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Anabela Mota Ribeiro

Elisa Ferreira

13.04.16

Jantámos no Pabe, em Lisboa. Ela estava a chegar de Bruxelas. Se não me falha a memória, tínhamo-nos encontrado uma vez apenas, no casamento de um amigo comum. E isso parecia dar à relação uma intimidade que ela não tinha, e não tem.

É uma mulher amável, que eu não conhecia. A Elisa Ferreira era a Elisa, amiga do meu amigo, que em tempos foi ministra e que agora está no Parlamento Europeu. Antes de me preparar para a entrevista, eu nem sabia da sua ligação ao programa QREN – que é uma coisa importantíssima. Mas não falámos disso durante o jantar.

Meus caros, duas mulheres, se não tiverem uma agenda que as obrigue a tal, não falam do QREN ao jantar. Falam da educação das filhas (dela). Dos quilos que sempre estão a mais. Da logística das casas e das empregadas. Das viagens entre duas cidades e dois países. Affaires de femmes. Mas intuí, e bem, que a Vogue não era um tema predilecto. Porquê? Porque nasceu numa família onde a austeridade era um valor. Porque cresceu num tempo em que as mulheres, quando falhavam profissionalmente, eram menos iguais do que os homens… Agora imaginem essas mulheres de saia curta e sapatos Jimmy Shoo.

Ela vestia uma camisola confortável e insistiu em pagar o jantar. Gentil. Mais que tudo, foi bem educada quando me informou que no dia seguinte daria uma entrevista a um outro jornal e a uma rádio. (Nem toda a gente o faz, e não tinha que o fazer). É provável que dê muitas entrevistas. Desde há uma semana que é público que será a candidata do PS à Câmara do Porto.

Esta é a primeira que faz o retrato da mulher. Estava um pouco nervosa… Sabe-se lá o que sai de uma entrevista comigo – dizia.

  

Nasceu em 55, licenciou-se em Economia. Fez o mestrado e o doutoramento em Inglaterra. Foi ministra do Ambiente e do Planeamento. Notas curriculares. Quer fazer um auto-retrato? 

Posso dar-lhe notas biográficas, mas tem de me ajudar a seleccionar o que lhe poderá interessar. Posso dizer onde nasci, quem são os meus pais, em que escola andei…

 

Se achar que isso tem peso e relevância na sua vida.

Tem. Sou uma filha única tardia. Esse facto marcou a minha vida. Sempre tive a noção de que tinha de ser resistente.

 

Resistente a quê?

Resistente à vida. Que podia ficar sozinha. Fui treinada para isso. A minha mãe tinha 39 anos e o meu pai 40 quando nasci.

 

Teve a noção de ter sido muito desejada e esperada?

Isso sim. Estavam casados há 14 anos e tinham um desgosto grande por não terem filhos. Fui muito querida. Prepararam-me para um mundo que não era fácil. Foi uma opção inteligente, agradeço isso aos meus pais.

 

Viviam essa pressão e passavam-na a si? Como é que lhe era incutida a ideia de que tinha de ser resistente, brava?

O quadro tradicional de educação das raparigas era para o casamento. Eu sempre me preocupei com a profissão, com assuntos que eram de homens, com gerar o meu próprio rendimento. O casamento seria qualquer coisa que surgiria ou não. Estar municiada de uma capacidade profissional foi uma tónica do meu processo educativo, muito mais do que saber bordar ou fazer malha.

 

E isso aprendeu?

Aprendi. A minha mãe era a mulher ideal nesse sentido, apesar de ter a sua vida profissional: era técnica de contas. O meu pai também começou por ser e acabou revisor oficial de contas. Havia uma combinação entre a responsabilidade, o decidir pela minha cabeça, e códigos educativos estritos, que não eram de grande liberdade.

 

Pensar pela própria cabeça exige segurança e auto-estima. Ou seja, para não aderir a pontos de vista de outros é preciso ter confiança naqueles que apresenta.

Não sei se foi desse processo educativo, ou se uma coisa resulta na outra, mas sinto que tenho muito disso. Naturalmente prefiro que digam bem de mim ou que achem que estou a fazer coisas certas (mais do que digam bem de mim); mas o grande referencial da minha vida é fazer coisas coerentes com o que acho que é certo. Aprecio que façam contributos, críticas, que dêem sugestões. Mas tenho dificuldade em não seguir aquilo que intimamente acho que devo fazer. Portanto, não faço muitas cedências.

 

Explique melhor qual foi o contributo e a marca do seu pai e da sua mãe no seu crescimento, para fazer de si quem é hoje.

Eram complementares. Do lado da minha mãe foi a sensibilidade, o gosto pela literatura, pela arte, o requinte na organização de uma casa, o cuidado com que se serve uma refeição. Do lado do meu pai, havia uma rigidez excessiva, na defesa de valores e convicções; e uma coisa que é nortenha: a nossa palavra. Muito cedo dizia: “Tens de ter uma profissão, não duramos sempre”. Era dito taxativamente – e havia nisso uma certa frieza.

 

Foi tratada como uma adulta.

Sempre. Nunca tive protecções excessivas nem nunca me macaquearam o mundo. Isso deu-me um realismo muito grande.

 

É como se não ousasse iludir-se para não perder de vista a realidade, o pragmatismo.

É verdade, ainda que reconheça a utilidade da utopia. O sonho, o desejo de qualquer coisa que nos ultrapassa é muito importante. O que não consigo é confundir isso com a realidade. Dificilmente tiro os pés do chão, ainda que seja capaz de sonhar e goste de sonhar.   

 

Nunca tirou?

Há momentos em que toda a gente tira um pouco, há momentos de paixão – sobretudo na vida emocional. Sou bastante emotiva.

 

Sentiu na sua infância que o seu pai preferia que tivesse sido um rapaz?

Acho que deve ter tido algum desgosto… Os homens passavam para os homens o mandato que tinham. Uma rapariga? Talvez o meu pai tivesse um realismo semelhante ao meu: há que trabalhar com o que existe. Faleceram muito cedo, aos 70 anos, ambos.

 

Que criança era?

Era muito sociável. Ainda mantenho amigas da infância. Sei quem é a minha melhor amiga da escola primária, depois a dos 11 anos, depois a dos 13 anos. Os colégios eram femininos e as amizades eram dentro do mesmo género. As pessoas lembram-se de mim como alguém que tinha muita facilidade de contacto. Era boa aluna, não era convencida. Descrita assim, talvez pareça uma menina direitinha, mas ao mesmo tempo tinha os mecanismos da revolta. Na adolescência tive grandes conflitos com o meu pai. A propósito de tudo. Ele era uma personalidade dominante.

 

Como é que eles expressavam amor?

A relação com o meu pai era mais extremada. Com a minha mãe era um contínuo. O meu pai tinha um grande orgulho em mim, quase uma vaidade, que procurava esconder. O orgulho expressava-se do seguinte modo: depositava em mim uma enorme confiança e sabia do que eu era capaz. Essa confiança absoluta era para mim uma grande fonte de auto-estima.

 

Por exemplo.

O meu pai mandava-me às finanças pagar impostos e tratar assuntos burocráticos. Mediam bem o que eu era capaz de fazer e mandavam-me fazer recados complicados. Eu ficava toda vaidosa quando a seguir dava conta do recado! Aos 12 anos tinha que vir ter a Lisboa para embarcar para um campo de férias; o meu pai sofria de um problema de costas e não pôde trazer-me; disse-me: “Vais com a tua malinha”. Vim de comboio, fui ter ao Cais do Sodré e lá me desenrasquei! Lembro-me de estar parada na Avenida da Liberdade, com o livro d’Os Cinco, à espera que as horas passassem [risos], e de ter ido levar a mala a um hotel que conhecia em Lisboa.

 

Essa organização – “vou pôr a mala ali enquanto espero” – era sua ou do seu pai?  

Vou andar com uma mala pesada atrás de mim, todo o tempo? Não vou! Estes senhores, se não roubam as coisas aos hóspedes, não vão roubar a minha mala! De maneira que fui pô-la num hotel – na altura também não havia bombas! Era muito prática.

 

Vivia isso como uma aventura romântica?

Nessa vinda a Lisboa, por tudo aquilo ser muito improvisado e inesperado, senti uma certa heroicidade. As páginas do livro d’Os Cinco não passavam assim tão rápido, eu não estava concentrada a ler. Estava um bocadinho assustada, os senhores do café podiam achar que eu estava ali há tempo demais, só com um Sumol e uma sandes de fiambre... Fiquei muito aliviada quando tudo bateu certo. Mas no meu quotidiano não tinha nenhuma noção de heroicidade, não.

 

Essa heroicidade, o romance, a aventura parecem alimentar um quotidiano controlado, sem momentos climáxicos. Se fosse um filme, não encontraríamos nele a angústia do protagonista, a bifurcação essencial e a escolha de um caminho…

Houve alguns momentos de conflito mais aberto, sobretudo com o meu pai. E houve momentos de risco, de quase ruptura da relação, na adolescência.

 

E depois, como é que isso se resolveu? Que é uma maneira de lhe perguntar como é que resolve conflitos.

Não resolvo conflitos como resolvi os conflitos com o meu pai. Porque aí era uma luta pela afirmação pessoal, pelo meu próprio espaço.

 

E também porque os afectos estavam imiscuídos?

É diferente, completamente diferente. Como é que eu resolvo conflitos? Acho que sou bastante conciliadora até um determinado momento. E sou capaz de grandes rupturas. Não quero uma conciliação a todo o custo.

 

Não teme a ruptura?

Não. Há um momento a partir do qual o compromisso é uma adulteração do sentido da negociação; a conciliação é impossível. Há diferenças que temos que assumir, e é preciso pagar esse preço.

 

Quando é que percebeu que ia estudar Economia e que queria ter esta vida?

Eu nunca achei que queria ter “esta” vida. As coisas foram surgindo, fui andando. Fui para Economia pela curiosidade de perceber como é que há empregos, como é que há riqueza, como é que há desemprego, como é que as empresas surgem. Tenho curiosidade em saber como tudo funciona.

 

O curso de Economia estava mais próximo do que os seus pais faziam do que outros cursos.

Talvez eu estivesse familiarizada com esse tipo de conversas, menos por causa do trabalho dos meus pais, e mais por influência do meu avô materno, um homem da indústria têxtil. Morreu quando eu era miúda, 13 ou 14 anos, mas lembro-me muito bem das conversas: “Investiu ou não investiu? Faliu ou não faliu? Há importações de algodão ou não há?”. Eram conversas da vida real, que se contrapunham ao lado feminino, sobre empregadas e limpezas domésticas.

 

E o mundo das paixões? Refiro-me ao que é do domínio do relacional. Nas conversas sobre as limpezas e as empregadas aprende-se muito sobre fidelidade e infidelidade, paixão e ciúme, possessividade e separação. Conversas de adultos.

Nesse tempo em que era criança e ouvia conversas de adultos, quase não havia divórcios, camuflavam-se tensões familiares. Estávamos no tempo de Salazar, Caetano. Não era só na política: a sociedade era muito monocolor. Eu tinha um bocadinho a ilusão, talvez para contrariar o meu pai, de casar, estabilizar, ter filhos, ter um emprego certo.

 

Que idade é que tinha no 25 de Abril? Como é que a revolução mudou a sua vida?

Tinha 18 anos. Misturou a nossa vida toda, foi um período de questionamento. Tive metade do curso com teoria marginalista, do mais clássico possível, e outra metade com teoria marxista. Comecei a ler e a investigar em todos os sentidos, para reencontrar o meu rumo, a minha leitura do mundo. Estava tudo em causa.

 

Queria pensar pela sua cabeça…

[risos] Queria conseguir pensar pela minha cabeça! De maneira que, ao contrário de muita gente, li os livros todos. Li O Capital mesmo! Li o Marx, li o Engels, à procura da verdade. Tinha um grande drama interior.

 

Foi um questionamento de tudo, e foi transversal? Ou circunscreveu-se à universidade?

Questionar os padrões já tinha começado antes, mas a revolução foi a explicitação dessas tensões. Aquilo que para mim foi mais importante no 25 de Abril foi a revelação do carácter das pessoas. Quem eram as pessoas corajosas, as pessoas fiéis a si próprias, os sobreviventes que um dia estavam de um lado e no outro dia estavam do outro, o que era a dignidade.

 

E sobre si mesma, o que descobriu na revolução?

Uma reinterpretação do mundo que me rodeava, uma mudança completa de referenciais. Estarmos bem connosco, estarmos abertos para nos questionarmos, e ao mesmo tempo sermos fiéis a nós próprios, é um ponto central. E descobri que a vida é muito mais arriscada do que por vezes se pensa. A nossa percepção de nós próprios ganha outra força e solidez. Aconteça o que acontecer, eu sou isto.

 

Foi um marco para a sua geração. “E agora, o que é que se faz com isto”?

É passar do diagnóstico à concretização de um sonho.

 

Foi aí que teve vontade, ou que percebeu, que podia ser política?

Eu nunca percebi que podia ser política. Sempre achei que tinha que fazer coisas pela minha sociedade. Se pudesse ser útil, interessava-me.

 

Era um apelo cívico e não político?

A política é uma das maneiras possíveis. Pode ser através da solidariedade social, pode ser através do empreendedorismo… A política aconteceu-me.

 

Empenhou-se politicamente na faculdade?

Envolvi-me em vários movimentos, em debates. Andava à procura do modelo certo para o curso de Economia, o modelo certo para a sociedade. Mas havia uma dificuldade em fazer a transição da utopia política para o concreto. Uma sociedade sem classes seria concretizável?, como? Considero-me de esquerda, mas nunca me filiei, nunca fui presa, não tenho esse tipo de militância. As pessoas transportavam nesse projecto uma grande dose de generosidade pessoal e misturavam isso com aquilo que todos os jovens querem: mudar o mundo. Eu tinha o maior respeito, mas não conseguia embarcar num processo em que não percebia como é que os objectivos se materializavam.

 

Pertence a uma geração profundamente utópica e sonhadora. Ainda que não prescinda do sonho, não consegue prescindir do vínculo à realidade.

Mas isso é muito feminino. Os homens são mais utópicos do que as mulheres. Talvez as mulheres sejam mais utópicas ao nível dos sentimentos.

 

São mais românticas.

Sim. Era importante haver mais mulheres na actividade política, porque trazem uma componente completamente diferente. Na gestão do tempo – têm mais coisas para fazer e controlam muito melhor o tempo. Na conciliação de interesses – percebem mais rapidamente quais são os interesses que estão em causa. Então, como é que se faz? Por onde vamos? Quem faz o quê? Para quê? E no fim, como é? Onde vivemos? O que comemos? São coisas que vêm do quotidiano, do mais essencial da vida. Este sentido está mais presente nas mulheres.

 

Essas são as suas perguntas cruciais? As que faz sempre? Para que é que isto serve? Como se faz? O que é que resulta disto?

Eu sou muito assim. Não queria cair num somatório de quotidianos, sem rumo, mas uma condicionante importante é o lado prático, a concretização. Sou muito relutante em fazer uma crítica se achar que não sou capaz de fazer melhor. De algum modo, foi isso que me levou para política: porque eu era muito crítica.

 

Conte como é que foi parar à política.

Eu escrevia nos jornais. Em 94/95, no último governo do Primeiro Ministro Cavaco Silva, era extraordinariamente crítica; a determinada altura, na sequência disso, o Eng. Guterres diz-me: “Então venha dizer como é que se faz! Venha fazer!”. Aquilo desafiou-me.

 

Porquê o Partido Socialista?

Não sou filiada. É a minha área ideológica, cruza um certo idealismo com um certo realismo.

 

Como começou a sua vida profissional?

Comecei a dar aulas na faculdade quando ainda era aluna. Optei por dar matemática e métodos quantitativos. Mas estar na faculdade, fechada, não era suficientemente interessante. Havia dois centros de investigação aplicada que eram pólos de saber e reflexão: a Comissão de Coordenação da Região Norte, liderada pelo Prof. Valente de Oliveira, e o Gabinete de Estudos do Banco Português do Atlântico, que estava nas mãos do Dr. [Miguel] Cadilhe. Acabei por trabalhar na CCRN. Foi uma escola para mim, uma grande escola de administração pública (que é uma coisa que faz falta em Portugal). Conciliei isso com as aulas. A determinada altura pediram-me para fazer uma análise…, eu nem quero dizer isto [risos], que diz muito sobre a minha idade..., uma análise sobre: “O que é que irá acontecer à região do Norte se um dia Portugal aderir à CEE”.

 

Mas nós já sabemos a sua idade: vem na Wikipedia que nasceu em 1955.

Eu sei, eu sei. Mas aqueles que dão a União Europeia como adquirida, os jovens que lerem isto, ficarão estarrecidos! Nunca me tinham ensinado assuntos de integração económica, eu era autodidacta. Fiz uma investigação pessoal, e daí resultou o meu primeiro livro sobre as questões da Comunidade Económica Europeia. A seguir fui para Inglaterra precisamente estudar assuntos do desenvolvimento regional e da integração europeia.

 

Voltemos à idade: quando vai para Inglaterra, quantos anos tinha?

Tinha 26 ou 25. Acabei o curso com 21. Fui em 1980, vim em 84, defendi a tese em 85. Fui fazer um mestrado. Eu estava sem orientador, havia meia dúzia de livros publicados sobre o assunto em Portugal. Fui para Redding, perto de Londres, a uns 60km, na zona sudeste de Inglaterra.

 

Inglaterra foi outra revolução no seu mundo?

Foi uma oportunidade fantástica! Há aquele primeiro contacto: “Estou aqui no meio do nada..., e se não consigo?”. Abriu-me horizontes. Aprendi sobretudo uma coisa: eu estava a estudar um artigo num dos livros recomendados, e não achei que aquilo estivesse bem. Mas, para mim, o livro tinha que estar certo! Formatei o meu pensamento de maneira a perceber o que estava no livro. Até que fui perguntar ao orientador. “What if the book is wrong?” [E se o livro estiver errado?]. “O livro está errado???!!”

 

Isso sim, foi uma revolução!

Uma ruptura! Eu estava habituada a ver várias teses, mas cada uma consistente; não tinha a ousadia de questionar de raiz. A seguir, a Universidade [do Porto] propôs que me patrocinassem o doutoramento; concorri à bolsa, consegui, fiz o doutoramento. Regressei e vim trabalhar para a Comissão de Coordenação da Região Norte, onde o doutoramento não tinha nenhum reflexo em termos de progressão na carreira. Mas voltei com muito mais capacidade de intervir e de perceber. Ficarei sempre grata aos dirigentes da Comissão, ao Prof. Valente de Oliveira e à Faculdade de Economia também: porque tiveram uma postura que não era vulgar na altura e permitiram-me esse salto.

 

Quando politicamente tem um percurso não é na área da Economia, mas na do Ambiente. A relação começa onde?

Na Comissão de Coordenação havia um projecto muito interessante, Science For Stability [Ciência Para a Estabilidade], em que se analisava o modo como um rio se auto-depurava a partir de várias fontes de poluição. O rio escolhido para o teste foi o rio Ave. Pediram-me para trabalhar essa questão em termos económicos, fiz um trabalho com os industriais, inquiria. Aprendi imenso sobre esgotos, tratamentos de água, etc. Mais tarde, fizeram-se duas experiências, uma na área de Setúbal, outra na área do Ave, e fui encarregada de ser responsável pela operação integrada de desenvolvimento do Vale do Ave.

 

Foi, então, convidada para Ministra pela sua valência técnica? Foi uma surpresa para si?

Foi, completamente, uma surpresa! Trabalhei dois anos na Associação Industrial Portuense, (que era como se chamava a Associação Empresarial de Portugal), como Vice-Presidente, e era muito crítica relativamente ao que estava a acontecer em Portugal – o nível como estava a ser preparada a taxa de equivalência, a taxa de câmbio do Escudo para o Euro, a pressão sobre a indústria… Escrevia no jornal, juntamente com uma série de colegas, uma coluna que se chamava “Da Outra Margem”. E participei nos Estados Gerais como independente, porque achei que estava chegado o momento da mudança. Fiquei muito surpreendida quando o Eng. Guterres me disse: “Quero contar consigo para Ministra do Ambiente”.

 

Porque é que aceitou?

Por brio. “Tenho que mostrar o que valho.” Aparentemente, ele conhecia-me, tinha-me notado, quando eu era responsável pela operação integrada do desenvolvimento do Ave.

 

Gostou de ser Ministra?

Gostei muito. Foi um trabalho fascinante. Não é uma coisa que se possa fazer durante muito tempo, porque é muito desgastante, mas a democracia garante que isso não aconteça, felizmente!

 

O que é que mais desgastante? Tem que ver com a pressão a que se está sujeito? Eu lembro-me, toda a gente se lembra, daquelas imagens…

Da co-incineração?

 

Parecia simultaneamente uma mulher de um enorme estoicismo e emocional. Como tem uns olhos muito expressivos e grandes...

Só se via olhos!

 

Era como se tudo afluísse aos olhos.

Custou-me muito sentir que as pessoas estavam, na minha opinião, a ser utilizadas, e mal utilizadas. Aquilo era um não-assunto. Eu estava convencida de que estava certa, e ainda estou convencida de que estava certa – aliás, as coisas estão a ser feitas, aquilo não tinha perigos para a saúde pública. Revolta-me a injustiça, a demagogia.

 

Essa emoção que se lhe percebia derivava mais da raiva?

Sim, e de as pessoas não estarem disponíveis para analisar, para ouvir, para discutir. Os meios de comunicação social empolavam e impediam, de algum modo, o diálogo. Foi um assunto em que todos gastámos mais energias do que era adequado e necessário. Nunca senti nenhum medo físico, nada, nada. As pessoas estavam a manifestar-se e uma senhora de idade segurou-me na gola do casaco; foi nessa imagem que ficaram convencidos que me iam bater. Mas não. A senhora estava a olhar-me nos olhos e a dizer: “A minha filha está grávida e eu tenho a certeza que o meu neto já vai nascer doente...”. Se ainda não havia co-incineração… Mas a senhora estava convencida disto. Percebo que as pessoas desconfiem, o que acho grave é que, por outros motivos, nomeadamente partidários ou de protagonismo, se estimule o receio e a desconfiança. Uma sociedade não pode funcionar assim. Tirando esse desconforto e o cansaço físico, nunca deixei de dormir por causa disto.

 

Depois disso, foi Ministra do Planeamento. Para quem caiu na política de pára-quedas acabou por integrar-se muito bem. Vê-se como uma política?

Não, vejo-me como um cidadão activo. Como uma pessoa que percebe que o país precisa que trabalhem para ele. Gosto muito do serviço público.

 

A juntar à experiência ministerial, há os dois anos em que foi deputada e a experiência do Parlamento Europeu. Tudo somado, compreende um bloco significativo da sua vida.

Claro que sim, não recuso isso. Um colega sueco dizia-me recentemente: “Há uma carreira política. Primeiro é-se Presidente da Câmara, depois é-se Secretário de Estado, depois é-se Ministro”.

 

No seu caso é ao contrário: começou por ser Ministra!

Pois, Ministra já fui!

 

E agora, é candidata à Câmara do Porto.

Voltar ao Porto, e intervir no Porto, é uma coisa que claramente me seduz.

 

Porquê esta opção? Gostaria de ser Presidente da Câmara do Porto para fazer o quê?

Para fazer. Para relançar. Penso ter condições pessoais, políticas e institucionais para mudar a minha cidade, para tornar a pô-la a cidade afirmada e orgulhosa que o Porto é. Isto também é uma coisa que herdei do meu pai: ele era um portuense faccioso! [risos] Eu procuro não ser facciosa! Este amor pela cidade foi uma coisa que o meu pai me incutiu. O orgulho do espírito liberal do Porto… Eu era miúda e era pelo D. Pedro e contra o D. Miguel – o D. Pedro era da cidade. Se puder ser útil à minha cidade depois desta trajectória toda, é algo que me mexe cá dentro.

 

O pessoal sempre se imiscui… Esta opção, de modo longínquo, tem que ver com o seu pai. Pelo menos, fá-la falar dele novamente. Ele não assistiu à sua trajectória pública…

Nada.

 

Sentiria especialmente orgulho?

Acho que sim, mas isto nunca lhe teria passado pela cabeça.

 

O que é que a fez avançar com a candidatura?

São sobretudo condições que me permitem propor um contrato sério com os portuenses. Condições de convergência em cima de um programa credível, concreto, de relançamento da cidade. Ter apoios institucionais e políticos que me permitam concretizar esse programa. Encontrar, a partir da confiança que o partido depositou em mim, os protagonistas competentes, dentro e fora do Partido Socialista, que possam garantir a sua boa execução. O apoio de um partido que tem sido completamente aberto e interessado. Depois de inúmeros encontros que mantive, estou convencida de que a cidade quer mudar e não está conformada.

 

Ainda não falámos do facto de ser uma mulher que ocupa desde sempre uma área tradicionalmente masculina. Primeiro na Economia, depois na Política.

Habituei-me a essa situação e não estranho. Agora há muito mais mulheres em todas estas áreas, e é muito bom, muito gratificante.

 

Na faculdade, olhavam para si com estranheza?

Fui a primeira mulher doutorada da Faculdade de Economia do Porto, e lembro-me de me dizerem com um ar consternado: “Mas que pena, que não há modelo de vestes académicas para mulher, como é que vai ser?” [risos] Ficou um bocadinho mais caro, mas comprei vestes inglesas, que eram unissexo! E cheguei a arguir teses de doutoramento com uma capa de estudante, porque nunca tive capa!, (pedi emprestada).

 

Antes de ligarmos o gravador, durante o jantar, falámos informalmente de roupa. O que se veste, a maneira como se está – quando se está entre homens – é uma coisa que a preocupa, em relação à qual tem um especial cuidado?

Francamente não. Foi muito importante não ter falhas profissionais, porque somos todos iguais, mas quando uma mulher falha profissionalmente, deixamos de ser tão iguais... É muito fácil dizer “Ah, a senhora...” ou “Aquela menina...”. Há logo um tom depreciativo. A Simone de Beauvoir dizia: “Só haverá igualdade quando houver tantas mulheres incompetentes em lugares de responsabilidade como há homens”. Já não é assim, mas quando se é uma entre homens, até adquirir credibilidade, até ter o nome consolidado, há mais atenção sobre nós. Nunca interpretei isso pelo lado do físico. Dentro da educação que tive a austeridade era o código.

 

Quanto mais discreta, melhor.

Era o combate ao exibicionismo, ao consumismo, ao desperdício, que eram coisas muito mal vistas lá em casa.

 

Baton vermelho, nunca pôs?

Eu não ponho! Não me fica bem. Se tenho os olhos como tenho, se ponho a boca vermelha, fica um bocadinho demais! [risos]

 

Esses olhos, herdou-os de quem?

Não sei. Os meus pais tinham os olhos castanhinhos. O meu avô materno tinha uns olhos azuis, porcelana, um ar meio holandês…, talvez tenha herdado dele. Às vezes, em miúda, pensava que tinha sido adoptada, porque não sou parecida com ninguém!

 

Hoje parecem mais pequenos do que na televisão ou nas caricaturas.

Estou sem maquilhagem. As minhas primas diziam-me sempre que eu devia vestir melhor, pintar-me mais, arranjar-me mais.

 

A sua forma de afirmação nunca foi por aí?

Não. Nunca foi um ponto forte. Não me interessava, nunca pensei muito em mim dessa maneira. O meu marido, o Zé, ajudou-me bastante a puxar pelo meu lado mais feminino. “Veste isto...põe aquilo...porque é que não pões?”.

 

Nas conversas que tem com as suas filhas, estes temas entram?

Entram necessariamente, elas puxam-nos. E eu gosto de ouvir as opiniões delas! “Isso fica mal... Voltaste a usar uma coisa... Tens de te desfazer dessa roupa... ”. A minha filha [que tem 26 anos] é sensível a isso. A mais pequenina tem 14.

 

Elas têm muito orgulho em si?

Não sei, tem de lhes perguntar. Acho que, no fundo, têm.

 

Por outro lado, a figura pública rouba espaço à mãe… Incomoda-as?

Talvez seja um misto. Acho que têm orgulho e são muito solidárias comigo. Embora não se queiram meter em nada daquilo que tem a ver comigo, “Economia não, Política não.” Têm essa rejeição, sentem que é um mundo que absorve muito. São muito boas pessoas, e isso é o que é importante na vida: têm princípios. Eu é que tenho muito orgulho nelas!

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009

 

 

 

 

Elisa Ferreira (2015)

13.04.16

Elisa Ferreira é a coordenadora do grupo socialista no Parlamento Europeu. As suas áreas de trabalho têm sido Pacto de Estabilidade e Crescimento, banca e fiscalidade. A semana passada, em Lisboa, disse que é altura de os ministros das Finanças saírem de cena. E deixou no ar uma interrogação: a Europa pode viver sem haver nenhuma relação entre a imoralidade e a legalidade?

É formada em Economia pela Universidade do Porto, doutorou-se na Universidade de Reading, no Reino Unido. Foi ministra do Ambiente e do Planeamento, entre 1995 e 2002. É deputada do parlamento europeu desde 2004. Nasceu em 1955.

 

Se fosse ministra das Finanças, seria solidária com Varoufakis, com os gregos? Como é que olharia para aquilo que ele tem defendido?

Olharia de uma forma diferente daquela que a imprensa reporta como sendo a maneira como o governo português está a olhar. Os gregos são a ilustração de alguns exageros da receita que foi seguida na Europa, e que se distanciou muito do que era o projecto europeu.

Quando partimos para a moeda única, ninguém sabia como é que ia funcionar. Partimos sabendo que juntar debaixo da mesma moeda – abdicando voluntariamente dos instrumentos normais de gestão da economia –, países com níveis de dinâmica económica tão distintos, e com estruturas económicas tão distintas, continha sérios riscos.

 

Confiámos demasiado que ia correr bem, apesar dessas diferenças?

Havia muita confiança entre os países membros que eventuais falhas na arquitectura da moeda única podiam ser corrigidas pela vontade política de que o processo tivesse sucesso. Esta lógica original foi desaparecendo. Era a altura em que se dizia: “Tem que se promover a convergência nominal e a convergência real da economia, a competitividade”. Criámos alguns instrumentos para o mercado interno, reforçámos os fundos de coesão. Mas para a moeda única, a coisa foi pouco cuidada.

 

Está a falar de um período em que havia um predomínio de um desígnio político. Depois, o que parece acontecer é uma subversão desse princípio primordial, e um detrimento da política em relação à economia, e sobretudo à finança.

É verdade. Isto era um projecto político assente numa base económica. Neste momento parece um projecto económico. A política será uma segunda escolha.

 

O que é que foi determinante para a alteração da matriz?

Esta alteração foi acontecendo, também, em consequência de duas ou três mudanças. Uma foi a globalização. De facto, organizar uma área económica com uma concorrência tão brutal – e ainda bem que ela existe, trouxe muita gente para fora da pobreza extrema – do lado da Ásia, da América Latina, de alguns países africanos, tornou o mundo um espaço único.

 

A Europa não estava preparada para este embate?

A Europa tinha-se concentrado excessivamente no mercado interno, nos ganhos que adviriam de reforçar a concorrência no interior da zona. E continua a considerar que, dos grandes blocos mundiais, a Europa é aquele que menos clareza tem na definição dos seus interesses ofensivos e defensivos em termos globais.

 

Não tem essa clareza porque continua a apostar num jogo directo de toma lá, dá cá? Estou a pensar nisto: Portugal importa indústria alemã, a Alemanha cresce, Portugal fica sobreendividado entretanto.

O sobreendividamento do sul da Europa permitiu que a crise de perda de competitividade destes países fosse disfarçada através de crédito. No fim dos anos 90 havia taxas de juro elevadíssimas, e passou-se para taxas muito baixas, uma inflação relativamente contida, e um acesso hiper facilitado ao crédito. Em particular ao crédito de consumo e de habitação, que é o mais simples, o menos exigente para a banca comercial. Vivemos um período de empolamento, de riqueza sem substância. Cidadãos e empresas usaram o endividamento. Mas isto acabou por ser um balão de oxigénio que estimulou a economia daqueles que continuaram a produzir, a exportar. Se olhar para o nosso parque automóvel, percebe quais eram as marcas predominantes no mercado.

 

Eram alemãs.

Para já não falar de grandes encomendas de Estado, de que os submarinos são apenas a superfície. Há países que continuaram a proteger e a manter a sua base produtiva. Honra seja feita à Alemanha, que foi inteligente e conseguiu manter essa base produtiva, reforçá-la, fazer uma ligação muito estreita entre a banca alemã e o fornecimento de crédito e indústria. Muito do crédito favoreceu, dentro da Europa, aqueles que continuaram a produzir, em particular aquele arco do centro da Europa e norte da Europa.

 

É arriscado dizer que Schäuble e Merkel, e a política que defendem, mandam mais sobre a Europa do que muitos governos, democraticamente eleitos, de cada um dos países? Estes são reféns de tratados que assinaram e do dinheiro de que precisam. Ou é empolado este poder desmesurado da Alemanha?

Não. Há forças internacionais que se cruzam em cima dos interesses dos Estados. Há outros elementos que também mudaram muito: o poder dos mercados financeiros face aos sectores mais tradicionais que conhecíamos. Na área dos serviços criou-se a tal indústria financeira brutal. Há elementos que fazem com que se distancie – e os cidadãos cada dia sentem mais isto – aquilo que é o exercício do seu poder democrático, e o impacto que esse exercício tem nas políticas que são aplicadas.

Mas a Europa continua a ser um grande elemento de protecção. É muito mais fácil gerir as relações com o Brasil ou com a China debaixo de um grupo forte como é a União Europeia do que individualmente.

 

Apesar das disparidades entre países, do alargamento da Zona Euro, da crise do projecto europeu...

Disparidades em termos de dinâmica económica e em termos de poder político. O problema da Alemanha é que, talvez sem uma intenção específica de liderança, e sem consciência da responsabilidade que o seu poder traz, acabou por ser o grande ganhador destes processos.

 

Não foi um processo consciente?

Foi um processo consciente de defesa dos seus próprios interesses. O problema é que o seu poder é tão avassalador que, quando a Alemanha define o que é que interessa, arrasta toda a Europa atrás dela. As políticas comuns, que são aparentemente iguais para todos: não significa que afectem da mesma maneira os diferentes espaços em que incidem. Isto é um factor de perpetuação dos desequilíbrios.

 

Então, vamos chegar onde? Alguns países, os que não conseguem cumprir metas orçamentais ou pagar a dívida, são expulsos da zona euro porque não têm capacidade para aguentar o ritmo? Este cenário é mais provável do que o fim do euro como o entendemos?

É muito difícil antecipar o futuro. Mas há condições para progredir. Antes de mais que se faça uma leitura técnica de como é que funciona uma moeda única. E que tenhamos a inteligência de nos sentarmos à volta de uma mesa e pararmos com este absurdo de considerar que uns são culpados e outros são virtuosos.

 

As regras, que datam de há 25 anos, quando a moeda única foi desenhada, deixaram de ser válidas?

As regras são [válidas], o modelo é que ficou incompleto. Quando a Europa define que abre as portas às importações chinesas sem levantar qualquer problema em termos ambientais, está a tomar uma decisão. Perdem os produtores daqueles produtos, na Europa, foram obrigados a fazer requalificações ambientais, a cumprir uma série de regras. E ganham os importadores, que importam a preço muito mais reduzido. Quando definimos o posicionamento em relação aos nossos parceiros internacionais, estamos internamente a dizer quem ganha e quem perde.

 

Aí já estamos a falar de quem define o nosso posicionamento, em função de que interesses.

A capacidade de lobby da Alemanha, e de imposição de agenda: se a Alemanha disser que nas nossas relações com a China tal produto não pode entrar, porque tem um interesse defensivo, isso passa a ser a norma da União Europeia.

Isto é um lado da História.

Do outro: a Grécia, não tem áreas onde precisa de fazer reformas estruturais? Sim. A Grécia estar durante quatro anos debaixo de uma troika, e a troika não ter imposto nenhuma das mudanças que ela precisava de fazer, e ter causado uma destruição interna como esta a que estamos a assistir, leva-me a pensar que o ajustamento que lhe foi imposto não foi o correcto. Não admito que digam que a Grécia não fez nada. Não se perde 26% do PIB em quatro anos quando não se faz nada.

 

O desemprego é de 25%, o desemprego jovem é de 50%.

O que me choca é a inutilidade desse esforço.

 

Apostou-se na contenção de contas públicas. Não é o mesmo que reformas estruturais.

Não. A contenção das contas públicas feita pela troika foi excessivamente concentrada em valores nominais do défice. Descurou a dívida, que foi a origem do nosso problema.

 

Está agora a falar de Portugal ou da Grécia?

De todo o pacote. Queremo-nos isolar uns dos outros.

 

“Queremos” – quem?, Pedro Passos Coelho, o Governo português?

Portugal não é a Grécia, a Irlanda não era Portugal. A Espanha não é a Grécia nem Portugal. A Itália não é a Espanha. Este é um dos problemas, há uma abordagem moralista e não uma abordagem económica do que se está a passar. Há uma culpa associada ao que correu mal.

 

Não há culpa?, e não é importante apurar a culpa?

Essa culpa existe, mas não é na dimensão que o mainstream identifica.

 

No caso português, há uma culpa, sobretudo imputada aos governos socialistas, pelo sobreendividamento e pelo défice brutal. Portugal foi dos países que mais se endividaram nos últimos anos. Mas quase ninguém diz que a culpa é inteiramente portuguesa. Mesmo os mais críticos, sabem que os problemas resultam, também, das condições internacionais.

Resulta do facto de, na estrutura que temos na moeda única, a dívida ter crescido nos países menos competitivos sem limite e sem controlo.

 

Disse que as regras da moeda única eram as mesmas mas que o modelo tinha ficado incompleto. Incompleto ou demasiado imperfeito?

Neste momento é demasiado imperfeito. Não vai poder continuar a funcionar assim. A questão é se queremos completá-lo ou não. Mas se o quisermos completar temos que ter vontade política. Se continuar assim, mesmo que esta crise seja ultrapassada, vai voltar a romper lá à frente.

 

Em que sentido podemos evoluir?

Uma possibilidade é evoluir para um nível quase federal. Nesse caso, há aspectos que têm que ser clarificados: o que é que fica ao nível federal, o que é que fica ao nível nacional. E a consciência de que temos que ter um orçamento sólido.

 

A crise explodiu nos Estados Unidos em 2008 e a Reserva Federal imprimiu dinheiro; dessa maneira relançou com maior rapidez a economia. Na Europa, sendo uma coisa diferente, só há poucas semanas tivemos a bazuca de Mario Draghi. Só há pouco tivemos, do Banco Central Europeu, um estímulo há muito pedido.

Em 2008, 2009, no Parlamento Europeu, fizemos um relatório pedindo à União Europeia que fizesse uma estratégia de relançamento da economia. A Comissão disse-nos que não tinha margem para o fazer. (O orçamento europeu vale 1% do PIB da União Europeia. Qualquer governo federal tem 20 a 30% do PIB no orçamento federal.) A primeira recomendação que a Comissão Europeia deu aos diferentes Estados membros foi: “Avancem com políticas expansionistas”. Os países mais frágeis, que não tinham uma dívida pública muito elevada – como Portugal –, aumentaram a sua exposição aos credores. Até que a coisa atingiu um ponto em que, na Grécia, os credores começaram a dizer: “Esta dívida é insuportável. O facto de estar no Euro não significa que todas as dívidas sejam pagas igualmente”. Seja ela alemã ou grega. Na prática, a Europa reagiu não agindo. Reagiu tarde, pouco e mal. E de forma descoordenada.

 

Voltemos à Grécia. A questão no imediato é a renegociação da dívida, mas o que o Syriza está a discutir é um novo modelo económico, social e político, em que a forte tributação deixa de ser sobre o trabalho para passar a ser sobre o capital. Neste momento, o que parece haver na Europa é uma lógica de funcionamento em que capital está contra trabalho, o trabalho está contra capital. Qual deles é que privilegiamos?

É uma questão fundamental que se divide em duas. Uma é a curtíssimo prazo e é um braço-de-ferro. A Alemanha e os países considerados credores impuseram uma receita, a da troika, que assenta em fazer um ajustamento. Não se pode fazer uma desvalorização na moeda, porque é única, então faz-se uma desvalorização interna dos salários, dos rendimentos, das pensões, independentemente dos limites políticos e sociais a esse esmagamento. No caso da Grécia passou-se o limiar do aceitável.

 

As palavras usados pelo novo governo grego são de crise humanitária.

Os credores são insensíveis a essas questões. Este braço-de-ferro, do lado dos credores, corresponde a dizer: “Votaram contra a troika, contra esta agenda, e não podemos compensar o crime da desobediência, a rebeldia, porque senão os outros vão fazer o mesmo”.

 

A Irlanda até já disse que também quer.

É o fim do modelo da austeridade. Por outro lado é preciso termos consciência de que isto não é um problema da Grécia. Nem é um problema de Portugal. É um problema de todos os países que foram perdendo competitividade durante o funcionamento do Euro. E quando veio a crise, foram os elos mais fracos. Todo este mal-estar, que resulta de a única receita ser austeridade e ajustamento, leva a que as pessoas comecem a desacreditar da política e da democracia – a desacreditar da Europa. Os gregos revoltam-se e aparecem com um porta-voz que deve ser escutado. Estamos a esquecer-nos de que o maior partido da oposição em França é o de Marine Le Pen.

 

Basta olhar para as eleições europeias do ano passado e para o sinal que elas deram, nomeadamente para a subida dos partidos anti-Europa.

O Podemos está como um dos grandes partidos. Era um movimento cívico. Não se pode deixar de ouvir. É demasiado perigoso. Os títulos que aparecem na imprensa alemã são populistas. “Os preguiçosos, pediram-nos dinheiro e não nos querem pagar”. Temos 125 milhões de pessoas em toda a Europa que estão numa situação de quase pobreza.

O problema que estava a colocar, [da tributação dos rendimentos do capital e do trabalho], é sério. O cidadão comum sente que está completamente esmagado de obrigações fiscais e vê passar por cima da sua cabeça massas brutais de dinheiro em busca de paraísos fiscais. O que acontece na Europa é que a matéria da fiscalidade, embora estejamos a harmonizar tudo, estranhamente, manteve-se autónoma. Cada país pode bloquear, porque a regra da unanimidade é que funciona, qualquer iniciativa de convergência fiscal dentro da Europa. Convivemos aqui com paraísos fiscais ao nosso lado.

 

Isso pode traduzir-se em fracturas sociais muito graves.

Já se está a traduzir. Há aqui uma agenda para refazer se ainda acreditamos que vale a pensa salvar o projecto europeu.

 

Este vai ser um ano de eleições. Se fosse ministra das Finanças do PS – estou a insistir na finanças porque parece que neste momento as finanças são mais determinantes do que qualquer outra pasta, apesar de a sua área ser a economia –, defenderia uma alteração de medidas tomadas nos últimos anos? Por exemplo, em relação à reforma do IRC, privatizações?

Em primeiro lugar, não me vou pôr nesse lugar, não sou candidata. Em segundo lugar, não rejeito dois conceitos que foram centrais à política seguida neste período. Uma é que é preciso reformas estruturais. E outra é que é preciso ter um cuidado enorme com a dívida e o défice. Preocupa-me mais a dívida.

 

Porquê?

Concordo com estes elementos, mas interpreto-os de uma forma diferente. O défice, vejo-o como uma variável que pode oscilar e tem que tender para o desaparecimento. A dívida: é preciso conter as contas públicas e fazer reformas estruturais. As reformas estruturais não são desmantelar o mercado de trabalho. Não são precarizar o mercado de trabalho. Não são esmagar salários por sistema na função pública.

Quanto mais privatizarmos sectores importantes, mais qualidade temos que ter na função pública. Não podemos depender todos dos mesmos gabinetes de advogados, uns pelo lado do Estado, outros pelo lado dos privados, e depois andar a ver quem é que paga mais. Estamos a desqualificar e a descredibilizar a função pública e ao mesmo tempo a privatizar sectores fundamentais.

 

Criou-se a ideia de que o Estado é despesista, é corrupto, é ineficiente. Que aquilo que se deve fazer é deslocar o que o Estado não é capaz de fazer para a mão de privados.

Infelizmente a história recente, portuguesa, internacional, veio mostrar que esse discurso precisa de ser revisto. O caso do BES ou da PT arrumam com isso. Querem desacreditar o Estado, reduzem o Estado. O Estado é que é o culpado. Essas generalizações acabam por ser perigosas. Em sectores estratégicos, como o sector eléctrico, devíamos ter lutado por manter uma presença. Uma golden share ou um poder especial de defesa do interesse público, que frequentemente entra em conflito com o interesse privado, é um factor essencial de estabilidade numa sociedade, e de sobrevivência de um país.

 

A mesma coisa em relação à TAP? Na sua opinião, em tudo aquilo que são sectores estratégicos, mesmo que se proceda a uma privatização, o Estado deve continuar…

... a ter um poder. Só não privatizámos a Caixa Geral de Depósitos porque à última hora a coisa não correu bem. Se privatizarmos o sector da água, da electricidade, os transportes, no fim, que poder temos nós?

 

Está a dizer que isso não são anéis, são dedos.

São. O Estado tem de manter um poder sobre esses sectores, de salvaguarda da componente de serviço público. Relativamente à TAP, a proximidade do período eleitoral não recomenda de modo nenhum que se faça uma privatização. A solidariedade europeia tem que se exercer garantindo aos países que há dimensões humanas mínimas que ficam garantidas. Que há sectores estratégicos que não ficam a saque dos credores. Lamento que não tenha sido nada disto que a Europa conseguiu transmitir nestes anos.

 

Qual acha que devia ser o eixo principal da política do PS em relação à economia e às finanças?

Em síntese, reconciliar uma estratégia de crescimento com o equilíbrio das contas públicas. Isto significa arranjar aliados europeus para que a agenda europeia nos permita esse espaço de respiração.

 

Quem é que podem ser os nossos aliados?

Eles existem ao nível dos grupos políticos. O grupo dos socialistas tem tentado começar a construir essa agenda. Jean-Claude Juncker não é do meu grupo político, mas foi apoiado. É um europeísta convicto, um homem experiente que não tem medo da Sra. Merkel. A agenda do Juncker está a tentar abrir espaço, merece ser apoiada. As suas iniciativas de flexibilizar as regras do pacto, ou a interpretação das regras do pacto, permitem fazer um ajustamento do défice da dívida mais consentâneo com o ciclo económico. Há uma outra dimensão: ter Mario Draghi à frente do BCE é muito diferente de ter Jean-Claude Trichet. É um homem com muito mais abertura e coragem. Se hoje temos a dívida soberana nos mercados internacionais muito mais baixa, foi porque ele, no Verão de 2012, disse: “Vou intervir no mercado e acabar com estes jogos”.

 

Começámos por falar de finanças e do quase desaparecimento da política, e acabamos a falar de economia.

Sim. Durante a crise os ministros das Finanças foram chamados ao primeiro plano, e ficaram lá. As finanças são necessárias, mas não são o suficiente para que os cidadãos se identifiquem com os políticos. Quase não há primeiros-ministros. Quando reúnem os chefes de Estado e do Governo, antes reúnem os ministros das Finanças. Os primeiros-ministros acabam por ser quase porta-vozes do que dizem os ministros das Finanças.

 

O facto de todos sabermos hoje o nome do ministro das Finanças grego ou alemão, diz qualquer coisa. Há dez anos não saberíamos.

Os ministros das Finanças têm que sair do palco e têm que entrar os ministros da Economia, do Emprego, da Saúde, da Educação. Temos que ter outra agenda. Basta de ministros das Finanças!, isto subverte o que é a Europa. É também por isto que os europeus não vêem nenhum desígnio à sua frente. Não há futuro, há o défice do próximo ano.

 

Recentemente, a propósito dos Swiss Leaks, dizia que enquanto se permitem paraísos fiscais, vão buscar dinheiro ao bolso dos contribuintes...

Não é aceitável.

 

Começa-se por onde?

A Europa é a maior praça financeira mundial. Tem obrigação de fazer alguma coisa, dar o exemplo. Se, neste momento em que estamos a fazer um acordo com os Estados Unidos, de comércio livre, reforçarmos o diálogo em matéria de regulação do sistema financeiro, se estes dois blocos levarem a sério esta agenda, é evidente que isto tem um impacto enorme na regulação global.

 

A agenda tem de ser concertada. De outro modo, o dinheiro voa para o vizinho do lado.

Também se dizia em relação à regulação dos bancos: se pusermos um imposto sobre as transacções financeiras, há inúmeras reacções e bloqueios com o argumento de que as transacções vão ser todas feitas fora da Europa. Mas faz sentido que compre uma sopa e pague IVA e que compre um produto financeiro e não pague nada? Os produtos financeiros são comprados e vendidos em milésimos de segundo, e nada paga nada. Se são essas transacções arriscadas que se vão deslocar para o extremo Oriente, não sei se devemos ficar preocupados. Há aqui um sentido de justiça. O cidadão comum não tem o grau de ignorância relativamente a estes assuntos que tinha nos anos 60. Há uma questão de legitimidade na cobrança dos impostos. Só quem está fixo e depende do salário, e as pequenas empresas, é que pagam?

 

Há disparidades brutais de país para país em relação a aspectos muito significativos.

O mais chocante não é que haja diferenças entre os Estados Unidos e a Europa. É que na Europa o cálculo da matéria colectável, para empresas iguais, seja feito de forma diferente de país para país. Alguns países jogam em criar diferenças que lhes permitam capturar… todos sabemos: capturar as sedes dessas empresas.

 

Estão na Holanda as sedes das nossas maiores empresas.

O que complica a questão é que, dada a circunstância de tudo ter de ser, nessa matéria, aprovado por unanimidade na Europa, essas práticas não são ilegais. Se ouvir o que diz o Jean-Claude Juncker, ou o que dizem alguns empresários, isso é boa gestão. É legal. E a Europa pode viver sem haver nenhuma relação entre a imoralidade e a legalidade?

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2015