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Anabela Mota Ribeiro

Leonor Xavier

29.07.14

Raul Solnado, com quem viveu, dizia: “Ai, a minha vida é tão frágil, cuidado. Se ela cair da estante parte-se aos bocados, estraga-se toda”. A vida de Leonor Xavier, contada no livro Casas Contadas, não caiu da estante e não se estragou. A obra mereceu o prémio Máxima de Literatura deste ano e a propósito dele conversámos de manhã cedo, na sua casa cheia de livros, de pintura, de retratos, de marcas da vida. A vida de Leonor, nascida em 1943, pode contar-se a partir das suas casas, dos encontros fundamentais, olhando para quem foi sendo, para as fracturas, para o Brasil onde soube que também era outra.

Uma pessoa é sempre ela e as suas circunstâncias. E é um livro em movimento, que precisa de ser escrito, para depois ser lido.

 

Foi para o Brasil em 1975, existia sobretudo numa função: a da mãe, esposa burguesa, da menina bem comportada. Foi no Brasil que adquiriu uma identidade própria?

Adquiri a consciência da identidade. O António Alçada Baptista, na introdução do meu livro de entrevistas Falar de Viver, comparava-me àquelas árvores japonesas que estão dentro de uma cápsula, pequeninas, e que crescem quando saem da cápsula. O Brasil deu-me uma consciência de um outro mundo, que não este, tão ordenado, onde nasci e vivi.

 

Vamos detalhar as duas fases para perceber melhor a eclosão dessa árvore que está encapsulada e depois resplandece.

Vivia-se, e vive-se, numa sociedade onde não se conjuga muito a primeira pessoa do singular. Em geral, fala-se de política, viagens, filhos, estudos, doenças. Raramente alguém diz: “Eu nasci, fiz, aconteci, a minha vida é esta, sou feliz, sou infeliz”. A felicidade, a alegria é vista com uma certa desconfiança. 

 

Na sociedade em que vivemos é de bom tom o pudor em relação à vida privada, aos sentimentos.

Exactamente. Pensa-se que a vida privada tem de ser discretamente levada, que não pode ter falhas. Se há alguém na família que bebe, não se fala disso. No Brasil, percebi que o que interessa é o nome próprio, muito mais do que os nomes de família. No Brasil somos avaliados pelo que somos, e não pelo que temos ou pelas pessoas com quem saímos. Outro dos ingredientes que fizeram essa consciência da identidade foi o conviver todos os dias com o diferente. O meu marido era professor de Direito, fomos para S. Paulo, uma cidade gigantesca, com pessoas completamente diferentes de nós. Eu sabia lá o que era um libanês! Era outro mundo. Não havia telefone em casa, havia telefone de recados no patamar do prédio. Em Portugal estamos sempre relacionados com, protegidos por, situados em.

 

Que relação interiormente mantinha com Portugal? Estou também a perguntar por aquela que tinha sido, que ainda era.

A sociedade múltipla que S. Paulo era deu-me a consciência de ser portuguesa, fez-me gostar mais de Portugal. Ganhamos a lucidez da distância. Às vezes até a pequenez e o provincianismo são comoventes. Percebemos como tudo é fugaz e tão pouco importante. Não importa se se é ministro, banqueiro, mulher a dias.

 

A vivência do corpo e dos sentidos, que é diferente no Rio, teve um papel decisivo na sua emancipação? Na grande babel S. Paulo não há uma permanente exposição do corpo ao sol, a praia ao dobrar da esquina.

O que se passa é que Portugal é uma sociedade de véus. Se vamos fazer uma aula de ginástica, até hoje, em 20 pessoas há pelo menos duas que têm um casaco amarrado na bunda. Porque é que as pessoas, além de estarem tapadas a fazer ginástica, ainda se tapam com uma coisa amarrada? Em S. Paulo e no Rio há em comum um cuidado das pessoas com elas próprias. Não se encontra uma pessoa, por mais favelada que seja, que não arranje as unhas dos pés e das mãos todas as semanas. Vendi cremes a certa altura; as pessoas gastam imenso dinheiro em cremes, cuidam-se, fazem ginástica. No Rio ganhamos a sorte de ficar descomplexados. Vemos pessoas altas, magras, gordas, brancas, pretas, mulatas. Andam na rua e na praia tal qual são. Eu era BBG: baixinha, gordinha e gostosa.

 

Essa consciência do seu corpo interferiu com o seu casamento?

Não teve nada a ver com o fim do meu casamento. Acontece que fizemos uma travessia, tivemos sete anos de namoro, mais 19 de casamento. O meu marido seguiu um caminho de pensamento em relação às coisas e eu outro. Pensei que havia uma vida além dessa, partilhada com pequenos conflitos que decorriam de gostar de uma pessoa, uma conversa, um lugar, e a pessoa com quem vivia não. Como eu já não tinha 25 anos nem estava nesse circuito fechado, quis separar-me. Foi uma separação civilizada.

 

Seria impensável para a que foi daqui, para esse quadro social e familiar, um divórcio após 26 de relação.

Sim. Fui a única do meu grupo de amigos que se separou. E não era comum, na minha geração, serem as mulheres a quererem a separação. Fi-lo sem pensar nas consequências práticas de uma separação – é uma coisa cara. Habituei-me a administrar bem os meus dinheiros, a casa, as coisas. Os meus filhos eram adolescentes. Percebi o que era ser-se mulher na idade boa da vida.

 

Que quer isso dizer?

É poder seduzir pessoas (não tem que ver necessariamente com cama). Estar à vontade para resolver onde é que se quer ir, com quem é que se quer estar, como é que se recebem pessoas em casa. E isso a tempo, e não na viuvez. Ter 40 anos e recriar tudo isso bem, sem perseguições, litígios, conflitos.

 

A Clarice Lispector, escritora que admira, teve um percurso semelhante, ela que viveu anos a ser a mulher do senhor embaixador. É preciso confiança para rasgar a convenção, perceber que há uma vida que se vai começar.

Eu tinha duas vidas. Quando mudei para o Rio, em 1979, casada, comecei a trabalhar no jornal O Mundo Português. Todos os dias ia de ônibus de Ipanema até à Cinelândia (o lugar mais povão que se possa imaginar). O jornal era numa rua de putas, ladrões, botecos. Eu fazia os percursos do povo por aquelas ruas. É importante sentir esse anonimato. Percebemos como é que circulamos naquele ambiente, como é que nos defendemos se há um incidente. Depois tinha a vida de pessoa da zona sul do Rio, saía para jantar fora em restaurantes bons. Por isso, eu tinha já desenrascanço no dia a dia. Algumas amigas portuguesas que viviam no Rio nunca tinham andado de ônibus.

 

As pessoas que conheceu e com quem se deu não eram apenas as da comunidade portuguesa. A abertura aos jornalistas, poetas, intelectuais do Rio germinou em si.

Como dizia o António Alçada, gosto muito de quem gosta de mim. O Millôr Fernandes, conheci-o porque o quis entrevistar. Hoje, sempre que vou ao Rio estou com o Millôr. Quando se está dentro, o circuito acaba por ser muito pequeno.

 

Contou a sua história no livro Casas Contadas. Mas é possível contá-la, também, a partir dos encontros que teve. Que encontros apontaria como os fundamentais para a pessoa que é hoje?

O António Alçada foi uma pessoa importantíssima na minha vida. Uma pessoa que me fez vir para Portugal, simbolicamente, foi o Mário Soares. Em 1987 fez a primeira viagem como presidente ao Brasil e levou uma comitiva de 150 pessoas. Eu vivia há 13 anos no Brasil e fiquei de boca aberta. Portugal era um país que sentava à mesma mesa o ex-comunista José Luís Judas e o coleccionador de arte Jorge de Brito (que não podia ser mais conservador). O reencontro com o presente do meu país fez que eu tivesse o impulso de voltar. O que aconteceu ainda nesse ano. Outras pessoas importantes: a Elsie Lessa, que me disse: “O mais importante que você tem é o seu capital vida. Não desista de fazer coisas”; a Tônia Carrero, que me escreveu numa carta: “Você e o Raul [Solnado], que glória!” Depois de me separar, saía imenso com ela. Ela usava um shortinho, eu roía as unhas, não usava saltos altos. Conversávamos muito de coisas de mulheres.

 

O romance com Raul era glorioso, mas improvável.

Foi uma ligação muito importante. Eu não estava nada disponível para romances, vim com três filhos, queria era perceber como é que se vivia aqui. No Brasil, nessa viagem, ele não tinha dinheiro brasileiro e eu emprestei-lhe o que tinha – ele achou aquilo uma coisa transcendente. As coisas aconteceram naturalmente. O Raul era um grande sedutor, fazia aquele ar muito frágil, que era uma grande arma. Explorava imenso as suas distracções, entornava xícaras, copos…, e deu certo. Não foi uma paixão louca. Nunca tinha visto o Raul no teatro, não sabia A Guerra de cor. Em Cuba, no começo da relação, sentou-se e contou-me a história da sua vida. Sem ser para fazer rir. No Rio, deixava-me recados: “É o Raul lusitano…”. Pouco a pouco, ficou uma ligação intimíssima, criativa, fundamental.

 

Tinha 46 anos quando o romance começa. Uma altura em que normalmente as grandes histórias de amor já estão arrumadas.

Mas estão longe de estar arrumadas. Há um verso do Drummond de Andrade que diz: “Na perigosa curva dos 50 derramei nesse amor”. São fases de grande viragem.

 

Porque há um desejo de manter uma efervescência da juventude? Porque a partir dessa curva da vida passamos a ser mortais?

Não se tem aos 50 anos a noção do ocaso. Têm-se agora, com 66. Por isso é que há urgência em viver. Se há 20 anos me perguntassem: “Queres ir a Paris?”, eu responderia: “Não me dá jeito, vou daqui a seis meses”. Hoje vou. Sabe Deus se amanhã não parto uma perna ou estou tonta. Depois dos 50 e tal pergunta-se como se sobrevive no futuro, se esse futuro existir. Tem-se a noção da precariedade, sim. De cada vez que vou ao Brasil, tenho consciência dos que já morreram, dos que estão perto de morrer. É complicado esse confronto. A maior parte das vezes já sou a mais velha dos lugares onde estou. Tenho a sorte de ainda ter energia, resistência, actividade.

 

Há um momento da vida em que começamos a replicar os nossos pais, mesmo sem disso ter consciência? Como eram os seus pais?

Sou completamente diferente dos meus pais. O percurso que fiz não tem nada a ver com o percurso deles. São tempos muito diferentes, é o antes e o depois da Segunda Guerra. O meu pai era um médico conhecido em Lisboa, de feitio talvez seja parecida com ele. Era uma figura forte, respeitada, educou-nos com uma grande exigência. Eu fazia frente, era mais rebelde do que os meus irmãos. A minha mãe era de uma grande inteligência, intuição, lia muito. Deu-me um sentido estético da vida, as mesas de almoçar e de jantar bem postas, as coisas limpas e arrumados, o estar-se bem na vida. Tinha uma grande preocupação que eu acabasse o meu curso, trabalhasse, fosse independente – o que não era comum.

 

A sua formação é católica. Essa dimensão nunca perdeu importância na sua vida, mesmo no Brasil, onde mudou tanto?

Sempre foi uma dimensão importante. Descobri no Brasil uma igreja de alegria na qual as pessoas acreditavam no reino de Deus sobre a Terra. As pessoas intervinham. Essa formação religiosa não tem a ver com o cumprimento dos rituais, integra a personalidade das pessoas. Não se está em pecado mortal porque não se foi à missa e se está na praia ou a fazer o almoço. Se acreditar na vida eterna, estou menos angustiada, não estou em solidão. Se tenho o privilégio da Fé, não estou sozinha.

 

Disse que se comoveu até às lágrimas quando soube que tinha ganho o prémio Máxima de Literatura.

Pois foi. É um trabalho muito solitário, exposto. Imagine pessoas como a Teolinda Gersão ou a Hélia Correia, que têm textos maravilhosos e já foram premiadas: não é todos os dias que são citadas na imprensa. Não estava nada à espera de ganhar. É muito comovente um reconhecimento. Tive a sorte de na minha vida terem acontecido coisas interessantes. Acredito que todas as vidas são contáveis. É também um testemunho do meu tempo.Tinha as facturas, as cartas, imensas coisas anotadas; sustentei a minha narrativa em coisas concretas. O Rui Zink disse no outro dia que cada homem é um livro em movimento. Eu acrescentaria: cada mulher é um livro em movimento. É uma boa definição. 

 

 

Publicado originalmente na Máxima em 2010

 

Francisco Campos

29.07.14

Quem faz cirurgia plástica em Portugal? Quais são as vantagens desta prática? É possível rejuvenescer sem perder a singularidade da expressão? É possível corrigir o peito sem que isso seja evidente para todos? Como resolver o problema da auto-imagem expresso na frase «Começo a não me parecer comigo»? Francisco Campos responde a estas questões no livro «O meu olhar sobre a cirurgia plástica». As diferentes técnicas, as vantagens e desvantagens a considerar, as sucessivas etapas são ilustrados por dezenas de fotografias que situam um antes e um depois, e esmiuçadas num texto assaz acessível. Nas próximas páginas, conheça o posicionamento deste cirurgião plástico num mundo fascinante e sempre rodeado de polémica.

 

Dedica o livro a todos os seus doentes, em especial àqueles cujos resultados ficaram aquém das expectativas. O comum é que os resultados fiquem aquém das expectativas ou que superem as expectativas?

Os meus doentes, em geral, têm resultados além das expectativas. Controlo um pouco as expectativas que trazem, passo-lhes informação, mostro-lhes milhares de imagens (como aquelas que se vêem no livro). Quando uma pessoa quer fazer um aumento mamário, no meu portfólio há alguém com um «antes» parecido com o seu; portanto, imaginam o resultado como sendo próximo desse que acabam de ver. É uma expectativa realista. Felizmente as coisas correm bem, não tenho nenhum desastre cirúrgico, tenho muito cuidado com a cirurgia plástica. Até porque sou um crítico da cirurgia plástica...

 

É crítico da cirurgia plástica?!

Sou um crítico no bom sentido: vale a pena ser feita, com bom senso.

 

Perante a hipótese de uma cirurgia, o doente deve medir sempre o risco/benefício?

Deve discutir isso com o médico. Os doentes devem fazer todas as perguntas e não devem sair do consultório sem saber quais são os riscos.

 

Qual é a atitude dos doentes que procuram um cirurgião plástico? Levam consigo as estampas das revistas, querem corresponder a um cânone cada vez mais impositivo, integrar-se numa sociedade em que o culto do belo é dominador?

Sou conhecido por ser prudente, quem vem ter comigo tem uma noção real daquilo que faço. A crítica é esta: a procura da beleza é alimentada nos circuitos da cirurgia plástica. Mas é impossível transformar uma mulher feia numa mulher bonita, uma mulher baixa numa mulher alta! Alimenta-se isto, vê-se sistematicamente nas revistas e jornais clínicas novas que põem o Botox, que fazem as pessoas perder quilos e ficar elegantérrimas, que rejuvenescem cinquenta anos com choquezinhos! Isso é tudo uma ideia falsa e o livro foi escrito também por isso: para esclarecer.

 

As pessoas aderem facilmente a técnicas miraculosas porque estão subjugadas pelo desejo da perfeição. A sua perspectiva é crítica nesse sentido. Mas como conciliar as pessoas com a sua imagem, ainda que melhorando-a?

É o que tento fazer. Uma das coisas básicas para se ser candidato a cirurgia plástica é ser-se inteligente, sensato, estar tranquilo.

 

Escreve no seu livro que a cirurgia é aconselhável a todas as pessoas, excepto a quem padece de instabilidade emocional.

Esses são não candidatos. Nunca vão ficar bem.

 

Nunca vão ficar satisfeitos?

Nunca, nunca. A perturbação emocional exclui [alguns candidatos], e também devia excluir toda a gente que engole a publicidade dos emagrecimentos, das máquinas que fazem musculação por elas. Tudo quanto é facilidade em cirurgia plástica significa inequivocamente um erro. Consultar um cirurgião plástico, dizer «Eu quero ficar muito bem» e ele responder «Esteja tranquilo que vai ficar óptima», nunca dá resultado, nem aqui, nem no Brasil, nem nos Estados Unidos.

 

Até onde se deve obedecer ao desejo do doente? É tudo fazível?

O desejo do doente é uma coisa. As possibilidades técnicas e as capacidades para o cumprir, são ou não compatíveis. Os problemas passam pela falta de ordem que existe no meio: há gente que diz que é cirurgião plástico e não é, e os doentes vão [à mesma]. Quem vai a estes médicos são doentes insensatos. É preciso resistir muito ao dinheiro e à necessidade de o ganhar, porque estamos a lidar com a saúde das pessoas. Fazer uma cirurgia plástica em prestações desvirtua a relação do médico com o doente, leva o médico a ter que ter muitos doentes, e lá ficam os cheques em cima da secretária... 

 

Mas, por outro lado, possibilita uma espécie de democratização da cirurgia plástica. O preço é um dos grandes obstáculos...

 E se houver um azar? Vai ficar mais caro ao doente. Tenho conhecimento directo de centenas de problemas. As pessoas têm que estar prevenidas quanto às más consequências da cirurgia plástica. Operar a prestações é o puro facilitismo! Assusta-me, porque está a tornar-se uma questão de saúde pública.

 

Quando é que é um luxo e quando é que é uma necessidade recorrer à cirurgia plástica?

O luxo em cirurgia plástica não existe. As pessoas têm necessidade, e ou têm dinheiro ou não têm dinheiro. Ninguém se opera sem um motivo, mesmo que seja um motivo errado. Querer reencontrar uma relação, é um motivo errado. O meu grupo de doentes é um grupo alegre, felizmente! Ninguém me procura porque o marido anda com a secretária ou houve um divórcio. Concordo que isso possa fazer bem, mas há um motivo físico pelo qual as pessoas querem fazer cirurgia plástica.

 

É possível dissociar o motivo físico do motivo psicológico?

Na minha opinião, é.

 

Há pessoas que vivem bem com um nariz irregular. Há pessoas que aos cinquenta anos precisam desesperadamente de fazer um face lift. Há pessoas que precisam de fazer um implante mamário aos trinta e cinco. E há pessoas que não precisam de todo!

Quem não precisa de um cirurgião plástico, não o procura. Não acredita na história da Miss Brasil que fez dezoito operações, pois não? É impensável.

 

Diz que opera pessoas que querem ficar bem para elas mesmas e não para terceiros.

Para agradar a terceiros, não é uma indicação cirúrgica.

 

Fazer um implante mamário porque o marido gosta de mulheres com peito grande não é uma boa opção?

Não. Grande parte das minhas doentes que me procuram para um aumento mamário, as casadas, vão com o marido. Não é que o marido esteja preocupado, mas apoia essa decisão, «Ela está bem, mas acha que deve...» E eu fico encantado. Partimos todos para a operação com tranquilidade. A cirurgia provoca sempre ansiedade, mas se essa ansiedade for nivelada, pode ter a certeza que faz as operações bem feitas.


Explique-me qual é a importância da componente psicológica no antes, no durante e no depois.

Essa pergunta é giríssima, mas a resposta é muito fácil. A componente psicológica não cabe no sector da cirurgia plástica bem feita, bem planeada e bem explicada. Nunca tive, que me apercebesse, uma doente com uma necessidade psicológica de aumentar as mamas. O primeiro motivo é físico. A parte psicológica tem um lugar qualquer que não é, nem de longe nem de perto, o primeiro. As pessoas não fazem a cirurgia plástica pela parte psicológica, fazem porque têm qualquer coisa que fisicamente as incomoda.

 

A parte psicológica é gostar ou não da imagem que o espelho devolve, e sentir-se bem com ela. O espelho e outros.

Quando penso na parte psicológica, penso na ansiedade dos tais doentes a quem as coisas não vão correr bem. Uma mulher faz um aumento mamário porque não tem mamas grandes ou porque o peito caiu ou ficou mais pequeno no pós-parto: não gosta de se ver, sofre e quer aumentar ou reduzir o peito. Psicologicamente melhora tremendamente, mas não tem antes nenhum problema psicológico.

 

A vida das pessoas muda mesmo depois de fazerem cirurgias plásticas?

A qualidade de vida melhora colossalmente.

 

O que é que as pessoas mais procuram?

Face, aumento e redução mamária, lipoaspiração ultrasónica. Uma cirurgia tem que ter visibilidade. Procedimentos cirúrgicos mínimos que não resultam em nada... Não estou com merdices: ou opero ou não opero. Tenho a sorte de conseguir fazer um face lifting em que as pessoas ficam com a mesma expressão, mas claramente mais novas. As pessoas operam-se para elas, mas quando alguém lhes diz «Estás tão bem», ficam contentes.

 

Normalmente assumem que se submeteram a uma cirurgia?

Assumem. Veja o livro. Há outro grupo que não assume, mas isso não me diz respeito. Eu também fiz e assumi. Dirá: «Foi marketing»; se calhar não foi. A cirurgia plástica está muito mal divulgada e espero que este livro contribua um pouco para a compreensão das coisas. Ao fim e ao cabo, estou a meter-me contra a indústria da cirurgia plástica...

 

Utiliza as suas técnicas, trilha o seu próprio caminho. Fez estágios nos Estados Unidos, no mítico Brasil...

Ex-mítico.

 

Na Áustria, na África do Sul. Absorveu técnicas praticadas um pouco por todo o mundo e depois enveredou por qualquer coisa que é exclusivamente sua.

Eu não inventei nada. Mas a prática diária da cirurgia plástica permite adaptar técnicas dos outros que se tornam as nossas. Quando um cirurgião opera cem doentes, o número cem já é operado com a própria técnica. Já alterou a forma de suturar, de remover tecido mamário. É a experiência. Para um cirurgião plástico, se calhar esta idade é a melhor de todas: ainda temos energia física, ainda gostamos de viver...

 

Opera muito melhor agora do que operava há dez anos?

Inquestionavelmente. Dantes baseava tudo naquilo que lia. Agora, raramente leio um livro, um artigo – mas quando sei que há qualquer coisa nova, vou aprendê-la. A cirurgia plástica está bem mais na cabeça do que nas mãos, está na experiência, que, a partir de certa altura, passou a ser a minha.

 

Como apresentar o seu modo de operar? Como perceber que «aquelas» maminhas foram operadas por si? Há um estilo pessoal, como um escritor tem o seu, um artesão tem o seu?

Há técnicas de aumento mamário que demonstram inequivocamente que houve uma operação. Com as técnicas que utilizo, não se nota. Os doentes esquecem!, o que é bom. Mas certamente falam de mim numa altura própria a alguém.

 

É a melhor publicidade, o trabalho?

É. Não são revistas cor-de-rosa. Eu não rejeito, mas não estou nada ansioso. Colocar uma mama pela axila permite perceber que há uma operação. Num ginásio faz-se um movimento, o músculo contrai-se e a prótese sobressai. Há próteses colocadas pela axila que estão excelentes, mas a maioria não está, e há uma enorme percentagem de casos com complicações. É uma técnica cega, não se visualiza o que se está a fazer.

 

O risco é muito maior?

Eu nem executo.

 

Prefere fazer com um corte submamário.

É aquela que permite visualizar todas as estruturas onde estamos, controlar vasos sanguíneos..., é simples, eficaz. Algum tempo depois, aquela cicatriz não se vê.

 

A sua experiência de trabalho na África do Sul foi determinante. Começou por fazer microcirurgia da mão, muito antes de se dedicar à cirurgia plástica.

A cirurgia da mão é supermeticulosa. Aprendemos a manusear os tecidos com extrema delicadeza, com muito pouca agressão, e foi isto que transplantei para a cirurgia plástica. Quanto a instrumentos, só utilizo tesoura para cortar um bocado de pele num face lift e nas pálpebras. Utilizo bisturis, cortes limpos, superfícies claramente perpendiculares umas às outras.

 

Mas isso exige uma segurança muito maior.

Veio da mão. Quando fui para a África do Sul vivia-se cá um período pós-revolucionário. Comecei a trabalhar três dias depois de ter chegado. Não foi nada difícil adaptar-me às circunstâncias. Tudo aquilo parecia sensato, feito para salvar vidas, salvar mãos, a favor do doente, independentemente de serem negros ou brancos. Os médicos eram também professores, tínhamos discordâncias, mas tomávamos chá todos os dias, juntos. Não havia guerras. No Brasil a guerra entre os médicos atinge o ridículo, em Portugal é surda, e absurda. Na África do Sul trabalhava-se mesmo, e essa aprendizagem foi determinante na minha vida.  

 

 

Publicado originalmente na Revista Elle em 2004

Francisco Campos morreu a  29 de Julho de 2014