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Anabela Mota Ribeiro

A casa de Freud

14.01.18

Freud escreveu numa carta datada de Agosto de 1938: “20 Maresfield Gardens será a nossa última morada neste planeta, mas não poderá ser ocupada antes do fim de Setembro. A nossa casa!... E demasiado bonita para nós…”. A nota continha lapsos e emendas – um “espero” acrescentado na primeira frase, um “reunida” que foi riscado e que exprimia o desejo de viver em paz, em família.

A deambulação começara meses antes, quando a ameaça nazi pendeu sobre Viena e impeliu a família a um exílio forçado. Maria Bonaparte, descendente do imperador, e sobretudo mulher do Príncipe Jorge da Grécia – bem relacionada nos círculos do poder europeu, portanto – interveio de modo a garantir que os Freud levassem consigo “as suas vidas”. Não só as suas vidas no sentido orgânico, anímico, o que já não era pouco – o ímpeto nazi dizimava os primeiros judeus por essa altura, empunhava faixas com a suástica na ombreira das portas.

Foi concedido aos Freud que levassem consigo os pertences de uma vida, os objectos e as memórias que marcam uma identidade. A mesa da sala de jantar, o móvel rústico das férias de Verão, os tapetes para revestir o chão e o divã, o divã, a totalidade da sala de trabalho: a secretária, a cadeira original desenhada propositadamente para Freud, a pensar na posição diagonal em que lia, as estantes que guardavam os livros de Shakespeare, Dostoievski, as obras completas de Goethe, as tragédias gregas, as aventuras e o sabor da descoberta de Mark Twain, o maple verde no qual se sentava enquanto ouvia os pacientes. Sobretudo, veio nessa vida transplantada, de 19 Bergasse para 20 Maresfield Gardens, a colecção de antiguidades de Freud. As peças egípcias, as chinesas, as gregas. Os vasos, as estátuas, os bustos. Desenhos e gravuras. Bric a brac de um mundo em ruína.

Chegaram bem. Praticamente não sofreram dano. Foram dispostas nos seus lugares de sempre. Encapsularam Freud numa atmosfera familiar.

O ambiente da casa fornecia um quadro exacto de um fin de siècle, de uma Viena alvoroçada pelo próprio Freud, por Wittgenstein, pelo movimento Secessionista. As peças acompanharam-no entre retratos da família: a mulher Martha que saía para comprar mantimentos, a filha Anna que o seguia com uma devoção incestuosa, a criada Paula que vinha de tempos imemoriais, os cães, os filhos que apareciam para o almoço de domingo, a memória da mãe de Freud, que gostava de “aparecer bem e de não parecer muito velha”. Apareciam pacientes antigos – uns quatro happy few – , apareciam escritores como Stefan Zweig, Dalì (que fez do seu herói um desenho fúnebre), H. G. Wells que lhe propôs que se tornasse cidadão britânico. A musa inspiradora Lou Andreas Salomé. Virginia Woolf e o marido (que escreveu sobre o psicanalista: “Há nele qualquer coisa de vulcão semi-extinto, sombrio, reservado. Deu-me a impressão de ser um verdadeiro gentleman, um homem de uma imensa força”. E entre tudo isto, os manuscritos nos quais trabalhou até a doença o impossibilitar. Até morrer, em Setembro de 39.

Viveu o seu último ano naquela casa, solar, ampla, demasiado bonita para uma família habituada a um apartamento escuro numa rua como as outras em Viena. Aquela era uma casa de tijolo, como todas as casas em Londres, e permitiu-lhe morrer em liberdade – como era seu desejo.

Entra-se na casa como se entra na casa de uma pessoa que vive nela todos os dias. Estão os óculos sobre a secretária, um charuto meio fumado sobre o cinzeiro, uma taça de cerejas no aparador. Tudo permanece intacto, passados quase setenta anos sobre a sua morte. A casa – sobretudo o espaço de trabalho de Freud – foi fixada no tempo. Como um fotograma de um filme. Há um relógio que se avista da secretária: marca meio dia e quinze, marca Setembro de 1939, quando morreu.

Depois da morte de Anna, a predilecta, que viveu em Maresfield Gardens até ao fim, em 82, o espaço foi transformado em museu. Os pacientes de Freud, em Viena, comentavam que o consultório se parecia com um museu – tal a profusão de peças antigas. Hoje, o museu, em Londres, parece uma casa onde se mantém as rotinas e se desvela a intimidade. Os canteiros estão cheios de amores perfeitos, o jardim das traseiras está viçoso e bem tratado. À entrada, há um charriot onde o visitante pendura o casaco e ao fundo já se vislumbra o jardim. De permeio, há uma sala dominada pela escada que dá acesso ao piso superior.

A “sala de espera” caberia aqui. Mas a “sala de espera” foi removida para Viena, para que a casa que habitaram na Bergasse não ficasse completamente despida – a casa-museu de Viena tem meia dúzia de objectos, fotografias, o bengaleiro, alguns livros, muitos papéis. Por cima e por baixo, vivem famílias, exactamente como no tempo em que Freud ali morava.

O coração da casa da Maresfield Gardens é aquela divisão à direita, no piso térreo, onde cabem a sala de trabalho e a biblioteca. As cortinas estão corridas para preservar o espaço; mas quando Freud aí passava os dias, uma imensa janela atirava para o jardim e inundava o espaço de luz. Na penumbra, o quarto assemelha-se a um invólucro uterino – aconchegante, reconfortante, convidativo. E claustrofóbico, também. As estantes, os armários, as mesas estão repletas com a colecção de livros e peças arqueológicas – Freud estabelecia um paralelo entre o trabalho da escavação, próprio da arqueologia, e aquele que desenvolvia com os seus pacientes. Em ambos os casos, tratava-se de desenterrar pedaços do passado e contemplá-los à luz do dia. A cura passava pela palavra.

Tudo segue uma organização meticulosa. E tudo se relaciona, numa sequência ininterrupta. Os objectos do passado, as fotografias do presente, as evocações mitológicas (Édipo e Gradiva são as mais famosas), o mundano, o doméstico, o discurso dos analisandos. A presença ausente de Freud. Um maple verde vazio, um divã onde facilmente nos projectamos.

Recuamos até à sala intermédia, seguimos para a casa de jantar. Há pequenas notas que iluminam objectos dispersos. Um óleo com água corrente acompanha o que Freud escreveu sobre uma paciente, que sonhava com uma imersão nas águas; o mesmo acontece com uma taça de cerejas, uma vela partida ou um vaso com violetas.

Sobre as violetas: “Arranjei o centro de mesa com flores para o aniversário: lírios do vale e violetas”. O médico elaborou o seguinte, a partir desta descrição breve: as violetas são ostensivamente sexuais. Há uma associação que é possível fazer entre a palavra “violet” e o francês “viol” (que significa violar). A doente fez uma associação com a plavra inglesa “violate” e com a violência que há na desfloração – outra palavra com forte carga sexual. Talvez denote um traço masoquista no seu carácter.

Ainda no rés do chão, a loggia foi transformada em loja. Bela secção de livros sobre psicanálise, cadernos de notas, lápis e canetas, tshirts, pantufas, panos de cozinha, almofadas, ímanes, canecas, tiradas humorísticas – como aquele que sentencia: quando dizes Ah, isso lembra-me a minha Mãe!

O primeiro andar foi ocupado por Anna Freud. Contígua à sala onde se fazem exposições temporárias e outra onde se exibem pequenos filmes, fica a sala de trabalho da mais nova dos seis filhos do médico vienense. (Há zonas que não estão abertas ao público, entre elas aquilo que seria o quarto de dormir de Anna). É difícil encontrar palavras para descrever aquele espaço... Talvez dizer, sumariamente, que é horrível! Áspero, campónio, feroz. Anna trabalhou com crianças e fundou a psicanálise infantil. Mas seguiu também adultos, que a visitavam em Maresfield Gardens. Gostava de tricotar e tinha mesmo um tear, disposto ao lado do divã. O pai, em baixo, contemplava do seu maple a colecção de peças antigas. Anna, em cima, fazia tricot. A manta que forra o divã foi feita pela psicanalista. Mas parece um saco de serapilheira que corta em caso de contacto…

Na parede oposta estão livros, retratos, uma taça de morangos, outros objectos de trabalho. Igualmente intacto. Preso no tempo.

Como se, a qualquer momento, ela fosse a subir as escadas para trabalhar entre as suas quatro paredes. E antes disso tivesse aconchegado o pai na cama improvisada no jardim, onde ele revigorava ao sol.

Cá fora, está um belo dia de Inverno. Um frio de sobretudo e cachecol, mas de dentro da casa chega uma canção de Vinícius: “É melhor ser alegre que ser triste…”. Preso a uma árvore, está um cão que quase cegou. O dono afaga-lhe o pêlo. Chama-se Bobi, e são portugueses, sim. 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

Em Budapeste, c/ Chico Buarque

14.01.18

Vanda perguntara-lhe dias antes: «Budapeste?, e o que tem para fazer em Budapeste? Era difícil responder. Olhar o Danúbio?, tomar licores?, ouvir poetas?». Vanda preferiu Londres, e José Costa, que na minha imaginação tem os olhos aquosos de Chico Buarque, meteu-se num avião para ver que Budapeste é amarela, o Danúbio é de chumbo e não azul, beber Tokaj com foie gras de ganso, ouvir poetas de palavras impenetráveis. Há um momento em que José Costa se interroga: «O que estaria fazendo a Vanda àquela hora em Londres?». Eu adapto a interrogação: «O que estaria fazendo Chico Buarque, àquela hora, no Rio de Janeiro, ou num outro lugar que não posso saber qual é?».

Estou em Budapeste e, como Chico Buarque, não sei dizer em húngaro obrigada, ou bom dia, ou deixe-me entrar nos banhos mesmo que as seis já tenham passado. Chico, ao que consta, nunca esteve em Budapeste, mas escreveu um romance de histórias caleidoscópicas que cruzam o mapa sensorial do Rio de Janeiro e de Budapeste. Antes de o ler, eu imaginei que o livro falasse da cidade como uma Paris do centro-Europa, que percorresse as avenidas principais, que olhasse de perto a vida de todos os dias. Procurava o ângulo de Chico, poeta do “cotidiano”, na cidade. Mas este é um livro onde se escreve que se aprende uma língua e um sentimento em simultâneo, ou que se desaprende uma língua quando se extingue um sentimento. Mais do que Budapeste, é a língua húngara que serve de suporte a esta ideia. 

Se Chico tivesse estado em Budapeste, perceberia como os banhos, as dezenas de piscinas termais, de águas cálidas e cheiro levemente sulfuroso, denotam a influência turca. Os mais famosos são os Gellért. Mas não se fala dos banhos no livro.

Eu frequento os Gellért porque fico nesse hotel e não tenho tempo para experimentar as diferentes temperaturas da cidade. A edição que leio é a brasileira, comprada na livraria Argumento, uma que dizem que Chico frequenta, e que eu frequentei quando estive no Rio. De que é que serviria ver Chico na Argumento? Isso não me faria aceder ao pensamento de Chico, à imaginação de Chico... Mesmo que ele falasse comigo, você se importa de chegar para lá?, isso não faria com que eu conhecesse os caminhos íntimos e silenciosos das suas palavras. E contudo, inventaria um Chico para mim, como ele inventou Budapeste.

Como se lê neste romance babélico, os outros são razoavelmente opacos para nós. Para não dizer completamente. Como a língua húngara, que é imperscrutável. Budapeste é o lugar-metáfora escolhido pelo autor brasileiro para falar desse mistério.

A capa do meu livro é cor de mostarda, como a capa de «O Ginógrafo», um livro que aparece dentro do livro, assinado por José Costa, o protagonista, ghost-writter de profissão. Uma história dentro de uma história, uma sobreposição de enredos e palavras. Como as matrioskas que se encontram no mercado: umas dentro das outras, cada vez mais miúdas, e minuciosas, até, imaginariamente, se reduzirem a um ponto só.

Entro no banho com o livro-mostarda nas mãos. Procuro uma das bordas, sento-me, sinto a água pelos ombros. Estico os braços e tapo a cara com «Budapeste». A minha expressão passa a ser tão impermeável quanto a língua húngara, (é um mau adjectivo porque “escrevo” do banho...). Avanço na leitura: «Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr do sol no Rio de Janeiro, para ter olhos de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco. Ia ao cinema, mulheres extraordinárias se exibiam na tela, o filme era falado em língua conhecida, e eu não conseguia despregar os olhos das legendas».

A tarde corre devagar, e não consigo despregar os olhos das palavras. O banho não me faz sentido sem o livro-mostarda. «Pouco importava que todos os húngaros me olhassem com aquele olho de peixe», que incompreendessem o meu gesto. Conversam entre si, descem as pálpebras, depositam o olhar no vazio, amolecem até ficarem com a pele engelhada, como as folhas do livro depois do banho.

No segundo dia troco a piscina da esquerda pela da direita, e invade-me um imenso torpor. A primeira tem uma água morna, 36 graus; a outra, tem mais dois graus que fazem com que o suor escorra pelas têmporas e pelo pescoço. A minha imaginação faz-me ouvir as gymnopédies de Eric Satie, que iriam bem com o espaço. Sinto-me “catatónica, com a perna bamba”, como numa canção do tempo em que Chico era apenas um poeta cantor. A melancolia contagia o ar e entranha-se nas narinas. A melancolia tem cheiro: um cheio de vapor de água e conversas que ecoam no tecto.

À entrada, o empregado avisara: homens de um lado, mulheres do outro, e é normal que fiquem nus (daí a separação). «Eu queria protestar, mas nem sequer sabia dizer não em húngaro». Eu não queria ver os corpos nus de pessoas que não conheço!, não queria entrar no balneário e ver uma menina de peito ao léu a secar o cabelo, não queria ver uma senhora parecida com a minha avó com a carne pendente, outra muito farta e branca, tão branca, a passear-se sobre o chão de mosaicos.

Ocorre-me pela primeira vez que talvez tenha sido por isso que Chico recusou aquilo que é inevitável em Budapeste: o postal turístico das pessoas que jogam xadrez nos banhos públicos, com o tabuleiro a vaguear por entre elas. Porque há um lado inaceitavelmente impúdico no modo como estão em público. (Mesmo quando estão nas piscinas “mistas”, que, no Gellért, funcionam como um corredor central. Mas estas piscinas são para nadar, e, já agora, sempre na mesma direcção).

Num outro ponto do livro, Chico fala do par atracado contra um álamo. Também o autor do guia Lonely Planet fala dessa fama que precede os húngaros: de serem especialmente soltos na manifestação da líbido, de não conhecerem o significado da palavra decoro quando expressam em público o seu sentimento e desejo.         

«Custei a aprender que para conhecer uma cidade, melhor que percorrê-la em ônibus de dois andares é se fechar num aposento dentro dela». Chico acreditará nisto, e mostrou que é tão válida, ou mais, a cidade inventada dentro de um aposento, como aquela que é vista num autocarro de dois andares. Porém, eu fiz a viagem no autocarro de dois andares e gostei de percorrer as bissetrizes da cidade. Se eu conhecesse Chico, contar-lhe-ia que Budapeste tem uma identidade múltipla, que não coincide com a imagem antiga de uma cidade «cortada por um rio, o Danúbio».

Aterrei em Budapeste induzida por frases que aprendi na escola: de um lado Buda, do outro Peste, dois mundos distintos, e o rio como fronteira. Mas a diversidade de faces de Budapeste é surpreendente. «Atravessei a ponte pênsil em ritmo de jogging, (...) admirei rapidamente as fachadas neo-clássicas, os balcões art nouveau, na terceira esquina respirei tabaco, chocolate, cebola». Eu comi foie gras no Gundel, goulash num restaurante de esquina_ o que é que Kriska, a musa do autor em Budapeste, serve ao jantar? Chico fala apenas de queijos e Tokaj postos numa cesta, para uma tarde de namoro na ilha Margit. E a referência aos queijos, sendo francesa e certa, não condiz exactamente com o que se vê nas montras e no mercado.

No mercado compra-se paprika, salame, cebolas, alhos, toalhas de uma renda copiada da espuma do mar, às vezes com cores, e túnicas folclóricas com bordados.

Surpreendeu-me que as empregadas do café Gerbeaud, jóia da coroa, forrada a veludos e dourados, usassem uma saia aciganada e umas sandálias que naquele contexto resultam imbecis. (As sandálias são ainda mais despropositadas que o uso de “imbecil” aplicado a sandálias!). Estavam entre o ortopédico e o mendicante, e reconheço-as de imagens campónias da vizinha Áustria.

A côrte austríaca legou um estilo pomposo, uma pastelaria decorativa, sandálias saloias e edifícios secessionistas_ preciosidades que remontam ao início do século XX, de uma modernidade explosiva. O grupo da Secessão, que integrava Klimt, Otto Wagner ou Adolf Loos, impôs um estilo que alastrou a outros pontos do império. Custa a crer que até há menos de cem anos, o mapa geográfico e político unia as duas cidades. Mas em ambas, os vestígios desse tempo fusional são ainda claros.

Nesse passeio em autocarro de dois andares, Chico, reconheço também o quarteirão judeu, imensamente livre, a influência cigana no velho que toca “Lili Marlene” ou “Dr. Jivago”. O velho arrasta-se pelas esplanadas, com o violino e chapéu estendido. Traz-me à memória a composição do grupo que animava o Gundel, com violino, cello, sopros_ os instrumentos preferidos de uma raça nómada. E há marcas do comunismo nos edifícios desmesurados, que esmagam o cidadão e a individualidade. Daí a dois dias seriam as comemorações dos 50 anos da Revolução Húngara, e a cidade estava cheia de bandeiras. Nessa manhã, ao pequeno almoço, encontrei Teresa e o seu amigo mais antigo, emigrantes nos Estados Unidos desde os anos 60, que voltavam para celebrar aquela vitória-derrota: ambos participaram na manifestação de 1956.

No outro lado do rio fica Buda e o hotel Plaza de Zsose Kósta _ ou Kósta Zsose, porque em húngaro o nome de família precede o nome próprio. No meu hotel, sito na rua Bartók Bela, dizem-me que não existe tal hotel, apesar de todas as cidades terem um hotel Plaza (escreve Chico). Buarque Chico: a maneira mais fácil de distinguir um lado do outro é que em Buda há colinas e o palácio real, e em Peste uma planura sem fim. Kriska, a amada de Kósta, vive em Peste, e dá peripatéticas aulas de húngaro: dá nome a coisas como «rua, patins, noite, arco bizantino, rio». Na gaveta de Vanda, a mulher brasileira de José Costa há «grampos, tachinhas, elásticos, uma lima de unhas, uma tampa de caneta e um porta joias contendo um dente de leite». Para que serve esta enunciação? Para nada, a não ser apresentar fragmentos destas personagens e das suas vidas. A partir destes pedaços de terra, podemos construir um reino.  

Gosto de reconhecer palavras antigas de Chico no livro que ele escreveu em 2003 e que eu leio em Budapeste, agora. Palavras como “caçoar” («te vi pelo salão, a caçoar de mim»), “tinhosa” ou “estrambótica” que já ninguém usa, ou declarações de amor como: «As melhores palavras que sei emanaram de ti, devem a ti seu vigor e sua beleza. Será somente teu o meu verbo, dedicar-te-ei meus dias e minhas noites». Persigo Chico e a sua escrita caligráfica. Na esperança de descobrir a última boneca da sucessão de matrioskas: a chave do seu vocabulário, a decifração do seu enigma. Orson Welles chamou a isto “Rosebud” em Citizen Kane.

Regresso ao hotel e atravesso a ponte guardada por leões sem língua. «Por sorte me restavam os sonhos, e em sonhos eu estava sempre numa ponte do Danúbio, às horas mortas, a fitar suas águas cor de chumbo. E soltava os pés do chão, e balançava de barriga sobre o parapeito, feliz da vida por saber que poderia, a qualquer momento, dar à minha história um desfecho que ninguém previra». É tentador sentir que somos autores da nossa narrativa... Que podemos pular, e ninguém o pode prever, adivinhar as palavras daquele ínfimo instante. Chico Buarque, o ginógrafo (aquele que escreve sobre o corpo de uma mulher), decide não pular e termina ambos os livros («Budapeste» e «O Ginógrafo») com a mesma frase: «E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa».

 

 

Onde ficar

 

Hotel Gellért, Buda

www.danubiusgroup.com/gellert

Cerca de 200 euros por noite. Mas as promoções de última hora podem reduzir o preço para metade; o pacote inclui o acesso aos banhos. Os não-hóspedes entram por porta lateral. Espaço lindíssimo, fin de siècle, com ferro forjado e vitrais. Mathew Barney filmou aqui “Cremaster 5”.

 

Apartamentos

www.abudapestapartment.com

Para quem não gosta de hotéis, esta é uma boa opção. Centrais e acolhedores. Preços muito acessíveis, que oscilam entre os 40 e os 90 euros.

 

 

Onde comer

 

Restaurante Gundel

www.gundel.hu

Fica junto ao Zoo e Jardim Botânico, e aos dois museus mais importante da cidade. É um palácio com serviço luxuoso, onde se come o melhor foie gras de ganso do mundo. Caro. Recomendado para ocasiões especiais. Cantam “parabéns a você” em húngaro ou inglês a todos os aniversariantes da sala (nessa noite eram cinco!).

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Gerbeaud House

O mais belo café de Budapeste, no centro de Peste, fundado em 1858. Os bolos são de estarrecer. Mas o serviço é lento e exasperante. As empregadas vestem mal e, para usar um eufemismo, são reservadas. Na verdade, são antipáticas. 

 

New York

Restaurante, bar e hotel sumptuoso. A primeira coisa que se diz dele é que o Príncipe Carlos e a Princesa Diana tomaram lá chá. Foi recuperado recentemente. O restaurante serve comida italiana a preços de caviar! Mas para um chá ou charuto na sala de fumo, parece perfeito! Tem um permanente ar de festa por ser tão glamoroso.

 

Banhos

Széchenyi Spa

Um dos maiores complexos de piscinas da Europa. Quinze piscinas, reconstruídas em 1999.

Lukács Spa

Água a quarenta graus que tira qualquer angústia. Consta que são mais frequentados por velhos, de manhã cedo.

 

Como ir

A Tap tem voos directos, e com escala em Praga, para Budapeste. Cerca de 250 euros, ida e volta.

 

Moeda

Forinte. Mas aceitam-se euros um pouco por toda a parte, com câmbio altamente desfavorável, nesse caso.

 

População

Menos de dois milhões de habitantes em Budapeste, que representam um quinto da população húngara.

 

 

Publicado originalmente no Diário de Notícias