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Anabela Mota Ribeiro

Curso de Cultura Geral - 28 Janeiro 2018

29.01.18

Filipa Lowndes Vicente viveu em Espanha, Inglaterra, Estados Unidos, Itália. É historiadora. Coisas que lhe interessam: o feminismo, o activismo, a cultura visual, material e escrita. Entre os objectos de cultura importantes na sua formação estão os livros escritos por várias mulheres da sua família inglesa, quatro gerações antes dela. Mas está também um poster com Helena Almeida, vestida com um hábito e uma tela. É, então, um poster que traz com ele uma fotografia, uma pintura, uma performance, um discurso.

Os vários estratos da obra de arte, da experiência artística, a interdisciplinaridade, são assuntos para falar com Delfim Sardo, curador de artes plásticas, ensaísta e professor. Algumas coisas que foram um clarão para ele: ver Ana Hatherly na televisão e ler Madame Bovary em plena adolescência; ver aos 19 anos exposições de Alberto Carneiro, Fernando Calhau, Julião Sarmento, ter um professor como Miguel Baptista Pereira. Tudo coisas importantes e cedo.

Manuel Aires Mateus, arquitecto, traz para a conversa, como não podia deixar de ser, obras de arquitectura, as piscinas de Leça de Siza Vieira ou as termas de Peter Zumthor, a relação entre natureza e obra criada. Vem com ele Itália, os clássicos, o côncavo e o convexo de Richard Serra, vem a relação entre um livro e um filme: O Leopardo. O que há entre a obra de Lampedusa e a de Visconti?   

 

A lista de Delfim Sardo, curador, ensaísta e professor

  1. Ter visto o Obrigatório não Ver, da Ana Hatherly, semanalmente na televisão quando tinha 14 anos;
  1. Ter lido Madame Bovary, de Flaubert, quando tinha 15 anos;
  1. Ter ouvido 77 dos Talking Heads quando tinha 16 anos;
  1. Ter visto, ao vivo, Max Roach quando tinha 17 anos;
  1. Ter visto Apocalypse Now (Coppola, 1979) quando tinha 18 anos;
  1. Ter visto dançar Merce Cunningham, ter visto as primeiras exposições do Julião Sarmento, do Fernando Calhau e do Alberto Carneiro no CAPC, tudo quando tinha 19 anos;
  1. Ter lido a Ética de Spinoza quando tinha 20 anos;
  1. Ter lido Under the Volcano, de Malcolm Lowry, quando tinha 22 anos;
  1. Ter sido aluno de Miguel Baptista Pereira quando tinha 23 anos. Ter começado a trabalhar com o Fernando Calhau quando tinha 29 anos;
  1. Ter visto a exposição retrospectiva de Bruce Nauman quando tinha 31 anos.

 

A lista de Filipa Lowndes Vicente, historiadora

  1. Federico Garcia Lorca, Romancero Gitano (1928);
  1. Livros publicados pela minha tetravó Louise Swanton Belloc; trisavó Bessie Rayner Parkes; bisavó Marie Belloc Lowndes; avó Susan Lowndes; mãe Ana Vicente;
  1. Desenho do meu avô Arlindo, na Cadeia de Caxias, do Telo de Mascarenhas;
  1. Do Amor e dos Dias, Camané. CD e 2 concertos no São Luiz;
  1. Virginia Woolf, A Room of Own's Own, Um quarto que seja seu;
  1. Festival Todos. Caminhada de Culturas, Martim Moniz;
  1. Exposições (do passado e do presente);
  1. Fotografia. Poster da Helena Almeida;
  1. Estações de comboios/cidades/feiras;
  1. Associações de direitos humanos/activistas.

 

 A lista de Manuel Aires Mateus, arquitecto

  1. O Leopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa (livro, 1956);
  1. O Leopardo, Luchino Visconti (filme, 1963);
  1. Elogio da Sombra, Junichiro Tanizaki;
  1. Piscinas de Leça da Palmeira, Álvaro Siza Vieira (1966);
  1. Termas de Vals, Peter Zumthor (1996);
  1. Igreja de San Carlino alle Quattro Fontane, Francesco Borromini (séc. XVII);
  1. Villa Rotonda, Andrea Palladio;
  1. Mosteiro dos Jerónimos;
  1. Betty (1988), Gerhard Richter;
  1. Torqued Ellipses, Richard Serra. 

Tom Jobim

25.01.18

A conversa sobre a morte não era recorrente. Tom Jobim falava de bichos, música, chopp, papo furado. Falava sobre árvores, que um dia apresentou ao filho como se apresentam pessoas. Sobre o mundo, o Brasil, o Rio, (cidade linda e dissipante, como um dia a descreveu). Mas em 1980, em entrevista à revista Manchete, Tom Jobim declarou: “O que deve preocupar as pessoas é o medo de morrer sem ter feito nada. Agora, esse negócio de ter medo da morte, claro que tenho. Todo o mundo tem. “Tenho medo de ônibus, de ficar impotente, de comer chocolate”.

Jobim morreu no dia 8 de Dezembro de 1994, em Nova Iorque. Embolia pulmonar. Havia confidenciado à irmã Helena antes de partir: “Se Ary Barroso e Villa-Lobos morreram, eu também posso morrer”. E muito antes disso, na sequência da partida de Vina, Vininha, seu poeta, disse: “Foi a morte de Vinicius que me deu a convicção de que não somos imortais”.

De Moraes morreu em 1980 e Tom preferiu não comparecer no cemitério. Nas rodas de chopp, nos bate-papos, passou a usar a expressão “neste resto de vida” para se referir ao que estava por viver. E desde a morte de Vinicius, tanto estava ainda por viver. Um filho, uma filha, uma Banda Nova, o disco de originais Passarim. Lembranças: “A areia de Ipanema era tão fina, que cantava no pé – quando você corria na praia, a areia fazia cuim, cuim, cuim” (Tom/tom nostálgico, no documentário A Casa do Tom)

“Ninguém esperava muito”, diz Ana Lontra Jobim em entrevista exclusiva à Pública. “O Tom estava com medo, sim. Estive com ele desde a hora do diagnóstico. Passou por muitas coisas, teve de fazer uma operação maior. Todos nós temíamos alguma coisa, mas a operação [ao cancro na bexiga] tinha sido um sucesso, a recuperação estava sendo óptima. Teve um ponto cego qualquer, baixou-se a guarda – digo: dos médicos – e ele escapou. O coração não aguentou”.

No dia seguinte, o Correio da Manhã escreveu em título “Apagou-se o sol”. Reeditou-se, como um epitáfio, o célebre: “Quando eu morrer, enterrem meu coração nas areias do Arpoador”. António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, nascido em 1927, falecido em 1994, jaz no Cemitério São João Batista, no Rio.

Três da tarde de uma tarde anterior ao dia aziago, 8 de Dezembro. “Lá se vão quinze anos. E aí, tem que lutar, não é?”, atira Ana num desabafo, ou numa espécie de suspiro, resignado, de quem botou a vida para a frente. Expressão brasileira, animista, vitalista, positiva. Ana Jobim botou inclusive a vida para a frente depois da morte do seu filho mais velho com Tom Jobim. “O estudante João Francisco Jobim” – como se escrevia nos jornais – “morreu num acidente de carro três anos e meio depois da morte do pai”. Mas o assunto não é abordado.

Falámos de Tom Jobim, seu marido, dias antes do dia que assinalava os quinze anos da sua morte. Numa casa que nunca foi a casa do Tom.

A sala é imensa e o piano de cauda continua a ocupar um lugar essencial. Sobre ele, duas fotografias famosas, a preto e branco, com Tom e Ana, Tom, Ana e as crianças, João Francisco e Maria Luíza recém nascida. São fotografias famosas na memorabilia de Tom Jobim. Mas para ela, Ana, essas são as fotografias que ilustram a sua vida. E aquela é a sua família. Tom Jobim não é uma figura de ficção, idolatrada nos quatros cantos do mundo, autor de A Garota de Ipanema. Tom Jobim é o marido, o pai dos filhos, a pessoa concreta; é o sol em torno do qual a sua vida gira (retire-se a conotação pirosa à última frase, pense-se no sol como aquele que irradia, que ilumina, que é iluminado). E a sua vida gira em torno dele porque deixou de fotografar para se dedicar à preservação do legado de Tom. “Faço a gestão da Jobim Music. Tem também a Corcovado Music, nos Estados Unidos. E fundei uma editora com a minha filha, a Das Duas. Maria Luíza está com 22 anos, está fazendo arquitectura e estudando música”. 

Ao lado do piano há um trabalho gigante de Beth, filha do primeiro casamento de Tom, artista plástica a viver em Nova Iorque. Quando o pai era vivo, Beth era uma das cinco “jobinetes”, as cantoras que o acompanhavam na Banda Nova.

Do outro lado da sala, há uma aguarela feita em papel de arroz, na qual já deu fungo, cujas cores vão esmaecendo, e que reconhecemos da capa de Terra Brasilis. “Foi o Tom que escolheu esse desenho. A gente foi para Nova Iorque, gravou esse disco. A Warner tinha um designer, um capista. Um chinês, alto, jovem. Estava a pensar numa orquídea, elegante como a música do Tom, para aquela capa. “Terra Brasilis, uma orquídea?”. Não coincidia com o que ele tinha na cabeça. O Tom, em relação aos seus discos, sabia exactamente o que queria. Então pediu ao Paulo, filho dele, que desenhasse. “Quero os bichos, a onça, a cobra, o urubu, o gavião…”. O Paulinho fez esse trabalho, que é lindo”. O Paulinho, quando o pai era vivo, integrava também a Banda Nova. É músico.

A geografia onde nos encontramos é a de Tom. Ana mudou-se para Ipanema em 2001 e alugou a casa mítica que os dois construíram no “sovaco do Cristo”, no alto do morro do Jardim Botânico. “Vim para cá para a vida ficar mais leve”. Do outro lado da rua, é a Praia de Ipanema. Ao fundo, à esquerda, avista-se a pequena praia do Arpoador. À direita, o morro dos Dois Irmãos.

É um lugar diferente daquele que ele conheceu. “Ele contava que Ipanema era um areal, poucas casas, um bairro pequeno, onde as pessoas todas se conheciam. Era uma vida bucólica. De um lado a Lagoa [Rodrigo de Freitas], do outro o mar, as montanhas”.

A descrição de Tom incluía taínha, robalo, areia e conchas. Infância e mocidade feliz. “Nada contra viver na Califórnia e Côte d’Azur...”. Mas Ipanema. “Hoje, todo o mundo sabe o que é Ipanema, por causa da Garota. Qual é o sentimento universal? Uma garota linda que passa, você para e olha a moça. Talvez por isso a canção tenha furado. As garotas continuam indo até à praia e estão cada vez mais bonitas. Mas nesse tempo da Garota não íamos mais à praia. A gente tomava chopp. Intelectual não vai a praia, intelectual bebe”, diz n’A Casa do Tom.

Duas ruas atrás da casa de Ana, no bairro de Tom, nas cercanias, fica a padaria Rio-Lisboa. “Todos os dias ia à padaria, comprava jornal, tomava uma média [meia de leite] e pão com manteiga. Pão na chapa! Fazia as coisas todas de carro. Era tão fácil encontrar Tom em Ipanema!, no Leblon, na farmácia, no jornaleiro…”. No Plataforma, onde almoçava diariamente. Uma espécie de atracção turística. “Algumas pessoas iam lá para ver o Tom Jobim ao longe. E à Cobal, uma feira, com barracas que vendem legumes, peixes, e alguns barzinhos. Ele era sempre muito delicado”.

Epítome do bairro, Tom é apresentado do seguinte modo por Ruy Castro no dicionário de Ipanema Ela é Carioca. “Moleque de praia, adepto de esportes, homem de enorme beleza física, aberto à natureza e à vida, sedento de livros e de conhecimento, safo, excêntrico, bom de copo, inestancavelmente criativo e com um senso de humor ideal para a grande especialidade de Ipanema: a conversa fiada”.

Tom Jobim gostava de dizer: “Você já viu que 99% das coisas que a gente fala não têm a menor importância?”.

Tardes de conversa fiada. Cerveja sem fim. “Bebo desde os 15 anos de idade 30 chopes por dia”. Música solar, pele tostada ao sol. “Cada canção que fiz foi uma moça que não comi” – lê-se na biografia de Sérgio Cabral. Ou: “Troco qualquer sinfonia de Beethoven por uma boa erecção”. A parte folclórica. Que não desfaz ou descentra do essencial: a música. Uma música que chega a todos – ambição maior. “Sou um mestiço de popular e erudito. Sou um eruditinho”.

Uma música que ficou.

Tom sabia que a música de Jobim ficaria. Ana recorda que “detestava falar de negócios, do business, da edição. Mas sempre teve preocupação com a obra, com o património, como é que isso ia ficar. Deixou uma vida absolutamente organizada. Salvou as edições. No Brasil e na América Latina controlamos mais de 80% da sua obra. Tem coisas importantes com as quais temos problemas. Estamos movendo uma acção contra a Universal Music Publishing por causa das versões [das músicas originais]. Não queria ver a obra dele explorada de qualquer jeito, e mexida. Durante anos participou. “Garota de Ipanema, quero assim. Meditação, quero assim. Insensatez, quero assim”. Empenhava-se a fundo. No inglês. Para que ficasse com a ideia original, e não uma coisa “exotique”. Era uma pessoa suave, não era ríspido. Mas firme. Sabia exactamente o que queria. E não deixava que fizessem do jeito que ele não queria”.

Quando Tom conheceu Ana, ele tinha quase 50 anos e nos jornais Drummond de Andrade chamava-lhe “sabiá-mor, vulgo Tom Jobim”. Salvé, salvé. Ela era uma moça de 19 anos, filha de militar. Estudava, tinha um namorado. Tom dizia: “Não quero plantas nem bichos”, como quem diz que não quer amarras. Sobretudo, como quem diz: “Já fiz tudo isso”. “Por outro lado, eu tinha apenas 22 anos quando nos casámos. “Eu vou querer ter filhos”. Ele foi muito feliz por ter tido essa coragem, de partir para uma vida nova, de ter tido crianças”.

Na biografia escrita por Sérgio Cabral fica a saber-se que, para a conquistar, Tom teve de oferecer-lhes discos do Chico Buarque... “E livros do Drummond [de Andrade]!”, acrescenta Ana.

E resistia, na sua vida normal, quotidiana. Não acreditava que ele realmente estivesse interessado nela. “Achava que fazia aquilo por graça”. Mas ficaram amigos. “Ele fazia perguntas. Era muito curioso. Queria saber de você”.

Uma pergunta típica do Tom.

“Tem algumas. “Você fala francês?”. Perguntava pelas raízes, a mistura do sangue; se as suas raízes eram espanholas, italianas, se tinha sangue nordestino. (Ele tinha sangue nordestino)”. Não perguntava pelos livros que o outro lia, pela música. “Procurava mostrar aquilo de que gostava. No meu caso, mostrou-me os poetas: Neruda, Drummond. Nessa época, ele lia muito Castañeda. Era realmente um admirável mundo novo, para mim!”

Para Tom, talvez Ana representasse, também, um admirável mundo novo. Para trás existia um casamento de quase 30 anos com Thereza, que acabara, por erosão. E uma crise de quem está no mezzo del camino. “Quando ele me conheceu e se apaixonou por mim, andava muito desanimado da vida. Estava querendo mudar muita coisa. Desanimado com a saúde, e até com o trabalho. Tudo isto gerou um novo élan para a vida dele. Devia ser muito assustador! Tão assustador quando desejável. É uma história bonita, profunda, de muito amor, mas com muitas dificuldades. Não foi fácil para os dois lados, embora tenha sido muito bom”.

Com Ana, fecha-se um ciclo, inaugura-se um novo. Já não era o tempo das grandes parcerias, com Newton Mendonça (Samba de uma Nota Só), Vinicius de Moraes (a lista é interminável…), Chico Buarque (Sabiá, Anos Dourados, Lígia). Já não era o tempo da vida boémia, cigarro, bebida, noites que acabavam de manhã, uísque despejado na pia – acto desesperado! – pela mulher de Tom e pela de Vinicius (o vídeo com os dois, podres de bêbedos, contando a história, está no youtube). Houve períodos em que anunciava: estou há nove meses sem beber.

As sequelas persistiam. Estava pançudo. Mas isso era o menos. “Quando eu era garotinho, magrinho e bonitinho, as mulheres saíam correndo de mim. Hoje, elas chegam, batem na minha barriga e dizem: “Ô, Tom Jobim, aparece lá em casa para tomar um uísque”. Galhofava. Auto-ironia, constante. Falava do problema circulatório, das carótidas entupidas, exagerava, numa atitude hipocondríaca. Isto é o que se deduz das entrevistas da época, citadas na biografia de Sérgio Cabral. Mas Ana não o recorda assim.

“Quando passou a se cuidar, fazia uma atenção enorme! Começou a fazer ginástica, a caminhar, a não viver mais de madrugada. Seria totalmente incoerente se ele se casasse de novo e continuasse se maltratando. O movimento natural era o contrário. O playground (que era o bar, a boémia) não se misturava com a vida pessoal. Eram espaços distintos. Por uma questão de saúde, por ter criado uma nova família, ter filhos pequenos. É claro que eu interferia, que não gostava de vê-lo beber mais do que devia. Mas há gente que pensa que era uma coisa assim…”

No livro de Cabral, diz-se que Tom bebia às escondidas. “Não abusava quando Ana andava por perto, pois seria repreendido severamente. Ainda assim, contava com a cumplicidade dos garçons e se encontrava com eles no banheiro dos homens para beber chopp ou outra bebida escondido da mulher”.

Ana sorri. “Ele adorava fazer esse número! Não sei se para mim se para os amigos em volta. O número: “A megera está chegando! Ela não deixa fazer, por isso vou para casa!”. Está escrito no poema [auto-biográfico Chapadão]: “Vou criar um mundo novo e criar nova megera”. A mulher era para ele uma megera? A que toma conta? “Megera nesse sentido”.

O poema Chapadão demorou oito anos a ser composto. Como uma longa canção. “Vou viver na minha casa/Vou viver com a minha gente/ Vou viver vida comprida/ Pra não morrer de repente (…) Minha casa é por aí/ É no mundo, monde, mondo”.

Com a Banda Nova, voltou a rodar pelo mundo. A formação da banda permitia satisfazer duas necessidades. A música, e estar em família. “A Banda foi assim: juntava duas pessoas lá em casa, fosse filho, fosse filha, e começava-se a cantar. Eu não cantava. Nunca cantei profissionalmente. Cantava com ele. Nas festas, todo o mundo cantava. Reuniões, aniversários, a gente estava ali, à volta do piano, ele mostrando o que estava fazendo, cantando músicas de outros compositores. Acho que nunca houve uma festa que não terminasse em cantoria. Fora isso, o dia a dia: “Ah, canta isso para mim, canta isso comigo”. A Banda foi meio isso. Havia o conjunto vocal Céu da Boca, de que faziam parte a Maúcha [Adnet] e a Paulinha [Morelenbaum]. Ele gostava muito daquela rapaziada jovem, cantando. Quando surgiu a oportunidade de fazer um show em Viena, começou a dizer: “Quero levar meu filho. Quero botar vozes femininas. O Danilo Caymmi é um óptimo flautista ”. O maestro em Viena queria só o Tom! Ele foi levando… A banda dele sozinho terminou com 11 membros! O que ele privilegiava era estar com pessoas da família. A coisa começou em casa, e daí foi expandindo.”

Dessa formação, que reunia a mulher, os filhos, os amigos e as mulheres dos amigos, Tom dizia: “São cinco moças, cinco moços, e um velho safado!”.

“Como criou esse contexto familiar, estava super à vontade. Parecia que estava na sala lá de casa. Foi uma forma de protecção para ir para o mundo. O Tom não era de viajar. A única vez que fizemos uma viagem de lazer, à Baía, foi um caos! Ele teve dor de dentes, não saía do hotel, brigámos. Com a Banda, uniu-se o útil ao agradável. O pessoal era super-divertido, todo o mundo muito amigo. Ele, em dia de show, não saía. Não gostava de misturar a vida social com o trabalho. Sabia tudo, tudo dos sítios! Mas não queria ir à praia em Recife porque estava em Recife, não queria visitar um templo budista porque estava no Japão. Não estava nem aí. Temperamento dele. Jeito dele. Não tinha a curiosidade de ir. Tinha a curiosidade da mente dele. Era completamente antenada. Livros, o tempo todo”.  

Algumas notas de um samba de uma nota só.

Dinheiro. “Grana? Não precisava de muito para viver, e não era uma pessoa que precisava viver contando dinheiro. A vida da gente era muito simples. O Tom brincava assim: “Para quê muito dinheiro? Chega uma certa idade em que você não pode comer mais do que um bife por dia!”.

Nos anos 80, Jobim negociou com a Coca-Cola a utilização de Águas de Março num anúncio. Foi zurzido de pau (e talvez pedra…), como se diz no Brasil. Mas, face às críticas, lembrou que Michael Jackson tinha ganho cinco milhões de dólares num anúncio da Pepsi e com esse dinheiro comprado a obra completa dos Beatles. “Se eu ganhasse um dinheirão desses, compraria a obra de António Carlos Jobim”.

Vinicius. Uma carta começa assim: “Vina, meu amor”. Quando Tom e Ana se casaram, a relação com Vinicius era muito próxima. Quando Tom e Vinicius se conheceram, Ana não era nascida. Mas a narrativa sobre o encontro dos dois, e a sua relação, eram constantes. “Vinicius já era o Vinicius de Moraes. O poeta, o diplomata, o cara do mundo. O Tom era bem mais jovem. Um músico que estava dando os primeiros passos em direcção ao sucesso. Criou-se uma relação de afinidade, companheirismo, uma irmandade. A tónica daquela relação era muito lúdica. Eram noites e dias, almoços que se estendiam para jantares, cantorias. Já não compunham mais juntos. Mas havia uma cumplicidade. Um casamento, mesmo”.

Ecologia. “Tom foi pioneiro na preocupação ecológica. Uma vez um americano disse que ele era ecologista. Tom nunca tinha escutado essa palavra. Foi ver o significado e percebeu que não tinha que ver com eco [risos], com som, mas com a casa, com o habitat do Homem”.

“Olha um pássaro, ai, tá cantando”, diz Tom, entre parêntesis, entre frases, para a câmara de Ana Jobim. “Olha as narinas conspícuas do urubu. Ele sente o cheiro. Cheira venenos. Voa do Alasca a patagónia, via Brasil. Urubu Jereba”. “Toda a minha obra é inspirada na mata atlântica”. Tinha paixão por Guimarães Rosa. Comungavam ambientes, personagens, ambientes fantasiosos.

E com ar rufia, mascando uma folha verde: “Só os matreiros, descendentes de índios, como eu, podem comer as plantas selvagens. Porque elas são venenosas”.

Tom, pertença do mundo. Amante de um Rio luxuriante. Preocupado com o Brasil e o futuro que gerações vindouras vão habitar. O mar, a natureza, o lugar, sempre estiveram lá. “Eu era um peixe. Caía no Arpoador e ia a nado até Copacabana e voltava”.

E anos depois, nesse pedaço de terra, compunha músicas de sal, sol, sul. Latitude exacta: um cantinho, um violão. Longitude: a onda que se ergueu no mar. Compôs todas as canções que fazem a biografia de um tempo. Entre Ipanema e Copacabana.

“Quando o piano chegou na casa dele, era para Helena [irmã] estudar”, recupera Ana. Ruy Castro escreve que durante a adolescência “a música não estava ainda entre os seus dois ou três principais interesses – esses eram as caçadas, as pescarias e talvez o desenho, com vista a uma futura carreira de arquitecto”.

Mas aí, prossegue Ana, “ele se interessou. E foi, foi. O Dr. Celso [padrasto], deu-lhe um piano porque ele vinha mostrando um talento, vinha estudando”.

Dr. Celso: o amoroso padrasto de Tom.

O Pai: homem atormentado, ciumento, que se separou na mãe, e morreu cedo. Tom tinha nove anos.

Dona Nilza: a mãe que o teve aos 16 anos. “Uma mãe forte, de muita fibra, personalidade. Tinha um amor por ele tremendo. Tom foi cercado de muito carinho e amor”, recorda Ana.   

Ruy Castro escreve em Chega de Saudade, biografia do movimento Bossa Nova, que Tom era “hors concours”. Unanimemente o homem mais bonito da sua geração, e o mais talentoso. Um génio.

“Se ele sabia que era um génio? Pergunta difícil”. Foi por aí que começou a conversa com Ana Jobim, na sua casa, no Rio. Tom, nota só, perpassou toda a conversa. Outras notas entraram, mas a base foi uma só. O pretexto era a saudade. (Saudade não tem fim, felicidade sim. Escreveu Vininha, o irmão, parceiro, De Moraes. As saudades que o mundo tem de Tom. Há quinze anos.) “Acho que ele sabia que era especial. Não viveu muito, mas viveu o suficiente para saber como se repercutiu a obra dele no mundo. Não diria que sabia que era um génio, mas sabia que era diferente”.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2009 

 

Diário da Flip 2017 (Paraty)

23.01.18

Quando Dona Diva falou em Paraty, era sexta de manhã. Estava um calor suave, é Inverno de mais de 20 graus. A plateia seguia uma conversa sobre racismo com o estratosférico Lázaro Ramos e a jornalista do Público Joana Gorjão Henriques. A plateia transbordava, porque Lázaro é estratosférico (ou seja, é popular de um jeito que não se acredita) e porque o tema do racismo se impôs como discussão urgente no Brasil. O outro tema é feminismo. Além da omnipresente desigualdade, corrupção, violência, além de todos os problemas adjacentes a estes, e de todos os problemas crónicos de um país que vai levando. Pela primeira vez na história da FLIP, uma festa que tem nos livros o motor e um alcance internacional, havia mais mulheres do que homens entre os autores convidados. E negros. Facto nada despiciendo. Sintonia indispensável com as discussões de todos os dias. Chapeau à curadora, a jornalista e biógrafa de Jorge Amado, Josélia Aguiar.

E então emergiu Dona Diva da plateia. Muitos anos, muita sabedoria, muita coragem para partilhar uma história que comoveu aquela plateia e os milhões que entretanto souberam dela e viram os 12 minutos de catarse de uma vida nas redes sociais. Se me lêem neste passo, interrompam tudo e vão ver. Porque naquele pedaço está a história (triste) do mundo. Dona Diva é neta de escravos, é professora. Falou de racismo, falou de educação, falou de ter assistido na véspera à mesa "Em Nome da Mãe" com a brasileira Noemi Jaffe e a ruandesa Scholastique Mukasonga e de as palavras destas a terem inspirado a contar a sua história. “Eu sou uma sobrevivente pela educação, pela luta da minha mãe”. A mãe que sofreu humilhações, que lavava roupa para fora em troca de material escolar. Diva revoltava-se. Diva queria ajudar, trabalhar, ganhar. "Igual à senhora? Nunca vou ser", "Então só tem um jeito, vai estudar", "E eu pegava no meu caderninho e saía correndo para a aula, acreditando”.

Fui eu que moderei esta conversa entre Noemi e Scholastique. Pudesse eu imaginar que na plateia estava Dona Diva. Pudesse eu imaginar que aquelas palavras teriam o efeito de uma bola que deflagra qualquer coisa dentro.

Na verdade, e com muita pena minha, não vi Dona Diva em directo. À mesma hora estava na Casa Amado e Saramago a assistir a uma intervenção comovente da Bruna, menina de 20 e poucos. Antes da Bruna, falaram a escritora portuguesa-angolana Djaimilia Pereira de Almeida e a poeta-interventora-sei lá mas tudo Adelaide Ivánova, sobre mulher, corpo, intervenção. Recortei estas palavras para o meu caderno: "desde que estejamos na luta", "preconceito interiorizado", "onda de coragem de pessoas comuns", "emergência de processos emancipatórios", "a partilha empodera?". Eram tantas, tantas mulheres. Eram tão jovens, tão bonitas, brancas, negras, articuladas, valentes. Ligadas numa certeza que surgiu daquele momento, do que juntas disseram. Bruna partilhou a vez em que foi a uma delegacia apresentar queixa por tentativa de estupro. Tentativa??, responderam zombando, tentativa?? Bruna deduzia que só seria levada a sério se aparece ensanguentada como a vizinha que um dia socorreu e que era espancada pelo marido.

O que é que a banalização da violência sobre a mulher tem que ver com literatura? O que é que a discussão sobre a cor da pele tem que ver com literatura? Tudo. A não ser que se olhe a literatura como uma ilha de marfim onde não entram as tormentas do mundo. A não ser que se considere que literatura e política são incomunicantes.

Não foi esse o entendimento de José Saramago, em cuja casa estive nessa sexta de manhã e nos outros dias da FLIP. A Casa Amado e Saramago tinha o estatuto de casa parceira da programação oficial. Foi a minha casa, com gosto, com orgulho. Saramago era um pensador político; não por acaso, no discurso de recebimento do Nobel da Literatura, e quando passavam 50 anos sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, exortou à elaboração de uma carta dos deveres humanos, incitou-nos, cidadãos, a exigir, a agir, a ser plurais.

Já estive uma vez com Saramago no México, nunca havia estado com Saramago no Brasil. Num caso e noutro, é um estar metafórico. E num caso e noutro, estive com hordas de pessoas que faziam bicha durante horas para assistir a uma conversa, ver fotografia de José e Jorge sentados na Bahia com ar folgazão, ouvir Pilar del Río, sempre veemente (quando Pilar falou na programação oficial, estava na plateia uma camioneta de alunos de Ciência Política, vindos de São Paulo, quatro horas e meia de caminho, para a ver). Soa estranho escrever isto, mas vou escrever: vi no México e no Brasil uma loucura afectiva, táctil por Saramago, além de um conhecimento profundo da obra, que nunca presenciei em Portugal.

A casa era numa rua de pedras largas e irregulares, como todas do centro de Paraty. Era uma casa pequena onde couberam muitas vezes 200 pessoas. Sessões esgotadíssimas, dezenas de pessoas à espera meia hora antes de entrar, programação intensa. Pilar del Río e Paloma Amado eram as anfitriãs. Os cúmplices: Ricardo Viel e Sérgio Letria da Fundação Saramago, Rosarinho Prata-que toma conta de todos com atenção extrema e discreta. Outros cúmplices: Lilia Moritz Schwarcz, Luiz Schwarcz da Companhia das Letras, que lançou o livro com as cartas trocadas pelos dois amigos ao longo de sete anos (ainda não há data para a publicação de "Com o Mar por Meio" em Portugal). Intervieram na casa Andrea Zamorano, Frederico Lourenço, Giovana Xavier (do grupo Intelectuais Negras - Visíveis), José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Ondjaki, entre outros. José António Pinto Ribeiro e Luiz Eduardo Soares (o sociólogo que escreveu o livro que esteve na origem de "Tropa de Elite") tocaram na ferida: apontaram a inexistência de um Estado de Direito no Brasil e da necessidade imperiosa de o construir. Lívia Nestrovski, Fred Ferreira e Talita del Collado interpretaram um repertório que nos remeteu para o universo dos dois escritores; ouviu-se "Utopia" de Zeca Afonso e "Gabriela", claro.

Foi a segunda vez que estive em Paraty durante a festa literária internacional. Fui a partir do Rio, maravilhei-me com o caminho serpenteado. Entretanto soube da chegada de 10 mil militares ao estado do Rio de Janeiro. É um país em brasa aquele em que estou. O Rio vai quebrar, já quebrou, há uma vaga de assaltos a camiões de mercadoria, comentam. O Estado não paga a funcionários públicos há três meses, há cantinas e bibliotecas de universidades fechadas desde o começo do semestre. Brasília não sabe se sobrevive ao dia seguinte. E o futuro?

Aprendi, conheci pessoas, fiquei com vontade de fazer coisas. Um dia depois de chegar parecia ter passado uma semana, tal a torrente. Percebi que a palavra mais escutada foi convulsão. Palavra potente: convulsão. Quem imaginaria Dona Diva pedindo a palavra há dez anos, há cinco, há um? Notem que o escritor homenageado foi um negro, Lima Barreto. Há coisas a acontecer. Há coisas que não podem ser estancadas. Que privilégio seguir de perto, estar na rebentação.

 

 

 Publicado no Jornal de Letras em Agosto de 2017

José Saramago: o Nobel

23.01.18

Um momento de glória. Quando chega a uma escola nova e dá um único erro ortográfico no ditado: escreve “calsse” em vez de “classe”, e passa para a carteira do melhor. “Foi aqui, agora que o penso, que a história da minha vida começou”.

Outro momento. “Quando o PEN Clube me atribuiu o seu prémio pelo romance “Levantado do Chão”, contei esta história para assegurar às pessoas que nenhum momento de glória presente ou futura poderia, nem por sombras, comparar-se àquele. Tinha publicado o “Levantado do Chão” em 1980, ainda tinham que passar 18 anos para que me dessem o Prémio Nobel... Momento de glória, o que é que isso quer dizer?”

A Glória. “Uma sensação de glória só pode ser algo muito fugaz. O que constrói a glória é a visão dos outros. Já que os outros acham que têm motivo para isso, a pessoa começa também a achar. Imaginar que por causa do Nobel é que passei a andar num virote... A minha vida antes já era essa, desde os anos 70, final dos anos 60. Só multiplicou aquilo que vinha sucedendo já. Mas multiplicou por muito, tenho que dizer. Não mudou nada. Nem me pôs defeitos que não tivesse antes, nem introduziu qualidades que não fossem as minhas. A pessoa que sou não mudou. E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo que escreve”. São pequenas glórias praticamente quotidianas. Aqui ou em Espanha”.

José Saramago, 2006, em entrevista para o Jornal de Negócios a propósito da publicação do seu livro de memórias. Um livro em que recua até um tempo que deixou de existir. Mas que vive nele, porque ele fez-se nesse “fundo movediço, composto de restos, de detritos de tudo e de todos” onde fica a infância. “E há coisas que estão aí “ipsis verbis”, frases que ficaram durante 70 anos ou mais na minha memória. Até mesmo factos, pessoas e nomes que julgava esquecidos, quando comecei a escavar, de repente, subiram à superfície. O quarto onde se dormia, a varanda que dava para a Rua Heróis de Quionga, na Mouraria, a prostituta que me disse assim, eu tinha doze anos: “O menino quer vir para o quarto?”.

Fez-se na Azinhaga, nos quartos com serventia de cozinha nas casas partilhadas de Lisboa. Fez-se na aspereza dos dias. Na necessidade. Na humilhação. O que ficou desse tempo?

Um sapateiro que lhe perguntou: «Você acredita na pluralidade dos mundos?». A memória reconfortante do avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”. Citou-o no discurso do Nobel. A memória reconfortante da avó Josefa: “Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. (…) E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém”. Memória transformada em carta, publicada n’ A Capital em 1968 e publicada recentemente em postal.

Era um tempo em que José Saramago era Zezito. Que vive nele. Abeirou-se dessas memórias como quem abraça as árvores do seu quintal. “Terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”.

A morte rondou-o, há um ano. A gadanha pronta. Tê-lo-ia o inconsciente pressentido quando o parou nas memórias de infância? O consciente afirma que a ideia do livro existia há vinte anos. Mesmo assim. Foi um susto. Pilar agarrou-lhe pelos colarinhos e gritou-lhe que ele tinha de viver. Segurou-o. Novo milagre: o amor a prendê-lo à vida. O primeiro milagre é, segundo Eduardo Lourenço, toda a sua vida.

“Os meus pais sacrificaram-se muito e deram-me estudos para ir para a universidade? Não, tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966. O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o “Manual de Pintura e Caligrafia”, e o “Objecto Quase”. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever “Uma Viagem a Portugal”, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro_ ele já estava ganho”.

Pilar, “mais do que um anjo, uma mulher. Podia ser qualquer outra, dirá você. Pois, mas é esta. A diferença está aí. De anjo tem muito pouco. É de carácter demasiado forte”. A jornalista espanhola que apareceu na sua vida em 1986. Na agenda pessoal do escritor, permanece a folha de uma árvore, dourada pelo tempo, que assinala esses dias. Era para ter sido no dia 11 de Junho, e ele pensava que ela era Pilar de los Rios. Mas o encontro deu-se, na verdade, dias mais tarde, a 14, e ele riscou sobre o nome e sublinhou numa cor fluorescente: Pilar del Río.

Tudo mudou. Saramago tinha passado os 60, e não podia supor que tinha ainda uma vida inteira para viver. Nunca desligada da criança que havia sido. Nunca desligada das convicções que fizeram dele o homem de convicções que é. “Quero ter tempo para escrevê-la [a obra], reivindico tempo para escrevê-la. Mas não é a única prioridade, eu vivo neste mundo. E o que se passa, em primeiro lugar interessa-me, em segundo lugar impressiona-me, em terceiro lugar indigna-me, e tenho que dar voz a estes sentimentos. Passe-se a questão na América Hispânica, em África, na China. Não é que ande a dar lições de moral a todo o mundo. Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam”.

Pilar já estava quando a expectativa do Nobel existia. O amigo Jorge Amado escreve numa carta, em 1994: “Queridos Pilar e José, ainda não será desta que iremos os quatro, a Estocolmo, festejar o Nobel de José: um japonês nos atropelou. (…) PS: Para dizer toda a verdade, devo convir que os US$950,000 do Nobel cairiam muito bem no bolso de um romancista português ou brasileiro, pobres de marré marré”. Estava quando intelectuais como Susan Sontag os visitou em Lanzarote (1996). Ou quando se deram os encontros com Harold Bloom (2001) e George Steiner (2002).

Saramago estava no aeroporto de Frankfurt quando lhe comunicaram que “pela sua capacidade para tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas suportadas pela imaginação, a compaixão e a ironia” lhe era atribuído o Prémio Nobel da Literatura. No dia 8 de Outubro de há dez anos. O escritor quer continuar a ser o cidadão comprometido que sempre foi: “O Nobel dá-me a oportunidade de ser mais eu”. Em 2004 dirá: “Sim, tenho o Nobel, e quê? Nada mudou”. E por isso não é estranho que durante o banquete, na Suécia, tenha denunciado o incumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Foi nomeado, agraciado, reconhecido. Filho adoptivo desta e daquela cidade, sócio honorário deste e daqueloutro clube, honoris causa de mil e uma universidades. Recebeu medalhas, condecorações, títulos. Uma imensidão. Quais o terão tocado? Alguns exemplos: Leitor Emérito da Biblioteca Nacional. O Grande Colar da Ordem de Santiago, até aí reservada apenas a chefes de Estado. “Ensaio sobre a Cegueira” foi adaptado por Fernando Meirelles e abriu o último Festival de Cannes. A exposição “A consistência dos sonhos” mostrou numa sequência cronológica a sua vida, primeiro em Lanzarote, depois em Lisboa. Reconciliou-se um pouco com o país. Sócrates disse-lhe: “Gostamos muito de si”. Ele respondeu um “obrigadinho” sentido.

Há uns meses, regressou à ilha. A casa. Escreveu um romance cuja ideia é antiga. “A Viagem do Elefante” é um livro que podia não existir. Há um ano, não se acreditaria que ele existisse. Mas está pronto a sair. Terceiro milagre.

"Tenho uma péssima fama, fama de sisudo, de carrancudo, de cara fechada. E depois passa-se a qualificativos de outro género: “Arrogante”, “orgulhoso”, “vaidoso”. Não me reconheço em nada disso, mas cada um olha para mim como quer. Claro que não me desmancho em sorrisos para toda a gente, não sou assim

Gostam do que escrevo, mas mais importante é que gostam da pessoa que eu sou. Se há algum motivo de glória que tenho, nem é o dia na escola primária nem sequer é o Nobel: é o saber-me amado por muitíssimos milhares de pessoas no mundo. Pode isto parecer uma presunção, que estou aqui a inventar uma história bonita para os leitores do seu jornal, mas não. A história bonita é, mas não é inventada."

 

 Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

Gonçalo M. Tavares

23.01.18

Pensemos numa célula, na membrana, no núcleo. Pensemos num mundo onde os caminhos se fazem a pé, o perímetro é desafiado, o âmago procurado. Uma célula é uma célula é uma célula. Individuada, porosa, em relação com outras células, com outros sujeitos, com outras palavras. Um escritor como Gonçalo M. Tavares é um mundo que nos interroga no coração do que importa. Parece possível, na sua escrita, chegar à célula unitária e recomeçar, a partir dela, a compreender o mundo, a não saber nada, a ter vontade de continuar à procura, a ter vislumbres do que as coisas são. Do que é, por exemplo, a felicidade.

Foi em coisas assim que pensei quando falei com ele, numa tarde de Outono, no Folio, o festival literário de Óbidos. Interroguei-me sobre o epicentro, os seus epicentros, as palavras fundadoras. E sobre o papel da alegria no ofício de viver.

(Este texto é, então, uma adaptação dessa conversa perante a plateia.)

  

Num livro antigo, Investigações Geométricas: “Depressão, (dia seguinte). Mas afinal há ainda possibilidades (um novo dia)”. Outra entrada: “Realidade, imaginação, método para não ficar louco: abrir a tinta das coisas.” Outra ainda: “Ao medo podemos chamar possibilidade de perder a forma”. Medo, imaginação, novo: estas são as suas palavras-âmago?

Há palavras com um tom meio saltitante. Torcicologologista é um exemplo. E há palavras muito mais pesadas. Ando muito entre palavras que me puxam para baixo, que me obrigam a escavar, e palavras que são como helicópteros, que puxam para cima.

Tenho livros por todos os compartimentos, como toda a gente. Recentemente estava a ler um livro sobre o Holocausto. Devo tê-lo pousado numa secretária que tenho no quarto. Nessa noite, estava a adormecer e havia ali um incómodo qualquer. Parece uma coisa de filme, mas era como um som que não deixa dormir. Simbolicamente encontrei naquele livro [a razão do incómodo]. Abri a porta do quarto, pus o livro fora, como se põe um animal que entrou e não devia ter entrado. Fechei a porta, consegui dormir.

 

O que se lê antes de dormir interfere connosco...

Durante muito tempo lia livros muito duros, ou livros de Filosofia, e era muito difícil adormecer. Ultimamente, li Cebolinha e Mónica. Se queremos que as palavras nos embalem, para podermos adormecer, há palavras que servem para isso. E há palavras que nos acordam, que constantemente nos acordam, mesmo que tenhamos muito sono.

 

Movimento, dança: são palavras que o içam? São palavras que o põem num plano de leveza, ao contrário de medo ou ameaça, que são as tais palavras-chumbo?

Era interessante que as palavras tivessem um peso. Se calhar têm. Pôr na balança, as palavras... A palavra Paris não tem o mesmo peso para uma pessoa que se apaixonou em Paris ou para uma que partiu a perna em Paris.

Mas da palavra movimento gosto muito. Há vários tipos de movimento. A Organização Mundial de Saúde, que é muito revolucionária, tem uma definição de saúde muito bonita: “A saúde é o bem-estar físico, mental e social”. É uma definição que ainda hoje não é aplicada. Estamos quase só na saúde física. Temos uma espécie de fobia da ideia do sedentário físico. E quando as pessoas falam de querer saúde falam sempre no que vão comer, se vão correr de manhã, ou não. E a OMS está a dizer que há três tipos de sedentarismo. Uma pessoa pode ser sedentário físico, sedentário mental, sedentário social.

 

Como assim?

Se alguém não lê um livro, não tem curiosidade, tem uma imobilidade mental. Não é saudável. Se alguém durante muito tempo não conhece pessoas novas, é um sedentário social. Nesse sentido, o movimento é o inimigo deste sedentário. Associo sempre o movimento físico, mental, social: são uma manifestação pelo verbo da vida e da saúde.

 

Gostava de derivar de movimento para fuga, procura. No sentido de busca, demanda, itinerários, estar perdido. É uma coisa constante nos seus livros, alguém que está em fuga. Alguém que busca qualquer coisa (um sentido, a resolução de um enigma). A busca para corrigir o que está em desequilíbrio.

É uma expressão de um filósofo de que gosto muito: a pessoa aprender enquanto está a fugir. Usar a fuga como meio de aprendizagem. Normalmente associa-se a fuga ao querer afastar-se o mais rápido possível de um inimigo.

Enquanto seres vivos, estamos em fuga. Os gregos eram muito sensatos, falavam dos deuses e dos mortais. Nós somos os mortais. Os mortais: aqueles que vão morrer. Isto é tão forte, tão terrível... Mas agimos como imortais, claramente.

 

Defensivamente vivemos na ilusão de que há para nós o instante seguinte, de que há sempre o instante seguinte.

A pessoa perceber que é mortal é perceber que estar vivo é estar em fuga disso – da morte. E estar em fuga não é uma fuga desesperada, é uma fuga consciente. Se a pessoa perceber que é realmente mortal começa a dar um peso diferente às decisões. Tenho amigos que vivem como deuses.

 

Ou seja?

Nada tem peso. Podem ver um filme mau, sabem que é mau, como se fossem imortais, como se tivessem tempo. Quando se é mortal cada decisão tem um peso, e esse peso não deprime, alegra. É o peso de eu decidir e de aquela escolha ser a de alguém que sabe que vai morrer. Todas as manhãs devíamos dizer: aquele que vai morrer, hoje vai trabalhar. Aquele que vai morrer, hoje vai a Óbidos falar. Aquele que vai morrer por enquanto pode ir a Óbidos falar. Aquele que vai morrer tem a possibilidade de comer um pastel de nata. Se, pelo contrário, colocarmos isto tudo na imortalidade, nada tem importância.

 

A palavra urgência adquire então um peso diferente: temos a urgência de fazer coisas porque somos conscientes da nossa mortalidade, da finitude do tempo, e isso é vivido com alegria. Sublinho esta palavra – alegria – tão preciosa. De certa maneira, caiu em desuso neste século, onde a aposta é no sucesso, na isenção da falha. A felicidade quase se transformou num conceito abstracto.

No antigo Egipto, uma das perguntas que faziam depois de as pessoas morrerem, era: “Alguma vez tiraste o sorriso de uma criança?”. Era uma das perguntas que tinham peso. Alguém que dissesse: “Sim, por três vezes tirei o sorriso de uma criança”, tinha um peso negativo. O julgamento final é de quanta alegria se introduziu no mundo, de quanta alegria se tirou do mundo.

O Robert Walser tem uma pergunta muito terrível, que parece muito banal: “As pessoas que vivem contigo são felizes?”. É uma pergunta decisiva. Se a esta pergunta a resposta não é um sim inequívoco, há alguma coisa que está a cair.

 

É forçado dizer que as pessoas que nos seus livros estão perdidas (perdidas no seu século, perdidas dos seus progenitores, de si mesmas) procuram a felicidade?

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai é sobre uma menina com Síndrome de Down. E por falar em alegria, tenho tido oportunidade de me cruzar com muitos meninos com Trissomia 21. Dou mestrado em Reabilitação Psicomotora, dou aulas a futuros professores de crianças com deficiência física, mental. Cada pessoa com Trissomia 21 é muito diferente. Há meninos muito malandros e maus (felizmente, é uma maneira de se defenderem). Mas há uma coisa base que é a alegria.

Nesse livro, a personagem central vai com a menina tentar encontrar o pai por várias cidades, e a menina é uma espécie de salvo-conduto. A certa altura ele chama-lhe um Moisés que separa as águas. Tudo se afasta, há uma aura [que ela tem].

Hoje, pela clonagem, um conjunto de técnicas que às vezes diabolizamos mas que têm coisas muito boas, começa a ser possível eliminar algumas doenças. A escolha de ter filho ou filha é banal nos Estados Unidos. Já se pode escolher a cor dos olhos. Mas tirando essas questões estéticas, há doenças. Uma das discussões que existem é se estamos à beira de eliminar a possibilidade de existir Trissomia 21. A maior parte dos cientistas diz que não devemos eliminar esta hipótese.

 

Porquê?

Podemos dizer que a pessoa não tem consciência, mas se forem bem protegidos, muitas vezes têm uma vida muito alegre. Mostra como somos invulgares enquanto espécie humana. Não faz sentido julgarmos que aquela alegria, por não ser consciente, é pior do que a nossa. Damos um peso muito grande à questão de a pessoa ter lucidez, consciência. O essencial não é isso, é a alegria. A alegria que a pessoa tem e a alegria que a pessoa consegue transmitir.

Falando do Alzheimer. Tenho um colega, a mãe tem um mundo de absoluta fantasia. Um mundo que não existe. Um conjunto de imagens consecutivas que não existem. Tem a sensação de que o marido ainda está vivo. Está muito claro que ela vive num estado de alegria inconsciente. Qual é o sentido de agarrar nesta senhora e dizer: “O seu marido não está vivo”? Entre a lucidez e a alegria, não há dúvidas: a alegria é muito mais importante.

 

Como é que ficou tão difícil uma coisa essencial – a alegria?

N’ O Torcicologogista tenho duas personagens, uma que acorda a dizer sim, e uma outra que a primeira palavra que diz é não. Há por vezes tanta tensão na cidade que estamos a ser transformados em máquinas que acordam a dizer não. Quererem obrigar-nos a ser uma espécie que acorda a dizer não é das maiores violências que existem. Como é que acordamos radiantes? Não é habitual, infelizmente.

 

Há um verso de Alexandre O’Neil (que por acaso traz para o seu último livro, num outro verso), e que agora me ocorreu. Fala do modo funcionário de viver. É nesse que vivemos, peça de uma engrenagem, árida, movimento acelerado, com grande dificuldade em parar, escutar, ver. A ideia de máquina e de processo é outra constante no seu universo. Escrevi um texto sobre a avaria. Todos estamos fascinados com a electricidade, e a electricidade é o símbolo desta velocidade. Só há momentos de paragem súbita quando há uma avaria. Quando se está em casa e a electricidade vai abaixo, há uns que estão no computador, outros na televisão, e a primeira reacção é: “Que desgraça!, o que é que nos foi acontecer?”. Com o tempo, se a avaria por felicidade se prolongar, as pessoas começam a relaxar e há qualquer coisa que aparece, que é imprevisível – é outro tempo.

A electricidade ilumina. Inicialmente era a possibilidade de nos vermos uns aos outros. Quando a electricidade é transformada num meio técnico que faz com que a minha presença corporal seja apenas simbólica… Se estou ao lado de uma pessoa, a dois metros, e estou na Internet, o meu corpo simbolicamente está aqui. A electricidade transforma o nosso corpo num traço abstracto que está simbolicamente ao lado, mas na realidade estamos noutro lado.

 

A nossa atenção está fora de nós, fora do nosso corpo.

É, é a questão da atenção: a nossa atenção está onde estamos. O que é terrível no canto da sereia da electricidade, das comunicações, é que o sítio onde está a nossa atenção e o sítio onde está o nosso corpo é raro coincidirem. De vez em quando o nosso corpo encontra-se com a nossa atenção e diz: “Bem, há tanto tempo que não te via”. É uma fragmentação da vida muito violenta.

 

Lá atrás falávamos de avaria...

Quando as coisas avariam , quando já não posso telefonar, mandar mensagens, fico numa rua sem saída. De repente tenho o corpo e a atenção sincronizados. Quando vários corpos e várias atenções estão sincronizadas cria-se qualquer coisa muito animal e muito humana ao mesmo tempo. Estamos aqui e a nossa atenção está aqui. E há duas pessoas que têm o seu corpo e a sua atenção num mesmo espaço. Isso é qualquer coisa de invulgar, hoje. A avaria é uma possibilidade de alegria, de voltar à alegria animalesca e humana que tínhamos.

 

Há uma coisa que acontece ao corpo e que não acontece na electricidade, ou na velocidade: a cicatriz. No seu livro Investigações Geométricas lê-se: “Não há formas novas. É impossível começar. Mas a única hipótese é voltar a começar.” Isto põe-nos no passo seguinte, aquele que sucede à cicatriz.

Se pensarmos na história do século XX, percebemos que as nossas cicatrizes são quase ar. O homem é capaz de resistir a coisas impressionantes. Há casos de pessoas que estiveram em Auschwitz, que saíram e que tiveram filhos, constituíram família. Esta ideia de reconstrução, de começo novo está no centro do ser humano. Quando alguém consegue reconstruir a partir do momento em que a sua família foi exterminada, do momento em que viu coisas horríveis, e consegue ter filhos, a partir daí qualquer cicatriz é menor.

 

Como é que não desabamos depois do extermínio, depois do fim das utopias, depois da decepção? De onde vem esse ímpeto, essa coisa vital que nos faz acreditar na nova forma do dia seguinte, ter filhos, fazer vida?

A linha do horizonte é muito bonita. É uma linha ficcional, privada. Parece que é mesmo uma linha que o mundo está a traçar, e aquilo não existe. Esta capacidade óptica de vermos a linha do horizonte, alimenta-nos. Temos uma espécie de miragem, sempre. Não vemos só o muito perto, somos um animal de projecto, de linha do horizonte. O que é terrível é quando as pessoas crescem num ambiente onde levantar a cabeça é qualquer coisa de castigável. O movimento do esternocleidomastoideo, que levanta a cabeça, e que não está só circunscrito àquele corpo e àquele momento, e consegue ver o dia seguinte, é um movimento de qualquer tragédia.

Durante muito tempo andei com uma frase da Clarice Lispector, do Perto do Coração Selvagem: “De qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo”. Depois de qualquer conflito ou tragédia, ou depois de qualquer tédio, que às vezes é o mais difícil, levantar como um cavalo novo...

 

A imagem que me ocorre para esse cavalo novo é a de um movimento que atravessa o vento, sem medo. Tem muito de pureza, de força inaugural.

Uma coisa muito chocante para mim em termos da espécie humana é perceber a forma como somos indefesos. Se compararmos o homem com os outros animais, é impressionante a fragilidade. O homem é de longe o animal que nasce mais inábil, mais tonto. Um bebé recém-nascido não percebe nada. Se a consciência fosse essencial havia aqui uma coisa claramente errada. O que marca a espécie humana é que se não tivéssemos um cuidador, já tínhamos desaparecido. Existimos porque temos um instinto amoroso, que é inexplicável.

 

Um instinto que nos faz cuidar do indefeso.

É este gesto amoroso que funda o humano. O que é incrível é a fragilidade dos bebés.

Um espectáculo de terror é ver um insecto que foi virado de costas para o chão, a mexer as patas, a tentar virar-se e a não conseguir. Quando crianças, por vezes, perversamente, púnhamos os insectos de costas para o chão. E depois, a brincarmos aos deuses, lá os virávamos de novo. Um bebé, até aos três, quatro meses, se se colocar de costas, não se consegue virar. Tal como o insecto, precisa de um toque de alguém, de um dedo. Um bebé precisa de alguém para se pôr na posição certa em relação ao chão.

 

Somos na relação com outros, carentes do contacto com outros. O gesto é criador.

O ódio é secundário, este gesto é que funda o humano. Individualmente somos isto, nascemos isto, somos este insecto.

É extraordinário como é que há sempre pessoas para nos darem esse pequeno toque, para nos virarem. Tenho um fascínio por este toque. Quantas vezes não são os pais os cuidadores, os que dão o toque, são outros.

 

Ouço-o falar desse insecto e lembro-me de o ver num filme de Marco Martins. Estava a escrever e atacava o computador como um animal. Era um gesto muito feroz e ao mesmo tempo voraz. Pensei que podia ser alguém que come com sofreguidão, mas também podia ser alguém que vomita. De qualquer modo trata-se de um movimento físico que remete para a condição animal.

Sou amigo do Marco Martins e concordei com isso que é um bocado estranho, filmarem-me a escrever. A certa altura esqueci-me de que ele estava. Quando escrevo é uma coisa puramente física. Nos dias em que as coisas correm bem, começo a escrever e estou três, quatro horas assim. Sem fazer uma pausa, sem comer, sem beber. É mesmo seguido. Às vezes paro meio a tremer, com fome. A escrita é muito animalesca.

 

Animalesca como?

Deixo de ser consciente do que estou a escrever e começa qualquer coisa que tem a ver com o movimento. Como escrevo ao computador e não corrijo logo, consigo ver perfeitamente a velocidade a que escrevo pelas letras fora do lugar. Num dia meio alucinado em que escrevo 20 páginas, as primeiras páginas são escritas de forma lenta. As letras estão quase todas no seu sítio. Mas a certa altura começo a acelerar, a acelerar! Há páginas que são escritas a dez quilómetros hora, outras a 100. O mais fascinante é perceber que as páginas que escrevo a 150 quilómetros por hora são muito mais fortes do que as outras. E estão muito mais próximas do final, de estarem terminadas.

 

Escreve sempre num jacto?

Há uma imagem no pensamento e depois escrevo. Mas, quando começa a acelerar, o que tento é fazer coincidir o momento de escrita com o momento em que estou a pensar. Agrada-me muito. É perder a consciência, é perder a lucidez. Quando sou muito consciente, estou a fazer qualquer coisa que já conheço.

É uma coisa mesmo física. A mesa, o computador, o corpo é quase uma bola. Como se fosse um animal híbrido que começa nos sapatos, passa pela cabeça, pelo teclado, mesa, chão, pés. Um animal híbrido que é uma esfera. Não há alegria comparável, não há nada do exterior (tirando a parte pessoal) que me dê maior alegria.

 

Isto é próximo do sonho? E quando se lê a posteriori, quando lê essas páginas que se fazem no momento em que se fazem, que não estão pré-configuradas, como é que é esse encontro? Compreende tudo o que ali está? Decifra?

A escrita para mim tem este momento de alegria, de excitação física. Depois é um olhar mais frio, mais técnico, nada entusiasmante. Muitas vezes não consigo decifrar, as letras estão de tal forma fora do lugar que não percebo o que queria escrever. Mas gosto que a velocidade me impeça de perceber o que fiz. Acontece muitas vezes que por um acaso carrego na tecla que põe maiúsculas; é como se fosse alguma coisa intencional, do próprio texto.

 

Há um crocodilo que aparece no Torcicologologista, há uma frase que é lida quando a pessoa acorda... Tem falado de animais, temos falado de um plano cujas coordenadas não são exactas.

Essa escrita violenta e rápida tem associações que não dominamos, associações imprevistas. Pode-se aproximar do sonho. A escrita não é um trabalho intelectual, é um trabalho físico. Escrever é um verbo físico. Saltar, andar, escrever. Não ponho o verbo escrever próximo do verbo pensar, ponho próximo do verbo andar. Só quando olho mais tarde é que talvez seja um processo mais pensado.

 

E as fundações deste processo físico, deste verbo escrever? Só começou a publicar aos 31 anos, e tinha escrito já muito, muito. Uma vez disse-me que esses foram anos de fundação. Quando estava pronto, começou a edificar para fora e começou a ser visível o trabalhado no subterrâneo.

Sobre a fundação. O meu pai é engenheiro. As obras começavam por abrir um buraco. E passados três meses o que havia era um buraco. Depois começavam as fundações. E só passados quatro ou cinco meses é que a casa ia crescendo – de baixo. Começava no piso 0, depois começava a subir. Isto marcou-me muito, a casa pousar e fundar.

Fundar tem a ver com fundo, tem que se abrir um buraco, pôr lá alicerces, e depois começar a crescer. Pousar é a coisa mais frágil do mundo. Se quiséssemos fundar esta garrafa tínhamos que começar a escavar. Se quiséssemos que esta garrafa diante de um toque não caísse, a única hipótese era trabalharmos muito no que não é visível. Escavar, criar uma protecção que não é visível. Sinto que estou a começar.

 

A começar?

Há um desfasamento entre o momento em que se publica e o momento em que eu faço. A sensação é a de existirem duas vidas, uma vida exterior, a que se torna pública; e uma vida interior, que é estar noutro tempo. É como se existissem 15 anos, dez anos de interior que ainda não é público. Isso dá-me uma tranquilidade em relação ao exterior, defende-me. E tem a ver com esse tempo de fundações.

 

Onde é que aprendeu? Um verso da Antígona: “O homem nada sabe até queimar os pés no fogo ardente”. Os livros são fogo ardente, também? É preciso deixar de ler para começar a escrever?

A leitura e a escrita não podem ser vistas como inimigas, senão a escrita transformava-se num intervalo da leitura, ou vice-versa. A leitura, o cinema constroem imagens que misturadas com milhares de outras imagens vão produzir qualquer coisa. A ideia da leitura como inimiga da escrita, ou como qualquer coisa que tem que ser interrompida quando se escreve... não me parece. Se a pessoa estiver obcecada por um autor, se só ler esse autor, pode haver qualquer coisa que o marque excessivamente.

Sobre a curiosidade, o Deleuze tem uma coisa muito bonita. Diz que há duas forças. Normalmente associamos o poder a emitir, a ter força para influenciar os outros. Mas o Deleuze diz que há dois tipos de poder, o poder de influenciar os outros e o poder de ser influenciado. É tão fraco aquele que não consegue marcar os outros como fraco é aquele que não consegue ser marcado pelos outros.

 

Porque é que é uma fraqueza não ser marcado pelos outros?

Porque isso é a pessoa ter medo de si própria, pensar que não tem uma autonomia, uma força suficiente para resistir aos outros. A uma leitura, um filme. Só podemos marcar os outros se tivermos disponibilidade auditiva, visual para ser marcados pelos outros. Isto é uma grande manifestação de força. A pessoa sentir-se tão forte que pode estar na posição de ouvir.

Uma coisa que caracteriza a adolescência, quer os adolescentes tenham 15 anos, quer tenham 40, é a necessidade de num grupo se imporem. As pessoas fortes são pessoas que raramente falam, que ouvem. Essa disponibilidade para receber é uma força.

 

Entre o interior e o exterior, entre o que foi escritor e o escritor publicado, há um mundo. Ao mesmo tempo, parece que tudo foi já feito. O que é que ainda se pode escrever de novo?

A questão é sempre qual é o ponto de vista em relação ao tema. Quantos beijos existem? O beijo é a coisa mais vulgar, já vimos milhares de beijos. Se virmos aquela cena do Tarkovsky, vemos que ali não é o beijo que é novo, é o ponto de vista em relação ao beijo.

 

É considerado um dos beijos mais bonitos da história do cinema, e está na Infância de Ivan.

Alguém que tem a ilusão de pôr um tema novo… Há uma série de teóricos russos que analisam as fábulas, analisam as histórias clássicas, e mostram como estão ali todas as relações possíveis. Os gregos fizeram todas as relações possíveis. Sobra-nos um ponto de vista.

 

Falámos já do Marco Martins e agora do Tarkovsky. De que forma o cinema se relaciona com o seu trabalho?

Os livros são todos muito distintos. Há livros mais visuais. Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do seu Pai, é muito visual. Há outros que são muito de reflexão, que é o inverso do visual. O Short Movies é apenas uma forma de descrever aquilo que vemos fisicamente. Se não entrarmos na psicologia e só descrevermos os gestos, podemos chegar a qualquer coisa de muito profundo.

Houve uma altura em que em Lisboa fizeram um conjunto de cerimónias ligadas ao Oriente, e um amigo levou-me a um ritual japonês do chá. A primeira coisa que fizeram foi dar uma malga pesadíssima, logo que entrámos. Precisávamos das duas mãos para a agarrar. Logo a seguir o mestre encheu-a com chá a ferver até ao topo. (Vínhamos a falar, a gozar, aquela arrogância dos 20 anos ocidentais. E em menos de um minuto estamos todos calados. E ninguém pediu silêncio. E todos imóveis. Qualquer movimento e queimávamo-nos. Se disséssemos uma palavra também nos queimávamos. Mesmo em termos de pensamento, não havia hipótese de pensarmos noutra coisa senão na malga com chá a ferver.) Depois o chá foi arrefecendo, bebemos o chá e o mestre despediu-se. Não disse uma palavra. Foi a experiência mais espiritual que tive, e foi puramente de opção material.

 

O que é que aprendeu?

Ensinou-me muito sobre como é que chegamos ao centro. Muitas vezes chegamos por um caminho que parece um caminho oposto.

 

Pensou ser jogador de futebol. Ainda tem prazer em jogar?

Não tenho há décadas o prazer de jogar futebol. O prazer do jogo é muito interessante. É inútil. Há uns anos levei aos meus alunos patinhos para eles pintarem. Alunos universitários. A certa altura começam a discutir o marcador verde, o vermelho. Começam a lutar entre eles enquanto ilustravam os patinhos.

O jogo tem este fascínio pelo inútil. Triste é irmos abandonado o jogo, qualquer que ele seja. O jogo tem um prazer que não é diferido. A pessoa não joga para mais tarde ter qualquer coisa. É quase o inverso da lógica económica que existe. É ter como centro o prazer e não a vantagem económica. Isso é revolucionário. Hoje, se quisermos fazer micro revoluções, é fazermos um jogo.

 

Explique melhor porque é um acto revolucionário fazer qualquer coisa inútil.

Quase sempre estamos a fazer o contrário. O prazer foi colocado no dia seguinte. E as crianças têm isso muito claro: o jogo é central para as crianças porque para elas o prazer é para ser agora. Há uma fase a partir da qual pensamos: “Vou fazer isto para ter prazer mais tarde. E mais tarde faço isto para ter prazer mais tarde”. Uma espécie de adiamento de prazer que é interrompido por uma coisa chamada morte. A maior parte das pessoas, quando estão a morrer estão a dizer: “Agora que eu ia começar é que estão a interromper.” O jogo é a questão do presente.

 

Escrever, a literatura, os seus livros são uma forma de construir utopias?

Não vejo que a literatura tenha por função construir utopias ou distopias. O que me interessa é perceber pequenos gestos. A criação deve contribuir para uma alegria lúcida. Mas a lucidez não é pintar tudo de amarelo. A lucidez muitas vezes é ver o lado escondido do humano. Há uma parte de indiferença em relação ao outro ser humano que temos que assumir, isso não tem mal nenhum. O que funda a espécie humana, por um lado, é aquele gesto amoroso, o da bondade; por outro, é uma coisa muito terrível. Se formos lúcidos temos que dizer: “Prefiro que morras primeiro que eu”. Sobrevivemos porque temos este instinto. E este instinto é o da maldade. Felizmente não somos expostos ao limite de ter que matar o outro para sobreviver, mas em pequenas escalas é isso que vamos fazendo. Uma situação limite como o suicídio, é inexplicável. Somos feitos para querer viver, no limite eliminando, se for preciso, o outro.

 

Gostava de terminar com uma passagem d’O Torcicologologista, Excelência. “Mas o que se exige é mudar a ordem das letras, a combinação das letras. A forma como as letras ao lado umas das outras formam palavras. No fundo queremos uma nova combinação entre palavras. As revoluções seguem assim a metodologia que alguns poetas aconselhavam, promover uma nova combinação de palavras. Encontros raros entre palavras era uma das definições de poesia.”

O Rimbaud definia a poesia como um encontro raro entre palavras. Um encontro imprevisto entre duas palavras. O átomo da literatura não é uma palavra, são duas palavras. Na Clarice Lispector é muitas vezes essa associação improvável que eleva a frase, como se a frase ganhasse altitude a partir apenas de um conto entre duas palavras. A literatura é combater o lugar comum, a associação previsível. Eleger palavras é perigoso, mas a primeira função do escritor é partir as palavras. Individualizá-las.

Os lugares-comuns. Mar de gente: é bonito. Era tanta gente que era um mar. Mas a certa altura transforma-se num casamento eterno. O trabalho de um escritor é separar mar, separar gente, pô-los em circulação e pô-los disponíveis para fertilizarem com qualquer outra palavra. Esta disponibilidade amorosa das palavras dá o tom da escrita.

 

Fala de palavras como se falasse de pessoas. É pensar que as palavras estão amorosamente disponíveis ou de costas voltadas para outras palavras, como as pessoas.

Muito do nosso entendimento quando falamos entre nós é construído por acasalamento de palavras que estão ali muito unidas. Às vezes pensamos que essas palavras são uma única. Mar de gente devia ser escrito com hífen no meio. Esse é que é o inimigo da linguagem, as novas palavras criadas por associações velhas. Pormos em circulação essa disponibilidade afectiva é um bom ofício.

 

Publicado originalmente na revista Ler em Dezembro de 2015

 

Curso de Cultura Geral - 21 Jan 2018

21.01.18

Há muitas maneiras de fazer uma lista. Apontar as primeiras coisas que vêm à ideia. Apontar uma colecção de objectos, pessoas e lugares que traduzem um momento. Fazer uma escolha de experiências importantes, que deixam perceber uma construção pessoal. O que peço aos convidados do Curso de Cultura Geral: que indiquem, numa lista de dez, objectos e experiências de cultura que foram marcantes para si. Não importa o cânone, as obras que devem constar, o Miguel Ângelo e o Shakespeare, o Camões, ainda que estes e todos os outros possam estar. O que procuro: pistas para podermos conversar, aprender todos, partilhar um património que é próprio e que é comum, uma noção de cultura que é geral e sempre particular. Hoje, falo com Fernanda Mira Barros que, descrita pela sobrinha no livro Tia Mira, é uma pessoa que passa o tempo a ler e a escrever; é editora da Cotovia. Falo com João Constâncio, professor de Filosofia, estudioso de Platão e Nietzsche, fascinado por Chico Buarque, Dioniso, um livro de xadrez que leu nos anos de formação. E Anastasia Lukovnikova, russa, 30 anos, que estuda o cinema na primeira pessoa por causa de Chantal Akerman, que percebe que, de certa maneira, tudo começou quando a mãe lia para si, todas as noites, antes de adormecer.

 

A lista de Anastasia Lukovnikova, cineasta

  1. A minha mãe ler para mim, desde pequena: As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, Colmilhos Brancos, de Jack London, Yevgeny Onegin, de Pushkin;
  1. Fritz Lang, Metropolis;
  1. Os poemas e as cartas de amor de Maiakovski;
  1. Couchsurfing. Viajei muito ficando nas casas de pessoas desconhecidas pela Europa e Estados Unidos. Conheci diferentes culturas e modos de viver;
  1. Roland Barthes: Fragmentos de um Discurso Amoroso, A Câmara Clara, Mitologias, Como Viver Junto;
  1. A língua portuguesa que virou a língua do amor e do afecto. Diferente do inglês, língua do trabalho, das viagens e dos estudos;
  1. Chantal Akerman: a sua filmografia inteira levou-me ao tema do meu mestrado, o cinema na primeira pessoa;
  1. O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir;
  1. A viagem no comboio transiberiano para descobrir o meu país;
  1. Jean-Luc Godard, de À Bout de Souffle a Histoire(s) du Cinéma;

 

A lista de Fernanda Mira Barros, editora da Cotovia

  1. Planície alentejana;
  1. Frasco de mel;
  1. Museu Miró, Barcelona: “A esperança de um homem condenado” – série de três pinturas de 1974;
  1. A Dama de Chandor, filme da Catarina Mourão;
  1. Livro Obra Escrita de João César Monteiro;
  1. Amália a cantar a “Grândola Vila Morena”;
  1. Gato;
  1. Simone de Beauvoir;
  1. Garrafa de vinho e garrafa de água do Vidago;
  1. Suites para violoncelo de Bach, por Rostropovitch.

 

A lista de João Constâncio, professor de Filosofia

  1. O Teeteto de Platão e a cultura grega;
  2. Nietzsche;
  3. A partitura da Chaconne de Bach transposta para guitarra clássica;
  4. Um livro com a história do xadrez que li quando tinha 12 ou 13 anos, e que reli várias vezes, e em que ainda hoje penso muitas vezes;
  5. O Chico Buarque;
  6. Os primeiros filmes que adorei: westerns e os três primeiros filmes que tivemos em casa em VHS: Raiders of the Lost Ark (Spielberg), Singing in the Rain (Gene Kelly e Stanley Donen) e A Flauta Mágica (Bergman);
  7. Crítica da Razão Pura, Kant;
  8. O diário da minha avó Licas;
  9. Os Cus de Judas de António Lobo Antunes na adolescência, pelas boas e más razões;
  10. Os sinos de Bicêtre de Simenon.

 

Curso de Cultura Geral - 2ª temporada

21.01.18

Regressa hoje (21 Janeiro, 23.15) à RTP2 o Curso de Cultura Geral, de que sou autora e apresentadora.  A estrutura do programa mantém-se: três convidados discutem sobre experiências de cultura, objectos, autores, obras de arte que foram importantes na sua construção pessoal.

Nessa discussão interrogam a noção de cultura geral, os encontros, detonações, acasos felizes e férteis.  São pessoas de diferentes áreas, (um sociólogo, um gestor, uma curadora de documentários, uma antropóloga, escritores, realizadores, professores...), faixas etárias variadas, duas brasileiras, uma russa, portugueses, que trazem para a esfera da conversa elementos tão singulares como as suas personalidades.

De uns, vêm viagens, de outros a música (de Chico Buarque e Bach), a aventura de ler Grande Sertão: Veredas em voz alta, fala-se de obras de banda-desenhada, clássicos de Dostoievski e Tolstoi, feminismos de Virginia Woolf ou Chimamanda, experiências de carácter nacional, como passar pelo 25 de Abril durante a juventude.



Um dos convidados da segunda temporada do Curso de Cultura Geral, aponta A Cartuxa de Parma como um dos livros da sua vida. Considera que cada um de nós é uma espécie de Fabricio Del Dongo que todos os dias cruza “a batalha de Waterloo” que é a vida, sem compreender o que se passa. É capaz de ter razão. O paralelo estabelecido faz-nos pensar no lugar da cultura na nossa vida. Que coisas podemos aprender num romance como o clássico de Stendhal? Como é que isso nos ajuda a encontrar o ímpeto necessário ao dia seguinte, à batalha permanente? E como é que a não-compreensão fomenta a criação de cultura?



Uma vez mais, a paridade de género foi tida em conta, mantendo o mesmo número de mulheres que o de homens na escolha dos convidados no conjunto dos 13 programas; e novamente há uma mistura de pessoas conhecidas do grande público e outras anónimas.

A entrada neste Curso é livre e a aprendizagem e partilha de ideias são altamente encorajadas. Seja bem vinda/o!

 

 

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