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Anabela Mota Ribeiro

Glicínia Quartin

27.03.18

A pergunta é recorrente: quantas vidas cabem numa vida? Glicínia, a menina da Vila Sousa que se enfeitiçava com as figuras de Malhoa. Glicínia, a intelectual que se cruza com Almada Negreiros, Abel Manta, Jorge de Sena, Cesariny nos cafés de Lisboa. «Havia várias tertúlias. Quando era miúda, o meu pai dizia-me: «Vai-me buscar ao banco e depois vamos lanchar», e lá íamos a uma tertúlia. Havia uma célebre, na Avenida da Liberdade, numa pastelaria chamada «Havaneza». Estavam lá o Ferreira de Castro, o Aristides Esperança. O meu pai tinha outra tertúlia no Café Chiado. Eram todos intelectuais contra o regime vigente. Era o café dos estudantes, de alguns intelectuais e também dos surrealistas – mais tarde, era no Café Chiado que me encontrava com os surrealistas. Eu ia ali e estava muito atenta às conversas, a observar as pessoas, a achar que estava num lugar que me favorecia. Já estudante, já quase mulher, continuei a frequentar tertúlias. Começava pelo Café Chave de Ouro, o Café Portugal e depois também a Brasileira». Glicínia, a bióloga marinha, assistente de Mário Ruivo, que estuda com minúcia o comportamento do bacalhau. Glicínia e o deslumbramento com o exterior, «Come in, darling», a importação das calças compridas e as meias pretas de viagens a Londres e aos países nórdicos. Glicínia do teatro amador, do cinema em «Dom Roberto», da «Maluquinha de Arroios». A ruptura já depois dos 30, antes que fosse demasiado tarde e perdesse actualidade. Depois vem Roma, onde estudou, o encontro com Fellini, o jantar com Neruda. Depois vem a representação como vida, o Luís Miguel e o Jorge a convidarem-na para a fundação da Cornucópia, as aulas no Conservatório. Sempre discreta. Sem querer ocupar o centro. Ciente de que o centro era fazer parte do jogo.

Glicínia Quartin completou 80 anos a 19 de Dezembro. Vive em Campo de Ourique numa casa de vista deslumbrante. De lá se vê o sítio onde nasceu.

 

 

Gostava que me descrevesse a Vila Sousa.

A Vila Sousa é um prédio na Graça, construído em mil oitocentos e qualquer coisa, tem quatro faces – dão para o Largo da Graça, a Rua das Mónicas e a Travessa de São Vicente –, e, dizem, nunca as contem, 365 janelas. Tudo enquadrado pelo Convento da Graça, que hoje é uma igreja e um quartel, tem um jardim, com uns canteirinhos, um laguinho, um repuxo. Quando eu era miúda, enchia-se de gente nas noites de verão, os miúdos brincavam, grupos de raparigas cantavam e passeavam de braço dado.

 

Viveu sempre na Vila Sousa?

Sim. Nasci e saí de casa a primeira vez com 21 anos. Era um terceiro andar, mas nessa altura os prédios eram construídos com os tectos muito altos; equivalia talvez a um quinto andar num prédio moderno. Havia uma emoção estética: ver as figuras das pessoas numa dimensão e saber que, se descesse, tinham outra. Numa das entradas, a principal, tinha uma escada que é das coisas mais bonitas que tenho visto em escadas. Um dia destes vou lá e vou subir outra vez a escada.

 

Há quanto tempo não vai lá?

Há muito tempo. Anos. Não há muito tempo trabalhei no Teatro Taborda [numa peça dos Artistas Unidos] e quando vejo a minha casa ali ao pé... Um dia lá fui sozinha, olhei para as janelas todas, lembrei-me dos vizinhos, alguns ainda me lembro dos nomes, outros já morreram, e lembrei-me do meu dia-a-dia. Eu tinha um dia-a-dia muito regulado pela passagem das pessoas.

 

Como é que era?

As pessoas iam para os seus empregos e passavam pelo Largo da Graça, a caminho da Baixa, entre as oito e as nove da manhã. À tarde também os via regressar. Quase que o meu relógio era: «Olha, vai passar aquela menina da saia plissada».

 

As pessoas distinguiam-se como, quando as via passar?

A maneira de vestir, era uma das coisas que fixava. Umas andavam mais banais, outras eram elegantíssimas, iam para o seu trabalho bem vestidas, com gosto. Eu distingui-as: «Lá vem a menina da saia plissada», «Lá vem a senhora que usa uma trança». Era o meu convívio. E inventava histórias. Como é que viviam, quem era. A minha infância marcou-me muito em sensações. Por exemplo, a varanda era alta para mim e eu só espreitava através das grades; a pouco e pouco consegui pôr a cabecinha de fora. Foram conquistas que nunca me esquece de ter tido, e recordo a alegria que [então] tive.

 

Essa sensação de conquista, de superação de dificuldades é anterior ao medo. As crianças, quando se jogam sem freio, não têm consciência do medo. Imagino que os seus jogos infantis fossem bastante isolados, porque havia uma grande diferença de idade entre si e os seus irmãos.

Os meus irmãos para mim eram adultos. O meu irmão, porque só tinha uma diferença de nove anos, pelo temperamento e porque era rapaz, acompanhava-me mais brincando comigo. A minha irmã, 13 anos mais velha, era uma espécie de segunda mãe, dava-me ordens: «Come a sopa, se não comes ficas aí sentada». Eu ficava uma tarde inteira sentada em frente à comida, coisa que não me magoava muito porque a nossa casa de jantar tinha muitos quadros.

 

Não a dobravam facilmente.

Não, porque tinha essas defesas. Conheci o Malhoa quase todo porque o meu pai tinha reproduções dos quadros do Malhoa. Talvez por ser muito sozinha, criava um mundo, esse mundo era preenchido por figuras imaginárias.

 

A sua mãe é que lhe ensinou a ler?

Foi. Aprendi a ler aí com uns quatro, cinco anos. Ela foi minha professora na escola, também. Escola-Oficina Número Um: era um projecto de pedagogia moderna, fundada mesmo antes da república. O ambiente era de liberdade e responsabilidade. Era também uma excepção haver rapazes e raparigas.

 

Como é que lhe ocorreu que podia ser corista, que era o queria ser quando tinha quatro anos?

Vi teatro de revista, no Politeama, e fiquei muito deslumbrada com aquele espectáculo, muito colorido. A vivacidade daquilo tudo encheu-me de alegria. As coristas mudavam de vestido, umas vezes iam com um chapéu muito engraçado, outras com uns mantos, outras com uns maillots. Eu achava que aquilo é que era engraçado, e não estar a um canto do palco a dizer umas coisas que eu não percebia. Em casa também fazia essas danças sozinha, levantava a perna...

 

Quem era o seu interlocutor em casa?

A minha mãe. O meu pai esteve sete anos em África, dos cinco até aos 12 não vivi com o meu pai. Ele era jornalista, foi perseguido, os jornais estavam proibidos de o contratar. Foram uns anos terríveis.

 

Nunca o viu durante esse período? A imagem dele era construída nas cartas?

Nas cartas, nas fotografias. O choque foi muito forte quando voltou. Não estava habituada a uma voz masculina a dizer-me: «Não, não fazes isso». Comecei a revoltar-me contra a autoridade do meu pai e explicitei-o: «Quem manda em mim é a minha mãe».

 

A sua mãe transformava o seu pai num herói? Ele foi perseguido pelo seu envolvimento anarco-sindicalista.

Não. A minha mãe acompanhava bem o meu pai. Fez sempre parte dos movimentos feministas.

 

Ela dava-se com a Ana de Castro Osório?

Era um bocadinho mais velha que a minha mãe, mas davam-se. A Maria Lamas, (já depois da guerra), também conheci. A minha mãe levava-me para as reuniões do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Elas chamavam-me a atenção fisicamente, havia senhoras muito bem vestidas, usavam chapéu, eram classe burguesa, mas não gente de dinheiro.

 

A sua mãe sofreu muito com a distância?

Era uma pessoa com um grande sentido pragmático. Se sofreu, foi interiormente.

 

Nunca assistiu ao sofrimento amoroso da sua mãe?

Não. Eles escreviam-se regularmente.

 

Nunca leu nenhuma dessas cartas, nem depois da morte dos seus pais?

Não. O meu pai foi o que morreu primeiro, a minha mãe alguns anos depois. Nunca passou por mim uma carta. Não sei se deitaram fora, se rasgaram.

 

Estudou no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.

Entrei no ano em que a Mocidade Portuguesa foi instaurada obrigatória. Discutia-se muito lá em casa, falava-se de política. O meu pai era anarco-sindicalista. Os amigos, pessoas de grande valor, até operários, iam lá a casa. Para fazer um número, de vez em quando subia a um banquinho e dizia: «Viva a República!». E lembro-me de querer elaborar um discursozito com frases que lhes ouvia. Sabia que existia esse mundo, mas de modo nenhum compreendia o que podia ser. Comecei a despertar para a política depois da Guerra, quando houve uma tentativa de democratizar o sistema e ingressei nesses movimentos, (já aluna da Faculdade).

 

Porque é que foi para Biologia quando o seu desejo de infância era ser escritora?

A minha personalidade é um bocado estranha... Não é estranha, é muito racionalizada. Eu era muito ambivalente, era boa aluna a Letras, gostava de escrever, tinha uma cultura geral literária superior à das minhas colegas. Mas às vezes era também a melhor aluna a Matemática e a Ciências. Enquanto era miúda, a vida era casa e histórias, depois tive um contacto com a vida. Aos 14, 15 anos, dei uma volta. «Letras? Tretas!, vou para Ciências». Eu queria ser útil e trabalhar numa coisa palpável e concreta. Achei que Letras não valia a pena, que devia ir para Ciências, aprender coisas positivas, que podia pôr em acção e que podiam transformar o mundo. 

 

Casou aos 21 anos, quando ainda estudava.

Devo ter sido uma das primeiras alunas da Faculdade casada.


Como é que foi, apaixonou-se?

Sim. Era um grande companheiro, encontrei-o nas reuniões, movimentos, manifestações estudantis. A gente estava a lutar pela Associação de Estudantes que tinha enfraquecido muito durante o tempo da ditadura, as pessoas não podiam intervir, eram suspeitas. Depois da Guerra, tínhamos o exemplo da Europa, estávamos à espera que Portugal ingressasse também numa democracia. Mas os países da Europa, a verdade é que nos viravam as costas. Democracia com parlamento, eleições livres, liberdade de reunião: eram os princípios básicos, ninguém vinha impor a revolução comunista. O Governo e os poderes tratavam tudo como se fosse comunista. As pessoas encolhiam-se imenso porque não havia dúvidas de que iam ser presas.

 

Teve medo?

Eu passei por situações um bocado complicadas, mas não era bem medo. Fui presa uma vez numa reunião de estudantes. Invadiram a casa onde estávamos, apareceu um senhor que apontou uma pistola, mostrou-nos o crachá, «Polícia de Estado», engolimos em seco, olhámos uns para os outros, «E agora?».

 

Então, começou a cantar.

A cantarolar e a mostrar que estava muito ocupada, a ver uns papelinhos, ao mesmo tempo observando aquilo, sentindo os meus colegas a entrar em tensão. Ainda estivemos sob vigilância mais de uma hora. O inspector que nos prendeu devia ter a nossa idade, ainda fiquei na dúvida, «Será um colega a brincar connosco?».

 

Como é que foi o seu casamento?

Foi civil. Os meus pais não concordaram, «Tu fazes como entenderes».

 

Não gostavam dele? Por que é que não concordaram?

Achavam que era um disparate o casamento, com 21 anos. Alterou-lhes o programa em relação a mim. Não me trataram mal, não me puseram na rua, mas afastaram-se, não quiseram participar. A minha irmã, que era muito solidária, foi ao casamento.

 

Recorda esse dia como um dia de grande felicidade?

Não. Mas de grande libertação. Ainda no outro dia pensei que fiz bem em ter casado, mesmo que não tenha resultado. Acho que me deu oportunidade de viver uma vida e ter conhecimentos que se estivesse em casa do pai e da mãe não tinha.

 

O quê?

Não tinha liberdade para sair, para contactar com mais pessoas. Andei uma vez numa tarefa que era ler um escrito sobre a mulher. Eram sessões de esclarecimento, não era propaganda partidária. Eu chegava às associações, geralmente sociedades de recreio, não eram fábricas, e só tinha homens.

 

O que eram sociedades de recreio?

Eram sociedades formadas e orientadas por pessoas do bairro, que ascendiam através da sua cultura, da sua formação. Faziam bailes, tinham um barzinho, jogavam cartas, dominó, xadrez, damas, faziam aquela vida diária, sobretudo os homens. A parte engraçada é que eu lia aquelas coisas para ser ouvida por mulheres e só tinha homens à frente; porque as mulheres ficavam em casa.

 

Como é que a sua mãe, que privou com feministas, não a deixava estar mais à vontade?

Era uma questão de equilíbrio doméstico.

 

O seu pai não achava grande graça.

Não. Quando veio de África, o meu pai viu que tinha perdido a autoridade na família. Era um estranho. Isso perturbou-o muito.

 

Posso perguntar se casou para conquistar uma liberdade sexual?

Vou-lhe dizer uma coisa: eu casei virgem, quando toda a gente julgava, pela minha maneira de ser, que já tinha avançado muito na minha vida sexual com o meu futuro marido. Vivemos na Mouraria, em Lisboa. Eu estudava, mas o meu marido trabalhava. Frequentávamos sítios e pessoas, foi-me permitido conhecer os intelectuais da altura.

 

Foi nessa altura que começou a dar-se com os surrealistas? Com o António Maria Lisboa?

Sim, sim. E com o Vespeira. Eles tinham ateliers, a gente ia ao atelier. Mas a gente ia também ao café, (era uma instituição!), sabia que tinha uma série de pessoas conhecidas para conversar. Foi nessa altura que comecei a fazer teatro. Surgiu um grande movimento de realizações teatrais, de procura de novas linguagens, novos autores.

 

De qualquer modo, o teatro ainda estava longe de ser a sua vida. Quando acaba o curso, trabalha como bióloga marinha – é assistente de Mário Ruivo. E é convidada a trabalhar na Dinamarca e na Noruega. Que idade é que tinha?

25.

 

Ainda estava casada?

Não.

 

Esteve casada quanto tempo?

Cinco anos. Isso aconteceu em 57.

 

Como é que foi daqui para lá?

De avião. Fiz escala em Londres, depois fui para Berger e depois para Copenhaga.

 

O que é que aquilo foi para si?

Foi óptimo. Nunca julguei que viajar era tão fácil, tão bom e as pessoas tão simpáticas.

 

Nunca tinha saído?

Tinha ido a Espanha, uma vez.

 

Estava num hotel ou ficou alojada em casa de pessoas?

Estava num hotelzinho pequenino, era uma coisa simpatiquíssima, como se fosse uma casa de família. A cidade onde estava era linda, Berger, a segunda cidade da Noruega. Embora houvesse a separação da língua, as gerações mais novas já falavam inglês, as mais velhas não.

 

Já falava inglês?

Um bocadinho. Nunca falei muito bem, mas o suficiente para ter contacto com as pessoas, para conviver.

 

O que é que se comia?

A comida era simples, não era de grandes condimentos, mas boa. A carne era muito boa, não tinham muitos legumes, alguma fruta. Só houve uma coisa que não consegui comer: bacalhau podre.

 

Que comida fazia para si e para o seu marido?

Cozinhava, mal, mas cozinhava. Comia-se o que se come agora. A batata frita, o bife, o peixe cozido, o bacalhau cozido. Agora há talvez mais vegetais do que havia na altura.

 

Também esteve em Londres uns tempos.

Londres para mim era mais mítico do que Paris. Cheguei sábado, a um hotel encantador, com umas velinhas nas janelas e aquilo dispôs-me bem. Eu nunca me lembrava de perigo. Havia um parque, Holland Park, quando entreguei o bilhete o empregado disse-me: «Come in, darling»! Fiquei tão encantada, achei que era outro mundo. Meti-me no bus e disse para o condutor: «Quero ver Londres», ele riu-se: «Conhece Trafalgar Square?». Nessa noite perdi-me e tive só surpresas agradáveis. As pessoas ajudaram-me sempre a chegar a casa.

 

Da visita a Londres, trouxe para Lisboa as calças e as meias pretas.

Comecei a ver as raparigas todas com meias pretas e saias vermelhas, achei aquilo giro.

 

Meias opacas ou transparentes?

Opacas.

 

Aqui as viúvas é que andavam com essas meias, e era uma obrigação.

Eu era insultada, por homens e mulheres. Depois comecei a usar calças, também era insultada. «Olha p'ra ela, machona!». Tinha trazido umas galochas da Noruega, brancas, um encanto, até me insultavam por causa das galochas que não faziam mal a ninguém. Íamos sentadas no banco dos eléctricos, a saia levantava um bocadinho e havia uma alma generosa, «Dá-me licença?», e puxava-nos a saia.


Como é que era olhada por ser divorciada?

Não foi muito agradável. Você perguntava-me por que é que os meus pais se preocupavam tanto: eles tinham medo que eu, transgredindo mais, fosse lesada.

 

Lesada significa mal vista?

Exacto.

 

Quando se separou, mediu a repercussão social disso?

Na altura achei que era um falhanço meu. Afinal não tinha conseguido construir nada. Mas ficámos sempre amigos, eu e o meu marido nunca nos zangámos.

 

Foi feliz nesses anos? Ganhava o seu dinheiro, tinha uma vida independente.

Fui. Eu gostei de trabalhar em biologia.

 

E agora, parecerá que estou a falar com outra pessoa se perguntar pelo jantar em Roma com o Pablo Neruda...

Fui para lá frequentar um curso de teatro. O Pablo Neruda, como sabe chileno, estava fora do país dele, tinha vindo da Rússia e passou por Roma, onde estavam outros não bem-vindos nos seus países. Os meus amigos [portugueses] tinham laços de amizade com sul-americanos que estavam em Roma, quiseram jantar com o Pablo Neruda e insistiram muito para que eu fosse. Não era assim uma figura que me empolgasse muito, mas fui ao jantar. Tenho uma fotografia desse jantar no Trastevere.

 

Porque é que não a empolgava muito?

Eu não conhecia a poesia dele. Ele já tinha a aura de poeta extraordinário. Só que eu não tinha lido, só conhecia o nome e a história.

 

Viveu em Roma cerca de dois anos.  

Não estive na escola oficial, porque não sabia italiano. Estive numa escola que aceitava estrangeiros porque se baseava muito no método Stanislavski, onde o trabalho é mais corporal, emocional.

 

O estilo de representação italiano, que conhecemos através dos filmes, é mais emotivo, visceral, o corpo entra todo. Conheceu a Anna Magnani?

Vi-a uma vez a jantar com o Pasolini. Quem conheci directamente foi o Fellini. Ele estava a fazer um casting para um filme e fui ao escritório onde recebia pessoas, num bairro antigo. Olhei para as caras das pessoas que estavam à espera e reconheci-as dos filmes_ faziam os pequenos papéis, a figuração. Estabeleceu sempre entre ele e os figurantes um diálogo muito engraçado, tratavam-se por tu, com muita alegria, à italiana. O Fellini era daquelas pessoas paternalistas, grandes, não me desiludiu nada. Apresentei-me, disse que era actriz portuguesa, que estava a estudar em Itália, timidamente e atabalhoadamente fui-lhe dizendo que gostava muito dos filmes dele, que gostaria muito de poder entrar num. Deixei uma fotografia e a morada. Era um homem que olhava muito para as pessoas, nos olhos. Era uma figura que dava tranquilidade.

 

Normalmente as pessoas sentem incómodo quando outras as olham tão intimamente. Muitas fogem, não conseguem aguentar o olhar.

Eu gosto de pessoas que olham nos olhos. A não ser que eu seja culpada de alguma coisa. Olhar nos olhos é uma consideração que se está a ter com a pessoa, demonstra que se está a prestar atenção. Quem foge com os olhos é porque não nos liga. Nunca me aflige nada.

 

Quando viu Anna Magnani a jantar com o Pasolini, ficou a observá-la, a medir a distância?

Foi num restaurante ao ar livre, não me lembro qual. Ela não divergia muito. Era aquilo que eu estava à espera. Tinha um ar um bocado desleixado. O Pasolini causava sempre escândalos, ou era preso, ou saía um filme...

 

Teve o sonho de fazer parte desse universo da Cine Cità? Viveu numa Itália fervilhante.

Logo a seguir à Guerra, foi um período de ouro do cinema francês, talvez mais poético, com filmes do Marcel Carnet, do Cocteau. Depois veio o italiano com uma vitalidade extraordinária, foi uma fase de grande paixão, com a Anna Magnani, os filmes do Pasolini, do Visconti.

 

Mas teve ou não o sonho de fazer parte desse mundo?

Eu penso que sou um bocado tonta, nunca sonhei em ser protagonista, vedeta, coisas assim extraordinárias. Se me dissessem: «Gostavas de entrar num filme do Fellini?», mesmo que fosse uma figuração dizia-lhe que sim, porque era um homem que me empolgava muito. Estive em Itália, só fui a esse casting do Fellini.

 

Por que é que nunca ambicionou ser protagonista? Isto tem alguma relação com o complexo de não ser bonita?

Não era por isso que eu não sonhava ser protagonista.

 

A Magnani não era propriamente bonita.

Diziam-me assim: «Que pena, se tivesse vindo cinco anos mais cedo, tinha trabalho». Tinha mais de 35 anos, um ar neo-realista que calhava bem naqueles modelos da mulher do campo. Quando fui já havia tendência para um cinema mais burguês, as vedetas já não tinham muito a ver com as mulheres que a gente encontra todos os dias.

 

Tinha o complexo de não ser bonita.

Sei que não era bonita, mas não tinha complexos de ser tão feia que não pudesse fazer coisas.

 

Se olhamos para o seu retrato pintado por Sá Nogueira, é uma mulher de expressão muito marcada. Não é uma beleza canónica, mas tem uma boca muito pronunciada, o olhar penetrante.

Sabe que esta coisa da beleza varia com o tempo. Quem me salvou foi a Joan Crawford e a Katherine Hepburn, porque tinham uma boca muito grande. Quando era miúda diziam-me: «Ai que boca tão grande». Às vezes os adultos são muito estúpidos, sem querer estão-nos a aferroar. Acho que não ajuda a crescer. Tive sorte porque elas rebentaram com as boquinhas pequeninas, feitios de coraçãozinho...

 

Sobretudo a Joan Crawford tinha uma boca enorme. Mas o que é mais impressionante na Joan Crawford, o que é mais impressionante num actor ou uma actriz? Não é o olhar?

A boca também tem importância. Mas sim, é o olhar.

 

Os sentimentos passam-se nos olhos, não é?

Essa história do olhar tem importância. As pessoas achavam que eu era feia, mas ao mesmo tempo atraente. E quando me deram um papel em que não era a mulher feia, mas a mulher provocante e sedutora, (foi a «Maluquinha de Arroios), foi um abrir de boca, porque ninguém esperava que fizesse aquele papel.

 

Quando lhe deram esse papel, sabia que o podia fazer bem? Confiava em si enquanto mulher sedutora?

Sim. Eu não era a Ingrid Bergman, mas sabia criar esse clima de atracção.

 

Era uma coisa mais explicitamente sexual.

Sim, foi isso que abanou mais as pessoas, «Ai que engraçada, que bem que se mexe». Nunca tinham descoberto, devo-o ao Carlos Avillez. Diz-se sexual ou sensual, mas não tem nada a ver com a beleza.


Mudou de vida já depois dos 30 anos. Abandonou a Biologia e dedicou-se à representação.
Foi na sequência desta decisão que foi estudar para Roma. 

Eu disse: «É agora ou nunca». Continuava a fazer o meu trabalho de investigadora no laboratório, não fazia contrariada...

 

Fazia-o sem chama.

Sim. Fazia uma rotina de registos sobre um peixinho que toda a gente conhece, o bacalhau. Já feito o filme «Dom Roberto», e devo dizer que ao ver-me no ecrã, a desempenhar aquele papel, convenci-me finalmente de que podia ser actriz, de que valia a pena fazer a jogada. Foi uma surpresa ver aquela imagem em que não era eu. Os primeiros momentos foram um bocado dolorosos. Para mim, actor não é o que se exibe, é aquele que se transforma.

 

Onde é que a pessoa vai buscar esse outro lado?

Está nela, em primeiro lugar, e depois em tudo aquilo que vai observando e assimilando, quase sem dar por isso.

 

Quer dizer que podemos ter todas as emoções, dizer todas as coisas? Elas só precisam de ser desencadeadas? Precisam de um detonador, que pode ser um texto, um encontro?

Claro. Queria dizer-lhe que nós não estamos a mentir, estamos a procurar memórias de sentimentos que foram vividos, passaram pelo coração, e que somos capazes de transmitir. Atinge-se essa facilidade com a experiência. O desenvolvimento do que é representar é muito complexo.

 

Foi professora muitos anos. O que é que pedia e o que é que ensinava aos seus alunos?

Não me pergunte o que é que ensinava. Tentava dar-lhes a noção de que eles próprios tinham o seu caminho, que uma emoção feita por um aluno e essa mesma emoção repetida por outro não era igual, porque ambos tinham tido experiências diferentes e são caixas de ressonância diferentes. Portanto, emocionei-me ao ver que podia fazer qualquer coisa de diferente. Eu já tinha feito muito teatro, mas nunca me tinha visualizado. E disse: «Estou a perder o meu tempo, daqui a uns tempos não tenho forças e já não tenho actualidade». Depois houve uma questão de foro trabalhista com o meu chefe, o Comandante Tenreiro, uma das figuras importantes do regime, que veio interferir com a minha vida. E eu: «Pronto, é agora, vou-me embora». Podem dizer: «É doida, largou a biologia e foi para o teatro». Eu não sou doida. Enquanto não sei o chão que piso, não dou o passo. Não era bem calculismo, era não criar problemas, os problemas que eu sabia que ia criar se ficasse desempregada. As coisas eram bastante observadas e medidas para comigo: «Tenho coragem para», «Posso fazer isto». 

 

Participar na fundação da Cornucópia foi um marco importante na sua vida?

Importantíssimo. Tenho a impressão de que se não tivesse encontrado a Cornucópia através do Luís Miguel [Cintra] e do Jorge [Silva Melo], talvez não perseguisse a minha carreira teatral. Como lhe disse, nunca pensei ir para o teatro para ser protagonista. Não estou a fazer romance, era verdade. Hoje até digo: «Mas que parva, por que é que não fiz isso?».


Se calhar, o mais importante era outra coisa. Que outra coisa era?

Fazer parte daquele jogo.

 

Disse numa entrevista antiga: «Uma carreira não justifica uma vida». O que é que é mais importante?

Quer saber como é que isto liga? Ninguém pensava em dar à Palmira Bastos um papel que não fosse o centro de cena. Essa obsessão exige da pessoa uma atenção espantosa, não perder oportunidades. Incomodava-me se tivesse que fazer isso. Interessava-me a obra, o papel, o gozo, que transmitisse alguma coisa que gostava de ver transmitido. Quando fui para a Cornucópia estava a pôr em questão a minha vida no teatro. Eu queria era fazer parte de bom teatro, tinha uma certa exigência, estética, de conteúdos. Tinha acabado de fazer um espectáculo por minha decisão, «As criadas», do [Jean] Genet, (uma encenação do Vítor Garcia, com a Eunice Muñoz e a Lourdes Norberto). Quando acabei aquilo senti um vazio, o que viesse nunca seria próximo daquele, como inovação, como experiência. Fiquei um bocado sucumbida. Aparece a Cornucópia, um grupo da Faculdade de Letras, apresentaram um espectáculo e fui ver.

 

Foi assim que os conheceu, foi ver o espectáculo à universidade?

Foi.

 

O que é que os distinguia?

Tinham especial talento, vi-os a fazer «O Judeu», vinham com uma frescura, uma linguagem... Eles vieram ter comigo, tinham um certo interesse pelo tipo de actriz que eu era, e fiquei com eles.

 

Fez teatro para crianças. A Glicínia não teve filhos...

 Dirigi um teatro que teve muito êxito, «Emílio e os Detectives», ali no Villaret. Nunca tive desejos de ser mãe. Não tenho pena nenhuma. Não ser mãe nunca me perturbou. Gosto da criança pela criança, é um ser humano, um ser que tem todas as possibilidades e que devemos ajudar o mais possível a ser feliz. Que não tenha a preocupação de ser um bom advogado ou um bom engenheiro: que seja feliz! O resto vem por acréscimo.

 

Pode-se ensinar a ser feliz?

Eu não ensino a ser feliz. Eu gostava de educar as pessoas de modo a que elas pudessem abrir os olhos à sua volta e crescer. Acho mais importante do que saber muita coisa. Pelo saber também chega o crescimento, acho que isso é que é importante, e muitas vezes não se faz.

 

Parece uma mulher feliz.

Não sou infeliz.

 

Parece bem consigo.

Sim, estou.

 

Isso é uma conquista ou sempre foi assim?

Acho que sou também assim. Tem sempre que haver qualquer coisa de nós. Depois a vida favorecer-nos, não ser contrária, abrir-nos caminhos, «Agora vem mais isto, que bom, que interessante!», e não ficar muito tempo a resmungar, «Porque é que aquilo aconteceu?». Dá -me a impressão de que tudo o que me aconteceu foi aquilo que devia ter acontecido.

 

Não deprimiu com a velhice.

Não, deprimir não deprimi... Mas se quer que lhe faça uma confidência, hoje estou a sentir uma baixa. Gozar a vida, ainda gozo, ainda me riu com facilidade, ainda me interesso por coisas muito simples. Depois penso assim: «Isto está a acabar».

 

A parte extraordinária é que continua a saborear. Há pessoas que soçobram, e amargam...

Espero que não, mas estou no princípio da velhice.

 

O que seria um bom presente de aniversário? [A entrevista é anterior aos 80 anos de Glicínia, a 19 de Dezembro]

Não sei. Uma festa, com amigos, com gargalhadas, com graças. Durante muitos anos não me lembro de haver o «Parabéns a você». Tenho impressão de que o «Parabéns a você» foi uma importação, através dos filmes americanos. Eu nunca gozei o Natal, os meus pais não eram católicos. Mas este ano é que vou enfeitar a minha casa!, parece que este ano vai ser! Como eu recebia presentes e bonecos no dia dos anos, era quase como um Natal.

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 2004

Glicínia Quartin morreu em 2006

 

 

Jorge Silva Melo

27.03.18

“E os dias que não estive junto deles, a decifrar-lhes a letra miudinha, como os recuperar? Porque gostava de ser lembrado como alguém que, como os gatos, se passeou, um «flâneur». E gostava de escrever com a independência do Garret das «Viagens», também «flâneur», apenas porque me faltou a rosa da juventude”.

Jorge Silva Melo escreveu-se assim, frente ao espelho dos dias de 98. Uma biografia sumária perfumada pelo hálito da sua flor. Carnívora, passeante. Na infinita tentação do desejo. Na desmesurada vertigem da partida; ou seja, da dissolução. Perdeu-se amando. Como aprendeu com Camilo, que tanto ama. Como ama Pavese, Minelli, Brecht, Sara Montiel. O de fragrância mais intensa, não forçosamente pura, forçosamente impura, conspurcada de vida, do traço da quotidianeidade. 

Numa manhã de Junho, ele acordou pelas cinco e meia ou seis. O de sempre. Foi ver as pessoas à rua, assistir ao acordar das hordas inflamadas de patriotismo. O de sempre – quero dizer, o interesse pelas pessoas. As que dizem «Ou vai chover, ou então não sei», e as que festejam a glória e a felicidade da pertença.

Eu cheguei cedo, sem que fosse tão cedo. Sentámo-nos no recanto da sala onde, em menino, se instalava a pista de comboio. Esta é a casa da sua infância.

Experimentou outras casas, outras vidas. A pergunta é sempre: «Quantas vidas leva uma vida?». E no caso dele, há ainda vidas extra. As do teatro, vivenciadas ao correr do texto e da emoção – talvez não seja substancial, a diferença, em relação às vidas verdadeiras.

Jorge Silva Melo, 56 anos. Como apresentá-lo numa linha? Dizer que é encenador, que é realizador, que fundou a Cornucópia, que habita os Artistas Unidos? Que é um estrangeirado amante das artes? Um tutor? Um aglutinador? Um passeante? Coitado do Jorge, que ergue o corpo, espartilhado pelo fascismo, para acalmar a fúria da portada. Coitado do Jorge, que não soube nunca dançar. Coitado do Jorge, que espera ser abraçado e não consente que lhe expressem ternura. 

Numa das próximas páginas, diz-se que a conjugalidade com ele seria impossível. Mas é certo que os nossos dias não seriam os mesmos sem ele.

 

 

Usou como epígrafe no filme “Coitado do Jorge” um verso de Ruy Belo: “Triste é no Outono descobrir que era o Verão a única estação”. A ideia de nostalgia é essencial em si.

É uma daquelas hesitações que tenho sempre: porque é que vim parar a esta minha vida?, que escolhas fui fazendo?, não terei falhado as escolhas principais? Quando fundei a Cornucópia com o Luís Miguel [Cintra] e desisti de trabalhar no cinema, terei feito a escolha certa? Não teria sido o cinema o meu Verão, não teria sido a minha única estação? Quando saí da Cornucópia fiz bem, fiz mal? Essa vida que não vivi é a vida que me preocupa e o “Coitado do Jorge” era sobre esse assunto. Era sobre um homem de trinta e cinco anos, burguês, professor, casado, bem instalado, com uma bela moradia. De repente, há um miúdo que assalta a casa dele e ele fica perturbadíssimo.

 

O que é que mais perturba este professor?

A ideia de poder ser outro. Porque é que este rapaz faz isto, porque é que eu não podia ser ele? Essa ideia entusiasma-me também no teatro. Se calhar podia ter feito outro gesto, mas o gesto que fiz determinou-me. Acho que fiz escolhas certas. Mas, quando anoitece, (aquele quadro da Sofia Areal é sobre o anoitecer), às vezes penso: e se tivesse ficado em Paris, se tivesse arranjado trabalho com o Peter Stein?

 

O que é que, em última instância, define a escolha? Acossados até ao limite, o que é que nos faz decidir?

Não chego a perceber. Todos os filmes que fiz eram sobre o momento da escolha. É esse o momento que me interessa: aqueles 30 anos onde o resto da vida vai ficar definido. Tem a ver com um autor que muito amo, o Pascal, e sobre a hipótese de apostar. Eu aposto que vai ser assim. Aposto que existe Deus; se existir ganho, se não existir não perco.

 

Se não tiver a comprovação, não importa nada.

Não importa nada. Essa ideia da vida como uma aposta é muito importante. Como é que chego a ela? Não sei, vou chegando. Há determinantes e as escolhas são cada vez menos possíveis. Neste momento já não é possível voltar à Cornucópia, viver em Paris, viver em Berlim. A vida vai limitando as muitas hipóteses que tive a sorte de ter.

 

Mas essa obliteração de cenários, que é uma ideia muito heideggeriana, acarreta nostalgia ou até frustração?

É mais inquietação. Há uma frase no Rilke que a Glicínia [Quartin] cita muito: “Uma profissão é pouco para uma vida inteira”. Não esgota uma vida inteira. Tenho tentado viver assim. Este ano faço 56 anos e realmente não tive uma profissão. Fui jovem empresário quando fundei a Cornucópia, fui estagiário, fui bolseiro, escrevi uns artigos para os jornais, só no CCB é que tive um vago contrato de trabalho, durante quatro ou cinco anos.

 

Profissão itinerante.

Dessa ideia gosto, de ser vagabundo nestas coisas, não me fixar, não me determinar. Ver ao espelho, não uma determinação, mas uma série de possibilidades. Gostava que fosse assim.

 

Mas é muito «flâneur», naquele sentido baudelairiano de estar sempre entre a multidão...

Adoro estar na multidão.

 

... e de encontrar, apesar de tudo, a sua singularidade e um espaço para a dobra que lhe permite ver, retratar, situar a multidão. Não está nunca imerso e essa é também a dor.

Sim. Esse é o problema, não poder estar imerso. Lembro-me perfeitamente do primeiro 1º de Maio de 74: estava tão contente no meio daquela multidão, mas as cantigas que estavam a ser cantadas eram horríveis! Só pensava por que é que não se cantava a “Ode à Alegria” do Beethoven. Esse lado de não pertença é uma coisa que me marca.

 

Mas essa não pertença é essencialmente estética?

É muito estética e, pela estética, moral. Mas, olhando para o meu nariz, se calhar tem a ver com as heranças hebraicas de tudo isto, com este lado de incerteza.

 

A marca da genealogia?

Isso com certeza. Há uma incerteza e uma espécie de dúvida permanente. A cultura portuguesa é tão estranha, os nossos fundamentos, entre árabes e judeus, a mistura de tudo isto... A minha mãe tem origens no Algarve, o meu pai no Minho.

 

É capaz de me apresentar esta casa, a sua vida a partir destes corredores?

Os meus pais tinham estado em Angola, Silva Porto. A minha irmã é 12 anos mais velha que eu, entrou para a faculdade e vieram para aquilo a que se chamava metrópole. Nessa altura eu tinha cinco. Conheci os colegas de faculdade da minha irmã, que vinham aqui para casa estudar ou com quem ela ia ao cinema: o Pedro Tamen, o João Bénard da Costa, a Buchholz e todo esse ciclo cultural; o Manel de Brito, que era livreiro ali na Escola Politécnica, onde a minha irmã comprava os cadernos. O meu pai era funcionário dos correios, depois montou um negócio. A minha mãe era professora primária. Não eram católicos, embora eu tenha ido para os Maristas, aqui em frente, porque era uma boa escola. Como morávamos mesmo em frente do colégio, acabou por ser uma casa de convívio de todos os meus colegas. Brincávamos aqui, neste quarto, com um comboio eléctrico que ainda tenho ali guardado. Mas este prédio era engraçado! Aqui em cima morava o Senhor Muznick, pai da Esther Muznick.

 

Judeu.

Chefe da comunidade israelita. Mais em cima morava a família San Payo de Lemos, de onde vem a Vera. Vivia ali ao fundo a família do Arons de Carvalho. Havia também uma senhora belga, Francine Benoir, amiga do Lopes Graça, professora de piano; a Maria João Pires, o Emmanuel Nunes andavam por aqui a estudar. E o Almada [Negreiros] vivia um bocadinho abaixo. Havia o Liceu Francês, frequentado pela grande burguesia, mas também pelos filhos dos intelectuais que não queriam uma educação salazarista. É um bairro como uma certa tradição de modernidade.

 

É uma genealogia geográfica, que influencia, também.

Havia esta atmosfera um bocadinho cosmopolita. Depois havia dois colégios religiosos muito importantes, as Doroteias e os Maristas. E as madames. Aqui em cima, no terceiro andar, vivia uma senhora francesa, que dava aulas na Alliance Française.

 

Aprendeu a ler com a sua mãe?

Aprendi com ela e sozinho. Cheguei à escola a saber ler e o primeiro livro que li foi «Os Lusíadas», a edição de estudo da mesma, que era da minha irmã. Tinha quatro, cinco anos. A minha irmã estudava Germânicas, pertencia a movimentos de libertação colonial, aos Agostinhos Netos e Amílcares Cabral. Tudo o que ela fazia me interessava. Muito cedo fiquei a ver os livros sobre os campos de concentração que chegavam cá a casa. Queria imenso saber o que eram aqueles livros que eu não conseguia ler, os livros em alemão. Portanto, muito novinho, sabia o que eram os concertos onde a minha irmã ia, o Cineclube Católico... Nos Maristas, fui colega de alguns jovens, o principal foi o Zé Ribeiro da Fonte, que me levou para o São Carlos, tinha para aí oito anos, nove anos.

 

Tudo isso são referências culturais. Na relação com a sua irmã, onde é que cabem os afectos? Isso de que fala é qualquer coisa que consigo encontrar nos textos que escolhe, nos textos que escreve, e que até vão ao encontro da vida de todos os dias. Mas existe um pudor em falar de um modo mais explícito ou do sexo ou dos afectos.

Sim.

 

É evidente a relação de admiração pela sua irmã. Contudo, admirar é uma coisa, amar é outra.

A minha irmã, sendo de Germânicas, era alemã de espírito. O afecto era uma coisa que não existia em minha casa. Era disciplina, rigor, autoridade. Afecto havia com a minha mãe, que era muito calorosa. Só que eu estava numa posição extraordinária! Podia jogar com o poder das duas mães, ora estava zangado com uma, ora estava bem com a outra.

 

Elas disputavam a sua atenção e o seu afecto?

Isso com certeza. O meu pai era muito presente, regular, rigoroso e foi importante no amor aos livros. Tinha poucos estudos, era muitíssimo inteligente, de uma geração republicana que leu todo o Victor Hugo, o Zola, os grandes romances humanistas e que tinha uma biblioteca que comprava a muito custo, boa, sólida. E falava com entusiasmo do empenho do escritor em transformar a vida. Lembro-me, com muito afecto, de ele me falar de livros e de cinema. Nas horas vagas de Lisboa, quando era novo, tocou piano a acompanhar cinema mudo para ganhar uns tostões. Falava da sua actriz preferida, a Barbara Stanwick.

 

É, em si, uma cena muito cinematográfica: o seu pai a acompanhar filmes mudos ao piano. Ocorre-me um dos filmes mudos mais belos de todos os tempos, «Sunrise», de Murnau. Como é que um filme, como este, pode ser tão explicitamente emocional sem ser piegas? Para as pessoas que têm pudor em abordar os afectos deve ser a grande questão: como fazê-lo?

Os afectos não são piegas. Adoro chorar no cinema, no teatro não consigo; só de raiva, quando é muito mau. Adoro o “Esplendor na Relva”. Nunca consegui ver o final, vejo uma espécie de nevoeiro à minha frente. É sobre o mesmo assunto do Ruy Belo, aqueles dois perceberam que o Verão tinha sido a única estação e que a perderam. Gosto mais de analisar do que empolgar.

 

Porquê?

Tenho muito medo de empolgar e gosto de ver como é que as pessoas se aproximam, se afastam, se encontram, de um certo ponto de vista, que Nietzsche dizia que era “a meia encosta”. A meia encosta é que é ponto de observação certo, nem alto demais porque é longe, nem perto demais porque se está misturado na turbulência. Lucrécio também fala do ponto certo para se ver o barco na tempestade. Se estamos no barco e na tempestade não vemos nada, se estamos na costa, muito refastelados, vemos o acontecimento. É isso também o teatro. Gosto de estar sentado num sítio e ver, à minha frente, digladiarem-se forças opostas, que não se vêm meter comigo. Tenho algum receio quando os actores se vêm meter comigo. Daí uma certa frieza. Embora, pense que é uma frieza muito cálida, que deixa um espaço para a ternura.

 

Quando é que conseguiu abandonar a posição do voyeur e diluir-se?

Nunca consegui. Nunca consegui dançar. Nunca consegui embebedar-me sequer, por muito álcool que beba. Existe um controlo racional que me deixa muito pouco entregar-me.

 

E a dança?

Não saber dançar é a mesma coisa; ou seja, não permitir que o ritmo venha de outro. Sou eu que imponho o ritmo, não admito que seja a dança ou a música a dizer qual é o ritmo.

 

Há uma cena de dança no «Agosto», filmada no Portinho da Arrábida, também num Verão, num cenário que convoca uma perdição. O que é que pediu às pessoas que dançavam?

Eu adoro ver dançar. Foi dos dias mais felizes de filmagem que tive. Adoro filmar bailes. É muito imponderável o que pode existir no baile: fogem-nos do enquadramento... A dança é um jogo sexual muito nítido, mas também muito social, contido, condicionado perante as aparências.

 

Se fosse capaz de dançar, dançaria com quem?

Dançava com toda a gente. Devia ser a coisa que mais gostava de fazer.

 

No que estou a pensar é no amor, evidentemente. Na força do amor, que pode ser redentora e que permite o afogamento.

Acho que nunca me aconteceu e que nunca pensei muito nisso. Pensei sempre em relações de trabalho e em relações de cumplicidade. Porque a minha família é de professores, pensei sempre no ensino. Por ter sido um estrangeirado desde sempre, por ter tido esta educação entre o germanófilo e o francês, senti sempre muita culpa. Quando vou a um café em Lisboa e o empregado me trata mal, sinto-me culpado. A culpa é minha, fui eu que não o eduquei suficientemente bem. Se é um francês que me trata mal, não sinto culpa nenhuma. Lisboa é o sítio da minha culpa. Onde os passeios estão sujos, do cocó dos cães, sinto-me sempre culpado.

 

Não militou civicamente o necessário?

Exactamente. Esse é o meu sentido de pátria. A minha pátria é a minha culpa. O O’Neill diz isso: “O remorso de Portugal é o remorso de todos nós”. Há na cultura portuguesa uma vocação didáctica permanente. Vem de todos os estrangeirados que vão lá fora e depois dizem como é que há-de ser: escrever versos, fazer teatro, fazer cinema, portar à mesa. Isto marcou-me sempre. Liguei a vida dos afectos com a vida do trabalho, e nela me resolvo, ou com a vida do ensino. Um dos momentos mais felizes da minha vida foi quando fui com o Manuel Mozos ou o Edgar Pêra, que foram os meus primeiros alunos da turma, a formações e passarem afectos entre nós os três. Este é para mim o sentido do amor. Tem a ver com não encontrar pessoas da minha idade com quem me dê e gostar de partilhar tudo o que sei.

 

Nunca se deu com os da sua idade?

Dei-me com os da minha idade, mas sempre fui professor. Devo ter sido muito chato. Comecei a escrever sobre cinema aos 15 anos, no Juvenil do Diário de Lisboa, e depois n’“O Tempo e o Modo”, aos 16. Os meus pais, a partir dos sete anos, perguntavam-me: “Qual é o filme que devemos ver este sábado à noite?”. E só se zangaram comigo uma vez, quando os mandei ver o «Quanto mais quente melhor”; não gostaram nada porque não gostavam de comédias, gostavam de filmes para chorar.

 

Não chegou nunca a ser uma criança convencional?

Ainda sou. Sou muito infantil em aspectos de não entrada num mundo adulto, na vida prática; sei mal ir a uma repartição de finanças, é muito confuso. Mas desde muito cedo pus-me a dizer como é que devia ser. Em Silva Porto, morava numa moradiazita e ao lado vivia o bispo. Eu dizia que queria ser bispo. Se calhar, era para mandar nos outros. Não queria ser padre nem sacristão. O senhor era muito simpático, cordial, mas a ideia de saber e poder dar ordens, entusiasmou-me.

 

Sendo que as duas estão ligadas. O conhecimento revela uma superioridade e pode confirmar uma ascendência sobre o outro.

Acho que foi isso que imaginei desde muito novinho. No Juvenil devo ter escrito um poema ou dois; acima de tudo, escrevia textos sobre cinema. Havia uma vocação didáctica e de intervenção no gosto. Era mais uma vocação ensaística do que a expressão dos meus sentimentos juvenis de amor ou não sei quê. Manias como outras quaisquer.

 

Sobre o que é que fala com a Glicínia?

Falamos de tudo.

 

Uma coisa são os afectos, resguardados pelas referências culturais, pela atitude prosélita. Mas, com uma amiga tão íntima, com quem fala todos os dias, fala de quê?

Fala-se de tudo. E com a Glicínia é um prazer, porque ela contraria sempre. Basta eu dizer: “Hoje está a chover”, e ela diz: “Não, estou a ver aqui nuvens a afastarem-se”. Uma das coisas que mais nos entusiasmam nos últimos tempos é aquilo de que está a falar. Eu tenho realmente um corpo salazarista, fui educado dentro do salazarismo. A minha sensualidade é espartana, muito austera. O republicanismo dos meus pais, o catolicismo dos Maristas também marcaram isso. Um dia estávamos a ensaiar, a Glicínia veio para o balcão e os rapazes estavam a fazer uma dança qualquer no palco. E ela diz-me: “Estes corpos não podiam existir quando eras novo”. Ou seja, a sensualidade viva, vital era uma coisa que não podia existir. E ela dizia muito assim: “Isto é que foi a grande conquista do 25 de Abril, estes corpos estão livres, não são corpos salazaristas”. E é verdade. O meu corpo não é um corpo livre. Nasci em 48, no apogeu do Estado Novo e da educação muitíssimo puritana. Nunca consegui ultrapassar esse puritanismo.

 

Com a culpa dos católicos?

Vivo com a culpa de, se calhar, ser esse o meu Verão. Se soubesse dançar, se soubesse cantar... Eu adorava ser como o Dean Martin e cantar canções italianas em americano!

 

Adorava ser o Dino, o estróina do «Kiss me, stupid» do Billy Wilder, que o Dean Martin interpreta!

Adorava. Provavelmente era esse o meu Verão. E olho para o mundo sempre com essa hipótese.


No fundo, o seu Verão era «E se eu fosse livre».

E se eu fosse livre. Se eu tivesse sido livre.

 

Quando é que teve a impressão de que já não tinha essa possibilidade?

Foi para aí aos 35 anos. Houve dois anos absolutamente atrozes na minha vida, passados aqui em casa. Tinha estado a trabalhar na Alemanha, depois fui para França, fiz cinco ou seis espectáculos em França. A certa altura não conseguia viver mais entre Lisboa, Paris, não ter casa, a idade a avançar... Eu queria estar num sítio e continuar alguma coisa. E vim para Lisboa. Estive dois anos e meio no mais completo desemprego. Nem um artigo para o jornal, ninguém me aceitava nada. Vivi do que os pais me tinham dado. Foi assim até 96.

 

Sentiu-se proscrito?

Senti que tinha chegado ao fim, que não tinha utilidade para nada. Estava aí sentado no sofá, via televisão, esperava pelo programa da Teresa Guilherme, às sete da tarde, adormecia depois do programa, esperava pelo dia seguinte.

 

Na depressão absoluta.

Na depressão... Mata.

 

Foi antes do «António, um rapaz de Lisboa».

Foi antes de fazer o «António». Foi o Manel Wiborg quem me ajudou imenso, com a sua juventude e vitalidade.

 

Como é que o encontrou?

Foi o João Pedro Rodrigues, que fez os castings para o filme “Coitado do Jorge”. Eu não queria estar nos castings, é uma situação de que não gosto; fico com imensa simpatia pela pessoa que lá está, escolho logo o primeiro que me aparece porque me encanta. Nesse dia ele veio excitadíssimo, “Encontrei um com nome estrangeiro que me parece muito engraçado”. Curiosamente, Wiborg, ascendência norueguesa, a família morava também aqui durante a minha infância. O Manel estava no Conservatório, a Joana [Bárcia] estava no Conservatório, encontrava-me com eles uma vez por semana, a inventar uma história que dava origem ao “António, um rapaz de Lisboa”. E senti-me tão obrigado a fazer isso...

 

A fazer exactamente o quê?

A fazer uma coisa para eles. E volta a necessidade didáctica. Senti-me tão responsável por estar a afundar-me numa depressão e não estar a fazer nada para que os melhores anos da vida do Manel e da Joana pudessem ser filmados ou trabalhados... Conseguimos que a Gulbenkian pagasse, (agora veja o meu valor), sete mil contos, para fazer o “António”, que era um espectáculo de 30 actores! Nessa altura, um espectáculo normal, de seis, sete actores, era orçamentado em 12 mil e 13 mil contos! Se não tivesse agarrado a ocasião e se o Manel, a Joana, a Lia [Gama] não tivessem estado comigo, estava completamente acabado. Foi daí que voltei a fazer e que consegui impor uma série de jovens actores e uma série de outros valores dentro da modernidade portuguesa. Fiquei muito contente.

 

Não soçobrou e arrancou-se à sua depressão bebendo da juventude deles.

Nisso sou um vampiro. Encontrava-os: “O que é que faço, que peça é que hei-de fazer?”, “Eu quero escrever uma história para ti”. Eram as conversas. Se não houvesse um outro a quem queria dedicar o meu trabalho, não tinha feito nada.

 

Era a consciência do “Eu já não vou a tempo, já não tenho aquela juventude”.

Era.

 

Se penso no Wiborg, na Joana Bárcia, no Miguel Borges a ideia que me ocorre é a de explosão. Eles podem estilhaçar-se e estão sempre na iminência de o fazer. São «borderline». No fundo, quis estilharçar-se também, com eles.

Sim, aprendi isso com o Brecht. O Brecht nunca fez nada sozinho na vida, nem sequer escreveu uma peça, que é uma coisa bastante íntima, que se costuma fazer à máquina, mas que ele fazia com as namoradas. O diálogo é tão estimulante que estar sozinho é uma perda de tempo. Perceber o que é a vontade de vida do Manel, da Joana, do Miguel, do Zé Airosa e conseguir dar-lhes matéria para prosseguirem a sua arte, encanta-me. Permitir-lhes a libertação e aconchegar-lhes espaços. Mas também é isso que me dá um enorme conforto.

 

Sabe que me parece que é a mãe deles todos, e não o pai. A sua atitude é a da mãe.

É possível. Herdo muito da minha mãe, que era divertida e que adorava ter a casa cheia de gente. E há uma coisa que, de certeza, herdei da minha mãe e que tem a ver com o teatro: ela adorava nos sábados em que não tinha nada que fazer responder aos anúncios de casas para alugar; e íamos passar o sábado todo, ela e eu, a ver as casas. Sem nenhuma intenção de alugar, só para ver como é que a nossa vida seria se a sala de jantar fosse ali, que mobília é que compraríamos.

 

Esse exercício é extraordinário!

Mas fiz imensas vezes, a certa altura já estava farto de fazer aquilo. Ao domingo, no passeio, com o meu pai, a minha irmã, era o assunto da conversa: “Encontrámos uma casa muito gira na João XXI, mas tem cortiça até ali, tínhamos que mudar o quarto...”. Foi tal e qual o que andei a fazer na Capital. [espaço no Bairro Alto, sede dos Artistas Unidos até ao despejo]. Era um prédio vazio, andei a pôr as mobílias, a decorar aquilo e foi um dos momentos felizes da minha vida. É isso que gosto no teatro e no cinema. Só filmei duas vezes em estúdio e detestei, porque está lá aquilo que quero. O que é engraçado é debater-me com o que não quero. Era isso que a minha mãe fazia, “Como é que seria o Verão se a minha vida tivesse sido nesta casa e não na Artilharia Um?”.

 

Nunca houve nesta casa os fantasmas da solidão?

Já, já. Sempre. Vivo quase sempre sozinho, mesmo desde pequenino. Filho de pais mais velhos do que seria normal, a minha mãe tinha quarenta e tal quando nasci. Sempre rodeado de miúdos, a minha mãe fomentava uma espécie de companhia e colonização permanentes. Mas sempre também não me ligando. O meu amigo mais antigo é o Miguel Lobo Antunes.

 

Essa dificuldade em ligar-se às pessoas, em diluir-se, radica nesse espaço de solidão? Em estar sempre com outros sem conseguir estar completamente com outros.

O que tenho procurado e não tenho conseguido encontrar é interlocutores com quem possa discutir. É muito fácil fazer rupturas comigo, é muito difícil haver antagonismo. Tenho encontrado maravilhosos colaboradores com quem tenho conseguido trabalhar, mas que se fartam porque estão apenas a obedecer. Ou que se sentem presos pela demasiada protecção que eu, mãe judia, lhes dou. Tenho encontrado muito poucos a quem digo: «Gostava que fosse assim», e com quem fico a discutir até às cinco da manhã que podia não ser assim.

 

Tirando a Glicínia.

Mas a Glicínia é um exercício de discussão sem responsabilidades, é a conversa diária da contradição. Agora, no trabalho, quer com o Luís Miguel, quando dirigimos a Cornucópia, quer agora com os Artistas Unidos, tenho poucos interlocutores. Há uma opressão que exerço e que leva as pessoas a afastarem-se de mim com muita violência. As rupturas comigo são muito violentas, há imensa gente que não me fala e me acha a pior das pessoas. Amparo demasiado e abafo, não dou a liberdade de existir.

 

Uma vida conjugal consigo, não no sentido mais estrito, mas no sentido de ser quotidiana, de açambarcar todos os aspectos...

É quase impossível. Já estou resignado que não irá acontecer. Mas aquilo a que aspiro... Vou buscar uma citação do Montaigne: “Se tivesse a certeza que havia alguém que estava perto, que me era próximo, de certeza que iria o mais longe possível para o encontrar, pois a doçura de uma companhia não tem preço. Ai de um amigo...”. Li no domingo passado e tocou-me forte. O amigo que eu quereria seria um contraditor activo. Aquela ideia de estarem duas pessoas a olhar para o mesmo ponto, terem opiniões diferentes do mesmo ponto, mas conseguirem agir em relação a esse ponto...

 

Permanecerem nesse lugar apesar da discordância, não o abandonarem...

Exactamente.

 

É a coincidência na discordância?

Não abandonarem nem se sentirem menorizadas ou superiorizadas. Isto tem a ver com os cowboys. A minha educação é também feita pelos westerns e pelo Howard Hawks. A diferença que há entre o Dean Martin e o John Wayne no «Rio Bravo»...; mas perante uma acção específica, (combater os maus), embora venham de mundos diferentes, os dois estão do mesmo lado.

 

O seu papel é o do John Wayne, que quer redimir o amigo bêbedo Dean Martin.

E o bêbedo não quer ser redimido, é esse o meu problema. Mas nos filmes ele queria ser redimido.

 

Posso voltar à sua irmã, que tinha mais 12 anos e uma enorme ascendência sobre si? O que procurava era estar à altura dela?

Ela pôs-me sempre. Puxou por mim para dar opiniões, para eu dizer...

 

Ela considerava a sua opinião? Com que intenção é que pedia a sua opinião? Era para puxar por si ou estava realmente interessada no que pudesse dizer?

Muito cedo, dez,12 anos, já era para saber a minha opinião, mesmo para coisas práticas, como a escolha de filmes. Nas outras era para puxar por mim, com certeza.


Insisto: qual é a intenção? Porque fazem isto por nós? Consideram-nos realmente ou fazem-no numa atitude vampiresca, procurando aí a sua redenção?

A atitude vampiresca procurando a redenção sou eu, de certeza.  


Amá-los-ia da mesma maneira se não estivessem à altura?

Com certeza.

 

Mas eles duvidariam disso.

Claro. Mas isto desde sempre, mesmo no Juvenil. “Porque é que este gajo gosta de mim, porque é que me dá confiança? É um grande sacana, está-se a aproveitar de mim”. Porquê, porquê, porquê, é um assunto que me segue sempre

 

Ensina, ensina, ensina. Mas com quem é que aprende?

Em livros. A hipótese que tive de conhecer muitas línguas, pessoas muito engraçadas, como o Jacques Tati...

 

Deu-se com o Jacques Tati?

Conheci o Tati por sorte e graças à PIDE. Fui preso em 68 e quando saí da cadeia, o meu pai abraçou-me fortemente, muito honrado e comovido por eu ter estado preso; e eles rapavam o cabelo. Vejo no Diário de Notícias que havia uma recepção ao Jacques Tati, que vinha estrear o «Play Time». Despeço-me rapidamente dos meus pais e vou para a embaixada francesa! Não sei porquê, deixam-me entrar, não tinha convite. Estavam lá todas as velhas glórias de Portugal e o Tati olhou para mim, viu um homem completamente careca e achou-me mais graça do que às múmias que lá estavam. Não deu entrevistas a mais ninguém, só a mim e à Maria Antónia Palla. Durante os quatro dias que esteve em Lisboa estive sempre com ele.

Então, aprende com Tati, com Pascal, com Montaigne, com todos os filmes e com todos os livros.

Com o Peter Stein. Com o Giorgio Strehler. Os meus professores extraordinários: o Mário Dionísio, o João Bénard da Costa, a minha irmã, o Fernando Belo, o Padre Manuel Antunes.

 

A sua irmã foi sua professora? Ai que situação tão constrangedora.

Quanto aos afectos: vivíamos aqui em casa os dois e não me diz que vai ser minha professora. Entro às oito e meia, num sítio completamente desconhecido, ela faz a chamada, aluno número um, número dois, número três, número dezasseis, sou eu, tive que me apresentar, chamo-me Jorge Silva Melo, venho dos Maristas, como se ela não me conhecesse. Os meus colegas só descobriram três ou quatro aulas depois que era a minha irmã.

 

Chegou a fazer-lhe algum teste?

Sim. Sei que foi o António Reis do PS que teve a melhor nota, eu e o Miguel Lobo Antunes tivemos a seguir.

 

Confesse que ficou furioso porque outro foi melhor.

Não, não.

 

Não confessa?

Não confesso.

 

Para que é que lhe serve saber?

Para amar. Para dar. Para planificar.

 

E à Glicínia, o que é que lhe ensina e o que é que aprende com ela?

Ensinar muito pouco. O que aprendo com ela é uma liberdade de pensamento única que é essa capacidade de contradição, de análise, de respeito pelo outro e de indignação.

 

E o lado mais corriqueiro? Goldoni, que tanto ama, proclamava no século XVIII: «Tudo pode ser teatro». O que põe no teatro é a vida corriqueira. Mas essa vida corriqueira, existe deveras na sua vida?

Esse lado corriqueiro é muito solitário. É mesmo meu, só. Adoro ir à rua, é um acontecimento e vou sozinho. Adoro passear, sentar-me em cafés.

Porque é que vive solitariamente esse lado corriqueiro?

Tenho muito pouco contacto com outras pessoas. Afundei-me no trabalho. Se calhar o Verão era a última estação, se calhar não me devia ter afundado no trabalho. Comecei a trabalhar muito novinho, com responsabilidades. Fiz a Faculdade de Letras, depois fui para Londres fazer a escola de cinema. Quando voltei trabalhei em traduções. Fundei a Cornucópia em 73.

 

Quando fundou a Cornucópia achava-se ainda no Verão?

Eu achava que o Verão estava a vir, que ia vir, que ainda vinha. Estávamos no fascismo, sentia que os ventos estavam a mudar, preferi voltar para Lisboa a continuar em Londres. O Luís Miguel fez o curso mais ou menos ao mesmo tempo, mas ficou lá mais tempo.

 

O Luís Miguel foi o que mais se aproximou do interlocutor que procurava? Do interlocutor que está à sua altura, que discute e permanece, apesar da diferença?

Sim. Também a minha irmã foi professora do Luís Miguel, ainda eu não conhecia o Luís. Era o meu rival. Porque a minha irmã dava-me sempre como exemplo o Luís. Chegava a casa e dizia: “Ah, o Luís é que fez uma redacção maravilhosa. Ele é que sabe inglês, ele é que não sei quê...”. Já não podia com o homem!

 

Em suma, quis ser melhor que o Luís.

Não...

 

Tinha um misto de admiração e respeito...

Um enorme respeito, uma enorme admiração. Mas comecei logo a dar-lhe aulas! A primeira relação que tive com o Luís Miguel foi pedir-lhe uma redacção sobre os «Chapéus de Chuva de Cherburgo».

 

Que era protagonizado pela Catherine Deneuve. Tinha paixão por ela?

Absolutamente. Mas isso tem a ver com a tal frieza em relação às emoções. Sempre a achei uma actriz fantástica, o ideal de Hitchcock, que para mim era o mestre máximo. Foi o encontro falhado: como é que o Hitchcock nunca filmou com a Deneuve, quando sempre sonhou com a Deneuve?

 

E então?

Já não havia tempo. Nos últimos filmes dele, ela já existe, mas era muito novinha.


Já agora, se me puder esclarecer como é que Hitchcock filma com a Doris Day, agradeço. A Doris Day!!!

A Doris Day é horrorosa. Mas o filme é lindo. Ele devia achar graça filmar com a banalidade. Tem a ver com o tal lado corriqueiro. A Doris Day é a piroseira inglesa, embora seja americana.

 

É uma dona de casa.

É uma dona de casa que afinal é perversa.

 

A Doris Day é para aqui chamada porque me interessa a sua atracção pela vulgaridade. Quando assiste à conversa trivial do café, da senhora que pede o queque, embrenha-se nisso para elaborar a partir daí? Pergunta-se se a senhora é perversa?, se o vai surpreender?

Não. Isso seria o Hitchcock. O [Harold] Pinter tentaria observar nesses gestos a perversidade. Eu acho que é mais o calor e a vontade de comunicação. Nunca mais me esqueço, meti essa frase no «António»: um dia ia a descer a Rua do Salitre, era um fim de tarde, havia uma velhota que estava à janela e que disse: “Ou vai chover..”, pausa, pausa, pausa, pausa, “ou então não sei.” Acho genial que uma pessoa abra a boca para dizer uma coisa que não é nada.

 

De que é que está sempre à espera? É de ser abraçado?

Absolutamente. Mais do que beijado, é ser abraçado de corpo inteiro, de fundir. Não é abraçar, é ser abraçado. Abraçar, abraço muito. Deve ser muito difícil abraçarem-me. Sei que espero, mas não acontece.

 

Porquê? Sente-se em perigo e foge?

Não sei dizer. Devo ser muito desagradável se alguém quer manifestar ternura.

 

Espreita algures, por aí, o puritanismo, o catolicismo?

O que é importante no catolicismo, que é a descoberta da responsabilidade perante o outro, não foi dado pelos meus pais. A ideia de amar o outro como a si próprio, a ideia de que há um próximo. Trabalho nas margens do catolicismo, trabalho na profissão mais odiada dentro do dogma católico, o teatro. Porquê?

 

Porquê?

Porque os corpos se metem uns nos outros, porque é demasiado próximo como matéria. Os padres da Igreja não queriam nem por nada que houvesse teatro, a Igreja proibiu o teatro.

 

Também porque é uma exposição a nu?

É uma exposição a nu e é uma exposição democrática. Os padres sempre gostaram de cinema. Há imensos prémios católicos de cinema, imensos cineclubes católicos. No cinema a luz vem do alto, como na igreja. No teatro estamos em comunidade, é uma comunicação política, da cidade, laica. Quando os padres na Igreja não gostavam daqueles arraiais que o teatro produzia não era só pelos maus costumes; era por esse sentido comunitário, sem Além. O teatro é terreno.


Viveu sempre mais ou menos arredado da força do dinheiro. Nunca teve o desejo de ganhar dinheiro?

Tenho uma péssima relação com dinheiro, não sei ganhá-lo. Tem a ver com uma infantilidade permanente. Como o meu pai tinha ganho algum dinheiro e me deixou numa posição relativamente confortável, nunca amadureci o suficiente. Continuo a viver à sombra dos meus pais. A casa foi comprada com o dinheiro deles. Se fui responsável, por exemplo, pela escolha do fim-de-semana de prazer dos meus pais, («Tu é que escolhes os filmes que vamos ver»), fui poupado, excessivamente, às coisas da vida prática. Havia empregada, não sei fazer a cama.

 

Se o reconhecimento do outro é uma ideia forte do catolicismo, a redenção não o é menos.

A redenção e o perdão. Nunca seria protestante, onde não há perdão! A ideia de ser perdoado por amor é inultrapassável. Arrepender, redimir, e isso ser a força criadora. Há no catolicismo um pensamento prático extraordinário, que é esse. Uma pessoa sente-se mal, fez uma data de coisas mal feitas, como é que há-de resolver? Sofrer sozinho como o protestante? Porquê? Dizer a outro: “olha, fiz mal”, já é o seu próprio perdão.

 

Gostava de ter uma morte católica?

Agora tenho pensado mais na morte, antes não pensava muito. Sempre disse que gostava de morrer devagarinho, precisamente por causa disso.

 

Para ter tempo para a reconciliação?

Sim, gostava de me preparar muito bem. Agora já não sei, já tenho mais medo da brutalidade da doença, da invalidez. Não gostaria..., mas também não tem qualquer importância..., não gostaria de morrer sozinho. Mas se morrer, também não me arrependo.

 

Esteve a vida toda a lutar contra o facto de estar sozinho. Esteve sempre rodeado de pessoas, mas sozinho.

Não gostava nada de ser como os elefantes que vão lá morrer escondidos. Não gostava que a morte fosse uma vergonha. A morte é um acto de vida.

 

Porque implica transição?

Implica transição, implica mudança.

 

Está a pensar na reencarnação, em vida depois da morte?

Não, não. Pertence à minha vida. Não é uma vergonha, não me vou esconder para essa parte mais frágil da minha vida.

 

Há sempre o exemplo muito tocante da Amália, que quando tem medo de morrer, vai para os Estados Unidos porque não quer que a pátria a encontre morta. Sobretudo morta de um modo despudorado.

É como os elefantes.

 

Depois, é maravilhoso que seja resgatada novamente para a vida pelos filmes do Fred Astaire.

Essa é genial!

 

No seu caso, também há um pudor em relação a esse momento?

Há. Ao mesmo tempo, a morte do Fernando Assis Pacheco na Livraria Buchholz... Uma pessoa que vai ao seu lugar de todos os dias e morre no seu prazer maior que é andar a ver livros... São as mortes mais teatrais a que não posso deixar de apreciar o lado público e sentimental.

 

O Luiz Pacheco, n’«O Libertino», pergunta-se como será a morte: síncope, loucura súbita... Quanto a si?

Morrer é devagarinho, como adormecer. Pensava sempre como uma lenta incapacitação, a pouco e pouco ir-me apagando. Pode ser que isso seja extremamente doloroso e extremamente doloroso para os outros. E como não tenho outros que me sejam próximos, imagino a complicação que não iria criar às poucas pessoas que ainda me aturarem por esses anos...

 

Já teve tantas estações, a sua vida em Paris, em Milão, em Berlim, a sua vida anterior à Cornucópia, os anos da Cornucópia, de 95 para cá, desde o «António», os Artistas Unidos...

É, mas ainda tenho medo de ter férias, por exemplo. Em Junho foram as férias de 90 por cento das pessoas da companhia e fui fazer uma peça só com três actores porque tenho medo. Sim senhor, podia ir de férias para o estrangeiro, mas não estou nada a ver-me sozinho a andar pela Grécia. Um mês? Para onde? Que chatice. Antes, ficaria excitadíssimo. Mas isto tem já a ver com um medo atroz de ficar sozinho. Sim, isto vincula-me à vida.

 

Já pensou matar-se?

Não.

 

Nem quando estava muito deprimido, na fase anterior aos Artistas Unidos?

Não. Aí só pensava em dormir, ver a Teresa Guilherme, dormir e esperar telefonema. Era a angústia. Com os Artistas Unidos e com o que precedeu os Artistas Unidos adquiri uma espécie de velocidade cruzeiro da felicidade. Por muito doloroso, dorido, combativo e às vezes insultuoso que tenha sido o meu percurso, sobretudo nestes últimos dois anos e meio, por muitas mentiras que me tenham feito, há uma espécie de “Eu não abdico de ser feliz”. Sei que tenho razão, e essa tranquilidade...

 

Chega a amargar?

Não. Então com A Capital, a ideia de amargura desaparece. Mesmo que me tratem mal, mesmo que não sei quê. Quando estive preso na PIDE, partiram-me a cabeça, meteram-me na carrinha ali na Almirante Reis, estava cheio de sangue e a primeira preocupação que tive foi encostar a cara ao vidro, para que as pessoas na rua vissem como eles tratavam. Há sempre um distanciamento em relação a mim ou à minha própria dor para testemunhar. Eu estava cheio de orgulho, estava como nos filmes, os filmes que mais amava. Sentia que o Rosselinni estava ali para me filmar e conseguia tratar os pides com desprezo. Eu tinha razão. É um sentimento de serenidade que nunca mais esquecerei.


E de orgulho.

De serenidade. Por mais miserável que estivesse, e estava em condições fisicamente também dolorosas, há uma dignidade que não é tocada. Naquela cadeia de Caxias, durante três semanas, contávamos anedotas nas celas e ríamos, ríamos. Isto é o que gosto nas pessoas: a capacidade de sobreviver.

 

E a vergonha?

A vergonha tem-se, e às vezes tenho muita vergonha. Vergonha de ser emocional.

 

O que suscita a vergonha?

Em certa despedida, o gesto que foi feito, e que não tem retorno. Ter sido fora do tom.   

 

 

Publicado originalmente no DNa, Diário de Notícias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra

27.03.18

“Qual é a qualidade que mais aprecio num actor? A generosidade. Consiste no gosto de se expor, correr riscos, estar aberto a outras pessoas. É precisar deixar que lhe aconteçam coisas. Quando partimos para a profissão com a intenção de ser admirados, não estamos abertos à surpresa, à curiosidade, à generosidade da profissão e da vida”. Luís Miguel Cintra não disse isto a propósito de Beatriz Batarda, mas poderia ser.

Os dois encontram-se em Setembro, na Cornucópia, na peça encenada por ele e protagonizada por ela: “Ifigénia na Táurida”, de Goethe.

Batarda entrega-se com generosidade. Cintra está disposto a correr riscos. Mais do que tudo, é um reencontro de dois cúmplices.   

 

Porque é que decidiu encenar “Ifigénia na Táurida”?

LMC - Por sugestão do Frederico Lourenço, que fez a recriação poética do texto. Em Goethe, sente-se um profundo repensar do que é o Ser humano, o que é a Liberdade, o que são as relações do Homens uns com os outros, os Valores. Isso faz do texto uma obra apaixonante.

 

Algures na peça pode ler-se: Ifigénia teve a ousadia de determinar o seu destino.

LMC – Era um papel ideal para a Beatriz. Há nela uma aparente fragilidade física que convém à Ifigénia, mas sobretudo um domínio das nuances da alma humana e da representação indispensáveis à personagem. Na peça, tudo assenta no que se passa na alma de cinco personagens, e sobretudo em Ifigénia. Não há grandes façanhas de encenação, cenografia, etc. É um espectáculo de câmara. A única ideia que eu tinha era: despojamento máximo, verdade total na relação com o texto, ausência de exposição [do actor].

 

Porque é que Ifigénia é desafiante para si?

BB – Certas personagens aparecem na minha vida na altura certa. O que me tem permitido fazer uma viagem de descoberta e crescimento, que não acabou ainda. Aconteceram muitas coisas no último ano na minha relação com a profissão. Aconteceu ao nível da técnica, do exorcizar do meu narcisismo. Cheguei a um momento em que aceito as minhas fragilidades. É bom que a técnica seja dominada, mas ela é apenas um instrumento.

 

A ideia é: dominar a técnica para a seguir a esquecer?

BB - Dominar a técnica torna-se o objecto da nossa obsessão e do nosso esforço. Fica uma coisa muito cerebral, fechada sobre o domínio do texto, da interpretação, da relação com o público. Tem um efeito contrário: contribui para a minha desumanização. Porque o público não se reconhece, não reconhece a sua própria humanidade. Faz comentários à habilidade da actriz, ao fogo-de-artifício, mas não sente nada. Quando percebi que isso me estava a acontecer fiquei triste, porque não é essa a minha viagem.

 

Pode explicar essa constatação, esse processo?

BB – Começou com “O Construtor Solness”, depois “De Homem para Homem”, e finalmente com “A Menina Júlia”. Houve um mergulho que foi um equívoco. Quando surge uma peça cujo tema é: quem é que domina?, os deuses, o destino, nós próprios?, a quem cabe a decisão?…, isso tem um efeito redentor na minha relação com a representação. Como sacerdotisa de Diana [na peça de Goethe], tenho de entrar em contacto com a minha humildade, e assim descobrir a minha humanidade.   

 

Quando é que começa a vossa relação?

LMC – A Beatriz esteve na Cornucópia há muitos anos. Eu funcionava como um protector. Sentia uma diferença de idades muito grande; era como se estivesse a tomar conta dela. Depois, foi-se embora, estudar, fazer outras coisas. O “Solness” marcou o regresso, e senti o prazer de contracenar com uma pessoa agora adulta. Estávamos em situação de igualdade. Há uma evolução da minha relação com ela através do trabalho, dos nossos encontros no trabalho.

 

Quando é que o Luís Miguel deixou de ser “a referência” para passar a ser um igual? Costuma dizer que ele é o culpado disto tudo…

BB – O Luís Miguel há-de ser sempre o culpado… [risos] Continua a ser o mesmo para mim. O nosso percurso tem sido uma permanente confirmação. No nosso primeiro encontro eu era muito jovem, tinha 17 anos. Fiz de filha dele, várias vezes seguidas. Numa altura em que também perdi o meu padrasto. Essas coisas todas misturam-se…

 

Ele apareceu como um pai putativo? Artístico.

BB – Sim, um pai da idade adulta. Que não tem a ver com o sangue e a raiz, mas com aquilo que escolhemos. Tem a ver com reconhecimento, identificação, admiração. Com o que poderia ser um percurso para mim. É verdade que em todas as escolhas que fiz, e que faço, profissionalmente, penso no que me faz sentido a mim, mas penso sempre no que o Luís Miguel diria. Apesar de não ter trabalhado cá durante dez anos, a relação não se quebrou. O “Solness” foi muito importante porque o Luís Miguel permitiu-me que eu fosse adulta. [LMC ri]. Só me foi possível contracenar com ele – e só Deus sabe as dores que tive no meu diafragma – porque o Luís Miguel me deu essa autorização.

 

É uma maneira de ele lhe dizer que tem confiança em si?

BB – É uma maneira de dizer: reconheço-te.

LMC – Há muitas coisas que facilitam o nosso entendimento. Há referências culturais e um passado comuns, há amizades de família.

BB – A nossa relação é uma escolha.

 

Como é que tudo começou?

LMC – Conheci a Beatriz como filha do Eduardo Batarda e da Tchou. Reencontrei-a num filme do Manoel de Oliveira. No “Vale Abraão”, superficialmente. N’“A Caixa”, todos os dias. E disse: “Mas esta menina é uma actriz!, tenho a certeza”. Pelo prazer da contracena. Foi daí que saltou o convite para integrar a companhia [Cornucópia]. Além de que era linda!, e continua a ser. A primeira coisa que fez connosco foi o “Conto de Inverno”; toda a gente dizia que era muito bonita mas que nunca poderia ser actriz porque não tinha voz nem presença! Ela deu-me o prazer de os dois nos podermos vingar dessas pessoas. Houve ali uma teimosia…, eu sabia que tinha razão.

 

Que coisa foi essa que reconheceu na Beatriz, além do prazer na contracena? O que respondia aos outros quando lhe diziam que ela não poderia ser actriz?

LMC – Dizia: “Pode, pode, isso não tem importância nenhuma. A voz está pouco desenvolvida, tem falta de segurança. Mas o principal para se reconhecer um actor não é isso. Não são as habilitações técnicas. Isso conquista-se. O principal está no fundo da pessoa.

BB – Tem a ver com a alma.

LMC – O principal é esse prazer de jogar com os outros, provocar, receber resposta. É arranjar maneiras de continuar a fazer o que as crianças fazem – brincar umas com as outras. 

 

Não por acaso, em inglês, brincar, jogar e representar dizem-se da mesma maneira: play.

BB – Hoje em dia dou aulas [na Act] e confronto-me diariamente com isso: como é que se reconhece um potencial actor? A questão do talento pode ser um enorme equívoco. O que parece ser um talento nato, à vontade com o seu corpo, expansivo, não ter timidez a projectar a voz…, isso não faz um actor. Acontece-me ver miúdos reservados, tímidos, mas densos como seres humanos. Intuitivamente chamam-me mais a atenção esses alunos. 

 

Quando foi estudar para Londres, mais do que tudo, teve consciência de si própria, das suas ferramentas, potencialidades?

BB – Sei lá!, aconteceu tanta coisa. Só a experiência de cortar com os nossos laços, os fantasmas, o ser obrigada a sair do casulo burguês para ser confrontada com o mundo, esse embate levanta tantas questões sobre a nossa identidade... Tive medo. Pensei em voltar – como toda a gente. Só que obriguei-me a assumir a escolha que tinha feito. Estar ali tinha sido uma escolha.

 

Os vossos processos de trabalho são semelhantes?

LMC – Eu não consigo representar enquanto não tiver a certeza absoluta do que lá está escrito, depois de todas as dúvidas estarem solucionadas. Desespero os colegas, estou até à última sem saber o texto bem. É como se precisasse de muito tempo para pensar. A Beatriz precisa de um compromisso emotivo imediato. E depois pensa sobre ele. Pouco depois de sairmos da mesa [de leitura], eu vi a cara da Ifigénia! – não era a cara da Beatriz. Depois trabalha, trabalha, mas o compromisso está lá. Significa também que se atira de cabeça, sem defesas!

BB – Pareço uma maluquinha! [risos] Funciono por camadas. Como um óleo que vamos pintando. Para chegar ao efeito do despojamento. 

 

 

Publicado originalmente na Revista Máxima em 2009