, usar uns saltos altos, ter uma câmara apontada, opera uma transformação, faz-me sentir diferente.  

 

É verdade que qualquer mulher, quando põe uns saltos, sente-se mais poderosa.

A atitude muda. Há qualquer coisa que muda. A reacção das pessoas muda, e não sou indiferente a isso. Houve uma fase em que gostava de causar esse efeito. Tinha cerca de 20 anos. Aos 27, estou mais preocupada com o facto de me sentir bem na minha pele.

 

A Maria, de “Call Girl”, e a Amélia, do “Crime do Padre Amaro”, colaram-lhe o rótulo de bomba sexy.

[Risos] É verdade que o meu início foi ligado à imagem de mulher sedutora. Mas o personagem de “Call Girl”, conforme estava escrito, era muito mais do que uma femme fatal, era uma mulher complexa e interessante. A nível pessoal e a nível profissional, precisei de me distanciar. De momento, faz sentido descobrir novos personagens. Mostrar alguma versatilidade, ou pelo menos tentar trabalhar essa versatilidade.

 

Ficou cansada de ser olhada apenas como um símbolo sexual? 

Fiquei. Eu tenho mais para mostrar. Seria fácil construir uma carreira baseada nessa imagem, seria mais óbvio… Não me interessa.

 

Como era aos 14 anos?

Cresci muito cedo. Saí à minha mãe, que é uma mulher grande. Aos 14 anos tinha corpo de mulher, mas era uma miúda muito tímida – e ainda sou. No trabalho, sempre houve essa transformação. Eu gostava de explorar esse outro lado… A moda permitiu-me isso.

 

Sem perceber completamente até onde é que isso ia? Aos 14 anos, vive-se uma fase de descoberta do próprio corpo, da sexualidade.

Não ia a lado nenhum, ficava na sessão fotográfica. Era um momento de libertação, de jogo, de prazer. Sabia que era uma pessoa em frente à câmara e fora do estúdio era outra. Comecei a trabalhar em Maio e descobri os saltos altos. Foi isso que fiz quando recebi o primeiro cachet: comprar uns sapatos de salto alto.

 

Descreva os sapatos.

Eram umas sandálias, que hoje acho muito feias! Com um tacão grosso, enorme. Adorava andar nos saltos altos. Com aqueles sapatos e roupa justa, comecei a chamar demasiado a atenção, comecei a sentir demasiados olhares sobre mim. Fartei-me disso, quis passar despercebida. Aos 16 voltei a usar ténis e calças de ganga com remendos. Não tenho esse desejo de atenção. Não é natural em mim. Se acontece pelo meu trabalho, aceito, mas não na minha vida. Portanto, voltei a cobrir-me.

 

Como é que foi parar à moda?

Fiquei impressionada com algumas reportagens fotográficas, com editoriais que vi em revistas. Numa delas, as leitoras podiam concorrer e fazer uma sessão fotográfica profissional. Resolvi inscrever-me. Lembro-me de brincar com as minhas irmãs, de calçarmos sapatos, de pôr maquilhagem nas festinhas da escola. Tínhamos um espelho enorme e fazíamos isso em frente ao espelho. Nós somos cinco, eu sou a quarta.

 

Sentiu que tinha atenção ou teve que lutar por ela?

Durante seis anos fui a mais nova da família. Tinha atenção, gostava dessa atenção, trabalhava para ter essa atenção. Sempre tive uma personalidade muito forte. A minha mãe dizia que eu tinha tanto de carinhosa como de arisca. Não gostava de ser contrariada, gostava das coisas à minha maneira. Para conseguir isso, era doce e dava beijinhos.

 

Qual era a sua táctica infalível para manipular os mais velhos?

Era, no final do dia, deitar-me na cama da minha mãe e abraçá-la. Não era para manipular, só. Era sincero. Depois havia momentos de rebeldia. Fui crescendo, aprendi a controlar o meu temperamento. Aprendi que há limites, aprendi que há um sentido de igualdade, de respeito e de justiça. Há o equilíbrio, onde ainda não cheguei. Ainda estou a trabalhar para isso.

 

Não sente qualquer inibição pela exposição física que lhe é pedida nos filmes?

Os actores despem-se, não literalmente, no palco, no plateau. É admirável e às vezes assustador. É assustador, se for sincero. E isso implica uma exposição emocional muito forte. É bem mais complicado do que tirar a roupa. Um corpo é apenas um corpo, ao qual não dou assim tanta importância; é superficial.

 

Como é que os seus pais assistem à personagem pública em que se tornou? Foi embaraçoso tê-los na sala de cinema a ver cenas íntimas, como a da masturbação, no “Call Girl”?

Eles não fazem comentários. São incríveis! Se fosse uma exposição da minha intimidade, provavelmente ficariam chocados; mas entendem que aquilo é ficção, é um personagem que interpreto. O lado físico: trabalho com a minha imagem desde miúda, já fiz algumas transparências, e eles sempre conseguiram fazer um distanciamento. Admirável. Não sei se o conseguiria fazer se tivesse filhos. Na estreia d’ “O Crime do Padre Amaro”, o meu pai disse que lhe tinha custado bastante mais ver uma cena em que um homem me dá um estalo do que as cenas de nudez. Depois, sinto que têm orgulho por eu ter conseguido alcançar o que queria.

 

O que é que queria exactamente? O sucesso, ser conhecida, ganhar dinheiro, sair da Margem Sul?

[Pausa] A vontade de sair da Margem Sul aconteceu aos 15 anos. São vinte minutos de distância de Lisboa, mas há uma grande diferença. Viver onde cresci é como viver numa aldeia. As pessoas são muito puras, a simplicidade das coisas está ali. O que foi bom para a minha infância. Aos 15 anos quis viver mais, conhecer, descobrir. Lisboa foi o primeiro passo. Depois comecei a viajar. No fundo, quis criar um mundo que fosse o meu. O meu objectivo principal era representar, trabalhar em cinema.

 

Tinha 22 anos quando fez o casting para “O Crime do Padre Amaro”, e a sua vida mudou depois disso. Só agora está a investir em cursos de representação. Porquê?

Foi algo que não fiz na altura certa e não sei dizer porquê. Talvez tivesse falta de confiança. Pensei que não seria suficientemente boa para entrar numa escola. Havia uma insegurança, que continua a existir em mim. É o medo de falhar, o medo de não conseguir ser o melhor que posso ser. Estou constantemente à procura dessa evolução. Exijo muito de mim. E daí querer fazer formação.

 

Nesse sentido, o encontro com António Pedro Vasconcelos foi fundamental?

Absolutamente fundamental. E antes, o encontro com o João Canijo, com quem tive as minhas primeiras aulas de representação. O António Pedro gosta muito de actores, é notória a preocupação com a história e os personagens. Passou-me algumas referências do cinema clássico. Os filmes de Billy Wilder.  “Anjo Azul”, com a Marlene Dietrich. “A Caixa de Pandora”, de Pabst. Adoro John Cassavetes, que descobri pela mão de Canijo.

 

Quais foram as referências para esta personagem – uma actriz de telenovela?

Vi filmes em que as personagens têm uma energia mais louca, mais raivosa, mais impulsiva. A minha personagem está perdida no início do filme, porque quer realmente ser actriz e quer levar o seu trabalho a sério. É um pouco bipolar. Está numa fase em que explode, é capaz de bater, gritar, insultar, bater com a porta. Eu sou o oposto: sou calma, tranquila, ponderada.

 

Aparecer loura, mexeu consigo? Distanciou-a de si mesma?

No início, senti um desconforto muito grande! Olhava-me ao espelho e ficava frustrada. Acho que consegui usar isso para a personagem – porque a Mariana está desconfortável naquele momento da vida dela. Acabei por achar divertido: sou eu, não sou eu. Estar loura ajudou-me a distanciar a personagem de mim.

 

Consegue perceber porque é que não se reviu? Quase todas as femme fatal são louras.

Excepto a “Gilda” [interpretada por Rita Hayworth]. Não é a minha natureza, e eu gosto da naturalidade das coisas. Senti que o cabelo louro não encaixava com a minha personalidade ou comigo. (Mas passados quatro meses já me estava a habituar. É incrível a capacidade de adaptação do homem!)

 

O seu corpo é uma ferramenta de trabalho. É inesperado perceber que tem o cabelo ondulado e umas borbulhas na cara. Não coincidem com a imagem das revistas e dos filmes. Cuida de si?

Não consigo passar o meu tempo preocupada com o meu físico, com o meu corpo, com a minha pele. Não quero ser refém do meu corpo nem da imagem. Não me considero magra. Sou naturalmente assim.

 

Curvilínea.

Uma gordurinha, uma ruga: são naturais. Cada vez mais aprecio a imperfeição. O que é um corpo perfeito? É um corpo seco, sem gordura? São os abdominais trabalhados? Não concordo. Não acho feminino. O grande ícone sexual do século XX, Marilyn Monroe, estava longe de ter um corpo (hoje) considerado perfeito. Identifico-me mais com esses padrões, da beleza natural, do que com a beleza que implica horas de ginásio e operações plásticas. Acho que não vou por aí.

 

É fácil dizer isso porque não precisa de pôr silicone no peito. É fácil dizer isso quando se tem uma boa matéria-prima.

Não sei se o meu corpo está de acordo com a norma vigente. Há imensas actrizes que são forçadas a emagrecer para estar na moda. Não estou a queixar-me do corpo que tenho, e não estou a censurar quem o faça. Simplesmente não quero isso para mim. Se isto é fácil de dizer? Já senti essa pressão: “Estás com dois quilos a mais, tens de emagrecer”. Mesmo depois de ter este reconhecimento público. Mas não pretendo tentar ser aquilo que não sou.

 

 

Publicado originalmente na Máxima em 2010

 

Ana Cristina Oliveira

27.07.14

Ana Cristina Oliveira ligou na véspera. Pediu uma boleia para o estúdio onde ia decorrer a sessão fotográfica. Conversámos entre um trânsito infernal e o calor de um dia de Verão. Vestia um vestido longo, cai-cai, trazia o cabelo apanhado, estava agarrada a uma garrafa de litro e meio de água. Falou da América em crise, e denunciou a crise em que também ela vive. E agora, Ana Cristina? Em vésperas de fazer anos, pôs as cartas na mesa e não arriscou previsões. Olhou-se ao espelho, sem contemplações. Disse que tinha o cabelo de uma mulher das cavernas. Diz coisas com graça, diz coisas aterradoras. Depois ri-se para partir o gelo. 

Mantém a irreverência da miúda que fez o anúncio da Levis. Ou que dançou com Bryan Adams. Protagonizou o filme “Taxi” ao lado de Gisele Bundchen – era uma ladra. Mas verdadeiramente gostou de ser “Odete” – a caixa de supermercado que patinava em direcção ao espectador.

Agora está de férias em Portugal. Foi há 20 anos que tudo começou.

 

 

Tem 36 anos. Faça o seu auto-retrato.

Tinha uma ideia de quem eu era há quatro ou cinco anos. Nestes últimos anos, houve uma mudança. Nem me reconheço. Fiquei muito mais séria, ponderada. Eu não era bem pateta, era destravada. As maluquices que agora faço, faço-as com cúmplices, com pessoas que não me vão julgar. Não faço à descarada como antes. Aos 20 anos, eu queria lá saber do que os outros podiam dizer de mim! Às vezes magoava…

 

A mudança coincidiu com a curva dos trinta…

Não foi fazer 30 anos. Foi fazer 33, a idade de Cristo. Deve ser um resto do catolicismo. “Agora, morreste, ficaste crucificada. O que tiveste até agora, that’s it!” Quando tinha 17 achava que ia viver até aos 300 anos. Quando tinha 17 imaginava que aos 33 teria outra vida.

 

O que detonou esta mudança significativa?

Vivo num país onde trabalho e dinheiro são sinónimo de auto-estima. Tudo o que vem além disso é um acrescento. A família e os amigos são valores secundários, são uma coisa supérflua. É o oposto do que se tem em Portugal. Sempre senti isto, mas nunca com tanto realismo. Sabia que os meus amigos não estavam nos Estados Unidos. É um país onde tudo muda, onde as pessoas estão sempre em trânsito. Trata-se de trabalho, trabalho, trabalho. Entrei nos trinta e a economia mudou. Antes disso, o 11 de Setembro. Constatei que o trabalho estava a desaparecer, os restaurantes a fechar.

 

Que vida imaginava para si quando tinha 17 anos?

Nunca imaginei que aos 35 iria para a universidade! Matriculei-me em História de Arte. Porquê? É a única coisa que me interessa um bocado. Medicina, não. Advocacia, não. O interesse pela História de Arte [deriva] de olhar para as coisas. Porque são bonitas. As pessoas perguntavam-me qual era a minha formação base. Eu respondia: “I’m indecided” [Sou indecisa”]. Quando uma pessoa tem 18 anos, é indecided. Mas aos 35 anos, História de Arte é uma coisa decente de se dizer.

 

Como foi voltar à escola?

Quando entrei no college assustei-me imenso. Eu tinha andado sozinha por todo o lado…, e estava a morrer de medo. De tudo. Já não estudava há muitos anos. Vou ser capaz, não vou ser? Antes de fazer o primeiro exame, achei que ia vomitar. De ansiedade. Agora estou mais habituada.

 

Teve medo de ser uma loser, uma perdedora?

Esse medo ainda persiste. Paira. É como aquela névoa que está sempre sobre a serra de Sintra. É um modo de fazer contas à vida: o que é que fiz?, o que é que quero fazer agora? É uma questão que me ponho. Não estou a ser fatalista, fadista…, mas comecei a sentir a solidão e a saudade. Los Angeles é uma cidade muito solitária.

 

Vive sozinha?

Com o meu gato. Não é bem viver sozinha, embora os gatos sejam muito independentes. Sinto uma ponta de nostalgia quando penso no passado, quando levanto interrogações sobre o futuro. Isso deixa-me num estado de ansiedade. E como não faço ioga nem meditação, fico a suar, só de estar parada, a pensar. Não sei se sentiria isso se os meus 30 coincidissem com os anos 90 nos Estados Unidos. Estou a estudar praticamente a tempo inteiro há quase dois anos.

 

Vive de quê?

Tinha algumas reservas. Foi a coisa boa de ser portuguesa e de ser filha de pais mais velhos. Ensinam-nos que “nunca se sabe o dia de amanhã”. Não podia supor que o dia de amanhã seria tão devastador. O espírito de poupança não vai bem com a cultura americana. Olho para o lado e vejo pessoas que conheço de perto a passar mal.

 

Protagonizou o filme “Odete” de João Pedro Rodrigues. Porque é que foi uma experiência tão avassaladora?

Adorava repetir a experiência do “Odete”. Adorei trabalhar com aquela equipa. Adorei ter passado noites num cemitério, passar dias sob um calor de 40 graus. Foi o melhor trabalho da minha vida. Enfiei-me na personagem. Eu adoro o trabalho como actriz. Se eu quisesse trabalhar mais, trabalhava mais. Mas sou muito selectiva. Se calhar sou snob. Se leio um argumento e acho que é uma patetice pegada, prefiro não fazer. Fiz um curso de representação no Stela Adler Academy.

 

Que não é um sítio qualquer.

Pois. Não faço coisas simplesmente para aparecer. Não quero ser actriz apenas para ser famosa ou para aparecer na festa do croquete. Até hoje não me arrependo de nada que tenha recusado. Quer em Portugal quer nos Estados Unidos. Posso ponderar a situação se for um trabalho que não aquece nem arrefece o currículo, mas que me dá um bom saco de dinheiro sobre o qual estou sentada a rir durante uns tempos. As pessoas dizem: “Que é que ela tem feito?” É a minha escolha: não fazer.

 

É uma escolha que tem implicações, nomeadamente ao nível do dinheiro.

Tem. Faço trabalhos eventuais. O ano passado dei aulas de português no Beverly Hills Language Institut. Apareceu alguém a querer aprender português de Portugal – normalmente querem aprender o português do Brasil. É verdade que quanto mais se ganha mais se gasta. Nos últimos anos aprendi a ser poupada. Jantaradas constantemente fora de casa? Pararam. Nos últimos anos tenho ido a uma loja onde nunca tinha entrado e que agora é o meu supermercado: o 99 Cents Store.

 

Ou seja, tudo a praticamente um dólar.

Não vou comprar rolos de papel higiénico que custam três dólares na loja chique na esquina de minha casa; vou comprar ao 99 Cents Store. E é a mesma marca. São coisas que via a minha mãe fazer, que nunca tinha feito e que agora faço. Dar uma volta e comprar no supermercado mais barato.

 

Percebeu que não precisava de muito dinheiro para viver.

A quantidade de parvoíces que eu comprava quando não estávamos em crise! Um desperdício. Quando acabava os castings e tinha dois dias de folga, ficava aborrecida, saía de casa e ia fazer compras. Podia ser um perfume ou um creme que não serve para nada. Eu dava-me com pessoas da moda e do cinema. Desde que vou à escola, dou-me com pessoas que apanham dois autocarros. Na Europa, qualquer pessoa apanha o autocarro. Em Los Angeles só uma pessoa mesmo pobre apanha o autocarro. Eu só conhecia aquele mundo. Onde se acha normal que um par de sapatos custe 500 dólares. Quando se sai desse mundo e se lida com outras pessoas, 500 dólares passa a ser um preço impensável para um par de sapatos.  

 

Esse mundo glamoroso é também conotado com excessos. De álcool e drogas.

Continua a ser assim. A diferença é que umas drogas eram famosas nos anos 80, outras nos 90, outras nos últimos anos. É como a moda: muda, mas sempre há. E é como a bulimia e a anorexia. Só agora é que descobriram que há pessoas extremamente magras nas revistas? Vivi com uma modelo, que era uma das minhas melhores amigas; eu não sabia que ela era bulímica. São doenças que se escondem. As pessoas não saem da mesa e não anunciam: vou ali vomitar e já venho. Droga: sai uma fotografia da Kate Moss a snifar cocaína. Uau!, como se fosse a primeira. Não há paciência para este falso moralismo.

 

O seu corpo é a sua ferramenta de trabalho. Alguma vez foi um problema ser olhada apenas como um corpo?

Quando sou escolhida para um trabalho, o cliente vê o portfólio, e o pouco que se diz é o nome, a idade, de onde vem. A pessoa é escolhida em função daquilo que querem: mais magra, mais alta, com peito ou sem peito. É o aspecto físico o que está em causa. É preciso aprender a lidar com isto com naturalidade. Paris era o sítio mais desagradável para um manequim – não sei se ainda é. Entrava, e se dizia olá, nem respondiam! Entregava o book e nem bom dia nem boa tarde. Uma pessoa habitua-se a isto: a ser tratada como se fosse nada. Como se fosse um objecto.

 

Fala nisso e comove-se.

Na altura, não me ofendia. Mas agora, quando penso nisso, dói. As manequins começam muito nova. Eu comecei com 16, saí daqui com 17. Criei defesas. Entrei nesta cadeia.

 

Quando é que sentiu que estava por sua conta?

Quando fui para o Japão. Estava sozinha, chegava a casa ao cabo de 17, 20 castings, exausta, a morrer de fome. Chegava ao apartamento das manequins e não podia virar-me para uma pessoa que tinha a mesma idade que eu e pedir-lhe que me fizesse uma sopa. Percebi que estava por minha conta.

 

Tem uma boa relação com a sua mãe?

Agora tenho, porque sou crescida. Mas quando era rebelde não era fácil. Coisas de teenagers. Nunca gostei de ter horas para chegar a casa. Que horror! Se eu tivesse uma filha, trancava-a numa cave! [risos], como fez o austríaco. De que queria protegê-la? De tudo. Se tivesse a certeza de que tudo ia correr bem… Mas nunca se tem. Hoje percebo que a minha mãe foi corajosa por ter-me deixado ir para o Japão, e daqui para todo o lado. Eu era menor. Conheço pessoas de 17 anos e penso que foi com esta idade que me lancei, feita tola. A trabalhar, a discutir com pessoas adultas para ser paga. Nem tudo é maravilhoso e estamos sempre a ouvir histórias da carochinha para pagamentos.  

 

Gostava de ter filhos?

Gostava. Espero que sejam bem comportadinhos. [risos]

 

Que planos tem? Pensa voltar a Portugal?

Não sei. Deixei de dizer “nunca”. Agora só digo “não tenho a certeza”. Tudo pode acontecer, o futuro está em aberto.

 

Começa a assistir ao “envelhecimento” do seu corpo. Para uma manequim, a palavra não é tão desajustada assim.

Cheguei a Portugal há uma semana e meia; a minha mãe olhou para mim e disse com um sorriso encantador: “Engordaste mais um quilinho!” Se como mais um bocadinho, engordo mais facilmente. E depois, para emagrecer, não é tão fácil. Tenho-me mantido a comer quase tudo o que quero e sem fazer desporto – o que é péssimo. Tenho de começar a correr, a fazer alguma coisa. Isto já não é o que era…

 

Voltemos ao auto-retrato. Que pessoa é?

Sou uma rapariga que estuda. Sou um pouco bipolar, sem que me tenha sido detectada uma doença bipolar. Vivo entre a euforia e a depressão. Sou inconstante. Não dependo dos dias, dependo das estações. Que pessoa era quando fiz o anúncio da Levis? Era talvez mais feliz. Era mais nova, viajava constantemente, profissionalmente tudo corria bem. Pensava que ia ser sempre assim. Não sei se era mais feliz, mas era mais confiante. Preferia ser como era antes. Menos consciente. A consciência faz-nos pensar, ponderar. Foi isso que evitei a vida toda. Estar inconsciente é muito melhor. Não tem de se sentir nada. Sentir dói. Todos os sentimentos fortes doem. A amizade dói, a saudade dói, o amor dói. O medo não dói tanto. O medo é paralisante. 

 

A sua mãe, de quem falou várias vezes, é a pessoa mais importante da sua vida?

É. A minha mãe tem 73 anos. O meu pai faleceu há onze anos. A minha mãe é a única pessoa que dava a vida por mim, tenho a certeza disso. Nem o meu gato dava a vida por mim! [riso] e eu sou tão boa para ela. Chama-se Jack.

 

 

 Publicado originalmente na Máxima em 2009

 

 

Carlos Moreira da Silva

24.07.14

Estamos sentados numa mesa exígua e surpreende-me que os seus olhos sejam azuis. Ele diz que são acinzentados. Quando eu o conheci, ele passava por figura possante, vagamente abrutalhada, capaz da maior carnificina. E essas figuras, na cabeça de uma menina que não tinha nem 20 anos, nunca têm olhos azuis.

Conheci Carlos Moreira da Silva quando integrei os quadros da Rádio Nova, da qual ele se despedia como administrador. Coincidimos num jantar de Natal e, mesmo fora, a sua fama perdurou pelos corredores durante muito tempo. O facto só é relevante por indicar que há 15 anos ele já era tudo o que é hoje. Ainda os olhos: “Os meus pais deram-me uma vez no natal um álbum de fotografias que dizia respeito às várias fases da minha vida”. O que não mudou? “Os olhos são muito estáveis. Os olhos e a boca”. Como se perceberá no fim da entrevista, ele já era o que é hoje quando era um menino. Sanguíneo, vaidoso, determinado. E, estranhamente, ou talvez não, tímido, inseguro, conhecedor dos seus medos e limites.

É um corredor. No sentido literal e no sentido metafórico do termo. É um corredor que gosta de correr e que precisa de correr. Como se a vida, e a fúria, e o ímpeto, arrisco eu, não lhe coubessem no corpo e ele precisasse de os expelir junto com o suor. Corre de madrugada e invento que delineia os dias nessas horas solitárias. Evita os caminhos cujos riscos não pode controlar, cujas regras desconhece.

Corre desde sempre. Atrás do dinheiro, do dinheiro, do dinheiro. E também atrás do frémito da vitória. Trabalhador infatigável, Carlos Moreira da Silva é um gestor de sucesso. Fez carreira na Sonae, discípulo de Belmiro de Azevedo. Antes, estudou engenharia mecânica, deu aulas na faculdade, trabalhou com Valente de Oliveira numa comissão regional formada no pós-Revolução. Mas foi o doutoramento em Inglaterra e a entrada no mundo das empresas (primeira na EDP, em 86, depois na Sonae, em 88) que mudaram a sua vida. Mudaram-na de um modo tão determinante que parece que o que aconteceu antes não conta, ou não existe mesmo. Aposto em como não se lembra de uma matéria estudada na faculdade..., de tal modo está longínquo o tempo em que escolheu o curso por gostar de corridas de automóveis.

Este homem nasceu para ser o mais velho dos irmãos, cioso dos seus privilégios. Vive entre o desejo de liberdade e o pânico de a ter e não saber o que fazer com ela. 

Revitalizou a Barbosa & Almeida, da qual é presidente e na qual investiu o trabalho de uma vida. É casado pela terceira vez, tem três filhos. Vive entre o Porto e Lisboa e continua a ser, em muitos aspectos, um homem do Porto. Nas expressões que usa, no ligeiro sotaque, no modo como se ri. Há coisas que não mudam mesmo quando se resolve grandemente o problema do dinheiro. Daqui a dias vai fazer 54 anos. Má sorte: estará em Madrid, e nem o filho, que aí vive, poderá estar com ele. Quando lhe pergunto que presente gostaria de receber... não revela!

Na entrevista, revela mais do que eu poderia supor, depois de uma boa hora em que se esperneou na cadeira e se escapuliu como pôde. Por fim, gostámos de nos rever. Passaram mais de dez anos, entretanto...

 

Estava a dizer que nem por fora é o mesmo? O que é que mudou na sua vida desde a última vez que nos vimos?

Tenho pela mudança um fascínio. Às vezes pergunto-me se não estou a mudar só por mudar... É um estímulo de aperfeiçoamento permanente, e não me causa ansiedade. Para mim é um grande desafio. Capacidade de aprender, ainda tenho.

 

Parece mais apaziguado. Sente-se bem consigo?

Sinto. Mas sentia-me bem antes, também. Vou dizer-lhe uma frase feita, (e que peca por isso mesmo...), que reflecte a minha atitude perante a vida: “Eu gosto do que como”.

 

É tão nortenha, essa frase! Não imagino um lisboeta a dizer uma coisa dessas.

Há pessoas que têm o privilégio de comer só do que gostam.

 

Vamos, então, às suas raízes. Nasceu no Porto e é o mais velho de uma família de muitos irmãos.

Dez. Garante uma grande diversidade em casa... A juventude foi marcada por alguma agressividade em relação aos pais: dificuldade em sintonizar. Chumbei por faltas no terceiro ano do liceu, fui para um colégio interno, fui trabalhar...

 

Conte-me isso devagar, que parece suculento...

Eu era um aluno medíocre. Nas férias da Páscoa, chumbei por faltas. Por jogar ao bilhar e futebol - coisas bem mais interessantes [do que estudar]... E tive sete negativas em nove disciplinas. O meu pai pôs-me a trabalhar numa fábrica de um tio meu, de curtumes. Trabalhei desde a Páscoa até ao dia 30 de Setembro. Não houve terceiro período nem férias. Tinha 12 anos.

 

O seu pai estava disposto a levar o castigo até onde fosse preciso.

Como se viu. Ao sábado, trabalhava-se até ao meio-dia, nas fábricas, e eu pegava no dinheiro que recebia, 13 escudos, chegava a casa e dava-o ao meu pai. Ele devolveu-mo, um tempo mais tarde. Quando achei que tinha acabado o castigo é que foi violento: fui para um colégio interno, em Oliveira de Azeméis.

 

O que é que fazia o seu pai?
Arquitecto. Tive uma educação muito rígida, que não funcionou mal. Já com 13, 14 anos, eu queria ter autorização para sair todos os dias do colégio, dar uma voltinha..., e comecei a ter boas notas.

 

O que é que o fez zangar-se tanto com os seus pais e com mundo? Essa zanga manifestou-se sob a forma de más notas. Este não é um daqueles quadros de famílias numerosas e carenciadas, em que é comum o desaproveitamento escolar.

Não é assim. Uma família de dez filhos é sempre uma família com dificuldades. Há restrições que eu, se calhar por egoísmo, dificilmente aceitava. Gostava de ter mais dinheiro, que não tinha... O ter más notas, não é de revolta. O ser madraço, não foi uma atitude deliberada. Foi facilitismo e pouco trabalho. Os meus pais são muito católicos...

 

Facto que parece indissociável de ter tantos filhos... Exactamente. Fui educado catolicamente e comecei a divergir cedo, aos 15 anos; até que assumi a ruptura e uma tensão grande com os meus pais. Fiz exercícios de introspecção de modo muito obcecado. Quando rompi com o catolicismo, aos 18, 19, 20 anos, fi-los à procura de referências.

 

Isto é psicanálise de trazer por casa, mas estava a pensar na relação forte e tensa e longa que teve com a Sonae e com o engenheiro Belmiro de Azevedo. É possível estabelecer um paralelismo entre esta e aquela que manteve com o seu pai?

Acho que não. Até porque o meu pai é um artista. Nunca tive com o meu pai uma relação de aconselhamento [em relação à vida]. Rompi com a religião e tínhamos ali uma barreira de comunicação. E a vida dele nunca teve nada a ver com a minha. Antes do Engenheiro Belmiro: há uma outra pessoa, em calendários diferentes e com profundidades diferentes, que me influenciou muitíssimo, o engenheiro Valente de Oliveira. Foi a primeira pessoa com quem trabalhei, na Comissão de Planeamento da Região Norte. Eu era um dos rouba-lápis que por lá andavam, recém-formado, 23 anos.

 

O seu pai e o Engenheiro Belmiro têm em comum uma austeridade e um grau de exigência acima da média. E são inflexíveis. Isso surte bom efeito em si. Esta metodologia destaca o melhor que tem.

O que me faz destacar-me é o desafio e a dificuldade. Eu sou melhor do que eu quando as coisas são impossíveis. Ultrapasso-me quando a tensão é muita, quando a dificuldade é muita. Transcendo-me. Faço-o com muito gozo.

 

Está bem, guarda-se a relação com o Engenheiro Belmiro para mais tarde. Há pouco, quando falou das boas notas, disse que as perseguiu porque queria coisas tão prosaicas quanto sair do colégio às sete e meia da tarde. Mas não falou de brio.

Nunca pensei muito nisso, mas não tenho a certeza que sejam totalmente coincidentes os meus valores pessoais e os profissionais. Mas há duas coisas que são essenciais: transparência e rigor. [pausa] Estamos às voltas...

 

É normal. As boas conversas são sempre circulares, elípticas.

Eu costumo preparar-me [para as entrevistas] e para esta tentei e não sabia...

 

Ainda bem. Ou confia em mim...

Eu isso... nem em mim [confio], às vezes.

 

Isto é muito claro nestas entrevistas: ou tem vontade de se dar a conhecer, e isto passa a ser um jogo de entrega e confiança, ou então resulta num retrato profissional, igual a todos os outros.

Eu não gosto muito de abrir a porta toda.

 

É sempre o entrevistado que diz até onde é que quer a porta entreaberta. O meu propósito não é devassar o outro, mas conhecê-lo. Saber porque é que é o presidente da Barbosa&Almeida e não é, por exemplo, padeiro.

Não podia ser... Já lhe disse que gosto do que como. As oportunidades aparecem e eu agarro-as. Em 1998, não tinha ideia nenhuma que o centro da minha vida profissional pudesse ser aquele que é hoje. Foi uma oportunidade.


Ainda lá trás: qual é a memória mais antiga que tem de si?

Lembro-me de gatinhar. Mas às tantas uma pessoa não sabe se foi das fotografias que viu, se é uma memória induzida. Lembro-me vagamente da casa, uma casa grande.

 

Quando eu era pequena, vivia perto de mim uma família que tinha dez filhas, só raparigas. Uma delas contava que não havia sapatos da Lígia ou da Albertina. Os sapatos eram de todas as que calçavam aquele número. E a primeira que acordasse, escolhia entre sapatos disponíveis.

Isso dá uma capacidade competitiva... Nunca tive esse sofrimento, porque era o mais velho.

 

Era temido pelos mais novos?

Ah, pois.

 

Diz isso vangloriando-se!

Sempre tive algum ascendente, mas foi de curta duração. Hoje não existe nenhum. Admito que o mais velho tem privilégios que os outros não têm. A minha mãe é que tinha o comando da casa. Dez dentro de casa? Quem chega ao fim do dia, racha lenha. Ela tinha pulso, era mais empreendedora, mais criativa.

 

Tem memórias dela a afagá-lo, a mimá-lo?

Sim, sim. Ainda hoje. Mas sou um bocadinho arisco...

 

Nota-se. Não é só por se esquivar. Essa é a imagem imediata que se tem: masculino, impositivo, suficientemente seguro de si para ser como é, sem se preocupar muito com a impressão que causa.

Sim, não me preocupa muito. O ser arisco é uma autodefesa. De timidez.

 

Explique-me isso.

Não tenho muito para explicar, é o que sinto. Sou muito mais tímido do que pareço. Em ambientes com muitos graus de liberdade, não estou peixe na água.

 

Precisa de conhecer as balizas, de outro modo sente-se perdido. É o que isso quer dizer?

Se tiver a oportunidade, sou capaz de dizer como é que se joga o jogo. Mas tenho que fazer um esforço para conseguir entrar num jogo jogado por outros.

 

Quando não domina as regras...

Não é quando não domino: é quando não conheço as regras, ou elas são menos rígidas.

Isso revela uma inesperada insegurança, que é o oposto do que se espera de si.

Mas todos nós temos essas coisas.

 

Olhamos para si e é mais fácil pensar que é vaidoso do que é inseguro.

Inseguro talvez não seja. Há situações em que sou inseguro. Dois exemplos: quando saí do tribunal de Sintra, com um mandato para tomar conta da TVI, telefonei a dizer que ia. Não conhecia uma pessoa lá dentro, era um ambiente hostil e não tive insegurança nenhuma. A mesma coisa quando fizemos uma OPA hostil em Espanha.

 

É incrível: fala nesses casos e fica com um olhar de lince...

As coisas são para fazer, fazem-se. Não se fica a meio.  


Do que é que pode ter medo? O que é que o pode intimidar?

Coisas tão ridículas como cães. Gosto muito de correr. E corro porque tenho que correr. Além de gostar, tenho que.

 

Isso também se comentava nos meus tempos de Rádio Nova, quando era administrador da empresa: que se levantava às cinco da manhã para correr.

Cinco e meia. Continua igual. Mas só corro em sítios onde sei que não há cães. Sítios com cães fico descompensado. E nunca fui mordido...

 

Uma fobia é um medo simbólico. Esconde outros medos.

Admito que sim. Nunca estive na guerra. Se estivesse numa guerra em que não acreditasse, não sei se o dever seria suficiente para me estimular a ultrapassar o medo. Se calhar não.

 

Devo aplaudir esta confissão. Está a dizer que não tem uma grande coragem física, que é uma coisa que muitos homens evitariam dizer.

Não tenho grande coragem física.


Estudou Engenharia Mecânica. Que vida apontava para si?

Comecei a trabalhar com 16 anos por uma coisa que é muito nobre e que não fica mal a ninguém: a minha semanada não era suficiente. Tinha que dar das botas e arranjar o que fazer. Comecei a trabalhar numa editora, a Civilização, das duas às sete da tarde, e ganhava 30 vezes a minha semanada. Escrevia cartas à máquina.

 

Foi acidentalmente que estudou Engenharia Mecânica?

Tive grandes indecisões entre o Direito, a Economia e a Engenharia. Escolhi Engenharia Mecânica porque gostava muito dos automóveis, das corridas... E a Engenharia Mecânica, em Portugal, de automóveis não tem nada. Foi logo a seguir que comecei a escrever no Jornal de Notícias sobre automóveis. Permitia-me escrever sobre uma coisa de que gostava e permitia-me viajar.

 

Viajou pela primeira vez?

Não, viajei ainda com os meus pais, aos 14 anos. Foi nessa altura que o meu pai me deu o dinheiro que eu tinha ganho.

 

E viajaram quantos filhos?
Só eu. O meu pai foi para um congresso de arquitectura, uma coisa qualquer, em Itália. Do que me lembro é de Bolonha e Florença. Antes disso, fiz uma semana na Serra da Estrela, sem os meus pais, com o colégio; e fui ao sul de Espanha, também numa viagem dessas.

 

Nunca exerceu engenharia mecânica. O seu propósito era mandar? É evidente que não nasceu para ser submisso...

Não. Mas isso não quer dizer que tenha que mandar.

 

O que é que procurava? Dinheiro, poder, influência?

Dinheiro, seguramente. O dinheiro não dá felicidade, mas a falta dele dá infelicidade. Nunca tive muito dinheiro. Fui assistente da faculdade muito tempo, doutorei-me com uma bolsa miserável.

 

Miserável? Normalmente as bolsas eram confortáveis. Permitiam levar mulher e filho.

Eu não levei nem mulher nem filho. Nessa altura já tinha dois filhos. Tinha o ordenado e a bolsa, ficava o ordenado cá e levava a bolsa – 152 libras.

 

Doutorou-se em Inglaterra, em 82. O âmbito da sua tese é o da gestão empresarial. O mestrado, fê-lo em 78.

Aí tem uma grande influência o engenheiro Valente Oliveira, que foi para mim um grande mestre. Quando me formei fui convidado para [professor] assistente em Investigação Operacional; são métodos quantitativos, de análise. Foi com base nesses conhecimentos que fui trabalhar para a Comissão de Planeamento. Imediatamente após o 25 de Abril eram os centros de saúde, as estradas, o conjunto de infra-estruturas que se estavam a desenhar. Eu tinha 23 e achei que era o máximo!

 

Era o máximo Valente de Oliveira achar-lhe graça?

Ele tinha uma capacidade inacreditável de nos motivar. Era uma coboiada, tudo gente muito nova. Muitos foram ministros e secretários de estado, daquele grupo inicial. Aprendi que não é só o dinheiro que motiva os quadros – ele não tinha dinheiro para nos pagar, aquilo era função pública.

 

Então, com o que é que ele acenava?

Acenava com o gozo de fazer coisas bem feitas, coisas que ninguém fazia ainda, e que iam contribuir para melhorar [o país].

 

Pertencer a um grupo de elite é muito instigante. Mencionou o facto de muitos desse grupo terem sido ministros e secretários de Estado. É um modo de dizer que todos se saíram bem. Não se perdoaria se não tivesse evoluído como os outros, se tivesse ficado um pé rapado. Verdade ou não?
Sim. Mas eu, para ministro, não. Não tenho esse espírito.

 

Porquê? Não é suficientemente diplomático?

Não sei. Pode ser insuficiência minha... Mas volto às situações em que a timidez se nota mais: se o quadro é pior definido, tenho dificuldade em manobrar-me.

 

O doutoramento mudou a sua vida. Mas presumo que tenha sido a entrada na administração da EDP, em 86, que pôs fim a uma vida remediada.

Sim. Mas oiça: sempre tive uma vontade empreendedora muito grande. Mesmo na faculdade, com dois colegas, criámos o primeiro instituto interface da universidade, que nos remunerava melhor do que a faculdade, fazendo projectos de investigação, consultoria, etc. Nunca fiquei satisfeito com o meu ordenado da faculdade. Para aquilo que eu precisava, não dava.

 

O dinheiro foi mesmo um motor...

Sabe quando é que senti isso mais? Em 1983, regressado do doutoramento, fui chamado para a Marinha. Tinha 31 anos e já tinha casado duas vezes, a minha terceira filha nasceu estava eu na Marinha. Estive dois anos. Foi a altura em que me senti mais roubado. Achei que todo o investimento que o país tinha feito em mim estava a ser desperdiçado. Fui para a Marinha como Técnico Especialista de ar condicionado! Foram seis meses de revolta, e depois houve uma pessoa que me ouviu e que me pôs a dar aulas na escola naval. Ganhava uma coisa ridícula, que não dava para os comboios Porto-Lisboa. E deixei de ganhar da faculdade. Portanto, as reservas exauriram-se em dois anos. Só para lhe dizer: o dinheiro é para mim muito importante.

 

Quando é que deixou de ser importante?

É sempre.

 

Mesmo agora?

Por que é que não havia de ser?

 

Imagino que seja rico... Tem 39% da Barbosa & Almeida?

Tenho mais. A grande alteração deu-se quando em Julho de 98 disse: “Gosto muito da Sonae, aprendi muito, tive muito gozo, mas quero fazer outra vida. Em Setembro vou-me embora”.

 

Por que é queria outra vida?

O Engenheiro Belmiro tem a grande capacidade de nos pôr a ser empresários por conta de outrem...

 

O outrem é ele.

É.

 

A verdade é que na Sonae tinha um horizonte limitado. O máximo a que poderia aspirar era ser presidente de uma qualquer holding, e isso já era. No cimo da pirâmide está o Engenheiro Belmiro, a seguir estão os filhos do Engenheiro Belmiro, e só depois estão os discípulos dilectos.

Uma pessoa pode ter uma carreira profissional bem remunerada e muito gratificante numa empresa de que não é dono.

 

Mas quando se é tão ambicioso...

Não tem a ver com a ambição, tem a ver com o risco. Tive a sorte de trabalhar com o Engenheiro Belmiro, que nos incentiva a assumir riscos. E há um dia em que você se pergunta: e se eu arriscar para mim em vez de arriscar para outro? E decidi sair. No último dia, num domingo de manhã, o Engenheiro Belmiro, chamou-me: “Tenho aqui um dossiê de uma empresa que me entregaram na sexta-feira. Se você quiser ir para lá...”. Mas eu queria ia à minha vida, estava farto daquela vida corporativa...

 

Farto de famílias de dez irmãos, na verdade...

Ali são menos irmãos. Ele dizia-me: “Se aceitar, estou disposto a experimentar um novo sistema de relacionamento: você integra-se na holding, não se integra na Sonae, o report é directo”.

 

Foi um mimo irrecusável. Estava a dizer-lhe que não o queria perder, a ponto de experimentar um novo sistema de relacionamento.

É evidente que as pernas tremem perante uma situação destas...

 

Mas tremem porquê? Estou a falar de consideração pessoal.

Exactamente, fica-se muito sensibilizado. Por alma de quem é que ele está a fazer isto?

 

Sentiu-se um delfim dilecto, um filho predilecto?

Ele tem muito cuidado nessa gestão. Tem uma preocupação muito grande de não criar precedentes internos, e de não desvalorizar o valor dos accionistas. Mas consegue em cada caso encontrar soluções interessantes; e as pessoas ficam-lhe agradecidas.

 

Foi então que decidiu ficar na Sonae por mais dois anos e adiar o projecto a solo na Barbosa & Almeida.

Tinha acesso a um banco, apesar de ser domingo, e das onze da manhã às dez da noite, estive a estudar o dossiê. Quando aterrei em Lisboa, ainda no aeroporto, telefonei-lhe: “Sim senhor, aceito”. E assim começou uma vida. Disse-lhe que gostava de utilizar toda a minha remuneração variável, todo o meu bónus, para comprar acções Barbosa & Almeida. E comprei.

 

Quando rompeu definitivamente, em Abril do ano passado, quando cortou este laço umbilical, temeu as consequências dessa emancipação? O Engenheiro Belmiro não gosta nada de ser abandonado.

Era a crónica de uma saída anunciada. Havia uma valorização da empresa. A BA estava em negociações para uma fusão que não foram até ao fim. Fui ter com o Engenheiro Belmiro e disse-lhe: “Pelo preço que tínhamos fixado para esta fusão, não tenho dinheiro. Mas acho que consigo arranjar e estou disposto a comprar”. Foi uma conversa que durou meses, mas se achatar, fica isto. “Muito bem, você compra mais caro do que esse preço, (não foi mais caro), vem dois anos para a Sonae Indústria e depois volta”. Quando saí em Abril de 2005, isto não era público, mas ele e eu sabíamos.

 

Sentiu-se leve quando saiu? Está agora completamente por sua conta, não é?

Nem mais leve, nem mais pesado. Senti que foi uma mudança muito boa na minha vida. Passei a ter uma responsabilidade de empresário, portanto, a ter a preocupação de criação de valor não restrito ao negócio em que estou. De Abril a Setembro fiz um sabático: queria estudar, fazer uma lavagem, um “reset”. Quando voltei, tinha ideias, coisas novas, arranquei.

 

Tem pesadelos? Acontece-lhe sonhar com a bancarrota?

Não.

 

A vida toda perseguiu dinheiro. Imagine que corre mal... É certo que também pode ficar muito rico....

Eu não sinto nada essa riqueza, sabe? Não tenho mais dinheiro para gastar, se calhar até tenho menos. Se correr bem, e se vender daqui a dez anos, tenho mais. Mas não me dá nenhuma ansiedade pelo facto de ter um património que está ali, e que é o património da minha vida.

 

Aí não entram inseguranças?

Não. Enfim, há riscos... Mas tenho autoconfiança suficiente para perceber que ali se cria valor todos os dias. Felizmente desde Abril de 2005 as coisas têm corrido bem. A BA tem sido um exemplo. Lembro-me de lá entrar e comparar com a concorrência: eles estão lá em cima e eu estou cá em baixo. Agora estou lá em cima e olho para baixo. Com humildade, porque estas coisas mudam muito depressa. É preciso estar muito atento.

 

O que o faz correr é o dinheiro. Mas, à luz disso que diz, também é o desafio e o desejo de ser o melhor.

O dinheiro faz-me correr no sentido de eu ter comodidade de vida, fazer aquilo que gosto de fazer, etc., mas não o dinheiro pelo dinheiro.

 

Em que é que isso se traduz? Ter uma casa confortável, um carro potente, um fato Hermenegildo Zegna, férias em Panarea? Traduz-se em coisas tão simples quanto ir ao restaurante e não ter de olhar para o lado direito para ver quanto é que custam os pratos?

Mas olho. O dinheiro custa muito a ganhar. Tenho uma grande dificuldade em perceber como é que uma pessoa gasta dinheiro sem critério.

 

Não se trata de gastar sem critério. Estou a falar de lhe apetecer camarões e de escolher lulas porque é mais barato.

Não é para isso que olho. Olho para o “value for money”. Não estou a dizer que não como caviar porque é caro.

 

Se estiver entre Moet & Chandon e Murganheira é capaz de pensar que o Murganheira serve porque é mais baratinho?

Não, porque o Moet & Chando é melhor “value for money”. Não sou fona nesse sentido, não gosto é de ser explorado.  

 

Ia contar-me dos seus pesadelos...

Já não tenho pesadelos há muito tempo. É uma coisa que muda com o passar de executivo a não-executivo. Os pesadelos num executivo são muitos. O ter que fazer acontecer, o não poder falhar..., causa muita ansiedade. Durmo pouco, mas durmo bem.

 

Para quem é que faz tudo o que faz? O gozo de dar a volta a uma empresa moribunda, fá-lo a pensar em quem?

Isso é para mim. O gozo é brutal, não há nada que pague.


Estou a vê-lo ao espelho, a fazer “ya, consegui!”.

É o maior estímulo. É melhor do que um bom bónus.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2006

 

 

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