Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anabela Mota Ribeiro

António Guterres

12.12.16

Numa entrevista, há uns meses, falava de um filme chinês que viu e de que gostou, «Yi- Yi». No filme um menino de seis anos tem a intenção de fotografar a verdade. Fotografa, então, a nuca das pessoas que, supostamente, nunca têm acesso à sua dupla face. Menino de seis anos, quais eram os seus intentos? Tinha noção da dupla face da realidade?

O meu imaginário infantil é de base rural. O meu avô materno, que teve três filhas, sentiu uma enorme alegria quando nasci e fez pressão junto dos meus pais para que passasse o máximo tempo possível com ele, lá nas Donas. Nos primeiros seis anos da minha vida passei um terço do ano na Beira Baixa. O imaginário rural é muito mais forte que o urbano; mas também muito mais ligado à terra, à realidade. Se quiser é como o granito, que é a rocha da minha região: dá-nos uma certa solidez nas convicções, permite-nos encarar a vida com um conjunto de certezas – mesmo que depois, pela vida fora, sejam postas em causa. Isto é, a realidade é tão rica, tão variada, tão forte, que normalmente não a pomos em causa. Não nos interrogamos se corresponde ou não à verdade.

 

A ausência é muito mais fantasista.

Exacto. Por ter vivido esta realidade, a minha infância não foi de grandes angústias ou dúvidas.

 

Foi uma infância de gineceu, com a mãe e as tias, a avó e a criada (como então se chamava)?

Não. Tinha duas figuras de identificação masculina muito fortes, o meu pai e o meu avô, que preencheram a minha primeira infância. Depois, na Beira, anda-se muito na rua, em contacto com os outros miúdos, que correspondiam a um leque social muito diversificado. A maioria deles, e os anos 50 eram anos de pobreza, com situações de dificuldade, de pé descalço. Essa realidade é também muito forte, muito dura até.

 

Como não era a sua realidade, admite que possa ter marcado uma diferença entre o que era o seu estatuto e o estatuto dessas crianças?

Marcou foi muito claramente um sentido de solidariedade com essas crianças, que eram os meus amigos. Que sofriam o que eu não sofria. Que tinham dificuldades que eu não tinha. E isso contribuiu decisivamente para mais tarde me dedicar à política e ter ideais socialistas.

 

Teve uma professora que o ensinou a ler aos quatro anos.

As professoras da aldeia eram muito amigas da minha mãe, e quando lá estava ia muitas vezes à escola. Por gosto.

 

É deliciosa a ideia do menino bem comportado que acompanha a senhora professora. Ela dizia que a sua letra era certinha e que não dava erros. Recorda essa professora?

Muito bem. Foi sobretudo com uma, Maria de Lourdes, que aprendi; a outra chamava-se Maria Angélica. A elas devo o ter sabido ler e escrever muito cedo.

 

O encontro precoce com as letras, a curiosidade sempre instigada, foram determinantes para o seu desenvolvimento intelectual futuro?

O facto de me ter interessado pela leitura tão cedo marcou-me pela vida toda. Ainda hoje, todas as noites, leio. E não leio dossiers.

 

Lê livros de história, não é?

Basicamente livros de história. A leitura foi sempre um hobby. Na infância lia as histórias próprias da idade. Na adolescência, além dos portugueses clássicos, uma série de outros autores que fui descobrindo. Steinbeck e Hemingway tiveram uma grande influência no fim da minha adolescência.

 

A presença do seu pai, nessas escolhas, era muito sentida? Consta que não comprou televisão para não o dispersar dos estudos. Queria que tivesse uma vida diferente daquela que ele teve.

Os meus pais fizeram um enorme investimento para que pudesse ter todas as coisas de que necessitava. Para poder ter êxito na vida em todos os seus aspectos. E sempre me rodearam de um afecto extraordinariamente forte. Penso que os afectos, a sua força e diversidade, são decisivos para a vida das pessoas. Eu não estudava à noite... Não terá sido por isso que os meus pais não compraram televisão.

 

O que é que o seu pai ambicionava para si?

Desejou que eu pudesse ter acesso a tudo aquilo que ele não teve. Ou só teve graças a uma vida de muito trabalho e grande sentido de responsabilidade. Teve onze irmãos, uma infância mais difícil, não pôde tirar um curso superior. 

 

Sentiu que tinha essa responsabilidade sobre si?

Não. As coisas aconteceram com naturalidade, nunca senti uma pressão particularmente forte.

 

Porque há, desde sempre, uma opção pela não transgressão. Como se a virtude fosse o seu dever. Era o menino bem comportado da letra redonda, o menino que só brincava depois de fazer os trabalhos de casa.

É capaz de ser uma imagem fantasiosa que as pessoas hoje dão, passadas algumas dezenas de anos.

 

Não corresponde à verdade?

É uma imagem estereotipada. Também fiz as minhas traquinices. Tive uma infância muito mais livre, estando na rua de manhã à noite, que a generalidade das crianças das cidades. E quando se tem liberdade, quando se não tem limitações, isso não nos obriga a transgressões desnecessárias. As transgressões decorrem muitas vezes dos limites que são impostos. Há uma frase do Brecht que diz: «Tão violento é o rio que tudo arrasta como as margens que o comprimem». Não tive margens que me comprimissem particularmente e por isso não tive necessidade de arrastar muita coisa no meu caminho.

 

Não ter necessidade de transgredir é um aspecto importante. Num texto antigo dizia: «Toda a minha vida se traduz na tentativa da minha mãe de me controlar e na minha de fugir ao controlo».

Isso é mais tarde. Na adolescência e juventude participei com intensidade em movimentos associativos de natureza diversa, muitos ligados à própria igreja, que correspondiam a uma ocupação muito significativa do meu tempo e me faziam escapar ao controlo familiar. Movimentos de trabalho social, em bairros de lata de Lisboa, na organização de colónias de férias para miúdos de fora de Lisboa. Os meus pais, e em especial a minha mãe, eram capazes de pensar que aquilo era tempo perdido.

 

Mas a sua mãe era católica.

Todas as mães têm tendência a controlar um pouco os filhos, acho isso normal.

 

Não é imediato, mesmo assim. Continuava a ser um aluno exemplar. Estava ocupado, mas em obras sociais de vocação católica.

Uma coisa são os resultados quando conhecidos. Outra é o que se passa antes de se conhecer os resultados. Podia ser visto como um risco ao normal funcionamento do meu curso.

 

Foi justamente esta convivência com os bairros de lata, a confrontação com a injustiça, que despertou em si o desejo de ser político.

Há, por um lado, a memória da injustiça que eu trazia comigo na impressão marcante do mundo rural nos anos 50, onde me sentia um privilegiado. Por outro, o choque com a realidade dos bairros de lata de Lisboa, que não tinham nada a ver com a minha vivência. Recordo quando organizámos uma colónia de férias na Fonte da Telha; o autocarro desceu o caminho de areia, e o grupo de que era suposto tomar conta, tinham 11, 12 anos, começou a correr, desenfreadamente, descendo a barreira, directo ao mar. Meteram-se dentro de água, rapazes e raparigas, completamente vestidos. Ficámos perplexos, organizadores e monitores, e depois, falando com eles, percebemos: nunca tinham visto o mar. Ou seja, viviam na Curraleira, a Curraleira é em Lisboa, e nunca tinham visto o mar. Isto é um símbolo de injustiça, de exclusão social profundíssima e chocante. 

 

De certa forma, foi a confrontação com situações desse tipo que o afastou da Física, a sua primeira fascinação?

Fez-me pensar que ser investigador em Física, o meu objectivo da altura, era capaz de ter uma utilidade social pouco relevante. Formei-me em engenharia, trabalhei fundamentalmente como economista, e dediquei-me à vida política com o objectivo de tentar, na medida das minhas possibilidades, que situações como essa pudessem desaparecer.

 

Houve um momento que em formulou, de si para si, que queria ser político?

Não um momento, mas uma transição. Houve um acentuar progressivo de um conjunto de preocupações. E no período que antecedeu e que sucedeu ao 25 de Abril houve um forte apelo da vida política em si. As coisas conjugaram-se, e encontrei na política a resposta a essa ansiedade.

 

Em 75 foi à União Soviética e, no regresso, percebeu que tinha de fazer uma opção entre a carreira académica e a política.

A opção é anterior, embora a sua expressão tenha sido nessa altura. Senti, não por ter ido à União Soviética, que o que estava a fazer no Técnico, como assistente, não tinha a seriedade que considerava indispensável – não tinha já tempo suficiente para isso. As duas coisas eram incompatíveis. Devia fechar uma delas e dedicar-me à outra. 

 

O seu empenhamento político, enquanto estudante do Técnico, teve sempre uma motivação católica.

Não tive uma actividade política significativa antes do 25 de Abril. O meu envolvimento foi em questões de natureza social. Fui lentamente, com isso, despertando para opções políticas. Entrei para o PS justamente no dia 25 de Abril de 74.

 

Onde eu queria chegar era a uma dicotomia essencial ao seu posicionamento político (e de síntese nem sempre fácil): Socialismo/ Catolicismo.

O problema não existe, nunca existiu. Também não quero fazer a demagogia de dizer que Cristo foi o primeiro socialista da Terra, (essas tentativas de contra-resposta são igualmente absurdas). São dois mundos diferentes. Ser cristão dá-nos uma matriz de valores. Ser socialista dá-nos uma visão política do mundo e uma vontade de intervir. Não há qualquer contradição entre uma e outra. Mas não creio que seja aceitável instrumentalizar, para a acção política, os valores cristãos. Há que distinguir os valores do Evangelho do comportamento concreto que em cada momento uma instituição, a Igreja Católica, tem. Essa confusão não pode ser feita. É verdade que em muitos momentos a Igreja Católica teve comportamentos ligados a forças conservadoras, é verdade que a Inquisição existiu. Como também é verdade que há uma teologia da libertação, que a Igreja esteve por detrás de movimentos revolucionários na América Latina. Em nenhuma das circunstâncias, à Direita ou à Esquerda, faz sentido instrumentalizar a Igreja ou as convicções religiosas. Se quiser, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

 

Portanto, a conjugação de um e de outro não foi nunca um problema para si. O socialismo que reclama tem os valores de solidariedade da Esquerda e os valores de iniciativa da Direita.

É a síntese moderna do pensamento socialista. O pensamento socialista moderno fez uma síntese entre os valores tradicionais da social-democracia, a solidariedade, a justiça social, com os valores do que se exprimiu sobretudo do outro lado do Atlântico, com filósofos como John Rawls, ou Dworkin, ou Michael Walzer. Em todos eles há uma consciência muito forte da importância da iniciativa e da actividade individuais. Não é possível construir hoje uma sociedade moderna sem contar com isso. O objectivo último de qualquer projecto político é a felicidade das pessoas. A felicidade das pessoas passa pela sua realização individual. Agora, essa realização pode ser feita enquanto indivíduos ou enquanto cidadãos. Eu prefiro que seja feita enquanto cidadãos solidários com outros cidadãos.

 

Porque é que o senhor não resultou num social-democrata?

Eu sou um social-democrata. É uma questão de pura nomenclatura. Em Portugal chama-se Socialismo aquilo que é o movimento social-democrata europeu. O que não tem nada a ver com a existência em Portugal de um partido chamado Partido Social Democrata.

 

Atendendo ao passado, seria mais fácil situá-lo no Partido Social Democrata para onde transitaram elementos proeminentes do Grupo da Luz e da SEDES, como Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo. A social-democracia que estes perfilharam estava mais conotada com a Direita e os valores conservadores. O senhor voltou à Esquerda e filiou-se no PS. Porquê?

Porque as pessoas têm vivências diferentes, experiências diferentes, valores diferentes. A SEDES é um exemplo disto. Houve um momento em que estive muito activo, depois desiludi-me um pouco, e afastei-me. Das pessoas que colaboraram, com vontade de mudança, e com muitas ingenuidades, umas tinham valores conservadores abertos à mudança e outras tinham valores de transformação mais radical da sociedade.

 

O senhor nunca foi tido por radical.

Sempre procurei ser moderado. A moderação na acção é uma condição indispensável para executar uma radicalidade de convicções. Quando temos convicções profundas, podemos ser moderados na acção. Normalmente é-se muito radical na acção quando não se está bem seguro daquilo que se quer.

 

Esse é o seu modus operandi.

É. Devo dizer-lhe que estou cada vez mais chocado com as injustiças do mundo de hoje. É intolerável que no continente africano uma larga parte da população esteja condenada à morte, à fome e à guerra. Decorre em grande medida de uma ordem económica e de uma política internacional imposta por grandes potências e interesses. Tenho uma visão cada vez mais radical na condenação desta situação. Mas compreendo que não adianta nada armar-me em terrorista. É muito mais útil estar na União Europeia procurando, gradualmente, fazer algumas reformas que ajudem a combater esta situação, sabendo que são sempre limitadas, do que fazer actos quixotescos que não têm qualquer utilidade. Não está em causa para nenhum de nós, a não ser que se seja megalómano, querer salvar a humanidade. Mas é muito importante fazer coisas que ajudem pessoas, pessoas concretas, a ter uma vida melhor.  

 

Salgado Zenha foi uma figura essencial ao seu percurso político. Foi uma espécie de pai putativo?

Pai tenho um, que desempenhou totalmente o seu papel.

 

Referia-me ao quadro político, evidentemente.

Em termos políticos pode dizer-se que teve para comigo um papel muito paternal, é indiscutível. Aprendi imenso, devo muito à sua generosidade, foi a figura política que mais me marcou. Penso, aliás, que é uma pessoa a quem os portugueses não fizeram justiça, de quem têm uma imagem desfocada. Era um homem tímido, as pessoas tímidas têm por vezes uma certa agressividade, e foi essa agressividade que passou no seu contacto com a opinião pública. Ele que era um dos mais tolerantes dos homens políticos que já conheci, deixou uma imagem oposta.

 

Havia a cúpula socialista, eminentemente soarista, que olhava de desdém o seu catolicismo. Salgado Zenha fazia de si uma espécie de protegido e deu-lhe a possibilidade a chegar às bases e trabalhar directamente com elas.

Não. Foi muito mais importante que isso.

 

O senhor, citando-o, dizia: «Há três maneiras de sobreviver à desilusão. Dar um tiro na cabeça como o Antero ou retirar-se como o Herculano. A minha solução é mais pequeno-burguesa: vivo como cidadão e intervenho quando acho oportuno».

É a tal coisa: não vamos salvar a humanidade, vamos fazer aquilo que pudermos.

 

Essa opção não é também a mais desapaixonada?

Não, ela pode ser profundamente apaixonada. É a paixão pelo concreto, e não pelo ideal abstracto, de fazer coisas que se traduzam numa melhoria da vida dos outros.

 

É um homem apaixonado, ou emotivo?

Sou um emotivo, inquestionavelmente.

 

Se me permite, penso que o senhor é muito menos emotivo do que parece. É um homem profundamente racional que sabe exactamente o que quer. Ter recusado, por exemplo, em 78 o lugar de ministro para que o convidaram, e que era apetecível para qualquer homem com intenções políticas, revela justamente um método e uma pragmaticidade que o futuro confirmou.

Pelo contrário. Do ponto de vista pragmático, teria feito todo o sentido aceitar. Simplesmente não estava ainda preparado. Era importante fazer outras experiências, ganhar outra maturidade antes de exercer essas funções. Ter um pensamento razoavelmente organizado, e devo muito isso à vida universitária, esconde uma natureza que é bastante mais emotiva. As pessoas que me conhecem sabem todas isso. Mesmo no aspecto racional sou um intuitivo, não sou um dedutivo. Primeiro faço uma escolha de acordo com a intuição, e depois posso arranjar um conjunto de argumentos para a justificar. Hoje todos reconhecem que a emoção é uma componente muito importante da própria inteligência.

 

Aquilo em que pensei quando soube da recusa em 78, e de outras que entretanto aconteceram, foi que estava a guardar-se para coisa melhor.

Não, não, isso não é verdade. Até era muito atractivo o convite que me foi feito.

 

Refreou a sua ambição em nome bom do senso. O senhor é ambicioso.

Depende do conceito de ambição. Se me perguntar se tenho alguma ambição política para o futuro, respondo-lhe com total verdade que não tenho nenhuma. Se quiser, se alguma coisa me custou recusar foi a Comissão Europeia. Se tivesse uma lógica de ambição pessoal, deveria ter aceite naquele minuto. Entendi que não o devia fazer.

 

A verdadeira razão porque não o fez não é, também ela, pessoal? A viuvez recente e a sua filha adolescente, que não queria sujeitar a um desenraizamento, não foram realmente as razões da recusa? Falou-se disso como razões privadas mas decisivas.

Não. É uma elucubração que não tem sentido. Nem alguma vez poderia sobrecarregar os meus filhos com o peso de entrevarem as minhas decisões políticas. A questão tinha a ver com a vida política nacional e com a forma como a entendia. Achei que o que estava a fazer aqui me criava obrigações de que não podia fugir. Custou-me muito dizer que não. E por isso me custa quando hoje alguns dizem que não penso noutra coisa senão nisso.

 

Que planos é que tem para o seu futuro?

Continuar a exercer as minhas funções com o máximo de dedicação e empenhamento enquanto for possível e útil.

 

Está numa fase nova da sua vida, a título privado.

Ah, aí tenho imensos planos.

 

Planeia ter um filho?

Não está na ordem do dia. Quer a Catarina, quer eu temos filhos, e gostamos imenso dos nossos filhos e dos filhos um do outro.

 

O que ia perguntar-lhe era se, estando numa nova fase da sua vida, não lhe apetecia ter toda uma nova vida, com menos responsabilidades e uma maior disponibilidade para a viver.

É evidente que o exercício de funções políticas com esta responsabilidade traduz-se em limitações. Mas essas limitações foram aceites e compreendidas por ambos. Faço um enorme esforço no sentido de reservar o máximo de tempo possível para a família. Assim como faço um enorme esforço no sentido de garantir e preservar a privacidade da minha família e de nunca utilizar a família para objectivos de natureza política.

 

Como reagiu quando o acusaram de encenar o beijo no congresso?

Mal. Se há coisas que me deixam profundamente furioso, essa foi uma delas.

 

Como é que explica que os jornalistas tenham sabido do seu percurso e intenção?

Não explico nada. Não faço a mínima ideia. A coisa mais natural do mundo é um homem dar um beijo à sua mulher. Nem nunca percebi porque é que se levantou tanto bruá a esse respeito.

 

Pronto, não está mesmo à espera que isto caia de madurinho para se dedicar a uma vida mais sossegada.

Não, não estou nada à espera.

 

Não é muito cansativo? Não há uma altura em que o extraordinário prazer e paixão dos primeiros tempos sucumbe à erosão dos dias e se transforma num fardo?

A fase mais cansativa, mais difícil e mais dura foi a primeira.

 

Eu pensava na erosão inquestionável e inevitável aos dias.

Uma coisa é a erosão junto da opinião pública.

 

E a erosão pessoal?

Quem corre por gosto não cansa.

 

Tem sempre resposta pronta?

Não, nem sempre.

 

Tenho sempre a impressão de que há uma espécie de cassete.

Não, a cassete é repetitiva, é pré-programada e por isso não dá para respostas prontas e rápidas.

 

Não me referia especificamente a esta conversa, mas a todas a que vou assistindo. O tom de voz, para começar, e o tipo de resposta, remetem, mais uma vez, para o menino bem comportado e certinho que nunca se descontrola, que não se emociona para além daquilo que é suposto.

Posso emocionar-me. Procuro é continuar bem-educado. É uma coisa indispensável na vida política: que se mantenha um conjunto de regras, que se não insultem as pessoas. Comportamentos menos razoáveis resultam na erosão do prestígio da vida política nos cidadãos. Ninguém gosta de ver responsáveis políticos a insultar-se ou a dizer barbaridades uns sobre os outros. Há uma contenção e decoro que é indispensável manter.

 

Tem sido alvo de ataques permanentes, os índices de popularidade não lhe têm sido nada favoráveis. Como é que, na verdade, reage às críticas? É preciso uma auto-confiança extraordinária.

É, é. Quando se está na vida política é preciso distinguir duas coisas: uma são os ataques que nos dirigem e que têm por objectivo destruirmos ou derrubar-nos. Em relação a isso é preciso ter uma grande serenidade de espírito, e a auto-confiança ajuda. Outra coisa são as críticas que nos são dirigidas por pessoas independentes intelectualmente, e para elas é necessário ter uma grande atenção. Nem sempre é fácil perceber onde estão as duas coisas, mas a distinção é muito importante.

 

Insisto no efeito que realmente tem o que nos últimos tempos se tem dito e escrito sobre si.

Quando isso provém de pessoas pelas quais não tenho respeito, não me afecta rigorosamente nada.

 

Mas faz mossa.

Quando provem de pessoas por quem tenho respeito, naturalmente que me preocupa, e, mais do que fazer mossa, tem de me levar a reflectir.

 

A questão da confiança é importante. É precisa uma dose generosa de amor-próprio para dizer: «Eu sou o mais apto para desempenhar o cargo de primeiro-ministro».

Não digo que sou o mais apto. Digo que nas circunstâncias que ocorreram eu é que estava em melhores condições para o fazer. São lugares de muita responsabilidade e é inquestionável que se temos uma angústia permanente em relação a nós próprios rapidamente soçobramos.

 

E não tem.

Angústia em relação a mim próprio, não. Tenho muitas angústias em relação a coisas que acontecem, a pessoas que sofrem profundamente. Os meus momentos de angústia têm a ver com situações concretas que não consigo resolver.

 

Enquanto pai, que tipo de angústia experimenta? Os pais angustiam-se com o futuro dos filhos, com o problema da toxicodependência, com a entrada na universidade e no mercado de trabalho.

Não sinto angústias em relação aos meus filhos. Um deles é adulto, tem o seu caminho traçado. A minha filha tem 16 anos e eu tenho uma enorme confiança nela.

 

Ela tem namorado?

Sobre essa matéria, não lhe vou dizer nada. Faz parte da reserva de intimidade da vida privada onde procuro não tocar.

 

Tinha curiosidade em saber como é que se lida com a circunstância de estar em casa a lanchar com o namorado da filha.

Nunca tive essa experiência. Mas já tive a experiência de o fazer com a namorada do meu filho, e é uma coisa perfeitamente natural.

 

A Mariana é uma menina.

Ser menina corresponde a uma forma de ver as coisas que vai estando ultrapassada.

 

Como é que falou à sua família e amigos de uma nova relação na sua vida?

Limitei-me a contar e a reacção foi de naturalidade.

 

A sua mulher deu uma entrevista recentemente na qual dizia que os familiares e amigos se riram quando lhes contou que namorava consigo. O que acha disto?

Também natural. O que é essencial é a relação entre as duas pessoas e a maneira como a relação é investida e vivida. O resto é colateral. 

 

 

Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2002

 

Ricardo Araújo Pereira (2009)

06.12.16

Quem é que ainda diz “eh pá” linha sim, linha não? E “gajo”, gajo para aqui, gajo para acolá? Quem é que diz que as suas filhas são o seu Jesus Cristo – mesmo assim, podia fazer troça se uma delas fosse coxa. Manquinha. E que chora lágrimas de sangue pelo seu Benfica? E que, sendo um palerma, conhece o Génesis? Quem é ele? «Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade». Mesmo assim, é muitíssimo popular. Ele é também o jovem bem sucedido, que mora numa casa com piscina, que tem um carro de alta cilindrada à porta, casamento religioso, duas filhas e uma estabilidade burguesa de que todos precisamos. Para a seguir subverter as regras.

Ricardo Araújo Pereira tem um registo inesperado. É um homem culto, criado em boas famílias (o pai é piloto, a mãe hospedeira), de educação esmerada. É de uma indubitável inteligência. Mas indubitável é uma daquelas palavras que ele usaria para fazer pouco de intelectuais de meia tijela. Digamos, então, de modo simples: ele é muito inteligente. E também: ele domina exemplarmente o português e conhece o significado íntimo das palavras. Acresce a isso um talento enorme para a representação.

Ele e os restantes Gatos põem o país a rir todos os domingos à noite. Ricardo diz assim a propósito do riso: «Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo». Referia-se à avó. Foi a primeira pessoa que pôs a rir. Foi um acto de amor. Ela está naquilo que ele é hoje.

RAP 

Fotografia: Miguel Baltazar

 

Talvez começar por dizer que te conheço há muitos anos e que te entrevistei há três, quando estava a sair o primeiro DVD dos Gatos. Apanhei-te no começo da explosão; entretanto, foi uma deflagração absoluta!

Mudou muitíssima coisa. Estávamos a fazer um programa para um canal que tinha dez mil pessoas de audiência, de forma completamente amadora, tanto do ponto de vista da produção, como do nosso, que estávamos a fazê-lo nos intervalos do trabalho. Agora, estamos na estação pública, em horário nobre, a fazer um programa que tem um milhão e meio de espectadores e feito por uma produtora profissionalíssima. Em três anos isso aconteceu.

 

Podias prever isso?

Não, nunca. A gente farta-se de dizer isso. Sobretudo quando nos perguntam quais são os projectos para o futuro. É impossível estar a projectar quando há três anos seria ridículo ter feito estes planos.

 

Consegues perceber qual foi o elemento catalisador desta quase histeria que há à volta dos gatos? Têm um público tão transversal que vai dos miúdos de dez anos ao Jorge Coelho (julgo não cometer uma inconfidência se disser que ele é vosso fã...).

Não tenho nenhuma resposta para dar. Até porque aquilo que fazemos é aquilo que nos apetece. Quando saímos da SIC Radical tivemos propostas de vários canais. E a RTP foi provavelmente a única que disse: “Queremos contratar-vos para fazerem exactamente aquilo que estão a fazer”. Depois temos constatado, com muita felicidade, que isso agrada a algumas pessoas. Não escondo que é engraçado famílias virem ter connosco e dizerem: “É o único programa que vemos todos juntos”.

 

Esse tipo de unanimidade agrada-te? O Chico Buarque, a dada altura, não gostava de ser um artista consensual.

Eh, pá, isso é um artista, atenção. Eu tenho a certeza de que não somos unânimes. Estávamos a falar do efeito catalisador. Há um efeito que tem a ver connosco, porque outros produtos do canal não têm a mesma projecção. E há um efeito catalisador que tem a ver com as pessoas, que é o facto de porem aquilo na internet, de passarem uns para os outros. Esse fenómeno potenciou e continua a potenciar [a difusão do Gato Fedorento].

 

São razões exógenas ao fenómeno, mas fundamentais para o explicar.

São. Recebemos imensos e-mails a dizer: “No emprego, a primeira coisa que faço segunda-feira de manhã é falar com os meus amigos sobre o programa da véspera, e vamos ao Youtube e já lá estão os sketches do dia anterior”. É uma coisa divertida e que pode explicar a falta de produtividade do povo português: as pessoas estão entretidas a ver a internet em vez de trabalhar. Enquanto for para nos ver a nós, é simpático!

 

Têm uma máquina de promoção que trata disso? Quem é que disponibiliza os sketches no Youtube?

Há televisões nos Estados Unidos que põem, elas próprias, bocados de programas no Youtube para potenciar o marketing viral – aquela coisa que os gajos do marketing inventaram. A RTP não faz isso. São legiões de adolescentes, cheios de borbulhas, que no domingo de madrugada põem aquilo no Youtube. Enquanto isso pontenciar o nosso trabalho e a nossa exposição pública, adoramos essa gente. Quando percebermos que é uma forma de pirataria que nos prejudica as vendas, gostaríamos que fossem encarcerados.

 

Achas mesmo que não há unanimidade neste momento?

Um largo consenso, admito. É difícil haver um tipo com uma exposição pública continuada e um trabalho com repercurssão pública que não tenha um largo consenso.

 

É mais fácil ser polémico do que consensual. Estou a pensar em pessoas como o Vasco Pulido Valente ou o Pacheco Pereira.

Gosto dos dois. Toda a gente, não, mas um largo consenso de pessoas respeita-os, mesmo não concordando com eles. Aquilo é um negócio: se não encontrassem essa repercussão nas pessoas, não haveria procura para aquilo que escrevem.

 

Vou usar um palavrão para dizer qual é a minha impressão: vives numa espécie de ubiquidade permanente. Como se tu fosses este que é bem educado, que até banca o humilde, que quase pede desculpa por ter lido o Nietzsche – na entrevista à Judite de Sousa citaste o Nietzsche e o Freud; e fosses, ao mesmo tempo, aquele que toda a gente espera que sejas, ou seja, o Gato Fedorento, o elemento central daquele colectivo.

Eu não o elemento central daquele colectivo. Aquele colectivo é mesmo um colectivo. O Herman, (estávamos numa entrevista com a Maria João Avillez), fez uma pergunta que diz tudo: vocês ganham todos o mesmo? Claro que ganhamos todos o mesmo. É revelador da importância que todos temos no grupo.

 

No outro dia, eu perguntava a uma pessoa que vos conhece se vocês nunca se pegam... Porque um ocupa demasiado espaço, ou tem excessivo protagonismo. Nem em privado?

Nem em privado. Mas fartamo-nos de nos pegar: “Que estupidez, não faças isso assim, vamos fazer de outra maneira, eu não concordo nada com isto”. Pegamo-nos imenso até com coisas do dia-a-dia, como embirrar com a...

 

Com a namorada de não sei quem?

Exacto. Se esta vontade da imprensa escolher um líder tivesse recaído sobre um deles, se calhar eu levava isso a mal. Eles não levam nada a mal.

 

Por que é que levavas isso a mal? É o teu ego?

Pois, não ia achar graça. Tenho a sorte de eles serem óptimas pessoas e estarem-se borrifando para o assunto.

 

Portanto, é um acordo tácito: tu não és o líder, mas há uma figura que aparece, que está no pico da fama, e essa és tu.

Pois, mas não há nenhuma objecção a isso. É uma escolha da comunicação social e da imprensa, não nossa. Quando se trata de “vem cá o Gato Fedorento” e vou só eu, costumamos recusar. Se é “quero falar com o Ricardo”, à vontade. Estou a falar como o Jardel, já viste?  

 

A falar de ti na terceira pessoa! Já vais fazendo um desdobramento entre o personagem público Ricardo Araújo Pereira e o teu núcleo essencial?

Foi tudo muitíssimo rápido e eu não sabia, nenhum de nós sabia, como é que se lidava com a exposição pública. Receio que a falta de experiência me tenha empurrado para uma situação em que não tenho uma máscara pública. Quer dizer, tenho a máscara que toda a gente tem: em privado, em casa...

 

Damos arrotos.

Sim, é isso. E publicamente não o fazemos. Mas não tenho tido nenhum pudor em mascarar aquilo que penso. Isso tem-me trazido alguns dissabores, paradoxalmente. Às vezes as pessoas levam a mal que eu manifeste posições políticas.

 

Perdeste um pedaço da unanimidade quando fizeste campanha pelo Sim no referendo ao aborto?

Não faço ideia. O meu pai achou que sim. Do ponto de vista cívico não tenho feito nada, mas o problema do aborto era uma questão que me interessava e na qual gostaria de participar.

 

Os pais preocupam-se sempre com essas coisas. É por não gostarem que não gostem de nós.

Sim, mas não sei se isso deve nortear a minha conduta. Eu faço um programa de televisão, escrevo textos de comédia e interpreto-os, não estou num concurso de popularidade. Vale a pena ser pardo do ponto de vista político, ou outro, só para manter a afeição de pessoas que não toleram que eu pense de forma diferente?

 

Não estás para isso...

Acho que não faz sentido nenhum.

 

A tua participação cívica na campanha do aborto é uma réstia da tua militância comunista?

A militância comunista foi péssima.

 

É já uma coisa mitificada?

Sei que é. Há muitas coisas mitificadas entretanto. Uma coisa que ao princípio me fazia confusão, agora vai fazendo menos, é o facto de todas as semanas aparecer qualquer coisa na imprensa, que não é verdade, sobre mim. Coisas tão simples como: o JL fez 25 anos, e eu trabalhei lá...

 

Foi o teu primeiro trabalho, não foi?

Sim, assim que saí da Faculdade fui para lá. O JL fazia 25 anos e eu mandei um cesto, daqueles que se compram na internet, com flores, chocolates, uma garrafa de champanhe, com um cartão, para os meus camaradas de redacção.

 

“Os meus camaradas”?

Todos os jornalistas dizem camaradas, não me lixes!

 

Ah, é verdade, tudo menos “colegas”, porque colegas são as p....

Exacto. Um jornal descobriu que tinha mandado o cesto e publicou que eu gostava muito de champanhe! Podia ter posto que gostava muito de cestos, ou de fruta, ou de flores. As notícias vão para os arquivos e os jornalistas sempre que fazem uma coisa sobre mim, lêem aquilo e perguntam-me: “Gosta de champanhe?”. Neste momento, eu, que bebo champanhe como as pessoas bebem champanhe, nos aniversários, sou um gajo que gosta de champanhe francês!

 

Devassas à tua vida privada?

Imensas, pá, imensas coisas. No outro havia um fotógrafo a 20 metros do meu portão, dentro do carro, e outro para aí a 50, dentro de outro.

 

As tuas filhas e a tua mulher já começam a sentir uma afectação por serem as filhas e a mulher de?

Há uma tentativa de as dar a conhecer. Recusámos sempre, mas há coisas que não podemos evitar. Por exemplo, no aeroporto ou na rua.

 

Para as miúdas, no colégio, com os amiguinhos, o pai é aquele que aparece na televisão?

A minha filha mais velha percebe que os amigos e os educadores dizem: “Tu és a filha do Gato Fedorento”, mas ela ainda não percebe que isso, do ponto de vista social, é diferente do que acontece com os pais dos outros meninos.

 

Posso dizer que esta entrevista foi adiada porque nessa noite estavas a cuidar das tuas filhas?

Podes, à vontade.

 

Quando li a mensagem que me enviaste, pensei que as pessoas olham para ti como um ícone. E um ícone não tem filhos, nem tem noites mal dormidas porque as filhas estão com gripe.

Sem estar a expor a minha família, a minha mulher, as minhas filhas, nunca deixei de dizer que era casado e tinha filhos.

 

É certo que não tentaste esconder, mas as pessoas não querem ver essa parte. Porque corresponde a uma dimensão corriqueira.

É isso. É aquela coisa da pessoal fútil, casado e tributável... Uma coisa que o Pessoa diz: “Queriam-me fútil, casado e tributável”. Já sou as três coisas.

 

Tínhamos lá para trás a ubiquidade. Não é por acaso que agora trago a ubiquidade. Estás sempre entre estes dois desempenhos?

Acho curioso que digas “entre esses dois desempenhos”.

 

Refiro-me ao desempenho social e ao familiar.

Mas quando me dizes que são dois... Aquilo que tu dizes é bem observado. Há uma estratégia que é constante e que ao fim de um tempo começa a tornar-se aborrecida. Uma estratégia de auto-depreciação que fazemos enquanto grupo e individualmente também. É uma estratégia excelente de auto-defesa, para baixar as expectativas das pessoas...

 

Também para fazer um certo género... Cria-se uma ideia de: “Ai, sou palerma, ninguém me pode levar a sério”.

Tem esse lado positivo. Se tu te insultares a ti própria primeiro, os outros depois têm mais dificuldade em fazê-lo. Agora, quando tu dizes “bancar o humilde”... A imprensa está a tentar arranjar uma guerra entre nós e o Herman, acham que pode ser interessante do ponto de vista mediático; e se calhar é. Mas não há guerra nenhuma, nem nunca há-de haver.

 

Começaram por trabalhar com ele, na escrita dos textos, enquanto elementos das Produções Fictícias.

Trabalhámos com o Herman imenso tempo, tivemos esse privilégio, ele sempre nos tratou bem, não há razão nenhuma para andarmos armados em parvos a dizer: “Vamos à guerra das audiências”.

 

Pelos vistos, não precisam.

Não se trata disso, os programas são diferentes, o horário é diferente, os canais são diferentes. E não seriam as audiências a determinar se um programa é melhor do que outro ou não é. Dou sempre o exemplo do futebol: “Não vamos fazer concorrência ao Herman, só porque estamos a jogar à mesma hora. O Birgmingham não faz concorrência ao Chelsea”.

 

O Benfica e o Sporting?

Não, não, o Benfica e o Sporting é outra coisa.

 

“Lavo a boca para pronunciar a palavra Benfica?”, não é o que se diz em futebolês?

Houve gente que me censurou: “É falsa modéstia”. Comparar o maior humorista português de sempre, com a maior equipa do mundo, e quatro gajos que começaram há três anos, e há um ano tinham um produção amadora, é inaceitável. Esquisito acharem que é falsa modéstia. Para mim é uma coisa rigorosa.

 

Lamentas que as audiências do Herman neste novo programa sejam tão baixas? Sinceramente. É como se fosse uma injustiça?

Primeiro, não sei se são assim tão baixas. Segundo, não vejo justiça nem injustiça nas audiências. Não vejo que as audiências sejam prémio de qualidade, de competência. As audiências não significam nada a não ser “há muita gente a ver” ou “há pouca gente a ver”. Se calhar vai haver pouquíssima gente a ver o programa do António Barreto e tenho a certeza de que vai ser um belíssimo programa. Vai ter seguramente menos audiência que o nosso e vai ser seguramente melhor do que o nosso. O Herman tem 30 anos de carreira, duvido que esteja preocupado com a percentagem do share.


Pode estar preocupado com uma coisa, essa sim, significativa, que é envelhecer.

Mas isso não tem nada a ver com as audiências.

 

Envelhecer pessoalmente e envelhecer artisticamente. Estar desfasado destes novos tempos em que segunda-feira de manhã aparecem no Youtube as coisas mais engraçadas da véspera.

Essa é uma pergunta insidiosa.

 

Não é.

Em relação ao Herman, só tenho coisas boas para dizer. Não creio que esteja desfasado da realidade, antes pelo contrário. Sei que tem esse problema com o envelhecimento, como toda a gente. É uma coisa horrorosa, a aproximação da morte assusta qualquer ser humano, e não só os seres humanos de origem alemã. Nós só sabemos o que é um humorista por causa do Herman. O Herman é vítima de si próprio.

 

Como assim?

A Judite de Sousa perguntou-me sobre a imparcialidade do humorista: essa questão só se põe em Portugal porque o Herman nunca manifestou posições políticas, nem de clubes de futebol. E tem todo o direito de não as manifestar. O Herman é vítima de si próprio por ser o paradigma, as pessoas esperam dele muitíssimo mais do que parece ser aceitável. A própria memória dele está a assombrá-lo.

 

Chega de Herman. A não ser para perguntar se os Gatos podem ser apenas um epifenómeno. Isto vem a propósito da longevidade da carreira do Herman. Há três anos tu irrelevavas o vosso sucesso, achavas tudo aquilo improvável.

Neste momento particular não é um epifenómeno. Mas nada nos garante que daqui a cinco anos não tenha sido afinal. Sabemos que daqui a 50 anos as pessoas vão saber quem era o Herman José, assim como hoje em dia sabemos quem é o Vasco Santana, o António Silva. Mas não fazemos ideia se daqui a 50 anos as pessoas se vão lembrar de nós. Quando cheguei às Produções Fictícias, estava a acabar de acontecer um fenónemo humorístico na SIC, protagonizado por uma pessoa que dava autógrafos na rua, era considerado pelas revistas e jornais o novo Herman; hoje em dia ninguém sabe quem é. Acontece muito.

 

Isso ainda vos pode acontecer?

Acredito que o nosso trabalho tem sido um pouco mais consistente, até porque tem sido mais duradouro. Mas nada impede que daqui a cinco anos já não seja nada. As nossas ambições não passam exclusivamente pela televisão. Para já, é quase garantido que em 2008 não estejamos a fazer nada, saiamos da televisão. Depois, é possível que façamos mais dois, três, cinco anos de televisão e arrumemos as botas completamente – há essa hipótese.

 

Continuas a sonhar escrever como o Mário de Carvalho?

Quando disse que queria ser escritor e jogador do Benfica tinha seis anos, depois percebi que não tinha talento nem para uma coisa nem para a outra.

 

O que é que te custou mais?

Foi sem dúvida jogar à bola.

 

Para o resto, pelos vistos, tens talento.

Não se trata disso. Uma pessoa que escreve um grande livro não levanta o Estádio da Luz, se marca um golo, levanta. É uma questão de prioridade.

 

Mas como Gato, também levantas o Estádio da Luz.

Isso foi a melhor coisa da carreira até agora. O Benfica convidou-nos para fazer uns sketchs no Estádio da Luz e os nosso consócios estavam ali. Sinto aquela gente como da minha família, ter a família a rir daquilo que estou a fazer...


Explica-me melhor essa comoção de ter as 65 mil pessoas da família ali... Estranho, é como se estivesses a fazer um número cómico dizendo isso.

Percebo que as pessoas achem graça e achem que é rídiculo. Estou a falar a sério.

 

Por que é que isto te toca? Por que é que é comovente?

Há pessoas que conseguem ser primárias e irracionais na política, na religião, com imenso sucesso. Eu resolvi guardar a irracionalidade e o primarismo todo para o clubismo, para o Benfica. E atenção que a palavra primária também tem um lado bonito, um lado de primeiras coisas. Não choro com nada na vida a não ser com o Benfica – isso é uma coisa ridícula.

 

A sério?

Choro, choro, choro.

 

Não choras com mais nada? Era a outra coisa que me impressionava.

Não. É mesmo uma coisa irracional, de um domínio extraordinariamente primitivo. Lembro-me de ir ao Benfica com o meu primo António, foi ele que me meteu o bicho. Eu tinha para aí seis anos e o meu primo tinha tiques esquisitos, tremia todo, coçava o colarinho, coçava a nuca, cuspia e fumava. E lembro-me de olhar para ele e pensar: “É isto que quero para mim, é isto mesmo”.

 

O transe.

É aquele. Percebo que é absurdo uma pessoa sofrer da maneira que eu sofro, com o coração a bater nas costas, porque onze milionários dão pontapés num objecto esférico cheio de ar, vestidos com camisolas cuja cor me agrada. É aquela história do Herberto Hélder, “se eu quisesse enlouquecia”... Se eu quisesse “desenlouquecia”, sabia fazer o caminho ao contrário.

 

Impunhas a racionalidade. Serias capaz?

Só que não quero! Gosto imenso daquele sofrimento. A proximidade que sinto das pessoas que estão no estádio..., aquele é o público que realmente me interessa. Sei que na televisão, se faço uma coisa sobre o Marcelo, há pessoas que vão ficar desagradadas. Mas, eh pá, são ossos do ofício. Agora, pensar que qualquer coisa que eu faça no Estádio da Luz vai desagradar aquela gente, isso sim, transtorna-me.

 

Tenho uma pergunta algo delicada, e é só pela intuição...

Força.

 

Passaste a vibrar ainda mais com o Benfica depois da morte da tua avó?

Não, não. Por que é que achaste que essas coisas estavam associadas?

 

Tenho a impressão que a pessoa que mais amavas e de quem eras mais íntimo era a tua avó. E ela, pela sua simplicidade, personificava também esse lado familiar e espontâneo do Benfica. Ocorreu-me que podias transferir um pouco para a família indiferenciada que é a massa benfiquista aquilo que vinha dali e que foi um dos sustentáculos da tua vida.

Não passa nenhum dia sem eu me lembrar da minha avó. No outro dia estava a constatar isso. Isso não tem nada a ver com o Benfica, às vezes até tem a ver com o meu trabalho. Aprendi a valorizar mais aquela herança. As pessoas perguntam-nos quais são as nossas influências.

 

E quais são?

Há sempre influências de dois tipos: as técnicas, (o Woody Allen, o Herman, o Seinfeld, o The Office), e aquilo que nos fez ser aquilo que somos. Ela fez de mim aquilo que eu sou, mesmo sem querer. A maneira como se relacionava comigo e como achei que me devia relacionar com ela, fez de mim aquilo que sou. Isto tudo que me acontece também é ela.

 

Consegues explicar melhor o que é que ela te fez? Que milagre foi esse?

Não é bem um milagre, as pessoas são feitas dessa massa. Aquela tábua rasa que são ao princípio e depois leva várias marteladas... Ela tinha tido uma vida bastante madrasta. Qualquer outra pessoa que fica viúva com 30 anos provavelmente passados cinco, dez, um, volta a casar e refaz a vida. Para ela, ficar viúva com 30 anos significava a vida terminar quando estava a começar. Para as mulheres do Alto Minho significa vestir-se de preto até ao final da vida.

 

Tinha um daqueles corações com as fotografias roxas dentro? São de ouro e usam-se presos ao peito.

Tinha, tinha. E portanto, ela tinha uma má relação com a vida. Lembro-me sempre dela com o sobrolho franzido.

 

Engraçado, imaginava-a mais suave, mais ternurenta.

Mas isso era. Não sei se o General Ramalho Eanes é ternurento, mas é certo que aparece sempre com um ar sisudo. Aquilo é uma noção trágica da existência, um fatalismo incrível.

 

A tua avó dizia asneiras? No Minho dizem-se muito. Estou a pensar de onde é que vem o teu lado asneirento...

Se estivesse fora de si, dizia. Eu conseguia colocá-la fora de si, tinha algum talento para isso. Também não era difícil.

 

Quando fazes o campónio pensas nas descrições dela?

Penso. O Professor Lindley Cintra dividiu muito bem os sotaques: do Pombal para cima troca-se os “bês pelos vês”, nesta zona fala-se “assim”, na outra já os “esses” são mais molhados. A minha família, que é toda do Alto Minho, borrifou-se no Lindley Cintra! Uns falam com os “esses” mais molhados, outros não falam de todo. Eu, quando é preciso fazer um desses, basta pensar: “Hoje vou fazer o tio Manuel”, “Este vai ser o Aniceto”.

 

Tens no teu armário uma galeria desses personagens.

Sim, pá. É a aldeia da minha avó, basicamente. E mesmo da família.

 

Não é abusivo dizer que, de certo modo, és humorista por causa da tua avó?

Por causa da minha avó. A primeira pessoa que tive vontade de fazer rir foi ela. Havia em mim um fascínio imenso em relação às pessoas que conseguiam fazer isso a outro. Quando uma pessoa se ri, pode não estar feliz, mas imita muito bem, parece mesmo que está, e pelo menos durante um centésimo de segundo está mesmo, não me lixem, está mesmo. Uma das razões pelas quais há um preconceito, até religioso, em relação ao riso, à dimensão física do riso...

 

É pela descompostura, porque se desmancham?

De facto, durante uns segundos, o corpo está abandonado a uma outra coisa. Não se conseguir controlar o corpo é logo péssimo. Também o facto de uma pessoa conseguir interagir com a outra fisicamente, sem lhe tocar, causa uns engulhos grandes.

 

Gostava de recuperar uma pergunta que fiz há três anos: o que é que é sagrado? A avó é sagrada, as filhas são sagradas, a mãe é sagrada?

Exacto.

 

Ou seja, com o quê é que não se faz humor? Nem toda a impiedade é consentida. Isso estraga uma vida.

Uma coisa é perguntares-me o que é que é sagrado, outra coisa é perguntares-me com o que é que se faz humor. Toda a gente tem os seus sagrados, para umas pessoas é Jesus Cristo, para mim são as minhas filhas. Isso significa que não se pode fazer humor com Jesus Cristo ou com as minhas filhas? Eu acho que não.

 

Vamos imaginar que a tua filha tinha... estou aqui a imaginar uma coisa horrível... Vamos imaginar que era manquinha, que coxeava... Provavelmente nunca mais ias fazer o número do manquinho.

Não diria que isso é assim. Faço pouco das minhas filhas todos os dias. Uma das coisas de que elas mais gostam é quando as imito.

 

Isso é porque são perfeitinhas. Imagina que ela era mesmo manquinha...

Não sei se não podia ser sublimada através do riso. E não sei se não seria bom para ela se defender disso, justamente. Toda a gente tem o seu manquejar, mesmo que não esteja à vista de todos. A maneira de dominar e de conseguir superá-los, os meus, sempre foi através do riso e do humor. É um mecanismo de defesa como qualquer outro.

 

Raramente fazes humor com o sexo, que é um tema fácil. Ainda por cima, fizeste toda a escolaridade com freiras, frades, jesuítas, a universidade na Católica. A repressão sexual associada aos religiosos, é disso que estou a falar.

Ao princípio estavas a dizer que vou à Judite de Sousa e sou aquilo que as pessoas estão à espera que eu seja, mas que também sou outra coisa.

 

Tu és mais culto, mais humilde, mais controlado do que o que as pessoas estariam à espera.

Admito que haja uma parte que se surpreenda por o palerma que vê na televisão a fazer aquelas figuras ridículas saber...

 

Quem é o Nietzsche, e que o tenha lido.

Pois, ou quais são os momentos do Génesis em que há riso e a forma como foram sendo interpretados. Não faço nenhum esforço para ser de uma maneira ou de outra. Sou o palerma que quando a câmara está apagada diz imensos palavrões, faz piadas do mais básico e escatológico e também gosta de saber o que é que o Nietzsche pensa. Um tipo pode ser um palhaço e um idiota e gostar de ler livros. Não é surpreendente. As pessoas são mais do que uma coisa. Provavelmente o público está à espera que se seja só uma coisa.

 

O vosso humor não recorre a palavrões.

É um acordo tácito, nem sequer chegámos a discuti-lo. É relativamente fácil o humor com palavrões.

 

Na minha entrevista anterior dizias “puta cara”. Dizias que aquilo que incomodava as pessoas, quando fizeste o anúncio do “Eles falam, falam, falam...”, não era teres sido puta, era teres sido uma “puta cara”. Teres ganho uma pipa de massa.

Uma parte das pessoas fica sempre incomodada com isso.

 

Agora és uma puta cara, cara, cara.

[risos] Agora ninguém me chateia por causa disso.

 

Estás no pico da onda. O sketch do Marcelo é inesquecível. Já te encontraste com ele?

Não, não. Aqueles foram os minutos mais perigosos de sempre da minha carreira. Nunca recebi tantas ameaças.

 

Mas tu recebes ameaças?!

Ora aí está. Por carta, por mail. A mim, à minha família, às miúdas, informações sobre o colégio onde andavam. Uma coisa bastante assustadora. Esse momento do aborto fez-me reconsiderar o sítio onde vivemos.

 

Eu estava centrada na tal unanimidade dos Gatos, não tinha ideia que pudesse ter havido uma reacção tão visceral.

Se eu fizer uma bomba, se assaltar um banco, se matar alguém, admito que as pessoas me ameacem matar a mim. Agora, fazer uma rábula humorística de dois minutos e ameaçarem-me da mesma coisa?

 

Foi um assassinato político... Estava a pensar se devia dizer isto, mas é o sentimento colectivo. Aquela rábula foi mortal para o Professor Marcelo.

É possível que tenha sido atendido como isso.

 

As freiras e os frades, os religiosos e o sexo. Acho que era a ponta que tinha ficado solta lá atrás. Para terminarmos, a “punchline” do sexo funciona sempre bem.

O sexo é como a sogra, é um tema humorístico clássico. Se não for abordado de uma forma especialmente sofisticada, faz dele um tema pouco interessante.

 

Casaste pela Igreja. O Tolentino de Mendonça foi o padre do teu casamento.

Sim, num casamento misto. Como é que hei-de dizer? Não é a Igreja do César das Neves [aquela em que me revejo]. É na Igreja do Padre Tolentino. Há uma figura do direito canónico que prevê que um tipo que não é baptizado, como é o meu caso, ou que tenha outra religião, case com uma católica.

 

E acabamos nisto?

Só se disseer uma coisa bombástica para terminar. Vamos tentar fazer cair o governo! O que é que achas? Por acaso, eu gostava. Se tivesse um leque de recursos mais vasto, se conseguisse imitar, por exemplo, o Sócrates, que é muito difícil...

 

Tu treinas?

Treino imenso.

 

Vamos ao exemplo que toda a gente conhece: o Marcelo. Demoraste muito tempo a chegar lá?

Imenso. Treino em casa. Vejo imensos vídeos, vejo o vídeo sem som para ver os gestos, oiço o vídeo sem imagem para ouvir a melodia. “Assim que se apanha, é uma segunda natureza” [isto é dito no registo de Marcelo], mas primeiro que consiga apanhar, é uma chatice.

 

Disseste que podes ser inseguro? Vou testar a tua insegurança: posso dizer que não acho piada nenhum às crónicas que escreves para a Visão? Talvez sinta a falta da tua interpretação. Ao contrário do que dizes, tens imensos recursos enquanto actor.

Aquilo já dura há dois anos, e continuo à luta com a crónica. O Miguel Esteves Cardoso no outro dia dizia que uma pessoa faz uma crónica boa, depois é merda, merda, merda, merda, depois vem outra boa, e depois é outra merda, merda, merda, merda. Eu estou quase sempre na merda.

 

O que é que falha?

É uma coisa que não consigo compreender. Às vezes, até o sentido da responsabilidade me cerceia os movimentos. Lembro-me de estar a escrever para o blogue e ficar satisfeito com os textos... O problema principal é o tempo. Nunca tenho tempo para escrever tão bem quanto gostaria.

 

O que quero é saber se te custa muito admitir que não sabes fazer uma coisa. Ou vais tentando, tentando.

Sim, custa-me. E vou tentando. Não admito que não consigo fazer, eu hei-de conseguir. Estou a ser absolutamente sincero. Nas peças da escola eu era o pior gajo que ali estava, a minha família ria-se à gargalhada com a minha falta de jeito. A minha tia Lurdes ainda hoje fala nisso, “péssimo, péssimo”.

 

Quem te viu e quem te vê. Ao mesmo tempo, a insegurança é uma arma poderosa, porque é altamente estimulante.

Exactamente. Conheces a fábula do mocho e do leão?

 

Conta.

O mocho diz: “Pst, ó leão, eu vou sair agora de casa, estão lá as minhas crias, são bebezinhos tão bonitos e fofinhos, pedia-te que não lhes fizesses mal”, “à vontade, estás a pedir-me, por amor de Deus...”. E o mocho chega a casa e está tudo estraçalhado, “então, pá, tinha-te pedido...”, “disseste que eram bonitos!, eu comi uns que eram absolutamente horríveis”. O mocho acha sempre que os seus filhinhos são lindos. Tenho sempre esse pânico, de achar que estou a ser mocho em relação a uma rábula que acabei de fazer. O texto, controlo mais ou menos, sei ver que isto tem graça ou não tem. Uma imitação do ponto de vista da performance, tenho sempre muita dificuldade em saber se aquilo está bem ou está mal.

 

Pronto, está visto que a conversa não tem fim. Ficamos por aqui.

Ok.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2009