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Anabela Mota Ribeiro

Ler O Principezinho

31.12.14

Em Janeiro falamos d' O Principezinho, o livro de Saint-Exupéry que ensina que "o essencial é invisível aos olhos".

Vai ser lançada uma nova edição com o texto original (que tem ligeiras diferenças em relação ao texto "canonizado"). 

Com a ilustradora Catarina Sobral, a psiquiatra Manuela Correia e o escritor Valter Hugo Mãe (que assina o prefácio desta edição). 
Dia 8 de Janeiro, às 18.30, na Bertrand do Chiado.
Eu modero.
Ler no Chiado é uma iniciativa da revista Ler e da Bertrand.
 
 

Quest. Natal - David Ferreira

30.12.14

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

Os presentes de Natal que não esqueço são livros do Tintim e do Astérix, discos dos Beatles de 45 rotações com quatro canções novas cada e uma bola de futebol a sério, de caoutchouc.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

O Bush cair num monte de esterco e as pessoas não saberem distingui-lo do monte – a substância é a mesma. Aí, o Bin Laden, o Hamas, os neo-cons, os racistas e os fundamentalistas de toda a espécie precipitam-se para ver e, coitados, acontece-lhes o mesmo! Então, a Humanidade toda, dos paisanos aos políticos e aos comentadores, promete (para cumprir) que deixará de ser burra.

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Por muito que goste de Veneza, não me apetecia passar o Natal sem ser em família. Não seria ousar, seria desperdiçar.

 

Um Natal celebrado em família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Ciúmes e impiedades são horrores, cobiça sexual não é, nem mesmo no Natal. O Woody Allen até uma ceia sabe encenar bem.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

Calor apesar do frio lá fora, amor, matar saudades, presentes que foram escolhidos com carinho e não por dever, as crianças encantadas, vinho tinto bom e bacalhau alto. Falta a varinha mágica para fazer voltar os que partiram.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Gosto de fazer eu o presépio e ofereço-o à minha mulher, aos meus filhos, aos amigos que nos visitam e aos filhos deles.

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

Estrelas. Menino Jesus. Presentes à meia-noite; mas convém que não seja demasiado depressa, tipo maratona, anuncia, desembrulha, agradece, desembrulha outra vez...

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Não me lembro de listas - não há nada melhor do que uma boa surpresa.

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Às vezes mudamos de vida em meia hora; mas é sem querer.

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

O pior é não acreditar que podemos mudar alguma coisa. E a minha sogra é um encanto!

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

Em 2007, fiquei mais magro e arranjei mais tempo para os filhos... ser despedido tem essas vantagens! Agora, prometo a mim próprio trabalhar, pelo menos trinta horas por semana...

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Se a secretária fosse a Laetitia, nem o trabalho avançava nem a minha mulher ficava contente; se, por azar, fosse a Laetitia e fosse casta, sofria eu... Não me arranjam um presente menos complicado?!

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

 

 

 

 

Quest. Natal - Bragança de Miranda

29.12.14

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

 Um barco à vela de madeira, feito à escala, que me parecia enorme. Ainda tenho fotografias em que estou contente a vê-lo na água… sem se virar.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

 A Lâmpada de Aladino. Se ma derem, prometo usá-la melhor…

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

 Não nesta encarnação…

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

 A proibição materna de jogar e no Natal o meu pai a tentar convencer-nos de que o Rapa não era um jogo…

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

 A miudagem a brincar.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

 Às vezes cozinho uns pastéis de bacalhau para a minha mãe.

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

Cairia mais do que uma estrela se não fossem abertos depois da ceia…

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Nesse tempo não se escreviam listas…, éramos alistados.

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Já. Abandonei medicina entre dois autocarros. Bem, lá dizia-se machimbombos. Não coincidiu de facto, mas foi uma festa…

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

Não temos que começar nada. Vamos continuando. .. entre o perto e o longe.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

Só faço resoluções no meu aniversário. Já cumpri algumas delas… mas não eram nada de napoleónico.

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Sinto a falta de um bom café, espaçoso e com mesas afastadas para ir estando. Mas o Chico Buarque com coxas novas faz-me hesitar... Decido-me: «Vinha mesmo a calhar um café novo no meu bairro».

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

 

 

 

 

Quest. Natal - Jacinto Lucas Pires

28.12.14

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

Por entre uma espessa névoa brilhante (como as dos maus filmes, sempre que alguém tem um sonho ou uma recordação), vejo um forte de caubóis que, ao longo dos anos, serviu para tudo: castelo medieval, cidade em construção, garagem de carros, palco de ficção-científica...

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

500.000 € para fazer um filme de gângsteres.

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Não me parece tanto uma ousadia, mais um erro de calendário. A grande família em Veneza, livre do trânsito português e deixando-se dirigir por um bom espírito felliniano, isso talvez!...

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Em criança, receber meias e lenços era do piorzinho.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

Essa “vulgaridade” ano-sim, ano-sim: lareiras, rabanadas, sonhos, muitos sonhos e o entusiasmo infantil de todos.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Gostaria de fazer um dvd para oferecer a Nanni Moretti.

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

“Fanny e Alexander”, de Bergman; peço desculpa mas não faço ideia quem é a Menina dos Fósforos; Pai Natal e Menino Jesus; “dramaturgicamente” falando, prefiro presentes de manhã, mas não sou fundamentalista.

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Juro que não me lembro. Mas acho que já então usava de um registo realista-maradista.

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Parece-me que a vida, quando muda, é em menos tempo. E depois em mais. E Festas são todos os dias, não é o que se diz?

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

Esse “nada mudou” é um pior de todos os dias, também, infelizmente.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

Viver da escrita!?

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Uma vida velha, das que já não se fazem; dias maiores, mais sábios, tempo para estarmos mais vivos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

Quest. Natal - Leonor Pinhão

27.12.14

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

Action Man com fato cor-de-laranja de mergulhador e garrafas de oxigénio. Natal de 1972.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: "Quero que saias da frente porque me tapas o sol…". Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

Eu, desde que goste das pessoas, não me importo nada que me tapem o sol. É sinal de que estão perto e é só isso que peço. E gosto muito de Diógenes, o primeiro snob da civilização ocidental.

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Ousadia não é celebrar o Natal fora da família. Ousadia é celebrar o Natal dentro da família.

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Lamentavelmente, não tenho nenhum familiar com um reportório de “cobiça sexual” para Consoadas. Seria um número apreciado, até porque somos tudo menos ciumentos ou impiedosos. Quanto à lista de horrores: bolo-rei, rabanadas e demais fritos, frutas cristalizadas e cânticos da estação.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

O caos é que é um grande lar. E no Natal, então, nem se fala…

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Com as minhas mãos hei-de, um dia, fazer fotocópias de uma certa página de um certo romance. A página com a frase: “o Natal é a apoteose da burguesia”. Ofereço a quem quiser.

 

"Do céu caiu uma estrela", de Capra, ou "Fanny e Alexander", de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

Menino Jesus, sim, mas ao colo de Santo António, o meu santo preferido. Também gosto muito de São Paulo. Quer da cidade, no Brasil, quer da rua, em Lisboa. São Paulo foi sempre muito bom para mim.

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Constava um largo conjunto de livros que não existiam. Lembro-me do primeiro título inventado: “A Mão Azul”. Os meus familiares exasperaram-se por todas as livrarias da Baixa. Foi a última vez que fiz uma lista porque a minha mãe nunca mais se atreveu a pedir-me outra. E ainda hoje fica enervada quando fala nisso.

 

"Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida", canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Meia hora é batotice. No mínimo 90 segundos, no máximo 4 minutos. É este o tempo necessário para que duas pessoas percebam se estão a ponto de mudar as suas vidas (nem que seja por meia hora, eventualmente). Li isto num estudo científico.

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

O pior de começar o ano é tentar encontrar um café aberto no dia 1 de Janeiro.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

Ficar mais magra, honestamente.

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Para o ano novo do que eu gostava mesmo era ter a capacidade de fazer cair e levantar nevoeiro, do modo mais surpreendente e teatral.

  

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

Quest. Natal - Mafalda Arnauth

26.12.14

Qual o presente que mais gostou de receber? A Pipi das Meias Altas, uma gravata Hermès, Dinky Toys? João Talone indicou um lanche com o Avô quando aprendeu a ler…

A nossa Fifi, por volta dos meus cinco anos. Uma pincher anã que marcou os seguintes 17 anos da minha família.

 

Alexandre, o Grande, disse a Diógenes Laércio que este lhe podia pedir o que quisesse… Mas o filósofo respondeu apenas: “Quero que saias da frente porque me tapas o sol…”. Se lhe fosse dado a escolher o que quisesse, o que seria? (Paz, Amor e Saúde não contam!!)

Um Sol tão grande que Alexandre nenhum pudesse tapar... Sol astro, mesmo, todos os dias, em Portugal; Sol nos sorrisos, no civismo, na boa-onda; Sol nas Almas e nos Corações... Paz, Amor e Saúde, SEMPRE, mas em versão veranil!

 

Um Natal celebrado fora da família: compras para a ceia no mercado de Rialto, um passeio de gôndola ao cair da noite, o labirinto de ruas e canais por uma vez deserto. Poderia permitir-se esta ousadia?

Revejo-me nestas possibilidades e em tantas outras... Principalmente porque acredito que celebrar cada instante é essencial.

 

Um Natal celebrado em Família: os ciúmes entre irmãos que confirmam Abel e Caim, a cobiça sexual da cunhada como num filme de Woody Allen, os familiares que cobram os divórcios e os fracassos com impiedade. O Natal pode ser uma interminável lista de horrores. Que horrores pode contar?

Presentes! É um verdadeiro filme de terror ter de submeter-me nas vésperas, (como invariavelmente acabo por fazer), a centros comerciais, lojas, decisões precipitadas e nem sempre certas... Outro horror, só mesmo a noção calórica e irresistível das iguarias desta época.

 

Outro Natal celebrado em família: a cozinha cheia de aromas, a caminhada até à missa do Galo, a excitação das crianças e dos presentes. «A vulgaridade é um lar», dizia Pessoa… O que é que no Natal é para si um lar?

A memória de todos os Natais da minha vida: os tradicionais, os singelos, os distantes, os que têm profundo significado religioso, os desleixados, os recuperados. Os Natais são um espelho da evolução e do crescimento da minha família. A vontade que mantemos de estar juntos é o lar mais acolhedor que conheço.

 

Maria de Lourdes Modesto gosta de fazer um bolo inglês para uma pessoa querida. Júlio Machado Vaz ofereceu uma página do seu diário a Eugénio de Andrade. Que presente gostaria de fazer com as suas mãos? Para oferecer a quem?

Sempre bordados ou puzzles... Talvez com um disco meu lá dentro. Este Natal escolheria oferecê-lo ao Raul Solnado. Simplesmente por que o adoro e faz-me sorrir só de pensar nele...

 

“Do céu caiu uma estrela”, de Capra, ou “Fanny e Alexander”, de Bergman? A Menina dos Fósforos ou os personagens de Dickens? Pai Natal ou Menino Jesus? Abrir os presentes depois da Ceia ou na manhã de 25?

Sou sempre pelas estrelas cadentes..., não desperdiço oportunidades de fazer desejos. A Menina dos Fósforos. Sagrada Família. Abrir os presentes depois da ceia. (Talvez só o meu irmão seja “Menino Jesus” o suficiente para fazer de “Pai Natal” decentemente...)

 

No Natal, as crianças escrevem intermináveis listas de presentes que gostariam de receber. O que constava da última lista que escreveu?

Nem me lembro de ter feito lista... Mas fiquei com uma óptima ideia para resolver problemas de quem não sabe nunca o que me oferecer!

 

“Entre por essa porta agora, e diga que me adora, você tem meia hora para mudar a minha vida”, canta Adriana Calcanhotto. Já esteve a pontos de mudar a sua vida em meia hora? E por acaso isso coincidiu com as Festas?

Certas decisões cruciais da minha vida demoraram poucos minutos. Mas não me recordo de terem sido em Festas...

 

O pior de começar o ano é: perceber que nada mudou? Ter de fazer uma dieta drástica para combater os estragos da saison? Perceber que a sogra, o rival e o medíocre continuam por perto?

Não perco tempo a pensar no pior... É uma das melhores decisões que tomei numa das últimas passagens de ano.

 

Ficar mais magro, deixar de fumar, inventar mais tempo para os filhos… As resoluções de Ano Novo entraram no anedotário universal! Já alguma vez cumpriu alguma? Quais são as fazíveis para 2008?

A de deixar de fumar, de forma incrível, cruel, sofrida mas vitoriosa, em 2001! E para 2008, além da promessa de uma disciplina mais séria no yoga, a resolução principal é a de insistir em dizer-me “coisas boas”. Chamam-lhe meditar; eu chamo-lhe dedicação pessoal. Garanto que dá bons frutos!

 

Para o ano novo vinha mesmo a calhar: um carro novo, um emprego novo, umas coxas novas, o Chico Buarque a morar no bairro, uma secretária parecida com a Laetitia Casta? Uma vida nova?

Depois de ver Chico Buarque escrito já não há concentração que resista... Para mim, a vida não precisa de ser nova, basta que continue boa!

  

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

 

 

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