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Anabela Mota Ribeiro

Conceição Matos e Domingos Abrantes

28.04.18

Casaram em 1969. Mas antes disso tiveram uma vida. E depois de 74 tiveram outra. E antes dessas tiveram vidas paupérrimas, onde crescia a revolta e, estranhamente, havia espaço para a felicidade. Conceição Matos e Domingos Abrantes usam nomes ternos para chamar o outro. Nomes que surpreenderiam quem os conheceu, de aço, na luta antifascista.

“A pobreza é sempre mais ou menos suja”, escreveu Strindberg em O Sonho. A infância de Conceição e Domingos foi pobre, miserável, mas não suja. Sujo era o tempo. Eles quiseram inventar um tempo e um lugar diferentes. A sua vida, as suas vidas, é essa batalha.

Domingos Abrantes foi preso pela primeira vez em 1959. Participou na famosa fuga de Caxias em Dezembro de 61. Ligou-se a Conceição Matos em 1963, viveram uma vida clandestina. Funcionários do Partido Comunista (ele desde 54, ela desde 63), eram considerados subversivos pelo regime salazarista. Foram presos em 65. Domingos ficou preso até 73, Conceição ficou um ano e meio. Voltaria a ser presa em 68, por uns meses.

Foi na cadeia que Conceição comeu chocolates pela primeira vez. Conta isso enquanto oferece chocolates. Comeu-se uma caixa ao longo de três horas de entrevista. Domingos bebeu leite pela primeira vez em adulto. Tomámos chá, nessa tarde.

Ele tinha pedido que nos encontrássemos, ele e eu, antes da entrevista. Fiquei com a impressão de que me estava a dizer, sem dizer, que tivesse cuidado com Conceição. E pensei que aquele era um comportamento previsível num comunista da velha guarda. Sugeri que o nosso encontro fosse na Cister, um café e pastelaria da Rua da Escola Politécnica. Pessoalmente disse-me que não entrava lá há 50 anos. Como é que uma pessoa não entra há 50 anos num café? Numa vida antiga, era um lugar cercado por pides, e não voltou a pôr lá os pés.

Essa vida é antiga, mas é importante que seja presente. Porquê? Porque há o dever de contar. O título mais rigoroso para esta entrevista seria esse: o dever. O dever de não falar (na cadeia), o dever de falar (agora). O dever de estudar (evoluir). O dever de lutar (sempre) por um mundo melhor.

A entrevista diz respeito ao tempo em que foram revolucionários e termina em 1974. Nasceram em 1936. Nenhum deles chorou. Riram várias vezes. Parecem felizes. 

 

Como era o seu vestido de casamento?

CONCEIÇÃO – Tenho-o ali à mão. O de casamento. Não aquele que usei quando a gente se ligou.

 

Houve dois momentos?

CONCEIÇÃO – O do momento em que nos ligámos – na clandestinidade – era um fato vermelhusco. Casámos porque não podíamos fazer outra coisa. Casámos para eu poder visitá-lo [na prisão].

DOMINGOS – Eu era responsável pelo trabalho [do PCP] na margem sul do Tejo. A Conceição começou a ter tarefas no partido. Ligámo-nos. Obviamente a ligação só podia ser na clandestinidade.

 

Quando diz que se ligaram quer dizer que começaram a viver juntos?

DOMINGOS – Sim, tornámo-nos marido e mulher. Não no papel, mas pronto. Instalámo-nos provisoriamente uma casa de camaradas legais. Depois alugámos casa na Amora, na Costa da Caparica e no Montijo.

 

Ligaram-se depois da sua fuga de Caxias no carro blindado de Salazar que tinha sido oferecido por Hitler (1961). Falaremos da fuga mais tarde. Quando é que casam?

CONCEIÇÃO – Casámos em Peniche, em 1969.

DOMINGOS – No tempo do fascismo, como legalmente não éramos casados, ela não me podia visitar. Estivemos quase cinco anos sem visitas.

 

Tinham alguma maneira de comunicar?

DOMINGOS – Naturalmente cifrada.

CONCEIÇÃO – Uma vez, eu estava presa em Caxias, ele em Peniche. O Domingos tinha escrito estas palavras: “Na minha frente, tenho a fotografia dela. A vida a seu lado era mais bela e mais fácil. Quero-lhe muito, muito, muito. Transmite-lhe beijos e a gratidão do meu amor profundo”. Não falava em nomes, nem meu, nem dele. Só por isto, não me deram a carta. No entanto, sabiam perfeitamente que éramos marido e mulher.

 

Como foi a cerimónia em Peniche? Triste?

CONCEIÇÃO – Triste não podia ter sido. Foi uma coisa formal.

DOMINGOS – Primeiro sarilho: os padrinhos. Rejeitavam os nomes que propúnhamos.

 

O vosso padrinho – primeira escolha – era Álvaro Cunhal?

DOMINGOS – Não. A nossa ideia era que os padrinhos fossem ao casamento. Ele não estava cá. Acabou por ser gente de família. Foi numa sala do forte. As perguntas da praxe e pronto. Não houve beberete, não houve nada.

CONCEIÇÃO – Fotografias, nem uma. Não usei vestido. Era uma saia e um blusão. [riso] Da filha da minha madrinha. Eu não tinha hipóteses.

DOMINGOS – Eu fui com a roupa que tinha na cadeia. Não era farda, era a roupa do dia-a-dia.

CONCEIÇÃO – Estavas arranjadinho.

 

Como é que se está quase cinco anos sem ver a outra pessoa, sem um contacto directo (a vossa comunicação resumia-se a cartas enviesadas), e se consegue manter um contacto com a cabeça do outro, o coração do outro, o mundo do outro?

DOMINGOS – Conhecemo-nos numa determinada circunstância, sabíamos os riscos que corríamos, estávamos preparados. A ligação afectiva, ou existe ou não existe. A nossa era forte.

 

Como é que pensava nele (o Domingos preso, a Conceição cá fora)? A segunda prisão do Domingos é de 65 a 73.

CONCEIÇÃO – Estava sempre a pensar nele. Sabia que não o podia ver, mas ia todas as semanas a Peniche. Tentar. Estava com as outras famílias. Angariava coisas para os presos, assinaturas para protestar no Ministério da Justiça.

 

Fazer isso era uma maneira de estar ligada a ele.

CONCEIÇÃO – A ele e à luta e às outras pessoas. Tínhamos de ver qual era o piso que tinha mais dificuldades, mandar coisas para o pavilhão que tivesse mais faltas. Todas as semanas ia com a minha madrinha ao supermercado. Ela vivia bem e perguntava-me de que é que precisavam. Queijo, isto e aquilo. Muitas vezes, coisas que eram para o Domingos não chegavam ao Domingos. Não era só eu que fazia isso.

DOMINGOS – O que entrava era para o colectivo. Havia uma comuna e um cantineiro, um camarada que fazia a gestão dos bens comunais. Muitas vezes os carcereiros proibiam a existência de comunas. Quando era permitido levar para o refeitório, distribuía-se o que havia.

 

As cartas eram um elemento fundamental de comunicação. Estando preso, quantas quartas podia enviar por semana?

DOMINGOS – Podíamos escrever duas vezes por semana. Nos anos em que não estávamos casados, escrevia para a minha mãe ou para a minha irmã. Só se podia escrever para familiares directos. Liam tudo. Temos um postal em que não ficou uma única palavra. O que é curioso é que o deixaram seguir. Coisa abstrusa. Eram cartas contidas, na linguagem, nos afectos. Sabia-se que passavam pelas mãos dos carcereiros.

CONCEIÇÃO – Depois de termos casado, escrevia todos os dias ao Domingos. Nem que me deitasse às não sei quantas. Meia dúzia de letras. Eu podia escrever-lhe, ele não.

 

Durante muito tempo, e de um modo geral, as mulheres eram as mulheres dos revolucionários. Como é que se tornou revolucionária?

CONCEIÇÃO – Como é que entrei nisto? O meu irmão Alfredo era do MUD Juvenil. Segui os passos dele. Éramos uma família de sete irmãos, pai operário. Vivíamos mal, como é evidente. Nasci em São Pedro do Sul [1936] mas fui com três anos para o Barreiro. Havia muita miséria. Isso ajuda a entrar na luta.

 

A criar uma revolta?

CONCEIÇÃO – Exactamente. Escrevíamos nas paredes contra a guerra colonial. Contra o abrir o Tarrafal. As palavras de ordem. Enchíamos os bolsos de papéis a incitar à luta, de Avantes!. O meu pai trabalhava na CUF, as minhas irmãs trabalhavam na CUF, esse meu irmão trabalhava na CUF. Foi preso – maior revolta [criou]. Eu tinha 17, 18 anos. Estava preso no Aljube e foi casar ao Calhariz...

DOMINGOS – É uma família que casa na cadeia. [riso]  

 

Que instrução tinha? Não era provável que numa família de sete filhos, num bairro operário, prosseguissem os estudos.

DOMINGOS – Nos bairros operários, aconteceu com ela, aconteceu comigo: chegar à quarta-classe já era bom. Começava-se logo, logo a trabalhar. Para ajudar.

CONCEIÇÃO – Quando acabei a quarta-classe agarrei-me ao que aparecia. Andei na costura, fui para uma fábrica de pirolitos lavar garrafas, depois para uma fábrica de cortiça espaldar. Sabe o que é espaldar? É cortar com uma faca grande a casca da cortiça. Trabalho pesado. Trabalhei na CUF pouquíssimo tempo, um contrato de seis meses.

DOMINGOS – Trabalhava-se a prazo. É como hoje.

 

Domingos, que história é a sua?

DOMINGOS – A história é a mesma, tirada a papel químico. Nasci em Vila Franca mas vim muito novo para o Poço do Bispo. Uma densidade de fábricas e trabalhadores colossal. Cresci num ambiente antifascista. Éramos cinco irmãos, mas, no meu tempo, já só quatro. Entrei numa fábrica aos onze anos.

 

Completou a quarta classe?

DOMINGOS – Sim. Tive um professor que achou que eu devia continuar a estudar. Uma pessoa magnífica que não tinha ideia do que era uma família operária. Os meus irmãos trabalhavam, só faltava eu. Na fábrica havia alguma influência do partido. Tinha um mestre que dizia: “Não percebo nada de política. Não sei o que é o comunismo. Mas se os capitalistas não gostam do comunismo, [o comunismo] é capaz de ser bom para a gente”.

 

As pessoas da vossa família, de uma forma ou de outra, estavam empenhadas na luta política.

DOMINGOS – O meu irmão, mais velho, começou a ter actividade política. Entrei para o MUD juvenil, devia ter uns 17 anos, e fui por aí fora.

CONCEIÇÃO – Uma coisinha que não disse há pouco: já não éramos sete irmãos. Éramos cinco.

 

Era um tempo de mortalidade infantil muito alta. Os seus irmãos morreram crianças?

CONCEIÇÃO – A minha mãe teve 16 filhos. Eu conheci sete, contando comigo. Sobreviveram cinco. Morreram de doenças e necessidades. Mais tarde fiquei tuberculosa. Estive internada no sanatório, três meses. Tinha 18 anos. Consequência da vida difícil que estava para trás. Outra coisa que não disse: era um meio em que porta sim, porta sim, havia gente do partido.

 

O partido...

CONCEIÇÃO – Não era preciso dizer Partido Comunista. Era aquele.

DOMINGOS – A vida nos bairros operários era terrível. Leite?, já era adulto quando bebi leite pela primeira vez.

 

O que era o seu pequeno-almoço quando era criança?

DOMINGOS – Era um café de chicória com pão. Manteiga, não me lembro de ter comido.

CONCEIÇÃO – Em minha casa, café de cafeteira. Ficava a borra no fundo. A minha mãe já tinha alguma idade e nós dizíamos: “Ah, mãezinha, passámos tanta fome”. E ela: “Filhos, não digam isso. Nunca vos deixei passar fome. Encheram sempre a barriguinha de sopa”. Não era a sopa que hoje comemos..., grossa, com feijão. Era um caldo com meia dúzia de hortaliças.

DOMINGOS – Uma vez o meu pai foi despedido. Sensação terrível. É como desabar um prédio. Posso imaginar, hoje, a situação de muita gente. Eu, felizmente, nunca passei por isso, mas havia miúdos do meu bairro que iam à Sopa do Sidónio.

 

O que era a Sopa do Sidónio?

DOMINGOS – Uma sopa do tempo do Sidónio [Pais] que ficou, no tempo do Salazar, como a Sopa do Sidónio. Os miúdos iam buscá-la em latões.

 

Com que é que sonhavam quando eram crianças?

DOMINGOS – Isto hoje será difícil de entender, mas considero que tive uma infância feliz.

CONCEIÇÃO – Eu também.

DOMINGOS – Os meus pais eram pessoas paupérrimas, mas eram capazes de fazer todos os sacrifícios para dar pequeninas coisas aos filhos. A minha mãe era uma mulher de tipo prático. O meu pai era mais racional, muito humano, com moral elevada.

No Natal púnhamos os sapatinhos na chaminé.

CONCEIÇÃO – Nunca pus.

DOMINGOS – Um Natal o meu pai disse: “Não ponhas o sapato que não vai aparecer nada.” Não acreditei. No dia seguinte não estava lá nada. Porque é que digo, então, que foi uma infância feliz? Os pais saíam para as fábricas e os miúdos viviam em bandos. Jogávamos à bola, íamos para a praia (as docas). O dia inteiro entregues a nós próprios. Um grande espírito de solidariedade. Uma marca destes bairros: a solidariedade entre vizinhos.

 

O que é que imaginava que a sua vida ia ser? O que é profissionalmente gostaria de ser?

DOMINGOS – Já não me lembro das aspirações que tinha. O ter trabalho já era uma coisa boa.

CONCEIÇÃO – Aquilo com que se sonhava era ter trabalho. Um trabalho que desse para viver.

DOMINGOS – Antes de ir para a fábrica trabalhei numa oficina. Ganhava 20 escudos por semana. Houve uma semana em que o patrão não me pagou. A minha mãe estava à espera daquele dinheiro... Aquele dinheiro era como pão para a boca. Quando entrei para a actividade política o sonho já era outro. Era o sonho de transformar o mundo.

 

De pequenas alegrias, lembram-se?

DOMINGOS – A certa altura, Salazar proibiu que se andasse descalço. Eu andava descalço, ia para a escola descalço. Apareceram umas alpergatas e uma socas de madeira. Aquilo era um luxo! [riso] Ainda me lembro da primeira vez em que saí à rua com as socas. Batia com os pés no chão! Era como se fosse um sapato de tipo italiano. Tinha uns oito anos. Outra alegria, que mostra quem era o meu pai. Eu tinha uma grande paixão pelos touros. (Ainda andei a aprender para toureiro...) Para ir à tourada eram 20 escudos. O meu pai..., não sei como é que arranjou dinheiro. Apareceu-me nos Restauradores com 20 escudos. Uma fortuna. Nunca mais me esqueci daquilo.

CONCEIÇÃO – Eu já me sentia muito feliz quando era capaz de fazer as calças dos meus irmãos, um vestidinho para a minha mãe. Costurava à mão. A minha mãe gostava muito de um bolsinho. Às vezes o tecido não chegava. Nem que pusesse um bolsinho muito pequenino, ela já gostava.

Sabemos que não quebraram na cadeia, não falaram. Pergunto-me sempre onde é que estas pessoas se fizeram tão resistentes, tão valentes.

CONCEIÇÃO – Não sabia que era valente. Vou contar-lhe uma história. Tinha uma amiga no Barreiro que era muito combativa. Um ídolo. Íamos juntas para as manifestações, ela sempre na primeira linha. Entretanto soube que tinha sido presa e que tinha falado. “Se ela falou, que é que vai ser de mim?” Comecei a ter tantas dúvidas... Mostrei as minhas dúvidas ao Domingos, a outras pessoas. “Ah, não penses nisso.” Sou presa, 1965. A PIDE arromba a porta com pé de cabra, entra, pistolas apontadas ao meu peito. “Mãos ao ar!” Eu tive a certeza (não podia ter a certeza..., mas tinha a certeza) de que não ia falar. Uma coisa em mim...

 

Era a zanga, a fúria contra os pides? O que é que crescia em si e a fazia pensar que não falaria?

CONCEIÇÃO – Não podia trair o partido. Não podia falar de outras pessoas que, além do mais, também iam ser torturadas.

 

Como é que o Domingos sabia que era valente?

DOMINGOS – O termo valente, não sei se é adequado.

 

Não?, não se trata de valentia?

DOMINGOS – Já perguntaram à Conceição se se considerava uma heroína... É uma questão de dever. Uma pessoa que é presa tem um dever. Assumiu um compromisso para com os seus camaradas, os seus ideais, tem o dever de os defender. Cada preso é um preso. Tem uma história, tem responsabilidades diferentes. Não sabe o que se passa cá fora. Quando fui preso, da segunda vez, ainda na carrinha, os pides davam-me a ideia de que tinham prendido o partido quase todo.

 

As pessoas que estavam na clandestinidade sabiam que ser presas era uma hipótese.

DOMINGOS – Tinham de estar preparadas para isso. Não se trata de valentia. Não é uma questão física.

CONCEIÇÃO – Pois não.

 

Então?

DOMINGOS – É uma questão moral. Conheci pessoas de uma grande fragilidade física que se portaram com heroicidade e pessoas possantes que se portaram como crianças. Ali tudo é posto à prova. As convicções são postas à prova.

 

A pessoa prepara-me mentalmente. Outra coisa é estar na situação. E muitas vezes, na situação, não nos portamos à altura.

DOMINGOS – Não conheci ninguém que pensasse que ia falar. Toda a gente que passou pela polícia achava que se ia aguentar. Se houvesse alguma desconfiança era em relação aqueles que não tinham medo. Uma marche aux flambeaux? Não era. Aquilo era um embate em que se podia morrer. O limite era a própria vida. A camaradagem era um valor.

 

“... terra da fraternidade...”, diz a canção de Zeca Afonso.

DOMINGOS – Quem está preso tem de defender quem está fora. Os que estão cá fora estão a lutar, também, pelos que estão lá dentro. Isto não quer dizer que os que falaram não tinham valores morais. O problema é que não se prepararam.

 

Como é que uma pessoa se prepara? Na conversa com camaradas mais velhos? Seguindo exemplo?

CONCEIÇÃO – Tínhamos um livrinho, “Se fores preso, camarada”.

DOMINGOS – Havia coisas clássicas. O pide bom e o pide mau. A chantagem que faziam com os casais (diziam que a Conceição já tinha falado, a ela diziam que eu já tinha falado). As conversas, a troca de experiências ajudam muito. Mas a realidade é muito diferente. A pessoa tem de tomar decisões e não vai ao livro. Quem é preso tem de marcar o ritmo.

 

Como é que se marca o ritmo quando se está numa situação de vulnerabilidade, isolado?

DOMINGOS – Nunca lhes disse bom dia nem boa tarde. Eles chegavam: “Bom dia”. E eu, moita carrasco: “Não insista. Não lhe vou dizer bom dia”. Mas, se se diz isto, nunca mais se pode dizer bom dia. Eu nem disse o nome... Fui julgado porque era obrigatório uma pessoa identificar-se.

 

Por marcar o ritmo quer também dizer boicotar o jogo do adversário?

DOMINGOS – Sim. Tem um custo. Levar pancada. Uma pessoa que fala perde o respeito por si própria.

 

Diz isso como se não falar fosse uma coisa fácil.

DOMINGOS – Mas quem é que diz que é fácil?

 

Diz isso como se fosse só uma escolha.

DOMINGOS – Mas é que é uma escolha. Então não é uma escolha? A pessoa que fala no dia seguinte é uma pessoa diferente. Traiu os seus companheiros, a confiança que o partido depositou nele, os seus ideais. Atrasou a luta (o falar implica custos: prisões, destruição de tipografias). [A tortura] é um momento extremamente doloroso. Não é um passeio. Dez, 12, 14 dias sem dormir, espancado. As pernas atingem proporções descomunais. Mais morto do que vivo. Mas aquilo é uma batalha. Que se perde ou se ganha.

 

Teve camaradas que falaram? Qual foi a sua reacção?

DOMINGOS – Do grupo com que estive preso, só me lembro de um que tenha falado. Houve gente que entrou em negociações com a polícia, tinha benesses por causa disso. Os rachados. Ficavam no índex.

 

Não lhes dirigiam a palavra?

DOMINGOS – Nem bom dia nem boa tarde. Nada. Outra coisa era um companheiro que se tinha portado mal. Alguns tinham um esforço extraordinário de recuperação.

 

Esses contavam, depois, que tinham falado?

DOMINGOS – Sim, é uma coisa que se esclarece logo. Quando estive em Caxias, a primeira coisa que me perguntaram – estava a porta [da cela] aberta: “Como é que foi?”.

CONCEIÇÃO – Houve pessoas que não disseram que falaram. Depois do 25 de Abril é que se soube, depois da abertura dos processos. Estava a lembrar-me da minha segunda prisão [1968]... Prenderam-me à porta do emprego. Na PIDE disse: “Vamos ficar já claros. Foi aqui nesta sala que me deram cabo da saúde. Tal como da outra vez, podem-me matar que eu não tenho nada a dizer.” Chamaram o [inspector] Tinoco: “Tenho muita honra em ter sido eu a dar-lhe cabo da saúde. Só tenho pena de não lhe ter dado cabo da vida”.

DOMINGOS – A polícia que tem um preso na mão vai avaliando duas coisas. Se a pessoa aguenta ou não fisicamente. Vem um médico que diz que podem continuar a espancar que ainda aguenta... Às vezes enganam-se, e enganaram-se. A outra coisa: vai avaliando o estado da mente da pessoa. Por marcar o ritmo quero dizer: a polícia não pode ter a ideia de que a pessoa vai fraquejar.

 

O Domingos tinha fama de ser especialmente duro.

DOMINGOS – A primeira vez que fui preso era jovem, tinha o sangue na guelra. Estava no Aljube, isolado. Não tinha visitas, escrita, jornais. Há quase três meses. 12 de Agosto de 1959. Consegui ver por uma frincha um guarda a ler O Século. “Foguetão soviético a caminho da Lua”. Ele ouviu barulho, abriu a porta, danado. “Tudo mentira. Propaganda comunista!” Nessa noite apareceu-me um pide. “Vista-se para ir à polícia”. Na carrinha disse-lhe: “Ouvi dizer que os americanos mandaram um foguetão para a Lua”. O homem, possesso. Seu filho deste. O arsenal de palavrões que sabia. E com ânsia de malhar. Pensei: “Já ganhei o dia”.

 

Por conseguir irritá-lo.

DOMINGOS – Subia-se ao terceiro andar [da Rua António Maria Cardoso]. Apareceu o inspector Farinha, que era um gajo intelectual. Uma aventesma. Fez uma pausa. “Não foram os russos nem os americanos. Foi a Humanidade.”

A tortura não é só sofrimento. Também é uma forma de a pessoa se superar a si própria. Eles espancam, torturam. Mas não têm a possibilidade de vergar.

 

A pessoa que não fala sente orgulho em si própria.

DOMINGOS – Realizou-se.

 

Tinha uma referência, alguém que não podia desiludir?

DOMINGOS – Não. O único herói era o partido. Assumi um compromisso para a minha vida, voluntariamente. No partido há mártires, heróis que foram torturados até à morte.

 

Disse que alguém que fala no dia seguinte é outra pessoa. Conseguiu compreender e perdoar e manter uma relação com alguém que falou?

DOMINGOS – De um ponto de vista partidário, falar significava uma expulsão automática. Se a pessoa passou para o outro lado, é o fim da relação. Se é um camarada que fraquejou, [não]. Conheço camaradas que se portaram mal e que pela vida fora recuperaram. Alguns mostraram grande valentia. Caso do Tereso.

 

António Tereso foi um dos presos que estiveram na famosa fuga de Caxias, no carro blindado.

DOMINGOS – Falou na polícia. Tinha um desejo de recuperar, enfrentar o inimigo. O grande problema de a polícia o aceitar como rachado (falso rachado, neste caso) é que ele afrontou o tribunal. Queria servir o partido, e serviu-o de modo exemplar.

 

Como é que se redimiu?

DOMINGOS – Nós estávamos todos condenados a bastantes anos de cadeia. Ele ia sair dentro de dias. Podíamos ter sido todos mortos. O Tereso, além disso, arriscou a liberdade. A vida dos que não falaram é uma vida muito mais simples.

 

Do ponto de vista emocional e psicológico?

DOMINGOS – Pois. Não têm esse drama. Sei de um jovem que se tentou suicidar depois de ter falado.

 

Mesmo à família, havia coisas que não se diziam. Contaram-me que quando estava preso, a sua família se esforçou para lhe dar um fato e não pôde dizer-lhes que estavam a preparar a fuga e que não iria usá-lo.

DOMINGOS – Fui julgado duas vezes; era desertor e mandaram-me para o tribunal militar [o segundo julgamento seria aí]. Nessa altura, já sabia em que dia íamos fugir [de Caxias]. A minha mãe meteu na cabeça que devia ir a tribunal bonito. Levar um fato. Um fato feito a olho, que não foi lá nenhum alfaiate. Eu tinha mais ou menos o corpo do meu irmão. Fiz um esforço gigantesco para convencer a minha mãe de que o fato era uma inutilidade. Não lhe podia dizer que ia fugir, não é?

 

Nem à sua mãe?

DOMINGOS – Nem à minha mãe, pois é evidente. Que garantia tínhamos que a minha mãe não dizia à minha irmã e a minha irmã não dizia ao meu irmão? As pessoas dizem: “Não digas nada a ninguém”. Diz a outro e pede-lhe que não diga nada a ninguém. O sigilo era absolutamente fundamental. A fuga teve de ser bem calculada... As nossas famílias concentravam-se do lado de fora do portão.

 

O que estava planeado, contaram mais tarde, era que o carro saísse a grande velocidade.

DOMINGOS – O carro tinha que derrubar o portão, e podia encontrar famílias do lado de lá. Tivemos que escolher um dia, segunda-feira, em que, com grande probabilidade, não haveria visitas. O grosso das visitas era ao fim de semana. E tinha de ser o mais cedo possível (as visitas começavam às 10h). Não podíamos dizer às famílias: “Não apareça cá ninguém na segunda-feira”. Não é uma questão de confiança. É uma questão de princípio.

 

Uma brecha pode deitar tudo a perder.

DOMINGOS – Pode. Portanto o fato lá ficou. A família tinha poupado dinheiro. O fato custou os olhos da cara. A minha irmã, que era uma mulher muito corajosa, um dia, na Rua do Ouro, encontrou um pide com o fato. Começou a dizer: “Este fato era do meu irmão! Este fato foi roubado ao meu irmão!”. O pide raspou-se.

 

A noção de privacidade era preciosa e difícil. Como tinham a ideia de que tudo podia ser apanhado, e usado como elemento de acusação, não se conservava nada. Como era convosco?

DOMINGOS – Todas as noites levávamos para o quarto um frasco de álcool, uma panela e fósforos para queimar papéis, se fosse preciso. Repare que passávamos meses e meses sem ver a família, sem trocar correspondência. E era preciso ter cuidados. As nossas casas clandestinas eram reduzidas ao mínimo. Quando as casas eram assaltadas a polícia roubava tudo. Móveis, livros, um dinheiro que estávamos a juntar para comprar um relógio.

 

Como eram essas casas?

DOMINGOS – Tinham uma encenação para a vizinhança. Lá dentro, o indispensável.

CONCEIÇÃO – Uma vez convidaram-nos para um casamento. A vizinha do lado, a filha ia casar. Dissemos que não íamos ao casamento porque eram os anos do irmão do Domingos. Mas pediram-nos a mobília da sala, a mesa e as cadeiras (a gente também não tinha mais nada).

DOMINGOS – E eu era engenheiro... A mesa tinha sido comprada num ferro velho. Um engenheiro tinha uma mesa daquelas?

CONCEIÇÃO – Estava toda pregada. Tivemos que emprestar a mesa. Era um bocado careca não o fazer. A desculpa que demos: que era uma velharia de uma bisavó.

 

Nas vossas vidas clandestinas como é que se chamavam?

CONCEIÇÃO - Chamei-me Marília, Maria Helena, Benvinda. Ele chamou-se José Augusto, Zé qualquer coisa. Fiz contrato de água e luz com nomes falsos. O Domingos fez contrato da casa com nome falso.

 

Não pediam identificação?

DOMINGOS – Bilhete de identidade, tínhamos. Isso não era problema. O problema era que pediam fiador. O problema era ludibriar o senhorio e levá-lo a não querer o fiador. Apresentei-me no Montijo com um sobretudo inglês que um camarada do Barreiro me tinha emprestado.

CONCEIÇÃO – Por acaso era muito bonito.

DOMINGOS – Punha os olhos em bico. Engenheiro. Não havia nenhum no prédio. O senhorio viu logo que eu era uma pessoa honestíssima. Prescindiu do fiador. Era um homem sério. Quando fomos presos por identidade falsa, no Montijo, fomos a julgamento. Puseram o senhorio como testemunha de acusação.

CONCEIÇÃO – A minha cunhada e a minha mãe contaram-me que ele se encheu de elogios. “A senhora era muito simpática, pegava na minha filha ao colo.” Ou seja, a testemunha de acusação passou a ser testemunha de defesa.

 

Quando a notícia da vossa prisão vinha no jornal, que palavras eram usadas para vos descrever?

DOMINGOS – Subversivos.

 

Pensaram ter filhos?, ou aquele era um tempo de dedicação à luta e ao partido?

DOMINGOS – Ter filhos, na clandestinidade, era tremendo para as crianças e sobretudo para as mães. É uma coisa de que se fala pouco. Além de que tinham de ir para a escola. Os miúdos podiam dizer qualquer coisa do que se passava lá em casa. Alguns filhos cresceram à margem dos pais.

 

Os filhos eram usados nos interrogatórios contra as mães?

DOMINGOS – Sim. Mas o problema principal era o da separação. Por vezes levava mães a fraquejar. Era uma opção difícil.

 

Falaram sobretudo da luta. Falaram pouco da vida do casal.

DOMINGOS – A vida do casal não é separada da luta. Nós tornámo-nos um casal na luta. Perguntam-me: “Quando escreves as memórias?”. A nossa memória não é uma memória pessoal. Onde é que começa o que eu fiz, o que a Conceição fez e o que fez o colectivo? Não existe.

 

Os vossos problemas de casal – e todos os casais os têm – eram passados para segundo plano porque os problemas principais eram os da luta?

DOMINGOS – A Conceição dirá, mas acho que não tivemos grandes problemas de casal.

CONCEIÇÃO – Pois não. Fizemos 50 anos de casados o ano passado.

DOMINGOS – E não são uns 50 anos quaisquer. A nossa passagem pela polícia, o tempo em que estivemos separados, tudo aquilo por que passámos solidificou a relação.

 

Solidifica porque os dois se portam de determinada maneira. Imagine que não era assim...

DOMINGOS – Tinha terminado. Se eu ou ela nos tivéssemos portado mal, não estávamos aqui.

CONCEIÇÃO – Não estávamos aqui, não.

DOMINGOS - Para alguns casais, não era problema. Para nós, era. Nunca falámos disso, mas...

 

Como é que nunca falaram disso?

DOMINGOS – Era uma coisa que estava implícita. Sempre acreditei que a Conceição não ia falar.

 

Quando nos interrogatórios vos diziam que o outro tinha fraquejado, nunca vos passou pela cabeça que isso pudesse ter acontecido?

CONCEIÇÃO – Nunca! Era a toda a hora, de noite e dia. “Ele já falou. Está armada em heroína, para quê? O tempo da Maria da Fonte já acabou.” Não mata nem mói.  

DOMINGOS – Ela era uma das poucas pessoas em quem tinha uma confiança quase ilimitada. Fomos pela segunda vez para a clandestinidade no dia 6 de Fevereiro de 1974. À boca do 25 de Abril. Claro que não sabíamos que ia haver o 25 de Abril. Partimos para uma grande viagem. Demos a máquina de lavar a um, o frigorífico a outro. Quando regressámos, depois da revolução, estava lá tudo. Ninguém tido ido buscar nada. Não sabíamos quando é que voltávamos, se é que voltávamos. Isto para dar ideia das opções.

 

Quando é que prosseguiu os estudos?

DOMINGOS – Andei na escola industrial à noite até ao quarto ano. Depois fui para a clandestinidade e lá se foi o quarto ano. Quando fui preso, deixavam entrar livros escolares. Fiz o quinto ano do liceu na cadeia. Se não tenho sido libertado, fazia o sétimo ano.

 

Foi lendo sempre? Tem um vocabulário rico. Há pouco usou a palavra “abstruso”.

DOMINGOS – Pois. Que é que fazíamos na cadeia? Estudávamos, líamos. Li centenas de livros. Estudar era um dever.

 

Também ocupava o tempo jogando xadrez. Era um exercício de inteligência ou um entretém?

DOMINGOS – Eu era um grande apaixonado pelo xadrez. Aprendi a jogar em Caxias. Deixei de jogar xadrez porque perdia muito tempo. O meu futuro não era jogar xadrez. Um dia fui à Hungria passar férias.

CONCEIÇÃO – Fomos.

DOMINGOS – Apareceu no hotel o campeão da Hungria a fazer umas simultâneas. E eu ganhei!

CONCEIÇÃO – Não digas isso na entrevista.

DOMINGOS – Foi um bomba. O campeão mandou-me uns emissários, queria a desforra. Nunca mais me largaram. [gargalhada] Lá se foi a glória! Nunca mais lhe ganhei.

 

Quais são as características que o xadrez exige?

DOMINGOS – Ponderação, sobretudo.

 

É um bom exercício para a clandestinidade. O que é que a Conceição fazia na cadeia?

CONCEIÇÃO – Lia. Estudava francês. Líamos e discutíamos os jornais em conjunto. Fazia trabalhinhos de costura para descontrair. Tudo à mão. Era a minha sogra que mandava tecidos lá para dentro. Fiz um guardanapo para mandar ao Domingos, com um ajur e a letra do nome dele. A família também pedia que fizesse coisas. Uns naperons. Pegas para os tachos. Bordados.

 

A PIDE tratava as pessoas de maneira diferente consoante a classe social. Mário Soares fala disso; o chamado filho família não era torturado como um operário ou um funcionário do partido. Quando usam a palavra morte, estão a pensar na violência que foi exercida sobre os dois?

DOMINGOS – É sabido que havia um sentimento de classe. Eles, aos doutores, tratavam-nos por doutores. A mim tratavam-me por tu e outras coisas. Grosserias enormes. Também há excepções; Álvaro Cunhal foi espancado. A morte: era uma possibilidade real.

CONCEIÇÃO – A pessoa pensa que vai morrer mesmo. Quando dizem: “Daqui não sai com vida. Ou vai para a morgue ou para o Júlio de Matos” [bate com o punho na mesa várias vezes em sinal de massacre]... Uma pessoa chega a um ponto em que diz: “Matem-me, matem-me”.

 

Na sua primeira prisão, em 1965, foi alvo de uma violência e uma tortura humilhante. Foi interrogada na António Maria Cardoso, esteve em Caxias e depois foi novamente interrogada na sede da PIDE. Como é que era vista dentro da cadeia pelas outras camaradas?

CONCEIÇÃO – Com um certo respeito. Estive muito tempo isolada. Fiquei 17 dias numa cela, sem nada.

 

Como sabe que foram 17 dias?

CONCEIÇÃO – Com a unha, riscava os dias num armário. Estava todos os dias a pensar: “Quando é que me vêm buscar?”. Vi passar uma carrinha e pareceu-me ver o Domingos.

DOMINGOS – Ela não sabia que eu estava preso.

CONCEIÇÃO – Parecia a cara dele, mas estava careca. Desviei.

DOMINGOS – Tinham-me rapado o cabelo.

CONCEIÇÃO – Depois da tortura do sono, espancamento, de me obrigarem a fazer as necessidades no chão, de serem limpas com a própria roupa... Iam despindo a minha roupa, peça a peça. Queriam obrigar-me a levar a roupa suja para a casa de banho, mas não levei. “Então agora não vou à casa de banho e sou eu que tenho de levar a roupa suja?”

 

Obrigaram-na a urinar e defecar na sala de interrogatório. Quanto tempo durou esse interrogatório?

CONCEIÇÃO – Três dias e três noites. Uma dizia: “Tenho vergonha de ser mulher. Não vai à casa de banho porque não quer. Fale e pode ir”. Logo, eu é que era culpada de não ir à casa de banho.

Voltei para Caxias. Ouço na cela a bater na parede. Sabia que se comunicava assim. Nas pancadas perguntaram: “Tens um selo que vendas a um camarada nosso?” O que perguntavam logo: quem és tu?, onde foste presa? Disseram-me que no Montijo tinha sido preso um camarada muito responsável. Comecei outra vez a abanar... Se calhar o Domingos estava mesmo preso. Mas não tinha certezas nenhumas. “Foste torturada?” Contei. E espalharam.

 

Incomodou-a, que se soubesse?

CONCEIÇÃO – Não, não incomodou. Não sabia que tinham feito isso. Até foi bom. A minha família não sabia de mim. “Falaste? Coragem hoje, abraços amanhã.”

DOMINGOS – Há agora uma peça de teatro com este título.

 

Essa frase era só uma saudação ou também funcionava como senha?

CONCEIÇÃO – Era só uma saudação. (Sabes como é que tive a certeza de que estavas preso? Pela Sofia Ferreira, que passou por mim no corredor e me disse.)

 

A PIDE sabia que era comum, com a tensão emocional, que aparecesse a menstruação. No documentário de Susana Sousa Dias, 48, várias mulheres falam isso. Era uma humilhação de género.

CONCEIÇÃO – Eu tive a menstruação. E não tinha com que me limpar. O Tinoco dizia: “Ele está muito preocupado que lhe venha a menstruação e não tenha pensos higiénicos.” Ele – o Domingos. Os espancamentos (e tive muitos), a gente aguenta. Os pontapés, os murros, o flash nos olhos. Agora, aquelas torturas morais... a mim doeram-me muito mais. Doeu-me terem-me despido à frente daquelas pessoas. Entraram todos, dez. Tentei esconder-me atrás de uma mesa, mas a pide Madalena empurrou-me para o meio da sala. Isto depois de me espancar, “Fala, sua puta. Não te rias” Chora, tens de chorar”. Queria obrigar-me a chorar!

 

E nunca fraquejou. Pensou em quê? Apoiou-se em quê?

CONCEIÇÃO – Lembrei-me de um livro que tinha lido há pouco, o Arco-Íris, da Wanda Wasilewska. Era um livro sobre uma moça na estepe, grávida, a baioneta atrás. Comecei aos gritos: “Um, dois, três, quatro, dez. Dez monstros, dez canalhas, bandidos. Mas o povo há-de vingar-se”.

 

Foi diferente na segunda vez em que foi interrogada?

CONCEIÇÃO – Dessa vez, despiram-me completamente. Na primeira vez tinha ficado em combinação. Passados uns dias mandaram-me a roupa suja num papel pardo. Tive de a lavar no lavatório. Não tinha mais nada para vestir.

 

Encontrou a pide Madalena cá fora?

CONCEIÇÃO – Fui ao julgamento dela. Fui testemunha de acusação. Dela, do Tinoco, de uns quantos. Sabe o que é ter a sensação de que nós é que somos as rés? Os juízes que os julgaram eram todos do antigamente.

DOMINGOS – Fui ao julgamento do Tinoco. Fui uma vez e nunca mais lá pus os pés. O juiz dizia: “Não pode ser!” E o pide: “Está a ver? Ele está a querer enterrar-me”.

CONCEIÇÃO – Com a Madalena, foi diferente. Foi condenada. O juiz disse: “Estas mulheres não podem estar a mentir”.

 

Quando é que soube que a Conceição tinha sofrido esta humilhação e tortura?

DOMINGOS – Muito meses depois.

CONCEIÇÃO – Para mim era difícil falar disto.

 

Tinham de escrever um relatório para o partido depois dos interrogatórios. Contou o que lhe tinha acontecido?

CONCEIÇÃO – O meu relatório não é nada disto. Foi uma coisinha pequena. Nem estava em condições de o fazer.

 

Isto deixa marcas emocionais profundas. Passaram 50 anos. Continuam a sonhar com aquilo?, a lembrar-se daquilo por que passaram?

CONCEIÇÃO – Não. Penso nisto quando me pedem uma entrevista, quando vou a uma escola. Quando se remexe nas coisas custa-me tanto, tanto, tanto. Mas tenho o dever de dar o meu testemunho. Se não dissermos o que se passou, esta juventude, especialmente a juventude, não sabe nada. Hoje há uma tendência grande para o branqueamento. Do que se passou, do que foi o fascismo. Muita gente passou isto. Se fôssemos só nós... Houve pessoas que morreram. Nós estamos aqui para contar a História. E vimos o 25 de Abril.

DOMINGOS – Há camaradas que não conseguiram voltar a Peniche.

 

Que emoção tem quando volta a Peniche, Caxias, quando passa na António Maria Cardoso?

DOMINGOS – Nenhuma. Sou capaz de passar em Caxias e nem sequer me lembrar de que está ali o forte.

 

Ultrapassou como quem olha para uma vida passada? Quase como se fosse outra pessoa?

DOMINGOS – Aquilo é passado. Interviemos numa revolução, vimos o resultado de uma luta. A realização de um sonho ajudou a superar o que correu mal. O 25 de Abril restituiu-nos a vida. Passámos a ser um casal normal. Vamos ao cinema, aos comícios, temos convivências, vemos a família. (A primeira vez que vi a minha família, depois de ter sido preso, pareciam-me todos velhos. Já não os via há anos.) Um revolucionário, a sua alegria é o empenhamento. A luta e a prisão não são só sacrifício. São uma forma de realização. Fomos felizes, à nossa maneira, nesta batalha.

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingos Folque Guimarães e Jwana Godinho

28.04.18

Domingos foi o arauto da revolução, nasceu 15 dias antes do 25 de Abril. Jwana nasceu pouco depois, no Canadá. Fazem este ano 40 anos. As suas histórias são (também) a história do país democrático. São pais da Margarida (sete anos), do Francisco (cinco anos) e do António (dois anos e meio). Estão juntos vai para 14 anos. A felicidade, para eles, parece fácil.

Jwana licenciou-se em Gestão de Empresas, esteve sempre ligada à música. Trabalha desde 2007 na Música no Coração, é responsável pela contratação de muitos dos artistas que passam por festivais em Portugal. Domingos completou um mestrado em cinema na London Film School, e mais tarde fez uma formação em Gestão. É co-Fundador da Live Content, uma agência de publicidade digital, especializada na gestão de redes sociais, que está em Portugal, Brasil e México. É mentor na Start Up Lisboa e Business Angel e em algumas empresas em que acredita.

Outros dados importantes: Domingos nunca perdeu uma festa do Avante, e trabalhou em quase todas (quase sempre como tradutor). Jwana faz de uma canção de Zeca Afonso uma canção de embalar. São talvez mais politizados do que as pessoas da sua geração. Descem a Avenida da Liberdade no 25 de Abril. A filha mais velha, Margarida, é espirituosa (Vendo um sem abrigo, diz: “A culpa é do Governo”). Francisco é sonhador e doce. António tem a curiosidade e a alegria intacta de uma criança de dois anos e meio. Pode ser que daqui a 40 anos eles leiam o que os pais disseram deles e de si próprios.  

 

Comecemos pelos vossos nomes, que já dizem muito de quem são.

Jwana – Jwana Charlesworth Godinho. O W do meu nome foi uma escolha fonética para que eu, que nasci no Canadá, fosse chamada de “Joana”, e não Johanna. Descobri na geração do Facebook que há imensas Jwanas no Médio Oriente, na África do Sul e na Tanzânia. Na minha infância, achei que era única no mundo. [riso] Charlesworth, nome canadiano de origem inglesa, da minha mãe [Sheila], que é canadiana. Godinho é do meu querido pai [Sérgio], cantor, músico, pai.

Domingos – Domingos é uma homenagem ao meu padrinho, Domingos Abrantes. A minha madrinha é a Conceição Matos, a mulher do Domingos Abrantes.

 

Dois resistentes anti-fascistas.

Domingos – Exacto. É estranho ter padrinhos quando se é ateu. Mas, apesar de serem comunistas e ateus, havia entre os meus pais e os meus padrinhos uma relação muito forte.

 

Não existindo vínculo religioso, o padrinho é aquele que toma conta no caso de ausência dos pais.

Jwana – Eu não sou católica, tenho padrinhos porque tenho. É uma relação formal. A relação do Domingos com os padrinhos é [diferente]. Um padrinho é um mentor. Tu tens uma responsabilidade para com eles como eles têm para contigo.

Domingos – Os meus padrinhos são uma fonte de inspiração. Viveram com dificuldades, muito cedo entregaram-se à luta na clandestinidade. O meu padrinho esteve mais de dez anos preso, a minha madrinha esteve quase seis. No entanto, mantêm uma chama, uma alegria de viver, um amor entre os dois fortíssimo.

 

Era a alegria e a coragem dos seus padrinhos, mais do que tudo, que os seus pais estimavam? Era a isso que queriam prestar homenagem escolhendo-os como padrinhos?

Domingos – O Partido Comunista estava cheio, e está cheio, de personagens como os meus padrinhos. Heróis de todos os dias da luta antifascista. Desde criança ouvi isto: “Foram presos, foram torturados, nunca falaram”. Quem é que resistia?, quem é que não resistia? A maior parte dos [militantes] comunistas resistia. Perguntava-me se teria essa coragem se alguma vez me acontecesse [ser preso e torturado]. “Estas pessoas tiveram tanta coragem..., a minha obrigação é ser tão forte e tão duro e tão valente como eles”. Levo isso ao longo da vida. Os meus pais também são um exemplo incrível de coragem, e outras pessoas que conheço.

 

O que é o Domingos tem destes pais e destes padrinhos?

Jwana – Integridade. Coerência. A entrega aos outros. Ele faz disso uma missão. E alimenta-se disso.

Domingos – Tenho do lado da minha mãe outro exemplo de coragem. O meu avô materno com 15 anos pegou numa fábrica que tinha sido da família, de doces, e construiu a maior conserveira de Portugal. Construiu uma marca como o Bom Petisco, o Ramirez. Foi quase um self made man. Nunca foi politizado. Votava PS.

Jwana – A sério?! Mas eu não sabia isso.

 

Os empresários eram de direita.

Jwana – Era uma família muito tradicional, católica. Nunca imaginei que o teu avô fosse de esquerda.

Domingos – Ele nem era católico. Ia à procissão dos pescadores porque tinha um respeito enorme pelos pescadores. O meu avô tem fama de ter sido o primeiro empresário em Portugal a ter uma creche na fábrica. Portanto, era humanista. A fábrica era em Vila Real de Santo António, ele tinha casa em Montegordo, e dava boleia, todos os dias, à malta da fábrica. Carregados de peixe. E ia pela vila a dizer adeus a toda a gente. Lembro-me de ir com ele e ver isto.

 

A sua mãe era de uma família abastada e apaixonou-se por um comunista. Não era comum.

Domingos – A minha mãe foi educada num colégio de freiras. Era fervorosamente religiosa. Acho que estava à procura de qualquer coisa. Quando saiu, percebeu que a motivava a dedicação ao próximo, o sofrimento dos outros. Essa foi a força motriz que a levou para o PC. Logo a seguir ao 25 de Abril tornou-se funcionária do partido, full time. E depois, dentro do partido, foi para o Avante!.  

 

Não foi a paixão pelo seu pai que a levou para a PC?

Domingos – Não. A minha mãe foi lá parar sozinha. Eles encontraram-se na luta, num encontro do sindicato dos bancários. O meu pai foi um dos fundadores da CGTP. Antero Martins Pinto Guimarães. Era o Antero. Não há muitos Anteros.

 

A Jwana tem também dois lados diferentes e marcantes. Qual é a primeira recordação que tem de si, pequenina, filha de uma estrangeiro e de uma figura pública?

Jwana – O facto de a minha mãe ser estrangeira e falar inglês comigo era uma coisa de que não tinha consciência. Cresceu comigo, faz parte de mim. Só na adolescência, quando achei que era cool falar inglês – típica atitude adolescente – é que me apercebi de que era filha de uma estrangeira. Só então comecei a pensar nas implicações que isso teve na minha vida. Eu passava Natais no Canadá, era um lado exótico...

 

Quanto tempo viveu no Canadá?

Jwana – Dois meses. Nasci em Julho. Viveram no Canadá, em Amesterdão, no Brasil, em Paris. Não tinham um poiso fixo.

 

Conheceram-se no musical Hair, onde ambos participavam.

Jwana – Sim. A minha mãe saiu do Canadá com 18 anos. Era de uma família de classe média, vivia em Montreal, no Quebec. Era rebelde, ia a concertos. Viu os Beatles!, coisa mítica. Foi para a Jamaica e depois para a Europa. O meu pai foi estudar para a Suíça, andou pela Europa. Estavam ambos em Paris e eram actores do Hair – o auge do movimento hippie – quando se conheceram. A minha mãe era muito bonita, a encarnação da estrangeira, loira. O meu pai era o europeu intelectual, com charme, cultura. Estiveram os dois presos no Brasil no início dos anos 70 por uma questão política (trabalhavam com o Living Theatre e foram para o Brasil numa altura em que não podiam fazer aquele tipo de teatro, e muito menos em fábricas).

 

Como é que foi nascer ao Canadá?

Jwana – Por acaso viviam em Vancouver, onde eu nunca voltei. Viviam numa comunidade quando nasci. E atravessaram o Canadá com uma carrinha que tinha um nome: Munpf. Era um som. Acho que a minha mãe nunca deixou de viver em comunidade... Quando viemos para Portugal vivíamos sempre partilhando casas, e com amigos e com amigos menos amigos. E

 

O que é que a Jwana ainda tem da vivência hippie dos pais?

Jwana – Para além de ser desarrumada... [riso]

Domingos – Tem várias coisas dessa herança hippie: uma capacidade de análise muito livre. É muito despida de preconceitos. Identificamo-nos muito nas grandes questões. Eu vivi muito mal com o facto de o aborto ser ilegal em Portugal. Casamento gay? Não há discussão. A sociedade vai muito atrás da realidade.

 

Estou a perguntar detalhadamente pelos vossos alicerces e pelas histórias dos vossos pais porque vimos sempre de um lugar. Muitas vezes replicamos de modo acrítico o que vivemos. Outras vezes, reagimos violentamente contra os nossos pais e os seus modos de viver. Para entender quem são aos 40 anos é preciso perceber como é que eram  os vossos pais e como é que eles viveram, nomeadamente o 25 de Abril.

Domingos – A minha mãe diz que eu fui o arauto da revolução. Nasci 15 dias antes. Ela diz-me desde pequenino que vim anunciar a revolução. Acho piada... 

Jwana – Ele acredita nisto... [riso]

 

Somos sempre para os nossos pais os Messias, os que salvam e anunciam...

Domingos – De megafone! [riso] A minha mãe conta que de 24 para 25 não sabiam o que estava a acontecer. Foi queimar uns papéis que podiam ser incriminatórios se a revolução não corresse bem. Correu bem, e eu com seis meses já estava na Reforma Agrária.

 

Conte bem isso.

Domingos – Havia jornadas de trabalho. Nessas jornadas ia tudo para o campo ceifar, vindimar, não sei.

 

Os seus pais trabalhavam ambos no partido. Os rendimentos de que viveram eram esses?

Domingos – Sim. A revolução foi importantíssima para eles porque era o culminar de um trabalho, um objectivo: acabar com o fascismo. Momento a seguir: e agora? Como é que se vai construir [a democracia]? Vivíamos de salários mínimos. Durante anos vestia a roupa de filhos de outros funcionários do partido. Mas no Verão ia passar férias a casa dos meus avós, ao Algarve, e ficava três meses.

Jwana – Uma casa que era um palacete cheia de empregadas...

Domingos – Eram três meses de praia e boa vida. Esta dualidade acompanhou-me a vida toda. A família comunista e a família burguesa. Sou o resultado do conflito entre estas duas realidades.

 

Com a chegada da democracia, a sua família não deixou de ser empenhada politicamente. A maior parte das famílias, passados os anos quentes e subsequentes à revolução, deixaram de o ser, pelo menos no mesmo grau. Na sua família, a política manteve-se como centro.

Jwana – As que eram tão politizadas, ligadas ao PC, continuaram a ser. Foram-se adaptando a outras formas de fazer política.

Domingos – O Partido Comunista é para mim uma família. Realmente cresci dentro do partido. Saía do colégio...

 

Colégio? Palavra burguesa...

Domingos – Andei na Voz do Operário, uma cooperativa de ensino onde andavam todos os filhos de comunistas e pessoas de esquerda; e depois escola pública, sempre.    

Jwana – Eu também andei na Voz do Operário.

 

Foi aí que se encontraram, sem se conhecerem...

Jwana – Temos vários encontros sem nos conhecermos.

 

Já vamos aos vossos falsos encontros, ou encontros anteriores ao “encontro”. Estava a dizer que vivia no partido...

Domingos – O meu pai entregava-me na carrinha da Voz do Operário na CGTP, na Rua Ivens, e a seguir deixavam-me na [rua] Soeiro Pereira Gomes, no Partido Comunista. Essa foi a minha infância. Passava a vida a ler na sede do partido...

Jwana – Livros da Caminho [então editora do PC], naturalmente. [riso]

 

Jwana, como é que o 25 de Abril marcou a história da sua família?

Jwana – O 25 de Abril marca o regresso do meu pai a Portugal e o início da vida da minha mãe em Portugal. Já tinha discos lançados [o primeiro é de 72], já era uma pessoa conhecida. Fazia todo o sentido vir para Portugal. Por outro lado, a minha mãe viu-se... não foi forçada a vir. Foi uma consequência. Ela própria tornou-se cantora em Portugal no PREC.

 

Lançou então o disco Doce de Shila [1977].

Jwana – E o Lenga-lengas e Segredos [1979].

 

Lembra-se da sua mãe a cantar, quando era pequena?

Jwana – Lembro. Eu achava que ela cantava super bem em português... [riso] Cantava canções populares, músicas do meu pai, do Fausto, do João Lóio, do Júlio Pereira. Era completamente freak uma canadiana, hippie, cantar a chula e tocar colheres de pau (era o instrumento que a minha mãe tocava nos espectáculos). Hoje, que trabalho em música, percebo quão fascinante podia ser uma estrangeira cantar, num português macarrónico, “Já passei a roupa a ferro”.

 

O que é que ela lhe cantava?

Jwana – A mim cantava-me coisas dos Peter, Paul and Mary. Cantava lullabyes em inglês, sobretudo.

 

O que é que canta aos seus filhos? Canta muito bem.

Jwana – Há uma música do Zeca Afonso que cantei sempre como canção de embalar. [canta] “Ó minha amora madura, diz-me quem te amadurou”. Com os três, sempre que estive grávida, cantei essa música. Gosto de cantar para os meus filhos. Gostamos todos de cantar. Há uns que têm mais jeito do que outros.

 

O Domingos canta?

Domingos – Não conheço voz pior do que a minha. Estudei teatro, e nas aulas de canto pediam-me para não abrir a boca – porque era o fim.

Jwana – Uma falta de afinação... [riso] Mas canta.

 

Que idade tinha quando os seus pais se separaram?

Jwana – Três anos e meio. Digo sempre que entre as coisas mais bonitas e incríveis que a minha mãe fez – por mim – foi ter ficado em Portugal. Para alguém que tinha o mundo que ela tinha, que vem para Portugal em 1974, que vem como “a mulher de” (enquanto eles estavam em pé de igualdade em todos os países por onde passaram, aqui é a mulher de uma pessoa conhecida)..., era muito fácil pegar em mim e voltar para o Canadá. A verdade é que não só ficou cá, para que eu também o tivesse [o pai], como manteve com o meu pai uma relação muito boa. Vivia uma semana com o meu pai e uma semana com a minha mãe.

 

Deve ter sido das primeiras pessoas em Portugal a viver num quadro de guarda conjunta.

Jwana – Sim.

 

No pós-25 de Abril, a família tradicional estilhaçou-se e adquiriu novas formas. Como acontece a grande parte dos casais da vossa geração, vivem juntos, mas não casaram no papel nem na igreja. Porque não casam?

Jwana – Casamos, claro! Só ainda não casámos.

Domingos – Os meus pais casaram um dia, antes de irem trabalhar, tinha eu seis anos. Chegaram a casa e disseram-me: “Casámos hoje de manhã”, como se fosse uma coisa banal. Acho que nunca dei importância ao conceito de casamento por causa disso. Eles eram tão felizes antes como depois de casarem. E quantos amigos deles casaram, para logo se divorciar... Mas um dia destes gostava de casar com a Jwana.

 

Quer o pai, quer a mãe da Jwana reconstruíram diversas vezes núcleos familiares. Tem meios irmãos de um lado e de outro. A família do Domingos manteve uma configuração constante e tradicional.

Jwana – Tenho três irmãos todos meios irmãos. Da parte do meu pai tenho um irmão [André] e uma irmã [Leonor] de mães diferentes. Da parte da minha mãe tenho uma irmã [Sara], que também tem um irmão que não é meu irmão. A verdade é que há um equilíbrio no meio disto tudo. Os nossos filhos, nunca nenhum deles perguntou porque é que os meus pais se separaram. Têm contacto com a família tradicional do Domingos e têm contacto com a família... não gosto de dizer disfuncional, porque disfuncional tem uma carga pejorativa, e não tem, de todo, neste caso, mas com o lado mais caótico e polimórfico da minha família. Para eles isto é uma coisa natural.

 

É muito no contacto com outros miúdos que percebemos a nossa diferença. Lembra-se de sentir na escola que tinha uma família diferente?

Jwana – Tinha alguns amigos que eram filhos de pais divorciados. Mas sentia a estranheza de viver com o meu pai e a minha mãe, sobretudo com o meu pai. Era raríssimo que crianças filhas de pais separados não vivessem [só] com a mãe. Às vezes causava-me alguma angústia, porque os outros miúdos diziam que ia ter que escolher. Que aos 18 anos ia ter que escolher!

Domingos – As separações foram uma consequência do pós-25 de Abril. Não tivemos uma revolução sexual. A Europa teve os anos 60 como momento de libertação, a promiscuidade era quase um valor. Nós estávamos sob o jugo do fascismo, aqui era igreja e futebol. A seguir ao 25 de Abril pôs-se em causa tudo. A família, a relação homem-mulher. No caso dos meus pais não aconteceu. Eram muitos sólidos [enquanto casal]. A Jwana teve uma família em que isso tudo se deu, eu tive uma família em que isso nunca se deu, e estamos muito próximos no que é a noção de família, na importância de estruturar uma família.

 

Vai sendo raro, nos tempos que correm, ter uma relação tão longa e tão visivelmente feliz como a vossa. Imagino que na turma dos vossos filhos sejam mais aqueles que são filhos de pais separados do que filhos de pais que estão juntos.

Domingos – Na Adeco, onde anda o António, [que tem dois anos e meio], já não sei quem são os pais e as mães dos miúdos...

Jwana – O meu pai divorciou-se várias vezes, a minha mãe também. Mas puseram-me sempre em primeiro lugar. Sempre. Promoveram sempre a minha ligação com os meus irmãos. Prezaram sempre a convivência com o outro. A semana de um era a semana de um. Não interferiam. Depois tive um fio condutor importante: a minha avó paterna. Era o meu lado 100% sólido, previsível, et cetera.

 

Apesar de viver no Porto. Numa altura em que não havia skype e a mesma facilidade de comunicação, como é que era alicerçada a relação?

Jwana – Não percebo. Tinha também uma relação forte com os meus avós do Canadá. Vi-os 20 vezes, entre as vezes que fui ao Canadá e as vezes que vieram a Portugal. Com a minha avó paterna passava as férias todas. Todas as quartas-feiras falávamos ao telefone. Ela gostava dessas rotinas. E mandávamos cartas uma à outra.

 

Falou de uma coisa importante: sentir que estava em primeiro lugar. Uma âncora preciosa. Como fazer sentir à criança que ela continua a ser o centro?

Jwana – Eu sou a mais velha dos irmãos. Tinha a responsabilidade nas separações posteriores dos meus pais de [tomar conta].

Domingos – A Jwana passou a ser, de alguma forma, pai e mãe do pai e da mãe.

 

Quando é que isso começou?

Domingos – Ela é uma mãe maravilhosa. Sou super feliz por ela ser a mãe dos meus filhos. Não sei se não desenvolveu o instinto maternal a partir da avó.

Jwana – Quando ficámos grávidos da nossa primeira filha e vivíamos fora [em Londres], a minha mãe encontrou o meu irmão. Ela ia ser avó, ele ia ser tio. “Que maravilha. Finalmente a Jwana vai ser mãe e vai deixar-nos em paz”. Disseram isto os dois. [riso]

 

Que família é que sonhavam ter quando eram pequenos?

Domingos – Eu tive muito amor. Os meus pais sempre amaram muito os filhos [Domingos tem uma irmã mais nova, Maria]. Tive uma infância muito feliz. Tínhamos uma relação muito honesta.

 

Honesta? Palavra rara quando se descreve uma relação pai-filho.

Domingos – Sempre disse tudo o que pensava aos meus pais. Às vezes temos uma honestidade brutal. Quer dizer, não escondemos as coisas uns dos outros. Com a morte do meu pai, ainda mais isso se acentuou.

 

Pode contar como se deu a morte do seu pai?

Domingos – Foi em Fevereiro de 98. Eu tinha 23 anos, estava a viver em Itália, a fazer teatro. Ouvimos falar da morte, morrem avós, mas o momento em que nos apercebemos da mortalidade é quando morre um pai, ou a mãe. Percebemos que uma das nossas ligações à terra desapareceu. Que ficamos directamente ligados. E que um dia destes somos nós.

 

Foi uma morte súbita.

Domingos – O meu pai tinha um problema cardíaco, foi operado. Apanhou um vírus no hospital, que não se fazia notar, mas que foi enfraquecendo o coração. Até que houve um momento em que parou. Do nada. Foi muito traumatizante, fez-nos unir-nos ainda mais e fez-nos intensificar a relação honesta do dia-a-dia.

 

Acontece frequentemente os pais não terem noção de quem são os filhos, do que se passa na cabeça deles, de qual é o seu mundo. É difícil manter uma relação íntima, sem ser intrusivo e promovendo a emancipação dos filhos, sobretudo depois da adolescência.

Domingos – Conheço poucos casos com a relação honesta que tenho com a minha mãe. 

Jwana – Eu não conheço. Nem sabia que existia.

 

Pode concretizar?

Domingos – Com a idade, cada um vai adoptando um papel. Um toma o papel do pai, o outro toma o papel do filho. Isso faz com que as relações sejam imbuídas de preconceitos – do que é que o pai deve ser, do que é que o filho deve ser. Então cada um vai construindo o seu mundo privado, que separa do mundo familiar. No caso da minha família, a honestidade sentimental – isto de revelarmos o que pensamos, quem somos e o que fazemos – [é a regra]. Às vezes dói. Mas a síntese, o que sobra das nossas discussões, é o autoconhecimento e o conhecimento do outro. Outra coisa que senti com a morte do meu pai: perdi-o, nunca mais vou voltar a vê-lo. Não sou crente, sei que acabou. Ele não chegou a conhecer-me totalmente. Conheceu-me até à adolescência. Fiquei com imensa pena de ele não me ver crescer.

 

Expliquem melhor como é que não ficaram tolhidos pelo dever ser, que é o acontece normalmente às pessoas e às famílias, e que as faz ficar presas à imagem que o outro tem de si, às expectativas.

Domingos – Com a morte do meu pai determinei que não há espaço na minha vida para não ser honesto. Tenho isso com a Jwana também. A coisa que mais me apaixona na existência são pessoas. Adoro pessoas! Amo profundamente a minha família comunista e a minha família industrialista. Parece absurdo. Para mim é só humanismo. O melhor de tudo é descobrir algo de interessante e especial nas pessoas.

 

Essa convivência entre esquerda e direita e entre maneiras tão diferentes de estar também é próprio dos anos da democracia. Antes da revolução, esquerda e direita não se davam. Os polos permaneciam distantes, os mundos eram estanques. Há uma abertura que a revolução trouxe.

Domingos – Completamente. O meu pai não foi logo aceite na família da minha mãe. Porque era comunista, revolucionário, militante.

Jwana – Mas foi o lado humanista que fez com que fosse aceite.

Domingos – O meu pai era uma pessoa de pessoas. Tinha milhares de amigos. Herdei isso dele. Gosto todos os dias de me apaixonar por uma pessoa nova. [olha para Jwana] Apaixonar no sentido intelectual... [risos] Fazer um amigo é uma coisa maravilhosa.

 

“É que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há”, escreveu o pai da Jwana em Com um Brilhozinho nos Olhos.

Jwana – Essa música, na realidade, foi feita para o Domingos. [gargalhada] O arauto da nossa relação foi escrito em 1980 pelo meu pai.

 

O seu pai compôs alguma música para si?

Jwana – Mais ou menos. A Linhagem Feminina do último disco, e que é a primeira em que ele se expõe...

 

E na qual fala da Margaridinha, no Francisquinho, no Antoninho... nos netos.

Jwana – Há a Linda Joana, que pensavam que era para mim, mas eu ainda não tinha nascido. O Espalhem a Notícia, que tem a ver com o nascimento, também não é para mim. O Primeiro Gomo da Tangerina foi uma música inspirada na minha irmã [Leonor] e que dedicou aos três filhos.

 

Como é que imaginava que ia ser a sua família?

Jwana – Eu imaginava obviamente que ia ser mãe.

 

Obviamente?

Jwana – Obviamente. A maternidade, a gravidez, tudo isso sempre me fascinou. Uma família grande. Uma família com filhos. Imaginava que ia ter o pai [dos meus filhos] presente – também pela herança do que o meu pai foi comigo. Depois é melhor ainda do que eu imaginei.

Domingos – Quero ainda dizer isto: a minha mãe era do MDM, Movimento Democrático de Mulheres. Fui educado a ser mais anti-machista do que a maior parte das mulheres.

 

Essa é outra diferença nos anos da democracia: o papel do homem e da mulher dentro de casa.

Domingos – Costumo chamar primatas às pessoas que têm comportamentos machistas, e que elas nem percebem que são machistas. Isso também me ajuda a ter uma relação honesta com a Jwana. Partimos sempre do mesmo ponto de igualdade.

 

Falemos agora dos vários encontros que viveram antes de se encontrarem efectivamente.

Domingos – A Jwana é quem tem uma memória boa cá em casa. Costumo dizer que só me lembro do futuro.

Jwana – Cruzámo-nos na Voz do Operário. Temos um grande, grande amigo em comum, o Sérgio, que nos apresentou. Foi meu colega da faculdade e desde sempre é amigo-irmão do Domingos. Só que o Domingos vivia fora. Um dia estivemos juntos à noite, mas ele não se lembra minimamente. Causei zero impacto! Ele diz que esse momento não aconteceu... Eu lembro-me e tenho testemunhas – os outros amigos dele a quem causei um ligeiro impacto.

Domingos – Isso nunca aconteceu. Porque quando conheci a Jwana percebi que nunca tinha conhecido ninguém. O meu passado deixou de existir.

 

Percebeu logo que era o/a tal?

Domingos – Conhecemo-nos, apaixonámo-nos, e começámos a criar a nossa história. O resto não interessa. O melhor na nossa relação é que todos os dias nos focamos nela, em melhorá-la, um no outro.

Jwana – O Domingos é maravilhoso.       

 

Como é que não se cansam um do outro?

Domingos – Além da honestidade incrível que temos, há um ponto importante: estamos numa constante evolução. Quando a Jwana me conheceu eu estava a fazer cinema. A seguir tive uma editora de livros, a Cavalo de Ferro. A seguir tive uma produtora de cinema. A seguir montei uma empresa de internet que fazia transmissão de concertos ao vivo. Agora tenho uma agência de publicidade ligada às redes sociais.

Jwana – Temos uma relação muito próxima, mas temos vidas independentes ricas, e que trazemos qb para a relação quando isso é enriquecedor. Cada um de nós tem um mundo próprio muito forte.

Domingos – Eu puxo o mais possível pela Jwana, pelo lado melhor da Jwana, e ela puxa por mim, pelo melhor que há em mim. Acho que vai ser assim até morrer. Ao contrário da maior parte das pessoas que, a partir do momento em que tiram um curso universitário e arranjam um trabalho, já está, eu não tenho essa visão da vida. Preciso constantemente de desafios. Não era um bom aluno a línguas e agora falo cinco línguas.

 

Como é que aprendeu?

Domingos – Fui obrigado. Vivi em Itália, fiz imensos amigos italianos. Em Espanha estive dois anos. Nunca falei muito bem nenhuma destas línguas. Comunico bem, aprendi com os locais.

Jwana – O slang [calão] ajuda sempre.

Domingos – Sou um desastre na gramática.

 

Outra marca deste Portugal: a abertura ao exterior. Se não fosse por razões políticas, era menos habitual no período da ditadura. Porque é que tiveram necessidade de viver fora?

Jwana – Os meus pais tornaram-se as pessoas que são vivendo fora.

 

Isso significa, mais do que tudo, lidar com o desconhecido, perceber como é que somos em situações limite?

Jwana – Sim. Desafiar-nos. Construir outro mundo. Saí mais tarde do que o Domingos. Não estudei fora.

 

Foi trabalhar para a EMI inglesa, depois de ter trabalhado na EMI portuguesa. Enquanto international marketing manager, acompanhou bandas como os Placebo, Kelis, Kings of Convenience, The Thrills. O último trabalho que fez antes de regressar a Portugal foi coordenar o marketing do disco dos Rolling Stones A Bigger Bang para toda a Europa.

Jwana – Saí num momento muito bom da minha vida profissional. Lembro-me de ter tido uma conversa com o meu pai para me aconselhar (ele tinha tido a mesma necessidade de sair), e de estar lavada em lágrimas ao almoço: “Não percebo porque é que agora que as coisas me estão a correr tão bem me quero ir embora”. 

 

Quanto tempo teve esteve fora? Nesses anos de Londres já vivia com o Domingos.

Jwana – Quatro anos, de 2002 a 2006. Voltámos porque nasceu a nossa primeira filha e, com crianças, queríamos estar próximo das nossas famílias. Costumo também dizer, poeticamente, que queria que os meus filhos crescessem com sol. Faz diferença.

 

Mantinham a ligação a Portugal, recebiam amigos? Quantas pessoas receberam em Londres no primeiro ano que lá viveram?

Jwana – Noventa e duas. Não estamos a contar pessoas que nos visitaram mais do que uma vez. Noventa e duas pessoas são 92 pessoas.

Domingos – Temos um grande amigo, o António, um actor espanhol com quem tinha vivido em Madrid, que foi tirar um curso de uma semana e que ficou em nossa casa quatro meses.

 

Isso diz de como são gregários. Porque é que o Domingos saiu de Portugal com 19 anos?

Domingos – Tinha um gosto pela aventura. Em Portugal sentia-me parado. Tinha acabado de ser aceite numa universidade para fazer um curso de advocacia.

 

Ia ter uma vida chata? Recusou essa perspectiva?

Domingos – Não sei se era chata. Muitas pessoas que conheço tiraram o curso porque tinham de tirar o curso. Eu estava cheio de dúvidas. Arranjei a desculpa de querer estudar teatro em Londres e fui.

 

Para ser actor?

Domingos – Actor. Mal cheguei a Londres comecei a trabalhar. Num bar, em restaurantes. Para poder pagar os meus estudos. Não falava bem inglês e passei os primeiros meses a lavar pratos e a servir pequenos-almoços. Questionei tudo. Evitei dar-me com a comunidade portuguesa. Tenho um respeito imenso pela comunidade portuguesa (super-trabalhadores), mas eu não ia para fora para estar com portugueses. Fui para Inglaterra para viver como os ingleses vivem.

 

Esteve catorze anos fora, no total.

Domingos – Quase dez em Londres, dois em Espanha, quase um em Itália. Depois estive seis meses na Índia, dois meses na Tailândia, Laos, um mês em Cuba, um mês no Brasil. Estudei em Nova Iorque, fiz um curso lá, mas não vivi nos EUA. Fiz uma viagem longa à Jordânia, Síria, Líbano, Turquia, com a minha irmã, e depois apareceu a minha mãe...

Jwana – E eu! [riso]

Domingos – A minha mãe e a Jwana apareceram.

Jwana – Aparecemos?!

 

Em qualquer sítio, sente-se bem?

Domingos – Sinto-me em casa em qualquer sítio.

 

O que é que vos faz medo?

Jwana – [pequeno silêncio; vira-se para Domingos] O que é que nos faz medo? Eu sou muito diferente do Domingos e beneficio muito do Domingos nisso. Faz-me medo tudo o que está relacionado com o bem estar dos meus filhos e da minha família. Não tenho tanto medo da morte como o Domingos tem.

Domingos – Eu só tenho medo da morte. O medo da morte é o medo de acabar esta viagem. Mas o medo nunca me travou. Vejo pessoas com um talento incrível, com um potencial fantástico e que vivem bloqueadas pelo medo. Eu, que se calhar não tenho tanto talento como elas têm, como não tenho medo...

 

Acha que se safa sempre? É o quê?

Jwana – Ele acha que há sempre solução.

Domingos – Os meus padrinhos. Dez anos presos, torturados, e no entanto aquele amor pela vida... Ter medo do quê? Se perder a minha casa, vou encontrar um sítio onde me abrigar – até voltar à luta outra vez. Somos uma sociedade que lida muito mal com o falhando, e medrosa.

 

Se calhar é porque tem o essencial, e que reconhece como essencial, que percebe que pode perder tudo o resto. Há um reduto a partir do qual pode refazer tudo outra vez. Esse lugar é a família?

Domingos – É a família e a autoconfiança. A nossa filha Margarida foi visitar uma amiga à Suíça. Tinha cinco anos. O pai da amiga, quando ela chegou, perguntou-lhe: “Tiveste medo?” Ela respondeu: “Medo de quê?”

Jwana – Não percebeu a pergunta.

Domingos – Os nossos amigos achavam que éramos loucos por deixar a Margarida ir uma semana para a Suíça. Sozinha. Fui levá-la ao aeroporto, deixei-a com a hospedeira e ela estava felicíssima. Foi um dos maiores orgulhos da minha vida.   

 

As pessoas ficam reféns dos filhos, de um equilíbrio material para os filhos. Como é que conseguem não ficar reféns? E ter três filhos tão felizes, tão equilibrados. Viajam com eles, vão para lugares onde estão dez graus negativos como se fosse uma ida à Costa da Caparica. Convosco tudo parece fácil.

Domingos – Qual é que é o exemplo que queremos deixar aos nossos filhos? Acha que eu quero que os meus filhos achem que eu sou um medroso? O exemplo que eu quero dar é o de alguém destemido, e [mostrar] que há perigos todos os dias, e que, apesar de seguirmos as nossas rotinas, isto é o caos. A única coisa que quero que tenham é critério (e para isso é preciso uma educação boa), que sejam capazes de tomar decisões e que não tenham medo de seguir os seus instintos e os seus sonhos.

Jwana – A melhor coisa que podem dizer dos nossos filhos é que são felizes. Saber tirar o melhor de cada dia é uma coisa que têm os três. Eles sabem que de qualquer coisa se pode tirar proveito, prazer, felicidade, e partilha.

Domingos – Põe-me doente o proteger demasiado as crianças.

 

Que é uma constante da nossa sociedade receosa. Até porque passaram a nascer menos crianças, e elas se tornaram o tesouro e centro da vida dos pais. Muitas estão transformadas em flores de estufa.

Domingos – Adoro os meus filhos, adoro cada momento que passo com eles. Era capaz de ter mais um, embora não haja condições para isso. Tento sempre não lhes facilitar a vida demasiado. Têm de aprender a conquistar tudo o que têm. Digo-lhes: “Não tens de ser o melhor. Tens de tentar fazer o melhor possível”.

Jwana – Estás a ser demasiado soft com o que és na realidade. Mas fica-te bem.

 

Esta sociedade ficou muito marcada pelo consumismo. Muitas famílias endividaram-se até ao osso. Vocês vivem numa casa alugada, não têm um carro topo de gama, os vossos filhos frequentam uma boa escola, mas não é a escola mais cara. Porquê esta opção?

Jwana – Tem a ver com a escolha: em que é que se gasta o dinheiro? Para nós é muito mais importante viajar, sozinhos e com eles.

 

Continuam a viajar sozinhos frequentemente?

Jwana – Continuamos a viajar só os dois todos os anos, dez dias. Faz-nos bem enquanto casal e isso reflecte-se necessariamente neles. Gastamos também dinheiro a receber pessoas. É mais importante dar-lhes [esse contacto com outros] do que dar-lhes mais coisas materiais, aparelhos electrónicos, roupa de marca... São escolhas.

Domingos – Qualquer dinheiro gasto num carro é um desperdício. Estou-me borrifando para o status que um carro de luxo pode dar. Vivemos bastante bem para o que é a realidade portuguesa. Temos uma casa boa no centro de Lisboa, conseguimos pagar uma educação boa aos nossos filhos.

 

Imaginemos que daqui a 40 anos os vossos filhos vão falar dos pais, como vocês começaram por falar dos vossos pais. O que é que imaginam que será mais determinante e que eles contarão?

Jwana – Acho que [dirão] aquilo que o Domingos dizia dos pais e dos padrinhos: o amor um pelo outro. É muito bom que tenhamos isso e que partilhemos isso com os nossos filhos. Depois, o exemplo de pais que construíram coisas em conjunto. Gostava que dissessem da felicidade que viveram em toda a sua infância.

Domingos – The best is yet to come [o melhor está para vir]. Isto é um crescendo. Não sei o que é que vão pensar daqui a 40 anos.

Jwana – Não olhes para o futuro, fala sobre agora. [riso]

Domingos – Estou a criar condições para intervir um pouco mais na sociedade. Poder, de alguma forma, retribuir esta aprendizagem que tenho vindo a fazer. Gostava que estes valores passassem para eles. Mais do que tudo, gostava que tivessem critério e que não tivessem medo. “Não tenham medo de falhar. E quando falharem, não tenham medo de começar logo a seguir.” Que não tenham medo de ninguém. Se calhar por causa da proximidade que tive com figuras como o Álvaro Cunhal, com grandes figuras do PC – eu era terrível, dava caneladas... Não interessa quem é a pessoa que está do outro lado. “Vocês são tão valiosos, cada um de vocês é tão valioso como a pessoa mais valiosa do mundo, ou considerada a mais valiosa do mundo.” Têm de ter amor próprio, tudo é possível, o céu é o limite. “Estão a ter uma educação sólida. Por favor metam-se em barcos de madeira, com instrumentos esquisitos e partam para conquistar novos mundos.” 

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014