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Anabela Mota Ribeiro

Uma Nêspera no Cu

19.05.18

Pertence ao grupo de um milhão e duzentas mil pessoas que ouviram Uma Nêspera no Cu? Se sim, sabe que o podcast de Bruno Nogueira, Filipe Melo e Nuno Markl é um exercício de liberdade a que também se pode chamar uma grande maluqueira. Se não, é melhor saber desde já que no programa (disponível apenas na Internet), como na entrevista, eles estão sem filtro. Dizem palavrão do piorio – como se não tivessem um microfone à frente. Podemos teorizar e pensar nos limites do humor, ou mesmo no para que serve o humor. Mas isso resulta numa certa conversa de chacha que ilude o facto de eles gostarem de transgredir. E nós de transgredir com eles. Deve ser por isso que dois meses de Nêspera foi suficiente para criar um fenómeno.

 

Se há ocasião em que a palavra “destravado” se justifica, é esta. Os humoristas Bruno Nogueira e Nuno Markl e o pianista Filipe Melo não têm travão. Dizem as coisas que as pessoas não devem dizer e que, na prática, todas dizem mais ou menos. Esta entrevista, como o programa Uma Nêspera no Cu, passa-se num mundo onde a estupidez tem lugar. Um mundo onde é proibido proibir e os limites são quase nenhuns ou nenhuns mesmo. Um mundo onde se volta à criança que folheia uma revista pornográfica (que sacou, quiçá, na mesinha de cabeceira dos pais) e descobre que não é a única a fazê-lo.

Eles são amigos, trabalham episodicamente juntos. O espectáculo que os juntou, Deixem o Pimba em Paz, de Bruno Nogueira, volta ao Teatro São Luiz, em Lisboa, de 3 a 12 de Julho, de fato de gala e Orquestra Metropolitana. Os arranjos são de Filipe Melo e de Mário Laginha. Depois de lerem a entrevista vão poder imaginar as coisas que dizem na carrinha, nos camarins, a maluqueira que não pretende salvar o mundo mas que os diverte.

Última advertência: nas próximas páginas dizem-se coisas impensáveis. É melhor ir a outro balcão se não for gostar de gelado de nêspera.

 

 

Vamos começar com um dilema? Como fazem no vosso programa. O meu é: não poder rir nunca mais na vida ou viver para todo o sempre, não com uma nêspera, mas com uma nespereira no cu.

Nuno Markl – Espera: mas com as raízes metidas dentro? A folhagem cá fora? Isso é decisivo.

 

A folhagem para fora.

Bruno – Raiz por dentro? Nunca mais rir. Escolho nunca mais rir! Porque as raízes vão a sítios que ninguém imagina.

Markl – O não poder rir: era uma coisa biológica, ou vias uma coisa que faz rir e tinhas de [faz o som de engolir o riso]?

Bruno – Markl, não estás a perceber: a alternativa era teres uma nespereira no cu.

Markl – Tens razão. Eu não queria uma nespereira no cu.

Bruno – Mas o Filipe queria.

Filipe Melo – Estou a pensar que é possível viver sem rir. Olha o nosso presidente da República... E se ríssemos por acidente, nascia uma nespereira? Temos unanimidade: ninguém se ria mais.

Markl – Imagina, estás no cinema, a ver um filme que é cómico, começas-te a rir e nasce-te uma nespereira... E as pessoas: “Sai da frente”!

 

Cómicos?, pessoas que vivem do humor, que se fizeram no humor, escolhem não rir mais? Como é que podem passar sem rir?

Bruno – É difícil, mas a outra hipótese é viver com uma nespereira no cu. Uma nêspera, já é o que é. Ele [Filipe] é da música. Aguentava melhor do que nós.

Filipe – Ou não.

 

Estamos no mês das nêsperas. As nespereiras estão carregadas. Supunham que eu ia trazer uma nêspera (ou da família da nêspera) para começar a entrevista?

Markl – Não. Mas isto faz de ti uma séria candidata a estar no Uma Nêspera do Cu. No programa, já percebemos que sempre que uma das opções é meter alguma coisa no rabo, tentamos evitar essa.

 

Isso é uma piada homofóbica?

Todos – Não!

Bruno – Tenho muito respeito.

Markl – Eu, supositórios, já meti. Em que é que estão a pensar? Um supositório age mais depressa do que um comprimido (para certas coisas).

Filipe – Alka Seltzer, usas?

Markl – Já não uso supositórios há uns 20 anos. Ou 30.

 

Os dilemas de que toda a gente foge e que estão relacionados com ter alguma coisa no rabo: porquê?

Bruno – O título do programa surge de um dilema que envolvia, justamente, meter uma nêspera no cu. Há outros que envolvem inserir um pau de incenso. Nós fazemos isto em bolha. Não tínhamos noção da dimensão que ia ter. A única ideia era divertirmo-nos. Às vezes visamos pessoas, nos dilemas, com quem, depois, nos cruzamos. E é um bocadinho desagradável.

 

Já se cruzaram com a Júlia Pinheiro ou a Teresa Guilherme, com quem se metem num dos dilemas?

Markl – Já me cruzei com a Teresa Guilherme. Não toquei no assunto. Fiquei com a sensação de que ela não tinha ouvido.

Bruno – Penso que agora vai ouvir...

Markl – É interessante ver as reacções das pessoas. O Guilherme Leite teve grande fair play. O Fernando Pereira: nós achávamos que tinha tido grande fair play.

 

Convém esclarecer qual era o dilema que envolvia Fernando Pereira, o imitador.

Filipe – Esgalhar uma ao Fernando Pereira (tinhas direito a estar com um fato e uma máscara de ski). Contacto meio astronauta. Ou... Qual era a outra?

Markl – Não sei. O Fernando Pereira escreveu um texto engraçado no Facebook, que partilhámos. Mas estive com ele no 5 para a Meia-Noite, fui agradecer-lhe o fair play que tinha tido perante o nosso dilema e ele, sempre a sorrir, disse: “Gosto muito do trabalho dos humoristas, e respeito. Vocês têm um grande poder. Entristece-me quando o usam para a estupidez”.

Bruno – Respondeste bem.

Markl – “Ó Fernando, a estupidez às vezes também é precisa.” Acredito mesmo nisto.

 

Acreditas mesmo que a estupidez também é precisa?

Markl – Acho que sim.

Filipe – Senão não existia o Lord of the Voices, o espectáculo [de Fernando Pereira].

Markl – Filipe Melo o disse. Há muita gente que gosta de ouvir a Nêspera e comenta: “Aquilo é só cocó e xixi, rabo e não sei o quê. Podiam meter alguma crítica social”. O que eu respondo: “Não, não. O que é giro na Nêspera é ser infantil, estúpido, e sacar esse lado às pessoas”. Tipo ao [António] Zambujo e ao Rodrigo Guedes de Carvalho.

 

Como é que a Nêspera surgiu? A sementinha, é qual?

Filipe – Eu não tenho a pressão de vir do humor, não é?

 

És um respeitado pianista.

Filipe – Não propriamente respeitado. Sou um pianista. Na verdade, sou um erro de casting. Mas está tudo bem. A razão pela qual estou aqui é esta: nós estivemos a fazer um espectáculo, que foi uma ideia do Bruno, chamado Deixem o Pimba em Paz. O Nuno Markl tinha no espectáculo um número de strip-tease. Vinha connosco para a estrada no papel de striper.

Markl – Vamos deixar isto assim, sem mais explicações.

 

Eu vi. E não eras o George Clooney.

Markl – Não.

Filipe – As nossas conversas de carrinha eram dilemas destes. Foi o Nuno Markl que disse: “Isto daria um óptimo podcast”.

 

Explica aos info-excluídos o que é um podcast.

Bruno – Um podcast é uma emissão áudio de um programa que só é emitido na Internet. Descarregas e ouves na Internet.

Filipe – Tenho a impressão que nenhum de nós acreditava que isto dava um óptimo podcast. Estávamos cépticos.

Bruno – O “preferias isto ou aquilo”, tem décadas. É daqueles jogos que toda a gente joga. Não tem autoria, que se conheça, e ainda que alguns colegas nossos se tentem apropriar dela. Isto não tinha nada de original. E funcionava na carrinha. No nosso microcosmos. Depois o Markl insistiu e experimentámos. Correu bem. Acho que tem a ver com isso: não tem um objectivo. Não pretende salvar o mundo ou mudar o país. É desprendido de tudo.

 

É divertir o pagode?

Bruno – É para nos divertir a nós, acima de tudo.

Filipe – Sobretudo no meio em que o Bruno e o Markl se movimentam, o humor e a exposição mediática estão muito ligados a dinheiro. Nós, com este podcast, não ganhamos um tostão. Isso deu-nos uma liberdade... Eu sempre tive essa liberdade, mas eles, talvez por estarem mais ligados ao mainstream, não podem utilizar palavras ou expressões como arraial de cona. [gargalhada geral] Ou comedor de esmegma.

 

Onde é que foram descobrir essas expressões?

Bruno – Foi num almoço. Isto que o Filipe disse é muito importante. Nós não temos nenhuma marca associada.

Markl – Há uma sede de gozo.

Bruno – É-nos cedido o estúdio muito gentilmente pela TSF. A liberdade é total porque não temos de prestar contas a ninguém.

Markl – Houve algumas empresas que consideraram a possibilidade de patrocinar isto. E desistiram.

Bruno – Só pelo título.

Markl – Se algum dia tivermos um patrocínio, a nossa preocupação é pagar aquele que de nós tem mais trabalho, o João Pombeiro que faz as animações. Dá um trabalho imenso. Há uma versão só áudio no iTunes. As animações [visíveis na versão do Youtube] deram um certo carisma aos episódios.

Filipe – Os estudos e os interesses do João Pombeiro têm muito a ver com as artes plásticas. Embora pareçam umas animações absurdas, são feitas por uma pessoa que tem um cuidado extremo com aquilo, com o pormenor.

 

Não responderam: o comedor vem de onde?

Bruno – Comedor de esmegma. Tínhamos recebido algumas queixas no Facebook por causa do tipo de linguagem que usamos. Então decidimos fazer um aviso antes do episódio seguinte a dizer que não utilizaríamos termos tais como...

Markl – Foi uma lista! O processo de criação dessa lista foi fascinante. Enquanto almoçávamos num restaurante japonês, na Expo.

 

Fino.

Bruno – Finíssimo.

Markl – Estamos a comer sushi e a sugerir coisas porquíssimas.

 

São, para reproduzir as vossas palavras, reles, doentios, e usam palavreado do feio. Usam-no normalmente?

Markl – Sou bastante regrado a dizer palavrões. O que faz com que as pessoas fiquem muito surpreendidas. “Não sabia que o Markl dizia...”. Mas eles são porcos, não é?

Bruno – Eu uso muito. Alivia-me bastante.

Markl – O Filipe consegue conter-se até ao momento em que diz uma caralhada desumana. Mas és um tipo pacato.

Filipe – Na minha auto-análise, diria que digo muitos palavrões. O Bruno claramente ganha, na liberdade de utilização.

Bruno – É muito raro usar em trabalho. Na vida pessoal, dá-me prazer.

 

Vamos lá ver: toda a gente (ou quase) diz palavrões? Homens e mulheres, de todas as idades, de todas as classes sociais. Temos a ideia de que há palavras que não se dizem. Ensinamos às crianças que não se dizem asneiras. Logo, palavrão é asneira.

Bruno – Acho que toda a gente diz.

Markl – Há sempre uma altura em que sai qualquer coisa. Nem que seja quando uma pessoa se queima numa torradeira. Uma vez disse: “Foda-se” em frente ao meu filho. Logo a seguir: “Ah, atenção, isto não se diz”. Nesse mesmo dia, ele ia a deitar-se, deu uma cabeçada na cama e disse: “Foda-se”. Fez um cálculo: “Se há dor envolvida, pode-se dizer isto”.

Bruno – O palavrão não tem de ser só associado a situações de tensão. Na alegria também deve existir o palavrão. Conheces o texto do [Miguel] Esteves Cardoso sobre os palavrões? Há palavras que ditas com o termo técnico – por exemplo, pénis – são bem mais ofensivas do que...

Markl – Caralho.

Bruno – Portanto, eu uso em ambiente controlado.

Markl – Uma vez, numa estação de serviço, estavam a ouvir O Homem que Mordeu o Cão. A rir e a dizer: “Grande cabrão”. É muito português: insultarem as pessoas que as fazem rir. Talvez porque intrinsecamente sejamos um povo que está sempre triste. Então, quando há alguém que faz piadas, diz-se: “Filho de uma grande puta”. É quase um elogio.

 

Do que é que se gosta? Da transgressão? De alguém dizer o que aquele que está a ouvir não ousa dizer?

Bruno – O segredo da Nêspera é só este: é completamente livre. Sente-se, nos projectos que o Markl faz, que eu faço, que, por muito livres que sejamos, como estamos a trabalhar para um canal [de televisão] ou estação de rádio, há sempre uma barreira. Numa época em que está tudo muito formatado, em que é tudo muito previsível, o facto de se estar à beira de um abismo [é estimulante]. A mim, dá-me vontade de fazer.

Markl – Há as pessoas que ouvem porque se riem e gostam genuinamente. Há as pessoas que ouvem para se irritarem e porque têm o lado voyeurista do: “Deixa ouvir estes gajos que dizem coisas horríveis que não podem dizer em mais lado nenhum”.

 

Têm programas formatados na TSF (Tubo de Ensaio) e Rádio Comercial (O Homem que Mordeu o Cão). Estão sempre nos primeiros lugares do top dos mais ouvidos. Foram suplantados pela Nêspera.

Markl – [com tom de locutor sensacionalista] Também no Brasil!

 

Já lá vamos, ao Brasil. A pergunta: temeram que os vossos formatos de sucesso, confirmados pelo público, patrocinados pelas empresas, pudessem ser beliscados por este arraial de maluqueira?

Markl – Tu, Bruno, no Tubo de Ensaio, és mais terrorista do que eu. Eu tenho crianças a ouvir, que gostam muito do que faço. Também faço dobragens de desenhos animados [riso]. Há um lado explosivo... Pensei que se calhar ia perder trabalho. Ao mesmo tempo sentia que era uma coisa que valia a pena fazer.

Filipe – Um episódio real: no outro dia, a minha namorada estava num bar e falavam da Nêspera na mesa do lado. Diziam que era feito pelo Bruno Nogueira, pelo Nuno Markl e por aquele gajo que ninguém sabe quem é. Isto é uma grande vantagem: não tenho absolutamente nada a perder. Os meus amigos são humoristas ou estão dedicados ao humor. O Nuno Markl vejo-o mais como o grande defensor de todos os nerds. Um dia disse-lhe, quando estava verdadeiramente alcoolizado, não ele mas eu, que me surpreendia como é que tinha ascendido a uma posição de tanta exposição e continuava a ser um verdadeiro nerd. O Bruno, sendo um humorista, sendo alguém que me faz rir imenso, mesmo quando está fora do ar – é uma pessoa que tem graça natural...

Markl – É verdade.

Filipe – O que quero dizer: como tenho muitos amigos dedicados ao humor, tenho pensado, temos falado sobre o limite do humor.

 

Qual é o seu limite?

Filipe – O humor deixa de fazer sentido quando ofende alguém que não está a pedi-las. Ouço o Tubo de Ensaio. Vejo as coisas que o Markl mete no Facebook. É um nível de cascanço... Mas, se pensarmos bem, é sempre alguém que está a pedi-las. Nesse aspecto, o humor acaba por ser uma forma de fazer justiça. Passo a tempo a pensar nestas coisas, no limite.

 

É o intelectual do grupo? Também pensam nos limites do humor?

Bruno – É o intelectual, é. Olha a barba.

 

Cofia o bigode, como um personagem de um romance do século XIX.

Bruno – Põe cera.

Filipe – Não ponho cera.

Markl – A discussão sobre os limites do humor dá pano para mangas. Nunca se chega a uma conclusão. Se tem graça, realmente, é de fazer.

Filipe – E quando destróis alguém que não está a pedi-las?

Markl – Não é a minha corrente de comédia.

 

Mas o Bruno é o humorista que usa o bastão. Foi assim que apareceu, num espectáculo no teatro São Luiz, de bastão. Continua a fazer um humor demolidor.

Markl – O Bruno é um justiceiro.

Bruno – Em relação ao Tubo de Ensaio, [que faço] com o [João] Quadros [co-autor dos textos]: muitas vezes terei errado. Muitas vezes apontei ao alvo errado. Mas o que aquelas pessoas [visadas no programa] fizeram, e que deu origem ao Tubo de Ensaio, não é menos grave do que aquilo que ali dizemos. E em 90% dos casos, são ilibadas, o caso prescreve. Não sei se passamos tanto o limite ou não. Reconheço que esticamos um bocadinho a corda. Que fazemos uma coisa arriscada. Não direi que é justiceira. Nem é esse o nosso objectivo. Mas é por sermos um país conservador que isto é visto assim.  

Queria dizer outra coisa sobre os limites do humor... ah... já não me lembro.

 

A vossa mãezinha fala-vos dos limites? Ocorreu-me a mãe do Herman José que lhe dizia: “És um bom artista. Não havia necessidade”. A frase foi depois adaptada pelo próprio Herman no Diácono Remédios, como se sabe.

Markl – Não, não. A minha mãe adora ouvir a Nêspera. Faz likes na Nêspera.

Bruno – Ternurento. Os meus pais, também. O meu pai, curiosamente... Muito do meu humor vem do meu pai. Que é do norte, de Penafiel. Em relação à Nêspera disse: “Aquilo às vezes é um bocado forte, hã...”. Uma pessoa que já me ouviu a dizer de tudo!

 

Dizes de tudo à frente dos teus pais?

Bruno – Sim. Tenho imenso respeito, mas isso não interfere com a liberdade que sinto.

Filipe – A minha mãe gosta imenso. Tenho a impressão que a utilização da internet para o meu pai tem mais a ver com os forwards de fraude nas bombas de gasolina.

 

Que é isso?

Markl – São aqueles forwards que avisam: atenção há seringas infectadas nos bancos dos cinemas. O teu pai é um grande propagador disso.

Filipe – Sim, e de power points da natureza. Mas a minha mãe gosta da Nêspera. Nunca disserta muito sobre o assunto, mas sei que ouve.

Markl – Há o orgulho das mães, nisto.

 

Há mesmo? Não sentem embaraço quando vão ao café com as amigas?

Markl – Não. Conseguimos, neste curto espaço de tempo em que durou a primeira série de Uma Nêspera no Cu, criar uma espécie de mainstream do cu. Tornou-se estranhamente aceitável e não muito censurável que três pessoas e um convidado estejam ali a expelir aquele vernáculo.

Filipe – Não podem dizer: aquilo não tem graça. O nosso objectivo não é ter graça. Onde quero chegar: não há muito por onde atacar. Juntamo-nos para nos divertir-nos, e não obrigamos ninguém a ouvir, não é?

 

Há uns efeitos colaterais. Os visados da Nêspera. Já falámos de alguns.

Markl – As pessoas não levam tão a mal quanto isso. Ou então fomos nós que ainda não fomos suficientemente brutos.

Bruno – O Ricky Gervais diz que podes fazer comédia que vem de um sítio bom ou de um sítio mau. Aqui, verdadeiramente, vem de um sítio bom. Sim, há pessoas pelas quais não nutrimos assim tanta simpatia. Mas, regra geral, já envolvi pessoas em dilemas que... Nós também nos envolvemos.

Filipe – [Em tom de troça, para Markl] Ele é o Nilton, não é?

 

Nilton é apresentador, como Markl, do 5 para a Meia-Noite.

Markl – Dizerem isso, é um clássico. Nós começamos por nos sovar de uma forma agressiva uns aos outros. Sobretudo o Bruno. O Bruno é um grande bully que eu tenho. Vou para casa a pensar: “Devia ter respondido melhor. Tenho 43 anos e ele tem para aí 20”.

 

Tens quantos anos, afinal?

Bruno – Tenho 33. A idade do próprio. Fazemos isso porque há confiança e amizade entre nós. Ah, já sei o que é que ia dizer em relação aos limites do humor: ninguém pergunta quais são os limites da música, os limites das novelas. Lembro-me de um primeiro episódio de uma novela da TVI. O Pedro Granger estava numa cadeira de rodas, era homossexual e morria numa explosão. Não vi ninguém dizer que aquilo era contra os homossexuais, contra os deficientes motores... Na novela, como há o rótulo da ficção, pode-se fazer tudo. No outro dia, uma mulher tentava atropelar o pai. Que é que importa? Se fazes isso no humor, acham que estás a incentivar as pessoas a atropelar, a matar homossexuais que andam em cadeiras de rodas...

Markl – A discussão sobre os limites do humor não é muito fértil. Na cabeça das pessoas há uma associação entre comédia e maldade.

 

O humor já é o lugar da subversão. Tiveram necessidade de transgredir ainda mais, como se também o humor estivesse a ficar aprisionado ou formatado.

Markl – Sim, mas isto não foi uma decisão muito cerebral. Estou num formato e muito feliz nele, mas tenho cuidado. Não há qualquer pressão por parte da Rádio Comercial, não dizem: “Não fales sobre isto, sobre aquilo”. Sou eu próprio que penso numa família que me diz: “Gostamos muito d’ O Homem que Mordeu o Cão”, e na notícia sobre uma máquina de venda automática de vibradores...

 

Começas a ver o teu filho do outro lado, a ouvir sobre a máquina de venda automática?

Markl – Não sei se isto não é um macaquinho no meu sótão.

 

Miúdo pequeno, assistias a este palavreado? A Nêspera parece um grupo de miúdos que se diverte porque apanhou uma revista pornográfica...

Bruno – A ideia é essa.

Markl – Chegámos a esta idade a pensar: “Vamos lá outra vez abrir a Gina”.

 

A saudosa Gina?

Markl – Não é saudosa porque ainda há. E continua a ser muito cara.

 

Bruno, pensas nas crianças a assistir? Esse é o grande travão?

Bruno – Tenho esta vantagem em relação ao Markl. Pura e simplesmente não visualizo o lado de lá. Só tento divertir-me. Depois, como numa gelataria, há vários sabores. Não queres um, não és obrigado a comer. A Nêspera nem é um acto de rebeldia: é só um acto de liberdade. Podemos controlar do princípio ao fim aquilo que faríamos se não estivesse lá nenhum microfone.

Filipe – É também um exercício de criatividade. Semanalmente pensamos nos dilemas. Inventámos jogos – como o famoso Azar do Caralho.

 

Que jogo é esse?

Filipe – Foi um jogo inventado, mais uma vez, pela mente perversa e doente do Bruno Nogueira, quando estávamos nos camarins do Deixem o Pimba em Paz. Consiste em escolher um contacto aleatório do teu telefone. Tens de ligar a essa pessoa num prazo de 20 segundos e utilizar uma palavra dada.

 

Palavras inócuas, imagino.

Markl – O grande desafio está em arranjar palavras que não sejam javardice pura.

Filipe – Por exemplo, expectoração.

Markl – O Bruno teve de usar “berimbau” [instrumento musical].

Bruno – Faz-se assim: dás-me o teu telemóvel e eu faço um scroll na tua lista de contactos. Dizes stop, eu paro.

Filipe – Caso não ligues, tens de pagar uma coima.

 

Eu ligo e digo simplesmente “berimbau”?

Markl – Não, não. Tens de manter uma conversa normal.

Bruno – Ah, vamos jogar, vá lá! Dá-nos o teu telemóvel. Anabela, Anabela.

 

Continuando.

Markl – Imagina. Sai-te o Jardim Gonçalves. Tens de ligar do teu telemóvel. Ele atende: “Então, Anabela, como está?”

Bruno – E tu: “Estou com um bocado de expectoração”.

Markl – Disseste expectoração? Pumba, já ganhaste. Mas não podes desligar logo.

Bruno – Nem podes ligar de novo a explicar que aquilo era um jogo. O nosso próximo passo é fazer o Azar do Caralho by night. À meia-noite, fazer o mesmo jogo. E aí pareces um psicopata ou um tarado sexual.

Markl – Se receberes um telefonema nosso à meia-noite, já sabes.

Bruno – A reacção é estranha. Cerca de 90% das pessoas que te calham, são pessoas com quem não falas regularmente. Na tua lista tens oito ou nove pessoas com quem falas regularmente e a quem podes ligar a qualquer hora.

 

Qual é o número mais precioso da vossa lista de contactos? E o mais poderoso? O Cavaco?

Markl – Não tenho telefones de ninguém super poderoso. Não tenho mesmo. Tenho assim de algumas super vedetas. Ricardo Araújo Pereira. Bruno Nogueira.

Filipe – Nilton. [risos]

Bruno – O meu número mais precioso é o de casa. O mais poderoso, não sei.

Markl – O mais poderoso? Nuno Artur Silva, que é administrador da RTP.

Filipe – Eu tenho o número de telefone do Marante.

Bruno – Eu tenho do Nel Monteiro. Para além do número do Marante. Anabela, queres jogar ao Azar do Caralho?

 

Falem-me agora da criança que foram e que apanhou umas revistas pornográficas.

Markl – Tenho memórias vívidas de folhear a Gina, na Escola Secundária de Benfica. Havia um que comprava. Não havia Internet e íamos para umas arcadas comentar.

Bruno – Porque é que ias com um amigo teu?

Markl – Íamos – em grupo – para umas arcadas. Para não estarmos na escola. Folheávamos e dizíamos: “Eh, pá, olha para ela”. Virávamos a página. “Ehhh, olha o que está a acontecer aqui”.

Bruno – Enquanto faziam isso, tinham erecções, ou não?

Filipe – Havia esgalhanço?

Markl – Entre amigos? Não!

Filipe – Negas aqui e agora que houve esgalhanço colectivo? A minha mãe era presidente do conselho directivo quando tu andavas na Secundária de Benfica. Portanto isso passou-se sob o reinado dela.

Bruno – Eu lembro-me, eu lembro-me... [riso] Não sei porque é que vou contar isto. Eu passava as férias grandes na aldeia, em Mogofores. Terra do José Cid. A malta ia para becos esgalhá-la. Um aqui, um ali. Era a mesma coisa que ir a um bairro de drogados e, em vez de se estarem a injectar, estavam a...

 

Quando perguntei pela criança, não pensava que íamos dar a este sítio. Vamos tentar pôr alguma ordem nisto. Vocês não perdem nada com a Nêspera, mas eu tenho muito a perder.

Markl – Chegámos todos a um momento das nossas carreiras em que podemos fazer isto. As consequências não serão muito nefastas. Sim, vai haver alguém a dizer: “Isto não é para mim”. Senhoras. Mas isto deu-me uma certa aura punk.

 

A Nêspera é uma brincadeira de rapazes?

Markl – Tivemos, entre os convidados, a Rita Blanco.

 

Foi a única mulher. Há esse preconceito: fica mal (e a expressão é esta) a uma mulher dizer Uma Nêspera no Cu.

Filipe – Ainda existe?

Bruno – Por muito que queiramos ter mais mulheres, há esse lado. A própria convidada não se sente confortável para usar determinada linguagem. Mas há sempre maneira de contornar isso. Como? Não tens de usar palavrões.

Filipe – O conteúdo é muito infantil. Talvez por isso as pessoas achem graça e se identifiquem. E tem continuidade. Acaba o podcast e as pessoas estão no seu local de trabalho, começam a desenvolver os seus próprios dilemas. Fizemos com que todas as segundas-feiras se falasse daquilo.

 

O pior dilema de todos, para mim, foi o do gatinho. De um lado, havia um gatinho, ao qual tínhamos de nos afeiçoar, e por fim matar numa pedreira. Do outro, um tipo que tem a suástica desenhada na testa e que vai para a Cova da Moura.

Filipe – Para mim, também é o pior.

Markl – Eu sacrifiquei-me pelo gato.  

 

Este dilema, ao contrário de quase todos os outros, não tem palavrões, não tem que ver com sexo. É de longe o mais violento.

Markl – É sangrento e mau. Roça o evil.

Bruno – Gosto mais quando é um dilema elaborado e perverso. Dá-me mais quentinho aqui no estômago. Especialmente sabendo que eles adoram gatos.

Markl – A Rita Blanco também é defensora dos animais.

Bruno – Como eu sou. Mas a Rita tem animais. O Filipe tem dois gatos com Sida.

Markl – Têm a sida dos gatos. Mas está controlado.

Bruno – Não passa de gato para humano. Mas neste caso passou de humano para gato. [gargalhada] Eu tenho um cão. Gosto deste tipo de dilema. Os palavrões: só se servirem um propósito.

Markl – Quando vamos para a badalhoquice, a ideia é que, mesmo na badalhoquice, haja alguma imaginação.

 

Para não ser, simplesmente, um arraial de palavrão.

Markl – Sim. O Carlos Vaz Marques propôs duas opções. O efeito era o mesmo: em ambas acabávamos a levar no cu. A grande escolha era entre um humano e um máquina sofisticada. Este dilema podia ser só porco, e contado de forma resumida as pessoas ficam a pensar: “O Carlos Vaz Marques? Enlouqueceu. Um jornalista respeitado”. Mas teve tanta graça. É poética a maneira como descreve a máquina, o funcionamento. A imaginação... Isto faz da Nêspera uma jam session de disparate puro.  

 

Há uma certa recorrência nesse tema...

Markl – Por mais que se diga, acho que o cu é uma parte muito engraçada do corpo humano.

Bruno – [Em tom filosófico] Penso que sim. Se isto for uma psicanálise, somos capazes de descobrir coisas interessantíssimas. O título já puxa a dilemas que vão para esse lado.

 

De onde vem o título?

Markl – Brainstormamos muito por SMS. Lembro-me de chegar um SMS do Bruno que propunha: “E se fosse Uma Nêspera no Cu?”

Filipe – A produtora do espectáculo Deixem o Pimba em Paz estava a tentar arranjar algum tipo de apoio para esta ideia. Ao Bruno, dava-lhe gozo especial pensar que ela ia a uma reunião e que tinha que dizer que o título era Uma Nêspera no Cu.

 

Porquê nêspera?

Bruno – Porque gosto da palavra.

 

Sabem como se diz nêspera no Porto? Magnório.

Bruno – Um magnório no cu!

Markl – Podíamos fazer a versão nortenha disto só com convidados do Porto. Não sei explicar, mas é mais engraçado chamar-se assim, e não Um Ananás no Cu ou mesmo Um Pêssego no Cu.

 

Fizeram oito programas, após o que interromperam para pensar o futuro do programa (escreveram isto no Facebook). Estes programas foram ouvidos por quantas pessoas?

Bruno – Um milhão e duzentas mil. Não estávamos à espera. Na verdade, estávamos à espera de deitar isto cá para fora. O caroço.

Markl – Estar em primeiro lugar no iTunes do Brasil é bizarro.

Bruno – Agora não sei se estamos. Mas estivemos. Alguém falou disto. De repente, no Twitter comecei a ter uma série de seguidores brasileiros. Aos milhares por dia. Até que percebi que um tipo...

Markl – Anticast.

Bruno – ... que tem um podcast no Brasil (que está sempre no top), partilhou.

Filipe – Os brasileiros acham graça ao sotaque.

 

Já que falámos em Brasil, trago a Porta dos Fundos, cujo projecto começou por só existir na net. Há algumas semelhanças. É por não terem nenhum patrocínio, é por não estarem ligados a uma rádio ou televisão que podem fazer tudo o que quiserem. Sem compromisso. Inspirou-vos?

Bruno – Neste caso específico, não. Até porque a ideia inicial era ser só um podcast. Em qualquer caso, é incrível o poder que a Internet tem. Trata-se sempre de liberdade. Trata-se de saber, enquanto espectador, que aqueles artistas não estão condicionados.

Markl – A Nêspera representa a ideia de estarmos numa plataforma em que vale tudo. Se há sítio onde se pode experimentar e ter liberdade absoluta é o podcast. É quase como as rádios piratas nos anos 80.

Filipe – Verdade, boa comparação.

Markl – Eu estive numa rádio pirata nos anos 80.

Bruno – Com amigos?

Markl – Sim, fazíamos masturbação colectiva. [riso]

 

Quando é que volta a Nêspera?

Bruno – Em Setembro. Se calhar vamos profissionalizar um bocadinho a coisa.

Filipe – E o espectáculo ao vivo? É um plano que temos.

Markl – O ideal seria reiniciar isto com um espectáculo ao vivo. Uma coisa bonita, com quarteto de cordas. O Filipe tem bons contactos ao nível do quarteto de cordas.

 

E terminarmos com um dilema? Saído agora.

Bruno – Eh pá.

Markl – Não consigo. Demoro muito tempo a pensar.

(Alguma conversa fiada pelo meio)

Filipe – Já tenho um bom. Vocês são pais. A primeira opção: estão a fazer amor com a Alcione...

Markl – Onde é que ele vai buscar a Alcione?

Filipe – Ela abre os vossos braços, uma cena dominatrix, e vomita-vos em cima. A outra opção: vão ter de deixar durante dois dias os vossos filhos ao cuidado da Alcione.

Markl – Mas estamos com a Alcione todos os dias?

Filipe – Um dia, só. Mas vomita-vos na boca.

Markl – Na boca? Há bocado não disseste que era na boca.

Bruno – Na boca? Isto é uma entrevista! Eu escolho a primeira. Nunca deixaria a minha filha com a Alcione.

Markl – Eu também.

 

Amor de pai.

Markl – Tens de ter algum heroísmo pelos teus filhos.

Filipe – Fui muito hardcore?

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

Bruno Nogueira

19.05.18

Tudo começou com um bastão, no Teatro S. Luiz. Se ele é capaz de se atacar com violência? Sim. Quantas vezes usa a palavra risível? Muitas. Como é que um rapaz que nem 30 anos tem é um dos maiores fenómenos da televisão portuguesa dos últimos anos? É o que vamos ver.

Bruno Nogueira nasceu em 1982. Um defeito? “Achar que todas as pessoas têm que pensar que tudo é risível como eu penso. Estar à vontade de mais. Ser teimoso. Ter muito pouca paciência para a burrice; não me refiro a pessoas que não sabem de política ou de história, mas a pessoas que fazem questão de complicar o dia a dia.”

Tem o descomplicómetro habitualmente ligado. Dizer que faz um humor corrosivo é pouco. É respeitador dos colegas (do estilo de dizer os nomes dos argumentistas que com ele habitualmente trabalham, e de sublinhar que provém do viveiro Produções Fictícias). Era possível entrevistar o Bruno Nogueira e o seu alter-ego Bruno Nogueira. Em qual é que ficamos?

  

Estamos no salão de Inverno do Teatro S. Luiz onde (mais a sério) apareceu. Aparecia com um bastão e dizia…

… “o meu nome é Bruno Nogueira e isso é uma coisa que me irrita.” Estávamos a começar o projecto Manobras de Diversão. Eu – se calhar tinha uma raiva contida que não percebia bem – começava sempre os meus textos assim.

 

Agora não usa o bastão, mas o seu humor tem uma violência indisfarçável. Não estamos tão distantes de alguns sinais que emergiam nesse Bruno de 18 anos.

A ideia do bastão terá sido minha. Era uma personagem que interrompia o espectáculo para expor as suas ideias mais controversas. No espectáculo funcionava. Na vida é mais perigoso.

 

No espectáculo continua a funcionar. N’Os Contemporâneos faz um arraso à Floribela-Luciana Abreu, que depois convida e recupera n’ O Último a Sair. É um exemplo do seu tipo de humor: violento, com nomes (o que é raro em Portugal), nada camuflado.

A Luciana, como o Roberto [Leal], como eu próprio, tem um lado muito risível. Havia nela coisas de tal forma expostas que servem o humor.

 

No youtube está o sketch no qual faz de Luciana, em África, à procura de uma criança descalça e faminta para adoptar.

Era um modo de levar até ao limite a ideia que se tem da Luciana. N’O Último a Sair, a Luciana, o Roberto são inteligentes o suficiente para usar isso em proveito próprio. O Roberto não precisava disto para nada, tinha a carreira mais do que feita. Aceitou porque percebeu que podia desmanchar a imagem preconcebida e cliché que tinha. Certinha, composta, o fato branco, Deus. O Roberto não deixa de ser isso, mas é outra coisa também – mais negro e divertido É um gesto de inteligência. Não sei se o teria.

 

Uma constante no seu trabalho, que tem n’O Último a Sair a sua máxima expressão: uma colagem entre a pessoa que é e a sua persona pública. Espreitamos pelo buraco da fechadura e aproximam-se a ficção e a realidade. Não sabemos onde está a barreira que as delimita.

Este paralelo entre a ficção e a realidade é o que me dá mais prazer fazer. Há um lado muito grande de improviso em que as pessoas estão a fazer delas próprias. Sempre conscientes de que aquilo é uma personagem. A linha entre a realidade e a ficção é tão ténue que é bom quando o espectador não percebe onde é que ela começa e acaba. Nós sabemos. Há coisas que digo que são apenas para servir o humor. Mas jamais serei capaz de fazer humor com uma coisa que é antagónica àquela que eu penso.

 

Se fosse um personagem como outro qualquer, e não o mentor do projecto O Último a Sair, como é faria o Bruno Nogueira?

Sempre trabalhei no campo de fazer de mim próprio. O achar que não há nenhum tema sagrado, que todas as coisas são passíveis de serem risíveis: a base da personagem seria essa.

 

Também nesta sala fez o seu primeiro espectáculo a solo. “Há imenso tempo que queria fazer um espectáculo no S. Luiz e ninguém me dava ouvidos. Comecei a namorar com a Maria Rueff e eis-me nesta sala, a fazer este espectáculo”. Porque é que diz estas coisas?

Seria estranho e delicado dizê-lo. Mas teria de ser eu a dizê-lo. Falando honestamente, acho que uma pequena percentagem de pessoas terá pensado isso, mas o objectivo era o humor. Não era uma boca. Como a Maria tinha notoriedade antes de eu ter começado, era uma realidade possível.

 

O público ainda não se tinha habituado a ouvi-lo dizer o pior sobre certas pessoas e às vezes sobre si próprio. Foi uma carreira planeada?, percebeu cedo que esse era o caminho?

Esse espectáculo, o Lado B e O Último a Sair foram planeados. Tudo o mais surgiu por acaso. A primeira vez que fiz stand up: no Chapitô, a mãe da Margarida Vilanova, que explorava o bar, queria fazer umas noites com leituras de textos. Fui lá fazer uma leitura em forma de stand up. Gostei da sensação, de ver como aquilo que eu dizia surtia efeito, provocava o riso. Tinha 16, 17. As Manobras: o Nuno Artur Silva tinha pedido a um colega meu textos, esse colega filmou-me a dizer esses textos. Textos sobre pacotes de abertura fácil. Não estavam à procura de actores, mas viram o vídeo e chamaram-me.

 

Ou seja, uma cassete que um amigo fez chegar ao Nuno Artur Silva fez com que fosse convidado para fazer as Manobras.

A partir daí, as coisas que foram surgindo foram sendo fruto umas das outras. A minha única regra, não só para trabalhar mas para a vida, foi só estar com pessoas em quem confio, acredito e com quem gosto de estar. E tenho de sentir que posso acrescentar alguma coisa.  

 

Mesmo não planeado, as marcas mais distintivas deste humorista já lá estavam. Como é que chegou a elas?

O meu pai tem o mesmo tipo de humor que eu tenho. Ou melhor, eu é que tenho o mesmo tipo de humor do meu pai.

 

Quando numa gala dos Globos de Ouro falou do Sr. do Bolo (Balsemão) e de puns, de quem falou foi da sua mãe, e não do seu pai.

Era como se fosse a minha mãe a dizer, mas não, [riso] era meu. O meu pai tem esse tipo de humor que não tem limites. A primeira vez que fui ao Levanta-te e Ri falei de nomes. Quando se falava de uma pessoa, dava-se sempre uma volta, arranjava-se um nome parecido. Não posso ser só bruto. Mas percebi que quando faço um discurso directo, quando chamo as coisas pelos nomes, [isso corresponde] à maneira como as pessoas pensam. Aquilo que dizem em casa, no carro, com a família, com os amigos, é trinta mil vezes pior do que alguma vez direi em palco. O pudor e os filtros que têm em público fazem com que sejam mais polidas.

 

Nesta altura da entrevista, quem está a ler, pode pensar que não tem sido senão polido.

Acha?

 

Muito cuidadoso, mais do que polido.

Se calhar. Inconscientemente. Estava a dizer que quando estamos em casa vemos uma notícia trágica e fazemos uma piada sobre o que se está a passar.

 

Já fez piadas sobre a morte de Angélico?

Não. Depende do bom gosto e do tempo. Está muito cru, ainda. Não há por onde pegar.

 

Quando foi a morte de Carlos Castro, no dia seguinte as anedotas eram às centenas. Isso tinha a ver com as pessoas em questão, com os contornos do crime? Simultaneamente estou a perguntar o que é que torna uma coisa imediatamente propensa à anedota.

Fiz um vídeo para agradecer os Monstros do [Fernando Alvim], disse uma piada: que tenho em relação ao Carlos Castro a mesma opinião que tenho acerca da aspirina: prefiro em pó. Depois disso veio um processo, da família. Há a ideia de beatificar uma pessoa depois que ela morre. Ou era um excelente actor ou uma excelente pessoa. Não ganho respeito a uma pessoa por ela ter morrido. Ponto. Não vale a pena estar a escarafunchar mais [a morte de Carlos Castro], mas é um tema tragicamente risível. Para mim e para milhões de pessoas. Não o dirão em público, certamente.

 

A partir do momento em que usa a palavra escarafunchar e o saca-rolhas foi uma das armas do crime…  

Para mim, todos os contornos são hilariantes. De a grande preocupação da família do Renato [Seabra] ser mostrar que ele não é gay, às correntes de apoio a um suposto assassino. A personagem [Castro], em vida, já era risível. O Angélico não era risível.

 

Foi no Levanta-te e Ri que se abriu ao público mainstream. Até aí estava no Curto-Circuito da SIC Radical, transformado em herói de malta nova. Voltando ao Angélico: o público que gostava de si podia ser coincidente com o público Morangos com Açúcar?

Há público que se cruza sempre. Há pessoas que gostarão de mim até eu falar de religião. Há pessoas que gostarão de mim até eu falar de gordos. Estamos sempre a ser avaliados. Estamos a ser avaliados à frase num espectáculo de stand up. N’O Último a Sair somos avaliados ao episódio. Pouco importa que o último tenha sido muito bom se o próximo for muito mau. A memória das pessoas fica no último. Essa pressão pode ser paralisante ou pode ser um motor.

 

A geração Morangos é conhecida pela preocupação com a imagem, o deslumbramento com a fama, a obsessão pelo sexo. No seu humor há um permanente ataque aos famosos. Eles parecem ser o seu alvo preferencial. Quando se inclui nessa categoria, pratica o género auto-depreciativo.

Em relação à geração Morangos: nada contra. Acho extraordinário se daí vierem mais talentos. Numa amostra tão grande, certamente não são todos canastrões. Há-de haver um ou outro que se salvará.

 

O Roberto Leal está a tomar conta de si. Essa seria uma resposta que ele poderia dar.

Acha? [riso] São caras com penteados estranhos (sou a pior pessoa para dizer isso), e mulheres com corpos já a aparecer. Passado um mês, todos dizem que não têm paciência para a fama, que os incomoda que os reconheçam na rua. Então não façam televisão! É um género.

 

Porque é que esse género o irrita tão particularmente, a ponto de sacar do bastão?

Porque são pessoas burras. Uma pessoa que não suporta ser reconhecida na rua não faz um trabalho visto por dois milhões de pessoas. Vai para um escritório, vai fazer teatro de rua, vai fazer o que quer que seja. Não é por serem figuras públicas que constituem um alvo; o que me faz comichão são aqueles que são famosos por serem famosos, como dizia o Sérgio Godinho. Porque aparecem. Porque não têm profissão. Porque são RP ou comentadores sociais. Não consigo conceber que ser comentador social seja uma profissão. A vizinha da minha mãe tem exactamente o mesmo trabalho. Só que não tem uma câmara à frente. Lado perverso: há público para isso. E a partir daí, fica-se desarmado. As pessoas querem ver os gordos a ser humilhados na televisão, pessoas a fazer figuras tristes numa tribo. Não consigo achar que muita gente a ver seja sinónimo de qualidade, ou que uma pessoa famosa que aparece na televisão tem mérito. Não tem mais mérito do que um sem-abrigo. 

 

Quis ser famoso?

Não. Quis fazer aquilo de que gostava, que era ser actor e fazer humor; e por acréscimo, e não me queixo disso, vem a fama.

 

Para estes que assistiam ao Bruno Nogueira no Curto-Circuito (esquecemo-nos que ainda não tem 30 anos…

Nem sei se vou lá chegar!, só faço anos em Janeiro.)

 

Para esses, era o “ganda maluco”. Deixou de ser o “ganda maluco” quando começou a fazer coisas nos canais generalistas e vocacionadas para um público mais abrangente?

A partir de certa altura, ser um “ganda maluco” deixa de ser um grande elogio para passar a ser meio-deprimente. Tive sempre a sorte tremenda de poder fazer na RTP aquilo em que acreditava. O Lado B não era um projecto para agradar a massas. N’Os Contemporâneos tentámos alargar mais o espectro. O Último a Sair tem o esqueleto de uma coisa generalista, de um Big Brother; mas o que se passa lá dentro é tal e qual o que eu gosto de fazer. Não facilitei. O João Quadros, o Frederico Pombares e eu escrevemos aquilo que achamos que tem piada. Posso dizer que até agora nunca ninguém tentou acalmar-nos.

 

Um projecto arrojado e com enorme violência de texto: Os Contemporâneos. Teria sido possível num canal que não o público? O seu humor é tão directo que tem consequências comerciais.

Num canal do Estado estou mais a salvo, por um lado; por outro lado estou mais sensível às críticas das pessoas do grande enigma que é o serviço público. (Ainda estou para tentar perceber, tal como o bom gosto, o [conceito de] serviço público). Provavelmente por ser na RTP tinha mais liberdade. Posso dizer que me ligaram uma vez de uma empresa e outra para a TSF [onde faço o Tubo de Ensaio]. Se eu podia repensar o texto que tinha escrito e no dia a seguir pedir desculpa... Eu disse que sim, à vontade, se pudesse dizer que tinha havido aquele telefonema.

 

Esses nomes é que nunca aparecem. Está muito dinheiro em jogo.

Estará? Mas posso dizer: ligaram-me da TV Cabo.

 

Todos nós já dissemos mal da TV Cabo.

Fiz um texto porque o serviço de apoio a clientes era mau. Paga, não consegue ver, está uns dias sem ver televisão, mas paga a factura integral; dizem que vão descontar, mas depois nunca descontam, e depois enganam-se outra vez, e depois… Às vezes, as pessoas põem-se um bocadinho a jeito. Têm de perceber que não há nada intocável, seja uma empresa, seja uma pessoa.

Há pouco tempo fui fazer uma gala da Liga Portuguesa de Futebol. Nunca na vida tinha visto tantas pessoas numa sala com tão pouca vontade de viver. De viver, de rir, de tudo. Reinava o medo! O medo do que se iria dizer a seguir.

 

O patrocinador zanga-se e corta – é isso?

É-me indiferente. As pessoas estavam era com medo que se falasse delas. Tanto que depois houve queixas sobre o tipo de humor. Uma coisa é estarem cem pessoas e serem três assim. Outra coisa é estarem cem pessoas e serem 95 assim, sem o mínimo espaço para rir.

 

Uma situação idêntica à de Ricky Gervais, quando apresentou os Globos de Ouro de 2011 e foi acusado de ter ido longe demais. Parece certo que não o convidam no próximo ano. Acha que o vão convidar para apresentar a gala da Liga Portuguesa de Futebol no próximo ano?

Se me convidarem para fazer o tipo de humor em que acredito, sim, se for para passar paninhos quentes em pessoas que não conheço de lado nenhum, não, não me interessa nada. O Ricky Gervais fez uma coisa inteligentíssima. Ali estavam 300 pessoas a assistir; em casa estavam milhões. Ele estava a fazer para casa. Em casa, adoraram. Disse as coisas que nós dizemos em casa. As pessoas que estavam na sala estão habituadas a que lhes passem a mão pelo pêlo. Mas não precisam. São famosas, têm dinheiro.

 

Têm segredos. Esse é o busílis?

Têm segredos e pontos fracos que acham que ninguém vê. Há coisas que, mesmo sendo muito transparentes, não gostamos que toquem nelas.

 

Começa a olhar para onde, para fazer a desconstrução e ver o potencial cómico de uma pessoa?

Se for uma figura pública, são uma série de antecedentes que são risíveis. Quando fiz um sketch a brincar com o Jorge Jesus n’O Último a Sair, toda a gente sabia que o Jorge Jesus se ia espetar ao comprido no português. Cada pessoa será diferente, não há uma regra. O José Rodrigues dos Santos pisca o olho no fim.

 

Confesse que em casa lhe chama “orelhas”.

Orelhas. Já chamei? É provável. Mas ele fez uma operação, dá-me ideia que sim, preste lá atenção no Telejornal, tem as orelhas no sítio. Mas por acaso não chamo “orelhas”. Não me é hostil. Irrita-me o piscar de olho, pronto.

 

Convenhamos, “orelhas” é muito soft.

Bem, em casa não sou um estivador! [riso] Sendo o humor a minha profissão, não quer dizer que em casa esteja sempre a praticá-lo.

 

O Dinis Machado tem no livro Reduto Quase Final uma crónica com um título que se transformou numa divisa perante a vida: “Qual é o lado mais cómico disto?”. Subscreve-la?, está sempre à procura do lado mais cómico de uma situação?

Sim. O humorista deve ter a capacidade de ver tudo através de (acho que era o Raul Solnado que dizia isto) uma lupa que torne as coisas normais em coisas risíveis. Uma pessoa que olhe para uma cadeira e um extintor não percebe que haverá um potencial cómico nelas.

 

Numa cadeira?

Pode haver. Se se dedicar a isso, acredite que pode fazer um texto de humor sobre uma cadeira.

 

Nessa crónica, Dinis falava de coisas como tropeçar e partir o dente da frente, de ficar nessa linda figura.

O grande triunfo do Obama, não em termos políticos mas em termos carismáticos, é ser uma pessoa descontraída. Passa a imagem de quem não tem um lado cinzento, quadrado. O que torna risíveis muitos políticos é o facto de se levarem tão a sério, não saberem sair de certas perguntas e situações com que são confrontados. As pessoas já não têm paciência para este tipo de políticos.

 

Acha Passos Coelho um pitéu em termos humorísticos?

Um pitéu?, agora fiquei assustado…

 

Por ser composto, engomado.

Menos composto e menos engomado do que José Sócrates. Sócrates é um personagem muito fácil de caricaturar. Pela intransigência, pela falta de jogo de cintura. Passos: ainda é muito cedo. A classe política está sempre exposta a levar tareia.

 

Está a ser muito politicamente correcto. Não se acredita que olhando para os novos ministros não tenha esfregado as mãos de contente com um ou outro.

Não tenho necessidade nenhuma de ser politicamente correcto. Ainda não me inteirei da pasta [risos]. O caso Fernando Nobre é um caso risível.

 

Na tarde em que falamos, segunda-feira, renunciou ao seu cargo de deputado.

Foi? Devia ter sido há mais tempo. Tinha uma grande estima por ele. Quando passou a ser político, houve qualquer coisa que se desmanchou.

 

É verdade que os políticos não são um alvo constante.

Nem política, nem futebol, nem sexo.

 

Porque não? São temas inesgotáveis.

Política é um tema chato. Sexo é um tema fácil demais. Já sei que se for para uma sala no norte e fizer um texto em que digo mal do Benfica, está ganho. Mas não me interessa.

 

O verdadeiro artista é o que é exigente consigo?

Não estou a dizer que escolho temas melhores. Interessam-me outros. 

 

O verdadeiro artista é o que escolhe temas desafiantes, campos adversários?

Não pego nesses temas porque, enquanto espectador, não os acho risíveis.

 

Segundo a wikipedia, mede 1.94.

Cuidado com a wikipedia. Há uns tempos dizia que eu vivia com dois gatos. Não suporto gatos! Mas um metro e 94, está certo.

 

A tradição dos humoristas em Portugal era baixinhos e gordinhos. Solnado, Nicolau Breyner, Herman.

Fernando Mendes.

 

Os dois humoristas mais notados da sua geração são altos e magros. Onde quero chegar é à utilização do seu corpo como matéria para o humor. Não é exactamente o seu tipo de humor. Buster Keaton fazia-o mais. Mas conta sempre com o impacto físico que causa.

Não só isso, como uma série de situações em que me vejo envolvido e onde a minha altura constitui um problema. Desde andar de avião a estar numa cozinha de uma maneira normal. Mostrar o ridículo do tamanho destas pernas é um tema que domino. Também a magreza. Bato-me pelo tema: porque é que não se pode chamar gordo a um gordo?

 

No programa chamavam gorda a uma gorda.

Porque é que é de mau tom chamar a uma pessoa gorda?

Ser gordo não era sinal de formosura?

 

Mas agora que dizer que se pode ter ataques do coração.

E eu posso morrer de fraqueza! [riso]

 

Um dos gangsters d’Os Sopranos tinha uma mulher muito gorda, mas muito gorda. Estavam a jogar cartas e ficou danado porque fizeram troça do tamanho da mulher. Ficou ainda mais danado quando chegou a casa e viu que andava a matar homens, ou em vias disso, e que ela furava a dieta!

E comia! A desculpa tem sempre a ver com o metabolismo, com qualquer coisa assim. O mundo é feito para as pessoas emagrecerem. A seiva, os comprimidos…

 

Mas como é que sabe da seiva?

Porque sei! Porque é um assunto que me incomoda. Quem é gordo tem mais opções para resolver a sua gordura do que quem é magro. Todas as pessoas que se queixam do peso comem que nem uns animais. Também me vai perguntar se como mal? Não, como que nem um animal. O meu metabolismo é assim.

 

Quando era criança, como é que seduzia as pessoas à volta?, pela graça?

Sim. Era muito tímido. Seis, sete, oito, nove anos, era gordinho, tipo bolinha.

 

Era “o badocha” apontado pelos colegas da escola?

Era bochechinhas, mas não fazia pregas nos braços. De repente, aos 16, houve uma coisa estranha no meu corpo e cresci. Parei no um metro e 94. Mas sim, era com o humor [que seduzia as pessoas à volta]. É um cliché, todos os humoristas dizem isto. Era um cartão de visitas para angariar mais amigos, para me safar de situações. Eu era aquele que provocava um amigo, que fizesse coisas parvas, que o punham de castigo. Do tipo: ver quem é que consegui dar com mais força um pontapé numa mesa onde estava um aquário. Ficaram cerca de 40 peixes espalhados pela sala, a morrer. [tosse seca] Era a minha forma de interagir. Não sabia fazer de outra maneira. Tenho dificuldade em ter uma conversa sem recorrer ao humor. Escudo-me. Dá-me a impressão de tornar a conversa mais interessante.

 

Conversa interessante?

Como dizer? Era como se eu fosse mulher e me viessem falar de roupa ou sapatos. Teria de recorrer a outra coisa para não ensandecer. São temas que não me interessam. Mas não é de bom tom terminar a conversa e dizer: “Essa conversa não interessa naaaada. Mas a ninguém, no mundo. Muito menos a mim. Portanto vou-me embora. Quando houver um tema interessante voltamos a falar.”

 

Só seria anti-social fazer isso. Mas não insano.

Tenho um bocado disto. Toda a vida vivi e trabalhei com pessoas mais velhas. Para os temas de que falavam as pessoas da minha idade, não tinha paciência.

 

Se as pessoas estão à espera do Bruno Nogueira, dá-lhes o Bruno Nogueira? Confesso que estava à espera que fosse mais o personagem, que tem muita graça e mete a punch line nos momentos certos.

Tem duas pessoas que pode entrevistar: pode entrevistar-me a mim ou a ideia que têm de mim. A ideia que têm de mim corresponde a isso. Isto sou eu sem pensar na ideia que têm de mim. Se me entrevistasse durante as gravações d’O Último a Sair, em que estava a fazer de mim, provavelmente seria outro tipo de discurso. Seria mais interessante? Se calhar. Mas não seria uma entrevista a mim.

 

Aquele que é, tanto quanto se vê, não quer ser apenas o humorista…

A atirar ao intelectual. [riso]   

 

Não por acaso, quando faz uma peça com a Cornucópia interpreta textos de Aristófanes. Com muito palavrão e tal. Mas Aristófanes. E sob a direcção de Luís Miguel Cintra.

Disse “intelectual” a brincar. Gosto como espectador, mas não era uma coisa que andasse desalmado para fazer.

 

Não precisa da caução dos intelectuais, da Cornucópia?

Não. Fico muito contente se vier, mas não me move. Assim como eles não precisam da caução da comédia para nada.

 

Em todo o caso, raras vezes um público tão jovem lotou o S. Luiz para ver Aristófanes. Evidentemente, era também um público que ia ver o Bruno Nogueira. 

Muitas pessoas iam para ver uma coisa e acabaram a ver outra. Não era uma coisa que ambicionasse. Claro que ter o Luís Miguel Cintra a encenar é um grande privilégio, aprende-se imenso, acrescentou-me muito enquanto actor. Mas foi pela experiência que fiz. Se o convite não tivesse nenhum, não faria.

 

Foi um actor dramático, e aplaudido, numa peça encenada por Beatriz Batarda, Azul Longe nas Colinas. Interessa-lhe não ser apenas o humorista?, quer ser o actor completo?

Interessava-me experimentar. Foi um convite. Jamais teria a iniciativa de fazer uma coisa dramática. À partida, não é por fazer uma peça dramática que se prova alguma coisa a alguém. Prova-se que se consegue fazer aquilo, mais nada. O risco é em grande parte da Beatriz. O papel mais sensível da peça é feito por uma pessoa que tem o carimbo da comédia. Ser no Nacional [Dona Maria] ganha outro peso. Mas ter conseguido extrair de mim aquilo é mérito dela. Fico orgulhoso de o ter feito.

 

Tem uma mãe como a do Herman que assiste na primeira fila e diz: “És um bom artista, não tinhas necessidade”? A sua mãe pergunta-lhe porque é tão violento?

A minha mãe e as vizinhas gostam muito d’O Último a Sair. É um barómetro para perceber coisas. Às vezes tem medo que me aconteça alguma coisa. Que alguém se passe e me dê com um barrote na cabeça. Tudo pode acontecer. Sei lá. Na gala da TV 7Dias, como estava um ambiente estranho, agradeci o prémio a uma pessoa que já tinha falecido, mas que ia ficar muito feliz por eu estar ali, que era a minha mãe. Fiz aquilo só pelo gozo de perceber a reacção das pessoas. [riso] Ficou um gelo na sala. Um silêncio de cinco segundos. Depois disse: “Estava a brincar, era só para aliviar o ambiente”.

 

Terão pensado: nem a mãezinha poupa.

Sim, sim. A minha mãe adorou!, fartou-se de rir. Contei-lhe, podiam ligar-lhe. Tenho muita sorte, não me lembro de uma única vez me terem censurado. O núcleo duro sou eu, o meu pai, a minha mãe e a minha irmã. Entre nós não há qualquer espécie de pudor.

O meu pai tem 69 anos. Plantou recentemente um jacarandá. Que demora uns certos anos a dar flor… Disse-lhe que era arriscado plantar um jacarandá aos 69 anos à espera de ver as flores… Seria o mesmo que o Manoel de Oliveira pôr um aparelho nos dentes. Já não faz sentido. Tudo bem, mas que faça primeiro o testamento. Digo isto obviamente a brincar.

 

O testamento? Deve ter mais dinheiro do que o seu pai. Ganhou montes de massa. Está rico?

Estou bem. Não estou rico. Ser rico é outra coisa. Ser rico é olhar para uma casa e comprá-la. Ser rico é o Ronaldo. Apetece-lhe uma casa para os seus pais, e nem olha [para o preço]. A extravagância que fazemos – ir a um supermercado, comprar uns iogurtes e não olhar para o preço – é o que ele faz com carros.   

 

O seu pai tem também dinheiro? Situe socialmente a sua família.

Uma família de classe média. O meu pai trabalhou durante muito tempo numa empresa que representava a Philips em Portugal, a minha mãe trabalhava na Gás Portugal. A minha irmã ficou a trabalhar onde o meu pai trabalhava e foi modelo durante muito tempo. Não tem 1.94. São os três muito, muito bonitos. Fui o único a degenerar na família.

 

Diz isso a sério?, sentiu-se o patinho feio?

Não, estava só a fazer género. Mas houve uma fase complicada em que o meu pai me levava a um barbeiro que me cortava o cabelo à Beatriz Costa. Era uma taça na cabeça e era gordinho e não escolhia as minhas roupas. [diz num tom gozão] Vejo fotografias e percebo alguma coisa da minha exclusão pelo ar que tinha. Um ar de demente, de pató, um nerd. Depois passei por uma fase bimba em que usei champô de camomila porque queria ficar louro. Devo ter usado demais e fiquei com o cabelo cor de laranja.

 

Já estamos na personagem Bruno Nogueira.

Não, não, é verdade. Foi uma fase muito estúpida em que pensei que o estilo estava ligado à cor de cabelo. Depois passei pela fase das marcas, porque fui para a escola secundária do Restelo. Quem não tinha um cavalo, um crocodilo no peito... A minha mãe ainda me comprou duas ou três coisas. Depois mandou-me ir trabalhar. Quando comecei a fazer teatro (é uma coisa que me faz comichão nos dentes no meio do teatro…, só andarem com cores escuras), só vestia preto e calças de bombazina castanhas. Parte de ser artista era aquilo que se vestia.

 

Quem é que foram sendo os seus modelos?  

O Herman. Esteve 30 anos a fazer do bom e do melhor. Ao fim de 30 anos é normal entrar em velocidade cruzeiro, com picos de genialidade, como sempre terá. Os Monty Python; vi uma reposição, era tão estranho que adorei. O Seinfeld, o Ricky Gervais, uma série de stand up comedistas. Tinha fetiche por alguns actores. Fui ver o Miguel Borges numa peça dos Artistas Unidos, Primeiro Amor, seis vezes.

 

Texto de Beckett. A peça era sublime. É compreensível que tenha ido seis vezes.

Seis vezes. Tive a sorte de, desde muito cedo, estar perto de pessoas que admirava muito. O António Feio, o Miguel Guillerme, o Herman, a Maria [Rueff], o Nuno Lopes, o Ricardo [Araújo Pereira], o Zé Diogo Quintela.

 

As pessoas acham que são dois galos para o mesmo poleiro. Dá-se realmente bem com o RAP?

Sim. Falamos sempre quando se escreve qualquer coisa sobre isso. A última era muito boa: eu vestido de Pepsi e ele de Coca-Cola. As pessoas precisam de criar rivalidade. A paz nunca vendeu.

 

O que é que o faz perder a cabeça? O que é que o faz ter vontade de pegar no bastão? Parece, estranhamente, muito racional.  

Está muito surpreendida comigo enquanto pessoa, não está? Ficou desapontada? Há pessoas que me abordam na rua com a falsa intimidade que a televisão provoca. As pessoas acham que no dia a dia estou em personagem! O que eu faço em palco, especialmente em espectáculos ao vivo, é o que eu gostaria de ser. Tanto no à vontade como na rapidez. Não sou aquilo na vida. Mas gostava. Também gostava de ser aquilo. No último espectáculo, no S. Jorge, estava em cima do palco a pensar como gostaria de ser aquela pessoa. Na vida não temos 800 pessoas a olhar para nós, acomodamo-nos mais.

O que é que me irrita? A falta de educação. Sem ser essas coisas? Mas isso tira-me do sério. Se tocassem na minha família, [perdia a cabeça].

 

Não acredito que não tenha ouvido sobre a sua irmã “a gaja é boa”.

Ah, mas sobre isso já me ri. Até ouvi pior. Depende da forma como é dito. Se é dito para ofender, à pedreiro, é uma coisa. Se é dito de igual para igual, no meu tipo de humor, é outra.

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Julho de 2011