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Anabela Mota Ribeiro

Foi muito bonita a festa, pá!

24.04.18

1.

Salgueiro Maia exigiu ser sepultado em campa rasa e sem honras de Estado. Maia comandou a coluna de tanques que saiu de Santarém e que teve a delicadeza, o civismo, o sonho de parar num semáforo antes de derrubar a mais longa ditadura da Europa. Primeira imagem do 25 de Abril: a cara de menino de Salgueiro Maia. Primeiro gesto da dimensão do irreal: respeitar o vermelho, olhos postos no verde, numa noite ainda escura.

Poderia Salgueiro Maia adivinhar que passados 22 anos sobre a sua morte, e rentes aos 40 anos desse dia inaugural, falaríamos da trasladação dos seus restos mortais para o Panteão? Porque foi tão explícita e veemente a decisão no seu testamento? Campa rasa e sem honras de Estado. Como quem quer deixar o Estado de fora disto. Ele que comandou no terreno uma operação genial para mudar o Estado e torná-lo, de novo, parte disto. E, sobretudo, a campa rasa, sem os arrebiques e salamaleques que também acompanham a morte, algumas mortes.

Uma campa de pessoa do povo. Maia tinha orgulho em ser povo. Foi por ele, povo, que disse as famosas palavras: “Como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos.”

Correram os anos. Maia recusou cargos e honrarias, o Estado recusou pensão à sua família. Estudou Ciências Políticas. Desiludiu-se com o outro estado a que chegámos, depois de tudo se ter levantado de uma folha branca, e ainda tão longe deste estado a que chegámos.

Mas os estados não podem senão mudar, e levar-nos na enxurrada da desilusão.

Não é crível que tenha lamentado por um momento os passos daquele dia longo em que era capitão. Nas fotografias parece um rapaz de uma sensatez de aço, elegante como um cavaleiro.

Maia é o povo, o povo que está no coração da História e que é herói. Qual é o lugar dos heróis? E qual é a sua, a nossa, a definição de herói?

Agora o povo está zangado. Com o péssimo que isto está, com o que fica por punir, com o que apanha no ar e não consta nas estatísticas. Zangado e com uma granada no lugar do peito que se chama injustiça. Qual foi o estado a que chegámos? Foi mesmo bonita a festa, pá?*

 

* Foi Bonita a Festa, Pá – de Tanto Mar, tema composto por Chico Buarque para a revolução dos cravos (primeira versão em 1975, segunda em 78).

 

2.

Vejamos as fotografias. A euforia que faz levitar é a do primeiro de Maio, dissipadas as dúvidas. Numa semana, o mundo parecia edificado em certezas.

Uma semana. O tempo que mediou o noivado e o casamento. Todos assistiram à festa. Uma gaivota voava, voava. Um milhão de pessoas na Alameda. Só não estavam os fascistas. Também já tinha diminuído drasticamente o número de fascistas. Porque no dia seguinte todos tinham sido opositores a Salazar, todos tinham sido perseguidos ou presos. A efabulação (de que Adelino Gomes fala numa entrevista com Alfredo Cunha ao PÚBLICO) tinha começado e era transversal. A memória colectiva, inevitavelmente reconstruída, tinha incorporado distorções, inexactidões. Mas eram boas memórias. E aquilo foi uma festa.

Agora lemos o que dizem Os Rapazes dos Tanques sobre o que está pior, e lemos sobre o abismo entre a classe política e o povo. A classe política dos últimos vinte anos. Lemos sobre “a cambada que nos está a dirigir”, “o descrédito da classe política”, “os governos que deram cabo disto, e o caraças”, a “a classe política mais ordinária da Europa”, “uma classe política sem nível e sem sentido de Estado”. Não só isto, mas constantemente isto. Não só isto porque, apesar disto, isto é melhor do que o que havia. Globalmente de acordo em relação a isto. Comprova-o uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais (ICS). 58% dos inquiridos consideram o 25 de Abril mais positivo do que negativo. Da esquerda à direita.

Diz o então cabo apontador Vítor Ribeiro Costa no livro de Adelino Gomes e Alfredo Cunha: “O 25 de Abril não trouxe nada de pior. Para a maioria das pessoas, o pior que temos hoje é melhor do que tivemos com Salazar e Marcelo”.

Quando é que começou a aparecer o ponto de interrogação e, repetindo os versos de Chico Buarque, se procurou o restinho de alecrim, a semente esquecida nalgum canto do jardim?

 

3. 

- Quando é que o senhor começou a trabalhar?

- Aos 12 anos.

- Os seus filhos, quando é que começaram a trabalhar?

- Depois da faculdade, fez tudo a faculdade.

- E diz que antigamente é que era melhor?

Irene Flunser Pimentel (1950) travou esta conversa com um taxista, recentemente, em Lisboa. O discurso saudosista do antigamente é uma praga com que a historiadora (de esquerda) lida amiúde. “É verdade que hoje podem ir para a faculdade e ficar desempregados ou ter que emigrar. Mas é outra situação.”

Quão outra situação? Números. Em 1974, estavam inscritos no ensino superior 50 mil alunos, 7% daqueles que estavam em idade de o fazer. Tem-se noção da explosão quando comparamos com os dados de 94. Número de inscritos: 270 mil, 30% dos que tinham entre 18 e 22 anos. (Fonte: A Situação Social em Portugal, 1960-95, organização de António Barreto) Em 2000, eram 350 mil inscritos, 53% dos que tinham entre 18 e 22 anos.

Há um cifra que diz respeito à totalidade da população e que esmaga. Em 1981, quase metade da população com mais de 30 anos não tinha a quarta classe, e 28% não sabiam ler nem escrever. Já a revolução tinha sido e o caminho começado. E no bilhete de identidade carimbava-se “não sabe assinar”. E atestava-se que aquela pessoa era aquela pessoa pela impressão digital. Quase sempre um dedo grosso, pesado. Mão de quem trabalha. Do povo.

Não é novidade para ninguém quem é que ia à escola, quem é que prosseguia a escola, quem é que chegava à universidade. E por isso o 25 de Abril representa a ruptura com o “fatal como o destino”, permite “sair da cepa torta”.

Maria de Lurdes Rodrigues (1956), ex-ministra da Educação (2005/2009) e autora e coordenadora, entre outros títulos, de Políticas Públicas em Portugal (2012, com Pedro Adão e Silva): “O insucesso escolar, como conceito, não existia. A confirmação do acesso à escola como um direito de todos propicia a ascensão social. Numa sociedade estratificada como a portuguesa, onde as pessoas terminavam no ponto onde tinham começado, o conhecimento começou a contar como factor de mobilidade social.”

O taxista que transportava Irene Flunser Pimental falava com orgulho e zanga. Orgulho no esforço que fez para que os seus filhos conseguissem. Orgulho no que os filhos conseguiram. Talvez tenha esquecido o que o Estado fez para que os filhos tenham conseguido.

A educação, o acesso universal à educação, faz parte daquilo a que Tony Judt chamou a “banalidade do bem”, explica Irene Flunser Pimentel. A expressão de Judt é uma forma não poética, mas concreta de falar do Estado Social, conquista da Europa que se ergueu sobre as ruínas da Segunda Guerra e que em Portugal se cimentou no pós-revolução.

O Estado Social é a jóia que ninguém quer empenhar, quanto mais perder. É o anel que resta quando, a alguns, não resta a certeza de haver dedo. E é o anel que os mais jovens se habituaram a ter como uma espécie de sexto dedo.

Houve mesmo um tempo em que os nossos pais, os nossos avós não iam à escola ou começavam a trabalhar depois da quarta classe, a alombar madeira, pedra, por meia dúzia de escudos? Isto com dez, 14 anos. Parece um tempo tão longínquo como o tempo dos reis de Portugal.

O cientista político Pedro Magalhães (1970) contou aos filhos que o seu pai fazia cinco quilómetros a pé, todos os dias, para ir à escola. No profundo Trás-os-Montes. Cinco quilómetros, sob o sol, a chuva, o frio que se entranha nos ossos. “A sério?, mesmo com neve?” Miúdos incrédulos. Zero de atitude prosélita, zero do sermão “e têm muita sorte por não terem as mesmas dificuldades”. Foi só uma história espantosa para um coração esperançado (como deve ser o das crianças de dez anos). Em duas gerações, andou-se isto.

O Estado Social é o que podemos apontar quando nos perguntamos pelo que correu bem. Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio defenderam-no numa conferência na Gulbenkian sobre os 40 anos do 25 de Abril. No mesmo dia, na celebração organizada pelo Expresso, SIC e ICS, uma sondagem indicava que o povo – o povo-Salgueiro Maia que percebe muito bem o estado a que vamos chegando – considera que estamos melhor na assistência médica, na educação (70%) e na segurança social (46%). Melhor agora do que no antigo regime.

“A educação e a saúde foram as grandes conquistas da democracia. Não tem grande importância que o Estado Social esteja falido. Está em toda a parte”, afirma André Gonçalves Pereira (1936), advogado e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros (1981/83). “É melhor ter um Estado Social falido do que não ter Estado Social nenhum, obviamente”.

O programa estava no essencial escrito numa canção de Sérgio Godinho de 1972. “A paz, o pão, educação, saúde, habitação”. Arranque a seco, grito no refrão: “Só há liberdade a sério quando houver...”. O programa estava no texto (1942) de William Beveridge que serviu de matriz à criação do Estado Social na Europa. O economista apontou os núcleos: ensino, protecção na doença, protecção na velhice, protecção no desemprego e habitação.

Com isto fazia-se O Portugal Futuro do poema de Ruy Belo “aonde o puro pássaro é possível/ e sobre o leito negro do asfalto da estrada/as profundas crianças desenharão a giz (...) Mas desenhem elas o que desenharem/ é essa a forma do meu país/ e chamem elas o que lhe chamarem/ Portugal será e lá serei feliz”.

O poema de 1972 de Ruy Belo desenha uma ideia de felicidade, adivinha a cara que as pessoas vão ter em Abril de 74, a confiança ilimitada no futuro, o sorriso. Está tudo nas fotografias daquele tempo. Era uma vez um país.

 

4.

Toca a fazer. A partir daquele “dia inicial inteiro e limpo/onde emergimos da noite e do silêncio”, versos-síntese de Sophia de Mello Breyner, toca a fazer. Até porque “Quem não faz, não vive, apenas dura”, disse outro português (Padre António Vieira).

E outro disse “Quanto faças, supremamente faz” (Fernando Pessoa). Toca a fazer. Supremamente. Mas como se faz um país livre?, como se concretizam projectos díspares, contraditórios, o meu 25 de Abril e o teu 25 de Abril? Os caminhos do fazer dividem-nos.

Entretanto os soldados regressaram a casa. Não foi “nem mais um só soldado para as colónias” (frase do MRPP). Foi (acima de tudo) para acabar com esse estado de coisas – a guerra – que se fez esta revolução. O meu pai regressou a casa, o que não interessa senão para a minha história e a da minha família. Muitos pais regressaram a casa, o que interessa para as histórias de muitas famílias. O meu pai, que não tinha estado quando comecei a andar ou a falar, regressava. Os nossos pais, os da geração a que pertenço, nascida na década de 70, regressaram dos cus de judas marcados pela guerra. Muitos mais não chegaram a ir. No dia 25 de Abril acabou-se com a ditadura, acabou-se com a guerra. No dia 1 de Maio não se combatia. O meu pai contou-me que a 10 de Junho fizeram uma festa na messe em Angola, cantaram canções de Zeca Afonso. Regressou daí a cinco dias.

Entretanto os políticos e o povo gizaram no asfalto as grandes linhas do puro pássaro, respondendo ao momento.

 

5.

- Quais foram os momentos fracturantes destes 40 anos de democracia?

- As nacionalizações de 11 de Março de 75, as eleições para a Constituinte no dia 25 de Abril de 75, a chegada de meio milhão de retornados entre Abril e Novembro de 75, o 25 de Novembro de 75, a Constituição de 2 de Abril de 76, a revisão do Código Civil em 77, a extinção do Conselho da Revolução em 1982, a abertura do mercado bancário à iniciativa privada em 84, a entrada na CEE em 86, as privatizações a partir de 90, o Euro em circulação a 1 de Janeiro de 2002, a crise mundial de 2008.

As grandes fracturas que não têm data de ratificação: a criação do Estado Social, o desenvolvimento do país, o estatuto da mulher, a eclosão da classe média que solidifica a democracia.

A primeira de todas: o 25 de Abril, que permitiu liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres, direitos e garantias consagrados. Falar sem ter medo. Falar sem procurar escutas debaixo da mesa. Andar na rua sem procurar a sombra que vigia e delata. Poder espichar numa parede O Povo Unido Jamais Será Vencido. Ter voto na matéria, qualquer matéria.

Acreditar.

 

6.

As nacionalizações, pela historiadora (de direita, então feroz esquerdista) Maria de Fátima Bonifácio (1948). “Foi uma devastação da nossa economia. Custaram anos de atraso ao país. Não foi só a banca, e a banca foi um disparate. Nacionalizaram-se vãos de escada. Era jornalista. Cheguei a fazer a cobertura de uma tinturaria que tinha sido nacionalizada. A ideia de que no Alentejo se nacionalizaram grandes herdades abandonadas é falsa. Estabeleceu-se um método de calcular o valor das herdades através de uma pontuação que valorizava tudo o que era regadio, maquinaria, gado; e foram essas explorações, que estavam a ser bem exploradas, que foram nacionalizadas. O que não se nacionalizou foi o que estava ao abandono.”

Do outro lado: a terra a quem a trabalha, as fábricas a quem lá produz. Vamos corrigir o sofrimento e a injustiça. Socialismo aqui e já.

 

7.

As eleições, um ano depois da revolução. O cumprimento do D de Democracia. Filas intermináveis para votar. Afluência às urnas de 90%. Irene Flunser Pimentel: “É admirável que pessoas que estiveram tantos anos afastadas da política, debaixo de um regime ditatorial, votem em massa de forma entusiástica e organizada. Traduz uma aprendizagem da política muito repentina”.

Homens e mulheres. Agora também mulheres, quaisquer mulheres, e não apenas chefes de família e licenciadas. A emancipação começava. Mas do movimento tectónico que o 25 de Abril representou na vida da mulher fala-se mais à frente.

 

8.

“Então a metrópole afinal é isto” – escreveu Dulce Maria Cardoso no livro O Retorno.

Entre Abril e Novembro de 1975 chegaram 400 mil “retornados”, “a falar das coisas de lá, a minha casa isto a minha casa aquilo, deixei lá isto e aquilo, os tiros isto os morteiros aquilo”.

A grande equação desse tempo e do tempo futuro: e agora? Como se refaz a vida, como se lida com a perda? Uma mão à frente e outra atrás.

Descolonizar, o outro D, por André Gonçalves Pereira: “Muitas pessoas consideram que a descolonização foi o que correu pior. Não concordo inteiramente. A descolonização correu mal como não podia deixar de correr. Foi a descolonização possível, que começou com 15 anos de atraso”.

Quinze anos antes, a guerra.

Para muitos não era um retorno uma vez que nunca aqui, na metrópole, haviam estado. Era em todo o caso um exercício hercúleo para milhares de “desterrados”. É assim que Dulce Maria Cardoso lhes chama, é a eles que dedica o livro. “Três malas e vinte contos é tudo o que temos até resolvermos a vida. Resolver a vida é o que mais se ouve entre os retornados”.

Rui Pena Pires (1955), especialista em movimentos migratórios, chegou de Angola em Setembro de 75. Olha para o fenómeno com olhos de sociólogo. “Os retornados voltam ao seu ponto de origem, espalham-se pelo país. É o contrário do que acontece em França, com os pied noir a concentrarem-se em Marselha. A dispersão transforma o fenómeno num fenómeno nacional. Os retornados são em média mais qualificados, empreendedores. Houve um período em que um terço dos patrões (de indústria, comércio e serviços) em Trás-os-Montes eram retornados. Trazem diversidade religiosa (aparecem os primeiros grupos de muçulmanos). Quebram o grau de homogeneidade que havia (chegam mestiços). Constituem uma população maioritariamente de direita, furiosa com a descolonização. Mário Soares centraliza ódios.”

Ah, e os retornados aprenderam o que são frieiras e cieiro, lê-se em O Retorno. Trouxeram mini-saias, roupa descapotável, a liberalização dos costumes, a ideia de uma vida livre, com espaço a perder de vista, que tinham nas colónias. Uma certa forma de calor.

Integraram-se sem rupturas e convulsões sociais. Um êxito, também do novo poder local.

 

9.

O golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro por Henrique Granadeiro (1943). “Foi o realinhar das coisas em conformidade com o projecto inicial. Havia um desvio que defraudava a generalidade das pessoas, que não queriam substituir uma ditadura por outra. A tentativa de implementação de uma sociedade socialista já tinha aspectos evidentes. Cartilhas, saneamento, violência.”

O que houve entre 25 de Abril de 74 e 25 de Novembro de 75? Num ano e meio fez-se a revolução, começou um novo calendário, e com ele a corrupção do sonho. As dificuldades típicas do momento em que a minha liberdade começa a ocupar o espaço da tua. As dificuldades típicas do momento em que a revolução é minha e faço com ela o que eu acho que deve ser feito. Eu e o meu grupo político. E toda a gente tinha um grupo político.

Ramalho Eanes foi o responsável pelo plano de operações do golpe, não deu espaço às pressões dos radicais. Rematou-se um Verão Quente. O PC saiu derrotado. Ideologicamente foi um marco.

Henrique Granadeiro foi chefe da Casa Civil de Eanes entre 1976/79. O seu discurso é o dos vencedores do 25 de Novembro.

O historiador Pacheco Pereira, que organizou na Assembleia da República uma exposição que comemora os 40 anos da democracia, considera que foi nesse período que nasceu a democracia. “Quem pena com os excessos do PREC é quem não gostou do 25 de Abril. O PREC teve excessos e houve mortos e gente que mandou matar, mas a verdade é que foi naqueles anos turbulentos que nasceu a democracia portuguesa”, disse numa entrevista recente ao jornal i.

 

10. 

Constituição de 76. “É o primeiro instrumento organizador do que vamos ser”, sintetiza Maria Manuel Leitão Marques (1952), professora universitária e ex-Secretária de Estado da Modernização Administrativa (2007/11). “Tudo o resto é afinado a partir daí. Há coisas que são muito alteradas nas revisões constitucionais, mais na organização do poder político (sobretudo em 82) e da economia (em 89), menos nos direitos e deveres fundamentais.”

No princípio, nessa magna carta, estava escrito que devíamos caminhar para o socialismo. Que socialismo? Que caminhos? A questão não é despicienda, porque mexe com um entendimento do que a democracia deve ser. E porque, sustenta Pedro Magalhães, “a maioria das pessoas tende a associar – e intensamente – liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres a justiça social, segurança e prosperidade económica.”

Esta era a promessa, reflectida na Constituição de 76.

Um equívoco, considera Maria de Fátima Bonifácio. “As pessoas habituaram-se a usar democracia e bem estar económico como sinónimos. No meu ponto de vista, democracia [corresponde] a liberdades, direitos, a um Estado de Direito, ao Serviço Nacional de Saúde (que é uma aquisição civilizacional, mesmo que não faça sentido eu pagar o mesmo que a minha empregada por uma radiografia). Mas a democracia não são os ténis da Nike. A democracia pode ser mais redistributiva ou menos, conforme o Governo for mais social democrata, menos social democrata. Em si mesma, não promove o crescimento e o desenvolvimento económico. A prova é que a Europa está em recessão há anos e promete continuar a arrastar os pés.”

Esta associação entre prosperidade, bem estar e liberdades cívicas não é exclusiva de Portugal. “É característica de democracias mais pobres e de democracias mais recentes” especifica Pedro Magalhães. “Os EUA, a Suécia, a Noruega dizem que democracia corresponde a liberdade de expressão, liberdade de associação, eleições livres”.

Esta é uma das pistas para compreender a nossa zanga com a democracia. “As pessoas sentem que ainda não receberam dela o que estava prometido”, diz o cientista político. “As democracias nórdicas, que queremos ser há 40 anos, têm menos corrupção, melhor governo, são menos desiguais, têm nível de vida médio mais elevado. Têm o pacote completo.”

O pacote completo que o povo também quer. Não foi (também) para isso que se fez uma revolução, pá? Portanto porque é que não o temos, grita o povo. “Porque 40 anos é pouco tempo”, conclui Pedro Magalhães.

 

11.

A Revisão do Código Civil em 77 consagra a igualdade constitucional entre homem e mulher em toda a vida familiar.

Era o momento das mulheres. “Os homens ganharam liberdade política. As mulheres ganharam tudo. Ainda me lembro que a minha mãe tinha que pedir autorização ao meu pai quando queria passar férias comigo, em Berkeley. Ou quando quis comprar um carro. A minha mãe era uma alemã que cresceu nos anos 20, em Berlim. Imagine.” Alexandre Quintanilha (1945), cientista. Os pais viviam em Moçambique. Lá como cá, o homem tinha o direito de ver a correspondência da mulher. Um contraste absoluto com o ambiente da baía de São Francisco, onde Quintanilha trabalhava e vivia.

Veio a Portugal em 1979 com o então namorado hoje marido Richard Zimler.

Entretanto a célula da família mudou tanto que é possível escrever banalmente “o então namorado hoje marido”. Como se o casamento homossexual não fosse um tema fracturante (expressão que não se usava e agora se usa).

Entretanto também o sexo deixou de ser um tema fracturante. “Já não passa pela cabeça de ninguém criticar uma mulher por ter tido relações sexuais antes do casamento. Há uns anos, se a mulher não fosse virgem, tinha um nome”, nota Quintanilha.

O casal mudou-se para Portugal em 1990. Casaram em 2010 poucos meses depois da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas quando vieram juntos pela primeira vez encontraram um país “medieval”.

Não havia jornais estrangeiros, levava-se um dia para chegar a um lugar mais recôndito, esperava-se meses – ou anos – que instalassem o telefone em casa. E ficava-se à mercê das pessoas que se conhecia e que podiam aligeirar o processo. “Eu telefono ao senhor não sei quantos e ele trata disso – diziam-me. Ou éramos ignorados porque ninguém nos conhecia ou éramos tratados como príncipes porque trazíamos recomendação.”

Diagnóstico: arbitrariedade e ineficiência do sistema. Palavra de todos os dias: meter uma cunha. Cunha em modo soft.

Mais à frente, quando o dinheiro começou a ser a sério, meteram-se cunhas a sério. Algumas eram tão a sério que passaram a chamar-se corrupção. Mas isso é mais à frente.

As mulheres, para já. Uma das primeiras manifestações, logo depois do 25 de Abril, teve que ver com a proibição do divórcio dos que eram casados pela igreja – a esmagadora maioria.

Irene Flunser Pimentel: “Fez-se um comício. Pela primeira vez uma mulher foi oradora principal. A questão do divórcio tocou homens e mulheres. Muitos deles tinham amantes, filhos ilegítimos”.

Porque é que isso constituía um drama? Porque homens e mulheres separavam-se e continuavam casados com os antigos maridos e mulheres; porque viviam com outros e continuavam casados com os anteriores; porque tinham filhos das novas relações e não os podiam perfilhar. Numa linha: não era possível dissolver uma família e constituir outra.

Em 1975, o ministro da Justiça Salgado Zenha reviu a Concordata com a Santa Sé. Passou a ser possível o divórcio entre casados pela igreja.

Número de divórcios em 1965: 600. Em 1975, há 1500. Em 1977, há 7700.

A completa igualdade entre filhos e entre homem e mulher, que resulta da Constituição de 76, é incorporada no Código Civil de 77.

 

12.

A extinção do Conselho da Revolução em 82 e a criação do Tribunal Constitucional. Henrique Granadeiro: “Do ponto de vista simbólico, é um grande momento. Do ponto de vista prático, nem tanto. O general Eanes era presidente da República e chefe do Estado Maior das Forças Armadas, era o vértice do encontro do poder militar com o poder civil. Foi enviando a tropa para os quartéis e valorizando a política nas instituições. A extinção do Conselho da Revolução foi a morte natural de um processo que veio a ser conduzido por ele desde o primeiro momento, de forma discreta e sistemática.”

 

13.

Um não momento: o bloco central liderado por Mário Soares e Mota Pinto pede ajuda ao FMI em 83. Os portugueses habituam-se a ver Teresa Ter-Minassian na televisão. José Mário Branco compõe o disco FMI.

Um não momento porque somos essencialmente os mesmos depois dessa passagem ou da passagem de 77. Ao contrário do que acontece com a presença da Troika desde Abril de 2011.

Então tínhamos moeda própria, inflação e desvalorização. E a Europa era um oásis próximo. José Medeiros Ferreira, sonhador da pertença à Europa e ao mundo, havia feito o pedido de adesão quando era ministro dos Negócios Estrangeiros (1976/78). Esse sim, um momento.

 

14.

Outros gráficos. Taxa de mortalidade infantil: 55 por mil nados-vivos em 1970. Oito por mil em 1994. Três por mil em 2008. A média da UE é superior a quatro por mil.

Número de pensionistas: em 1960 são 56 mil, em 1976 é um milhão. Pensão de sobrevivência: em 1960 são sete mil beneficiários, em 1976 são 125 mil. (Fonte: Eurostat e Pordata)

Em 1980, Cavaco Silva, na pasta das Finanças do Governo Sá Carneiro, faz um alargamento do regime não contributivo. Mulheres que foram domésticas toda a vida, agricultores e outros que nunca tinham contribuído passam a ter protecção social.

 

15.

Nick Racich (1952) chegou a Portugal há 30 anos, quando foram concedidas as primeiras licenças à banca privada. Banqueiro, vice-presidente do banco BIG, estudou na prestigiada Wharton School depois de abandonar um doutoramento em Dom Quixote de la Mancha de Cervantes. Um percurso banal num país como os Estados Unidos, improvável para não dizer impossível num país como Portugal.

Este americano de Filadélfia, trabalhava em Nova Iorque e tudo o que sabia de Portugal era que Lisboa era um jóia. Claro que sabia onde ficava Portugal, mas no banco onde trabalhava, em 1980, “em termos de organização, Portugal e Espanha faziam parte da América Latina. Em todos os bancos americanos era assim. Por causa da língua. Só em 86, quando integraram a Comunidade Económica Europeia, começaram a estar arrumados de outra maneira”.

Nick Racich falava espanhol por causa do cavaleiro da triste figura. Hoje fala um português sem mácula. Tem dupla nacionalidade e diz pá.

“O primeiro sector a ser aberto à iniciativa privada foi o bancário. Foi uma medida inteligente porque a banca é um motor da economia. Não havia mercado monetário, mercado cambial, bolsa, não havia produtos financeiros. Em poucos anos chegámos a ter 17 bancos estrangeiros. Começou a pensar-se na privatização de sectores chave da economia.”

A cerveja não é um sector chave, mas foi com a Unicer em 1989 que começaram as privatizações. Verdadeiramente só em Abril de 1990, com a lei das mesmas, começaram a ser levadas a cabo.

Outra palavra começava a ser usada: empreendedorismo. Com um significado que não coincide com o de um americano: “Empreendedorismo é pegar em capital – nosso, privado – e começar com esse capital, e não esperar patrocínios, dinheiro do Estado ou dívida bancária”.

Mas isto é um americano a falar, com uma aprendizagem diferente da nossa, que vive num país-continente onde é possível recomeçar no dia seguinte, várias vezes. A escala permite-o.  

Em Portugal, a democracia tinha pouco mais de dez anos. E o dinheiro da CEE estava a chegar. O país parecia de mangas arregaçadas, com condições para cumprir o D de desenvolvimento.

 

16.

Bem, não exactamente de mangas arregaçadas.

O que ficou no imaginário colectivo: betão, rotundas, infra-estruturas ruinosas. Recursos malbaratados, fraude com os dinheiros do Fundo Social Europeu e do PEDIP. Uma certa trafulhice e o início do folguedo.

É uma visão injusta, porque parcelar, dos anos que começavam com a adesão de Portugal à CEE. Essa foi a década da emergência da classe média, do alargamento do Sistema Nacional de Saúde, da estabilidade democrática. Mais do que tudo: essa foi a década em que deixámos de ser a choldra e passámos a fazer parte de um clube selecto. Ruy Belo, que parecia saber tudo, e antes do tempo, escreveu no poema Sexta-Feira Sol Dourado: “Agora é que vamos ser felizes (...) Portugal fica em frente.”

O Portugal triste fotografado por Victor Palla, a preto e branco, o português pobre encarnado por Belarmino no filme de Fernando Lopes (1964) pareciam de outro século. Tinham passado apenas 20 anos.

Nenhuma das pessoas ouvidas pelo PÚBLICO para a elaboração deste texto deixou de referir a entrada na CEE como momento chave de 40 anos de democracia.

O fiscalista e professor universitário João Taborda da Gama (1977) chamou-lhe “o mecenas do nosso 25 de Abril. Quer dizer, a Europa permitiu-nos ter o dinheiro para efectivar o 25 de Abril”.

 

17.

Quando é que começámos a ter um Estado gordo? Maria Manuel Leitão Marques: “Eu não sei se temos um Estado gordo. A questão é a de saber que Estado podemos sustentar e onde devemos concentrar a despesa. Mas no final dos anos 80, algumas das reformas nas carreiras da função pública efectuadas por Cavaco Silva, designadamente com a criação de promoções automáticas por tempo de serviço, aumentaram significativamente a despesa com funcionários. Mesmo que a intenção fosse boa, o resultado foi desastroso em termos de progressões não assentes em critérios de mérito e tornou o peso dos salários na administração pública muito elevado.”

Miguel Cadilhe, então ministro das Finanças, discordou e saiu do executivo.

A imagem não era a da grande porca de Bordalo Pinheiro, que serve para a expressão “mamar na teta do Estado”. Essa veio (voltou) mais tarde. A imagem era a de um Estado tentacular que dominava toda a economia (ainda que de 1990 a 95 o sector público tenha sido fortemente diminuído com as privatizações). A imagem era a de um Estado onde cabiam as clientelas políticas, a ineficiência, o manga de alpaca. O Estado dos tachos.

Contudo, as prestações sociais ainda estavam aquém da média europeia. O Estado Social era recente e insuficiente. Continuou necessariamente a crescer, na educação, na saúde, nas pensões. António Guterres fez da educação a sua paixão. Em 2002 Durão Barroso disse que o país estava de tanga.

A resolução do problema não se fez com uma diminuição da despesa nem com reformas estruturais dirigidas ao crescimento, mas com uma reforma da máquina fiscal. Cobraram-se impostos, muitas vezes devidos há anos e anos.

João Taborda da Gama: “É verdade que havia um sentimento de grande impunidade e de corrupção na administração fiscal. O momento marcante foi quando Paulo Macedo assumiu o lugar de Director Geral dos Impostos (2004/2007). Hoje esse sentimento de impunidade não existe.”

A confusão entre despesa com o Estado Social (pensões, educação, saúde) e peso da máquina administrativa é um preconceito antigo. No ano em que Portugal pediu ajuda financeira e a palavra de ordem era cortar nas gorduras do Estado, o nível de despesa pública no PIB era de 48,9%. A média da União a 27 era 49,1% e da Zona Euro 49, 4%. (Fonte: Eurostat). Grande parte da despesa pública estava concentrada em pagamentos de pensões e funcionalismo público – a fatia era de 65, 70%.

Segundo o livro de Emanuel dos Santos, Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental, em 2011, 47% da despesa pública consistia em redistribuição de recursos que o Estado operava de uns cidadãos para outros, incluindo pensões e outras prestações sociais. As despesas de funcionamento da administração pública (salários mais consumos intermédios) representavam 39% dos gastos totais. Mas como abrangiam a produção de serviços como a educação, a saúde ou a segurança, o custo da máquina burocrática do Estado central ficava-se pelos 15,5% da despesa pública ou 7,2% do PIB. 

 

18.

Uma confusão: despesa pública com o Estado Social e custo da máquina administrativa. Outra confusão: dívida interna e dívida externa. Outra confusão ainda: dívida e crescimento. Para Nick Racich, o problema não é o que devemos, o problema é o que não crescemos. “O endividamento externo português em 83/84 era qualquer coisa como 16 mil milhões de dólares. Em 2011 era 20 vezes superior. E o PIB apenas duplicou. Ou seja, o país produziu o dobro mas pediu emprestado 20 vezes mais.”

O que é que o país fez com o dinheiro que foi buscar? Entre 1998 e 2010, o investimento produtivo feito pelo sector financeiro baixou 20%, o financiamento ao consumo privado aumentou 19%. (Fonte: artigo de opinião de João Pinto e Castro no Jornal de Negócios a partir do livro de Emanuel dos Santos Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental).

“É um país extremamente endividado. Não mais do que os outros. A diferença está em que alguns conseguem dar a volta rapidamente. Portugal, não”, diz Nick Racich.

De novo gritamos, zangados com o nosso malfadado destino: porque é que não conseguimos dar a volta? Porque é que voltamos a ouvir Júlio César dizer que este é um povo que nem se governa nem se deixa governar? (É a elite ou o povo que não se governa nem se deixa governar?) Porque é que lemos Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871) de Antero de Quental e o texto nos faz sentido?

“É uma democracia muito nova”, continua o banqueiro. “40 anos é muito pouco. São duas gerações. Ainda temos muitas pessoas vivas que viveram o antes. E antes de décadas de ditadura estão séculos de monarquia, de paternalismo.”

João Constâncio (1971), professor universitário, autor, entre outros, do livro Nietzsche e o Enigma do Mundo, chama igualmente a atenção para este ponto. “Em 40 anos não se substitui a população de um país. A cabeça das pessoas não mudou o suficiente, apesar das transformações económicas e sociais. Em 40 anos não se transforma uma população em grande medida analfabeta numa população instruída.”

Pensemos nisto: quantos dos que estavam vivos em 1974, com uma identidade, um passado, uma raiz fizeram a transição para o Portugal democrático. Quantos dos que eram impreparados, iletrados aprenderam a viver num país novo. E pensemos nos que nasceram depois de 74 e nos filhos desses. Dir-se-ia filhos de um outro país. Contudo, os nossos pais ainda são aqueles.  

 

19.

Problema central: porque não crescemos? A resposta de Henrique Granadeiro: “Existe uma correlação directa entre instabilidade política e desenvolvimento económico. Tivemos 25 governos em 40 anos [seis governos provisórios e 19 governos constitucionais]. Com este vai e vem de governos é impossível gerar políticas de longo prazo. A primeira preocupação do governo seguinte é rectificar o [que considera] disparates do governo anterior. Isso introduz uma precariedade cujo resultado está à vista.”

Segundo dados do Eurostat, os ciclos políticos mais longos e com maior taxa de crescimento correspondem aos X, XI e XII governos (1985/95, governos de Cavaco Silva) com uma taxa de crescimento do PIB de 4,2%. Os XIII e XIV governos (1995/2002, governos de António Guterres) tiveram uma taxa de crescimento de 3%.

Na opinião do presidente da PT, “o sistema constitucional permite, e em certa medida encoraja, a existência de governos minoritários. Um exemplo: o presidente da República empossou um governo minoritário em plena crise mundial (2009). Foi um erro político de Cavaco, que o nomeou, e um erro político de Sócrates, que aceitou.”

O povo volta a perguntar: porque é que não crescemos, porque é que não damos a volta?

Ouçamos de novo as vozes dos Rapazes dos Tanques, das manifestações, dos que agora emigram. Ouçamos a zanga com a classe política, com essa elite. Com a elite que não dá a volta, que não nos faz dar a volta, que não nos deixa dar a volta. Uma elite pequena, pouco capitalizada e dependente do Estado.

O advogado Vasco Vieira de Almeida disse numa entrevista ao Jornal de Negócios (2012): “Em Portugal pertencer a uma elite nunca representou, como devia, uma fonte extra de obrigações, antes uma atribuição anormal de privilégios. O povo foi sempre melhor do que as elites”.

 

20.

Antes do leite derramado, há a Expo 98 e o orgulho numa obra com aquela dimensão, aquela beleza. Não é pouco porque um povo precisa de pão e circo.

Antes ainda privatiza-se a produção de informação. Aparecem as rádios e as televisões privadas. Não muda só a forma de comunicar. Muda, o que é fundamental, a forma de comunicar política e consequentemente a forma de fazer política.

Mudam os protagonistas. O povo aparece na televisão, a sua biografia importa. O povo vê e comenta o povo na televisão, a elite vê o povo na televisão e comenta o Big Brother de Orwell.

Nos anos 90 o mundo era tão estável que a geração nascida na década de 70, ou pouco antes, não sabia o que era o contrário de liberdade.

João Constâncio era um miúdo quando o pai, Vítor Constâncio, foi secretário-geral do Partido Socialista (1986/89). Acompanhava-os nos comícios, no fervilhar da política. Depois fechou-se a estudar. Grego antigo, alemão, Platão. “A minha geração foi a primeira que pôde viver acomodada no tipo de democracia ocidental que resultou do 25 de Abril. A política era uma questão que estava resolvida. Alguém já tinha feito o que era preciso fazer. Mais do que isso: a política tinha-se tornado uma questão burocrática. Não havia nada de heróico nem de decisivo nela. Como costumo dizer, não vivi os anos 90. Como se o mundo não existisse para mim. Eu podia estar alienado, para usar uma linguagem marxista, nas minhas preocupações existenciais.”

O poeta e cirurgião plástico João Luís Barreto Guimarães, nascido em 1967, diz o mesmo num dos poemas do livro Você Está Aqui: “Ninguém da nossa geração esteve na revolução; outros, antes de nós, fizeram as nossas guerras. Quando chegámos aos dias já a guerra havia sido (...) Para nós sobejou outra sorte de batalhas: levantar cada manhã o peso imenso das pálpebras, correr por um lugar na trincheira do balcão”.

O poema traduz um lamento, o individualismo, uma vida por vezes autómata. “Agora luta-se por o ter a casa, o ter o carro, o ter o telemóvel. Coisas concretas destituídas de idealismo”, diz Barreto Guimarães.

Algumas palavras caíram em desuso. Idealismo, por exemplo.

 

21.

Adeus escudo, willkommen Euro. As novas notas apareceram há 12 anos.

A vida subiu de preço. No supermercado e na bomba de gasolina, nos restaurantes e nos centros comerciais. Só uma coisa embarateceu, e muito: o preço do dinheiro. As taxas de juro eram tão baixas que só não tinha casa própria quem não quisesse (dizia-se). E já agora férias na República Dominicana (a crédito). E um segundo carro para a família (ainda a crédito). A banca, de motor da economia, passou a motor do consumo.

Foi o momento em que palavras como spread se começaram a usar todos os dias. E os bancos se sobre-endividaram (além do estabelecido nas regras de Basileia) a curto para emprestar a longo prazo.

O endividamento dos bancos portugueses no estrangeiro passou de 49% do PIB em 1999 para 96% em 2007.

Até que o Lehman Brothers tombou e a torneira estancou.

 

22.

Fomos nós que vivemos acima das nossas possibilidades? João Constâncio rejeita o que considera ser um discurso punitivo que se impôs depois da queda do gigante americano e em especial depois do pedido de resgate do Estado português. “Um discurso que faz as pessoas sentirem que desde a entrada na CEE até 2011 andaram a viver de uma herança de uma tia rica. E que têm de voltar a ser pobres porque Portugal é um país pobre.”

Do outro lado: os povos do sul são preguiçosos, desorganizados, perdulários. Há quem pense que, além destes atributos, são ignaros.

As crianças introduziram no seu léxico uma palavra nova: austeridade. E aprenderam, à força de ouvir os pais, os avós, a televisão, que o futuro podia não ser radioso. Que o mais provável é que não seja radioso.

Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se e empunharam cartazes onde se lia: queremos o nosso futuro de volta. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos. Reformados que se transformaram no esteio de milhares de famílias (apesar das pensões cortadas para metade). A classe média que vive no fio (por causa dos cortes para metade). Desempregados. Gerações à rasca. Não estavam as centenas de milhares que nos últimos anos tiveram que emigrar.

João Luís Barreto Guimarães especializou-se em reconstrução mamária de mulheres que tiveram cancro da mama. No hospital, no consultório, assiste a uma degradação rápida da jóia indiscutível que é o SNS, ao empobrecimento do povo. “É preciso saber ler os sinais. As pessoas andam tristes, estão a engordar, a envelhecer, têm sapatos cambados, roupa puída, semblantes zangados. Os doentes dizem: ‘Tenho diabetes, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Deste três, qual é o menos grave? Porque só tenho dinheiro para comprar medicamentos para dois.’ A vida inteira trabalharam, confiando que o Estado era pessoa de bem e que um dia, quando precisassem da reforma, iam tê-la. O Estado pura e simplesmente está-lhes a falhar. Estica a corda sem introduzir o factor sentimental na regra económica.”

 

23.

- Onde é que falhámos?, o que é que correu mal?

- André Gonçalves Pereira: “Nada correu especialmente mal. A sociedade é o que é. Temos um regime aristocrático medíocre, em que o papel das famílias dominantes é desempenhado pelos partidos políticos. A nova aristocracia são os partidos políticos. É uma aristocracia de posição, não de ideias nem de nascimento.”

- Rui Pena Pires: “O que é que falhou no 25 de Abril? Nada. Nos últimos 40 anos, o que falhou mais foi o facto de continuarmos a ser o país mais desigual da Europa (agora menos do que a Bulgária e a Roménia – não é grande consolo).

- João Luís Barreto Guimarães: “Abril realizou-se? A resposta é não. Não se cumpriram os objectivos da revolução. A sociedade não cresceu como um todo. Aumenta o fosso entre os mais pobres e aqueles que enriquecem na proximidade do poder. Tenho a maior desconfiança da classe política. O pote vai voltar a encher? Temo que o regabofe volte.”

- Maria Manuel Leitão Marques: “Foi-se avançando com as maiorias políticas existentes. Seria bom que tivéssemos tido governos de maioria? Não os tivemos. Porque as pessoas não votaram assim nem obrigaram a que houvesse um pacto entre os principais partidos. Mas devíamos ter tido mais coragem e mais visão para em 1986 fazer reformas dolorosas. Por exemplo, de reestruturação empresarial (e não alimentar com fundos europeus empresas cuja competitividade era duvidosa, e que caíram agora como tordos). Isso tem custos. Há clientelas políticas que se perdem.”

- Irene Flunser Pimentel: “Correu-nos mal a Europa, como correu mal a outros países. Não foi a nossa inserção no projecto europeu. Foi o projecto europeu. Não fizemos uma união política europeia. Fomos pela via do dinheiro, e aconteceu o que aconteceu.”

- João Constâncio: “Até 2010, a evolução do país foi muito positiva. O que correu mal foi a resposta da Europa à crise das dívidas soberanas, que afectou em particular certos países da Zona Euro, entre eles Portugal. As coisas podiam ter tomado outro caminho. Um caminho que reconhecesse a assimetria que há desde início entre a periferia e o centro. As principais decisões foram tomadas segundo o princípio “cada um por si”.

- Alexandre Quintanilha: “Grande falhanço: é capaz de ser a justiça. Como se vê. Portugal continua a ser muito individualista e tem dificuldade na interdisciplinaridade. Pomos pessoas da Filosofia a falar com um cientista e há sempre um arrogante que faz troça, que acha que o outro não sabe o que está a dizer. Educação: é mentira que a escola pública seja má. Há de tudo, claro. Mas em todas as turmas que passaram por mim havia pessoas excepcionais.”

- Maria de Fátima Bonifácio: “A democratização do ensino foi calamitosa. Dizer que é a geração mais bem preparada de sempre dá-me vontade de rir. Fui professora universitária de 1980 a 2008. As pessoas podem ter diplomas que atestam a sua escolaridade, mas o nível de ignorância é assustador. Se houver 15% de alunos excelentes, é fantástico.”

- Nick Racich: “A confiança na justiça está abalada. Nos EUA, os Madoff vão para a prisão por 150 anos. Em Portugal, o povo tem a noção de que ao tubarão não acontece nada. Que o tubarão se safa. Os políticos estão a subestimar a importância da confiança na vida das pessoas. O sentimento de injustiça cria zanga, desapontamento.”

- Maria de Lurdes Rodrigues: “As ambições e expectativas vão sendo actualizadas, reajustadas. Todos os estudos apontam para ter sido o sector da justiça aquele em que a mudança falhou.”

- Pedro Magalhães: “É normal o cepticismo em relação à política, é saudável. Onde não vejo tanta saúde é na desconfiança em relação à justiça. Confiam na justiça 28% dos inquiridos. Na Dinamarca, confiam 84%. (Dados de 2010.) Isto é muito grave e preocupante. Tenho de confiar na justiça para resolver os problemas que tenho na relação com os outros, com o Estado. Se não confio na justiça, o que é que sobra? Na sondagem que se apresentou na Gulbenkian, 77% acham que estamos pior agora do que no antigo regime no que diz respeito à corrupção; 81% acham que estamos pior na criminalidade e na segurança.”

- João Taborda da Gama: “O 25 de Abril chega tarde. Se tivéssemos tido uma revolução dez, quinze anos antes tínhamos tido um desenvolvimento mais sustentado. Foi tudo feito muito à pressa porque teve de ser tudo feito muito à pressa. Por causa da Europa (que era o nosso quadro institucional e geoestratégico). Isso vê-se, por exemplo, no desastre urbanístico de Portugal. A marquise é o símbolo desse desenvolvimento.

Outros pés de barros: como povo, como comunidade, não fomos exigentes com o investimento público, as rendas excessivas, as instituições.”

- Henrique Granadeiro: “A classe média, conquista de Abril, está a sair pela porta dos fundos. O ar do tempo é claramente de fim de regime. As pessoas não têm confiança no Governo nem esperam grande coisa da oposição, e não olham para o presidente da República como defensor das instituições. Estamos a viver num puro sistema tecnocrático. Um sistema onde as decisões são tomadas mas onde não há política. Faz-me lembrar a frase que um anarquista mexicano pôs num mural: ‘Basta de realizações, dêem-nos promessas’. As pessoas precisam de um discurso político portador de alguma esperança. E mesmo de alguma ilusão.”

 

24.

Ainda que continuemos a ser Fátima, Fado e Futebol, não somos da mesma maneira Fátima, Fado e Futebol. O Fado é Património Imaterial da Humanidade, Camané, Carminho e Mariza enchem plateias no mundo todo. José Mourinho foi o melhor treinador do mundo, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Fátima continua cheia, com uma basílica nova, mas o peso da religião é outro.

João Taborda da Gama foi discípulo de Saldanha Sanches, consultor de Cavaco Silva na presidência, tem cinco filhos. Não recebeu dos pais, Jaime Gama e Alda Taborda, uma educação religiosa. Converteu-se ao catolicismo na universidade. “Hoje a religião é um fenómeno mais reflexivo e menos ritualístico. Há uma queda dos níveis de participação religiosa, há uma secularização da sociedade, como em toda a europa. Mas aqueles que têm uma vivência religiosa têm-na de uma forma menos automática. É uma religião mais vivida, mais espiritual.”

E agora também temos Manoel de Oliveira, Paula Rego, Saramago, Siza projectados no mundo todo, cientistas entre os melhores do mundo. Em muitas disciplinas estamos entre os melhores do mundo.

João Constâncio: “Quando comecei a dar aulas, em 96, fazia o doutoramento quem era professor universitário. Tudo isso mudou imenso. A universidade produz uma elite, que é pequena, mas que apesar de tudo é muito maior do que era, e que tem uma dimensão internacional, está inserida em redes internacionais de investigação.”

 

25.                                                                                                      

O 25 de Abril foi a invenção do dia claro, para glosar o título de Almada Negreiros. Há muito que se perdeu a capacidade de sonhar, o impulso vital da juventude. O povo voltou a cantar Grândola Vila Morena. Lídia Jorge escreve em Os Memoráveis, livro-olhar sobre o 25 de Abril, que precisamos de uma nova canção. Escreve também: “Acha, então, que a mente humana está definitivamente formatada para se esquecer do bem? Para se esquecer dos momentos em que o anjo da alegria passa pelo mundo?”.

É isso. Passou por nós o anjo da alegria. Apesar de tudo, foi muito bonita a festa, pá. Resta saber como vamos cumprir o Portugal que falta.

 

  

Publicado originalmente no Público no dia 25 de Abril de 2014 

 

 

Isabel Soares (s/ Mário Soares)

24.04.18

Vive rodeada de livros, memórias, flores – nessa semana eram amarílis. Vive uma vida que é sua. Durante muito tempo viveu uma vida que se confundiu com a vida do país. Isabel Soares era a filha do oposicionista Mário Soares.

Num célebre triângulo de Entrecampos, coincidem a sua casa, o Colégio Moderno (que transformou numa instituição), e a casa dos pais. A casa dos pais já era a casa do avô, e foi uma casa por onde passaram o Manuel da Fonseca, o Carlos de Oliveira, o Pomar, o Sá Nogueira. Habituou-se a vê-los como pessoas comuns, como amigos do pai e da mãe. Passaram lá por casa outras pessoas comuns, como os amigos da política, e os empregados que fizeram parte da família. Um motorista que morreu logo depois do avô – de tristeza. Um funcionário que era agente da PIDE. Uma empregada que ainda resiste. Ela e o irmão. O irmão a quem conhecemos bem o rosto – João Soares. Viviam com a mãe que orbitava à volta do pai. O avô para quem esse filho era o mais perfeito dos príncipes.

Houve um tempo em que a vida de todos os dias era um capítulo de uma epopeia. Ainda hoje, a história desta família escreve-se como se escreve um grande romance. Um romance cujo título poderia ser “Clã Soares”.

Isabel é, segundo o pai, uma pessoa valente. Detalhar com ela o percurso daquele herói romântico – o seu pai – é recuar ao Portugal da segunda metade do século XX. Como se guardava segredo, como se visitava o pai na cadeia, como se aprendia a não chorar, como se vivia com a certeza do degredo, como se viveu a liberdade, como se viveu a aventura. Foi bonita a festa, pá – cantou Chico Buarque para a Revolução dos Cravos. Foi bonita a festa, pai – poderia dizer Isabel. É ainda uma grande festa; porque, com Soares, tudo é sempre uma explosão de vida.

O seu olhar é “embaciado pela ternura e pela admiração”. O seu olhar “não é límpido, nem isento”. E por isso, repetiu vezes sem conta: “Mas acha que isto tem mesmo interesse?”. O seu testemunho é precioso. Com ele, olhamos de novo para a nossa história. Olhamos para outra personagem. Olhamos por um outro ângulo.

 

Começo por uma frase do seu pai: “A memória é selectiva porque tem que ver com a afectividade”. A sua também o é. Mesmo assim, pergunto pela primeira memória que tem do seu pai.

Se penso nos meus dois, três anos, é a memória de um pai muito afectuoso, expansivo, de grande ternura, e muitas vezes ausente. Era a pessoa cúmplice, que enchia a casa. Quando não estava, as coisas eram mais tristes. Era a pessoa que nos ensinava a nadar, que nos atirava, com quatro ou cinco anos, para o mar da Foz do Arelho, que nos fazia não ter medo… A nossa vida girava toda à volta dele.

 

Até pela sua ausência.

Às vezes, a PIDE entrava lá por casa para fazer uma busca e levar o meu pai. Quando era mais pequena, era difícil viver com isso. As pessoas sabiam, “O pai está preso”. Mas para nós era banal e um motivo de orgulho. Íamos vê-lo sistematicamente à cadeia. Como era o motor da família, e a minha mãe viveu sempre para ele, em função dele, transmitiu-nos isso um pouco. Vivíamos também com o meu avó, que foi uma das pessoas que mais me marcaram – creio que ao meu irmão também. Era a figura masculina que estava em casa e que fazia um pouco a figura do pai. Ele vivia numa adoração do meu pai. Aquele filho era um filho que não tinha defeitos.

 

O seu pai viveu, na infância, o mesmo cenário. O pai dele esteve na clandestinidade, e por isso ausente. Num relato que faz, pungente, conta que a única vez que viu a mãe chorar foi quando o foram visitar, “Veste-te, que o teu pai vai ser deportado para os Açores”. Na sua vida, parte disto foi replicado.

A história repetiu-se. Havia a ideia, transmitida pela minha mãe e pelo meu avô, de que não se podia chorar. O que era difícil, para uma criança.

 

Não se podia chorar à frente do inspector da PIDE ou à frente de qualquer pessoa?

À frente do inspector da PIDE, da polícia… Tínhamos de nos aguentar. A minha mãe chorava muito pouco, ou defendia-se muito para não chorar à nossa frente. Tínhamos a ideia de não chorar à frente dela para ela não ficar mais em sofrimento. Não se mostravam os sentimentos. Não se mostrava a vulnerabilidade, a tristeza, o que ia na alma.

 

Foi uma aprendizagem desde cedo.

Muito cedo. Só nos libertámos disso muito mais tarde – eu, pelo menos. Na idade adulta. Só com a psicanálise e muito mais tarde me permiti isso. “Mas porque é que não hei-de chorar?” Estava de tal maneira interiorizado...

 

Exteriorizar sentimentos é diferente de permitir-se sentir. E isso, era consentido?

Isso, sim.

 

Fale-me da relação com o seu avô.

Era uma pessoa excepcional, um pedagogo. A minha avó morreu quando eu tinha três anos, e a partir dessa altura fomos viver para a casa do meu avô – tinha vagado o andar ao lado, abriu-se e ligaram-se os dois andares; ainda é hoje a casa dos meus pais. Era um homem afectuoso, com um porte de grande autoridade. Atento; se tínhamos um teste, era capaz de perder tempo connosco a ver uma matéria de História ou Geografia. Ele não tinha uma perna e, por isso, tinha dificuldade em andar; tinha um motorista que andava com ele e levava-nos a passear. Todos os domingos, religiosamente. Por Portugal inteiro; para ver um restaurante, um hotel, para nos mostrar o país, para explicar as coisas todas.

 

De que é que falavam nas viagens?

De tudo. Mas não muito de sentimentos. Era mais uma coisa pedagógica. Na nossa família falámos sempre pouco de sentimentos. Era capaz disto: eu tinha uma boa nota e ele mandava um ramo de flores a casa a dizer: “Com um beijinho de um admirador”!

 

O seu gosto pelas flores, que me disse que compra todas as semanas, para si e para os seus pais no mercado, tem que ver com isso?

Se calhar, sim. O meu avô gostava muito de flores, mas impediu que houvesse flores no funeral dele. Quando não tenho flores em casa, fico deprimida.

 

Falava do seu pai e de política? Veiculou uma imagem mitificada do seu pai?

Sim, e a minha mãe também. Para o meu avô, o meu pai estava acima de tudo. Uma vez, alguém disse que o João era muito parecido com o meu pai fisicamente, mas que era mais bonito; e o meu avô ficou ofendido com isso! Como se não fosse possível haver alguém mais bonito, mais inteligente, mais tudo… O meu pai teve isso, que foi extraordinário, e que o fez ser como é: foi profundamente amado pelo pai e pela mãe. Só o viam a ele. Tinham filhos de outro casamento, 18 anos mais velhos do que ele, e ele era o centro de todas as atenções.

 

Tinha a tranquilidade de ser amado. De ser o rei. No dizer do seu avô e da sua mãe, a superioridade do seu pai baseava-se em quê?

A minha mãe, era o olhar da paixão. Naquela fase dos sete, oito anos, o João e eu fazíamos cenas: “A mãe só pensa no pai, só faz as coisas para o pai”. Porque ia fazer um prato para o pai, porque ia fazer as coisas em função do pai. “Só o pai é que existe? Nós também existimos”. O meu avô, também. Era um amor total, de grande admiração pela coragem dele, pelo estar dele. Com ausência de sentido crítico.  

 

Quem é que teve pela primeira vez um sentido crítico em relação ao seu pai?

Em casa? Talvez o meu irmão e eu. O meu avô tinha, às vezes, um olhar irónico em relação a determinados amigos…

 

Como quando chamava “os teus camaradinhas” aos amigos comunistas…

Sim. Tinha um olhar embevecido, que nos passou. Só na adolescência tivemos necessidade de contestar o pai. Mas era difícil; porque ele, ou não estava, ou estava preso, ou estava no exílio. Não queríamos preocupar, magoar… Essa crítica era filtrada pela nossa auto-censura – “Ele está a fazer tudo isto, está a lutar…”.

 

E tinham de se aguentar.

Aguentar. A minha mãe é que apanhou com os grandes embates da adolescência.

 

Temos estado a falar do seu pai, mas viveu muitíssimo mais com a sua mãe.

Foi. Por outro lado, havia sempre muita gente em casa. Nunca estivemos os quatro sozinhos, ou os cinco; havia sempre gente que vinha almoçar, jantar, a entrar e a sair. E o mesmo se passou depois do 25 de Abril.

 

Privou com toda a gente. Deu-se com protagonistas da História. Aos seus olhos de miúda, eles eram os heróis românticos que iam mudar o mundo?, eram os amigos do pai?   

Eram os amigos do pai e os heróis românticos que iam mudar o mundo, que acreditavam que era possível mudar o mundo. Lembro-me de estar a ajudar a minha mãe a descoser as etiquetas de um casaco de tweed do meu pai, que eu achava lindíssimo… Não fazíamos perguntas: era óbvio que aquilo ia servir para alguém. Passados uns meses largos, vi uma entrevista com o Palma Inácio numa revista espanhola: era capa de revista com aquele casaco – “olha, o casaco serviu para isto”. 

 

Esse episódio introduz uma questão importante: a do valor da discrição, do segredo. Como é que lhe foi ensinado?

Quando eu dizia que não falamos de nós e dos nossos sentimentos, também é por isso. Não se podia falar, [porque] tudo podia ser aproveitado, usado.

 

Como se o mundo pudesse converter-se numa realidade hostil?

Isso foi muito negativo para mim: que fosse preciso esconder as coisas, que não se pudesse deixar sinais. Uma certa clandestinidade… Uma vez, já com 16 anos, fui com o meu pai a Espanha porque ele precisava encontrar-se com o Bispo do Porto e com o Tierno Galvan. A minha mãe não podia ir e ele levou-me a mim, para dar uma ideia de viagem familiar. Outra vez, esteve preso seis meses em Caxias e a minha mãe tinha autorização para levar a comida, todos os dias. Nessas visitas, em Caxias e no Aljube, tínhamos o papel de falar com o guarda, tentar distrair a atenção – para a minha mãe conseguir falar com ele. A maneira de lhe passar notícias era embrulhar as marmitas da comida com os jornais da véspera. E ele, aí, tinha acesso aos jornais.   

 

O seu pai conta numa entrevista que soube por essa via que Portugal tinha assinado o Pacto do Atlântico e que isso o enfureceu. “Estou aqui a lutar pela liberdade, e a América vai meter um regime fascista num pacto que é da defesa da liberdade?”. Mas no dia seguinte acordou logo bem disposto. A capacidade regenerativa é outra das suas características.

É uma força da natureza. Tem uma alegria de viver… Isso sempre nos transmitiu: o gosto de viver, o tirar o lado positivo de tudo (mesmo da adversidade, das prisões). Escrevia-nos cartas sempre positivas.

 

Como eram?

Eram amorosas e ternas, cheias de recomendações – para nos darmos bem, para não preocuparmos a nossa mãe e o nosso avô, que tínhamos de apoiar a mãe que estava mais fragilizada e triste. Era difícil para nós afirmarmo-nos. Tínhamos de colaborar.

 

Como é que resolvia as suas inseguranças e tristezas? Se não as podia escoar…

Com alguns amigos, alguns amigos do meu pai. Uma amiga dos meus pais, que tinha estado presa, psiquiatra, teve um papel determinante na minha vida – a Lígia Veloso. Tratava-me como adulta, (eu tinha 13 ou 14 anos), levava-me ao cinema (ver o Bergman e as Quinzenas do Bom Cinema) e dava-me livros (o Pavese, o Hemingway, a Simone de Beauvoir). Fazia um papel que os meus pais não tinham tempo [de fazer]. Escoava com ela as minhas tristezas, dúvidas, inquietações.

 

Ali, sabia-se em segurança. Senão, era uma espécie de desconfiança primordial, radical.

Claro. Tudo podia ser uma ameaça. Uma das memórias que tenho foi quando fiz o exame da quarta classe e os jornais, O Século e o Diário de Notícias, faziam uma grande coisa com isso. O meu pai estava preso e na visita seguinte disse-me: “Sabes, tu vinhas no jornal” – tinha sido apanhada numa fotografia, a fazer o exame; “Recortei a fotografia onde tu vinhas e pus na parede da minha cela”.

 

Teve a noção, como o seu pai teve em relação ao pai dele, que foi muito amada e querida? Ou, apesar desse amor, tinha a impressão de que havia uma coisa que o ocupava mais?

Tivemos a noção de ser muito amados, e ainda temos. Mas ele estava muito ocupado com outras coisas. Se calhar não senti o que ele sentiu em relação ao pai dele. Havia algo mais importante do que nós, do que o individual: era o colectivo, eram os que estavam piores do que nós, era a luta pela liberdade. Tinha aquelas coisas banais, de adolescente, de querer sair… Mas primeiro estava o dever, a luta. O resto, eram coisas fúteis.

 

Arnaldo de Matos dizia que a Revolução não era um chá dançante…

[risos]. Exactamente. Tudo o resto passava para trás.

 

Fora o distúrbio causado pela vida política do seu pai, uma parte da sua vida, com a sua mãe e avô, era banal, tinha horários regulares.

A minha mãe era muito estrita, rigorosa. Primeiro estava a escola, a rotina do trabalho diário. Impunha as regras. Muitas vezes não jantávamos à mesa com o meu pai porque ele vinha muito tarde, e havia uma rotina a cumprir.

 

Porque é que impunha essa rotina e exigência?

Foi a educação que teve. Muito dura, disciplinadora. A família dela tinha passado muitas dificuldades; o pai esteve muitas vezes preso, foi deportado, a mãe era professora primária; eram sete irmãos. Era muito exigente – acho que fez bem.

 

Em relação ao dinheiro, era-vos incutido o espírito de poupança, eram partilhadas preocupações a esse nível?

Tivemos uma infância nessa matéria privilegiada. Só sentimos preocupação com o dinheiro quando o meu pai foi para o exílio – e já éramos adultos. Havia o Colégio que fazia viver a família toda. O meu avô não fazia contas e deu-nos a ideia de que o dinheiro dava sempre. Era um ambiente protegido: havia duas empregadas em casa, o meu avô tinha motorista.

 

Que relação tinha com o mundo dos subalternos? Ou não eram olhados assim?

Eram olhados como família. O Sr. Joaquim ensinou o meu pai a guiar, e depois ensinou-me a mim e ao meu irmão. Era um homem de uma dedicação canina; o meu avô morreu e, dois meses depois, ele, sem estar doente, morreu também. As empregadas tomavam conta de nós, de um modo terno. A Olinda está em casa dos meus pais há 50 anos. É para nós uma segunda mãe.

 

Mas não podiam falar com eles sobre determinados assuntos…

Alguns estavam dentro das cumplicidades. Uma altura, o telefonista do Colégio era um homem que o meu avô considerava muito esperto, e fê-lo estudar, tirar o quinto ano do liceu (como se dizia); a minha mãe começou a suspeitar que ele tinha ligações à PIDE. Ouvia o Rádio Moscovo em altos berros à noite – uma pessoa que ouvia o Rádio Moscovo ouvia em surdina, para não ser detectado. Esse funcionário começou a namorar a empregada lá de casa, que lhe disse que era preciso guardar os jornais... Dois dias depois, o meu pai começou a queixar-se que a comida ia fria, que já não iam jornais a embrulhar os termos…

 

Que memória guarda da cadeia?

Essas idas a Caxias e ao Aljube foram muito marcantes. Lembro-me exactamente das salas, dos cheiros. Em Caxias, era uma sala com várias divisórias, para as famílias dos vários presos. O parlatório tinha um vidro e uma grade. Havia um corredor onde se passeava um guarda. E havia os cubículos onde estavam os presos, completamente fechados, sem contacto uns com os outros. Para a criança que eu era, foi muito impressionante. Era terrível ver ali o pai, e não poder tocar-lhe. A coisa pior era não haver contacto físico.

 

Tinha um diário? Não podia escrever cartas francas ao seu pai, porque essas seriam lidas.

Tinha, mas não sei que lhe fiz. Nunca mais o reli. Era um diário com uma chavinha. Mas não me confessava completamente [no diário], porque podia sempre vir alguém… O João e eu assistimos várias vezes aos pides entrarem por nossa casa e irem ver tudo. Os livros, dentro dos livros, os nossos quartos... O João tinha um mapa de Cuba em relevo e levaram-no.

 

Fica a ideia de não haver nunca a intimidade absoluta, um espaço secreto.

Exactamente. É devassado, pode ser sempre devassado.

 

Que marcas ficaram disso?

Demorou tempos a passar. Só na idade adulta… E mesmo assim: ainda hoje sou uma pessoa fechada.

 

É o medo de ser sobressaltada, surpreendida?

Sim. A seguir ao 25 de Abril foi o contrário.

 

Tudo passou a ser colectivo.

Tudo foi devassado de outra maneira. As memórias, as fotografias, as coisas todas. Isso fez-me confusão e fez-me fechar um bocado.

 

Como viveu o degredo em S. Tomé? O seu pai não sabia para o que ia. Conta que o inspector Sacchetti lhe disse: “É como quem atira uma pedra a um poço: vai fazer umas onditas, mas daqui a uns meses ninguém se lembra que existiu um advogado chamado Mário Soares”.

Lembro-me do dia em que o meu pai foi preso novamente. Ele tinha estado preso e tinha-se falado que seria deportado para a Madeira ou Açores. Quando saiu, “afinal não foi nada”. Os meus pais foram passar uns dias ao Algarve com a Sophia e o Sousa Tavares, de quem eram muito amigos, e um tio da minha mãe. Foram perseguidos pela PIDE e uma das pessoas da recepção do hotel, que tinha sido aluno do Colégio, disse: “Temos uma brigada da PIDE no quarto ao lado do vosso”. Voltaram, sempre seguidos pela PIDE, e no dia seguinte ele foi preso no escritório. Era dia 19 de Março, dia do pai. Eu tinha saído com a minha mãe para comprar uma prenda, e quando voltámos o motorista do Colégio disse: “O senhor doutor foi outra vez preso e telefonaram da PIDE para a senhora lá ir”. Era uma coisa que nunca faziam.

 

Pedirem para lá ir?

Sim. Começámos a pensar: “Agora é que é a deportação”. A minha mãe foi com o meu irmão, eu fiquei em casa a falar para os amigos do costume: o Raul Rego, o Salgado Zenha, o Zé Magalhães Godinho, o Gustavo Soromenho, o Joaquim Caetano Menezes, a Lígia Veloso, a Lígia Monteiro. Quando a minha mãe voltou, vinha desfeita. “O pai vai para S. Tomé”. Achámos todos que não o íamos voltar a ver. O meu avô tinha 89 anos – para ele era dificílimo. A minha mãe pediu que nos deixassem despedirmo-nos. Reunimos nessa noite em casa, com os amigos, e na manhã seguinte fui com a minha mãe à PIDE; tenho muito presente a conversa com o Sacchetti, que era um homem sinistro, pequenino, careca, com um bigodinho, um ar untuoso. Faziam-nos esperar imenso. O meu irmão e eu púnhamo-nos à porta para ver as caras. Uma vez vimos passar aquele que tinha sido empregado do Colégio, o Costa.

 

Como foi a despedida?

Foi o dia em que vi o meu pai mais abatido. “Bem, isto vai ser difícil, temos de nos preparar”. Mais abalado – mas não desistente. Lembro-me de o meu avô – cá está, a história de não mostrar as emoções – à saída do carro nos ter dito: “Ninguém chora”. Para uma pessoa de 15 anos a quem tiram o pai, é difícil… Cumprimos aquilo – era religioso. A despedida foi sempre na presença de um inspector da PIDE, o Abílio Pires, especialista em intelectuais. O meu pai passou umas procurações por causa do colégio. Voltámos para casa, desfeitos, tristes. E fomos despedir-nos à noite no aeroporto. Houve uma carga de pancada violenta, porque estava imensa gente, amigos e gente da oposição, a polícia de choque. A preocupação da minha mãe foi ir para S. Tomé.

 

Para tomar conta dele.

Não sabíamos como é que ele estava. Não havia telefone. Para se usar o telefone, ia-se à rádio. Passada uma semana ou 15 dias, a minha mãe foi. Ficou um mês. Um amigo de infância do meu pai era secretário da Câmara de S. Tomé e foi a pessoa que mais o apoiou; a mulher era farmacêutica e tinha a única farmácia que havia. Durante esse mês, procurou instalá-lo: alugou uma casa, pediu-nos tecidos, as coisas de que precisava, mobilou a casa… O que sempre fez, com muito amor. A minha mãe voltou com as notícias, de como aquilo era. Estava 24 sobre 24 horas um carro da PIDE à porta.

 

Enquanto isso, o seu avô tomava conta de tudo, em Lisboa.

Sim. O João achava foi a seguir [para S. Tomé] e eu fui depois dos exames do liceu. Fui para ficar. Coisa que me revoltou muito – tinha os meus amigos aqui, que é que ia fazer para S. Tomé? Os meus pais achavam que era a minha obrigação, o João também achava que eu tinha que ficar com os pais – era o lado mandão do meu irmão.

 

Ele achava que tinha de contar de si?

A primeira manifestação a que fui foi em 1967 contra a guerra do Vietname. A minha mãe tinha-nos proibido de ir – se fôssemos apanhados, isso podia ser uma pressão para o meu pai, que estava preso, uma hipótese de chantagem. Fomos a manifestação toda a discutir!, ele a mandar-me para casa, e eu a dizer “Vai tu!”. Foi o dia em que saiu A Capital, andava toda a gente com A Capital debaixo do braço.

 

O degredo do seu pai foi de nove meses. Não ficou lá, como temia.

A sorte foi que o Salazar caiu da cadeira em Setembro. Eu estava com a minha mãe na farmácia e o meu pai estava na barbearia, que era também livraria.

 

Nas cartas que lhe escrevia, nas manifestações a que ia, tinha a ideia de que devia honrar o pai, que o seu comportamento devia ser exemplar?

Sim, era-nos passado isso. Era uma grande pressão.

 

No fundo, não podia ser quem era, tinha de ser a filha do Mário Soares.

Nessa altura, o Mário Soares não era tão conhecido quanto isso. Mas era a filha do oposicionista, que tinha que honrar o ser filha de. Nada podia ser-me apontado.

 

Era a sua mãe que lhe passava essa noção? O seu pai é mais descontraído.

Sim. Mas achava que algumas coisas eram fúteis… Os amigos do meu irmão achavam que era uma futilidade gostar de uma camisola ou uma saia. Com a minha mãe, era diferente. Ela é ultra-coquette, e era cúmplice nessa matéria.

 

Apesar de ser mulher, o seu pai exigia-lhe o mesmo que exigia ao seu irmão? E se calhar por isso não dava espaço para a futilidade…

Ele tem um lado machista. Eu era a menina e a menina não podia fazer determinadas coisas. Era mais repressivo em relação a mim. O João era mais introvertido, nessa altura, e se ele não ia a uma festa, eu também não ia.

 

Mas era uma igual para discutir política, para falar das grandes questões. Tem a impressão de ele a ouvir desde sempre?

Acho que me ouve mais desde a idade adulta. A seguir ao 25 de Abril tivemos uma cumplicidade muito grande. Deixei tudo e andei dois anos a… descobrir o pai. Tinha estado quatro anos afastada, o pai estava em Paris, nós estávamos em Lisboa. Andei a fazer as campanhas eleitorais com ele, guiava o carro, andava ao lado, discutíamos as coisas todas. Habituou-se a ouvir-me. Acho que ele acha que eu sou hiper-crítica; diz que sou a pessoa que mais o critica, o contesta… Se calhar porque não o fiz no passado [risos].

 

Que decisão foi essa de largar tudo e ir atrás dele?

Acho que se não tivesse havido o 25 de Abril naqula altura, seria uma pessoa diferente. Foi o entusiasmo da Revolução. O lado inebriante daqueles dias, das revoluções permanentes. Até ao 25 de Novembro, foi uma aventura.

 

A sua aventura.

A minha aventura. Dois anos de grande aprendizagem de vida, de política. Não conhecia um partido político, por exemplo. O que me surpreendeu mais? Passar de uma fase em que tudo estava reprimido para uma fase em que tudo era possível. Aquele primeiro ano foi de total liberdade, de grande euforia. Foi uma emoção.

 

Como viveu o 25 de Abril? E a chegada do seu pai à estação de Santa Apolónia? E o 1º de Maio? Uma sucessão imparável.

O 25 de Abril: tínhamos uns zuns zuns, através do Raul Rego e do Álvaro Guerra, que estavam ligados ao militares e ao Spínola, de que estava qualquer coisa para acontecer. Há anos que estávamos à espera que acontecesse alguma coisa, mas naquela altura era mais premente, tinha saído o livro “Portugal e futuro”, etc. Estava sozinha em Lisboa com o meu irmão, a minha mãe tinha ido à Alemanha com o meu pai. Uma tia minha telefonou-nos às seis e tal da manhã a dizer que havia uma revolução. Acordei o meu irmão, tentámos ouvir o rádio e depois fomos para o jornal República, onde tudo se passava. As pessoas estavam na dúvida se deviam mandar o jornal à comissão de censura ou não… Falámos ao meu pai, ao telefone, sempre com cuidados. (Isto foi tão interiorizado que ainda hoje há coisas que não digo ao telefone…)

 

Acompanhou toda a revolução na rua, presumo.

Foi uma festa permanente As manifestações no Carmo, a libertação dos presos-políticos de Caxias. Depois, a chegada dele, no dia 28.

 

Descreva a chegada.

Fomos cilindrados. O meu irmão tentava pôr uma certa ordem, mas só o vi praticamente no carro. O meu pai foi dali para a Cova da Moura… Foi uma emoção. Acho que toda a gente chorava. Eu chorava imenso. Chorar de alegria era mais fácil. No dia seguinte fomos esperar o Cunhal. Fez-me imensa impressão: eu estava comovidíssima – o Cunhal era um mito – e ele estava completamente frio, com um olhar gélido.

 

Um balde de água frio.

Foram dez baldes de água fria, gelada! Olhávamos com fascínio para o Cunhal, tínhamos noção do que era o PC, mas havia aquela figura mítica, romântica… “Deixa cá ver, quem é este herói”.

 

O seu pai teve ciúmes dessa expectativa?

Acho que não.

 

Cunhal, o Fascismo, Eanes, Zenha, Cavaco. Foram estas as grandes figuras que contracenaram com o seu pai?

O Zenha era meu padrinho. Tinha com ele uma relação forte, de admiração, de ternura.

 

A zanga entre Salgado Zenha e o seu pai foi tremenda para si…

Foi. Foi das coisas mais tristes, esse corte com o Zenha. A última vez que o vi estava já muito doente, em casa. Era excepcional, de uma grande craveira intelectual e moral. Foi muito doloroso também para o meu pai. Acho que foi a coisa que mais o magoou. As outras pessoas de que me falou: eu já tinha uma forte consciência política e estava completamente solidária com o meu pai na confrontação com o Eanes. Nunca foi uma pessoa que me suscitasse uma especial admiração – nem o Eanes nem o Cavaco. O Cunhal, sim, era a figura mítica que vinha do passado.

 

Quando interrompe o curso de Medicina para acompanhar o seu pai, o que queria para a sua vida?

Não me perguntei o que queria para a minha vida. Queria viver intensamente o que se estava a passar em Portugal. E também era a descoberta do pai…  

 

Descoberta do pai ou do político?

Do pai. Eu tinha estado afastada do meu pai muito tempo.

 

Era crível que tivesse um percurso político? Isso ocorreu-lhe?

A mim? Não. Não tinha paciência para ter um percurso político, para pactuar com determinadas coisas. Foi um lado meu fanatizado, não pensante. Estava tão emocionalmente ligada naquilo tudo que eu própria não tinha distância.

 

O seu pai esperava de si um destino político?

Acho que esperou isso sempre do João, mas não de mim.  

 

Nem naqueles dois anos ele esperou isso de si?

Não sei se esperou, sei que gostou [riso].

 

Gostava de ter quem tomasse conta dele. Que é que aconteceu à sua mãe nesse período?

A minha mãe tinha os seus próprios percursos. Era raro irem os dois juntos. A minha mãe era candidata por Santarém, ia para todo o lado. Eu fiz de motorista, secretária, acompanhante… Foi uma época divertida.  

 

Como é que traçou o seu caminho? Como definiu a sua vida.

Tive necessidade de me ir embora. Fui para Paris estudar jornalismo, e fiquei cinco anos. Eu estava tão envolvida que me sentia indiferenciada. Foi fundamental para criar o meu espaço.  Quando voltei para Portugal, fui trabalhar para os jornais. Fiz política internacional. Depois de uns anos n’ A Capital, o meu pai decidiu candidatar-se à presidência – em 1985. Fizemos uma reunião de família, “quem é que vai ocupar-se do Colégio?”. A minha mãe achou que devia ser eu. O João não estava interessado – embora não o dissesse, acho que a ideia dele era a política. “Porquê eu?”. Mas percebi que tinha de ser, era preciso assegurar a continuidade do Colégio. Aquela escola tinha sido o sonho do meu avô.

 

O regresso ao Colégio era um modo de voltar à ligação afectiva ao seu avô.

Era. Atirei-me de cabeça. Entusiasmei-me, “é isto que quero”. Voltei à faculdade, fui estudar Psicologia. Isso ajudou-me a perceber melhor as coisas, deu-me outra segurança e preparação.

 

Era uma mulher insegura?

Era. Se calhar ainda sou [risos].

 

Era um grande peso, ser filha de Mário Soares, e tentar impor a sua identidade.

Fui sempre muito insegura nessa matéria. A relação com o meu pai foi sempre boa. Demasiado boa.

 

Nunca se zangaram?

Zangamo-nos imenso, ainda hoje. Melhor: discutimos muito. É uma relação muito apaixonada. Argumentativamente é assim na família. Discute-se tudo. Um bocadinho italiano. Somos muito parecidos de feitio, o João é mais parecido com a minha mãe. Temos um lado colérico, de gostar da vida, de tirar prazer das coisas. Ele acha que há sempre amanhã.

 

Olhou para ele, olha ainda, como sendo uma fortaleza, um castelo inexpugnável?

Acho que sim – menos, mas olho para ele assim. Sobretudo, se tiver um problema, é com ele que falo. Há uma grande cumplicidade entre nós, talvez mais do que com a minha mãe. É como todas as filhas com os pais e todos os filhos com as mães… O velho Édipo.

 

Quando decidiu candidatar-se à presidência, acompanhou o processo de perto? Tudo coincidiu com os seus 80 anos e uma festa que foi grandemente organizada por si.

Como diria o Chico Buarque, foi uma festa bonita [“Foi bonita a festa, pá”]. Ele merecia. Quando decidiu candidatar-se, fui ferozmente contra. Toda a família foi contra. Mas o que lhe dissemos foi que, se era essa a vontade, nós estaríamos incondicionalmente ao lado dele. Em família, foi sempre assim: haja o que houver, estamos ao lado. Mas antes discutimos.

 

Porque é que não quis?

Achei que ele tinha terminado um ciclo, que não fazia sentido voltar. Tenho aí opiniões muito próprias – não vou falar sobre elas.

 

Ele tem uma enorme capacidade de lidar com o fracasso. Pouco depois da derrota, deu uma entrevista relativizando imenso o sucedido.

Mas ele é assim. Deu uma lição de vida e de humildade democrática nessa campanha.

 

O que é para ele uma derrota? Qual é, aos olhos dele, o falhanço da sua vida?

Falhar seria não ter lutado por aquilo que lutou, não ter conseguido aquilo que conseguiu para o país, para o Partido Socialista. Ele está de bem com a vida por causa disso. Tem mágoa por não ter escrito mais. De não ter feito o romance que gostaria de ter feito. Gostaria de ter sido jornalista e escritor.

 

Esse destino que ele não cumpriu – escrever, ser jornalista – quis fazê-lo?

Estava de tal maneira ligada a ele, que se calhar foi isso.

 

 

Publicado orginalmente no Público em 2008

 

 

 

 

Pedro Magalhães

24.04.18

Pedro Magalhães é cientista político. Nasceu em 1970. Encontrámo-nos para falar do país que somos 40 anos depois do 25 de Abril. A despeito da crise e do desencanto com os políticos, a democracia esgotou o seu prazo de validade?

Talvez a frustração seja inevitável. A promessa era grande. Na entrevista faz-se a anatomia de um sonho e tenta-se perceber o  que ficou por cumprir. A esmagadora maioria dos portugueses aponta o sistema judicial como o espinho da flor e uma boa parte deixou de ver a Europa como uma coisa “benigna”.

Muitos cravos para sentir até Abril. O país é olhado pela lupa de um politólogo, desde a revolução até aos nossos dias: “Os nossos partidos são instituições fracas. Quem é que me diz que no momento em que o PSD muda de liderança o discurso do PSD não muda completamente?”

 

40 anos depois, estamos prontos para uma revolução?, precisamos de uma revolução? São duas questões, comecemos por ambas.

Não sou fã de revoluções. As revoluções têm aspectos muito destrutivos, geralmente, e tendo a ser conservador. Gosto de reformas, gosto que as mudanças sejam incrementais. Até porque uma das coisas maravilhosas das democracias é a possibilidade de resolvermos os nossos conflitos de uma maneira pacífica, que aliene o menor número possível de pessoas e de interesses, que gere compromisso.

 

A nossa revolução foi atípica.

Foi, teve um carácter peculiar. Houve vencidos e vencedores (e houve uma sequência em que aqueles que foram vencedores num determinado momento acabaram por ser vencidos noutro). Foi pacífica ou relativamente pacífica. Teve um efeito transformador, não apenas em Portugal, mas em outros países (dos quais éramos potência colonizadora). É sem dúvida uma revolução no sentido em que teve uma grande componente de mobilização popular, teve uma ruptura em relação a um regime que estava estabelecido, avançou de forma muito rápida uma agenda política, de mudança. Mas não foi uma revolução com o potencial de destruição de outras revoluções históricas.

 

Não se cortou a cabeça ao rei.

Não se cortou a cabeça ao rei, não se cortou a cabeça aos que derrubaram o rei. Conseguiu-se uma transição que parecia em muitos pontos quase impossível (devido à intensidade do conflito, aos interesses que não eram apenas domésticos [que estavam em jogo]) e que chegou a um regime democrático em que as nossas diferenças se resolvem dentro das instituições.

 

Há uma ruptura efectiva e uma promessa de mudança. Que se faz?, que fica aquém do esperado?

Ah, é uma questão enorme... A comparação entre Portugal e Espanha é interessante. São dois momentos de mudança de regime quase contemporâneos e contrastantes. Em Portugal há uma ruptura e há um conjunto de ideias e poderes que ficam deslegitimados (pela sua ligação ao regime anterior). Em Espanha há uma transição pactada, e alguns dos principais actores do regime anterior conseguem, através da negociação, construir uma democracia. Outro contraste tem a ver com as promessas. A transição portuguesa, desde o princípio, desde o manifesto MFA, contém uma promessa da mudança das instituições, dos direitos, dos procedimentos, de diminuição das desigualdades, com uma componente social muito forte.

 

As questões que se levantavam na transição espanhola estavam mais confinadas à política?

Sim, à dimensão política e institucional. Em Portugal isso esteve também presente, e gerou conflitos e dilemas e avanços e recuos, mas a componente de mudança social e económica está presente desde o princípio.

 

Basta ver os casamentos que se desfizeram e fizeram de novo, o estilhaçar da família tradicional para perceber como, na sua célula, a sociedade portuguesa se transformou.      

A ideia de que as mulheres precisavam de autorização dos maridos para sair do país, as licenças de isqueiro... Vivíamos num mundo de tal maneira opressivo... Essa mudança nos costumes, na relação das pessoas com o Estado (o que é que o Estado nos pode dizer e não pode dizer, o que é que nos pode proibir ou não de fazer), estava presente na matriz. Os nomes dos partidos...

 

Espelham isso?

Em conferências internacionais, tenho de explicar que o partido de centro-direita em Portugal se chama “Social Democrata”. E que o partido mais à direita é um partido de centro. Em parte é um fait-divers, em parte é importante. Apesar de ter havido mudança geracional nos partidos, apesar de ter havido mudança ideológica, quando comparamos o que é a direita portuguesa com a direita espanhola, vemos diferenças muito grandes. A direita espanhola é muito mais conservadora, inclusive no plano das políticas económicas, mas sobretudo no plano dos valores. Temos esse legado da revolução – uma direita especial no contexto europeu.

 

Pensemos numa figura mítica como Sá Carneiro. Além da influência da social democracia nórdica, eventualmente sublinhada na relação com Snu, com quem vivia, a pergunta é: ser social democrata era a possibilidade, naquele momento, de ser de direita?

Os partidos apresentaram-se constrangidos pelo ambiente da altura. Não era possível com a deslegitimação que houve do regime anterior apresentarem-se como sendo de direita.

 

Ser de direita era ser fascista.

Basicamente era estar ligado ao regime anterior. Se observarmos quem eram as pessoas, vamos encontrar afirmações, textos programáticos, documentos de Sá Carneiro, por exemplo, que são claramente de centro-esquerda. Vale a pena recordar que foi sob o PSD que o Estado-Providência e as políticas sociais mais cresceram. Temos partidos de direita mais heterogéneos internamente do que muitos partidos de direita na Europa. O simétrico disto é dizer que temos um Partido Socialista que é dos mais conservadores da Europa.

 

Porquê?

Em Portugal, a principal clivagem durante a revolução foi entre o PC e os outros partidos. Muita gente que normalmente votaria num partido de direita votou PS.

 

Como opção moderada?

Como opção da luta contra o Partido Comunista. Ainda hoje, o PS, o seu eleitorado, é heterogéneo. O mesmo sucede com o PSD.

 

Tivemos um primeiro ministro socialista, António Guterres, católico praticante.

E socialistas anti-clericais.

 

Quando é que se percebeu que íamos ficar aquém do que tinha sido prometido e sonhado com a revolução?

Diferentes pessoas sonharam coisas diferentes.

 

Mas quase todas estavam envolvidas – e vale a pena destacar isto. Não foi um projecto confinado à política ou às elites de Lisboa. As pessoas aderiram, globalmente.

Sim. Algumas das promessas eram irrealizáveis. E, a meu ver, nem todas eram desejáveis. Um legado negativo da nossa transição foi o papel do Estado na economia das empresas públicas, na nacionalização do tecido económico. (Isto não tem nada a ver com o Estado-Social.) Veio-se a perceber que essas empresas não só não eram bem geridas como permitiam uma circulação endogâmica entre partidos e empresas públicas cujas consequências estamos ainda a viver. Portanto, essa promessa inicial, de que era possível ter uma economia que produzisse bem estar, crescimento, com um papel tão grande do Estado, era irrealizável, e teve que se desfazer ao longo do tempo.

Houve outros aspectos da promessa que se foram realizando. Quando (nas celebrações dos 30 anos) comparámos os dados estatísticos do Portugal de 73 e o de 2003, as mudanças eram extraordinárias.

 

No acesso à educação, índices da saúde?

Essa promessa realizou-se. O declínio da mortalidade infantil – a melhor coisa que podemos pôr no nosso poster, é o resultado mais espantoso. Muito disto não tem a ver com melhores hospitais, tem a ver com os direitos das mulheres; este resultado não teria sido conseguido sem a emancipação das mulheres.

As promessas que não se cumprem: não é apenas um fenómeno português. Nas novas democracias há sempre um momento de desencanto. Quando se luta por um novo regime todas as pessoas têm expectativas diferentes, e a democracia não permite que um grupo ou um interesse realize tudo o que quer em desfavor do outro. É uma vantagem da democracia e uma fonte de frustração. A democracia é o mundo do second best.

 

Por isso é que é o pior sistema com excepção de todos os outros, como dizia Churchill.

É. Todos conseguem e não conseguem exactamente aquilo que querem. Conseguem muitas vezes uma segunda e terceira opção [em relação ao que pretendiam]. “O novo regime vai ser aquilo que nós queremos.” Mas o “nós”, em vários sentidos, não existe. “Portugal deve”, “os portugueses querem”, “é preciso que os portugueses façam”... Os portugueses são um conjunto diverso de pessoas com interesses contraditórios. Quando o Fernando Ulrich falava dos sem abrigo e dizia que eles aguentam, dizia também: nós, nós, nós. Não há um “nós” no sentido em que o Fernando Ulrich o usava. O Fernando Ulrich partilha tantos interesses comigo como eu partilho com a empregada que trabalha em minha casa. Infelizmente há muitos interesses que não partilhamos, temos interesses em conflito, temos estatutos sociais diferentes. Isto para dizer que a frustração de expectativas é inevitável.

 

Há então um inevitável desencanto que sucede a um tempo de magia.

Sim. E uma coisa é garantir liberdade de expressão, de voto, de associação, protecção mínima dos direitos cívicos, liberdade religiosa – é desses direitos que faz a democracia e é uma conquista que não é de somenos. Mas depois vem o resto. O resto é aquele momento em que nos damos conta que uma coisa é a construção desta democracia, feita de procedimentos e de direitos, outra coisa é a qualidade da democracia.

 

O que leva alguns a dizer frases do tipo: “Isto nem é democracia nem é nada”.

As democracias mais antigas (Inglaterra, Estados Unidos, Europa do norte), com todos os seus problemas, foram resultado de processos de baixo para cima. Dou um exemplo. Temos partidos de centro-esquerda, como os alemães também têm, o SPD. Mas nesses países os partidos de centro-esquerda são uma emanação dos sindicatos. Em Portugal os sindicatos foram criados pelo Estado.

 

E hoje estão ligados ao PC, no caso da CGTP...

E a UGT ao PS e ao PSD. Isto dá-nos logo uma ideia de que o processo não foi o mesmo. Isto mostra-nos porque é que em Portugal, na Grécia, nas democracias da América Latina os sentimentos das pessoas em relação aos partidos e a sua sensação de não serem representadas pelos partidos são mais intensos do que nas antigas democracias. A mesma coisa com o centro-direita. Há muitos partidos de centro-direita nas democracias mais antigas que são uma emanação das igrejas, são uma manifestação política do poder da igreja.

 

O que é que não temos na nossa democracia, se temos liberdade de expressão e outras formas de liberdade, como já apontou?

Temos um sistema judicial que funciona mal. Temos um aparelho de Estado que elabora más políticas, que é rapidamente colonizado pelos partidos.

 

Está a dizer que o sector da justiça é o mais deficiente da nossa democracia? Aponta isso à cabeça?

Aponto eu e apontam as pessoas. Nos inquéritos, quando perguntamos: “Qual é o aspecto mais deficiente na nossa democracia?”, as pessoas convergem para várias coisas; aquela para que convergem mais rapidamente é o sistema judicial. Essas deficiências são heranças de longo prazo. A transição para uma democracia onde há eleições livres, competição partidária, direitos cívicos, pode fazer-se de uma forma relativamente rápida. É no resto que a História, a sociedade, a interacção com as instituições mostra as nossas deficiências. E por isso é difícil continuarmos felizes e realizados pelo facto de termos eleições livres ou liberdade religiosa. Não temos muito do resto que nos outros países faz parte do pacote, que foi desenvolvido historicamente durante muito tempo.

 

Temos uma cidadania pouco participativa.

Pouco envolvida, passiva. As pessoas desconfiam muitíssimo umas das outras.

 

Pensei que desconfiavam, mais do que tudo, do Estado.

Não. A seguir à Bulgária, somos o país europeu em que o cidadão, quando se lhe pergunta: “Acha que pode confiar nos outros ou que todo o cuidado é pouco?”, [mais] responde que todo o cuidado é pouco. 75%, 80%. Experimente perguntar isto a um sueco. É o contrário. Se as pessoas apenas confiam no seu círculo familiar ou de vizinhança mais restrito, e não confiam em pessoas que não conhecem, isto tem consequências que atravessam a sociedade toda. 

 

De que tipo? Fechamento ao estrangeiro, ao diferente?, provincianismo?

Quem é que investe numa empresa se está sempre com medo de um parceiro que não conhece? “E se o outro me vai enganar?” Quem é que se junta para um movimento político, para defender os interesses da sua cidade? Para mitigar isto precisaríamos de instituições do Estado, como o poder judicial, que [funcionassem]. “Eu posso não confiar em ti. Mas se houver algum problema, alguém resolve. Há alguém que vai fazer cumprir este contrato.”

 

As duas coisas estão ligadas...

Estão. “Eu vou organizar os canteiros e limpar a rua porque sei que os outros também farão, que os outros não vão tirar partido de mim.” Toda a gente acha que se fizer alguma coisa vai estar a ser explorado pelos outros e não temos as instituições que nos permitiriam pensar: “Eu desconfio, mas se correr mal, há alguém que vem de cima e faz justiça.”

 

Por mais anos que passem, se algumas coisas não mudarem radicalmente – e, se calhar, à cabeça, o sistema judicial – continuaremos a ser uma democracia (e nesse caso já antiga) mas imperfeita. É isso?

É uma das questões mais interessantes que se podem levantar hoje. Dizemos: novas democracias. Não somos assim tão novos... Quarenta anos já é bastante tempo. Mas os legados históricos demoram muito tempo a desfazer-se. São características quase intrínsecas da sociedade. Por muito que mudemos regime – de ditadura para democracia – as suas consequências continuam a ser visíveis porque são extremamente profundas.

 

As pessoas já viveram mais satisfeitas com a democracia.

Já. Neste momento, somos os europeus mais insatisfeitos com a maneira como funciona a democracia. Só os búlgaros e os romenos estão ao nosso nível. Mas se olharmos para os gráficos da confiança, em dez, vinte, trinta anos, são linhas rectas. Isso não muda. Os emigrantes de segunda geração mantêm a desconfiança [que foi inculcada pelos pais]. Arriscamo-nos a tornar-nos uma velha democracia e uma velha democracia deficiente. Não tenho sinais de que possa ser diferente.

 

Face a isso, retomo a minha primeira pergunta: estamos prontos para um revolução, precisamos de uma nova revolução? Isto está evidentemente ligado ao desencanto que se tem acentuado nos últimos anos, fruto da crise que estamos a viver.

Não quero desvalorizar o que se passou nos últimos anos. Mas se quisermos ter uma visão mais distanciada, esta insatisfação não é dos últimos dois anos. Acentuou-se bastante [com o agravamento] das condições financeiras. Em relação à Europa tínhamos a ideia de que íamos pertencer a um clube selecto, bem frequentado, de países ricos e desenvolvidos. Entrámos nesse clube, mas o nosso cartão não tem tantos pontos nem dá tantos privilégios como outros. Agora descobrimos uma coisa que aprofundou isto: os donos do clube não têm necessariamente os nossos melhores interesses em mente. São mais egoístas do que pensámos.

 

Por “donos do clube” devemos entender, essencialmente, a Alemanha?  

Os países mais ricos e dominantes na União Europeia.

Volto ao princípio: esta insatisfação não é recente. Fala-se de uma década perdida... Não foi perdida. Temos os indicadores da Educação e do PISA para mostrar coisas positivas que aconteceram nos últimos dez anos. Mas do ponto de vista do crescimento económico, da possibilidade de Portugal continuar a convergir com a Europa, são anos de desilusão. Quero chamar a atenção para isto: uma coisa é a desilusão com quem nos governa, e a desilusão sucessiva com vários governos, outra coisa é a atitude em relação ao regime como um todo.

 

Globalmente os portugueses continuam a preferir a democracia.

Uma larga maioria, quando lhes perguntamos nos inquéritos: “Acha que a democracia esgotou o seu prazo de validade? Acha que há regimes melhores?”, continua a apoiar um regime democrático. O que temos é um entendimento do que é a democracia que é mais exigente e mais maximalista do que se verifica em outros países. O último European Social Survey (o inquérito mais importante que se faz na Europa de dois em dois anos) tinha perguntas sobre liberdade de expressão, eleições livres, tribunais que tratam todas as pessoas da mesma maneira, controle da corrupção, igualdade social, combate à pobreza. Perguntávamos: “Até que ponto considera cada uma destas coisas essencial para que um regime se diga democrático?”

 

No fundo, é uma maneira de perguntar a que é que corresponde a ideia de democracia.

Sim. Depois perguntávamos: “Até que ponto acha que o seu país corresponde a esta [ideia]?” Em Portugal, a ideia de que a democracia é também reduzir igualdade social, combater a pobreza, ter tribunais que tratam as pessoas, independentemente do seu estatuto, da mesma forma, faz parte do conceito de democracia. Isto é tão essencial como eleições livres, como liberdade de expressão. Se em Portugal isso é tão essencial, quando perguntamos às pessoas se estão satisfeitas, é claro que estão insatisfeitas.

 

Em Portugal, esse entendimento de democracia, é assim porquê?

Em parte, é um legado do 25 de Abril.

 

Sobre o sistema judicial, uma das queixas que se ouvem é: “Os ricos safam-se sempre, quem se lixa é o mexilhão”. Traduz o sentimento de as pessoas não serem iguais perante a lei.

É um sentimento esmagador na sociedade portuguesa, e que junta a ineficiência do sistema e a iniquidade do sistema. Ouço comentários de juízes que dizem que a imagem do sistema é pior do que o sistema. Admito que seja verdade nalguns indicadores. Mas a percepção não é apenas de ineficiência. É de iniquidade!

 

Há uma classe média que engrossou nos últimos 40 anos e que tem sido especialmente afectada pelas medidas de austeridade. Se olharmos para as manifestações dos últimos anos, foram sobretudo esses que saíram à rua. As pessoas que vivem do rendimento de inserção parecem mais marginalizadas dos movimentos cívicos. Isto vai conduzir a quê?

Não vejo assim tanta participação cívica...

 

Manifestaram-se milhares de pessoas. Em Lisboa, fizeram um percurso, desaguaram na Praça de Espanha e depois cada um foi para sua casa. Não havia uma força política aglutinadora.

“Cada um foi para sua casa” – é um ponto importante.

 

Olhamos para o lado e vemos que o vizinho fez o mesmo que nós. É possível que isto, mais à frente, não produza um resultado?

Em primeiro lugar diria que o grupo dos pobres mais pobres não terá sido tão afectado. Também não havia muito mais para fazer..., quando se faz a fronteira nos 500 euros... Quem de facto perdeu rendimento e qualidade de vida foi a classe média. Na função pública (pelos cortes salariais) e no sector privado (por via do desemprego). Importa ter em mente que as consequências disso ainda não são completamente visíveis.

[A manifestação] da Geração à Rasca, a do 15 de Setembro [de 2012]. Em Espanha, na Grécia, a mobilização é mais activa, mais recorrente do que em Portugal. É impossível que não tenha consequências? O que vejo são diferenças. A grande questão para mim é saber porque é que essas consequências não são tão grandes em Portugal [como são noutros países].

 

Que explicação encontra?

O aumento da desigualdade e pobreza em Espanha foi mais abrupto. Na Grécia, um terço da população não consegue pagar a renda de casa, declara não ter dinheiro para comer proteínas. Em Portugal, os efeitos da austeridade não são, ainda, tão dramáticos. Isto pode ser uma primeira pista explicativa. Segunda pista: em Portugal não há tradição de esse tipo de mobilização produzir resultado. Em França, na Itália, na Grécia, sim, e por isso as pessoas mais rapidamente se mobilizam. Mas não tenho uma resposta clara para isto: “Porque é que os portugueses são tão passivos?”. Posso juntar uma terceira pista: como já falámos, os partidos de esquerda são muito heterogéneos de um ponto de vista social e ideológico. E são pouco independentes do Estado; vivem do financiamento partidário. Excluindo o PC, são pouco encaixados em clivagens sociais reais. Têm menos capacidade de mobilização.

 

Em Portugal vivemos no centrão. Como compreender que durante 40 anos tenha sido assim? Com excepção do CDS, que esteve em governos de coligação, as forças hegemónicas foram o PS e o PSD, e a percepção é a de que “eles são todos iguais”.

A grande clivagem inicial da política portuguesa era entre o PCP e os outros partidos, o que ajudou à heterogeneidade eleitoral de cada um deles, o que ajudou a que durante muitos anos essa fosse a principal luta política. Vemos PS, PSD, CDS juntarem-se em revisões constitucionais – numa oposição ao PCP. Também ajuda [a compreender esse fenómeno analisar] as relações íntimas entre o Estado e os partidos. PS e PSD juntaram-se para criar uma central sindical. PS, PSD e CDS em vários momentos se juntaram para distribuir os despojos dos cargos de liderança das empresas públicas e das direcções gerais. PS, PSD, CDS, PCP juntaram-se para garantir um sistema eleitoral em que nada muda – toda a gente diz que quer mudar, ninguém muda coisa nenhuma. Facilmente entrámos num sistema em que as continuidades não são postas em causa. Dito isto, temos sinais de mudança.

 

Mudança profunda?

Temos um PSD e novos quadros do PSD com posições, no domínio das políticas económicas, mais à direita do que era tradicional. É hoje muito menos verdade dizer que os partidos fazem o mesmo e propõem o mesmo.

 

Por exemplo.

É evidente que este Governo tem políticas de educação muito distantes das políticas de governos anteriores. Exames, transferência de recursos para o ensino privado, o que é que significa o ensino público e que missão deve ter.

 

É uma coisa deste Governo?

É uma coisa desta liderança do PSD.

 

No futuro, e a partir deste momento de encruzilhada, estes partidos têm de se redefinir por dentro? O PSD vai consolidar esta opção mais à direita?

Vamos ver. No PSD, sobretudo na economia, temos um discurso mais liberal, mais a favor do mercado e mais contra o Estado. Mas os nossos partidos são instituições fracas. Quem é que me diz que no momento em que o PSD muda de liderança o discurso do PSD não muda completamente? Se tivesse que apostar, diria que é isso que vai acontecer. Que quando houver um combate político dentro do PSD, vai ser em torno disto, e o PSD pode voltar a ter um discurso semelhante ao que tinha. Basta ver o discurso de figuras do PSD hostis a esta liderança...

 

Pacheco Pereira parece de esquerda.

Manuela Ferreira Leite. Pacheco Pereira. Bagão Félix. Em vários aspectos parecem de esquerda.

Este momento de maior diferenciação política e ideológica, devido à debilidade dos partidos, devido à sua reduzida ligação a interesses reais na sociedade – mudam os líderes, mudam os discursos. O exemplo máximo disso é o CDS. O CDS é aquilo que o seu líder achar que o CDS deve ser naquele momento. [Portas] demite-se do Governo sem perguntar ao partido. As coisas são decididas de cima para baixo.    

 

Não apareceram partidos de extrema-direita. Porquê? Seria natural que eles aparecessem e reunissem as franjas de descontentes com o centrão?

Uma parte do descontentamento é captada pela extrema-esquerda. (Não quero usar “extremistas” como um qualificativo negativo.) Falámos do 25 de Abril: acho que é mais um legado relevante. Há determinado tipo de discurso de extra-direita que é aceitável, plausível e imaginável em Espanha, em França, e que em Portugal não é imaginável. Terceira explicação: a entrada desses movimentos no espectro político é muito difícil. Os partidos que existem estabeleceram barreiras à entrada de novas forças; tem a ver, em particular, com a questão do financiamento. Último ponto: a extrema-direita na Europa combina um discurso que é xenófobo, anti-imigração com um discurso anti-política, anti-partidos e anti-Europa.

 

Os portugueses são racistas e anti-imigração?

Nos inquéritos, vemos que são. O discurso é que não é politicamente aceitável. Não éramos anti-Europa porque a Europa era uma coisa bestial, de pessoas esclarecidas, que nos mandava dinheiro, que governava muito bem os seus países – porque é que não vinha governar o nosso? Estou a ser caricatural... Mas essa ideia de a Europa ser uma força benigna está a desaparecer. Há seis, sete anos, 80% dos portugueses diziam que confiavam muito na Comissão Europeia. Hoje em dia são 20%.

 

Continuamos à espera de um Sebastião que, vindo das brumas, nos vem salvar? Especialmente agora, que estamos perdidos, e em perda.

Reajo contra a ideia da singularidade portuguesa. Não digo que não haja, mas o meu material de trabalho não é esse. Somos parecidos com certos países e diferentes de outros. Não vejo a nossa singularidade, vejo a nossa comparabilidade. Preocupam-me as semelhanças com outros países destas novas democracias, todas elas com muitas promessas e muitas incertezas. O forte sentimento anti-partidos não aparece por acaso, a forte desconfiança dos outros... O mito sebastianista surge sempre porque muitas dessas promessas (de sermos iguais aos países com os quais nos comparamos) não se realizam. Como não se realizam, esse desencanto está mais presente aqui do que noutros países. Não tem a ver com o sebastianismo.

 

Tem a ver com o que não temos.

Tem a ver com o facto de, muito do que imaginávamos que fazia parte do pacote (um Estado Providência desenvolvido, mais igualdade, menos pobreza...) não se estar a realizar. Inclusive há sinais de que estamos em inversão em muitos destes aspectos. A frustração é inevitável. E ainda é maior porque a promessa era muito grande. Temos democracia, mas não temos o resto do pacote.    

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014