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Anabela Mota Ribeiro

A casa de Frida e Diego

14.01.18

Viva Frida!, viva a pintora mexicana, que viveu um período de efervescência cultural e política. Viva Diego, o muralista famoso, o amante que lhe provocava o tumulto e a devolvia inteira (para usar palavras de Frida). Viveram numa famosa casa azul, em Coyoacán. Uma casa museu que permite conhecer a vida de Frida, a de Rivera, a dos dois.

 

É uma casa mexicaníssima. Talvez não o fosse quando foi habitada pelos pais de Frida e a sua história se resumia a uma casa térrea de paredes brancas. Há uma fotografia que a mostra assim, nessas primeiras décadas do século XX. Uma fotografia a preto e branco onde tudo parece pálido. Sobretudo porque agora submergimos num azul profundo, de um pigmento puro. Lá chamam-lhe azul anil.

Foi Diego que a pintou desta cor magnética. Não é só não conseguir deixar de olhar quando estamos lá. Aquele azul vem à ideia quando pensamos nisso, já noutra latitude. Uma cor não é uma coisa menor – nunca. E aquela era uma casa de artistas.

Uma definição aproximada: dizer que é um azul cobalto. Azul profundo, que já usei, sugere um mergulho. Instala-nos noutra temperatura, numa essencialidade que nada tem que ver com a vida da rua. A rua Londres que cruza com a Ignacio Allende.

Foi nessa casa que Frida Kahlo nasceu. Estava hipotecada quando a pintora se mudou com Diego Rivera para lá. Os pais de Frida haviam sido obrigados a esta operação para fazer face às avultadas despesas médicas da filha.

O tremendo acidente de Frida foi tão tremendo que virou lendário. Ela era uma menina que seguia num autocarro e acabou com uma perfuração pélvica e a coluna partida em três. Em Setembro de 1925. Uma parte dela ficou incapacitada para o resto da vida. A impossibilidade de gerar filhos resultava daqui. A dor lancinante, também. Há um desenho, por exemplo, que parece um esboço de anatomia, cravado de setas. Frida desenhou-o para falar dos pontos do corpo em sofrimento. Um mapa triste, repleto de linhas que se cruzam.

Ademais, tinha poliomielite desde criança. O corpo não era um aliado. Foi notável o modo como o superou, como se inventou. Tem-se uma ideia rigorosa disso quando se vê uma página do diário, escrita e desenhada logo depois de lhe amputarem uma perna. Diz assim: “Piés para qué los quiero, si tengo alas pa´volar”, 1954. Asas para voar... O limite?, o que seria? Asas para voar...

Morreria nesse ano.  

Portanto a casa estava hipotecada. A primeira coisa que Diego fez foi reverter o processo, a dívida, comprar a casa. Os pais de Frida eram vivos e continuaram a viver ali. Mas aquela passou a ser a casa deles. Passou a ser a casa azul.

Hoje há uma parede transformada em pequeno altar, abençoado por deuses aztecas, altar onde se lê: “Frida y Diego vivieron en esta casa – 1929-1954”.

A casa azul fica num bairro do tamanho de uma pequena cidade na imensa Ciudad de México. Coyoacán é uma zona plana, gizada com régua, copas de árvores a tocar nos telhados. A burguesia vive confortavelmente neste perímetro, algo silencioso e discreto se comparado com o carácter sempre excessivo da capital. É o tipo de lugar que tem um coreto na praça principal. As fachadas das casas são muitas vezes intensas, de cores de Frida. Há uma harmonia que é manifesta, a pairar.  

É a casa-mundo de uma pessoa que não cabe no mundo e que, por isso, inventa um à sua medida. O processo de criação de si parece mais involuntário que voluntário. Em qualquer caso, é consciente. Era preciso sobreviver ao que a martirizava e estreitar o canal de comunicação com a vida. Era preciso afirmar a vida. Não esquecer nunca que o último quadro de Frida é uma natureza morta suculenta, de uma frescura que apetece, melancia cortada em pedaços. Tão simples como um dia de Verão. Pintado por uma mulher em agonia que deixa a inscrição “Viva la Vida!”. Como recado último. Apesar dos desenhos de cactos, fetos, corações que sangram, vida que está seca ou a deixar de ser que abundam na sua obra e de que há imensos vestígios nesta casa.

Singular é uma palavra que vai bem com Frida. Embora não chegue. Nem o superlativo singularíssima chega. Frida era singularíssima, pessoa inteira, maior do que o sofrimento. Tudo nela é uma epopeia. A começar no amor com Diego. “Es Diego nombre de amor”, disse ela. Epopeia no dicionário: poema de longo fôlego acerca de assunto grandioso e heróico. Diego para ela, dito como quem escreve uma carta de amor: “Colectiva e individual é a arte de Frida. Realismo tão monumental que no seu espaço todo possui inúmeras dimensões; em consequência, pinta ao mesmo tempo o exterior, o interior e o fundo de si mesma e do mundo”.

A relação foi conflituosa, tortuosa, todos os adjectivos desta família. E de outra: iluminante, instigadora. O que se vê na casa é uma fénix que renasce. Lá está Frida, transmutada em heroína que sobrevive ao acidente, politizada até à medula, amante. Ave fabulosa, emplumada de tonalidades raras, híbrido de dia e noite, alegria e morte, homem e mulher, folclore e Surrealismo. Frida e Diego.

E lá está Diego, homem imenso que a mãe de Frida comparava a um elefante (a filha, por oposição, era uma pomba). Vinte anos mais velho. A força vulcânica que teima: porque é que um mexicano não pode ser um grande artista? Um grande tão grande quanto os grandes que confluíam em Paris, onde Diego também esteve, anos a aprender, a discutir, a pintar primeiro imagens inócuas, e depois temas que incendeiam, a política. Regressou ao México depois da revolução zapatista para perguntar, justamente depois da revolução: “O que é ser mexicano?”. A sua obra é uma resposta a esta questão complexa, nunca completamente satisfeita. O ser mexicano é ser povo, é lutar pelo povo, é estar do lado desses. (Num documentário, a primeira mulher de Diego, mãe da sua filha, diz assim: “A única coisa que admirava em Diego era o amor que sentia pelo povo. E mais nada”.)  

É o povo que aparece nos murais, no México, nos Estados Unidos. O povo e quem o guia. Caso do famoso mural que foi destruído por causa da aparição de Lenine. Há limites – pensou Rockefeller – que contratava. Não há, não – pensava Rivera, o artista que reivindica liberdade ilimitada no acto de criação. Acabou destruído, o mural.

Ser mexicano é coleccionar adereços da vida simples de todos os dias. Uma taça pintada com singeleza. Diabolitos (esqueletos que simbolizam Judas e que hão-de ser queimados no Dia dos Mortos) nas paredes. Máscaras, estátuas, artefactos pré-colombianos. (No mesmo documentário, conta-se que num dia de tempestade conjugal, a primeira mulher de Diego partiu em cacos certas peças de arte pré-colombiana e as serviu no prato, no lugar da sopa. Aquele era o jantar. Para doer.)

Frida, que apareceu mais tarde, fez com ele esta revolução, ergueu a bandeira. Pintou a foice e o martelo no corset que usava para segurar a coluna, em inúmeras telas, pintou retratos de Marx, Estaline, todos os inspiradores. A luta era pelo povo.

A casa de Frida e Diego era um lugar de tumultos, constelação de pessoas bizarras, de estrelas, espécie de panteão privado, também de pessoas vivas. Toda a gente desaguava na casa azul. Trotsky que ali viveu meses. André Breton de passagem (disse dela: “Candura e insolência, crueldade e humor”). A pintora Georgia O’Keeffe e a fotógrafa Tina Modotti, com quem Frida teve romances (manda o bom senso botar “alegadamente teve romances”, ainda que a informação circule por tudo quanto é sítio). O cineasta russo Eisenstein, os fotógrafos Edward Weston ou Álvarez Bravo, o revolucionário Pancho Villa.  

Naquela casa de jantar, enorme, de chão amarelo e figuras pré-colombianas nas estantes, estava sempre alguém. Não há memória de terem jantado sozinhos. A mesa fez-se para os amigos e para a discussão. Eram os anos 40, era urgente mudar o mundo.

Pensemos ainda no panteão privado de Frida. Quem faz parte? Na tela «Moisés» (1945), estão Nefertiti, Lenine, deuses aztecas, Freud, Alexandre, Buda, deuses egípcios, Apolo, Cristo, e, em especial, o Sol, centro de todas as religiões e criador da vida.

O milagre em Frida era a maneira como fazia dialogar estes e os anónimos, ligando-os numa genealogia que só ela saberia estabelecer.

Ela mesma tinha uma genealogia incomum, filha da velha Europa e de um México a reinventar-se. A melhor apresentação está num quadro que Frida pintou e que se encontra, em jeito de legenda, numa das primeiras salas da casa: “Pintei o meu papá Wilhelm Kahlo de origem húngara-alemã, artista, fotógrafo de profissão. De carácter generoso e inteligente e fino e valente, porque padeceu durante 60 anos de epilepsia. Mas nunca deixou de trabalhar. E lutou contra Hitler. Com adoração, a sua filha Frida Kahlo”.

A mãe tinha a cor tisnada das mexicanas que crescem ao sol, a pilosidade abundante que Frida, não só herdou, como cultivou e transformou em estilo. Num álbum de família surge vestida de tehuana, ataviada de folclore e anos de história popular. Anos mais tarde, Frida pintar-se-á assim. Mas na mãe a tehuana era uma aparição única para a fotografia. Em Frida, o estilo tehuano era uma exaltação do que era povo e raízes. Era uma forma de agradar a Diego, era uma forma de esconder as mazelas do corpo, era sobretudo um gesto político.

A casa: é onde Frida e Diego viveram, mas o letreiro diz apenas museu Frida Kahlo. É para a ver que milhares de pessoas fazem fila. Diego é um grande pintor, mas Frida não pertence a nenhuma categoria. É tão fora do baralho que continua a falar connosco, a olhar-nos de uma maneira perturbadora passados todos estes anos. A pintura de Rivera é devedora de uma força diferença. O seu carisma, também. A diferença entre eles talvez esteja naquela linha de Rivera que já citei: ela pinta o fundo dela e nisto pinta o fundo do mundo. Rivera pinta o mundo em revolução, a cratera terrestre que mexe. A sua pintura é eminentemente um discurso, uma expressão de uma ideal político. Frida pinta (demasiados) retratos de Estaline, mas pertence a outra estirpe. O mais tocante nos seus quadros reside numa qualquer coisa que ela consegue captar e os outros não. Num mundo subterrâneo. Num olhar de quem está mudo e é capaz de comer o mundo.

Então, a casa é mais dela. O seu espaço de trabalho está lá, os seus dois quartos também, as suas cinzas dentro de um pote pousado no toucador, em forma de rã (uma referência a Diego que se designava assim: a rã), também. Diego trabalhava num atelier próximo, tinha uma outra casa próximo.

A casa azul tem uma estrutura em U e é virada para um jardim. De um lado, os muros azuis que dão para a rua. Do outro, vidraças e luz, um pequeno tanque de chão de mosaico e dois sapos a nadar. O jardim, uma pequena pirâmide que imita a pirâmide do sol, esta desmesurada, as estátuas.

Os compartimentos principais são o atelier de Frida e os seus dois quartos. Os espaços formam um contínuo, dão a ilusão de corpo único. Estão lá a cadeira de rodas em frente ao cavalete, as peças pré-hispânicas, os livros de Filosofia, literatura, o trabalho de artesãos populares. A paleta de cores e o significado de cada uma: azul, um certo azul, representava a electricidade e a pureza, o amor; o azul marinho era a distância, e podia ser também a ternura. O amarelo era a loucura, a doença, o medo, parte do sol e da alegria. O verde era a tristeza e a ciência; “a Alemanha inteira é desta cor”.

Os quartos eram dois porque Frida precisava de descansar durante o dia, próximo do atelier, e de um quarto para dormir, à noite. Os dois são dominados por camas com uma estrutura de madeira e um tecto onde está um espelho (numa) e borboletas (noutra).

A cama com um espelho no tecto era uma solução antiga. Praticada desde o tempo do acidente, para resolver as horas, os meses que Frida passava imobilizada. Há fotografias que a mostram a olhar-se ao espelho, a pintar-se, um olho na tela outro na imagem reflectida. Alguns críticos pensam que o olhar opaco e distante dos auto-retratos têm que ver com esta relação com o espelho. O que pinta é o que é devolvido no reflexo. O olhar é quase inexpressivo. A dor e o assunto do quadro quase nunca são dados pelo olhar mas pelo que Frida pinta em torno de si, pela circunstância em que está. Especula-se também que a dimensão reduzida dos quadros passa por esta limitação física. Era preciso que fossem portáveis, que lhe coubessem facilmente nas mãos.

Na outra cama, o tecto tem borboletas. Belas, já metamorfoseadas, a voar. Nos dois quartos há fotografias de Marx, Lenine, Estaline, desenhos eróticos. O mais importante para Frida?, a política e o sexo como motores de vida?

Lá estão também as muletas. E noutra parte da casa a prótese que usou depois de lhe amputarem a perna. As adoráveis botas cor de rosa, pé talvez de tamanho 35, com bordados. As botas com salto desigual por causa da poliomielite. Os corpetes em que Frida fazia desenhos, a foice e o martelo, inscrições amorosas, e que assim eram menos colete de forças. Uma força precisa para segurar a coluna em desequilíbrio.

Este é um espaço quase secreto e aberto há pouco anos. Diego exigiu que estes adereços da privacidade de Frida fossem mostrados tarde, muito tarde. Vinte anos depois da morte da amiga que ficou cuidadora da casa-museu. Grande gesto, penso eu, de respeito pela mulher amada.

É uma série de pequenas salas de luz diminuta, onde estão as roupas, as jóias, objectos pessoais, o perfume francês. Em nenhum outro lugar como aí se percebe o sofrimento físico em que viveu esta mulher. E como era valente: não permitiu que isto – que nada – a derrotasse. Ou sequer que isto fosse o centro do seu discurso. Ao contrário, tudo parecia ser uma exortação à vida. Viva la Vida!, viva Frida!

A visita a esta casa possibilita o mergulho no azul – eléctrico, terno, puro – da vida de Frida e Diego. Se exceptuarmos a cozinha e o “comedor” (sala de jantar) dominado por um amarelo girassol, é o azul que nos envolve, em forma de U. Os objectos revelam uma vida voltada para o coleccionismo (sobretudo de peças pré-colombianas e de arte popular), a política, a arte. Há também alguns quadros de Frida, desenhos, fotografias, a almofada bordada onde se lê “despierta corazon dormido”, os dois relógios na sala de jantar. Um cujos ponteiros pararam quando Frida e Diego se separaram (dessa vez, a relação adúltera de Diego foi com a irmã de Frida). O outro relógio tem um tempo que recomeça a contar, quando de novo se casaram.

Esta casa de Coyoacán tem semelhanças com as casas ligadas de San Angel, um bairro vizinho. As casas ligadas são, na verdade, dois estúdios ligados. Uma tem o azul anil e pertence a Frida, a outra é cor de sangue e terra, um rojo por definir, e pertence a Diego.

Frida abandonou este estúdio, zangada com Diego, um dia. Todo o seu material de trabalho foi transferido para a casa de Coyoacán. Diego trabalhou aqui, o seu cavalete e pincéis e brinquedos e peças de arte e tudo o que aparece no seu caleidoscópio, permanecem aqui.  

As duas casas estão ligadas por uma ponte, um canal que lembra a artéria que liga os dois corações do quadro As Duas Fridas. Duas pessoas que se alimentam na sua especificidade, na diversidade, que se preenchem. Se a transfusão parar, uma delas morre?  

Frida morreu em 1954. O féretro foi acompanhado de cânticos da Internacional, cortejos de mulheres vestidas de tehuana, a bandeira comunista a cobrir o caixão, Diego inconsolável. O mito já estava vivo. Qualquer coisa nela não morre nunca.

  

Coyoacán está para a Cidade do México como Estoril está para Lisboa. Ou seja, pequena localidade, hoje engolida pela grande urbe. Ritmo de vida diferente. Para ir a Coyoacán, o mais fácil é apanhar um táxi. Não deve custar mais do que 20 euros. Não deve nunca apanhar um táxi na rua, por questões de segurança. Peça no hotel que chamem ou apanhe num ponto de táxis. A casa de Frida tem sempre uma fila para entrar. Pode ser de meia hora. Há autocarros que param aqui, é um dos pontos mais visitados do México. Enquanto se espera, há vendedores ambulantes que nos abordam. Podem vender vestidos bordados ou marcadores para livros, feitos em madeira. Uma senhora que me abordou, benzeu-se depois de lhe ter comprado marcadores. Outra fez o mesmo quando comprei barras de amaranto, um cereal muito comum e nutritivo.

Dentro da casa de Frida, há uma loja onde vendem adereços semelhantes aos que a pintora usava. Xailes, brincos, blusas. Preços bem razoáveis. Sobre horários de funcionamento e demais informações práticas, ver www.museofridakahlo.org.mx

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015 

A casa de Freud

14.01.18

Freud escreveu numa carta datada de Agosto de 1938: “20 Maresfield Gardens será a nossa última morada neste planeta, mas não poderá ser ocupada antes do fim de Setembro. A nossa casa!... E demasiado bonita para nós…”. A nota continha lapsos e emendas – um “espero” acrescentado na primeira frase, um “reunida” que foi riscado e que exprimia o desejo de viver em paz, em família.

A deambulação começara meses antes, quando a ameaça nazi pendeu sobre Viena e impeliu a família a um exílio forçado. Maria Bonaparte, descendente do imperador, e sobretudo mulher do Príncipe Jorge da Grécia – bem relacionada nos círculos do poder europeu, portanto – interveio de modo a garantir que os Freud levassem consigo “as suas vidas”. Não só as suas vidas no sentido orgânico, anímico, o que já não era pouco – o ímpeto nazi dizimava os primeiros judeus por essa altura, empunhava faixas com a suástica na ombreira das portas.

Foi concedido aos Freud que levassem consigo os pertences de uma vida, os objectos e as memórias que marcam uma identidade. A mesa da sala de jantar, o móvel rústico das férias de Verão, os tapetes para revestir o chão e o divã, o divã, a totalidade da sala de trabalho: a secretária, a cadeira original desenhada propositadamente para Freud, a pensar na posição diagonal em que lia, as estantes que guardavam os livros de Shakespeare, Dostoievski, as obras completas de Goethe, as tragédias gregas, as aventuras e o sabor da descoberta de Mark Twain, o maple verde no qual se sentava enquanto ouvia os pacientes. Sobretudo, veio nessa vida transplantada, de 19 Bergasse para 20 Maresfield Gardens, a colecção de antiguidades de Freud. As peças egípcias, as chinesas, as gregas. Os vasos, as estátuas, os bustos. Desenhos e gravuras. Bric a brac de um mundo em ruína.

Chegaram bem. Praticamente não sofreram dano. Foram dispostas nos seus lugares de sempre. Encapsularam Freud numa atmosfera familiar.

O ambiente da casa fornecia um quadro exacto de um fin de siècle, de uma Viena alvoroçada pelo próprio Freud, por Wittgenstein, pelo movimento Secessionista. As peças acompanharam-no entre retratos da família: a mulher Martha que saía para comprar mantimentos, a filha Anna que o seguia com uma devoção incestuosa, a criada Paula que vinha de tempos imemoriais, os cães, os filhos que apareciam para o almoço de domingo, a memória da mãe de Freud, que gostava de “aparecer bem e de não parecer muito velha”. Apareciam pacientes antigos – uns quatro happy few – , apareciam escritores como Stefan Zweig, Dalì (que fez do seu herói um desenho fúnebre), H. G. Wells que lhe propôs que se tornasse cidadão britânico. A musa inspiradora Lou Andreas Salomé. Virginia Woolf e o marido (que escreveu sobre o psicanalista: “Há nele qualquer coisa de vulcão semi-extinto, sombrio, reservado. Deu-me a impressão de ser um verdadeiro gentleman, um homem de uma imensa força”. E entre tudo isto, os manuscritos nos quais trabalhou até a doença o impossibilitar. Até morrer, em Setembro de 39.

Viveu o seu último ano naquela casa, solar, ampla, demasiado bonita para uma família habituada a um apartamento escuro numa rua como as outras em Viena. Aquela era uma casa de tijolo, como todas as casas em Londres, e permitiu-lhe morrer em liberdade – como era seu desejo.

Entra-se na casa como se entra na casa de uma pessoa que vive nela todos os dias. Estão os óculos sobre a secretária, um charuto meio fumado sobre o cinzeiro, uma taça de cerejas no aparador. Tudo permanece intacto, passados quase setenta anos sobre a sua morte. A casa – sobretudo o espaço de trabalho de Freud – foi fixada no tempo. Como um fotograma de um filme. Há um relógio que se avista da secretária: marca meio dia e quinze, marca Setembro de 1939, quando morreu.

Depois da morte de Anna, a predilecta, que viveu em Maresfield Gardens até ao fim, em 82, o espaço foi transformado em museu. Os pacientes de Freud, em Viena, comentavam que o consultório se parecia com um museu – tal a profusão de peças antigas. Hoje, o museu, em Londres, parece uma casa onde se mantém as rotinas e se desvela a intimidade. Os canteiros estão cheios de amores perfeitos, o jardim das traseiras está viçoso e bem tratado. À entrada, há um charriot onde o visitante pendura o casaco e ao fundo já se vislumbra o jardim. De permeio, há uma sala dominada pela escada que dá acesso ao piso superior.

A “sala de espera” caberia aqui. Mas a “sala de espera” foi removida para Viena, para que a casa que habitaram na Bergasse não ficasse completamente despida – a casa-museu de Viena tem meia dúzia de objectos, fotografias, o bengaleiro, alguns livros, muitos papéis. Por cima e por baixo, vivem famílias, exactamente como no tempo em que Freud ali morava.

O coração da casa da Maresfield Gardens é aquela divisão à direita, no piso térreo, onde cabem a sala de trabalho e a biblioteca. As cortinas estão corridas para preservar o espaço; mas quando Freud aí passava os dias, uma imensa janela atirava para o jardim e inundava o espaço de luz. Na penumbra, o quarto assemelha-se a um invólucro uterino – aconchegante, reconfortante, convidativo. E claustrofóbico, também. As estantes, os armários, as mesas estão repletas com a colecção de livros e peças arqueológicas – Freud estabelecia um paralelo entre o trabalho da escavação, próprio da arqueologia, e aquele que desenvolvia com os seus pacientes. Em ambos os casos, tratava-se de desenterrar pedaços do passado e contemplá-los à luz do dia. A cura passava pela palavra.

Tudo segue uma organização meticulosa. E tudo se relaciona, numa sequência ininterrupta. Os objectos do passado, as fotografias do presente, as evocações mitológicas (Édipo e Gradiva são as mais famosas), o mundano, o doméstico, o discurso dos analisandos. A presença ausente de Freud. Um maple verde vazio, um divã onde facilmente nos projectamos.

Recuamos até à sala intermédia, seguimos para a casa de jantar. Há pequenas notas que iluminam objectos dispersos. Um óleo com água corrente acompanha o que Freud escreveu sobre uma paciente, que sonhava com uma imersão nas águas; o mesmo acontece com uma taça de cerejas, uma vela partida ou um vaso com violetas.

Sobre as violetas: “Arranjei o centro de mesa com flores para o aniversário: lírios do vale e violetas”. O médico elaborou o seguinte, a partir desta descrição breve: as violetas são ostensivamente sexuais. Há uma associação que é possível fazer entre a palavra “violet” e o francês “viol” (que significa violar). A doente fez uma associação com a plavra inglesa “violate” e com a violência que há na desfloração – outra palavra com forte carga sexual. Talvez denote um traço masoquista no seu carácter.

Ainda no rés do chão, a loggia foi transformada em loja. Bela secção de livros sobre psicanálise, cadernos de notas, lápis e canetas, tshirts, pantufas, panos de cozinha, almofadas, ímanes, canecas, tiradas humorísticas – como aquele que sentencia: quando dizes Ah, isso lembra-me a minha Mãe!

O primeiro andar foi ocupado por Anna Freud. Contígua à sala onde se fazem exposições temporárias e outra onde se exibem pequenos filmes, fica a sala de trabalho da mais nova dos seis filhos do médico vienense. (Há zonas que não estão abertas ao público, entre elas aquilo que seria o quarto de dormir de Anna). É difícil encontrar palavras para descrever aquele espaço... Talvez dizer, sumariamente, que é horrível! Áspero, campónio, feroz. Anna trabalhou com crianças e fundou a psicanálise infantil. Mas seguiu também adultos, que a visitavam em Maresfield Gardens. Gostava de tricotar e tinha mesmo um tear, disposto ao lado do divã. O pai, em baixo, contemplava do seu maple a colecção de peças antigas. Anna, em cima, fazia tricot. A manta que forra o divã foi feita pela psicanalista. Mas parece um saco de serapilheira que corta em caso de contacto…

Na parede oposta estão livros, retratos, uma taça de morangos, outros objectos de trabalho. Igualmente intacto. Preso no tempo.

Como se, a qualquer momento, ela fosse a subir as escadas para trabalhar entre as suas quatro paredes. E antes disso tivesse aconchegado o pai na cama improvisada no jardim, onde ele revigorava ao sol.

Cá fora, está um belo dia de Inverno. Um frio de sobretudo e cachecol, mas de dentro da casa chega uma canção de Vinícius: “É melhor ser alegre que ser triste…”. Preso a uma árvore, está um cão que quase cegou. O dono afaga-lhe o pêlo. Chama-se Bobi, e são portugueses, sim. 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007

Em Budapeste, c/ Chico Buarque

14.01.18

Vanda perguntara-lhe dias antes: «Budapeste?, e o que tem para fazer em Budapeste? Era difícil responder. Olhar o Danúbio?, tomar licores?, ouvir poetas?». Vanda preferiu Londres, e José Costa, que na minha imaginação tem os olhos aquosos de Chico Buarque, meteu-se num avião para ver que Budapeste é amarela, o Danúbio é de chumbo e não azul, beber Tokaj com foie gras de ganso, ouvir poetas de palavras impenetráveis. Há um momento em que José Costa se interroga: «O que estaria fazendo a Vanda àquela hora em Londres?». Eu adapto a interrogação: «O que estaria fazendo Chico Buarque, àquela hora, no Rio de Janeiro, ou num outro lugar que não posso saber qual é?».

Estou em Budapeste e, como Chico Buarque, não sei dizer em húngaro obrigada, ou bom dia, ou deixe-me entrar nos banhos mesmo que as seis já tenham passado. Chico, ao que consta, nunca esteve em Budapeste, mas escreveu um romance de histórias caleidoscópicas que cruzam o mapa sensorial do Rio de Janeiro e de Budapeste. Antes de o ler, eu imaginei que o livro falasse da cidade como uma Paris do centro-Europa, que percorresse as avenidas principais, que olhasse de perto a vida de todos os dias. Procurava o ângulo de Chico, poeta do “cotidiano”, na cidade. Mas este é um livro onde se escreve que se aprende uma língua e um sentimento em simultâneo, ou que se desaprende uma língua quando se extingue um sentimento. Mais do que Budapeste, é a língua húngara que serve de suporte a esta ideia. 

Se Chico tivesse estado em Budapeste, perceberia como os banhos, as dezenas de piscinas termais, de águas cálidas e cheiro levemente sulfuroso, denotam a influência turca. Os mais famosos são os Gellért. Mas não se fala dos banhos no livro.

Eu frequento os Gellért porque fico nesse hotel e não tenho tempo para experimentar as diferentes temperaturas da cidade. A edição que leio é a brasileira, comprada na livraria Argumento, uma que dizem que Chico frequenta, e que eu frequentei quando estive no Rio. De que é que serviria ver Chico na Argumento? Isso não me faria aceder ao pensamento de Chico, à imaginação de Chico... Mesmo que ele falasse comigo, você se importa de chegar para lá?, isso não faria com que eu conhecesse os caminhos íntimos e silenciosos das suas palavras. E contudo, inventaria um Chico para mim, como ele inventou Budapeste.

Como se lê neste romance babélico, os outros são razoavelmente opacos para nós. Para não dizer completamente. Como a língua húngara, que é imperscrutável. Budapeste é o lugar-metáfora escolhido pelo autor brasileiro para falar desse mistério.

A capa do meu livro é cor de mostarda, como a capa de «O Ginógrafo», um livro que aparece dentro do livro, assinado por José Costa, o protagonista, ghost-writter de profissão. Uma história dentro de uma história, uma sobreposição de enredos e palavras. Como as matrioskas que se encontram no mercado: umas dentro das outras, cada vez mais miúdas, e minuciosas, até, imaginariamente, se reduzirem a um ponto só.

Entro no banho com o livro-mostarda nas mãos. Procuro uma das bordas, sento-me, sinto a água pelos ombros. Estico os braços e tapo a cara com «Budapeste». A minha expressão passa a ser tão impermeável quanto a língua húngara, (é um mau adjectivo porque “escrevo” do banho...). Avanço na leitura: «Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr do sol no Rio de Janeiro, para ter olhos de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco. Ia ao cinema, mulheres extraordinárias se exibiam na tela, o filme era falado em língua conhecida, e eu não conseguia despregar os olhos das legendas».

A tarde corre devagar, e não consigo despregar os olhos das palavras. O banho não me faz sentido sem o livro-mostarda. «Pouco importava que todos os húngaros me olhassem com aquele olho de peixe», que incompreendessem o meu gesto. Conversam entre si, descem as pálpebras, depositam o olhar no vazio, amolecem até ficarem com a pele engelhada, como as folhas do livro depois do banho.

No segundo dia troco a piscina da esquerda pela da direita, e invade-me um imenso torpor. A primeira tem uma água morna, 36 graus; a outra, tem mais dois graus que fazem com que o suor escorra pelas têmporas e pelo pescoço. A minha imaginação faz-me ouvir as gymnopédies de Eric Satie, que iriam bem com o espaço. Sinto-me “catatónica, com a perna bamba”, como numa canção do tempo em que Chico era apenas um poeta cantor. A melancolia contagia o ar e entranha-se nas narinas. A melancolia tem cheiro: um cheio de vapor de água e conversas que ecoam no tecto.

À entrada, o empregado avisara: homens de um lado, mulheres do outro, e é normal que fiquem nus (daí a separação). «Eu queria protestar, mas nem sequer sabia dizer não em húngaro». Eu não queria ver os corpos nus de pessoas que não conheço!, não queria entrar no balneário e ver uma menina de peito ao léu a secar o cabelo, não queria ver uma senhora parecida com a minha avó com a carne pendente, outra muito farta e branca, tão branca, a passear-se sobre o chão de mosaicos.

Ocorre-me pela primeira vez que talvez tenha sido por isso que Chico recusou aquilo que é inevitável em Budapeste: o postal turístico das pessoas que jogam xadrez nos banhos públicos, com o tabuleiro a vaguear por entre elas. Porque há um lado inaceitavelmente impúdico no modo como estão em público. (Mesmo quando estão nas piscinas “mistas”, que, no Gellért, funcionam como um corredor central. Mas estas piscinas são para nadar, e, já agora, sempre na mesma direcção).

Num outro ponto do livro, Chico fala do par atracado contra um álamo. Também o autor do guia Lonely Planet fala dessa fama que precede os húngaros: de serem especialmente soltos na manifestação da líbido, de não conhecerem o significado da palavra decoro quando expressam em público o seu sentimento e desejo.         

«Custei a aprender que para conhecer uma cidade, melhor que percorrê-la em ônibus de dois andares é se fechar num aposento dentro dela». Chico acreditará nisto, e mostrou que é tão válida, ou mais, a cidade inventada dentro de um aposento, como aquela que é vista num autocarro de dois andares. Porém, eu fiz a viagem no autocarro de dois andares e gostei de percorrer as bissetrizes da cidade. Se eu conhecesse Chico, contar-lhe-ia que Budapeste tem uma identidade múltipla, que não coincide com a imagem antiga de uma cidade «cortada por um rio, o Danúbio».

Aterrei em Budapeste induzida por frases que aprendi na escola: de um lado Buda, do outro Peste, dois mundos distintos, e o rio como fronteira. Mas a diversidade de faces de Budapeste é surpreendente. «Atravessei a ponte pênsil em ritmo de jogging, (...) admirei rapidamente as fachadas neo-clássicas, os balcões art nouveau, na terceira esquina respirei tabaco, chocolate, cebola». Eu comi foie gras no Gundel, goulash num restaurante de esquina_ o que é que Kriska, a musa do autor em Budapeste, serve ao jantar? Chico fala apenas de queijos e Tokaj postos numa cesta, para uma tarde de namoro na ilha Margit. E a referência aos queijos, sendo francesa e certa, não condiz exactamente com o que se vê nas montras e no mercado.

No mercado compra-se paprika, salame, cebolas, alhos, toalhas de uma renda copiada da espuma do mar, às vezes com cores, e túnicas folclóricas com bordados.

Surpreendeu-me que as empregadas do café Gerbeaud, jóia da coroa, forrada a veludos e dourados, usassem uma saia aciganada e umas sandálias que naquele contexto resultam imbecis. (As sandálias são ainda mais despropositadas que o uso de “imbecil” aplicado a sandálias!). Estavam entre o ortopédico e o mendicante, e reconheço-as de imagens campónias da vizinha Áustria.

A côrte austríaca legou um estilo pomposo, uma pastelaria decorativa, sandálias saloias e edifícios secessionistas_ preciosidades que remontam ao início do século XX, de uma modernidade explosiva. O grupo da Secessão, que integrava Klimt, Otto Wagner ou Adolf Loos, impôs um estilo que alastrou a outros pontos do império. Custa a crer que até há menos de cem anos, o mapa geográfico e político unia as duas cidades. Mas em ambas, os vestígios desse tempo fusional são ainda claros.

Nesse passeio em autocarro de dois andares, Chico, reconheço também o quarteirão judeu, imensamente livre, a influência cigana no velho que toca “Lili Marlene” ou “Dr. Jivago”. O velho arrasta-se pelas esplanadas, com o violino e chapéu estendido. Traz-me à memória a composição do grupo que animava o Gundel, com violino, cello, sopros_ os instrumentos preferidos de uma raça nómada. E há marcas do comunismo nos edifícios desmesurados, que esmagam o cidadão e a individualidade. Daí a dois dias seriam as comemorações dos 50 anos da Revolução Húngara, e a cidade estava cheia de bandeiras. Nessa manhã, ao pequeno almoço, encontrei Teresa e o seu amigo mais antigo, emigrantes nos Estados Unidos desde os anos 60, que voltavam para celebrar aquela vitória-derrota: ambos participaram na manifestação de 1956.

No outro lado do rio fica Buda e o hotel Plaza de Zsose Kósta _ ou Kósta Zsose, porque em húngaro o nome de família precede o nome próprio. No meu hotel, sito na rua Bartók Bela, dizem-me que não existe tal hotel, apesar de todas as cidades terem um hotel Plaza (escreve Chico). Buarque Chico: a maneira mais fácil de distinguir um lado do outro é que em Buda há colinas e o palácio real, e em Peste uma planura sem fim. Kriska, a amada de Kósta, vive em Peste, e dá peripatéticas aulas de húngaro: dá nome a coisas como «rua, patins, noite, arco bizantino, rio». Na gaveta de Vanda, a mulher brasileira de José Costa há «grampos, tachinhas, elásticos, uma lima de unhas, uma tampa de caneta e um porta joias contendo um dente de leite». Para que serve esta enunciação? Para nada, a não ser apresentar fragmentos destas personagens e das suas vidas. A partir destes pedaços de terra, podemos construir um reino.  

Gosto de reconhecer palavras antigas de Chico no livro que ele escreveu em 2003 e que eu leio em Budapeste, agora. Palavras como “caçoar” («te vi pelo salão, a caçoar de mim»), “tinhosa” ou “estrambótica” que já ninguém usa, ou declarações de amor como: «As melhores palavras que sei emanaram de ti, devem a ti seu vigor e sua beleza. Será somente teu o meu verbo, dedicar-te-ei meus dias e minhas noites». Persigo Chico e a sua escrita caligráfica. Na esperança de descobrir a última boneca da sucessão de matrioskas: a chave do seu vocabulário, a decifração do seu enigma. Orson Welles chamou a isto “Rosebud” em Citizen Kane.

Regresso ao hotel e atravesso a ponte guardada por leões sem língua. «Por sorte me restavam os sonhos, e em sonhos eu estava sempre numa ponte do Danúbio, às horas mortas, a fitar suas águas cor de chumbo. E soltava os pés do chão, e balançava de barriga sobre o parapeito, feliz da vida por saber que poderia, a qualquer momento, dar à minha história um desfecho que ninguém previra». É tentador sentir que somos autores da nossa narrativa... Que podemos pular, e ninguém o pode prever, adivinhar as palavras daquele ínfimo instante. Chico Buarque, o ginógrafo (aquele que escreve sobre o corpo de uma mulher), decide não pular e termina ambos os livros («Budapeste» e «O Ginógrafo») com a mesma frase: «E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa».

 

 

Onde ficar

 

Hotel Gellért, Buda

www.danubiusgroup.com/gellert

Cerca de 200 euros por noite. Mas as promoções de última hora podem reduzir o preço para metade; o pacote inclui o acesso aos banhos. Os não-hóspedes entram por porta lateral. Espaço lindíssimo, fin de siècle, com ferro forjado e vitrais. Mathew Barney filmou aqui “Cremaster 5”.

 

Apartamentos

www.abudapestapartment.com

Para quem não gosta de hotéis, esta é uma boa opção. Centrais e acolhedores. Preços muito acessíveis, que oscilam entre os 40 e os 90 euros.

 

 

Onde comer

 

Restaurante Gundel

www.gundel.hu

Fica junto ao Zoo e Jardim Botânico, e aos dois museus mais importante da cidade. É um palácio com serviço luxuoso, onde se come o melhor foie gras de ganso do mundo. Caro. Recomendado para ocasiões especiais. Cantam “parabéns a você” em húngaro ou inglês a todos os aniversariantes da sala (nessa noite eram cinco!).

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Gerbeaud House

O mais belo café de Budapeste, no centro de Peste, fundado em 1858. Os bolos são de estarrecer. Mas o serviço é lento e exasperante. As empregadas vestem mal e, para usar um eufemismo, são reservadas. Na verdade, são antipáticas. 

 

New York

Restaurante, bar e hotel sumptuoso. A primeira coisa que se diz dele é que o Príncipe Carlos e a Princesa Diana tomaram lá chá. Foi recuperado recentemente. O restaurante serve comida italiana a preços de caviar! Mas para um chá ou charuto na sala de fumo, parece perfeito! Tem um permanente ar de festa por ser tão glamoroso.

 

Banhos

Széchenyi Spa

Um dos maiores complexos de piscinas da Europa. Quinze piscinas, reconstruídas em 1999.

Lukács Spa

Água a quarenta graus que tira qualquer angústia. Consta que são mais frequentados por velhos, de manhã cedo.

 

Como ir

A Tap tem voos directos, e com escala em Praga, para Budapeste. Cerca de 250 euros, ida e volta.

 

Moeda

Forinte. Mas aceitam-se euros um pouco por toda a parte, com câmbio altamente desfavorável, nesse caso.

 

População

Menos de dois milhões de habitantes em Budapeste, que representam um quinto da população húngara.

 

 

Publicado originalmente no Diário de Notícias