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Anabela Mota Ribeiro

Leonardo Padura

21.03.16

Leonardo Padura vai fazer 60 anos. Cuba é a sua Jerusalém, o seu território sagrado. É neste país de contradições e perplexidades que vive, por escolha. Viaja muito. É talvez o mais conhecido escritor cubano da actualidade. Esteve em Portugal para promover o livro mais recente. “Hereges” é um romance histórico, um policial que tem como protagonista o detective Mario Conde, um documento inspirado em factos verídicos. Em Cuba, a situação está hereje?

 

No começo do seu livro apresenta o significado da palavra herege, e especifica que em Cuba, quando uma situação está muito difícil, especialmente no aspecto político ou económico, se usa a expressão estar hereje. É uma expressão que os seus pais poderiam utilizar?

É uma expressão antiga, sim. Estar hereje significa que a coisa está mal.

 

O estar hereje dos seus pais tem um sentido diferente daquele que tem para si? Tem leituras diferentes em função das diferentes situações que se vivem em Cuba?

Creio que ao longo do séc. XX, Cuba – tal como Portugal ou Espanha – passaram por um processo de melhoria das condições de vida. Na geração dos meus pais aconteciam coisas que eram como histórias de telenovela brasileira!

 

Sim?

Sim. Por exemplo, a minha mãe teve sete irmãos. Quando a minha mãe tinha cinco anos, com um irmão de três e uma de dois, o meu avô paterno morreu e deixou a família na miséria. Viviam numa cidade no centro da ilha, chamada Cienfuegos, e mudaram-se para o bairro judeu de Havana. Conheço muito bem esse bairro. A minha mãe e o meu tio viveram muito tempo ali e contaram-me muitas coisas. Para eles a situação esteve muito hereje.

 

Em que ano nasceu a sua mãe?

Nasceu em 1927. Depois deu-se a crise de 1929, em Cuba houve um governo muito corrupto que levou a uma revolução frustrada. O meu pai nasceu em 1926, com condições diferentes, porque tinha uma família que manteve a sua integridade. O meu avô conseguiu que, apesar da pobreza, vivessem bem.

 

Ambos sabiam ler e escrever?

Sim. Em Cuba, o problema do analfabetismo era mais evidente nas zonas rurais, com os camponeses.

 

Mesmo antes da revolução de 1959, era normal as pessoas serem alfabetizadas?

Nas cidades, sim. Todos os meus tios aprenderam a ler e escrever. A minha mãe estudou até ao oitavo grau. Não pôde continuar por motivos económicos. Não havia dinheiro para um bacharelato. Eram famílias que, com muito esforço, nos dois casos, chegaram a ser de uma pequena burguesia. Donos de pequeno comércio, lojas de comida, de bebida. Para a minha geração foi diferente. Eu nasci em 1955, triunfava a revolução.

 

Viveu a utopia da revolução desde o seu nascimento, praticamente.

A grande utopia socialista era parte da vida normal das pessoas. A minha geração foi a primeira que teve acesso, de maneira quase universal, à universidade. Uns são matemáticos, outros são geógrafos, muitos são médicos. Iniciou-se um progresso intelectual e social, com uma certa melhoria das condições de vida, apesar das dificuldades económicas. Isso manteve-se de forma coerente até aos anos 90, quando desaparece a União Soviética. Nesse período deu-se uma enorme crise económica, desapareceu quase tudo de Cuba. Electricidade, transportes, comida, medicamentos. Vivemos uma situação muito hereje.

 

Com um sentido mais profundo do que o hereje dos anos anteriores.

Tínhamos uma piada, em Cuba, brincando com a nossa própria desgraça... “Na realidade não temos assim tantos problemas, são só três: o pequeno almoço, o almoço e o jantar!” [risos] Todos os dias. Mas as dificuldades desses anos foram importantes para o que aconteceu depois. É que como o Estado não tinha capacidade económica para sustentar a população, e num país onde tudo pertence ao Estado, criou-se uma distância grande entre o Estado e as pessoas. Em geral.

 

Um modo de dizer que o Estado são outros, não somos nós?

Para que compreenda: no caso dos escritores, especificamente. Em 1991/92, paralisou-se a indústria cultural em Cuba. Não havia dinheiro para produzir cinema, os teatros deixaram de ter electricidade, não havia papel para imprimir livros. E vínhamos de um modelo em que o Estado financiava o cinema, o teatro, a literatura, os jornais. Ao desaparecer, essa relação de grande proximidade entre as entidades criadoras e o Estado vai-se desfazendo. E esse espaço encheu-se de liberdade. Pudemos começar a procurar editoras fora de Cuba, a escrever sem pensar no editor cubano, que era um funcionário do Estado cubano.

 

Foi um começo de uma metamorfose?

Sim, começou a modificar a cultura do país. Começaram também a ser autorizadas, muito timidamente, pequenas empresas privadas. Nem se chamavam empresas. Eram trabalhadores por conta própria, independentes. Esse processo não parou. Começou a desaparecer aquele carácter homogéneo que a sociedade tinha nos anos 70 e 80. Nesse período, todos tínhamos sapatos, mas eram dois pares, todos iguais, uns para ir à escola e uns um pouco melhores para as festas. Mas eram todos iguais! Todos tínhamos dois pares de sapatos, três camisas e umas calças.

 

Como é que se comprava a roupa?

A roupa comprava-se com uma caderneta de racionamento. Houve um período em que as mulheres tinham que escolher uma de duas opções: ou compravam as cuecas ou os soutiens! [risos] Mas apenas uma das duas coisas. “Este ano, esta leva o cu ao léu, aquela as mamas”. Havia coisas, depois deixou de haver. E as pessoas tiveram que encontrar alternativas nos anos 90.

 

A necessidade, paradoxalmente, conduziu a uma certa liberdade? Era preciso encontrar uma solução.

Sim, [era preciso encontrar] uma estratégia de sobrevivência de outro tipo.

 

Que outros passos de abertura foram dados no pós-queda do muro?

Anteriormente era ilegal a circulação de dólares em Cuba; passou a ser legal. Nos anos 80, os escritores não podiam comercializar os nosso livros fora de Cuba, sem ser através de uma agência literária do Ministério da Cultura; passámos a poder fazê-lo. Começámos a ter, não todas as liberdades que queríamos ou que imaginámos que deveríamos ter, mas realmente maiores [do que as que tínhamos].

 

No decorrer desses anos, a desigualdade económica aumentou? Ou todos continuavam, no essencial, a ter o mesmo (que era pouquíssimo)?

Hoje em dia existe uma pequena parte da população que tem meios económicos muito superiores aos da maioria da população e há um sector, também minoritário, mas importante, que praticamente não tem nada. Vivem em bairros emergentes, construções muito precárias, quase favelas. Recentemente, uma jornalista disse-me que conhecia muito bem Cuba, que visitou ao longo de oito anos. Eu não disse nada, porque achei que podia ser ofensivo, mas conhecer Cuba, com uns euros no bolso, ficar três meses, não é conhecer a realidade de Cuba. Para conhecer é necessário viver, todos os dias. Encontrar as pessoas que vivem nesses bairros, nas periferias de Havana, que vêm do interior, sobretudo da região oriental, e que vivem do que aparece, de qualquer pequeno trabalho. Sem alternativa. Isto acontece, a sociedade cubana está a polarizar-se. Mas a maioria da população vive em condições médias, difíceis, sem ser de miséria.

 

Voltando atrás. A sua mãe mudou-se para o bairro judeu de Havana no mesmo período em que deflagrava a guerra na Europa?

Ela mudou-se para ali no mesmo período em que lá esteve Daniel Kaminsky [o personagem do meu livro]. Nos anos 30.

 

Então está a trabalhar, no seu imaginário, a história das suas raízes?

Sim. O bairro que a minha mãe conheceu, quando chegou a Havana, era muito pobre. A família vivia com o dinheiro que o meu tio, que teve que ir trabalhar como marinheiro, enviava de outros portos; e uma tia mais velha casou-se com um senhor que não era rico mas que ajudava a família.

 

Que contava a sua mãe sobre o judaísmo, sobre a presença de uma cultura diferente?

Não o via como diferente. Cuba formou-se com vagas de imigração muito distintas. Existiam judeus com os seus negócios. Existiam os negócios dos chineses, os negócios e sociedades de asturianos, catalães, galegos. Era um mundo tão diverso que praticamente nada parecia estranho.

 

Sem discriminação racial?

Havia discriminação racial, mas sobretudo discriminação económica. Não era igual ser galego e dono de um negócio e um galego que trabalhava no molhe a carregar sacas dos barcos. Não era o mesmo ser um judeu dono de uma pastelaria ou um judeu que anda na rua a vender gravatas. Num nível inferior estavam os negros. Havia negros de uma certa classe média, não muito elevada, que eram mestres, construtores, e outros numa classe mais baixa.

 

Esse detalhe é importante, porque a discriminação nazi na Segunda Guerra Mundial é baseada na raça. A discriminação pode ser económica, política, e neste caso há uma escolha e uma possibilidade de mudança. Quando se faz uma discriminação racial, o indivíduo não tem responsabilidade nisso nem o pode alterar. Isto muda tudo quando consideramos situações de discriminação.

Ainda que não se sinta discriminado em Cuba, o personagem de Daniel Kaminsky renuncia a ser judeu. Precisamente porque sabe que há algo que lhe foi imposto, que não foi sua decisão, que não pode alterar. Mas tenta alterar. Como? Tornando-se num cubano comum, normal. Vivendo a vida afastado dos preceitos judeus, da sinagoga, de todas as práticas que estão associadas e definem a cultura e religião judaicas.

 

O personagem e o caso inspiram-se num facto histórico: a tentativa do navio Saint Louis aportar em Cuba, em 1939, com cerca de 900 judeus a bordo, fugidos da Alemanha. O barco esteve vários dias ancorado, à espera de autorização para desembarcar. Que não chegou.

Em Cuba não existiu anti-semitismo. Por isso é que um episódio como o do navio Saint Louis, em que se impediu a entrada de 937 judeus, teve tanto impacto. Regressaram à Europa e metade morreu no Holocausto. Existiu discriminação, sobretudo económica e racial de negros. Mas estes judeus eram brancos. Isto é, poderiam integrar-se na sociedade branca, cubana, sem nenhum problema. E em alguns casos poderiam ser muito bem sucedidos. Existiam judeus muitos ricos, em Cuba, com grandes negócios.

 

Estes judeus que estavam no barco não tiveram possibilidade de escolha. Essa é a grande questão: o livre arbítrio. Quando se fala hoje de Cuba, quando se interroga a capacidade de fazer escolhas políticas, a decisão de ficar ou partir, tudo muda quando se tem a possibilidade de escolher. Pode falar sobre isso?

Acredito que uma das mudanças mais importantes que se operaram em Cuba nos últimos anos foi a eliminação da permissão de saída. Para poder emigrar, era preciso pedir uma autorização ao Departamento de Emigração Cubano, ao Governo. Sem o passaporte com essa autorização, não se podia viajar. A possibilidade de escolha, de ficar ou de ir, estava limitada por lei. Hoje esse problema desapareceu, mas surgiram outros, que por vezes se esquecem. Um cubano, para poder viajar para outros países, necessita de visto de entrada do outro país. E necessita de dinheiro para viajar.

 

É o mais difícil?

Não. É o menos importante. Porque pode ter um irmão ou amigo que lhe dá mil dólares para viajar, para sair. Mas, a possibilidade!, saber que uma pessoa leva duas fotografias, dois selos, que pede um passaporte e lho dão... Isso dá uma sensação de liberdade!

 

A sua expressão facial alterou-se quando falou em sensação de liberdade.

Claro, ter a possibilidade é muito importante, mesmo que existam outros problemas por resolver. E eu nunca tive problemas para viajar. No mundo artístico, sempre tivemos mais liberdade de movimentação. Desde 1988, quando comecei a viajar, nunca mais parei.

 

Portanto, a relação das pessoas com a escolha alterou-se.

Sim. A minha geração – e falo muito sobre isso nos meus livros – teve, em determinados momentos, muito pouca possibilidade de escolher. O menu que nos davam nos restaurantes só tinha três pratos. Num sentido figurado, queria tomar sumo de laranja e só havia limonada. Tínhamos pouca possibilidade de escolher o que queríamos fazer com as nossas vidas. Simultaneamente vivíamos num país que garantia algumas das coisas mais importantes, como a educação. Dependíamos da nossa inteligência para estudar.

 

Decidiu estudar Filologia. Porquê?

Eu queria estudar jornalismo e gostava muito de baseball. Quis ser jornalista desportivo. Mas nesse ano o curso de jornalismo estava fechado, por causa daquilo a que se chamava planificação socialista. Alguém tinha decidido que já existiam demasiados jornalistas em Cuba e não era necessário que se formassem mais pessoas nessa área. Quis então estudar História de Arte, que era o outro curso de que gostava, mas também estava encerrado. Fui para literatura, que era o mais próximo.

 

Ou seja, a sua escolha foi muito condicionada.

A minha possibilidade de escolher foi-se transformando pelo que era oferecido. O sistema educacional cubano acabou por me levar a estudar Filologia. O que poderia ter sido um conflito tornou-se numa enorme vontade. Creio que estava destinado a estudar literatura. Permitiu-me adquirir uma cultura e um conhecimento que talvez o curso de jornalismo não me tivesse dado, e com essa cultura e conhecimento pude fazer jornalismo.

 

Foi um jornalista de referência.

Sim. Quando se fala em jornalismo literário, de investigação, da renovação do jornalismo cubano, nos anos 80, o meu nome faz parte desse movimento.

 

Contudo, o problema da escolha esteve – e está – sempre presente. Há escolhas de valores, escolhas que não queria chamar de abstractas, mas que são menos concretas. E há outras que são escolhas imediatas, que influenciam muito a vida de todos os dias.

São escolhas que condicionam a vida das pessoas. Essas outras escolhas de que fala também foram muito complicadas. Houve momentos em que praticar uma religião em Cuba podia ser uma limitação. Porque o socialmente correcto dizia que um revolucionário não devia ser religioso, ou não devia ser homossexual. Ou se o pensamento político fosse diferente, tornava-se num dissidente.

 

Um herege, para voltar às palavras e ao título do livro.

Um herege. Nas margens ou fora da sociedade. Ter ideias ou atitudes diferentes podia ter consequências no percurso pessoal. Felizmente, muitos destes conceitos foram mudando. Nos últimos três, quatro anos surgiram histórias de pessoas que são dissidentes políticos, que agiram e intervieram de maneiras que, há vinte anos atrás, resultariam numa prisão de cinco ou dez anos. Agora são cinco ou dez horas na esquadra da polícia e depois são libertados. Entre dez anos e dez horas há uma grande diferença.

 

É um sinal de evolução política?

Sim. Para melhor, embora ainda não existam todos os espaços de expressão, de debate, para apresentação de posições distintas que deveriam existir.

 

Voltemos ao livro. O que significa ser herege numa primeira acepção? Depois, o que significava ser herege na Segunda Guerra Mundial ou em Cuba, onde a dissidência, como afirmou, tem consequências?

A heresia significa escapar da ortodoxia. A palavra foi-se carregando, negativamente, ao longo do tempo, muito por culpa do cristianismo. Até que ponto uma heresia pode ser castigada de uma maneira drástica? No livro, há um episódio com o personagem de Baruj (Benito) Spinoza, que foi considerado herege e condenado a uma separação total da comunidade. Na Segunda Guerra Mundial, significava ir para um campo de concentração. Na União Soviética, para um gulag. Nos Estados Unidos, nos anos do Macartismo, podia-se ser condenado ao ostracismo (quem fosse comunista não podia trabalhar em determinados sítios). No caso cubano, significava uma marginalização que podia durar anos.

 

“Hereges” está dividido em várias partes. Uma delas tem como protagonista, Elías (que é um nome com uma carga religiosa forte). O personagem tenta descobrir a história do seu pai. Leio no que escreve, sempre, uma preocupação com a memória e com as raízes.

Há pouco falávamos sobre uma coisa muito importante: nasci num bairro do mais normal que há em Havana, na zona sul da cidade, quase nos limites da zona urbana. Numa esquina havia uma mercearia de chineses, outra de um galego. Por nossa casa passava com alguma frequência um senhor libanês. Eu era colega de escola, brincava com os seus sobrinhos. O meu pai tinha-se tornado maçom, em1949, e em 1952 fundaram o edifício da loja do bairro, a um quarteirão da nossa casa. Quando eu nasci, nessa loja organizavam-se sessões todas as sextas feiras. Havia um senhor negro, médico, outro branco, advogado, um outro que parecia escocês que recolhia o lixo do bairro. Mas todas estas pessoas se tratavam por “irmão”, porque eram irmãos maçónicos, praticavam a fraternidade. A minha mãe é católica e sempre teve uma atitude muito solidária para com os outros. Nesse mundo, triunfou uma revolução socialista que dita que todos somos iguais. E eu, vivia entre maçons, católicos, libaneses, chineses, galegos, brancos, negros...

 

E porque é tão fundamental compreender as origens?

Creio que tem a ver com uma condição pessoal. Ontem fui à Fundação Saramago; a uns poucos metros, debaixo de terra, há ruínas romanas. Nós, como país, temos duzentos anos. Antes eram uns espanhóis, uns negros e uns poucos índios que viviam na mesma ilha. Misturavam-se ou não se misturavam, mas não era uma cultura diferenciada. Um português, com o apelido Gonçalves, pode saber até seis ou sete gerações de onde vem. O apelido Padura é basco. Como chegou a Cuba? Não sabemos. Eu, como a minha mãe, nem se sabe se somos negros ou brancos ou filipinos! Tudo parece indicar que o meu bisavô era filipino, daí o tom de pele e forma dos olhos.

 

O anúncio, em Dezembro, do restabelecimento do contacto entre Cuba e os Estados Unidos surpreendeu. Surpreendeu muitos os cubanos, surpreendeu toda a gente. Na vida de todos os dias, nas coisa normais, é visível uma diferença?

Não, não. A única coisa que aconteceu foi ao nível do diálogo.

 

As pessoas falam disso?

Não. Falam os governos. Reuniram e estabeleceram um processo, discutem o que deve acontecer primeiro, condições, isto e aquilo. Com as pessoas nada se alterou. Diz-se que quando chegarem os americanos talvez se resolvam alguns problemas. Mas no concreto, no quotidiano, não se alterou praticamente nada. Talvez exista já um número maior de turistas norte-americanos, não muito. Isso significa que trazem dinheiro e gastam, em instituições, restaurantes e hotéis privados. Onde deve existir já maior movimento é [nas relações] com empresas europeias, chinesas, latino-americanas, que, vendo a evolução dos acontecimentos e a possibilidade de o embargo se flexibilizar – porque ainda não foi levantado –, estão a iniciar a implementação de negócios em Cuba.

 

Como é a sua vida de todo os dias? Em que casa vive? Como se desloca? Com quem se relaciona? Onde compra a sua comida? Como acede à internet?

Eu pertenço a essa espécie rara de pessoas que vivem na mesma casa em que nasceram, no mesmo bairro no sul da cidade, chamado Mantilla. Nesse bairro nasceram o meu pai, o meu avô, o meu bisavô. A casa onde vivo foi construída em 1954, pelo meu pai. Eu e a minha mulher vivemos numa ampliação construída sobre essa casa. Trabalho ali, escrevo, dedico-me profissionalmente à literatura.

 

É uma maneira de dizer que se pode viver da literatura?, de escrever?

Não! É uma maneira de dizer que eu posso viver da literatura. A maior parte dos escritores não pode. E quando eu comecei, em 1995, não podia. Em 31 de Dezembro de 1995 deixei de trabalhar para a revista em que trabalhava, no dia 1 de Janeiro de 1996 tornei-me um trabalhador independente. Tínhamos quatrocentos dólares em casa, que me tinham pago por uma antologia de contos cubanos, no México. Naquela época, com esse dinheiro, podia viver um ano. Mas tive a sorte... Costumo dizer que há por aí uma nuvem em que Deus está sentado, a olhar, e que de vez em quando toca com o dedo, e que me tocou com o dedo... Na manhã de três de Janeiro, ligaram de Espanha. Tinha enviado um livro para um concurso e informaram-me que tinha ganho. Dois milhões de pesetas! Dezasseis mil dólares era uma fortuna!

 

A sua vida mudou.

Mudou. Um mês e meio depois ligou-me a minha editora de Espanha (creio que é a melhor, trabalhamos juntos há quase vinte anos)... Por isso posso viver da literatura. Mas não vivo só dos livros. Continuo a fazer algum jornalismo, escrevo guiões para cinema, dou conferências. Esta é a vida económica de um escritor.

 

O quotidiano: estava a contar como é.

Digo que vivo da literatura e para a literatura. Quando não estou a viajar, a responder a perguntas de jornalistas [risos], quando estou em casa, escrevo toda a manhã. Levanto-me cedo, às sete e meia já estou a trabalhar. Faço-o todos os dias, de segunda a domingo. Nesta casa onde vivemos, já não temos cães. Morreu há um ano e meio o último que tínhamos, com dezassete anos.

 

“O homem que gostava de cães” é um dos seus livros mais famosos. Tem por trama o assassinato de Trotsky por Ramón Mercader.

Sou um homem que gosta de cães! A minha esposa Lúcia trabalha, por vezes, comigo, outras vezes em coisas independentes, mas temos muitos projectos em comum, trabalhamos em casa.

 

Que moeda usam? Dólar, peso cubado, peso convertible (a moeda usada sobretudo pelos turistas)?

Usam-se pesos convertibles e pesos cubanos. O exercício matinal da Lúcia é uma caminhada de uma hora. Leva uma mochila e o porta-moedas e depois passa no mercado para comprar fruta, legumes. Outras coisas que consumimos levamos de Espanha, antes de regressar a Cuba. Azeite, atum, sardinhas, queijo. Levamos para consumo próprio ou para oferecer à família e amigos. Para muitos levo, periodicamente, uma garrafa de azeite.

 

Tem acesso à internet em casa?

Deram-me acesso. A maioria dos artistas tem acesso a uma conta de correio electrónico.

 

Que é diferente de ter acesso ao Google, por exemplo.

Sim. Mas por causa de uma censura a um artigo de jornal, ainda por cima absurda, a um artigo em que disse horrores sobre a minha equipa de baseball, puseram o acesso à internet em minha casa muito lento. Quase não consigo usar.

 

Tem automóvel?

Tenho. Desde 1997, com autorização de dois ministros. [riso] Há dois anos tentei comprar um novo, mas não tive autorização, porque iam alterar o sistema de venda e o carro que ia comprar, que antes custava 29000 dólares, passou a custar 180000. Estou a falar de um Hyundai. Um Toyota, com os preços anteriores, custava 50000 dólares, nos preços novos 220000.

 

Então tem o mesmo carro desde 1997.

Sim. E mantenho um velho Plymouth de 1958, do meu pai. Eu pago os arranjos, o meu irmão utiliza-o para pode ir com a minha mãe ao mercado, ao médico.

 

Tem dupla nacionalidade, viaja muito. Porque é que se manteve sempre em Cuba?

Porque sou de Cuba, sou um escritor cubano. Não posso ser outra coisa, tenho um sentido de pertença muito grande. Essa casa que o meu pai construiu, que eu ampliei, esse pátio onde enterrei todos os meus cães, desde o primeiro ao último... É a minha Jerusalém, o meu lugar sagrado. A minha mulher pergunta, às vezes, porque não compramos um apartamento no centro, agora que se pode. Nunca digo que não. Mas sei que não vamos viver lá. Temos as nossas mães connosco. Se tiro a minha mãe daquela casa, morre em uma semana.

 

Como é a sua mãe?

Tem 86 anos e, excepto quando está a ver televisão ou durante as três horas que dedica à leitura, não pára de falar! Tem uma colecção de vizinhas, amigas, do bairro, com quem passa o dia a falar. Veja bem, ela só tem a pensão do meu pai, 240 pesos, dez dólares. Como é que uma pessoa vive com dez dólares? O meu irmão mais velho vive em Miami e eu posso ajudá-la economicamente. Ela já não é conhecida com Alicia Fuentes, mas sim como Alicia Padura, porque a família Padura era conhecida no bairro. Esteve casada 60 anos com o meu pai. Eu vou fazer 60 anos.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2015

 

 

Yoani Sánchez

21.03.16

Encontrámo-nos no parque central, junto ao Capitólio. Parti para o encontro com a tensão de quem não sabe o que esperar. Esperava que Yoani Sánchez fosse aquela que aparece no seu blogue, Generation Y (www.desdecuba.com/generationy/). Mas tudo o mais era uma incógnita. Estariam pessoas a segui-la? Simplesmente, eu tinha mandado um e-mail, uns dias antes, para o endereço que consta no blogue. Ela tinha respondido três dias ou quatro dias mais tarde (explicou depois que só uma ou duas vezes por semana tem acesso ao e-mail). Apontámos aquela data. Era um sábado, hora do almoço.

Seguimos dali para o Hotel Sevilha, o espaço onde o personagem principal de Graham Greene foi angariado para os Serviços Secretos britânicos, na ficção de 1958 “O Nosso Agente em Havana”. Era um espaço que ambas conhecíamos. Ela conhecia a sala térrea, eu já tinha assistido a um pôr do sol na sala do último piso. Pensando bem, não era tão estranho assim que ela não conhecesse aquele espaço luminoso, que oferece uma vista fabulosa sobre a cidade. O acesso dos cubanos a hotéis frequentados por turistas é recente. No caminho, eu disse-lhe que levava onze dias de Havana e que não conseguia compreender aquele mundo. “Eu também não” – respondeu.

“O meu blogue é um resultado dessa observação minuciosa sobre minha realidade. Depois de 14 anos a trabalhar como professora de espanhol freelance, e guia de cidade, tive que responder centenas de vezes às mesmas perguntas: “Como é o sistema monetário?” “Como funciona isto?”. A necessidade constante de ter que analisar a nossa sociedade e explicá-la a alguém que não a conhece, ajudou-me muito”.

Yoani Sánchez tem 33 anos. Ela é pequena, franzina, e tem a pele cansada de quem já viveu muito. Tem um discurso emotivo, exprime-se com rigor. É a cubana que desafia o regime com um blogue que recebe cerca de cinco milhões de acessos por mês e que está traduzido em 13 línguas. O ano passado foi-lhe atribuído o prémio Ortega Y Gasset, que não pôde receber. Em 2008, a Time considerou-a uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Sobre o seu passado, e o modo como o viveu, sobre quem é e o que a fez ser como é, fala-se nas próximas páginas.  

 

 

Comemoram-se os 50 anos da revolução. Qual foi o primeiro relato que teve dela?

Foi através dos meus pais, que são pessoas muito jovens (a minha mãe tem 52 anos e o meu pai 55). Nasceram apenas um par de anos antes da revolução. E através dos meus avós, emigrantes espanhóis, que tiveram uma visão um pouco crítica da chegada dos “barbudos” a Havana. Não sentiam aquela euforia da juventude; tinham vivido um processo de guerra civil em Espanha e tinham medo da violência social. A minha avó e o meu avô, católicos, foram muito afectados com a chegada do ateísmo, do materialismo dialéctico.

 

Vivia com os seus avós e os seus pais?

Sim. Vivi uma tensão muito peculiar entre os meus pais, totalmente emocionados com o processo, e os meus avós, que pouco a pouco foram conformando-se. Foi uma situação típica da minha geração: ter escutado as defesas vivas dos nossos pais e as críticas veladas dos nossos avós.

 

Como era a sua casa? E como era veiculada esta ideia da revolução? Falava-se de tudo à mesa?

Venho de uma família muito pobre e de formação escolar baixa. A minha avó lavava e passava para fora, a minha mãe esteve anos sem trabalhar até que finalmente trabalhou num escritório de táxis, o meu pai e toda a sua família eram trabalhadores ferroviários. Debatia-se muito pouco, não se falava à mesa sobre o rumo do país, não se criticava. Mas os meus pais foram absorvidos pelo tema da revolução. O meu pai foi militante do Partido Comunista até quase à crise económica dos anos 90, quando decidiu não continuar. A minha mãe foi da União de Jovens Comunistas. O fanatismo estava praticamente em toda a sociedade, ouvia-se nos pátios das escolas, nas manifestações, nas ruas... Mas não havia uma base ideológica para o explicar. Eles não mo explicaram: impuseram-mo.

 

Viveram sempre em Havana?

Nasci no centro de Havana, num pequeno bairro que se chama Cayo Hueso. Para mim, é a verdadeira Havana, porque é um bairro popular, humilde, onde vive o maior número de habitantes por metro quadrado; há muita população negra.

 

A vida dos seus pais mudou com a revolução? O encantamento vem daí?

Não posso dizer que foram dessas pessoas que estudaram graças à revolução… A minha mãe só chegou ao sexto grau...

 

Porquê?

Porque não tinha, realmente, um interesse em estudar. O meu pai tinha um trabalho manual e foi fazendo um contacto, através do trabalho, com os livros: começou por colocar os pregos nos carris de ferro e acabou a conduzir uma locomotiva. Eram pessoas humildes e continuaram a ser, mas ficaram fascinados com a ideia de dar um futuro aos seus filhos. Sacrificaram-se muito, não pensando em si próprios, mas no que eu e a minha irmã iríamos desfrutar. Daí que a desilusão tenha chegado, quando, nos anos 90, depois de tantos anos a empregar tempo, energia e talento num projecto social, os seus filhos estavam a atravessar uma crise económica e uma crise de valores. Aquela sociedade do futuro não chegava.

 

É um caso atípico? A população, de um modo geral, teve acesso à educação e saúde, conquistas da revolução cubana.

Não creio que fosse um caso típico, acho que houve de tudo. O que se divulgou e promoveu é que havia pessoas que tinham beneficiado muito, graças às conquistas da revolução. A minha avó lavava e passava para fora, triunfou a revolução e continuou a lavar e passar para fora.

 

Analfabeta?

Analfabeta, só sabia escrever o seu nome.

 

Disse que esta ilusão lhe foi imposta. O que é, aparentemente, uma contradição: a ilusão não é uma coisa que se imponha.

Não devia ser. Nasci em 1975, um ano muito sovietizado em Cuba. O subsídio soviético tinha estimulado a economia cubana, desde que em 70 tinha fracassado uma grande plantação de cana de açúcar, (que em teoria iria ser a salvação do país, e que significou a ruína económica). Não cheguei a ver nem barbudos nem jovens rebeldes. Vi funcionários, purgas políticas e ideológicas, e a constante referência a uma utopia, a uma ilusão futura.

 

E passada?

Passada... Havia muita epopeia, referências aos heróis, aos mártires, às situações da Sierra Maestra, do Cuartel Moncada, mas era uma sociedade que se projectava sobretudo para esse futuro luminoso, um futuro comunista de igualdade para todos. Nós, os miúdos e miúdas da minha idade, imaginávamos que chegado o ano 2000, não iríamos necessitar de dinheiro para comprar coisas, porque toda gente já teria aquilo de que necessitava. Os olhos estavam postos no futuro, e graças a isso suportávamos as necessidades materiais.

 

Anos de racionamento?

No ano em que nasci, fora do mercado racionado, só se podia comprar o jornal e o bilhete de autocarro. Tudo o resto estava totalmente limitado. Mas as pessoas tinham o consolo de que não importava o sacrifício material, se em breve iria existir um futuro com prosperidade para todos.

 

Até à crise dos anos 90, havia uma memória gloriosa dos anos 60, subsequentes à revolução? Do analfabetismo que tinha sido extinto em um ano, do acesso à saúde, da vitória sobre os americanos na Baía dos Porcos.

Claro está que a imprensa, as rádios, a televisão, constantemente nos mostravam a reforma agrária, a alfabetização. Os meios oficiais tinham uma intenção de glorificar esses anos. Os participantes directos da revolução, sentiam-se muito orgulhosos de ter participado neste processo. O meu marido, por exemplo, foi alfabetizador. Durante muito tempo sentiu-se muito orgulhoso e feliz por ter ensinado a ler e a escrever um grupo de camponeses; até que lhe ocorreu a grande pergunta: “Ensinei-lhes a ler, e agora, que livros podem ler?”. Havia um desencanto latente, subterrâneo, muito ligeiro. As pessoas começavam a compreender que não era isto que havia sido proposto no ano de 59. Havia deserções nas próprias fileiras dos rebeldes, já tinham sido fuziladas muitas pessoas. Começava a desfazer-se a maquilhagem da utopia.

 

O seu marido tem 62 anos. O relato que faz da revolução é diferente, na sua vida, do dos seus pais e avós.

O meu marido é uma pessoa que vem de uma família de classe média. Não era desses que foram resgatados de um futuro sem educação; teria estudado na universidade, quer houvesse ou não revolução, porque o seu pai tinha meios económicos para financiá-lo. Participou em inúmeros trabalhos voluntários...

 

Participou porque entendia que era uma questão de responsabilidade social.

Exactamente. O pai, que pertencia à burguesia de Camagüey, entregou voluntariamente o seu colégio: não lhe foi confiscado. Sentiu-se muito feliz por se libertar do peso da ditadura de Batista, identificou-se com um sentimento geral de alívio, perante o fim de um episódio muito triste na história cubana. O meu marido ligou-se ao jornalismo, que era o que sempre tinha sonhado fazer, e começou a escrever na revista Cuba Internacional. E aí começou a desilusão.

 

Como assim?

Quando começou a comprovar que não podia escrever realmente o que lhe ocorria, os planos de produção que não se cumpriam, as insatisfações, os projectos sociais que, no final e na prática, não funcionavam. Não podia escrever isto porque se tratava de projectar para o mundo exterior uma ideia de paraíso socialista. Foi expulso da profissão no ano de 88.

 

Há 20 anos que é proscrito pelo regime?

Há 20 anos que está proibido de publicar em qualquer jornal de Cuba. Conto-lhe isto porque é algo que marca a minha geração: ter visto, como testemunha, o processo de frustração e de desilusão dos nossos pais. É como uma vacina contra a utopia. Se me deixo arrastar por uma utopia, fico como o meu pai e a minha mãe…

 

A crise dos anos 90, com a derrocada da União Soviética, foi uma explosão derradeira em Cuba? A semente da frustração já lá estava?

Penso que os problemas económicos dos 90 foram um catalisador, acelerou o processo de frustração, mas ela já lá estava. Num diálogo em que a pessoa pode abrir-se, sem medo, nas ruas, muitos cubanos acreditam que a revolução morreu. Consideram que isso aconteceu em momentos diferentes.

 

Em que momento isso aconteceu para o seu marido?

No ano de 1968. Pareceu-lhe intolerável que Fidel Castro aplaudisse a entrada dos tanques soviéticos em Praga. Era David contra Golias, tinha que apoiar David, não Golias! Outras pessoas pensam que a revolução morreu em 89.

 

Com a queda do muro [de Berlim]?

Quando se deu uma purga militar e fuzilou-se o general Arnaldo Ochoa, por tráfico de estupefacientes. Tinha sido um dos chefes militares mais importantes na missão de Cuba em Angola. Fez-se um julgamento público, transmitido pela televisão, que muitas pessoas viram em casa. Arnaldo Ochoa era uma figura muito carismática. A sentença foi fuzilamento. Este grau de crueldade do governo, as pessoas não esperavam. Os meus pais desiludiram-se nesse momento. Logo de seguida veio a crise económica, que foi um remate da situação. Outros não se sentiram desiludidos até Março de 2003, quando o governo cubano encarcerou 75 opositores e fuzilou três jovens que queriam emigrar e roubaram um barco para o fazer. Outros nunca se sentiram desiludidos.

 

Que relato recebeu o seu filho da revolução? Porque é outra geração...

Tenho um filho de 13 anos, chama-se Teo.

 

Como deus...

Exactamente. Teo é um menino muito inteligente – todos os pais dizem o mesmo dos seus filhos. Tentei não lhe impor nenhuma ideologia, nenhum relato. Deixei que ele próprio chegasse às suas conclusões. É uma geração muito apática, que recebe na escola uma dose de doutrina muito elevada...

 

Mais que a sua?

Mais que a minha. E o efeito é contrário. São apolíticos. Recebe a minha óptica, que nasci em 75, e a do pai. Não posso dizer que eu tenha acreditado; tive uma infância, como a maioria das pessoas da minha idade, gritando slogans: “Pioneiros pelo comunismo, seremos como El Che!”. Quando pude abrir os olhos, ter uma consciência política, o muro de Berlim já tinha caído, a União Soviética já se tinha dissolvido, os problemas materiais eram grandes. O meu filho tem a liberdade de acreditar ou não, para mim é igual.

 

Que diz ele, com as comemorações dos 50 anos da revolução?

Não diz nada. Em Cuba temos uma palavra, cheo. São as pessoas que não estão na moda.

 

É parecido com Che.

É uma palavra mais velha [do que Che]. Para a geração do meu filho, o tema da revolução é uma coisa chea. Eles não falam sobre isso entre si. Quando têm oportunidade de falar do que realmente querem, falam de moda, de desenhos animados japoneses, de gameboy ou playstation, das mesmas coisas que quaisquer jovens em qualquer parte do mundo.

 

Como foi o seu processo de escolarização?

As mães podiam enviar os filhos com 45 dias para o círculo infantil. Era uma época em que se falava na emancipação da mulher, da sua incorporação no mercado de trabalho. Como vivia com a minha avó, a minha mãe não teve necessidade de me enviar tão pequena para o círculo e fiquei com ela até fazer três anos. Com cinco anos, os meninos em Cuba entram para o pré-escolar, que dura um ano. Estive numa primária, que se chamava Republica Popular China, e depois fui para a escola secundária Protesta de Baraguá, (que é um feito histórico cubano). Quando acabei fui automaticamente para o pré-universitário no campo.

 

Foi para fora de Havana, para a paisagem rural?

Sim. O conceito é: os jovens estudam e trabalham, misturam conhecimento com produtividade. Estudam de manhã e trabalham no campo, em agricultura, à tarde, (ou trabalham de manhã e estudam à tarde).

 

Vivem em centros pré-universitários, como um campus, ou junto com as populações?

Vivem em grandes albergues onde cada um tem a sua cama, e não há quartos. Esta teoria tão bonita nos livros, na prática era totalmente diferente. Para os adolescentes é a oportunidade de provar todos os frutos proibidos da liberdade. Estas escolas no campo convertem-se em sítios onde há muita promiscuidade, onde as pessoas se misturam e transferem doenças sexuais – tal como se fosse um pente... Por outro lado, as pessoas importam-se muito pouco com o estudo, estão mais interessados em conquistar, em arranjar namorados ou namoradas.

 

Porque é que essa experiência foi marcante para si?

Ali, pela primeira vez, entendi a enorme distância que havia entre o projecto e a realidade. Fui para o pré-universitário iludida com a ideia de trabalhar e estudar, e quando lá cheguei era praticamente uma prisão, numa escala mais pequena, onde reinava a lei do mais forte.

 

O mais forte em termos físicos?

Em termos físicos. O mais forte cria um grupo, e este grupo extorque os outros. Por exemplo, levava um sabonete de casa, o grupo mais forte tirava-me o sabonete, e eu não podia fazer nada, não havia a quem denunciar. Imperavam relações muito torcidas, havia muitos roubos. Entrei no pré-universitário em 90, que foi um ano crítico economicamente. A falta de alimentos gerava muita competição. Estive lá dois anos e meio. Até que fiquei muito doente, da vista e do fígado.

 

Porquê?

Falta de alimentação. Não havia nada que comer, comíamos muito açúcar, bolachas, col (um vegetal). Graças a essa doença pude ter um certificado médico, que me deu a possibilidade de estudar num pré-universitário em Havana. Era outro mundo. No pré-universitário em Havana estudavam os filhos dos altos funcionários, que não queriam ir para o campo: na utopia do trabalho e estudo só acreditávamos nós! Eles não!

 

Nós?

Os pobres. As relações eram mais juvenis, ouvia-se música, pensava-se em outras coisas, e não na sobrevivência. Eu vinha de um pré-universitário no campo, o meu nível académico era muito baixo.

 

Era a queda de outra ideia, a de que a escolaridade é igual para todos?

É mais do que isso: professor nenhum quer reprovar um aluno, porque assim a promoção do grupo e da escola é afectada. Há pessoas com a classificação máxima, 100, 100, 100, mas não sabem nada. Foi isso que aconteceu comigo. Quando cheguei a Havana, o meu nível era muito mais baixo, e nos exames de matemática, falhei. Não pude estudar jornalismo. Fui parar à lixeira da universidade, o Instituto Pedagógico, para onde vão os que obtêm as piores classificações. Estudei muito durante dois anos, para tirar melhores notas e ter direito a uma transferência interna. Tive o meu filho nessa altura, o que complicou as coisas. Tentei a transferência para a especialidade de Filologia, já não queria ser jornalista.

 

O que é que a fez mudar de ideias?

Tinha conhecido o meu marido e pai do meu filho (estamos juntos há 15 anos). Ele ajudou-me a compreender que o jornalismo em Cuba não era aquilo que eu pensava. Enveredei pela Filologia, porque sempre me tinha interessado por livros e linguística.

 

Porque decidiu ter um bebé com 19 anos?

Queria ser mãe jovem. Há um nível de cumplicidade e proximidade geracional muito grande.

 

O encontro com o seu marido mudou a sua vida?

Alargou muito os meus horizontes. Sempre gostei de literatura, sentia-me estranha no seio da minha família. A minha irmã e eu, como na infância não fazíamos muitas coisas fora, líamos. Dostoiévski, praticamente todo, até aos 15 anos, Guerra e Paz, os clássicos, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Émile Zola.

 

Eram leituras consentidas?

Eram leituras permitidas. Sou uma filha das minhas leituras. Os livros abriram portas que a minha vida e a minha família não me podiam abrir. Dostoiévski foi um dos autores que me inocularam com insatisfação. E isso é muito importante, porque estar vegetando, aceitar tudo sem questionar nada, empobrece a vida.

 

A insatisfação e o questionamento eram também sobre a realidade?

Sim. Victor Hugo, mostrando os aspectos, às vezes sórdidos, da sociedade francesa do séc. XIX, fez-me encontrar paralelismos. Vi que o Homem em si mudou muito pouco. O Homem continua a ser o Lobisomem, nesta sociedade e naquela, com a mesma voracidade.

 

E como permitiam a impressão desses livros que transmitiam, também, valores burgueses?

Imprimiram-se dezenas de milhares de livros, sobretudo aqueles que pertenciam a autores mortos, porque não tinham que pagar direitos de autor. (A literatura mais moderna, praticamente não se conhecia no interior do país). Nas obras de Balzac aprende-se mais sobre o capitalismo do que em qualquer tratado económico. Balzac era permitido porque mostrava a decrepitude de um sistema. Claro que ali também se liam outras coisas…

 

Moral e costumes, por exemplo.

A moral cristã era muito mal vista. Havia que acabar com a moral!, era uma coisa pequeno-burguesa. “Um revolucionário não tem uma moral, tem princípios, ideologia!” Os livros ajudaram-me muito a descobrir que sim, Rashkolnikov tem culpa, um indivíduo pode ter culpa. A minha família não me deu uma moral cristã, deu-me princípios éticos. Se chegava a casa com um lápis que não era meu, a minha mãe fazia-me devolvê-lo.

 

Não apanhou com resquícios do catolicismo?

A minha avó, às escondidas do meu pai, ensinou-me valores cristãos, transmitiu-me tradições como a dos reis magos, o Natal, a ressurreição. Sou fruto também disto. Surpreende-me muito que haja pessoas que possam viver sem ter a mínima responsabilidade sobre o que se passa no país. Eu não me sinto vítima do que se passou comigo, eu sinto-me responsável; e sou.

 

Responsável por quê?

Sou responsável por ter calado, sou responsável de ter aplaudido, sou responsável de não me ter revoltado a tempo. Carrego toda essa responsabilidade, não como uma cruz, mas com o sentimento de ter que fazer mais, de não poder ficar de braços cruzados.

 

Sobre a moral: há muitos jovens que nas ruas se tocam de um modo sexualmente muito explícito. Qual é o lugar do corpo, do prazer e do sexo, nesta sociedade?

Imagine que o desejo e o prazer são como um grande lugar onde se acumulou água de maneira artificial e há uma comporta… Esses diques da moral foram dinamitados, um a um, com o processo revolucionário, que estigmatizou a moral católica e a moral pequeno-burguesa. O casamento caiu em desgraça – assinar um papel para quê? As grandes mobilizações militares e agrícolas, que uniam homens e mulheres em acampamentos, também gerou este intercâmbio sexual. A virgindade foi estigmatizada, as mulheres passaram a ter experiências sexuais desde muito jovens. O aborto deixou de ter uma conotação satânica. Tudo isto contribuiu, com os pré-universitários no campo, para potenciar o fenómeno da sexualidade. A falta de liberdade em outros aspectos da vida, e simultaneamente a liberalização do tema do erotismo, fez com que o indivíduo, incapaz de pronunciar-se publicamente sobre os seus direitos, voltasse todas essas necessidades para a sexualidade.

 

Qual é a idade com que normalmente se inicia a vida sexual em Cuba?

Dezasseis anos já é muito tarde. Rapazes e raparigas. Diria que em média é entre os 14, 15, 13 anos. A maioridade, legalmente, são os 16 anos. Portanto, se vir uma miúda de 17 anos a passear com um turista, já não pode ser considerado prostituição infantil. Os cubanos têm uma expressão muito erótica… O clima, a cultura, a música potenciam tudo isto.

 

Sobre Havana, de forma bem visível, paira o fantasma da prostituição infantil.

Antes da revolução, havia prostituição, claro, mas a maioria dos clientes eram cubanos. Agora, a maioria dos clientes são estrangeiros. O que mais mudou é o seguinte: antes da revolução, a profissão de prostituta tinha associado um estigma social, uma recriminação moral. Agora, há uma grande aceitação. Não falo em aceitação da prostituição como actividade normal – acho que deveriam ter um sindicato e direitos perante a lei. Mas não alarma um pai ou uma mãe que a sua filha possa ser prostituta! Inclusivamente há pais que estimulam as filhas a ter relações com um italiano, um belga ou um alemão porque isso trará benefícios económicos para toda a família.

 

É um sintoma de necessidade e miséria.

Depois de muitos anos, o dinheiro voltou a ter valor. Durante os anos 90, não valia a pena prostituir-se, porque o dinheiro não se convertia em bens de consumo. Havia umas jovens que tinham relações com funcionários do governo, altos militares, para ter alguns privilégios; não havia um intercâmbio económico directo, apenas um pouco mais de comodidade. Foi só a partir do momento em que surgiu uma moeda convertível, que as pessoas puderam ir a uma loja comprar um frigorífico, uma cama, uma mesa, sem racionamento – que não lhes era atribuída, como um privilégio, pelo Estado – que começou a ser rentável ser prostituta.

 

Diz no seu blogue que decidiu dar aulas de espanhol a turistas como forma de ganhar dinheiro. Qual tem sido o papel do dinheiro na sua vida?

Vivo há 15 anos numa esquizofrenia monetária! Desde que se autorizou a circulação do dólar em Cuba, e o peso se converteu em peso convertível [moeda cuja cotação está entre o dólar e o euro], os cubanos vivem amarrados a um sistema monetário muito difícil de sustentar. Quando terminei a universidade fui trabalhar para uma editora oficial; ao fim de um ano compreendi que aquele salário nunca ia chegar para poder manter a minha família. Para me deslocar até ao local de trabalho e regressar a casa, precisava de um pouco mais do que o meu salário mensal! Eu custeava o meu trabalho. Perante este absurdo, optei por uma vida de freelance, uma vida com riscos.

 

Não tem quaisquer regalias?

Não tenho segurança social, não tenho pensão de velhice, mas sou livre! Entre o meu marido e eu, começámos a dar aulas de espanhol para alemães. Quanto à realidade monetária, trato de manter-me economicamente autónoma do Estado – essa é a minha prioridade. Não sou uma pessoa consumista, isso ajuda-me. Todos aqueles que passámos pela profunda crise dos anos 90, saímos com duas possibilidades: ou o apetite pelo consumo ou uma protecção um pouco à maneira de Ghandi, de saber que posso viver com muito pouco.

 

Vive com muito pouco.

Só tenho uma pequena fraqueza: a internet! A tecnologia. E nisso concentro todos os meus recursos. Às vezes encontro dois turistas na mesma semana, outras vezes passam-se meses sem encontrar ninguém. Essas flutuações na minha vida económica marcam tudo o resto. Quando não tenho trabalho fico em casa a ler, a escrever, e consumo com baixa intensidade. A maioria dos cubanos vive de desviar recursos do seu centro de trabalho. Para poder lançar esta pedra, eu não roubo ao Estado.

 

Desviar recursos pode ser desatarraxar uma lâmpada no escritório...

Um frango, óleo, papel. Qualquer coisa que possa depois vender no mercado negro e converter em dinheiro para comprar outras coisas.

 

Em Havana, não se pode entrar num supermercado ou centro comercial com uma mala de senhora. Uma garrafa de azeite ou um pacote de bolachas podem significar muitas outras coisas, são uma moeda de troca.

Se roubam um pacote de bolachas numa loja, é porque sabem que nunca poderão comprá-lo, e têm vontade de o comer. Acho que a ideia de não levar a mala, não é tanto porque possa ser roubada: é porque o Estado não confia na sociedade que formou. Se o próprio Estado não confia nos valores morais e éticos que transmitiu aos seus cidadãos, esta é a chave de tudo.

 

Não se cola a este Estado o rótulo de ser cleptocrata, como acontece com alguns Estados africanos ou latino-americanos. Mesmo que corrupção seja um problema – como é noutros países.

Enquanto não houver uma imprensa livre, que possa denunciar a corrupção, não sabemos nada. Mais do que um Estado corrupto, temos um estado monopolizador. Em Cuba, não se vive num regime socialista, mas num capitalismo de Estado. O Estado cubano é, desde o ano de 59, o mais rico da história de Cuba, e não conseguiu, com essa riqueza praticamente absoluta que tem, dar aos seus cidadãos uma vida digna.

 

A degradação da cidade é imensa. A maior parte das casas tem saneamento, água e luz?

Electricidade praticamente todas. Em Havana Vieja a canalização é muito má. A maioria das casas tem que pagar para que venha um camião de água para poderem ser abastecidas. Na periferia há bairros em muito más condições, com casas praticamente de cartão, que obviamente nunca saem nos jornais porque nenhum jornalista está autorizado a reportar isso, nenhum correspondente estrangeiro está autorizado a entrar nessa zona. É quase como se não existissem.

 

Dois mundos.

Vivemos entre esses dois mundos. Um de que é possível falar, e outro, gigante, sobre o qual não podemos dizer uma palavra. O dinheiro cubano, neste momento, está em algum projecto de guerrilha, em algum lugar do mundo, ou está financiando partidos de esquerda algures. Não sabemos, estamos apenas a especular...

 

No blogue diz que é também webmaster; fá-lo para empresas?

Não, isso é um sacerdócio, faço para o meu blogue, para um portal que partilho com outras seis pessoas em Cuba, que se chama DESDECUBA.COM. Não ganho dinheiro com esta profissão, mas gosto muito.

 

Falemos sobre a sua vida no dia a dia. A casa onde vive é paga por si?

A minha geração é uma geração sem casa; muitos estamos à espera que os nossos pais ou avós morram para que possamos herdá-las. O meu marido, como jornalista, teve oportunidade de construir com um grupo de pessoas um edifício, nos anos do subsídio soviético. Pagou esse apartamento durante 20 anos, até que teve um título de propriedade. Eu desfruto da sua casa.

 

Faz compras com CUC’s [pesos convertíveis, a moeda usada por estrangeiros] ou nos supermercados dos cubanos, com a caderneta de racionamento e pesos cubanos?

As duas coisas. Nós, os cubanos, temos que pensar diariamente, e organizar-nos, para sabermos em que lugar comprar. Sem CUC’s praticamente não se pode viver. Produtos como sabonete, champô ou azeite, são em pesos convertíveis. O mercado racionado tem quantidades muito simbólicas, muito pouca variedade. Arroz, açúcar, um pouco de café, um quilo de frango por mês, quem sabe um pouco de esparguete. Não se pode alimentar com isso! Depois de um ano teria uma doença derivada das deficiências proteicas.

 

Diz-se que aqui não há fome: há sempre arroz e feijão.

O arroz, o feijão e o açúcar do mercado racionado chegam-nos para duas semanas. Nas duas semanas seguintes tem que ir ao mercado negro, ao mercado agrícola livre ou ao mercado de pesos convertíveis. Há sempre algo que apoia esse racionamento: pode ser uma família de Miami que manda uma remessa mensal, pode ser um negócio ilícito como o meu, uma profissão paralela. Mas uma pessoa que vista unicamente a roupa do mercado racionado industrial, dos anos 80, porque não se fez mais, que só coma arroz e açúcar, que não use champôs, não conheço nenhuma. Ninguém morre de fome porque se fazem um monte de coisas ilegais!

 

Que tipo de coisas?

Todos os miúdos têm sapatos, mas nenhum daqueles pares de sapatos foi comprado com um salário. Os sapatos custam dez CUC’s, que podem equivaler a três quartos de um salário mensal. O Estado gaba-se dessa conquista, mas é uma conquista nossa, que encontrámos os caminhos paralelos.

 

Viveu na Suíça, durante dois anos. Porque decidiu emigrar, e porquê a Suíça?

A Suíça não foi uma escolha, foi uma possibilidade que surgiu. Interessava-me a literatura e a cultura alemã, comecei a estudar alemão sozinha, e isso fez-me entrar em contacto com alemães, na Alemanha e na Suíça.

 

Que autores foram veículos para esse interesse?

Thomas Mann, a filosofia alemã (Kant, Hegel, o próprio Marx), Goethe, Schiller. [Arranjei] um grupo de amigos alemães que estavam dispostos a ajudar-me em qualquer coisa. Turistas que voltavam para a Alemanha, me recomendavam a outros amigos, que sabiam que não os ia roubar, que lhes mostrava a minha cultura. Um dia, quando me fartei da situação em Cuba, em 2001, escrevi a um monte de gente, para que me ajudassem a sair. Os amigos da Suíça tinham uma situação económica mais fácil, e disseram-me para ir.

 

Como partiu? Foi uma coisa sigilosa?

Não, não! Naquela altura eu não era ninguém, não emitia opiniões, era apenas mais uma. Deixaram-me partir. Trabalhei num cinema, trabalhei num bar, depois encontrei um trabalho numa livraria de livros latino-americanos, que era a minha especialidade, organizava o catálogo electrónico e a página Web – foi como um anel para um dedo. Integrei-me muito bem. Um ano depois vim buscar o meu filho, que ficou felicíssimo, a comer chocolates suíços!! [risos] Vivi um ano numa casa alugada, tinha internet por cabo 24 horas por dia.

 

Porque decidiu voltar?

Por motivos familiares. Por um lado, o meu marido nunca pôde sair de Cuba. O meu marido, o meu amor, o Reinaldo não podia sair. Uma pessoa que tem um bem [a casa] e sai, após seis meses tem os seus bens confiscados. Ponderei sobre o que era mais importante, e decidi que não me queria separar dele. Por outro lado, o meu pai adoeceu gravemente. A minha família é muito pequena, era um drama que eles não podiam enfrentar sozinhos... Sofria de cada vez que me sentava em frente a um prato de comida: “Eu posso comer, posso viajar, e a minha família, em Cuba, não”.

 

Vinha outra?

Uma vez que decidi regressar, decidi que não vinha para o mesmo ponto: a simulação, o silêncio.

Com o seu blogue, tem a ilusão de que pode mudar coisas?

Sim. Essa ilusão não está na origem do blogue. Era um grito solitário, um exorcismo pessoal. Se encontrou outros, que tinham os mesmos demónios, foi por acidente, não houve premeditação.

 

Quando lhe foi atribuído o prémio Ortega y Gasset, ou quando a revista Time a elegeu como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, isso quer dizer que a sua voz tem peso. Que consciência tem disso?

Há pessoas que me dizem que me tornei mais crítica, mas se ler os textos iniciais verá que eram bastante corrosivos desta ilusão de paraíso. Também não me tornei panfletária. Nunca escrevi a palavra Democracia no meu blogue, mas é um canto à Democracia. Nunca escrevi a palavra Liberdade, mas é um canto à Liberdade. Dou-me conta que as minhas palavras podem ter influência, por isso não quero influir nos ódios, nem nos ressentimentos; quero influir na busca de uma Cuba inclusiva. Sei que tenho responsabilidade, portanto certifico-me de que não corto pontes, mas tento criá-las. Nisso mudou.

 

Porque motivo pensa que o sistema a tolera?

Mais do que tolerar-me, aprenderam a viver comigo e com outras pessoas que escrevem blogues. Sou talvez pioneira em mostrar o meu rosto e o meu nome quando dou a minha opinião. Com a tecnologia e a internet, o governo já não tem o monopólio informativo. No meu caso particular – e eu detesto o papel de vítima – o blogue tem um custo pessoal elevado: foi-me negada a permissão de sair do país em duas ocasiões, tornei-me uma pessoa radioactiva...

 

Radioactiva?

Quando em torno de uma pessoa se cria um círculo, os outros temem em aproximar-se para não se contagiarem com essa radioactividade. A minha família foi advertida, e os meus amigos, para que me dissuadissem. Sou centro de campanhas de difamação.

 

Diz-se que é agente da CIA.

Que sou agente da CIA, que me financia o imperialismo, que me fui formar na Europa para voltar e fazer isto. Cada pessoa que me lê, protege-me, torna-se parte integrante do meu escudo protector. É um meio explosivo, que pode transmitir uma informação em segundos, a milhões de habitantes no mundo inteiro. [Aqui] têm muito medo disso. Estão a tentar projectar uma imagem de tolerância e reforma para o mundo, porque precisam de auxílio económico, precisam de limpar a sua imagem. Perderam uma grande parte da esquerda internacional, e precisam de recuperá-la.

 

Tem acesso permanente à internet?

Não! Os cubanos não podem ter ligação à internet em casa, só os altos funcionários e os estrangeiros que residem em Cuba [podem]. Vou a um hotel, com uma pen, ligo-me e envio as minhas mensagens. Desde Março, o governo impediu o acesso ao meu blogue dentro da ilha. Não posso administrá-lo directamente. Mando os textos e fotografias a amigos que os publicam, depois compilam os comentários e enviam-mos por email; eu faço download, levo para casa e leio. Ligo-me uma ou duas vezes por semana.

 

Depois de lhe enviar o email pedindo a entrevista, pensei que este pedido, provavelmente, ia ser lido por outros…

Totalmente.

 

Está sob vigilância? Lêem a correspondência?

Sim, sim. Mas, mais riscos, é impossível. A minha grande arma é a visibilidade: eu não tenho nada que esconder.

 

Isto levanta outra questão: faz algum tipo de autocensura quando escreve ou fala? Ou permite-se dizer tudo?

Não tenho temáticas tabu. Falo abertamente da figura de Fidel Castro, que em Cuba é um assunto tabu, falei do bloqueio norte-americano, que é outro tabu. A única limitação é não utilizar a violência verbal. Acredito que isso é algo que agrada às pessoas que lêem o blogue: não ser um panfleto político, ácido, agressivo. É antes uma reflexão um tanto desiludida, um tanto céptica, de uma cidadã que nasceu em Cuba em 1975, que compreendeu que o sonho que lhe prometeram em criança nunca se cumpriu. Eu não tenho armas debaixo da cama, não tenho um partido político, não estou a organizar um grupo de rebeldes para ir lutar para a Sierra Maestra. Eu escrevo as minhas opiniões, subjectivas, como o meu rosto e o meu nome. Se o governo cubano me quisesse tocar por causa disto, seria um escândalo. Se me seguem, se me escutam os telefonemas, se vêem os meus e-mails, sabem que sou exactamente o que afirmo ser. Isso tranquiliza-me.

 

Tem medo?

Claro que tenho, sobretudo pela minha família. Não tenho tanto medo da prisão. É a última coisa que podem fazer. Tenho medo da destruição agressiva que podem fazer da minha pessoa. Podem destruir-me com campanhas de difamação, fazendo crer aos outros que sou aquilo que não sou. Mas no final, as pessoas conseguirão retirar a essência das coisas.

 

Espera uma saída diferente? Com Obama ou com a abertura que Raul promete.

Sou muito optimista a longo prazo e pessimista a curto prazo. A economia cubana está na bancarrota, há um empobrecimento dos valores éticos e morais, a maioria dos jovens tem os seus olhos postos na emigração. Em relação a Obama, tenho expectativas, mas entristece-me que os cubanos tenham que esperar uma mudança vinda do exterior para gerar uma mudança no interior. Preferiria que fossemos nós a iniciar a mudança.

 

O que significa Pátria para si?

Pátria é uma conquista do século passado. Sinto-me mais do mundo. Pátria é o que me dá a cultura, a língua, a família, mas não pode ser uma âncora. Tem que ser como um par de asas, para que possa sair para o mundo, e projectar essa cultura. Acho que em Cuba se confundiram conceitos muito diferentes: confundiu-se a nação com uma ideologia, e a Pátria com um homem, e isso tem que terminar.

 

Futuro é uma palavra central, desde sempre, na sua vida. E agora, o que é o futuro?

Se chegar agora, melhor. Há uma frase que foi muito usada por Fidel Castro: “Um mundo melhor é possível”. Eu gosto mais de: “Um mundo possível é melhor”. Um futuro possível, um futuro que chegue agora, um futuro que eu possa tocar com as minhas mãos. Que não seja uma quimera do amanhã.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Janeiro de 2009

e na revista das Selecções do Reader's Digest em vários países ao longo de 2009