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Anabela Mota Ribeiro

Isabel de Castro

27.03.16

Quando pela primeira vez gostou de se olhar, e se reencontrou no que via, tinha mais de trinta anos. O que o espelho lhe devolvia era a vida, sulcada na cara. Uma vida vivida em bolandas, entre Portugal e Espanha, palcos e êxitos desiguais, cinco filhos e um pai e uma mãe amados desalmadamente. Lembra-se bem desse dia em que se maquilhava, e sentiu que a sua cara tinha uma geografia, ou vincos, ou leitura, que é como gosta de dizer. A vida lia-se-lhe na cara. Como hoje. Uma vida plena.

Isabel de Castro tem 71 anos, nasceu em Lisboa. A sua vida é uma vida dedicada ao amor. Ela diz que nasceu para ser mãe e para ser filha, e talvez para ser actriz. E em cada uma, do que se trata, é de ser intimamente com o amor.

  

No filme de Inês de Medeiros «O Fato Completo, ou À Procura de Alberto» conta que antes de uma estreia ficou apavorada com a iminência de subir ao palco, e, já vestida de condessa, desatou a correr pelo Chiado. A descrição do episódio é muito fílmica.

Eu também o vejo como um filme.

 

Conte-me lá esse filme.

Estava assustada. Ensaiei com o Ribeirinho, um óptimo ensaiador, uma óptima pessoa, mas muito rígido dentro do teatro. De vez em quando descompunha-nos: que não prestávamos para nada, que éramos uns canastrões, aquelas coisas. Ao mesmo tempo, quando me foi buscar, disse-me: «Nunca me digas que não és capaz de fazer». A certa altura comecei a assustar-me. Praticamente não tinha feito teatro; para dizer a verdade, no Conservatório não aprendi muito. Depois era Shakespeare. «Noite de Reis», com a Eunice [Muñoz], o Ruy de Carvalho, eu fazia a Condessa Olívia. Os fatos eram pesadíssimos, recamados a pérola.

 

Contudo, não era uma novata. Quando fez esta peça, regressava de Espanha, onde tinha feito carreira no cinema. Tinha 25 anos.

Pensei se estaria à altura daquilo. E não tinha facilidade em ter esta conversa, sobre a minha insegurança, com o Ribeiro. No dia da estreia, eu estava de papel na mão. Ele agarrou no papel e atirou-o pela janela fora!, «Isso nunca se faz». Vi o papel a fugir, a fugir... E de repente olhei para mim, naquele espelho enorme do Trindade, vestida de condessa, «O que é que estou aqui a fazer?», agarrei e fui-me embora! Abri a porta, e fui, tal como estava.

 

E os outros?

Pouco gente soube, pouca gente me viu; os que me viram, ainda pensaram que ia à rua fazer qualquer coisa, embora fosse uma estupidez ir à rua vestida de condessa... Ninguém pensou que ia fugir. Comecei por andar depressa, depois mais depressa, mais depressa. Quando cheguei ao Chiado dei a volta no Largo do Camões, e quase a tocar a Brasileira percebi que não podia fazer aquilo, não podia deixar toda a gente pendurada. Voltei para trás.

 

A cena lembra uma noiva a fugir do altar.

Foi um bocado isso. O teatro é uma espécie de casamento. De longa duração, normalmente não há divórcio.

 

Quando é que quis ser actriz?

Sempre. Quis muito ser duas coisas, aparentemente não têm nada que ver uma com a outra. Penso que quis ser útil. Dar utilidade à minha vida. Adoraria ter sido enfermeira, ter ido para países em guerra ajudar crianças. Quando tinha 14 anos houve um problema qualquer, com o Congo, julgo, e disse ao meu pai que queria ir; ele disse-me que não podia, que não tinha idade. Mas isto ligado ao teatro, que sempre fiz, sempre quis fazer. Sempre representei.

 

Em casa pediam-lhe para fazer pequenos números, representações.

Era miúda, miúda. Comecei a frequentar o teatro muito cedo. Aos quatro anos fui ao Nacional ver «S. João Subiu ao Trono», no colo do meu pai. Inventava as coisas no momento com uma grande naturalidade. Via uns filmes ou umas peças e inventava sobre o tema visto. Depois dei-me conta de que não era assim tão simples, mas não deixei de querer fazer. Aos 14, que era a idade mínima para entrar no Conservatório, entrei.

 

Antes do Conservatório, há ainda a experiência no filme de Jorge Brum do Canto, em 46 . Completa catorze anos durante a rodagem. De modo que o seu destino ficou traçado muito cedo. Não estruturou sequer a possibilidade de ser enfermeira.

Enfermeira especializada em doenças mentais. Os loucos sempre me atraíram. Da mesma maneira que me atraíram os marginais.

 

Consegue perceber essa atracção?

Acho que é porque os entendo. Habituei-me a vê-los como amigos, e não como perigo ou inimigos.

 

É um fascínio pela transgressão, pelo abismo?

- Eu não tinha de ter um grande fascínio pela transgressão. Fui uma transgressora desde sempre, não é? Tive uma educação óptima, uma enorme liberdade de expressão, de tudo quanto quis escolher nunca fui impedida. Mas tinha contra a sociedade. Vivi num bairro bastante pobre, o Largo do Contador Môr, entre o Castelo e Alfama. Os meus amigos foram feitos ali, brincava com eles na rua, levava-os para casa. Ali passava-se de tudo. Crianças filhas de pais alcoólicos, prostitutas, que lhes batiam, que as tratavam mal.

 

Porque é que viviam lá?

Toda a minha família viveu naquele bairro, sempre. Nasci junto à Sé, em casa da minha avó.

 

A avó Ana de Castro Osório, [feminista, lutou pelo direito ao voto feminino]?

Sim. Nasci lá e mudei-me com um ano para o Largo. Até aos 17.

 

No Largo tinha a noção de que a sua família era diferente?

Sabia que tinha imensa sorte por ter os pais que tinha. Sabia que não passava fome, que tinha coisas para vestir e calçar, e que as outras pessoas não tinham. Fez com que houvesse um espírito de repartição que me acompanhou a vida toda: ali não havia coisas particulares, as coisas eram de um todo. O facto de ter umas coisas não fazia de mim nada de especial; especial, sim, por ter sorte. Portanto, tinha de repartir essa sorte.

 

O Largo, aqueles dramas, ensinaram-lhe o que era a vida, num modo apressado? 

Vi morrer gente muito nova, companheiras de escola, com tuberculoses galopantes, e era porque passavam mal, passavam fome. Para eles, possivelmente, nós éramos ricos. Mas tínhamos muito pouco dinheiro. O meu pai era escritor e vivia da escrita; trabalhava para o jornal e não recebia grande coisa. A minha mãe era cantora lírica, mas cantora, neste país, minha amiga!; passou também a escrever, incentivada pelo meu pai. Não havia excesso de nada. Comer um chocolate era um dia de festa. Tinha alguns brinquedos e livros, oferecidos pelos amigos do meu pai, e eram de todos, como logicamente tinham de ser.

 

Que objectos tem ainda da infância?

Tenho as memórias. Guardo pouco. Guardava as cartas dos meus pais, quando fui para Espanha a primeira vez. Já tinha uma mala cheia. O meu pai insistiu que queimasse as cartas todas, «Não vais passar a vida com malas cheias de cartas». Tirei ao acaso duas cartas de cada um, e fiz uma fogueira com aquilo tudo. As cartas, conservo-as, mas nunca mais as li. 

 

A sua educação foi singular para a época.

Completamente. Houve pessoas na família que criticaram os meus pais por isso. Fizeram muito mal!, nunca lhes perdoei. A mim, podem criticar à vontade, mas os meus pais, os meus filhos, as pessoas de quem gosto... Se tenho tido uns pais repressivos, teria sido o fim. Muito presa a eles, mas muito independente. Fui para Espanha, deixaram-me ir, acompanharam-me à estação. Fugi. Não fugi deles, fugi da sociedade. Uma sociedade que não era amável, e por isso não gostava dela. A hipocrisia sempre me assustou, e depois revoltou, e depois criei-lhes pó. Eu gostava mais dos outros, dos que estavam do outro lado.

 

Porque há uma verdade nesse estado limite, nesse estado sem artifícios, à margem da sociedade?

Exactamente. O mundo lá de casa era o de escritores, pintores, gente fora do baralho. Lembro-me do Jorge de Sena e de gente assim, muito novinhos, visitas de minha casa.

 

A relação com a sua avó Ana de Castro Osório foi significativa?

A minha avó morreu quando eu tinha quatro anos, embora me lembre muito dela. (Tenho uma memória muito viva, consigo ir muito para trás). Tive foi uma relação fantástica com a minha avó materna. Não me admiro que a minha avó Ana de Castro Osório fosse uma pessoa para a frente; mas a minha outra avó, que não tinha um curso superior, uma dona de casa, era uma mulher inteligentíssima. Fui amparada por ela em muitas coisas que fiz. Fui para o liceu sozinha; a minha mãe ainda disse «Talvez devesse ir alguém com ela...», e a minha avó «Para quê?, ela sabe andar sozinha na cidade». Saía de casa às sete da manhã e chegava à noite.

 

Estava assente que seguiria os estudos? Faço a pergunta à luz da realidade portuguesa de há 60 anos.

Fiz até ao quinto ano. Depois meteu-se o Conservatório, meteu-se Espanha... Mas em casa havia uma cultura que era vivida todos os dias. Com os pais e os amigos dos pais. Lembro-me de ouvir o Ruy Cinatti ler os primeiros poemas.

 

Esses adultos faziam-na sentir uma criança especial?

Verdadeiramente não sei se me senti alguma vez criança. O Largo responsabilizou-me muito. O Largo. Deu-me a consciência de que o mundo era injusto. Consciência das diferenças. Porque uns morriam e outros não.

 

Enquanto criança, interrogava-se sobre a morte?

Tinha-a muito perto. Não é impunemente que se vê morrer uma criança da nossa idade, com quem se convive. (A minha mãe não me deixava ir lá, «A tuberculose é contagiosa», mas eu fugia, e ia). Quando se diz «É muito criança para perceber»... É mentira, a criança percebe muito bem, percebe muita coisa. Tenho a impressão que a primeira paixão..., eu digo, a única paixão que tive, foi aos sete anos. Uma coisa estranhíssima, mas verdadeira.

 

O que é que consegue recuperar desse sentimento?

Era um sentimento forte, fora de todo o contexto. Um sentimento que não sabia bem o que era, aos sete anos não se sabe bem. Mas extraordinário. Era uma pessoa muito mais velha, que me achava graça. (Só uma vez gostei de uma pessoa mais nova). Normalmente era atraída por pessoas mais velhas, com outro mundo, com mais experiência. Não foram amores felizes, devo dizer. Não sou uma pessoa de amores felizes. O que não me importa nada.

 

Não?

Não. Estou como gostaria de estar e como escolhi estar. A pouco e pouco fui entendendo que o amor não é bem isso a que as pessoas chamam amor. As pessoas são muito egoístas no gostar, muito egocêntricas no gostar. O amor de que gosto implica dádiva, generosidade, cumplicidade, admiração, compreensão. Nas relações há sempre uma que baixa a garimpa, uma que pode mais que a outra. Mas o amor não é um jogo de poderes, para mim não é. Eu estava mais fadada para gostar das pessoas, gostar das pessoas em geral. Nunca fiz muita questão em ser correspondida.

 

A não correspondência pode ser dolorosíssima, e normalmente instiga ainda mais o sentimento.

Quando era muito mais nova, muito mais nova, conheci um homem, como sempre mais velho, que tinha várias paixões. A nossa ligação foi muito mais uma ligação de amizade. De vez em quando, ele apaixonava-se e ia-se embora, pronto. Eu não podia prendê-lo!, não podia impedi-lo de se apaixonar! A única forma de o conservar era como amigo, entendendo-o. Era o mais importante que tinha para lhe dar. De modo que muitas vezes tratei das paixões dele, levava-as ao médico, pagava a pensão quando não tinham onde estar.

 

Ele era o seu homem?

Era uma pessoa com quem de vez em quando tinha uma relação. Há pessoas que não podem ter dono. Porque é que havia de me arvorar em dona dele?

 

Não lhe causava dor?

Não. Apesar de todas as paixões, de quem ele gostava verdadeiramente era da mulher, que tinha deixado mas que nunca deixou – aquelas coisas que os homens muito cobardemente fazem. E de mim, a amiga que o reconfortava sempre. Nós, e digo nós porque ela sentia o mesmo, éramos muito mais importantes que todas as paixões.

 

Falavam as duas sobre isso?

Pelo telefone, muitas vezes. Foi uma relação muito completa, de dádiva. Recebi dele imaginação: transformava o mundo numa magia. Quando estava com ele, estava, e ele estava comigo. Conversávamos, ríamos, não pensávamos nem no antes nem no depois. Durou 20 anos, mesmo assim...

 

Provavelmente a situação não lhe seria tolerável se fosse dependente desse amor, submissa a esse amor.

Nunca consegui ser cega no gostar de uma pessoa, mesmo na paixão dos sete anos.

 

E a descoberta da sexualidade?

Foi uma grande surpresa para mim, era um assunto que estava muito longínquo. Uma vez deram-me um livro, quando o abri e vi o que era, com uns desenhos... Não li o livro, meti-o numa estante. A minha mãe encontrou-o. Eu que era tão aberta com a minha mãe, nunca tive coragem de lhe dizer que não tido lido o livro. Senti-me sempre envergonhada, que a minha mãe tivesse encontrado o livro, que tivesse pensado que eu o tinha lido.

 

Mas porquê essa pudicícia em relação ao sexo?

Não era pudor. Aliás, sempre tive fama de ser uma pessoa apaixonadíssima e tal. Como é que hei-de explicar? Os desenhos eram horrorosos. Se fosse uma coisa bonita, não teria sequer escondido. Aquilo era de baixo nível, e eu soube que era. Escondi para deitar fora, mas não tive tempo. Mas não tinha pudor em relação ao sexo. Até porque mais tarde, fiz, não se pode chamar asneiras, mas muitas experiências. Só não fiz aquilo que achei que era reles.

 

Nunca teve pudor em falar disso aos seus filhos?

Os meus filhos conhecem a minha vida tim tim por tim tim, nunca lhes ocultei nada. As coisas boas e as coisas más. Não é segundo o critério dos outros, é segundo o meu critério. Quando eram muito pequenos, viram uma fotografia minha vestida de noiva; a minha filha mais velha perguntou «Foi quando a mãe se casou?», e eu disse-lhe «Não, a mãe nunca se casou». Tinha pés de barro, não queria ser deusa e cair do pedestal. Aliás, dificilmente me poderiam pôr em pedestais! O que tive foi sempre muito respeito pelas pessoas.

 

Voltemos ao princípio. Aos 14 anos participa num filme português; segue-se a estreia no Teatro Estúdio no Salitre e a entrada no Conservatório, que interrompe para ir para Espanha.

A primeira co-produção fi-la com 14 anos, e fui para Espanha com a minha irmã. O natural seria que ficasse muito encantada, ou encandeada, com o sonho disso. Mas não. Aquilo era o meu trabalho, nunca misturei isso comigo. Consigo meter-me no papel que estou a fazer, quando o estou a fazer, e depois sou eu, não tenho de levar isso para casa. (Ou guardar fotografias, ou jornais. Não tenho nada, nada. O meu pai guardou, primeiro, e depois o meu filho). É evidente que, miúda, fiquei tocada pela magia do teatro. Mas essa magia, que continua a existir, não se traduz num palco para brilhar.

 

Nunca quis ser uma vedeta?

Ser uma vedeta, ser uma pessoa importante que vem nos jornais, isso não serve para nada. Quando via os cartazes enormes dos filmes em que entrava, cartazes que ocupavam toda a fachada de um prédio na Gran Via, com a minha cara, achava que não era eu! Sabe o que é?, achava que aquilo não tinha nada que ver comigo, que era até um bocado tonto! 

 

Não sonhava com as imagens glamorosas do cinema? Os anos 50 são os anos de uma Hollywood máquina de sonhos.

Nunca quis ser glamorosa. Os meus colegas diziam que era muito bonita, e nunca me achei muito bonita. O que gostava na cara das pessoas era dos vincos, da leitura. Eu não podia ter leitura, era muito miúda. E não pode dizer-se que fosse uma miúda que se divertia: aos 18 anos tive a minha primeira filha, depois tive quatro filhos seguidos.

 

Que vida levava em Espanha?

A primeira vez que fui a uma boite, tirando uma experiência aos quinze anos, (apanhei um grande pifo, comecei a beber whisky, nunca tinha bebido, e caí para o lado), foi em Portugal já com vinte e tal anos. Nunca tinha tido tempo para ir a uma boite. Em Espanha levantava-me às cinco da manhã, para estar no estúdio às seis e meia, e quando chegava a casa era noite, tinha de dormir um bocado, tinha os miúdos. Tive a sensação de ter adormecido criança e acordado mulher, cheia de trabalho e responsabilidade. [remexe em papéis e lê] Escrevi isto: «Da adolescência que não tive, ficou-me a nostalgia da primavera».

 

Mas quando vai para Espanha, que projecto de vida era o seu?

Fui para Espanha para fugir, se se pode dizer assim, com o pai das minhas filhas mais velhas, Carlos Otero. Ele era casado. Não estou arrependia, porque ele era, de facto, uma pessoa extraordinária; mas um bocadinho mais velha, não teria ido... Nunca pude furtar-me à ideia de que tinha ficado alguém a sofrer por minha culpa. Embora soubesse que não eram felizes, foi uma coisa que me perturbou bastante. Tentei acabar várias vezes, mas não consegui.

 

Tinha 16, 17 anos?

16 quando comecei a andar com ele, 18 quando fomos para Espanha. Ele tinha 33. Achou sempre que eu tinha ainda muita coisa para fazer, que não ia ficar parada. Combinámos que ao menor interesse que surgisse, contaríamos um ao outro. Claro que fui eu, não é?, tinha de ser, não é? Um interesse estranho que derivava da curiosidade pelo sexo, da atracção pelo sexo em si. Contei-lhe. Eu, que nunca me preocupei com as pessoas, preocupei-me imenso com o que podiam dizer dele, «E se te chamarem corno?», «Isso não existe, basta que tenhas sido sincera comigo, ficamos em casa como bons amigos». Mas eu não quis. Fartei-me de chorar e vim embora. Tinha 23 anos.

 

Teve os filhos porque quis ou porque aconteceram?

Sempre porque quis.

 

Tinha a noção de que aquilo que sempre quis fazer ficava muito coarctado pela existência dos filhos? Foi por eles que recusou o convite da Rank, a companhia inglesa que prometia transformá-la numa vedeta mundial em quatro anos? 

Foi-me fácil recusar o convite, sim. A primeira questão era ter de deixar os meus filhos, (que não deixaria nunca!). Depois, o meu fito nunca foi ser vedeta. Uma boa actriz, gostava. (Para ser uma actriz, levei muitos anos. Uma boa actriz, vamos lá, para aquilo que eu era...). É um facto que isso não se usava, mas sempre quis tê-los, sempre disse que ia ter cinco! A minha vida é feita em função dos meus filhos e dos meus pais.

 

De regresso a Portugal, volta para casa dos seus pais. Parece que não chega nunca a cortar o cordão umbilical.

Nasci para ser mãe e filha, acho que não nasci para muito mais. Para ser actriz, talvez. Queria ser uma boa actriz para que tivessem orgulho em mim. Dei vida aos meus filhos, é certo, mas foram eles que me deram vida a mim. Sem eles, não sei se teria resistido a muito.

 

O único amor que tomou conta de si foi este, pelos seus filhos e pelos seus pais?

Completamente. Se me dou o direito de ter saudades do passado, (porque o passado passou, é preciso viver cada dia), tenho saudades dessa época em que estávamos todos juntos. Com os meus filhos, os meus pais, e depois os meus netos, já o meu pai tinha morrido. Percebi verdadeiramente a extensão do amor com os meus pais e os meus filhos. [pausa] A minha filha mais velha morreu. É o maior amor que alguém pode ter e o maior desgosto que alguém pode ter. Não há nada, nada, nada maior, nem nada que substitua um filho. No princípio, por mais que a pessoa queira, não consegue abranger a imensidão do que lhe aconteceu. Depois, não consegui chorar nunca. Mas isso, nem na morte do meu pai, nem na morte da minha mãe consegui.

 

Ainda consegue chorar?

Praticamente não choro. Há muitos anos que não choro. Faz-me uma falta enorme. Vêm ondas, ondas, sinto uma vontade imensa, e não consigo extravasar. No entanto, num espectáculo, sou capaz de chorar, raramente, mas sou capaz.

 

O riso e o choro, quando é que os perdeu?

Fui perdendo. Digamos que os perdi quase definitivamente com a morte da minha filha, há cinco anos e meio. Falo disto porque nunca a apartei da minha vida; ela vive comigo diariamente. Preciso de falar dela, de outro modo sinto-me muito só. Eu estava a ir-me. Percebi que uma pessoa não precisa de se suicidar, uma pessoa morre quando quer. Senti que podia morrer de um momento para o outro. Procurei ajuda. Um médico, ajudou-me muito, ainda hoje lá vou. Ele concordou.

 

Que a Isabel definhava?

Sim, sim. Quando era miúda dormia no quarto com a minha avó, passava noites acordada a ver se ela respirava. Mas da minha própria morte, nunca tive medo. Depois da morte da minha filha, não tenho mesmo medo, nenhum, nenhum. Acredito que para pior não vou. Acredito em Alguém, numa certa Ordem, numa Energia. Podemos chamar-lhe o que quisermos, tanto me faz. Temos com a morte uma relação péssima, fazemos disso uma coisa trágica que nos persegue toda a vida, quando na verdade não há nada mais certo. Se vivemos temos de morrer, não é?

 

Porque tem ao pescoço a imagem de Cristo?

Tenha sido filho de Deus ou homem, é uma figura extraordinária, é uma figura que me é muito querida. Jesus Cristo e S. Francisco de Assis são os meus grandes amores. A imagem foi-me dada por uma amiga de uma amiga; nunca a tiro.

 

Representa com ela?

Sim, quando não é para ver, ponho para trás. E este anel era da minha filha, pus e nunca mais tirei.

 

Os seus trabalhos mais famosos no teatro, como «A Voz Humana», de Cocteau, «Bruscamente no Verão Passado», de Williams, «Quem tem medo de Virgínia Woolf», de Albee, são mulheres em estado limite, muito perto do desequilíbrio.

Não quer dizer que eu mesma não esteja próxima do desequilíbrio. Tenho é tido muito cuidado em equilibrar-me.

 

Teve fases mais próximas do abismo.

Muito próximas.

 

Teve fases em que bebeu.

Sim, sim. Coincidiu com a morte do meu pai, com a morte da minha mãe, com o desaparecimento de pessoas... As pessoas achavam que eu bebia assim para fazer ginástica com o copo! Não é bem assim. Bebi muito em fases de perda. Coisa que com a minha filha não aconteceu. Deixei de beber exactamente quando a minha filha faleceu, (já não tocava há muito tempo). Não queria perder um bocadinho sequer dos cinco sentidos, adulterada por qualquer bebida ou fumo. Não se pode perder um milímetro do tempo. Quando o meu pai morreu, eu tinha 32 anos, quando a minha mãe morreu, 50. Lá fiz o meu papel de forte... Andei sempre a fazer de forte. Às vezes nem quero pensar o quanto sou fraca... Por isso percebo tão bem as personagens em desequilíbrio. Lutei sempre para ser uma pessoa equilibrada. Ainda hoje luto muito.

 

Nunca se arrependeu de nada?

Não me serviria de nada! Não vale a pena chorar sobre o leite derramado, é uma coisa que o povo diz e é bastante verdade. Não há tempo para o arrependimento. Há tempo para fazer melhor. O tempo é curto, de cada vez é mais curto. Se penso no embate com o futuro, o que gostaria é que aqueles que me amam ficassem bem, ficassem calmos. Que não ficassem perturbados, como eu fiquei.

 

Como gostaria que se lembrassem de si?

Oh, como uma pessoa. Não há nada de muito especial pelo que queira ser lembrada. 

   

 

Publicado originalmente no DNa, Diário de Notícias, em Abril 2003.

Isabel de Castro morreu em 2005. 

Leonardo Padura

21.03.16

Leonardo Padura vai fazer 60 anos. Cuba é a sua Jerusalém, o seu território sagrado. É neste país de contradições e perplexidades que vive, por escolha. Viaja muito. É talvez o mais conhecido escritor cubano da actualidade. Esteve em Portugal para promover o livro mais recente. “Hereges” é um romance histórico, um policial que tem como protagonista o detective Mario Conde, um documento inspirado em factos verídicos. Em Cuba, a situação está hereje?

 

No começo do seu livro apresenta o significado da palavra herege, e especifica que em Cuba, quando uma situação está muito difícil, especialmente no aspecto político ou económico, se usa a expressão estar hereje. É uma expressão que os seus pais poderiam utilizar?

É uma expressão antiga, sim. Estar hereje significa que a coisa está mal.

 

O estar hereje dos seus pais tem um sentido diferente daquele que tem para si? Tem leituras diferentes em função das diferentes situações que se vivem em Cuba?

Creio que ao longo do séc. XX, Cuba – tal como Portugal ou Espanha – passaram por um processo de melhoria das condições de vida. Na geração dos meus pais aconteciam coisas que eram como histórias de telenovela brasileira!

 

Sim?

Sim. Por exemplo, a minha mãe teve sete irmãos. Quando a minha mãe tinha cinco anos, com um irmão de três e uma de dois, o meu avô paterno morreu e deixou a família na miséria. Viviam numa cidade no centro da ilha, chamada Cienfuegos, e mudaram-se para o bairro judeu de Havana. Conheço muito bem esse bairro. A minha mãe e o meu tio viveram muito tempo ali e contaram-me muitas coisas. Para eles a situação esteve muito hereje.

 

Em que ano nasceu a sua mãe?

Nasceu em 1927. Depois deu-se a crise de 1929, em Cuba houve um governo muito corrupto que levou a uma revolução frustrada. O meu pai nasceu em 1926, com condições diferentes, porque tinha uma família que manteve a sua integridade. O meu avô conseguiu que, apesar da pobreza, vivessem bem.

 

Ambos sabiam ler e escrever?

Sim. Em Cuba, o problema do analfabetismo era mais evidente nas zonas rurais, com os camponeses.

 

Mesmo antes da revolução de 1959, era normal as pessoas serem alfabetizadas?

Nas cidades, sim. Todos os meus tios aprenderam a ler e escrever. A minha mãe estudou até ao oitavo grau. Não pôde continuar por motivos económicos. Não havia dinheiro para um bacharelato. Eram famílias que, com muito esforço, nos dois casos, chegaram a ser de uma pequena burguesia. Donos de pequeno comércio, lojas de comida, de bebida. Para a minha geração foi diferente. Eu nasci em 1955, triunfava a revolução.

 

Viveu a utopia da revolução desde o seu nascimento, praticamente.

A grande utopia socialista era parte da vida normal das pessoas. A minha geração foi a primeira que teve acesso, de maneira quase universal, à universidade. Uns são matemáticos, outros são geógrafos, muitos são médicos. Iniciou-se um progresso intelectual e social, com uma certa melhoria das condições de vida, apesar das dificuldades económicas. Isso manteve-se de forma coerente até aos anos 90, quando desaparece a União Soviética. Nesse período deu-se uma enorme crise económica, desapareceu quase tudo de Cuba. Electricidade, transportes, comida, medicamentos. Vivemos uma situação muito hereje.

 

Com um sentido mais profundo do que o hereje dos anos anteriores.

Tínhamos uma piada, em Cuba, brincando com a nossa própria desgraça... “Na realidade não temos assim tantos problemas, são só três: o pequeno almoço, o almoço e o jantar!” [risos] Todos os dias. Mas as dificuldades desses anos foram importantes para o que aconteceu depois. É que como o Estado não tinha capacidade económica para sustentar a população, e num país onde tudo pertence ao Estado, criou-se uma distância grande entre o Estado e as pessoas. Em geral.

 

Um modo de dizer que o Estado são outros, não somos nós?

Para que compreenda: no caso dos escritores, especificamente. Em 1991/92, paralisou-se a indústria cultural em Cuba. Não havia dinheiro para produzir cinema, os teatros deixaram de ter electricidade, não havia papel para imprimir livros. E vínhamos de um modelo em que o Estado financiava o cinema, o teatro, a literatura, os jornais. Ao desaparecer, essa relação de grande proximidade entre as entidades criadoras e o Estado vai-se desfazendo. E esse espaço encheu-se de liberdade. Pudemos começar a procurar editoras fora de Cuba, a escrever sem pensar no editor cubano, que era um funcionário do Estado cubano.

 

Foi um começo de uma metamorfose?

Sim, começou a modificar a cultura do país. Começaram também a ser autorizadas, muito timidamente, pequenas empresas privadas. Nem se chamavam empresas. Eram trabalhadores por conta própria, independentes. Esse processo não parou. Começou a desaparecer aquele carácter homogéneo que a sociedade tinha nos anos 70 e 80. Nesse período, todos tínhamos sapatos, mas eram dois pares, todos iguais, uns para ir à escola e uns um pouco melhores para as festas. Mas eram todos iguais! Todos tínhamos dois pares de sapatos, três camisas e umas calças.

 

Como é que se comprava a roupa?

A roupa comprava-se com uma caderneta de racionamento. Houve um período em que as mulheres tinham que escolher uma de duas opções: ou compravam as cuecas ou os soutiens! [risos] Mas apenas uma das duas coisas. “Este ano, esta leva o cu ao léu, aquela as mamas”. Havia coisas, depois deixou de haver. E as pessoas tiveram que encontrar alternativas nos anos 90.

 

A necessidade, paradoxalmente, conduziu a uma certa liberdade? Era preciso encontrar uma solução.

Sim, [era preciso encontrar] uma estratégia de sobrevivência de outro tipo.

 

Que outros passos de abertura foram dados no pós-queda do muro?

Anteriormente era ilegal a circulação de dólares em Cuba; passou a ser legal. Nos anos 80, os escritores não podiam comercializar os nosso livros fora de Cuba, sem ser através de uma agência literária do Ministério da Cultura; passámos a poder fazê-lo. Começámos a ter, não todas as liberdades que queríamos ou que imaginámos que deveríamos ter, mas realmente maiores [do que as que tínhamos].

 

No decorrer desses anos, a desigualdade económica aumentou? Ou todos continuavam, no essencial, a ter o mesmo (que era pouquíssimo)?

Hoje em dia existe uma pequena parte da população que tem meios económicos muito superiores aos da maioria da população e há um sector, também minoritário, mas importante, que praticamente não tem nada. Vivem em bairros emergentes, construções muito precárias, quase favelas. Recentemente, uma jornalista disse-me que conhecia muito bem Cuba, que visitou ao longo de oito anos. Eu não disse nada, porque achei que podia ser ofensivo, mas conhecer Cuba, com uns euros no bolso, ficar três meses, não é conhecer a realidade de Cuba. Para conhecer é necessário viver, todos os dias. Encontrar as pessoas que vivem nesses bairros, nas periferias de Havana, que vêm do interior, sobretudo da região oriental, e que vivem do que aparece, de qualquer pequeno trabalho. Sem alternativa. Isto acontece, a sociedade cubana está a polarizar-se. Mas a maioria da população vive em condições médias, difíceis, sem ser de miséria.

 

Voltando atrás. A sua mãe mudou-se para o bairro judeu de Havana no mesmo período em que deflagrava a guerra na Europa?

Ela mudou-se para ali no mesmo período em que lá esteve Daniel Kaminsky [o personagem do meu livro]. Nos anos 30.

 

Então está a trabalhar, no seu imaginário, a história das suas raízes?

Sim. O bairro que a minha mãe conheceu, quando chegou a Havana, era muito pobre. A família vivia com o dinheiro que o meu tio, que teve que ir trabalhar como marinheiro, enviava de outros portos; e uma tia mais velha casou-se com um senhor que não era rico mas que ajudava a família.

 

Que contava a sua mãe sobre o judaísmo, sobre a presença de uma cultura diferente?

Não o via como diferente. Cuba formou-se com vagas de imigração muito distintas. Existiam judeus com os seus negócios. Existiam os negócios dos chineses, os negócios e sociedades de asturianos, catalães, galegos. Era um mundo tão diverso que praticamente nada parecia estranho.

 

Sem discriminação racial?

Havia discriminação racial, mas sobretudo discriminação económica. Não era igual ser galego e dono de um negócio e um galego que trabalhava no molhe a carregar sacas dos barcos. Não era o mesmo ser um judeu dono de uma pastelaria ou um judeu que anda na rua a vender gravatas. Num nível inferior estavam os negros. Havia negros de uma certa classe média, não muito elevada, que eram mestres, construtores, e outros numa classe mais baixa.

 

Esse detalhe é importante, porque a discriminação nazi na Segunda Guerra Mundial é baseada na raça. A discriminação pode ser económica, política, e neste caso há uma escolha e uma possibilidade de mudança. Quando se faz uma discriminação racial, o indivíduo não tem responsabilidade nisso nem o pode alterar. Isto muda tudo quando consideramos situações de discriminação.

Ainda que não se sinta discriminado em Cuba, o personagem de Daniel Kaminsky renuncia a ser judeu. Precisamente porque sabe que há algo que lhe foi imposto, que não foi sua decisão, que não pode alterar. Mas tenta alterar. Como? Tornando-se num cubano comum, normal. Vivendo a vida afastado dos preceitos judeus, da sinagoga, de todas as práticas que estão associadas e definem a cultura e religião judaicas.

 

O personagem e o caso inspiram-se num facto histórico: a tentativa do navio Saint Louis aportar em Cuba, em 1939, com cerca de 900 judeus a bordo, fugidos da Alemanha. O barco esteve vários dias ancorado, à espera de autorização para desembarcar. Que não chegou.

Em Cuba não existiu anti-semitismo. Por isso é que um episódio como o do navio Saint Louis, em que se impediu a entrada de 937 judeus, teve tanto impacto. Regressaram à Europa e metade morreu no Holocausto. Existiu discriminação, sobretudo económica e racial de negros. Mas estes judeus eram brancos. Isto é, poderiam integrar-se na sociedade branca, cubana, sem nenhum problema. E em alguns casos poderiam ser muito bem sucedidos. Existiam judeus muitos ricos, em Cuba, com grandes negócios.

 

Estes judeus que estavam no barco não tiveram possibilidade de escolha. Essa é a grande questão: o livre arbítrio. Quando se fala hoje de Cuba, quando se interroga a capacidade de fazer escolhas políticas, a decisão de ficar ou partir, tudo muda quando se tem a possibilidade de escolher. Pode falar sobre isso?

Acredito que uma das mudanças mais importantes que se operaram em Cuba nos últimos anos foi a eliminação da permissão de saída. Para poder emigrar, era preciso pedir uma autorização ao Departamento de Emigração Cubano, ao Governo. Sem o passaporte com essa autorização, não se podia viajar. A possibilidade de escolha, de ficar ou de ir, estava limitada por lei. Hoje esse problema desapareceu, mas surgiram outros, que por vezes se esquecem. Um cubano, para poder viajar para outros países, necessita de visto de entrada do outro país. E necessita de dinheiro para viajar.

 

É o mais difícil?

Não. É o menos importante. Porque pode ter um irmão ou amigo que lhe dá mil dólares para viajar, para sair. Mas, a possibilidade!, saber que uma pessoa leva duas fotografias, dois selos, que pede um passaporte e lho dão... Isso dá uma sensação de liberdade!

 

A sua expressão facial alterou-se quando falou em sensação de liberdade.

Claro, ter a possibilidade é muito importante, mesmo que existam outros problemas por resolver. E eu nunca tive problemas para viajar. No mundo artístico, sempre tivemos mais liberdade de movimentação. Desde 1988, quando comecei a viajar, nunca mais parei.

 

Portanto, a relação das pessoas com a escolha alterou-se.

Sim. A minha geração – e falo muito sobre isso nos meus livros – teve, em determinados momentos, muito pouca possibilidade de escolher. O menu que nos davam nos restaurantes só tinha três pratos. Num sentido figurado, queria tomar sumo de laranja e só havia limonada. Tínhamos pouca possibilidade de escolher o que queríamos fazer com as nossas vidas. Simultaneamente vivíamos num país que garantia algumas das coisas mais importantes, como a educação. Dependíamos da nossa inteligência para estudar.

 

Decidiu estudar Filologia. Porquê?

Eu queria estudar jornalismo e gostava muito de baseball. Quis ser jornalista desportivo. Mas nesse ano o curso de jornalismo estava fechado, por causa daquilo a que se chamava planificação socialista. Alguém tinha decidido que já existiam demasiados jornalistas em Cuba e não era necessário que se formassem mais pessoas nessa área. Quis então estudar História de Arte, que era o outro curso de que gostava, mas também estava encerrado. Fui para literatura, que era o mais próximo.

 

Ou seja, a sua escolha foi muito condicionada.

A minha possibilidade de escolher foi-se transformando pelo que era oferecido. O sistema educacional cubano acabou por me levar a estudar Filologia. O que poderia ter sido um conflito tornou-se numa enorme vontade. Creio que estava destinado a estudar literatura. Permitiu-me adquirir uma cultura e um conhecimento que talvez o curso de jornalismo não me tivesse dado, e com essa cultura e conhecimento pude fazer jornalismo.

 

Foi um jornalista de referência.

Sim. Quando se fala em jornalismo literário, de investigação, da renovação do jornalismo cubano, nos anos 80, o meu nome faz parte desse movimento.

 

Contudo, o problema da escolha esteve – e está – sempre presente. Há escolhas de valores, escolhas que não queria chamar de abstractas, mas que são menos concretas. E há outras que são escolhas imediatas, que influenciam muito a vida de todos os dias.

São escolhas que condicionam a vida das pessoas. Essas outras escolhas de que fala também foram muito complicadas. Houve momentos em que praticar uma religião em Cuba podia ser uma limitação. Porque o socialmente correcto dizia que um revolucionário não devia ser religioso, ou não devia ser homossexual. Ou se o pensamento político fosse diferente, tornava-se num dissidente.

 

Um herege, para voltar às palavras e ao título do livro.

Um herege. Nas margens ou fora da sociedade. Ter ideias ou atitudes diferentes podia ter consequências no percurso pessoal. Felizmente, muitos destes conceitos foram mudando. Nos últimos três, quatro anos surgiram histórias de pessoas que são dissidentes políticos, que agiram e intervieram de maneiras que, há vinte anos atrás, resultariam numa prisão de cinco ou dez anos. Agora são cinco ou dez horas na esquadra da polícia e depois são libertados. Entre dez anos e dez horas há uma grande diferença.

 

É um sinal de evolução política?

Sim. Para melhor, embora ainda não existam todos os espaços de expressão, de debate, para apresentação de posições distintas que deveriam existir.

 

Voltemos ao livro. O que significa ser herege numa primeira acepção? Depois, o que significava ser herege na Segunda Guerra Mundial ou em Cuba, onde a dissidência, como afirmou, tem consequências?

A heresia significa escapar da ortodoxia. A palavra foi-se carregando, negativamente, ao longo do tempo, muito por culpa do cristianismo. Até que ponto uma heresia pode ser castigada de uma maneira drástica? No livro, há um episódio com o personagem de Baruj (Benito) Spinoza, que foi considerado herege e condenado a uma separação total da comunidade. Na Segunda Guerra Mundial, significava ir para um campo de concentração. Na União Soviética, para um gulag. Nos Estados Unidos, nos anos do Macartismo, podia-se ser condenado ao ostracismo (quem fosse comunista não podia trabalhar em determinados sítios). No caso cubano, significava uma marginalização que podia durar anos.

 

“Hereges” está dividido em várias partes. Uma delas tem como protagonista, Elías (que é um nome com uma carga religiosa forte). O personagem tenta descobrir a história do seu pai. Leio no que escreve, sempre, uma preocupação com a memória e com as raízes.

Há pouco falávamos sobre uma coisa muito importante: nasci num bairro do mais normal que há em Havana, na zona sul da cidade, quase nos limites da zona urbana. Numa esquina havia uma mercearia de chineses, outra de um galego. Por nossa casa passava com alguma frequência um senhor libanês. Eu era colega de escola, brincava com os seus sobrinhos. O meu pai tinha-se tornado maçom, em1949, e em 1952 fundaram o edifício da loja do bairro, a um quarteirão da nossa casa. Quando eu nasci, nessa loja organizavam-se sessões todas as sextas feiras. Havia um senhor negro, médico, outro branco, advogado, um outro que parecia escocês que recolhia o lixo do bairro. Mas todas estas pessoas se tratavam por “irmão”, porque eram irmãos maçónicos, praticavam a fraternidade. A minha mãe é católica e sempre teve uma atitude muito solidária para com os outros. Nesse mundo, triunfou uma revolução socialista que dita que todos somos iguais. E eu, vivia entre maçons, católicos, libaneses, chineses, galegos, brancos, negros...

 

E porque é tão fundamental compreender as origens?

Creio que tem a ver com uma condição pessoal. Ontem fui à Fundação Saramago; a uns poucos metros, debaixo de terra, há ruínas romanas. Nós, como país, temos duzentos anos. Antes eram uns espanhóis, uns negros e uns poucos índios que viviam na mesma ilha. Misturavam-se ou não se misturavam, mas não era uma cultura diferenciada. Um português, com o apelido Gonçalves, pode saber até seis ou sete gerações de onde vem. O apelido Padura é basco. Como chegou a Cuba? Não sabemos. Eu, como a minha mãe, nem se sabe se somos negros ou brancos ou filipinos! Tudo parece indicar que o meu bisavô era filipino, daí o tom de pele e forma dos olhos.

 

O anúncio, em Dezembro, do restabelecimento do contacto entre Cuba e os Estados Unidos surpreendeu. Surpreendeu muitos os cubanos, surpreendeu toda a gente. Na vida de todos os dias, nas coisa normais, é visível uma diferença?

Não, não. A única coisa que aconteceu foi ao nível do diálogo.

 

As pessoas falam disso?

Não. Falam os governos. Reuniram e estabeleceram um processo, discutem o que deve acontecer primeiro, condições, isto e aquilo. Com as pessoas nada se alterou. Diz-se que quando chegarem os americanos talvez se resolvam alguns problemas. Mas no concreto, no quotidiano, não se alterou praticamente nada. Talvez exista já um número maior de turistas norte-americanos, não muito. Isso significa que trazem dinheiro e gastam, em instituições, restaurantes e hotéis privados. Onde deve existir já maior movimento é [nas relações] com empresas europeias, chinesas, latino-americanas, que, vendo a evolução dos acontecimentos e a possibilidade de o embargo se flexibilizar – porque ainda não foi levantado –, estão a iniciar a implementação de negócios em Cuba.

 

Como é a sua vida de todo os dias? Em que casa vive? Como se desloca? Com quem se relaciona? Onde compra a sua comida? Como acede à internet?

Eu pertenço a essa espécie rara de pessoas que vivem na mesma casa em que nasceram, no mesmo bairro no sul da cidade, chamado Mantilla. Nesse bairro nasceram o meu pai, o meu avô, o meu bisavô. A casa onde vivo foi construída em 1954, pelo meu pai. Eu e a minha mulher vivemos numa ampliação construída sobre essa casa. Trabalho ali, escrevo, dedico-me profissionalmente à literatura.

 

É uma maneira de dizer que se pode viver da literatura?, de escrever?

Não! É uma maneira de dizer que eu posso viver da literatura. A maior parte dos escritores não pode. E quando eu comecei, em 1995, não podia. Em 31 de Dezembro de 1995 deixei de trabalhar para a revista em que trabalhava, no dia 1 de Janeiro de 1996 tornei-me um trabalhador independente. Tínhamos quatrocentos dólares em casa, que me tinham pago por uma antologia de contos cubanos, no México. Naquela época, com esse dinheiro, podia viver um ano. Mas tive a sorte... Costumo dizer que há por aí uma nuvem em que Deus está sentado, a olhar, e que de vez em quando toca com o dedo, e que me tocou com o dedo... Na manhã de três de Janeiro, ligaram de Espanha. Tinha enviado um livro para um concurso e informaram-me que tinha ganho. Dois milhões de pesetas! Dezasseis mil dólares era uma fortuna!

 

A sua vida mudou.

Mudou. Um mês e meio depois ligou-me a minha editora de Espanha (creio que é a melhor, trabalhamos juntos há quase vinte anos)... Por isso posso viver da literatura. Mas não vivo só dos livros. Continuo a fazer algum jornalismo, escrevo guiões para cinema, dou conferências. Esta é a vida económica de um escritor.

 

O quotidiano: estava a contar como é.

Digo que vivo da literatura e para a literatura. Quando não estou a viajar, a responder a perguntas de jornalistas [risos], quando estou em casa, escrevo toda a manhã. Levanto-me cedo, às sete e meia já estou a trabalhar. Faço-o todos os dias, de segunda a domingo. Nesta casa onde vivemos, já não temos cães. Morreu há um ano e meio o último que tínhamos, com dezassete anos.

 

“O homem que gostava de cães” é um dos seus livros mais famosos. Tem por trama o assassinato de Trotsky por Ramón Mercader.

Sou um homem que gosta de cães! A minha esposa Lúcia trabalha, por vezes, comigo, outras vezes em coisas independentes, mas temos muitos projectos em comum, trabalhamos em casa.

 

Que moeda usam? Dólar, peso cubado, peso convertible (a moeda usada sobretudo pelos turistas)?

Usam-se pesos convertibles e pesos cubanos. O exercício matinal da Lúcia é uma caminhada de uma hora. Leva uma mochila e o porta-moedas e depois passa no mercado para comprar fruta, legumes. Outras coisas que consumimos levamos de Espanha, antes de regressar a Cuba. Azeite, atum, sardinhas, queijo. Levamos para consumo próprio ou para oferecer à família e amigos. Para muitos levo, periodicamente, uma garrafa de azeite.

 

Tem acesso à internet em casa?

Deram-me acesso. A maioria dos artistas tem acesso a uma conta de correio electrónico.

 

Que é diferente de ter acesso ao Google, por exemplo.

Sim. Mas por causa de uma censura a um artigo de jornal, ainda por cima absurda, a um artigo em que disse horrores sobre a minha equipa de baseball, puseram o acesso à internet em minha casa muito lento. Quase não consigo usar.

 

Tem automóvel?

Tenho. Desde 1997, com autorização de dois ministros. [riso] Há dois anos tentei comprar um novo, mas não tive autorização, porque iam alterar o sistema de venda e o carro que ia comprar, que antes custava 29000 dólares, passou a custar 180000. Estou a falar de um Hyundai. Um Toyota, com os preços anteriores, custava 50000 dólares, nos preços novos 220000.

 

Então tem o mesmo carro desde 1997.

Sim. E mantenho um velho Plymouth de 1958, do meu pai. Eu pago os arranjos, o meu irmão utiliza-o para pode ir com a minha mãe ao mercado, ao médico.

 

Tem dupla nacionalidade, viaja muito. Porque é que se manteve sempre em Cuba?

Porque sou de Cuba, sou um escritor cubano. Não posso ser outra coisa, tenho um sentido de pertença muito grande. Essa casa que o meu pai construiu, que eu ampliei, esse pátio onde enterrei todos os meus cães, desde o primeiro ao último... É a minha Jerusalém, o meu lugar sagrado. A minha mulher pergunta, às vezes, porque não compramos um apartamento no centro, agora que se pode. Nunca digo que não. Mas sei que não vamos viver lá. Temos as nossas mães connosco. Se tiro a minha mãe daquela casa, morre em uma semana.

 

Como é a sua mãe?

Tem 86 anos e, excepto quando está a ver televisão ou durante as três horas que dedica à leitura, não pára de falar! Tem uma colecção de vizinhas, amigas, do bairro, com quem passa o dia a falar. Veja bem, ela só tem a pensão do meu pai, 240 pesos, dez dólares. Como é que uma pessoa vive com dez dólares? O meu irmão mais velho vive em Miami e eu posso ajudá-la economicamente. Ela já não é conhecida com Alicia Fuentes, mas sim como Alicia Padura, porque a família Padura era conhecida no bairro. Esteve casada 60 anos com o meu pai. Eu vou fazer 60 anos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2015

 

 

Yoani Sánchez

21.03.16

Encontrámo-nos no parque central, junto ao Capitólio. Parti para o encontro com a tensão de quem não sabe o que esperar. Esperava que Yoani Sánchez fosse aquela que aparece no seu blogue, Generation Y (www.desdecuba.com/generationy/). Mas tudo o mais era uma incógnita. Estariam pessoas a segui-la? Simplesmente, eu tinha mandado um e-mail, uns dias antes, para o endereço que consta no blogue. Ela tinha respondido três dias ou quatro dias mais tarde (explicou depois que só uma ou duas vezes por semana tem acesso ao e-mail). Apontámos aquela data. Era um sábado, hora do almoço.

Seguimos dali para o Hotel Sevilha, o espaço onde o personagem principal de Graham Greene foi angariado para os Serviços Secretos britânicos, na ficção de 1958 “O Nosso Agente em Havana”. Era um espaço que ambas conhecíamos. Ela conhecia a sala térrea, eu já tinha assistido a um pôr do sol na sala do último piso. Pensando bem, não era tão estranho assim que ela não conhecesse aquele espaço luminoso, que oferece uma vista fabulosa sobre a cidade. O acesso dos cubanos a hotéis frequentados por turistas é recente. No caminho, eu disse-lhe que levava onze dias de Havana e que não conseguia compreender aquele mundo. “Eu também não” – respondeu.

“O meu blogue é um resultado dessa observação minuciosa sobre minha realidade. Depois de 14 anos a trabalhar como professora de espanhol freelance, e guia de cidade, tive que responder centenas de vezes às mesmas perguntas: “Como é o sistema monetário?” “Como funciona isto?”. A necessidade constante de ter que analisar a nossa sociedade e explicá-la a alguém que não a conhece, ajudou-me muito”.

Yoani Sánchez tem 33 anos. Ela é pequena, franzina, e tem a pele cansada de quem já viveu muito. Tem um discurso emotivo, exprime-se com rigor. É a cubana que desafia o regime com um blogue que recebe cerca de cinco milhões de acessos por mês e que está traduzido em 13 línguas. O ano passado foi-lhe atribuído o prémio Ortega Y Gasset, que não pôde receber. Em 2008, a Time considerou-a uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Sobre o seu passado, e o modo como o viveu, sobre quem é e o que a fez ser como é, fala-se nas próximas páginas.  

 

 

Comemoram-se os 50 anos da revolução. Qual foi o primeiro relato que teve dela?

Foi através dos meus pais, que são pessoas muito jovens (a minha mãe tem 52 anos e o meu pai 55). Nasceram apenas um par de anos antes da revolução. E através dos meus avós, emigrantes espanhóis, que tiveram uma visão um pouco crítica da chegada dos “barbudos” a Havana. Não sentiam aquela euforia da juventude; tinham vivido um processo de guerra civil em Espanha e tinham medo da violência social. A minha avó e o meu avô, católicos, foram muito afectados com a chegada do ateísmo, do materialismo dialéctico.

 

Vivia com os seus avós e os seus pais?

Sim. Vivi uma tensão muito peculiar entre os meus pais, totalmente emocionados com o processo, e os meus avós, que pouco a pouco foram conformando-se. Foi uma situação típica da minha geração: ter escutado as defesas vivas dos nossos pais e as críticas veladas dos nossos avós.

 

Como era a sua casa? E como era veiculada esta ideia da revolução? Falava-se de tudo à mesa?

Venho de uma família muito pobre e de formação escolar baixa. A minha avó lavava e passava para fora, a minha mãe esteve anos sem trabalhar até que finalmente trabalhou num escritório de táxis, o meu pai e toda a sua família eram trabalhadores ferroviários. Debatia-se muito pouco, não se falava à mesa sobre o rumo do país, não se criticava. Mas os meus pais foram absorvidos pelo tema da revolução. O meu pai foi militante do Partido Comunista até quase à crise económica dos anos 90, quando decidiu não continuar. A minha mãe foi da União de Jovens Comunistas. O fanatismo estava praticamente em toda a sociedade, ouvia-se nos pátios das escolas, nas manifestações, nas ruas... Mas não havia uma base ideológica para o explicar. Eles não mo explicaram: impuseram-mo.

 

Viveram sempre em Havana?

Nasci no centro de Havana, num pequeno bairro que se chama Cayo Hueso. Para mim, é a verdadeira Havana, porque é um bairro popular, humilde, onde vive o maior número de habitantes por metro quadrado; há muita população negra.

 

A vida dos seus pais mudou com a revolução? O encantamento vem daí?

Não posso dizer que foram dessas pessoas que estudaram graças à revolução… A minha mãe só chegou ao sexto grau...

 

Porquê?

Porque não tinha, realmente, um interesse em estudar. O meu pai tinha um trabalho manual e foi fazendo um contacto, através do trabalho, com os livros: começou por colocar os pregos nos carris de ferro e acabou a conduzir uma locomotiva. Eram pessoas humildes e continuaram a ser, mas ficaram fascinados com a ideia de dar um futuro aos seus filhos. Sacrificaram-se muito, não pensando em si próprios, mas no que eu e a minha irmã iríamos desfrutar. Daí que a desilusão tenha chegado, quando, nos anos 90, depois de tantos anos a empregar tempo, energia e talento num projecto social, os seus filhos estavam a atravessar uma crise económica e uma crise de valores. Aquela sociedade do futuro não chegava.

 

É um caso atípico? A população, de um modo geral, teve acesso à educação e saúde, conquistas da revolução cubana.

Não creio que fosse um caso típico, acho que houve de tudo. O que se divulgou e promoveu é que havia pessoas que tinham beneficiado muito, graças às conquistas da revolução. A minha avó lavava e passava para fora, triunfou a revolução e continuou a lavar e passar para fora.

 

Analfabeta?

Analfabeta, só sabia escrever o seu nome.

 

Disse que esta ilusão lhe foi imposta. O que é, aparentemente, uma contradição: a ilusão não é uma coisa que se imponha.

Não devia ser. Nasci em 1975, um ano muito sovietizado em Cuba. O subsídio soviético tinha estimulado a economia cubana, desde que em 70 tinha fracassado uma grande plantação de cana de açúcar, (que em teoria iria ser a salvação do país, e que significou a ruína económica). Não cheguei a ver nem barbudos nem jovens rebeldes. Vi funcionários, purgas políticas e ideológicas, e a constante referência a uma utopia, a uma ilusão futura.

 

E passada?

Passada... Havia muita epopeia, referências aos heróis, aos mártires, às situações da Sierra Maestra, do Cuartel Moncada, mas era uma sociedade que se projectava sobretudo para esse futuro luminoso, um futuro comunista de igualdade para todos. Nós, os miúdos e miúdas da minha idade, imaginávamos que chegado o ano 2000, não iríamos necessitar de dinheiro para comprar coisas, porque toda gente já teria aquilo de que necessitava. Os olhos estavam postos no futuro, e graças a isso suportávamos as necessidades materiais.

 

Anos de racionamento?

No ano em que nasci, fora do mercado racionado, só se podia comprar o jornal e o bilhete de autocarro. Tudo o resto estava totalmente limitado. Mas as pessoas tinham o consolo de que não importava o sacrifício material, se em breve iria existir um futuro com prosperidade para todos.

 

Até à crise dos anos 90, havia uma memória gloriosa dos anos 60, subsequentes à revolução? Do analfabetismo que tinha sido extinto em um ano, do acesso à saúde, da vitória sobre os americanos na Baía dos Porcos.

Claro está que a imprensa, as rádios, a televisão, constantemente nos mostravam a reforma agrária, a alfabetização. Os meios oficiais tinham uma intenção de glorificar esses anos. Os participantes directos da revolução, sentiam-se muito orgulhosos de ter participado neste processo. O meu marido, por exemplo, foi alfabetizador. Durante muito tempo sentiu-se muito orgulhoso e feliz por ter ensinado a ler e a escrever um grupo de camponeses; até que lhe ocorreu a grande pergunta: “Ensinei-lhes a ler, e agora, que livros podem ler?”. Havia um desencanto latente, subterrâneo, muito ligeiro. As pessoas começavam a compreender que não era isto que havia sido proposto no ano de 59. Havia deserções nas próprias fileiras dos rebeldes, já tinham sido fuziladas muitas pessoas. Começava a desfazer-se a maquilhagem da utopia.

 

O seu marido tem 62 anos. O relato que faz da revolução é diferente, na sua vida, do dos seus pais e avós.

O meu marido é uma pessoa que vem de uma família de classe média. Não era desses que foram resgatados de um futuro sem educação; teria estudado na universidade, quer houvesse ou não revolução, porque o seu pai tinha meios económicos para financiá-lo. Participou em inúmeros trabalhos voluntários...

 

Participou porque entendia que era uma questão de responsabilidade social.

Exactamente. O pai, que pertencia à burguesia de Camagüey, entregou voluntariamente o seu colégio: não lhe foi confiscado. Sentiu-se muito feliz por se libertar do peso da ditadura de Batista, identificou-se com um sentimento geral de alívio, perante o fim de um episódio muito triste na história cubana. O meu marido ligou-se ao jornalismo, que era o que sempre tinha sonhado fazer, e começou a escrever na revista Cuba Internacional. E aí começou a desilusão.

 

Como assim?

Quando começou a comprovar que não podia escrever realmente o que lhe ocorria, os planos de produção que não se cumpriam, as insatisfações, os projectos sociais que, no final e na prática, não funcionavam. Não podia escrever isto porque se tratava de projectar para o mundo exterior uma ideia de paraíso socialista. Foi expulso da profissão no ano de 88.

 

Há 20 anos que é proscrito pelo regime?

Há 20 anos que está proibido de publicar em qualquer jornal de Cuba. Conto-lhe isto porque é algo que marca a minha geração: ter visto, como testemunha, o processo de frustração e de desilusão dos nossos pais. É como uma vacina contra a utopia. Se me deixo arrastar por uma utopia, fico como o meu pai e a minha mãe…

 

A crise dos anos 90, com a derrocada da União Soviética, foi uma explosão derradeira em Cuba? A semente da frustração já lá estava?

Penso que os problemas económicos dos 90 foram um catalisador, acelerou o processo de frustração, mas ela já lá estava. Num diálogo em que a pessoa pode abrir-se, sem medo, nas ruas, muitos cubanos acreditam que a revolução morreu. Consideram que isso aconteceu em momentos diferentes.

 

Em que momento isso aconteceu para o seu marido?

No ano de 1968. Pareceu-lhe intolerável que Fidel Castro aplaudisse a entrada dos tanques soviéticos em Praga. Era David contra Golias, tinha que apoiar David, não Golias! Outras pessoas pensam que a revolução morreu em 89.

 

Com a queda do muro [de Berlim]?

Quando se deu uma purga militar e fuzilou-se o general Arnaldo Ochoa, por tráfico de estupefacientes. Tinha sido um dos chefes militares mais importantes na missão de Cuba em Angola. Fez-se um julgamento público, transmitido pela televisão, que muitas pessoas viram em casa. Arnaldo Ochoa era uma figura muito carismática. A sentença foi fuzilamento. Este grau de crueldade do governo, as pessoas não esperavam. Os meus pais desiludiram-se nesse momento. Logo de seguida veio a crise económica, que foi um remate da situação. Outros não se sentiram desiludidos até Março de 2003, quando o governo cubano encarcerou 75 opositores e fuzilou três jovens que queriam emigrar e roubaram um barco para o fazer. Outros nunca se sentiram desiludidos.

 

Que relato recebeu o seu filho da revolução? Porque é outra geração...

Tenho um filho de 13 anos, chama-se Teo.

 

Como deus...

Exactamente. Teo é um menino muito inteligente – todos os pais dizem o mesmo dos seus filhos. Tentei não lhe impor nenhuma ideologia, nenhum relato. Deixei que ele próprio chegasse às suas conclusões. É uma geração muito apática, que recebe na escola uma dose de doutrina muito elevada...

 

Mais que a sua?

Mais que a minha. E o efeito é contrário. São apolíticos. Recebe a minha óptica, que nasci em 75, e a do pai. Não posso dizer que eu tenha acreditado; tive uma infância, como a maioria das pessoas da minha idade, gritando slogans: “Pioneiros pelo comunismo, seremos como El Che!”. Quando pude abrir os olhos, ter uma consciência política, o muro de Berlim já tinha caído, a União Soviética já se tinha dissolvido, os problemas materiais eram grandes. O meu filho tem a liberdade de acreditar ou não, para mim é igual.

 

Que diz ele, com as comemorações dos 50 anos da revolução?

Não diz nada. Em Cuba temos uma palavra, cheo. São as pessoas que não estão na moda.

 

É parecido com Che.

É uma palavra mais velha [do que Che]. Para a geração do meu filho, o tema da revolução é uma coisa chea. Eles não falam sobre isso entre si. Quando têm oportunidade de falar do que realmente querem, falam de moda, de desenhos animados japoneses, de gameboy ou playstation, das mesmas coisas que quaisquer jovens em qualquer parte do mundo.

 

Como foi o seu processo de escolarização?

As mães podiam enviar os filhos com 45 dias para o círculo infantil. Era uma época em que se falava na emancipação da mulher, da sua incorporação no mercado de trabalho. Como vivia com a minha avó, a minha mãe não teve necessidade de me enviar tão pequena para o círculo e fiquei com ela até fazer três anos. Com cinco anos, os meninos em Cuba entram para o pré-escolar, que dura um ano. Estive numa primária, que se chamava Republica Popular China, e depois fui para a escola secundária Protesta de Baraguá, (que é um feito histórico cubano). Quando acabei fui automaticamente para o pré-universitário no campo.

 

Foi para fora de Havana, para a paisagem rural?

Sim. O conceito é: os jovens estudam e trabalham, misturam conhecimento com produtividade. Estudam de manhã e trabalham no campo, em agricultura, à tarde, (ou trabalham de manhã e estudam à tarde).

 

Vivem em centros pré-universitários, como um campus, ou junto com as populações?

Vivem em grandes albergues onde cada um tem a sua cama, e não há quartos. Esta teoria tão bonita nos livros, na prática era totalmente diferente. Para os adolescentes é a oportunidade de provar todos os frutos proibidos da liberdade. Estas escolas no campo convertem-se em sítios onde há muita promiscuidade, onde as pessoas se misturam e transferem doenças sexuais – tal como se fosse um pente... Por outro lado, as pessoas importam-se muito pouco com o estudo, estão mais interessados em conquistar, em arranjar namorados ou namoradas.

 

Porque é que essa experiência foi marcante para si?

Ali, pela primeira vez, entendi a enorme distância que havia entre o projecto e a realidade. Fui para o pré-universitário iludida com a ideia de trabalhar e estudar, e quando lá cheguei era praticamente uma prisão, numa escala mais pequena, onde reinava a lei do mais forte.

 

O mais forte em termos físicos?

Em termos físicos. O mais forte cria um grupo, e este grupo extorque os outros. Por exemplo, levava um sabonete de casa, o grupo mais forte tirava-me o sabonete, e eu não podia fazer nada, não havia a quem denunciar. Imperavam relações muito torcidas, havia muitos roubos. Entrei no pré-universitário em 90, que foi um ano crítico economicamente. A falta de alimentos gerava muita competição. Estive lá dois anos e meio. Até que fiquei muito doente, da vista e do fígado.

 

Porquê?

Falta de alimentação. Não havia nada que comer, comíamos muito açúcar, bolachas, col (um vegetal). Graças a essa doença pude ter um certificado médico, que me deu a possibilidade de estudar num pré-universitário em Havana. Era outro mundo. No pré-universitário em Havana estudavam os filhos dos altos funcionários, que não queriam ir para o campo: na utopia do trabalho e estudo só acreditávamos nós! Eles não!

 

Nós?

Os pobres. As relações eram mais juvenis, ouvia-se música, pensava-se em outras coisas, e não na sobrevivência. Eu vinha de um pré-universitário no campo, o meu nível académico era muito baixo.

 

Era a queda de outra ideia, a de que a escolaridade é igual para todos?

É mais do que isso: professor nenhum quer reprovar um aluno, porque assim a promoção do grupo e da escola é afectada. Há pessoas com a classificação máxima, 100, 100, 100, mas não sabem nada. Foi isso que aconteceu comigo. Quando cheguei a Havana, o meu nível era muito mais baixo, e nos exames de matemática, falhei. Não pude estudar jornalismo. Fui parar à lixeira da universidade, o Instituto Pedagógico, para onde vão os que obtêm as piores classificações. Estudei muito durante dois anos, para tirar melhores notas e ter direito a uma transferência interna. Tive o meu filho nessa altura, o que complicou as coisas. Tentei a transferência para a especialidade de Filologia, já não queria ser jornalista.

 

O que é que a fez mudar de ideias?

Tinha conhecido o meu marido e pai do meu filho (estamos juntos há 15 anos). Ele ajudou-me a compreender que o jornalismo em Cuba não era aquilo que eu pensava. Enveredei pela Filologia, porque sempre me tinha interessado por livros e linguística.

 

Porque decidiu ter um bebé com 19 anos?

Queria ser mãe jovem. Há um nível de cumplicidade e proximidade geracional muito grande.

 

O encontro com o seu marido mudou a sua vida?

Alargou muito os meus horizontes. Sempre gostei de literatura, sentia-me estranha no seio da minha família. A minha irmã e eu, como na infância não fazíamos muitas coisas fora, líamos. Dostoiévski, praticamente todo, até aos 15 anos, Guerra e Paz, os clássicos, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Émile Zola.

 

Eram leituras consentidas?

Eram leituras permitidas. Sou uma filha das minhas leituras. Os livros abriram portas que a minha vida e a minha família não me podiam abrir. Dostoiévski foi um dos autores que me inocularam com insatisfação. E isso é muito importante, porque estar vegetando, aceitar tudo sem questionar nada, empobrece a vida.

 

A insatisfação e o questionamento eram também sobre a realidade?

Sim. Victor Hugo, mostrando os aspectos, às vezes sórdidos, da sociedade francesa do séc. XIX, fez-me encontrar paralelismos. Vi que o Homem em si mudou muito pouco. O Homem continua a ser o Lobisomem, nesta sociedade e naquela, com a mesma voracidade.

 

E como permitiam a impressão desses livros que transmitiam, também, valores burgueses?

Imprimiram-se dezenas de milhares de livros, sobretudo aqueles que pertenciam a autores mortos, porque não tinham que pagar direitos de autor. (A literatura mais moderna, praticamente não se conhecia no interior do país). Nas obras de Balzac aprende-se mais sobre o capitalismo do que em qualquer tratado económico. Balzac era permitido porque mostrava a decrepitude de um sistema. Claro que ali também se liam outras coisas…

 

Moral e costumes, por exemplo.

A moral cristã era muito mal vista. Havia que acabar com a moral!, era uma coisa pequeno-burguesa. “Um revolucionário não tem uma moral, tem princípios, ideologia!” Os livros ajudaram-me muito a descobrir que sim, Rashkolnikov tem culpa, um indivíduo pode ter culpa. A minha família não me deu uma moral cristã, deu-me princípios éticos. Se chegava a casa com um lápis que não era meu, a minha mãe fazia-me devolvê-lo.

 

Não apanhou com resquícios do catolicismo?

A minha avó, às escondidas do meu pai, ensinou-me valores cristãos, transmitiu-me tradições como a dos reis magos, o Natal, a ressurreição. Sou fruto também disto. Surpreende-me muito que haja pessoas que possam viver sem ter a mínima responsabilidade sobre o que se passa no país. Eu não me sinto vítima do que se passou comigo, eu sinto-me responsável; e sou.

 

Responsável por quê?

Sou responsável por ter calado, sou responsável de ter aplaudido, sou responsável de não me ter revoltado a tempo. Carrego toda essa responsabilidade, não como uma cruz, mas com o sentimento de ter que fazer mais, de não poder ficar de braços cruzados.

 

Sobre a moral: há muitos jovens que nas ruas se tocam de um modo sexualmente muito explícito. Qual é o lugar do corpo, do prazer e do sexo, nesta sociedade?

Imagine que o desejo e o prazer são como um grande lugar onde se acumulou água de maneira artificial e há uma comporta… Esses diques da moral foram dinamitados, um a um, com o processo revolucionário, que estigmatizou a moral católica e a moral pequeno-burguesa. O casamento caiu em desgraça – assinar um papel para quê? As grandes mobilizações militares e agrícolas, que uniam homens e mulheres em acampamentos, também gerou este intercâmbio sexual. A virgindade foi estigmatizada, as mulheres passaram a ter experiências sexuais desde muito jovens. O aborto deixou de ter uma conotação satânica. Tudo isto contribuiu, com os pré-universitários no campo, para potenciar o fenómeno da sexualidade. A falta de liberdade em outros aspectos da vida, e simultaneamente a liberalização do tema do erotismo, fez com que o indivíduo, incapaz de pronunciar-se publicamente sobre os seus direitos, voltasse todas essas necessidades para a sexualidade.

 

Qual é a idade com que normalmente se inicia a vida sexual em Cuba?

Dezasseis anos já é muito tarde. Rapazes e raparigas. Diria que em média é entre os 14, 15, 13 anos. A maioridade, legalmente, são os 16 anos. Portanto, se vir uma miúda de 17 anos a passear com um turista, já não pode ser considerado prostituição infantil. Os cubanos têm uma expressão muito erótica… O clima, a cultura, a música potenciam tudo isto.

 

Sobre Havana, de forma bem visível, paira o fantasma da prostituição infantil.

Antes da revolução, havia prostituição, claro, mas a maioria dos clientes eram cubanos. Agora, a maioria dos clientes são estrangeiros. O que mais mudou é o seguinte: antes da revolução, a profissão de prostituta tinha associado um estigma social, uma recriminação moral. Agora, há uma grande aceitação. Não falo em aceitação da prostituição como actividade normal – acho que deveriam ter um sindicato e direitos perante a lei. Mas não alarma um pai ou uma mãe que a sua filha possa ser prostituta! Inclusivamente há pais que estimulam as filhas a ter relações com um italiano, um belga ou um alemão porque isso trará benefícios económicos para toda a família.

 

É um sintoma de necessidade e miséria.

Depois de muitos anos, o dinheiro voltou a ter valor. Durante os anos 90, não valia a pena prostituir-se, porque o dinheiro não se convertia em bens de consumo. Havia umas jovens que tinham relações com funcionários do governo, altos militares, para ter alguns privilégios; não havia um intercâmbio económico directo, apenas um pouco mais de comodidade. Foi só a partir do momento em que surgiu uma moeda convertível, que as pessoas puderam ir a uma loja comprar um frigorífico, uma cama, uma mesa, sem racionamento – que não lhes era atribuída, como um privilégio, pelo Estado – que começou a ser rentável ser prostituta.

 

Diz no seu blogue que decidiu dar aulas de espanhol a turistas como forma de ganhar dinheiro. Qual tem sido o papel do dinheiro na sua vida?

Vivo há 15 anos numa esquizofrenia monetária! Desde que se autorizou a circulação do dólar em Cuba, e o peso se converteu em peso convertível [moeda cuja cotação está entre o dólar e o euro], os cubanos vivem amarrados a um sistema monetário muito difícil de sustentar. Quando terminei a universidade fui trabalhar para uma editora oficial; ao fim de um ano compreendi que aquele salário nunca ia chegar para poder manter a minha família. Para me deslocar até ao local de trabalho e regressar a casa, precisava de um pouco mais do que o meu salário mensal! Eu custeava o meu trabalho. Perante este absurdo, optei por uma vida de freelance, uma vida com riscos.

 

Não tem quaisquer regalias?

Não tenho segurança social, não tenho pensão de velhice, mas sou livre! Entre o meu marido e eu, começámos a dar aulas de espanhol para alemães. Quanto à realidade monetária, trato de manter-me economicamente autónoma do Estado – essa é a minha prioridade. Não sou uma pessoa consumista, isso ajuda-me. Todos aqueles que passámos pela profunda crise dos anos 90, saímos com duas possibilidades: ou o apetite pelo consumo ou uma protecção um pouco à maneira de Ghandi, de saber que posso viver com muito pouco.

 

Vive com muito pouco.

Só tenho uma pequena fraqueza: a internet! A tecnologia. E nisso concentro todos os meus recursos. Às vezes encontro dois turistas na mesma semana, outras vezes passam-se meses sem encontrar ninguém. Essas flutuações na minha vida económica marcam tudo o resto. Quando não tenho trabalho fico em casa a ler, a escrever, e consumo com baixa intensidade. A maioria dos cubanos vive de desviar recursos do seu centro de trabalho. Para poder lançar esta pedra, eu não roubo ao Estado.

 

Desviar recursos pode ser desatarraxar uma lâmpada no escritório...

Um frango, óleo, papel. Qualquer coisa que possa depois vender no mercado negro e converter em dinheiro para comprar outras coisas.

 

Em Havana, não se pode entrar num supermercado ou centro comercial com uma mala de senhora. Uma garrafa de azeite ou um pacote de bolachas podem significar muitas outras coisas, são uma moeda de troca.

Se roubam um pacote de bolachas numa loja, é porque sabem que nunca poderão comprá-lo, e têm vontade de o comer. Acho que a ideia de não levar a mala, não é tanto porque possa ser roubada: é porque o Estado não confia na sociedade que formou. Se o próprio Estado não confia nos valores morais e éticos que transmitiu aos seus cidadãos, esta é a chave de tudo.

 

Não se cola a este Estado o rótulo de ser cleptocrata, como acontece com alguns Estados africanos ou latino-americanos. Mesmo que corrupção seja um problema – como é noutros países.

Enquanto não houver uma imprensa livre, que possa denunciar a corrupção, não sabemos nada. Mais do que um Estado corrupto, temos um estado monopolizador. Em Cuba, não se vive num regime socialista, mas num capitalismo de Estado. O Estado cubano é, desde o ano de 59, o mais rico da história de Cuba, e não conseguiu, com essa riqueza praticamente absoluta que tem, dar aos seus cidadãos uma vida digna.

 

A degradação da cidade é imensa. A maior parte das casas tem saneamento, água e luz?

Electricidade praticamente todas. Em Havana Vieja a canalização é muito má. A maioria das casas tem que pagar para que venha um camião de água para poderem ser abastecidas. Na periferia há bairros em muito más condições, com casas praticamente de cartão, que obviamente nunca saem nos jornais porque nenhum jornalista está autorizado a reportar isso, nenhum correspondente estrangeiro está autorizado a entrar nessa zona. É quase como se não existissem.

 

Dois mundos.

Vivemos entre esses dois mundos. Um de que é possível falar, e outro, gigante, sobre o qual não podemos dizer uma palavra. O dinheiro cubano, neste momento, está em algum projecto de guerrilha, em algum lugar do mundo, ou está financiando partidos de esquerda algures. Não sabemos, estamos apenas a especular...

 

No blogue diz que é também webmaster; fá-lo para empresas?

Não, isso é um sacerdócio, faço para o meu blogue, para um portal que partilho com outras seis pessoas em Cuba, que se chama DESDECUBA.COM. Não ganho dinheiro com esta profissão, mas gosto muito.

 

Falemos sobre a sua vida no dia a dia. A casa onde vive é paga por si?

A minha geração é uma geração sem casa; muitos estamos à espera que os nossos pais ou avós morram para que possamos herdá-las. O meu marido, como jornalista, teve oportunidade de construir com um grupo de pessoas um edifício, nos anos do subsídio soviético. Pagou esse apartamento durante 20 anos, até que teve um título de propriedade. Eu desfruto da sua casa.

 

Faz compras com CUC’s [pesos convertíveis, a moeda usada por estrangeiros] ou nos supermercados dos cubanos, com a caderneta de racionamento e pesos cubanos?

As duas coisas. Nós, os cubanos, temos que pensar diariamente, e organizar-nos, para sabermos em que lugar comprar. Sem CUC’s praticamente não se pode viver. Produtos como sabonete, champô ou azeite, são em pesos convertíveis. O mercado racionado tem quantidades muito simbólicas, muito pouca variedade. Arroz, açúcar, um pouco de café, um quilo de frango por mês, quem sabe um pouco de esparguete. Não se pode alimentar com isso! Depois de um ano teria uma doença derivada das deficiências proteicas.

 

Diz-se que aqui não há fome: há sempre arroz e feijão.

O arroz, o feijão e o açúcar do mercado racionado chegam-nos para duas semanas. Nas duas semanas seguintes tem que ir ao mercado negro, ao mercado agrícola livre ou ao mercado de pesos convertíveis. Há sempre algo que apoia esse racionamento: pode ser uma família de Miami que manda uma remessa mensal, pode ser um negócio ilícito como o meu, uma profissão paralela. Mas uma pessoa que vista unicamente a roupa do mercado racionado industrial, dos anos 80, porque não se fez mais, que só coma arroz e açúcar, que não use champôs, não conheço nenhuma. Ninguém morre de fome porque se fazem um monte de coisas ilegais!

 

Que tipo de coisas?

Todos os miúdos têm sapatos, mas nenhum daqueles pares de sapatos foi comprado com um salário. Os sapatos custam dez CUC’s, que podem equivaler a três quartos de um salário mensal. O Estado gaba-se dessa conquista, mas é uma conquista nossa, que encontrámos os caminhos paralelos.

 

Viveu na Suíça, durante dois anos. Porque decidiu emigrar, e porquê a Suíça?

A Suíça não foi uma escolha, foi uma possibilidade que surgiu. Interessava-me a literatura e a cultura alemã, comecei a estudar alemão sozinha, e isso fez-me entrar em contacto com alemães, na Alemanha e na Suíça.

 

Que autores foram veículos para esse interesse?

Thomas Mann, a filosofia alemã (Kant, Hegel, o próprio Marx), Goethe, Schiller. [Arranjei] um grupo de amigos alemães que estavam dispostos a ajudar-me em qualquer coisa. Turistas que voltavam para a Alemanha, me recomendavam a outros amigos, que sabiam que não os ia roubar, que lhes mostrava a minha cultura. Um dia, quando me fartei da situação em Cuba, em 2001, escrevi a um monte de gente, para que me ajudassem a sair. Os amigos da Suíça tinham uma situação económica mais fácil, e disseram-me para ir.

 

Como partiu? Foi uma coisa sigilosa?

Não, não! Naquela altura eu não era ninguém, não emitia opiniões, era apenas mais uma. Deixaram-me partir. Trabalhei num cinema, trabalhei num bar, depois encontrei um trabalho numa livraria de livros latino-americanos, que era a minha especialidade, organizava o catálogo electrónico e a página Web – foi como um anel para um dedo. Integrei-me muito bem. Um ano depois vim buscar o meu filho, que ficou felicíssimo, a comer chocolates suíços!! [risos] Vivi um ano numa casa alugada, tinha internet por cabo 24 horas por dia.

 

Porque decidiu voltar?

Por motivos familiares. Por um lado, o meu marido nunca pôde sair de Cuba. O meu marido, o meu amor, o Reinaldo não podia sair. Uma pessoa que tem um bem [a casa] e sai, após seis meses tem os seus bens confiscados. Ponderei sobre o que era mais importante, e decidi que não me queria separar dele. Por outro lado, o meu pai adoeceu gravemente. A minha família é muito pequena, era um drama que eles não podiam enfrentar sozinhos... Sofria de cada vez que me sentava em frente a um prato de comida: “Eu posso comer, posso viajar, e a minha família, em Cuba, não”.

 

Vinha outra?

Uma vez que decidi regressar, decidi que não vinha para o mesmo ponto: a simulação, o silêncio.

Com o seu blogue, tem a ilusão de que pode mudar coisas?

Sim. Essa ilusão não está na origem do blogue. Era um grito solitário, um exorcismo pessoal. Se encontrou outros, que tinham os mesmos demónios, foi por acidente, não houve premeditação.

 

Quando lhe foi atribuído o prémio Ortega y Gasset, ou quando a revista Time a elegeu como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, isso quer dizer que a sua voz tem peso. Que consciência tem disso?

Há pessoas que me dizem que me tornei mais crítica, mas se ler os textos iniciais verá que eram bastante corrosivos desta ilusão de paraíso. Também não me tornei panfletária. Nunca escrevi a palavra Democracia no meu blogue, mas é um canto à Democracia. Nunca escrevi a palavra Liberdade, mas é um canto à Liberdade. Dou-me conta que as minhas palavras podem ter influência, por isso não quero influir nos ódios, nem nos ressentimentos; quero influir na busca de uma Cuba inclusiva. Sei que tenho responsabilidade, portanto certifico-me de que não corto pontes, mas tento criá-las. Nisso mudou.

 

Porque motivo pensa que o sistema a tolera?

Mais do que tolerar-me, aprenderam a viver comigo e com outras pessoas que escrevem blogues. Sou talvez pioneira em mostrar o meu rosto e o meu nome quando dou a minha opinião. Com a tecnologia e a internet, o governo já não tem o monopólio informativo. No meu caso particular – e eu detesto o papel de vítima – o blogue tem um custo pessoal elevado: foi-me negada a permissão de sair do país em duas ocasiões, tornei-me uma pessoa radioactiva...

 

Radioactiva?

Quando em torno de uma pessoa se cria um círculo, os outros temem em aproximar-se para não se contagiarem com essa radioactividade. A minha família foi advertida, e os meus amigos, para que me dissuadissem. Sou centro de campanhas de difamação.

 

Diz-se que é agente da CIA.

Que sou agente da CIA, que me financia o imperialismo, que me fui formar na Europa para voltar e fazer isto. Cada pessoa que me lê, protege-me, torna-se parte integrante do meu escudo protector. É um meio explosivo, que pode transmitir uma informação em segundos, a milhões de habitantes no mundo inteiro. [Aqui] têm muito medo disso. Estão a tentar projectar uma imagem de tolerância e reforma para o mundo, porque precisam de auxílio económico, precisam de limpar a sua imagem. Perderam uma grande parte da esquerda internacional, e precisam de recuperá-la.

 

Tem acesso permanente à internet?

Não! Os cubanos não podem ter ligação à internet em casa, só os altos funcionários e os estrangeiros que residem em Cuba [podem]. Vou a um hotel, com uma pen, ligo-me e envio as minhas mensagens. Desde Março, o governo impediu o acesso ao meu blogue dentro da ilha. Não posso administrá-lo directamente. Mando os textos e fotografias a amigos que os publicam, depois compilam os comentários e enviam-mos por email; eu faço download, levo para casa e leio. Ligo-me uma ou duas vezes por semana.

 

Depois de lhe enviar o email pedindo a entrevista, pensei que este pedido, provavelmente, ia ser lido por outros…

Totalmente.

 

Está sob vigilância? Lêem a correspondência?

Sim, sim. Mas, mais riscos, é impossível. A minha grande arma é a visibilidade: eu não tenho nada que esconder.

 

Isto levanta outra questão: faz algum tipo de autocensura quando escreve ou fala? Ou permite-se dizer tudo?

Não tenho temáticas tabu. Falo abertamente da figura de Fidel Castro, que em Cuba é um assunto tabu, falei do bloqueio norte-americano, que é outro tabu. A única limitação é não utilizar a violência verbal. Acredito que isso é algo que agrada às pessoas que lêem o blogue: não ser um panfleto político, ácido, agressivo. É antes uma reflexão um tanto desiludida, um tanto céptica, de uma cidadã que nasceu em Cuba em 1975, que compreendeu que o sonho que lhe prometeram em criança nunca se cumpriu. Eu não tenho armas debaixo da cama, não tenho um partido político, não estou a organizar um grupo de rebeldes para ir lutar para a Sierra Maestra. Eu escrevo as minhas opiniões, subjectivas, como o meu rosto e o meu nome. Se o governo cubano me quisesse tocar por causa disto, seria um escândalo. Se me seguem, se me escutam os telefonemas, se vêem os meus e-mails, sabem que sou exactamente o que afirmo ser. Isso tranquiliza-me.

 

Tem medo?

Claro que tenho, sobretudo pela minha família. Não tenho tanto medo da prisão. É a última coisa que podem fazer. Tenho medo da destruição agressiva que podem fazer da minha pessoa. Podem destruir-me com campanhas de difamação, fazendo crer aos outros que sou aquilo que não sou. Mas no final, as pessoas conseguirão retirar a essência das coisas.

 

Espera uma saída diferente? Com Obama ou com a abertura que Raul promete.

Sou muito optimista a longo prazo e pessimista a curto prazo. A economia cubana está na bancarrota, há um empobrecimento dos valores éticos e morais, a maioria dos jovens tem os seus olhos postos na emigração. Em relação a Obama, tenho expectativas, mas entristece-me que os cubanos tenham que esperar uma mudança vinda do exterior para gerar uma mudança no interior. Preferiria que fossemos nós a iniciar a mudança.

 

O que significa Pátria para si?

Pátria é uma conquista do século passado. Sinto-me mais do mundo. Pátria é o que me dá a cultura, a língua, a família, mas não pode ser uma âncora. Tem que ser como um par de asas, para que possa sair para o mundo, e projectar essa cultura. Acho que em Cuba se confundiram conceitos muito diferentes: confundiu-se a nação com uma ideologia, e a Pátria com um homem, e isso tem que terminar.

 

Futuro é uma palavra central, desde sempre, na sua vida. E agora, o que é o futuro?

Se chegar agora, melhor. Há uma frase que foi muito usada por Fidel Castro: “Um mundo melhor é possível”. Eu gosto mais de: “Um mundo possível é melhor”. Um futuro possível, um futuro que chegue agora, um futuro que eu possa tocar com as minhas mãos. Que não seja uma quimera do amanhã.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Janeiro de 2009

e na revista das Selecções do Reader's Digest em vários países ao longo de 2009 

 

Dia do Pai

18.03.16

Houve um tempo em que estes homens e mulheres foram, sobretudo, os filhos dos seus pais. Aprenderam com eles, cresceram com eles, quiserem ser como eles. Amaram-nos, rebelaram-se. Procuraram neles a confirmação de quem eram. Vincaram as diferenças entre um e outro. Permaneceram ligados até ao fim, ou distanciaram-me. Ou foram afastados pela vida e pela morte.

Falar do Pai é falar de uma parte de nós. De como nos fizemos, de quem somos. Em entrevista ao Jornal de Negócios, na série que conduzo, são incontáveis as referências à figura do Pai. São quase sempre, pela presença ou pela ausência, essenciais para perceber quem são aqueles que tenho à frente e que tento revelar aos leitores.

Reler as entrevistas e recuperar partes delas é uma confirmação disso mesmo.

Optei por compor um mosaico a partir de excertos de diferentes entrevistados, recuperar histórias, evocações, uma teia de relações. A descontextualização é forçosa, mas tentei que o espírito da conversa se mantivesse. A selecção é abrangente, mas deixa, mesmo assim, muitos nomes de fora. Pela simples razão de a figura da Mãe ser mais forte em alguns casos, ou porque a referência era aos Pais e não apenas a um dos progenitores.

E agora, vamos conhecer um pouco os pais destes filhos…

 

André Gonçalves Pereira

O meu pai nasceu em Goa, porque o meu avô, que era juiz e passou a advogado, se casou com uma senhora goesa. Mas veio muito cedo para Portugal – não havia Direito em Goa.

Como era professor universitário, ligava grande importância às classificações.

O meu pai teria gostado mais de ser professor da Faculdade de Direito do que de Económicas, como foi. Nessa altura, ser professor da Faculdade de Direito era mais importante do que é hoje. O motivo que me levou a estudar foi o desejo de agradar ao meu pai e a vaidade de querer aparecer como um bom aluno.

Acontecia uma coisa curiosa que só vim a compreender muitos anos depois: quando andávamos pelo país e pelo estrangeiro, estava sempre a encontrar antigos alunos, que o iam cumprimentar. Era muito sensível a isso.

 

André Jordan

O meu pai era brilhante, e muito aventureiro. Não gostava de falar no passado. Vivia sempre o presente e o futuro. Tinha muita iniciativa, mas era pouco persistente. Os negócios dele eram muito complicados. Envolviam grandes capitais e pessoas muito proeminentes. De modo que havia sempre situações de tensão que eu, desde muito novo, fui recrutado para amainar. Era um grande sedutor, e tinha muitas viúvas...

 

António de Almeida

Eu era presidente da União de Bancos, saía de Lisboa ou do Porto e ia à casa de saúde de Viseu [onde o meu pai estava internado]. Fazer-lhe a barba era um modo de pedir perdão. Por exemplo, um dos sonhos do meu pai era ir a Paris. Gostava de ver o túmulo de Napoleão, a Torre Eiffel. A União de Bancos Portugueses tinha um banco em Paris, fui a Paris centenas de vezes… O meu pai morreu sem eu ter tido a generosidade de sacrificar um fim de semana para lhe dar esse prazer. Aquele gesto de pegar no pincel, pôr-lhe o sabão na cara e fazer-lhe a barba, nas últimas semanas de vida, pretende redimir-me de uma falta de companhia.

O meu pai, do ponto de vista material, não me deixou nada. Tenho uma fotografia dele quando tocava música na banda do Clube Ferroviário de Moçambique com as medalhas que ganhou. Mas recebi dele a coragem de um homem que, sendo caiador em Celorico, em 1937, quando eu nasci, disse: “O nosso filho vai ficar igual a nós, tenho que sair”. E meteu-se num barco e foi para Angola e depois Moçambique.

 

Artur Santos Silva

O meu Pai era o meu herói.

Era um advogado de sucesso, mas o princípio da vida foi difícil. Vivia com algumas limitações, (como toda a gente). Comprou o primeiro automóvel e tirou carta só aos 45 anos.

A sua vida profissional foi muito afectada por ter sido preso várias vezes. Não houve nenhum importante acontecimento político a que não tenha estado ligado.

Nunca me passou pela cabeça estar ligado a um banco, quando entrei em Direito. Fui fazer o curso de Direito e pensava vir a trabalhar com o meu pai.

 

Bagão Félix

O pai é uma figura de autoridade que nos fascina sempre. A relação de autoridade, quando mais não seja pela omissão ou silêncio, é muito paternal, mais do que maternal. Mas estou a referir-me à infância nos anos 50, no século passado…

 

Campos e Cunha

A minha vida foi toda marcada pelo facto de o meu pai ter sido militar. Não era um militar típico, deu-me sempre uma grande liberdade. A única coisa que me impôs foi não ir para o Colégio Militar – para onde foram vários amigos meus, porque receava que eu, mais tarde, fosse para a Academia Militar.

Sempre me transmitiu valores de austeridade.

Esteve no coração da revolução, antes e depois. Era o elo de ligação, basicamente, entre os homens do 25 de Abril e Costa Gomes – de quem foi chefe de gabinete. Ele confiava muito em mim, sempre me tratou como um adulto. Fui talvez a pessoa mais nova em Portugal que soube que o 25 de Abril ia acontecer. Porque ele disse-me. Não disse que seria no dia 25 de Abril porque isso nem ele sabia. Mas estava para embarcar para Angola no dia 5 de Maio e confidenciou-me: “Já não vou embarcar para Angola, porque dentro de dias vai haver uma revolução”.

Muitas vezes queria saber a minha opinião. Por exemplo: quase todos os discursos do Costa Gomes foram escritos pelo meu pai. Eu era a pessoa que os lia. “Olha, está aqui o discurso, vê lá o que achas”. Umas vezes terá aceitado as minhas sugestões, outras não.

Julgo que tinha confiança em mim. Sabia que eu não falava sobre as coisas.

Foi uma coisa que o meu pai me transmitiu: que tenho obrigação de dizer aquilo que penso, e dizê-lo publicamente.

 

Carlos Moreira da Silva

Eu era um aluno medíocre. Nas férias da Páscoa, chumbei por faltas. Por jogar ao bilhar e futebol - coisas bem mais interessantes [do que estudar]... E tive sete negativas em nove disciplinas. O meu pai pôs-me a trabalhar numa fábrica de um tio meu, de curtumes. Trabalhei desde a Páscoa até ao dia 30 de Setembro. Não houve terceiro período nem férias. Tinha 12 anos. Ao sábado, trabalhava-se até ao meio-dia, nas fábricas, e eu pegava no dinheiro que recebia, 13 escudos, chegava a casa e dava-o ao meu pai. Ele devolveu-mo, um tempo mais tarde. Quando achei que tinha acabado o castigo é que foi violento: fui para um colégio interno, em Oliveira de Azeméis.

Tive uma educação muito rígida, que não funcionou mal.

 

Diogo Vaz Guedes

Os meus pais separaram-se cedo, em 1968 ou 69, e eu não via muito o meu pai. Sempre tivemos uma relação especial, uma relação de amigos. Eu era muito responsável e precoce, e por vezes tive o papel de pai e ele o papel de filho.

Outro dos adultos marcantes, foi o meu padrasto, que trato por pai. Posso dizer que tenho dois pais.

Mesmo que a gente não se veja muito, ele está, ele está. Mas faz falta aos meus filhos terem um avô mais presente. Ele não foi um pai muito presente e sei que isso me fez falta. O que faz falta aos meus filhos, faz falta a mim, o que é um presente bom para os meus filhos, é um presente bom para mim.

 

Elisa Ferreira

O meu pai tinha um grande orgulho em mim, quase uma vaidade, que procurava esconder. O orgulho expressava-se do seguinte modo: depositava em mim uma enorme confiança e sabia do que eu era capaz. Por exemplo, mandava-me às finanças pagar impostos e tratar assuntos burocráticos. Eu ficava toda vaidosa quando a seguir dava conta do recado!

Essa confiança absoluta era para mim uma grande fonte de auto-estima.

 

Horácio Roque

O meu pai era um homem de prestígio na região. Basta dizer que depois da escola, ia almoçar a casa do padre. Produzia-se cereal, vinho, azeite, havia os animais que trabalhavam a terra, cabras, ovelhas, muitas galinhas, muitos coelhos. Todos os anos se vendia uma parte da produção. E vendia-se resina.

Nos últimos sete anos em que o meu pai explorou a casa, cobri-lhe o défice. Ele devia algum dinheiro, 60 ou 70 contos. Sugeri-lhe que se vendesse uma parte da terra e se pagasse aquele valor. E o meu pai começou a chorar. As lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo. Dizia: «Vocês são todos iguais»… A vontade de manter aquilo que construiu ao longo da vida era tão grande que era incapaz de se desfazer do que quer que fosse. Achava, ainda, que aquilo seria o futuro dos filhos! Embora nenhum deles estivesse lá. Apercebi-me de que seria uma humilhação tremenda vender uma parte da terra.

Foi a única vez que o vi chorar.

Paguei todas as dívidas. O meu pai tinha imenso orgulho em mim e contava a toda a gente do meu gesto.

 

João Rendeiro

O meu pai é já um velhinho, tem 90 anos e fala sobretudo de quando me levava ao circo a comer cachorros.

Já não temos grandes conversas.

 

Joao Talone

O meu pai marca. Temos o mesmo nome, começa logo por aí…Marca os sítios onde está, as pessoas com quem trabalhou, as pessoas com quem vive. Obviamente marcou os filhos todos.

Sou muito amigo do engenheiro Jardim Gonçalves. Você diz que era como se fosse meu pai... Era uma espécie de irmão mais velho.

Conheci-o por causa do meu pai. O engenheiro Jardim costumava convidar os administradores vivos do Banco Português do Atlântico para um almoço; era o seu conselho consultivo. O meu pai fazia parte desse grupo.

O meu pai, quando aprendíamos a ler, convidava-nos a ir lanchar a uma casa de chá. Íamos engravatados.

 

Joe Berardo

Nessa altura havia senhas para açúcar, senhas para tudo. Era duro. Eu era um privilegiado porque o meu pai trabalhava no Madeira Wine, tinha uma relação boa com os ingleses. O meu pai ia levar a bordo os vinhos que os ingleses escolhiam; e trazia sempre para nós coisas boas, queijo. E isso era muito bem vindo.

Há uns que nascem com os genes da mãe, outros com os genes do pai. Eu nasci com os genes da minha mãe. Era uma mulher culta. Sabia ler e escrever – o meu pai, não. Era ela que lia para o meu pai. O meu pai era bom a fazer contas em letra romana! Nunca percebi como é que uma pessoa aprende a letra romana e não aprende a ler...

 

Jorge Armindo

Por razões que têm a ver com a grande prudência que caracterizou o meu pai, fui para Escola Técnica. O meu pai quis que eu tirasse um curso que me permitisse trabalhar, (no caso de não poder tirar um curso superior). Uma enxada, como ele próprio dizia.

Sempre percebi que o meu pai gostava muito de mim. Por exemplo, se estivesse com febre, se tivesse a mínima coisa, a minha mãe já não dormia com o meu pai: era eu que dormia com o meu pai. Era aí que o meu pai era o homem que realmente é: humano.

 

José Penedos

O meu pai, que foi um velho combatente da Guerra Civil espanhola, usava todo o tempo livre que tinha para me falar disso. Obviamente marcou-me para a vida: sou um leitor compulsivo, sobretudo de temas ligados à Guerra Civil de Espanha.

Senti o peso da vida do meu pai, que merecia ter tido mais. Era inteligente, na minha avaliação era culto, muito lido, muito corajoso. Eu tinha de procurar fazer mais e, de alguma maneira, vingar um destino negativo que o empurrou para uma vida que não estimava enormemente.

Perdi o meu pai há 20 anos. Foi uma perda muito traumática, eu tinha 40 anos.

 

Maria Cândida Rocha e Silva

O pai era muito importante. Mesmo quando estava em casa, já velhinho, tinha as minhas dúvidas e falava com ele. E o facto de ser obrigada a expor a situação, o meu problema, só isso já era uma ajuda. Dizia, quando era miúda, que tinha uma paizite aguda.

A mãe teve a preocupação de se pôr na sombra do meu pai. Queria que tivéssemos no meu pai a figura principal.

Vivia em África e [o meu marido e eu] viemos passar férias; o meu pai disse-me: “Deves ficar, porque África vai ter um fim mau”. Vivia em África, achava que o meu pai não tinha razão. Mas era como se fosse Deus a falar. Não entendemos as atitudes de Deus, mas é Deus. Fiquei.

 

Maria José Nogueira Pinto

Eu não assinava nada. Tinha 19 anos, era estudante. Era “a Zé”. Depois, a minha mãe também se chama Maria José... Encontrei ali a minha identidade: esta que tenho até agora. O meu pai ficou zangadito com aquilo... Usar este nome [Nogueira Pinto] também significa que me passei para aquele lado...

 

Marques Mendes

… E talvez tenha sido influenciado pelo meu pai, que já fazia política antes do 25 de Abril.

Até aos 18 anos, fui muito mais ligado ao meu pai [do que à minha mãe]. E mais parecido com o meu pai. O meu pai é introvertido, culto, um homem de carácter, excelente profissional, muito sereno e tranquilo; é muito difícil encontrá-lo a dar um murro na mesa. Exerce uma autoridade natural. Eu ia com o meu pai ao café com dez, 11, 12 anos. Quando comecei a minha vida política, já conhecia o país de lés-a-lés, graças ao futebol e ao meu pai - foi dirigente desportivo muitos anos, lá no clube da terra.

 

Murteira Nabo

A minha mãe era de uma família relativamente rica, proprietários de terras e ganadeiros, e o meu pai era um trabalhador rural. O meu pai era um homem bonito, tinha mota, usava bigode, mas um trabalhador rural.

Quando acabei o curso da Escola Comercial quis continuar, em Lisboa e no Porto, e o meu pai disse: “Fazes mal, era melhor ficares aqui, alguém tem que continuar esta coisa...”. Levava-me todas as manhãs quando ia comprar coisas, gado, cereais...

Aconteceram coisas extraordinárias na minha vida no ano de 68.

É o ano em que o Salazar cai da cadeira. É o ano em que entro na Marconi. É o ano em que caso. É o ano em que o meu pai morre. E é o ano da revolução em França.

 

Pedro Norton

A questão de seguir um percurso completamente diferente nunca se chegou verdadeiramente a colocar. Porque se calhar nunca a coloquei. Fazendo uma análise a posteriori, na prática, acabei por seguir o óbvio, que era o exemplo do meu pai. O meu pai toda a vida foi gestor.

Do meu pai, herdei sobretudo a coisa mais importante: um quadro de valores. E dentro desse quadro, alguma exigência comigo próprio, que depois tem tradução na vida profissional. Sou um gestor muito diferente daquilo que o meu pai foi; nesse sentido não acho que exista uma reprodução do que quer que seja

 

Pires de Lima

Lembro-me de ter dito ao meu pai, primeiro, e depois ao meu avô, que não iria para Direito – não tendo eu a mínima ideia do que é que iria ser. O meu pai, muito ao estilo dele, escondeu a decepção e disse: “Óptimo. O importante é que sejas bom naquilo que decidires vir a ser, e acima de tudo, que sejas útil”.

O meu pai, do ponto de vista do carácter, do desapego ao poder e material, é uma referência moral muito forte para mim.

 

Rodrigo Costa

O meu pai, enquanto estudava, foi aprendiz de um tio nosso na fábrica de cerâmica. Aprendeu a arte da pintura à moda antiga – trabalhando com o mestre. Mais tarde decidiu ir para o seminário, depois decidiu sair, depois foi para a tropa. O seu percurso fez-se na área das viagens. Reformou-se aos 60 e tal anos e voltou a pintar. Uma coisa que me marcou muito foi a sua obsessão pela honestidade. Honestidade é a palavra certa; porque não se trata, apenas, de não roubar ou de falta de transparência. É uma obsessão em ser sério, e que toda a gente entenda que somos sérios.

O orgulho que eu tenho nele é o orgulho que ele terá em mim. Somos pessoas simples e não há essa preocupação de saber o que é que o outro sente nessas matérias.

 

Rui Machete

O meu pai marcou-me de uma maneira muito particular. Desapareceu cedo e tinha uma personalidade que adivinhei mais do que conheci, e que é particularmente rica.

Era médico em Setúbal. Morreu com um ataque cardíaco.

A ideia de tirar um curso rapidamente e bem foi importante como resposta ao apoio que tive de um conjunto de amigos do meu pai. Deram-me uma bolsa que nos permitiu, a mim e à minha mãe, viver sem problemas.

 

Rui Moreira

Tínhamos interesses parecidos, conversas longas, silêncios longos. Quando queria falar em privado comigo, falava em alemão – quando havia gente à volta, se íamos ao restaurante... Engraçado: tratava-o por tu em alemão e por você em português. Não sei explicar porquê.

Eu tinha um enorme receio de desapontar o meu pai. A minha vida ficou muito marcada por isso em diversos aspectos.

Era aquele género de pai terrível porque não ralhava nem batia: mostrava o seu desapontamento. Olhava para mim com uma cara triste: “O menino está a desapontar-me”.

Sabia partilhar os seus afectos – invulgaríssimo na geração dele e num homem. Houve uma altura em que percebi que ele estava muito doente. O meu receio era que o meu pai morresse sem eu lhe poder dizer o que é que sentia.

O meu pai era também irreverente, a família era irreverente. Era um modo irreverente de ser. Os meus pais achavam normal que, se nos dessem uma ordem, questionássemos a razão de ser da ordem. “Hoje os meninos vão para a cama mais cedo”. Eu achava-me no direito de perguntar: “Porquê?”.

 

Simonetta Luz Afonso

O meu pai era um jovem artista que foi viajar pela Europa antes da Segunda Guerra Mundial para contactar com a arte europeia. Esteve alguns meses em Florença onde conheceu a minha mãe. Morreu há dez anos, a minha mãe há 20, e eu nunca tive coragem de ler as cartas. Só há pouco tempo, talvez há uns seis meses, achei que devia lê-las. E... são quase história! Não se tratou, apenas, de ler as cartas daquelas duas pessoas, que conheci muito bem e por quem tinha muito afecto; era também a história de uma época.

Ah, mas tive um pai que adorei. Íamos apanhar borboletas com um camaroeiro nos meses que passávamos na praia. Uma vez apanhámos uma febre da carraça os dois... Ensinou-me a nadar. Andávamos a pé. Apanhávamos mexilhões nas rochas das Azenhas do Mar. Andávamos de burro. Íamos às feiras. Era um lado muito físico, sim, só mais tarde foi intelectual. Fazia-me o baloiço. Fazia-me imensos retratos, em várias épocas da minha vida.

 

Teodora Cardoso

O meu pai trabalhava no comércio. Não tinham dinheiro para me deixar. Eu sabia que tinha de singrar pelos meus meios.

Os meus pais morreram cedo. Eram muito mais velhos do que o normal. Quando eu nasci o meu pai tinha 57 anos, já, e a minha mãe 42. Casaram pouco antes, para o meu pai era um segundo casamento.

Levei muito tempo a antipatizar com o meu nome. Tem a vantagem de a pessoa ficar imediatamente conhecida. Foi um professor de alemão que me explicou o que o meu nome quer dizer: “presente dos deuses”. É um nome simpático para os pais darem aos filhos! Não sei se os pais pensaram nisso, mas talvez tenham.

 

Vasco Vieira de Almeida

Ainda hoje penso no meu pai quase todos os dias (morreu em 62).

Foi uma relação profundamente afectiva. Meu pai era monárquico e liberal. Eu era um marxista ortodoxo. Hoje sou marxista, mas não sou ortodoxo. Ele tinha uma capacidade de previsão, de conhecimento das pessoas, de evolução histórica. Tínhamos grandes discussões que ele incentivava. Não era uma relação de obediência nem de subalternidade. Olhando para trás acho hoje que eu tinha uma posição enfatuada, arrogante e estúpida. Falávamos em pé de igualdade, porque era assim que ele queria que fosse.

Meu pai era intelectualmente invulgar. Foi o homem mais culto e inteligente que conheci. Mas era ao mesmo tempo uma pessoa simples e de enorme bondade. Eu costumava dizer que ele tinha nascido sem pecado original.

Nunca fui para a escola primária. Meu pai achava que o ensino primário em Portugal era mau e fez um livrinho de francês com 20 e tal páginas, um de matemática com umas 30, um de gramática portuguesa igualmente pequeno, e eu e o meu irmão, durante quatro anos, aprendemos em casa com ele. A aprendizagem era permanente, porque independentemente disto ao jantar podia acontecer explicar-nos quem era o Goethe ou o Balzac

O Ortega y Gasset foi apresentado ao meu pai e perguntou: “Es usted un profesor decano?”, o meu pai respondeu: “Não, não sou de cano, sou de ar livre!”.

A influência do meu pai nunca constituiu um peso na minha vida, nunca me limitou. Pelo contrário, foi sempre libertadora. O seu exemplo, tudo o que me ensinou, a forma de reagir perante as situações, foi o que me permitiu sempre ter asas próprias. Nunca me pus sequer o problema de dizer: “O que é que posso ser, com este pai?”. Meu pai foi o meu pai, a minha vida é a minha vida. Sou aquilo que quero ser, excepto que nunca poderei chegar ao que ele foi, ponto final. 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios

 

Nicolau Breyner

14.03.16

Nicolau Breyner, quase 70 anos. Há 50 anos que o palco é uma espécie de casa. Um espectáculo no auditório do Casino de Lisboa, de 20 a 25 de Abril, põe-no a olhar para si próprio.

Em casa, a propósito do espectáculo, falou-se de porque é que foi bilingue em italiano, da atracção por personagens decadentes, do que acontece na vida de um homem quando tem cancro na próstata, do lugar da ópera na definição de um futuro. E de como tudo isso fez dele quem ele é e aparece no personagem que o público vê.

Eu show Nico, em versão uncut. 

A entrevista aconteceu em casa. Nicolau Breyner é um anarca sentimental que tem “muito o sentido da família”. Home, sweet home, é “o sítio onde me sinto melhor”. Foi um homem de muitas mulheres que foi pai quando já não pensava que isso pudesse acontecer. Foi um bom vivant que deixou de beber aos 50 anos e passou a acordar de madrugada. Foi um homem de negócios que fundou uma máquina de fazer telenovelas e que conheceu a ruína aos quase 60 anos. Foi a segunda ruína da sua vida. A primeira é a de uma vida que não parece a dele. Uma vida de grandes senhores da terra, no Alentejo.

Na entrevista ouve-se o bater das cortinas de renda nas janelas, sente-se o cheiro do Verão, vê-se uma velha criada de bengala. Coisas que fazem parte da memória de Nicolau Breyner. Do Nico, como é chamado, excepto pela mulher para quem, carinhosamente, é o Niquinho. É um Mello Breyner que nunca pensou ser actor. É um artista que não gosta de se ver por ser muito auto-crítico e não ser dado ao “onanismo”. (A expressão é dele).

A casa é realmente a casa. A mulher põe a mesa, a filha chega e vai dizer bom dia, é preciso ir comprar champô e entregar um envelope a não sei onde. Tarefas domésticas, de todos os dias. De certo modo, na vida de Nicolau Breyner uma entrevista é também uma coisa de todos os dias. Há muitos anos que está habituado ao sucesso, à exposição pública. Isso diminui a timidez dele? Sim, timidez. E no meio dessa agitação quotidiana, havia a entrevista, no sofá da sala, com os olhares dos antepassados a espreitar dos quadros da parede. Uma entrevista que seria a primeira de cinco, nesse dia.

O pretexto é o espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira. One man show, ele estará sozinho em palco, a olhar para si próprio. Com aguda ironia.

Na entrevista, olhou-se sem contemplações.

 

 

Este ano faz 70 anos. Chegou à fase em que diz tudo o que lhe apetece. É uma conquista?

Quase tudo. Não tenho o direito de dizer coisas que firam outras pessoas. Se for preciso mentir, desde que isso não cause mal a outros, claro que minto. A velhice não é boa, temos de nos habituar a viver com ela. Mas temos alguns direitos adquiridos, e um deles é esse, dizer o que pensamos.

 

Já não há nada a perder?

Mais do que isso, há um prazer em dizer aquilo que se sente. Tenho de me fazer ouvir.

 

Quando é sentiu que estava a envelhecer?

Isso é que é grave: não sinto que estou a envelhecer. É gravíssimo. Estes meus 50 anos de carreira fizeram-me reflectir sobre a idade e sobre o envelhecimento. Claro que fisicamente ficamos diferentes. Profissionalmente não noto diferença. Há tempos que não escrevia coisas de humor e agora estou a escrever. Estou a trabalhar em três ou quatro coisas ao mesmo tempo. Faço-o tranquilamente, sem esmorecimento. Produzo muito mais, muito melhor. Ainda vou ao ginásio (sempre trabalhei com pesos muito pesados e continuo a fazê-lo). Depois há as outras coisas: já tenho de tomar remédios, o que há cinco anos não fazia sentido.

 

Que impacto é que o cancro teve em si? Acelerou a sua noção de envelhecimento?

O que o cancro me deu foi a certeza de que isto ia acabar mais cedo ou mais tarde. Acelerou a sensação de que a vida tem um fim. Já não há a noção de imortalidade que temos aos 30, 40 anos. O fim está mais próximo do que estava há 10 anos. No primeiro momento é terrível, é uma espécie de pontapé na cabeça.

 

Como é que foi?

Um amigo viu umas análises minhas e disse-me que tinha um problema muito grave. Percebi logo o que era. Nunca tinha feito uma análise na vida. Tirando o cancro, sou o gajo mais saudável do mundo. Aliás, cancro, já não tenho. Tenho um coração, uns pulmões, uns ossos, tudo óptimo. As análises vieram e a Mafalda [a mulher] abriu-as; depois ficou no pânico de me dizer que as tinha aberto. Um dia, na praia, estávamos felicíssimos, chegou ao pé de mim a chorar e disse: “Não me vai perdoar, mas abri as análises”. E foi assim.

 

O facto de ser um cancro na próstata, que potencialmente afecta a virilidade, quando se tem a sua idade, um casamento de quatro anos e uma mulher muito mais nova, foi um fantasma?

É verdade. São fantasmas que temos de exorcizar. E lutar para que não seja assim, tomar todos os cuidados para que tudo volte à normalidade.

 

Tem essa imagem de quem não se vai abaixo.

Tenho a imagem e sou assim, não me vou abaixo. Duas coisas: sou católico, tenho fé. Não sou neo-católico por necessidade, sempre fui. Depois tenho uma família óptima e uma mulher que me apoiou tremendamente. E tenho a sorte de ter imenso trabalho.

 

Terapia ocupacional.

Completamente. Não tenho a sensação de quebra, em nada. Fiz quimioterapia e nunca tive enjoos, vómitos. Tenho um organismo de antes da guerra [risos], é material muito mais forte.

 

Olhando para trás, para a sua vida toda, o que é que o deitou abaixo? E o que é que o fez tão resistente?

Nasce-se resistente. Outra coisa, que é uma couraça, é o meu sentido de humor. O humor com que vejo a vida e o quanto me divirto a viver. Divirto-me a ir tomar um café ao “Chefe”, aqui na Lapa, a ver uma porcaria qualquer na televisão, a ler um livro, a rir com os meus amigos, a fazer as cenas mais dramáticas numa novela. 

 

Que momentos dramáticos foram os da sua vida? Que fracturas são as suas?

Nunca pensei nisso. A morte dos meus pais, do meu avô, que adorava. Algumas traições perturbantes, de amigos. Crises económicas, uma em especial, quando deixei a NBP. A minha vinda de Serpa, com nove anos. Na altura não tinha consciência, mas mudou completamente a minha vida. Vinha do exterior, do campo, dos cavalos, com um grande conforto financeiro. Quando os meus pais perdem tudo, vimos para Lisboa.

 

Dê-me mais detalhadamente o quadro da sua infância. O que é que significou essa ruína?

Foi muito mitigada pela família. Nasci com uma mãe e um pai espantosos. Tive uma irmã mais nova, que morreu com um ano. Lembro-me vagamente, tinha dois anos e tal quando ela morreu.

 

Lembra-se de assistir à dor na casa?

Não. Lembro-me dos olhos dela; eram verdes, muito grandes. Chamava-se Madalena. Tinha os olhos do meu pai e o cabelo preto da minha mãe. Morreu com uma gastroenterite, que passado uns meses se teria curado com sulfamidas. Estávamos de férias, na praia. Claro que deve ter sido fracturante.

 

Sobretudo pelo impacto que provocou nos seus pais, e pela maneira como lidaram consigo a seguir.

A minha mãe, depois, centrou-se muito em mim. Foi assim até ao fim da vida. Tive de lutar muito com isso. No seu extremo amor por mim, atabafava-me um bocado. Já era homem, com 60 anos, e dizia-me para ter cuidado a atravessar a rua. Era o único filho e a sua única companhia. No último ano fui viver com ela, porque percebi que duraria pouco. Ainda bem que fui, foi muito bom poder acompanhá-la.

 

Ia com ela à “Mexicana”, na Praça de Londres, às cinco da tarde? Corresponde a uma geografia e a um determinado quadro social.

Exactamente. A minha mãe marcou-me muito.

 

Usa o nome de família dela.

Sou João Nicolau de Mello Breyner Moreira Lopes. No colégio todos me chamavam por Breyner e Nicolau, que era um nome que não existia. E depois, Nico. Ficou assim.

 

A infância, em Serpa. Eram os senhores da terra.

Uma casa muito grande, com dois andares. Um monte, dos Pereiros, que era do meu avô. As empregadas, que nessa altura se chamavam criadas. Uma criada muito velha, a Bia, que tinha ido para casa dos meus bisavós para brincar quando o meu avô nasceu (ia-se buscar uma filha de uma empregada para brincar com os meninos). Era uma personagem espantosa, a verdadeira dona da casa. Está num jazigo da nossa família, em Serpa. Ainda me criou a mim até aos oito anos. Um dia sentou-se no quintalão, onde havia um poço, e enchi-lhe a cabeça de água, para a pentear, no Inverno. Ficou constipada. A minha Bia adorava que lhe fizesse estas coisas.

 

Era excessivamente mimado?

A minha mãe e o meu pai educaram-me muito bem. Fiz uma vez uma birra à minha mãe, e subi as escadas a levar estalos até lá acima. Além disso, a minha vida em Lisboa, quando perdemos tudo, tornou-se difícil. Tinha todas as condições para ter sido mimado, mas não fui. No Verão íamos para a praia de Monte Gordo ou para a Caparica. Os dias passavam-se entre a escola, com a D. Branca, que ia lá a casa dar aulas…

 

Uma preceptora à antiga?

Sim. Mais tarde ia eu a casa dela. E depois, o professor Gaspar. Isto passava-se naquela moleza do Alentejo. Há uma imagem que me fica, descia a rua onde vivíamos, subia a Rua dos Fidalgos, e as tias, de várias janelas, falavam connosco. Ao longe via uma janela entreaberta, com aquelas cortinas pesadas de renda a esvoaçar. E o cheiro do Alentejo, das estevas, o cheiro a Verão... Detesto o Inverno. Muitas vezes digo da vida: “Quantos verões me faltam?”. Adorava morrer num daqueles dias chuvosos, feios, com vento, para não ter pena.

 

De repente, tudo se transforma.

Venho para Lisboa, uma cidade hostil, vivia num andar. Os carros e os eléctricos fascinavam-me. O meu pai era professor de Filosofia, formou-se em Itália, num colégio particular, caro, em Roma. Estudou como se fosse para padre. Nunca foi um beato; católico, sim. Daí que até aos 14 anos eu fosse bilingue. O meu pai falava comigo em italiano, por brincadeira. O meu pai veio para Portugal, e depois para o Serpa, com o meu tio Luís, irmão dele, também professor, onde queriam fazer um grande colégio de rapazes. É lá que conhece a minha mãe. Casam. O meu pai adopta o Alentejo, era a pessoa mais alentejana que conheci. Nasci lá e tive pouco contacto com a família do meu pai.

 

O que é que desencadeou a mudança súbita de vida?

O meu avô era um grande lavrador, e de repente, graças a uma coisa que não vale a pena contar, perdeu quase tudo o que tinha. Viemos todos juntos para Lisboa. Depois as pessoas foram desaparecendo. O primeiro foi o meu avô, só viveu cinco anos em Lisboa (digo sempre que desistiu de viver quando veio para cá). De seguida a minha bisavó materna. Depois o meu pai, a minha avó e a minha mãe, que já morreu com 80 e muitos anos.

 

Então percebeu cedo que se morria, e que se morria de tristeza.

Cedíssimo, sim. Eu e o meu avô fazíamos anos no mesmo dia, 30 de Julho. Era ligado à terra, aos cavalos. Também pintava muito bem e era um contador de histórias espantoso. Viajava imenso com o meu avô em histórias que ele me contava.

 

No Alentejo, nunca lhe ocorreu que podia estar do outro lado? Era o menino, e não era o filho da empregada que ia brincar com o menino.

Sempre me ocorreu. Vivo perturbado todos os dias, e sempre que abro um jornal, com a total injustiça social. Cada vez que me acontece alguma coisa boa materialmente – ganhar mais dinheiro – há sempre em mim um sentimento de vergonha. Penso nas pessoas que naquele momento não sabem se têm dinheiro para almoçar e para dar almoço aos filhos.

 

Quem é que o ensinou a olhar para os outros com esse cuidado?

Tem a ver com o Alentejo, com as pessoas menos protegidas. O meu avô várias vezes tirou as botas para as dar aos pobres, e aparecia descalço em casa. Tinha outras, como é lógico. Fui educado assim. Não sou rico, trabalho como uma besta para poder viver com o conforto que quero. Mas tenho uma maneira de me relacionar com as pessoas. Não renego as minhas origens. Se me dissessem para todos deixarmos de ter tanto, para mais pessoas terem, estava plenamente de acordo. Cada vez que vejo certos rendimentos fico alucinado. Por exemplo, sou incapaz de gastar muito dinheiro em roupa, e não é forretice. Odeio lojas, odeio consumismo, reclamo contra tudo. Ontem tive de ir comprar um fato por causa do espectáculo e achei um roubo!

 

Viveu a vida toda com o pânico de que voltasse a acontecer a ruína, que conheceu em criança?

Já me aconteceu, há uns anos. Do porquê, não vou falar. Tinha perto de 60 anos, tinha duas filhas, e as coisas ficaram muito feias para mim. Não foi pânico porque entro pouco em pânico, mas é uma sensação terrível. Não é o não ter que me assusta, é se as pessoas que dependem de mim não tiverem. Conheço os dois lados. Tenho uma grande sorte, conheço quase tudo.

 

O seu fascínio pelos losers, pelas personagens decadentes, tem a ver com esta história?

Conheci muitos.

 

Quem é que foi o loser da sua histórias?

Loser pode parecer uma coisa depreciativa. A decadência passou muito perto da minha família. O meu pai era o meu herói. Quando a família teve o grande débâcle [desastre] foi ele que tomou as rédeas. Fê-la viver e ser sustentável. E fez-me estudar. Foi sempre ele, até à morte. Morreu com um cancro no estômago, ainda não tinha 60 anos. Na família já estou a bater todos os homens, que morrem cedo.

 

Nunca lhe passou pela cabeça, nem no momento da sua ruína, matar-se?

Nunca. Não sei se sou demasiado cobarde ou demasiado valente para não me suicidar, mas não tenho o perfil do suicida. Tenho esta necessidade de viver várias vidas, mas isso não. Sou um louco muito saudável.

 

Toda essa vida parece a de outra pessoa. A vida artística é um exercício esquizofrénico?

É. É tudo isso, com uma grande história em Lisboa, com copos, com não sei quantos casamentos, tudo isso faz parte de mim. Não sou uma coisa, sou várias coisas. Nunca sou de nenhum lugar, sou de muitos lugares.

 

O que é que ainda tem desse que era há 50 anos?

O entusiasmo. A necessidade de inovar e começar coisas novas. O amor à vida. O sentido da beleza. A vontade de sonhar, que ainda não passou. Se é que tenho qualidades, essa é uma delas. Quando tomo conta de um projecto que me agrade, sou outra vez um miúdo de 20 anos.

 

O que é que perdeu, o que é que já não há desse que era há 50 anos?

Há menos capacidade para acreditar nas pessoas. Desconfio totalmente do ser humano. Há um maior comodismo, um desacreditar na política, há uma preocupação maior. Não quero saber se o PIB subiu ou desceu, quero saber se as pessoas têm condições para viver, se quando estão doentes vão ao hospital e são tratados, se quando têm uma querela com uma entidade os advogados as tratam [como tratam aqueles que têm mais dinheiro do que elas]. A perversidade devia ser esta: um departamento pago pelo Estado, só com grandes advogados, em causas contra o Estado! Sou um anarquista. O Francisco Lucas Pires disse-me que era um anarquista de direita. Por acaso sou mais um homem de centro. Neste momento sou um apátrida político. A lei é uma coisa que me irrita. Sempre que me dizem que sou obrigado a fazer alguma coisa, a minha vontade é fazer logo o contrário. Gobiernos, yo soy contra!”, à mexicana. O Estado são pessoas de má fé, de um modo geral, em todo o mundo. São empresas que tiram o mais que podem e dão o menos que podem. No fundo, resume-se a isto.

 

Nem parece que estou a falar com um ex-candidato à Câmara de Serpa.

Está. A política para mim só existe assim. Tenho vergonha enquanto ser humano, enquanto cidadão, de coisas que vejo. O meu desacreditar é tão grande que já não estou a falar só de Portugal. Isto passa-se em todo o mundo, de outras maneiras. É promíscuo, é porco. Somos cada vez mais números e cada vez menos seres humanos.

 

Espantou-o que as pessoas não tivessem votado em si o suficiente para o elegerem presidente da Câmara?

Falhei por 1200 votos, o que foi muito bom. Era apoiado por um partido que ainda hoje não tem implantação nenhuma no Alentejo, o CDS/PP, e tinha contra mim um adversário fortíssimo, de quem sou amigo, o João Rocha, que nessa altura já tinha muitos anos de câmara, apoiado pelo Partido Comunista. Esteve quase a ser, mas não foi. A minha visão não me permite ser ministro, secretário de Estado ou deputado. Ser presidente da Câmara é diferente, é a única maneira de agir directamente com as pessoas.

 

Era um regresso à sua terra.

Melhor ainda. Não quereria ser presidente da Câmara de uma terra que não fosse a minha. O que disse foi que podia fazer coisas por aquela terra. Não fiz e nunca mais tive ambições políticas. Há muitos anos foi-me oferecido um lugar que não aceitei, como não aceitaria agora. Fui sondado para secretário de Estado da Cultura.

 

Porque é que recusou?

Não me ponham atrás de uma secretária, dou em doido. Na câmara é diferente, vão-se ver as coisas, com os nossos olhos. Não tenho perfil, digo tudo o que penso, seria uma desgraça total. Meteria vários Governos em sarilhos de certeza.

 

Nem sequer se deixou convencer pela vaidade?

Não sou uma pessoa vaidosa. Sou orgulhoso. Faço as coisas com orgulho e gosto. Quando dizem que a nossa profissão é 30 por cento de talento e 70 por cento de trabalho, é ao contrário. Doa a quem doer. E provo. São 75 por cento de talento e 25 por cento de trabalho. Os 75 foram-me dados por Deus, não tenho por que ser orgulhoso. É-se orgulhoso do que fazemos, do que produzimos.

 

Como é que deu em artista?

Não dei. Não sabia, mas já era. A minha mãe e o meu avô pintavam muito bem, o meu tio Domingos cantava muito bem. O avô do meu pai, que era um filantropo da zona do Porto, fez um conservatório de música. Tudo isto, (esses genes perdidos de várias gerações), veio calhar em mim, deu naquilo que sou. A música tem uma razão: os meus pais eram melómanos e a minha mãe tinha o curso superior de piano. Com 20 e tal anos, ouvia osBeatles e os Rolling Stones, mas gostava mesmo era de música clássica. Um dia comecei a cantar e as pessoas disseram que tinha uma voz muito boa. A minha mãe incentivou-me, mas quando disse que queria ser profissional fez marcha atrás.

 

Porquê? Não era suficientemente digno?
Na altura era diferente.

 

Por causa do estigma da homossexualidade?

Não. Ser artista ou saltimbanco era parecido. Não era socialmente bem aceite. Ela e o meu pai fizeram uma resistência muito inteligente, e um dia perceberam que não era possível. Quando tinha 19 anos o meu pai chamou-me e conversámos. O meu pai, nessa altura, era inspector da Junta Nacional de Emigração e viajava imenso; conheceu a bordo de um barco, da Argentina para cá, o José Mujica, um grande cantor que depois foi para frade. Quando chegou cá, apresentou-mo. Ele ouviu-me cantar e disse-nos: “Acho que faz mal se não cantar, a sua voz é uma bênção de Deus”.

 

O que queria era ser cantor de ópera?

Sim. Nunca tinha pensado ser actor. O meu pai disse que a ópera era uma arte cénica e que tinha de ir para o Conservatório para aprender teatro e juntar as duas coisas. Comecei a perceber que não tinha coragem para manter aquela disciplina… A vida de um cantor de ópera é como a de um bailarino. O que se come, o que se bebe, o sol que não se apanha. Não era isso que queria aos 20 anos. Entretanto o Conservatório começou a tomar conta de mim, e cá estou.

 

Quando é que se lembra de ter cantado pela primeira vez, mesmo que em casa?

Tinha uns 12 anos.

 

Cantava por cima dos discos de vinil?

Sim.A professora da Juventude Musical entusiasmou-me a ir para Itália, onde fiz alguns workshops.Estive lá três meses, tinha 17 anos. E em Portugal não havia condições para se cantar ópera.

 

A estroinice era irresistível?

Era.

 

O que é que foi um deslumbramento para si? A descoberta do sexo, da noite?

O sexo, descobri-o muito cedo. Foi a noite, os copos, os amigos. Sempre tive vários grupos de amigos, muito ecléticos. Um grupo dos meus amigos de família, um grupo da malta do teatro e da noite, um grupo dos toiros e dos forcados, outro da malta do rugby.

 

O rugby é desporto de menino bem.

Nessa altura os forcados também eram. Mas tenho grandes amigos em todas as classes sociais, se é que isso existe.

 

Até aos 20 anos era fisicamente muito violento. Em todas essas coisas há uma ponta de marialvismo. Porque é que era assim?

Tinha 80 quilos e não era gordo, era maciço, fazia muito desporto. Penso que era “bem” ser-se violento.

 

Como assim?

A noite em Lisboa tinha aquelas cenas, sempre macacas: andava-se à pancada com as mãos e com os pés, agora é com pistolas e com facas. Faz parte de uma afirmação de virilidade, juventude. É como começar a fumar e deixar crescer o bigode.

 

E é também uma sensação de pertença a um grupo.

Claro! Porque é que existe o futebol? Nunca me senti rejeitado em nenhum grupo, bem pelo contrário.

 

Sempre foi o líder? Isso deve-se a quê, à não-timidez?

Aí é que está o seu engano: sou tímido. Ainda hoje, para atravessar um café, vou de cabeça baixa. O meu humor, a minha constante brincadeira, eram uma maneira de vencer a timidez. Nunca tentei perceber o que é a minha timidez. Se entrar num sítio onde não conheço ninguém, e sei que as pessoas me conhecem, ainda fico à espera que venham falar comigo.

 

É muito sedutor. É um desejo de conquistar aquela plateia, de seduzir aquele grupo?

A fama precede-nos. Quando se chega a um sítio as pessoas sabem quem sou e estão à espera que faça exactamente aquilo.

 

E passa a ser o boneco de si mesmo.

Não me sinto um boneco, não sou diferente. Faço porque me apetece ser assim, não é um esforço. É raro ter um dia completo de neura, mas nessa altura não falo e tenho mau feitio.

 

Voltando aos 20 anos. Começou logo a ter sucesso? Isso fez-lhe bem?

Fiz sucesso aos 20, mas também fiz uma tarimba longa. Aprendi com os melhores, lentamente. Não havia aquela coisa do viu, chegou e venceu. Chegaste, viste, e aguenta aí que depois vencerás. Estive anos a fazer papéis de quatro frases. Só comecei a ser muito conhecido em 1975, 76.

 

Com o “Senhor feliz, senhor contente”?

Sim. E comecei nos anos 60.

 

Que vida era a sua nesses anos de transição, de amadurecimento?

No Conservatório inventei um sistema engraçado. Dormia até ao meio-dia, ia para o Conservatório, depois ia à faculdade, deitava-me às seis da tarde e levantava-me à meia-noite. Fiz anos seguidos esta vida. No teatro fiz uma vida muito desregrada, deitava-me às cinco, seis da manhã. Começo a fazer televisão e cinema, e inverto a minha vida aos 40 e tal anos. Quando construí o estúdio [da NBP] tinha que estar lá muito cedo; nesse momento acordo às cinco e meia da manhã, todos os dias. É assim há muitos anos. Às 11 horas da noite estou a morrer de sono.

 

Nesses anos, bebia?

Muito, tudo. Fazia parte. E depois dava as cenas de pancada. Tudo estava ligado. Deixei de beber quando percebi que estava a ficar um bocadinho dependente da bebida – dependências, não. Comecei a cortar, e aos 50 anos cortei completamente. Bebo de vez em quando um copo de vinho.

 

Já era muito bem sucedido junto das mulheres?

Era. [risos] Mas até aos 16, 17 anos era tímido. Depois é que isso começa. Raramente dei o primeiro passo sem ter a certeza de que ia acontecer. Por orgulho – não queria ser rejeitado.

 

Se tivesse ficado no Alentejo, na sua condição social, o natural seria que a iniciação sexual fosse feita com uma empregada.

E foi. Tinha 13 ou 14 e já estava em Lisboa. Tudo bate certo na vida das pessoas. Não sabemos descodificar os sinais mas eles estão lá.

 

Não é surpreendente que trate a sua mulher por você. Bate certo com o que está para trás. É uma forma de relação, é uma música que se adquire e que depois se reproduz.

Claro que sim. [A mulher põe a mesa para o almoço na sala contígua] Trato-a muitas vezes por você, Mafalda. Gosta de me tratar a mim por você, e quer que eu a trate por tu. Mas isso tem uma razão de ser: conhecia-a quando ela tinha 12 anos.

 

Que idade tem a Mafalda?

Tem 42. Sou amigo do pai e da mãe dela. Ela habituou-se a tratar-me por Niquinho. Comprava-lhe gelados!

 

Há aí alguma incestuosidade...

Se calhar há. Fui aos dois casamentos dela, como convidado. O pai da Mafalda tem menos quatro anos do que eu e lembro-me perfeitamente de ele ter dito que tinha tido uma filha.

 

Porque é que tem sempre mulheres muito mais novas?

Não faço a mínima ideia. Nem sempre foi assim. [A minha primeira mulher] era um ano mais velha. As outras: algumas não eram muito mais novas, mas eram mais novas, sim.

 

Elixir da juventude?

Bem no fundo existe isso, também.

 

É uma resistência à velhice?

Às vezes tenho uma grande dificuldade de comunicação com pessoas da minha idade. Temos maneiras diferentes de pensar. 

 

Teve filhos com quase 50 anos. Não há prendimento maior do que os filhos. Foi por isso?

Nunca fiz nada para ter ou não ter filhos. Não foi planeado. Um dia apareceram e foram muito bem-vindas. Vivemos muito perto, elas entram e saem muito. A Mariana está a viver comigo, já fez 18 anos. A Constança está em casa da mãe, mas não estamos distantes nunca. Não há obrigatoriedades, os afectos são voluntários.

 

Não quis constituir família e ter a família tradicional, reproduzindo a sua família de origem?

Mas quis. Tive vários casamentos e consequentes divórcios. Sempre quis ter uma relação estável e boa. Não aconteceu por vários motivos, normalmente por minha causa. Sempre quis ter aquilo que tenho agora: uma família estruturada. Tenho muito o sentido da família, o sítio onde me sinto melhor é a minha casa.

 

Antes de 1965, antes do sucesso: estava a ganhar tarimba para ser o quê?

Para continuar a ser actor. Para chegar onde estavam aqueles que naquele momento trabalhavam comigo, a Laura Alves, o Raul [Solnado], o Ribeirinho. A Laura foi uma grande amiga e professora (os cursos ensinam pouco). Representar é uma coisa que me dá prazer. Viver outra vida dá-me prazer.

 

Como é que aparece o fundador da NBP, o realizador e actor principal da Vila Faia? Habituámo-nos a vê-lo como um líder. Foi uma determinação sua ou aconteceu?

As lideranças têm de ser reconhecidas pelos outros. Não é líder quem quer, mas quem os outros elegem como líder. Adoro começar projectos. Não quer dizer que um ano depois já não esteja farto. Na NBP éramos três sócios, em partes iguais, mas dois eram patrões e eu era o chefe. 

 

É mais chefe que patrão?

Não sei ser patrão. Ou sei, mas um patrão pouco rentável para a empresa.

 

É verdade que tem uma total incapacidade para lidar com dinheiro? Como é que nunca aprendeu isso?

Completamente. Vem tudo nos códigos genéticos: o meu avô perdeu uma fortuna da mesma maneira que perdi outra.

 

Percebeu a replicação desse quadro quando estava a passar por ele?

Quando estava iminente pensei nisso. A certa altura tornou-se inevitável. Quis lutar mas já não pude, já não tinha armas. E foi o que aconteceu com o meu avô. Mas ele nem tentou lutar, porque o desgosto da traição foi tremendo. Quando tudo aconteceu, durante muito tempo o que mais me magoava era ter sido atraiçoado por uma pessoa em quem confiava. Era quase mais importante do que o resto.

 

O que é que aprendeu?

Não aprendi, solidifiquei a minha convicção de que, infelizmente, muitas vezes, o ser humano não é fiável. E temos de usar a cabeça – a maior parte do tempo uso o coração. Até quando trabalho, sou mais coração do que cabeça. Sou um actor intuitivo. E quando dirijo não sou um realizador de estudo.

 

Que parte disso que viveu usa enquanto material de trabalho? Um actor é as suas emoções, a sua vida. É um cliché ou é verdade?

Eu sou. Um actor pode ser bom ou mau sendo cerebral ou emotivo. Quando estou a dirigir, se um actor me dá aquilo que quero, se me está a transmitir uma emoção, se me está a contar uma história, não quero saber como chegou a isso. Só conta que ele me emocione, me surpreenda. Quem me disse isto foi o Ribeirinho. Tinha péssimo feitio, mas tinha um relacionamento espantoso com ele. Ceávamos muitas vezes juntos. Tive o prazer e a honra de ser dirigido por ele na primeira peça que fiz no Conservatório. Mais tarde fiz uma peça dirigida e escrita por ele, fiz peças com ele, escrevi revista com ele e depois dirigi-o numa peça. Todos o tratavam por Mestre Ribeiro, eu tratava-o por Mestre Chico.

 

Neste espectáculo comemorativo dos seus 50 anos de carreira, vai evocar os seus personagens mais famosos? A sua vida? Vai fazer um exercício de auto-ironia?

Mais a minha vida e a auto-ironia. Não é uma história da minha vida, não é uma coisa lamecha e saudosista. Aparecem imagens para brincar com o que fiz. Depois é um olhar sobre a minha disfunção total com tudo o que é tecnologia, o choque geracional, o gozo com os papéis das novelas, a política.

 

É verdade que diz, sobre o que faz em televisão: “Para fazer é um preço, para ver é outro”?

Digo isso sempre! Digo isso na cara dos gajos que escreveram a novela. “Para ver, tinham que me pagar o dobro!”.

 

Porque é mau? Porque não gosta de se ver?

Não. Mesmo um belíssimo filme, tenho muita dificuldade em ver todo, encontro sempre defeitos. Vejo se houver uma questão técnica. Sou muito auto-crítico. Esse sentido onanístico não faz sentido para mim.

 

Quando olha para si enquanto João Godunha, o seu personagem na novela Vila Faia, não tem a noção de que está a olhar para uma pessoa diferente?

Tenho. Fiz muita coisa, e não me lembro de metade. Não fazia a mínima ideia de que tinha feito 50 filmes. Há dias telefonaram-me da RTP a dizer que o levantamento das minhas coisas era uma confusão, não tinham chegado a metade e já tinham 70 páginas! 

 

Foi fazer, fazer, fazer porque era preciso ganhar dinheiro?

Sim. Como faço hoje, porque é preciso ganhar dinheiro. Mas fiz sempre tudo com a maior alegria, boa disposição e empenho.

 

Mesmo quando não é bom? Consegue extrair alegria daí?

Sim, sim. Mesmo quando não são tão boas, tenho a obrigação de fazer o meu melhor para que as pessoas gostem. Não sou um artista que possa viver só da arte, tenho de viver do público. Não posso dar-me ao luxo de fazer uma coisa de que o público não goste.

 

Quando realizou, pegou num livro do Dinis Machado, melhor, do Dennis McShade.

Exactamente. Uma das personagens chama-se McShade, em homenagem a ele, ao meu querido Dinis. Vou fazer outro filme em Setembro e tenho mais dois para fazer. Gosto muito de realizar. Dei entrevistas ao Século Ilustrado e à Flama em que dizia que o que queria realmente era o cinema.

 

Tem um personagem preferido?

Não. É como perguntar a um pai de que filho é que gosta mais. De todos extraí qualquer coisa de bom, que me agradou e deixou saudades. Às vezes alguma coisa era má, mas a malta com quem trabalhei era óptima, ou o catering era muito bom. [riso]. Quando estou a dirigir escolho o catering. Não sou comilão, mas chateia-me comer mal.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2010

 

 

 

Clara Ferreira Alves

08.03.16

Clara Ferreira Alves, “como toda a gente sabe”, vende opiniões. As suas opiniões são lidas, comentadas, elogiadas, vilipendiadas. Tem seguidores e detractores como todas as figuras carismáticas. Formou-se em Direito, é colunista do Expresso e comentadora do programa da SIC Notícias Eixo do Mal. Foi directora da Casa Fernando Pessoa. O livro “Estado de Guerra” reúne textos escritos nos últimos dez anos. Portugal e os seus protagonistas, o mundo, as palavras, estão no centro do livro e da entrevista. (Pergunta que se antecipa: Cunhal traduziu Shakespeare na cadeia; e Relvas, que faria se estivesse preso?)

O que a irrita? A mediocridade empolgada, que refulge. O tipo expeditivo que se ocupa do vai e vem. Aquele que tem sempre presente que uma mão lava a outra.  O que a apaixona? O estoicismo do português que paga as contas e educa os filhos. O heroísmo em acção, numa fronteira da Síria. Ver a História a acontecer.

 

Cita Eça de Queiroz n’ “A Cidade e as Serras”. Jacinto regressa a Portugal. “Então é Portugal, hem?... Cheira bem.” E o outro: “Está claro que cheira bem, animal!”. Isto parece sintetizar a sua relação com o país. Não consegue destituir dela a acrimónia, a zanga...

Mas é também boa e amorosa. Tenho uma relação dupla com o país. Não é uma originalidade minha. Está no Alexandre O’Neill, no Eça, no Jorge de Sena. Há dias em que tenho um desespero bruto com a pátria. E acho que somos uma espécie de hamster. Dez milhões de hamsters numa gaiola. Sobretudo agora. Sendo a gaiola, não a Europa, mas a pobreza. Todos na rodinha.

 

Quem é que põe a rodinha a girar?

A nossa falta de independência económica e financeira gera a pobreza, a irrelevância. O que é especialmente difícil de aceitar num país que teve um império. Estamos numa zona pós-imperial e pós-colonial. Tivemos sonhos de grandeza. Temos vestígios desses sonhos de grandeza. Ainda não percebemos que somos desesperadamente pobres.

 

Em todo o caso, pobretes mas alegretes.

O alegrete já não é propriamente alegre. Há um estoicismo. Há pessoas que estão numa situação dificílima. Mas gostamos de fazer humor sobre a tragédia. (Horas depois do acidente de Camarate, já circulavam anedotas. E a morte de Sá Carneiro afectou o país, houve uma viuvez nacional.) Há qualquer coisa que cheira bem, animal. Gostamos muito de dizer mal uns dos outros, dos portugueses e de Portugal. Detestamos que alguém diga mal de nós. Os israelitas também são assim.

 

É um espírito de comunidade, de família?

Não sei bem. É um povo estranho. Tem reacções antagónicas aos acontecimentos que definem a sua vida. Grande adaptabilidade. É o Oliveira da Figueira a vender radiadores no deserto [personagem da banda desenhada Tintim, português, comerciante]. Conseguimos sobreviver a tudo. Arranjámos uma narrativa nacional: “Isto é terrível, mas”. Pomos a adversativa.

 

Somos safos pelos “mas”.

A palavra é “safar”. Vamos safar-nos. Nada acaba. Nada é definitivo. Quando os Templários acabaram na Europa toda, aqui não acabaram.

 

É um traço do nosso sentimentalismo, a dificuldade em pôr o ponto final?

É uma dificuldade em dar o nó. Em ser pragmático no que respeita a decisões radicais. A nossa relação imperial, sobretudo com o Oriente, visível em Macau, [revela isso]. (Os ingleses colidiram frontalmente com os chineses. Os ingleses, aliás, não tiveram nenhuma empatia com os povos que colonizaram. Não houve miscigenação. Ninguém fez o que nós fizemos. Adaptarmo-nos aos sítios, fazer filhos mestiços.) Macau foi o último território a ser entregue à China – por alguma razão. E amavelmente. Houve um único governador em Macau que enfrentou os chineses, [João Maria] Ferreira do Amaral. Foi decapitado. Nós não gostamos nada de ser decapitados. E achamos que é uma perda de tempo. O melhor é ir negociando. Somos óptimos negociadores. E comerciantes. A história do império é levar e trazer. Construímos igrejas, e levámos e trouxemos, não arranjando muitos sarilhos.

 

É um modo de ser particular.

Talvez explicável pela geografia. Estamos aqui neste rectângulo. Que é um cais. O Atlântico de um lado e o inimigo espanhol do outro. O impulso da caravela, e, mais tarde, da emigração (que agora se está a repetir), é um impulso de fuga mas também de sobrevivência. O grande problema português é que precisamos de uma elite. De uma geração de Aviz, e de uma mistura com sangue inglês, que deu muito bom resultado.

 

O elite representa o quê?

A visão. O D. João II.

 

O nosso desespero, de momento, acontece também por não termos farol?

Porque não há elite. Percebi isso quando Cavaco ganhou as eleições. As primeiras [legislativas, 1985]. Nunca acreditei no cavaquismo. Pensei: “Estamos perdidos”.

 

Antes de falarmos de Cavaco, continuemos a falar das elites. Uma das crónicas mais polémicas é aquela em que diz: “Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente.”

Sobre o actual Governo.     

 

Nessa crónica, “É a cultura, estúpido”, põe na mesma frase Relvas, “posando nas fotografias ao lado da bandeira”, e Cunhal, que traduziu Shakespeare aos 80 anos, quase cego.

Que não traduziu aos 80. Os blogues de direita caíram-me em cima e chamaram-me ignorante. Aproveito para esclarecer: Cunhal começou a traduzir o “Rei Lear” na prisão, onde não tinha nenhuma hipótese de traduzir o Lear decentemente. Quando tinha 80 anos, meio cego – disse-me isto numa entrevista – tomou a decisão de fazer a tradução completa do livro. Aquilo que na juventude era uma atracção, e na prisão uma forma de se manter vivo, aos 80 anos tornou-se um projecto consequente. É extraordinário.

 

O que é que Relvas traduziria na prisão? Ou: o que é que Relvas faria na prisão? Exercício especulativo.

Consigo ter uma ideia... O que é que ele venderia entre prisioneiros. Ia para uma cela e dizia: “Pá, queres que te escreva umas cartas para a família? Uns parentes emigrados na Venezuela. Eu falo espanhol, pá. Se tu me deres um maço de cigarros eu escrevo quatro quartas em espanhol.” Ia traficando. O Relvas é um tipo que já existia no tempo das caravelas. Um expeditivo, um facilitador, é o vai e vem. De uma enorme eficácia. O pior é que esta gente é intermediária dos intermediários dos intermediários. Quando se lhes dá poder, e um poder grande, transformam-se em tiranetes. Neste Governo, Relvas é alguém que tem muito poder. Houve uma altura em que toda a gente dizia que tinha mais poder do que o Primeiro Ministro. Provavelmente tinha.

 

Deixou de ter porque caiu em desgraça?

Não, não. Não deixou de ter poder coisíssima nenhuma. Resiste a tudo.

 

O que é uma prova do seu poder?

É um tipo com grande dedicação ao trabalho da auto-preservação. Com uma óbvia inteligência pragmática. Não é culto, nada disso. Mas presume. Tem um complexo de inferioridade.

 

Patente na frase: “Norteio a minha vida pela simplicidade da procura do conhecimento”?

Como é que Portugal se vinga destes tipos? Vexando-os. Ninguém foi mais vexado do que Relvas.

 

Sócrates, que foi o político mais odiado das últimas décadas, não foi vexado desta maneira. É um sentimento diferente aquele que suscitou.

Houve momentos em que foi vexado. Acontece que, ao contrário do Relvas, Sócrates não é uma caricatura. Teve muitos defeitos, tem muitos defeitos, mas há nele qualquer coisa que não é redutível a um boneco. A um cromo. Pode ser odioso, um vigarista, um grande líder, o que quiserem. Não é uma anedota. O Relvas tornou-se parte do anedotário nacional. Mas foi muito mais odiado do que o Relvas. E mais perigoso.

 

Porquê?

O Partido Socialista, a seguir a Mário Soares, teve um grande problema em encontrar líderes com capacidade de decisão. Voltamos ao início, ao problema português de dizer “sim” ou “não”, em vez de “talvez”. Teve uma série de líderes “talvez”. Diplomatas. Inteligentes. Civilizados. Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António Guterres.

 

Alunos brilhantes.

Incrivelmente bem preparados. Mas não eram taxativos. O primeiro líder taxativo que aparece no PS em muito tempo chama-se José Sócrates. Para o bom e para o mau.

 

Levou com o epíteto de autoritário.

Imediatamente. É uma tradição que em Portugal é muito mal vista. Na América as pessoas são pão pão, queijo queijo. Os americanos não aguentam o nem carne nem peixe. A hesitação é terrível.

 

A gente vai levando, como se diz na canção escrita por Chico Buarque.

Vai levando. “Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim”, o hino da Mocidade Portuguesa. No caso, pelo Salazar.

 

A canção de Chico é a propósito do Brasil. Mas pode dizer-se o mesmo de Portugal. Onde tudo se passa no gerúndio.

Um bocado. Não há nem pretérito nem futuro. É mais o condicional e o gerúndio. Fez? Não. Faz? Não. Está fazendo.

 

Retomemos a tópico das elites, de que começámos por falar falando de Cunhal e de Relvas. Como compreender que esta gente muitíssimo bem preparada gore expectativas, não chegue ao poder, não faça a grande diferença?

Temos tendência a manter no poder gente [que está] manifestamente contra nós. Que consegue um unanimismo em torno da mediocridade.

 

Vai falar de Cavaco, a seguir? As suas crónicas frequentemente vão dar ao cavaquismo quando fala de mediocridade.

Cavaco é uma metáfora disto tudo. Mas é visível noutros sectores. As coisas verdadeiramente notáveis que foram feitas por portugueses, ou foram feitas por portugueses fora de Portugal, ou foram feitas por portugueses dentro de Portugal que permanecem anónimos, ou são feitas por portugueses contra Portugal. Quando se tem o apoio da comunidade normalmente é um péssimo sinal.

 

É sinal de uma certa mediania ou mediocridade. Não se é uma ameaça. É isso?

É. Normalmente há um apoio que vem da comunidade depois da consagração no estrangeiro. Há então um servilismo. Todos os velhos inimigos se tornam amigos no dia seguinte. Oportunismo. Vil. Uma falta de espinha confrangedora. O Saramago tinha gente que dizia horrores dele antes de ganhar o Nobel e que depois do Nobel estava compungida em sinal de grande amizade. Prefiro aqueles que sempre disseram: “Isto é muito mau”. Há uma coerência. Vi pessoas fazer isso. Pessoas que hoje são importantes na cultura portuguesa. 

 

Onde estão os nossos heróis?

Temos muitos heróis. Não sabemos é da existência deles. Cientistas. Jovens. Empresários. Jovens empresários. Temos pessoas admiráveis que todos os dias se levantam às cinco da manhã, vão para emprego, pagam os impostos, pagam a renda de casa, educam os filhos, com 1000 euros de salário, 600, 750. Quando Passos Coelho fala de estoicismo... não vejo que haja naquele Governo nada de estóico. Mas o dia a dia das pessoas que estão a passar por dificuldades tremendas é de um enorme estoicismo. Fartam-se de trabalhar, compraram o carro, compraram o televisor e agora dizem-lhes que não têm direito a ter carro e televisor. Tinham a mania que estavam a ficar ricos? “Tira lá o plasma.” O plasma apareceu como grande símbolo de que os pobres estavam a sair do seu lugar. Os pobres compraram plasmas e viajaram para o Brasil. Eh pá, que crime incrível.

 

De que pobre estamos a falar?

Um pobre segundo os parâmetros vigentes. Uma família de baixa classe média, com dois salários, não com muito dinheiro, com um filho ou dois (não dá para mais), que se mata a trabalhar. E que tem a vaga ambição de um dia visitar um país estrangeiro.

 

Há um reaccionarismo de classe nesses comentários?

Completamente! A famosa elite que tem dinheiro, e que se considera o sal da terra, acha que isto lhes é intrínseco, mas que os outros não têm direito. Por isso é que fiquei tão irritada com o discurso da Isabel Jonet. Lida com pobres, fez um excelente trabalho no Banco Alimentar, um trabalho heróico – a palavra heroísmo não está deslocada – mas a formulação é muito infeliz. Não podem comer bifes? Não se pode dizer isto. Não produz efeitos, além da reacção natural: “Vai-te catar”. Não suporto este discurso de cima para baixo. Mas é um discurso comum nos chamados benfeitores da humanidade.

 

(A entrevista é anterior à recolha do BA no fim de semana passado). Aconteceu uma coisa com Jonet muito portuguesa: uma crucificação instantânea.

Cai-se logo no extremo oposto, a mulher é um diabo.

 

É uma forma de sacudir a água do capote e também de distracção. Por momentos, alguém nos distrai.

É um alvo da vingança, do ressentimento. É um alvo errado, neste caso.

 

Na mesma crónica diz que a forma de diferenciação em relação à elite deixou de ser a instrução. Passou a ser ditada pelo dinheiro.   

Claro. A elite pode comprar coisas. Os pobres é que não. A elite comprou carros, condomínios, iates, Rolex. Apareceu um fenómeno de novo-riquismo urbano, sobretudo em Lisboa, que era desconhecido. É uma riqueza de salários. Salários muito elevados, desiguais, de grandes empresas. Uma vez entrei numa casa de um casal abastado, muito amável, onde estava reunida gente importante – gente da elite. Não havia um livro.

 

Havia outros símbolos de poder, seguramente.

Havia todos os símbolos de poder.

 

O que quero dizer é que conhecimento deixou de ser um símbolo de poder.

Um livro não é um símbolo de poder, mas é um sinal de qualquer coisa que acho importante: instrução. Se calhar é mais fácil ir a uma casa da margem sul e encontrar uma estante com três ou quatro livros do que encontrar um livro naquele casarão enorme onde não faltava nada.

 

Numa das crónicas fala de estarmos na 25ª hora da tragédia nacional. É fácil ter essa impressão quando vivemos um momento agónico como este. Mas há quantas horas, quantos anos, quantos séculos estamos na 25ª hora?

Antes [da crise], não achava que estávamos na 25ª hora. Achava que estávamos um bocado entalados. Critiquei o novo-riquismo, o facto de estarmos a gastar o que não tínhamos. Nalguns projectos deixou-se sedimento – como a Expo, onde trabalhei, e que foi um projecto notável. Não havia a ideia de que o dinheiro nos ia faltar. Gastou-se como se não houvesse amanhã. Não fomos os únicos, sabemo-lo. Se intuí que isto ia ter uma factura no fim? Sim. Não há almoços grátis. Tenho um amigo alemão que tem casa em Portugal e que me disse a certa altura: “Vai haver uma consequência disto”. Acontece que as megalomanias, mais uma vez, foram de cima para baixo. A megalomania não foi a do tipo que comprou um telemóvel, um carro para o filho e foi passar umas férias à Baía. A megalomania foi a da pseudo-elite que criou uma arquitectura fictícia, que os pobres e a classe média não tinha obrigação de perceber – que não podiam perceber – [mas eles, sim].

 

Porque é que os pobres e a classe média não tinham obrigação de perceber?

Iam ao banco. O banco dizia: “O senhor pode comprar uma casa, o juro é tanto. Nós emprestamos. Não tenha problemas. Quer comprar outro carro para o seu filho? Compre! Quer comprar dois televisores a prestações?” O problema foi de quem vendeu.

 

Os bancos são a criatura odiosa desta crise? Tanto quanto os políticos.

Não. Os bancos portugueses nem fizeram as loucuras que fizeram os irlandeses. Tiveram uma maior prudência. Mas nos bancos portugueses tivemos esse epifenómeno que nos custou os olhos da cara, e continua a custar, que se chama Banco Português de Negócios [BPN]. Só em Portugal é que existe um banco que custa à pátria milhões [e que é] dos amigos do presidente da República. Há um tipo que é apanhado, Oliveira e Costa. Mais ninguém. Bem sei que ainda não era presidente, mas foi, a seguir. Esse banco fez o que os outros bancos não fizeram. Praticar o crime. A fraude. Numa escala gigantesca. Banco esse que é vendido por tuta e meia, depois de pagarmos as dívidas, a Angola. O modo como passamos por isto sem um grande grito de revolta é admirável.

 

Admirável?

Admirável no mau sentido. Provoca admiração. O mensalão no Brasil: é um volte-face extraordinário. A corrupção foi sempre o cancro brasileiro. País com muitos recursos, ao contrário de nós. Qualquer coisa mudou. Até admito que a pena do Dirceu seja excessiva para um white collor crime, dez anos. Mas aquilo é um pelourinho. É um exemplo.

 

Em Portugal a prisão de Oliveira e Costa não foi um pelourinho suficiente?

Não. Um banco persegue até ao infinito uma pessoa por causa de uma dívida de três ou trinta mil euros. Escreve cartas, ameaça, penhora. Mas se dever três milhões, como dizia o outro, o problema é do banco.

 

O caso BPN representou um divórcio entre a sociedade portuguesa e o Estado? Foi uma machadada na credibilidade do Estado.

O caso dos submarinos é a mesma coisa. Há uma grande opacidade sobre o modo como se administra o dinheiro público. O que permitiu todos os fenómenos de corrupção conhecidos. Permitiu a não-punição dessa corrupção. O outro grande trunfo, além dessa opacidade – e nada disto abona a nosso favor – é o de comprar cumplicidades, facilidades, audiências. Envolver as teias numa cumplicidade complacente para com o grande tráfico. A partir do momento em que se institui o pequeno tráfico... Não é [um sistema que premeie] o mérito.

 

É um sistema de cunha.

Cunha. Comprar favores. “Faço isto por ti, depois farás tu por mim.” É assim que se formam clientelas partidárias. “Vamos instalar as nossas pessoas nas câmaras, aqui e ali, mantê-las alimentadas.” E essas pessoas passam a ser cúmplices da opacidade. O BPN por alguma razão comprou a chancela de prestígio de Cavaco Silva, ex-PM. Precisavam daquela caução de seriedade. Quando já havia interrogações sobre o BPN, mantinha-se um silêncio à volta daquilo. Os reguladores não agiram. Vítor Constâncio, o Banco de Portugal. Como é que isto é possível? Quando Sócrates nacionalizou o banco, não sabia a extensão do buraco. Esta cumplicidade reles – é o adjectivo do Eça no Fradique Mendes – é que nos mata.  

 

Foi o grande erro político de Sócrates? Foi também o seu momento de corte com Sócrates?

Não, não foi. Nunca cortei com o Sócrates nem nunca fui socratista.

 

Quando toda a gente zurzia em Sócrates por causa do Freeport, você e Miguel Sousa Tavares eram dos poucos colunistas com uma posição contrária à da maioria.

O Freeport é uma muito história mal contada, a meu ver.

 

Quando da nacionalização do BPN, soltou os cães.

Foi uma má decisão. Dele e do Teixeira dos Santos. Politicamente foi a pior decisão que podia ter tomado. Poupou os seus inimigos, tentando evitar uma corrida aos bancos (que percebo). Havia dinheiro público no BPN, o que, já de si, é extraordinário. Problemas do bloco central. O que matou o Sócrates não foi isso. Não é o que matou. É o que serviu como arma. Foi a licenciatura.

 

Porque representou uma descredibilização pessoal? Parece uma coisa menor, se olharmos para o impacto na opinião pública, e se comparado com outros casos que atingiram o ex-PM.  

Relvas está-se nas tintas e finge que não é nada com ele. Sócrates ficou terrivelmente afectado. Aquilo matou-o psicologicamente. Perdeu a cabeça. Achou que o estavam a vexar. A partir do momento em que a vítima aceita ser vítima, está tramada. Ele devia ter feito o que fez Bill Clinton, que foi o político mais humilhado da história política recente. Deu a volta. É hoje o ex-presidente mais amado da história dos ex-presidentes americanos. É preciso sobreviver a estes golpes. Um homem como Mário Soares sobreviveria.

A direita percebeu que havia uma vulnerabilidade e nunca mais parou. Depois houve a história do Freeport, que é provavelmente mais uma história de corrupção dos partidos. Entrou dinheiro. Não [nos bolsos dos] líderes, mas nos cofres dos partidos. Entrou sempre dinheiro. Continua a entrar. Que não é dinheiro limpo. Acontece cá, acontece nos outros países. Em França (como se viu com Sarkozy), na Alemanha, nos Estados Unidos.

 

Mas aqui nada vai parar a tribunal, e mesmo que vá tudo fica em águas de bacalhau.

Porque as pressões são enormes. Nunca se chega a conclusão nenhuma. Quando se está próximo da presidência da República, não se pode escavar muito. O que quer que se escave, afectará a instituição.

 

E são estilhaços por todo o lado. Não rola só uma cabeça.

Na América estão-se nas tintas. Nós não gostamos de afrontar a instituição. Sinceramente acho Cavaco Silva um homem sério do ponto de vista de dinheiro. Incorrupto e incorruptível. Tem muitos defeitos, mas esse não tem. Mas que aquela malta andou toda ali à volta... Ou Cavaco era completamente burro e não percebia que o estavam a utilizar para fazer negociatas ou percebeu e fez vista grossa. Uma de duas coisas. Ambas são más. O que é certo é que manteve Dias Loureiro no Conselho de Estado até muito tarde.

 

Porque é que em Portugal nada acontece no dia seguinte?

É uma pergunta a fazer aos agentes da justiça. Porque é que demoram tanto tempo a [actuar]. Há falta de meios. A justiça portuguesa é lenta, arrastada e está toda ela politizada. Em células PC’s, PSD’s, PS’s, que se equilibram umas às outras. É também o modo como a pátria é administrada. “Tu não me lixas muito e eu não te lixo a ti. Somos todos amigos e amanhã vamos almoçar. Eu sei coisas sobre ti e tu sabes coisas sobre mim, portanto vê lá.” E ninguém paga as dívidas.

 

Quando falei da 25ª hora pensei no texto de Antero de Quental sobre a decadência dos povos peninsulares. Que parece de grande actualidade, tendo mais de cem anos. O Eça, que cita abundantemente: muitas daquelas páginas podiam ser escritas hoje. Há coisas da 25ª hora que ficam sempre por resolver. Há quanto tempo estamos nela?

Ah, provavelmente desde a fundação da nacionalidade. Embora eu saiba pouco sobre esse tempo [riso]. Se é o Salazar? Não. O Salazar é a matriz do medo e da obediência. Antero, os Vencidos da Vida: há sempre uma elite que tenta refundar a pátria. Fazer com que isto seja mais ilustre, mais decente, mais civilizado. E há os que desistiram e têm um azedume permanente. Cá em baixo há todo um mundo de gente que não tem paciência para este dilema. Nem tempo. Um mundo de insectos organizados que vai fazendo pela vida. “Enquanto estão ocupados a digerir se chegámos à 25ª hora, vou almoçar com o meu cunhado, que tem dois primos na câmara municipal. Tenho um negócio em vista. É coisa para render dois milhões”

 

Outra expressão muito portuguesa: “em vista”.

Não é “invista”. É “em vista”. “Conheço o gajo, sou amigo do gajo. Sou muito amigo da mulher, também. Vou fazer um almoço em minha casa no próximo domingo e ponho-te em contacto com o gajo.” São assim os negócios em Portugal. É assim que o país é administrado. Se as pessoas pensam que isto corresponde a um grande desígnio – Merkel, Europa, défice...

 

Não é Angela Merkel que manda?

Merkel dá directivas: “Não gastem muito, entrem rapidamente na miséria, e não me chateiem. Não me peçam mais dinheiro, que já tenho os gregos. Caladinhos, simpáticos. Que tenho umas eleições para ganhar na Alemanha. Lá vai a tranche.” Já cá canta o dinheirinho, como diria o Palma Cavalão [personagem de “Os Maias”] 

 

Diz numa das crónicas que os escrúpulos são para os tolos.

É, numa crónica sobre corrupção. O português odeia afrontar o sistema, corre-lhe mal. O sistema vai lixá-lo. Então não lixou o Zé e o Ricardo Sá Fernandes? Ficámos todos com uma vontade enorme de denunciar práticas corruptas depois de perceber que aquilo nos vai custar os olhos da cara. Como diz o Ricardo: “Envelheci mais com isto do que com o Casa Pia”.

(A parte triste disto é que o sistema penal assenta num princípio: in dubio pro reo.

 

Toda a gente é inocente até prova em contrário.

A ideia de que o Carlos Cruz possa estar inocente – aquela prova testemunhal não tem nenhuma fiabilidade – e foi sujeito a isto é repugnante e assustadora. A liberdade está acima da propriedade. Tem outras implicações filosóficas, ontológicas, éticas. Não estamos a falar de um pequeno negócio entre amigos, mas de valores fundamentais.)

 

Se escarafuncharmos bem vamos dar sempre à justiça?

Não. Vamos dar sempre à política. A política infiltrou a justiça. Há muita gente boa na justiça em Portugal. Mas não há muita gente boa na política.

 

Porquê?

Estive dois anos no PS. A aprender com o Dr. Mário Soares. Partido Socialista na oposição. Era jovenzinha. Nunca fui membro. Percebi que é um mundo de compromisso. Nas convicções, há pessoas inabaláveis. No que é essencial, nunca cederão. Em tudo o resto, é um mundo de negociação, é um processo permanente. A partir do momento em que a política não tem esse núcleo de integridade, isso contamina toda a sociedade. Contamina o jornalismo (outro pilar da democracia), a justiça, tudo. Quando vejo a falta de integridade premiada, tenho asco.

 

No texto que abre o livro estabelece uma analogia entre “O país tipo Portugal” e o queijo tipo Serra. Tudo a apontar para o pífio, o pechisbeque. E para o provincianismo.

Já o Fernando Pessoa se queixava do provincianismo português. Faz lembrar aquelas pessoas que andam a esquiar na Serra Nevada com t.shirts a dizer “Aspen – Colorado”... Eh pá, Aspen – Colorado para quê, na bicha do ski? “Ó pra mim.”

 

Temos uma boa expressão para isso: armar ao pingarelho.

Armani ao pingarelho – como diz um amigo meu. É óptimo, o sentido de humor. Vamos à Síria, ao Iraque, Palestina, e os gajos, com o lenço na cara, estão a mandar pedras com uma t.shirt Dolce & Gabbana. [riso] Mas no caso deles não é Armani ao pingarelho. São t.shirts chinesas que se encontram nas feiras de todo o mundo. A força da marca... Veja lá se eles têm uma t.shirt a dizer Edward Said, o grande intelectual.

 

A segunda parte do livro tem textos sobre viagens, em especial sobre o Médio Oriente, a sua zona de eleição. Sempre em ebulição. Porque é que se sente confortável nesses territórios? E Portugal, à sua maneira, está em ebulição?

É uma ebulição íntima, de raiva, de zanga e de humor. É a frase do Ruy Belo: “No meu país não se passa nada”. Às vezes tenho a sensação de que estamos arredados da História. Isso desgosta-me. A Grécia: muito piores as contas do que as nossas, muito maior o colapso social, mas está na primeira linha do drama da História. Nós não temos nenhuma espécie de relevância no grande drama histórico.

 

Só no futebol.

Pois. Deixámos que isto nos acontecesse. Andámos com esta conversa miserabilista do “vamos portar-nos bem para o patrão alemão”. É um bocado cobardolas, ou não? Faz-me lembrar aqueles alunos que nem eram nem bons nem maus e que passavam entre as gotas da chuva. Alunos de suficiente, suficiente menos. Temos um governo de suficiente menos, com políticos de suficiente menos. E o povo português é menos obtuso do que pensam. Já não se deixa comer. Já percebeu que é mal governado.

 

Esteve na Grécia há uns meses, em reportagem. Pensa que quer num país quer noutro qualquer coisa de cataclísmico pode acontecer num futuro próximo?

Se não acontecer na Grécia é porque a Alemanha resolveu impedir o cataclismo. Provavelmente haverá um perdão da dívida e o dinheiro volta a circular. É isso ou saírem do Euro e desvalorizarem a moeda. Nós vamos a reboque. A Irlanda vai safar-se; tem quatro milhões de pessoas, fala inglês, tem multinacionais americanas, não tem um problema de pobreza igual ao de Portugal. Somos o país mais desigual da Europa ocidental. Talvez seja bom perceber isto de uma vez por todas.

 

Pedro Passos Coelho é uma surpresa para si? Esperava isto?

Foi uma certa surpresa. Tinha alguma simpatia pela figura. Achei que estava melhor preparado. Quando descobri a extensão do poder de Relvas e o ascendente de Relvas sobre Passos Coelho, e pormenores da vida empresarial comum, no passado, percebi que um não é muito diferente do outro. São dois irmãos gémeos; como um não me merece nenhum respeito, o outro deixou de me merecer respeito. 

 

Voltando atrás: porque é que o terreno em ebulição lhe interessa?

É a marcha da História. Fui para a fronteira da Turquia com a Síria. Gosto de ver o heroísmo em acção, como jornalista e como pessoa. Encontrei um tipo que andava a desminar o caminho dos refugiados da Síria com as próprias mãos. Correndo o risco de explodir a qualquer momento. Ver a coragem no meio da maior agonia reconcilia-me com a espécie humana. A coragem dos voluntários americanos que estão no Líbano a ajudar pessoas gravemente feridas. Esta grandeza do ser humano tem para mim qualquer coisa de divino. A minha pequena depressão portuguesa dissolve-se numa história que é uma grande história. E a quantidade de gente que está lá como eu... Que está lá em vez de estar em casa a ver pela televisão.

 

Escreveu: “Gasto o meu dinheiro para ver a História em directo em vez de a ver na televisão”.

Não posso interromper a minha vida. Mas se não tivesse a necessidade de ganhar dinheiro e de sustentar a minha família, o meu filho, aquilo era uma coisa que eu faria. O que acontece a esta gente também me diz respeito. Diz-nos respeito. Tudo é muito relativo em Portugal. E isso gera um relativismo moral. Tudo é importante e nada é importante. Ali, há coisas verdadeiramente importantes, essenciais.

 

“Como toda a gente sabe, vendo opiniões.” Transformou-se numa das pessoas mais influentes, e, nesse sentido, poderosas, em Portugal. É uma coisa em que pensa?

Nada. Vivo num buraco. Não faço vida social. Não ando nos salões. Nem poderia escrever o que escrevo se o fizesse. Tomei o compromisso de não ceder a ser simpática com pessoas que não valem um pataco. Fazer esse tipo de vida obrigar-me-ia a compromissos numa zona onde não me quero comprometer. Também sou punida por isso, mas foi o que escolhi. Dou-me com muito pouca gente. Amigos íntimos que são uma espécie de família, e que me põem no meu lugar porque não acham que sou poderosa. Nunca fiz nada para ter poder, não quero ter poder, não me interessa nada o poder. O único poder que gostava de ter, e que não tenho, era o de disciplinar a minha vontade. Sou extraordinariamente disciplinada, mas não o suficiente. É de mim para mim. O segundo poder que gostava de ter era o de me conhecer melhor. “Conhece-te a ti mesmo”, como dizia Sócrates. Não conheço.

 

Como assim?

Tenho reacções opostas a fenómenos idênticos. Posso ser extraordinariamente polida com uma pessoa que acho desprezível, e posso ser extraordinariamente bruta com uma pessoa que acho desprezível. Administro as minhas paixões de um modo não-equilibrado. Não percebo qual é a sardinha que faz cair o camelo. Portanto não me conheço o suficiente. Irritam-me cada vez mais as explosões de temperamento. É melhor fazer a coisa à inglesa. O que implica um certo cinismo, que não tinha quando era mais nova, mas que agora me posso permitir. As pessoas com quem tive uma explosão são tão medíocres como aquelas com quem não tive uma explosão. A mediocridade é de tudo o que mais me irrita. A mediocridade empolgada. O medíocre cheio de si mesmo, coberto de auto-honrarias...

 

Uns pozinhos de Dâmaso Salcede, para voltar a’ “Os Maias”...

O Dâmaso Salcede está aí, a subir o Chiado. Está por toda a parte. Contente, ganha prémios, todo ele refulge. E há sempre o João da Ega e o Dâmaso Salcede.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios, em 2012

 

 

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