Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anabela Mota Ribeiro

(Quase) Toda uma Vida - Cruzeiro Seixas

20.06.18

Artur Cruzeiro Seixas apresentou-se uma vez como "um homem que pinta". Uma das suas fotografias mais famosas mostra-o à mesa, com talheres polidos, um prato sobre o qual estão uns óculos. É um surrealista, o último dos surrealistas portugueses. Também poeta. A amizade com Cesariny é, de certa maneira, fundamental para entender o seu percurso; mas há outros interlocutores importantes para décadas de produção pictórica e poética. Vespeira, António Maria Lisboa ou Mário-Henrique Leiria são alguns deles. Pertence a uma geração que praticou a insubordinação, que se manifestou provocando escândalo, que quis ser livre. O traço fino revela um universo onírico, rico, é uma janela para um mundo que é seu. Vive na Casa do Artista, nasceu em 1920. É o próximo convidado do (Quase) Toda uma Vida: dia 1 de Julho, às 17h, no Centro Cultural de Belém.  

Ler no Chiado: Lisboa!

18.06.18

Os espanhóis Rosa Cullell e Javier Martín escreveram "Lisboa, a minha e a tua", um guia da cidade que é também um diário das suas vidas aqui. Joana Stichini Vilela nasceu na capital, escreveu sobre a Lisboa que está para trás nos livros Lx 60, Lx 70 e Lx 80. Fernando Medina nasceu no norte, é presidente da Câmara de Lisboa. Todos são lisboetas: vamos saber o que isso é, discutindo as múltiplas identidades que a cidade tem, a transformação operada pela chegada de turistas e estrangeiros, os encantos e desafios. É com eles que vamos falar no Ler no Chiado, dia 28 de Junho às 18.30 na Bertrand do Chiado. Moderação de Anabela Mota Ribeiro.

Dolores Aveiro

15.06.18

Dolores Aveiro é a mãe de Cristiano Ronaldo, como toda a gente sabe. Tem uma história de pessoa humilíssima que sonhou o sonho de ser feliz. O discurso oscila entre o pungente e o cru. De uma violência de que parece não se dar conta ou, simplesmente, com que aprendeu a viver. E depois aconteceu um sonho.

Podemos chamar-lhe apenas D. Dolores? As coisas simples vão bem com ela.

Em resumo, foi esta a sequência: D. Dolores chega a casa, passa um iogurte grego e uma gelatina ao neto. Não tira os saltos de uns dez centímetros, apesar de ser fim da tarde e do cansaço. Pergunta: “Vai ser longa, a história? Por causa da garganta. E quero ver o jogo”. Não viu o jogo. O Real Madrid ganhou por quatro a zero, Ronaldo não marcou mas assistiu dois golos. A história, a entrevista foi longa. Estava quase sem voz. Continuou com a voz abafada quando terminámos, hora e meia depois.

Não parece ter 60 anos. A pele é bonita, lisa. Não exibe os sulcos de uma vida pobre e triste. Nem se apagou um sorriso e uma candura que pareceriam impossíveis (atendendo ao tanto por que passou, o orfanato, os maus tratos, a carestia). Há nela, quando fala do gosto de lavar o quintal, de mangueira, descalça, uma espécie de milagre. Como uma criança que chapinha na água e que não conhece maior prazer. A água da sua mangueira, o seu quintal. Qualquer coisa que é sua depois de uma vida espoliada.

Espoliar: tirar ilegitimamente.

Foi espoliada pela vida (passe o tom melodramático da frase). Então lutou, quase desistiu, lutou. O seu testemunho é um retrato do que a pobreza faz. Do que é sobreviver a partir do chão. Há nele uma humanidade que comove e que se sobrepõe ao grito, à urgência, ao rude.

No final da entrevista prestou-se às fotografias. Foi uma moça divertida com este papel. Uma vez ou outra brincou com o neto. “Como é que o pai faz quando marca um golo?” E o menino de quatro anos desliza pelo chão, de joelhos, como o pai, o melhor jogador do mundo, desliza pelo relvado, e culminam, um e outro, a celebração com um gesto de braço e punho erguido. Cristiano também imitou a pose do pai, aquela pose de gladiador, que antecede a marcação de um livre. Pernas abertas, cara furiosa, a arfar. A avó delirava. Este menino e o pai deste menino são os seus meninos d’oiro.

Não falámos de Messi nem de rivalidades. Não falámos dos outros filhos (além de pequenas referências). A entrevista foi combinada com as editoras da Matéria Prima, que lançou o livro Mãe Coragem, escrito por Paulo Sousa Costa. Foi com uma delas que chegou a casa, e seguiu directa para a cozinha e o iogurte e a gelatina. A outra estava lá, à espera. Vinham de um evento, fora de Lisboa. Tinha chorado um pouco e os olhos estavam esborratados. Não chorou nunca na entrevista.

No Facebook, onde é seguido por mais de cem milhões de pessoas (é mesmo isso, cem milhões de pessoas) Ronaldo escreveu, ao lado dela, erguendo o livro: “A minha mãe é, sem qualquer dúvida, uma mãe coragem. Sinto-me muito grato e orgulhoso por ser filho dela e tê-la na minha vida”.

Eis aqui a D. Dolores, esta terça-feira [de Dezembro de 2014, pouco antes do Natal].

 

Comecemos por uma recordação da infância do Ronaldo. Uma brincadeira consigo. Uma história. O que é que lhe ocorre?

[muito prontamente] Quando ele era pequenino, eu chorava muito pela vida que levava. Ele dormia na minha cama. Dizia: “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. E foi verdade.

 

Quantos anos tinha quando dizia isso?

Uns cinco, seis anos. Foi uma coisa que me marcou para sempre.

 

Já dizia que ia ser um grande futebolista?

“O que é que queres ser quando fores grande?” “Quero jogar à bola.” Mas nunca julguei que chegasse ao patamar a que chegou. Com o passar do tempo é que vi que o meu filho tinha dom para o futebol. Vi que ia dar alguém. Às vezes penso que é um sonho.

 

E ele, imaginava que ia chegar onde está?

Não, não. Diz que se eu não o deixasse vir para cá [Lisboa] não dava jogador. Trabalhava na construção civil ou aprendia uma arte. Como o irmão mais velho. O irmão trabalhava em alumínio. Fazer janelas, portas.

Dizia que ia jogar à bola, ganhar muito dinheiro e ajudar a mãe. Mas nunca lhe passou pela cabeça. Dizia por dizer.

 

O que quero saber: ele sempre acreditou? Vemos hoje que tem, como dizia o meu colega fotógrafo, Nuno Ferreira Santos, “um querer gigante”. Todo ele é força de vontade...

E trabalha muito. Quando veio aos 12 anos, passou por muito. A maneira de ele falar: gozavam.

 

Este sotaque que tem era o que ele tinha?

Sim, e talvez pior, como criança. Ele telefonava-me de uma cabine. Falava e chorava. “Mãe, vou desistir.” “Filho, se é disso que gostas, luta. Luta, que a mãe não te vai cortar [as pernas].” Ele foi percebendo aquilo que ele era. Havia um treinador que era da Madeira e comunicava-me: “O Ronaldo é um grande jogador. Tem vontade. Acaba o treino e vai outra vez para o ginásio. Criar músculo.” Quando ia à Madeira, de férias, pegava em baldes cheios de pedra para fazer musculação. Punha meias grossas cheias de pedra que amarrava contra as pernas [aponta para barriga da perna].

 

É uma mistura de talento, vontade e trabalho?

São essas três coisas. Ele é uma pessoa que quer sempre mais. Trabalha para mostrar sempre mais.

 

Para mostrar a quem?

A todo o mundo. A ele próprio. A pensar: “Sou capaz, vou fazer”.

 

Nunca duvida?

Não. Ele mete na cabeça que é capaz e consegue.

 

Quando é que foi inseguro?

No princípio, quando chegou aqui. Para se adaptar. Na escola. Eu dizia-lhe: “A mãe vai aí no fim de semana, vais ficar bem”. “Venha, venha ver o jogo.” Vinha. Ficava comigo à noite. Já ficava calmo. A vontade de querer vencer, mesmo: foi a partir dos 15, 16 anos.

 

Já foi duas vezes o melhor do mundo e agora está numa de bater records. Ser o melhor marcador... Fala desses objectivos?

Fala. Comigo, com os irmãos. O ano passado disse assim: “Bem, marquei 31 golos. Tenho esperança de receber a bota [de ouro]. Para o ano, a ver se consigo marcar mais.” A prova disso: ainda não está a meia volta dada e já tem 25 golos.

 

Sempre tiveram uma relação assim íntima? Para ele sempre foi fundamental tê-la por perto?

Sim. Um rapaz assim que tenha ao lado um bom pilar, ajuda muito. É um homem feito, hoje. Tem os pés assentes na terra. Mas gosta que esteja ao lado dele.

 

Porque é que acha que ele nunca se deslumbrou?

Porque dá valor aquilo por que passou. Foi uma criança que viu os outros ter coisas melhores do que as dele. Sabia que tinha consoante aquilo que eu podia dar. Tanto que disse: “Mãe, vou ser pai. Quero que a mãe dê uma educação ao meu filho como aquela que me deu a mim”.

 

Quando é que ele soube do tanto que a senhora passou na sua infância?

Sempre contei. Os meus quatro filhos e eu, à noite, quando se estava na cama, cantava para eles. Cantava músicas tristes. “Menina que estás fazendo, sentada no cemitério, sozinha...” Essas coisas assim. O Ronaldo sabia que eu tinha madrasta. Tratava-a por mãe, mas ele sabia que não era a minha mãe verdadeira. Nunca escondi nada dos meus filhos.

 

Dê-me um momento da sua infância com a sua mãe, feliz. Ela morreu quando tinha cinco anos.

Era bordadeira. Bordava com vizinhas, muitas senhoras. As toalhas eram muito grandes. Cada uma bordava numa ponta. Sentia-me feliz quando a minha mãe bordava e me punha no meio das pernas dela. Elas a cantar e a bordar. A minha mãe não tinha tempo de dar colo. Trabalhava muito para sustentar os filhos. O meu pai nunca foi um pai... São coisas da vida.

 

Sendo diferente, acabou por acontecer o mesmo consigo. Era a D. Dolores que levava o barco, que ganhava.

Pois. O meu marido não ganhava muito. Além de que, o pouco que ganhava, bebia. O ir para o Ultramar..., ficou revoltado. Tínhamos uma filha com um ano. Depois fiquei logo grávida do meu filho. Foi quando ele foi. Depois do 25 de Abril, quando a gente pensava que já não ia mais tropa. Para Angola. Treze meses. Foi o suficiente.

 

Era um homem que falava ou que metia para dentro?

Falava. Quando estava lá, escrevia-se telegramas. Chegou a escrever muita tristeza nos telegramas. “Dolores, fui a tal sítio.” Era primeiro cabo. “Fui buscar uma coisa e estava embrulhada a cabeça de uma pessoa.”

 

Conta no livro “Mãe Coragem” que sempre foi um bom pai.

Nunca foi de maltratar os filhos. Eu é que batia nos meus filhos. Quem dá o pão dá o ensino. Era assim: eles faziam qualquer asneira e eu castigava-os. Como trabalhava muito, sentia-me revoltada e batia.

 

Como é que lhes batia se tinha apanhado na infância?

Se tivessem de levar uma estalada na cara, levavam. Não era assim como eu levei, pancadas. Não tem comparação. Às vezes calhava tirar o cinto. Cheguei a dar, cheguei. Eu achava que se desse com o cinto, eles melhoravam, [aprendiam]. Para eles, os castigos eram piores do que o bater.

 

Que castigos?

Fechados dentro do quarto. A fazer os trabalhos da escola. Se o Ronaldo quisesse jogar a bola com os amigos do bairro, não deixava.

Quando lhes batia, acabava por me arrepender. “Credo! Levei tanta porrada, porque é que vou bater nos meus filhos?”

 

Levou sobretudo da sua madrasta. E no orfanato, das freiras?

Pelas freiras, nunca fui maltratada. Eram castigos. Davam com urtigas no rabo quando fazia xixi.

 

([Entra o neto Cristiano]

A avó está a falar com a senhora. Não pode brincar contigo. Vai lá para dentro.)

 

Os castigos: limpar os quintais. No ditado, se passava de cinco erros andava com o caderno pendurado nas costas toda a tarde. Para os outros colegas verem os erros. Ia-se à missa todos os dias, à tarde. Dava-me o sono. Na sala do convívio das crianças, punham-me num cantinho, com um saco de papel na cabeça. Como quem diz: “Dormiste na igreja, agora dorme aí nesse canto”.

 

Foi recentemente visitar o orfanato, com o seu neto. Como é que foi?

Gostei! Lembrou-me. Além de eu ser castigada, matei as saudades. Muita coisa mudou. O quarto de dormir existia. Era para vinte e tal. Agora só tem seis camas. A minha cama ficava ao pé da janela. Coisas felizes? Quando chegava a Páscoa, tínhamos uns saquinhos de amêndoas. Torrões de açúcar. O convívio. Quando chegava o domingo e não tinha visitas, as minhas amigas tinham, e dividiam aquilo que recebiam. Comigo e com a minha irmã.

 

O menino consegue perceber o que foi a sua infância?

Não. Com quatro anos, ainda não dá para explicar. Faz cinco em Junho do próximo ano.

 

No fundo, era pouco mais velha do que ele quando foi internada no orfanato.

A minha mãe morreu a 13 de Dezembro e fiz seis a 31 de Dezembro. Olho para ele e penso muito. Nos netos todos. Vou partir um dia. Quero vê-los grandes [para ter a certeza de] que não passam aquilo por que passei. Que ficam bem.

Mas, com a idade do Cristiano, lembro-me da minha mãe. Por exemplo, a minha mãe foi uma mulher que casou aos 16 anos. Ficou viúva duas vezes. O [primeiro] marido era pescador e morreu no mar. Casou segunda vez. O marido morreu no mar, também. Eu era criança e ouvia-os a falar. A minha mãe tinha cara de sofredora. A força que eu sinto, a mulher que hoje sou, tem a ver com a minha mãe.

 

Explique melhor isso.

A minha mãe foi para o hospital com o seu juízo. Morreu com a dor de deixar cinco filhos menores. Acho que pediu pela gente. Como eu era a mais velhinha, talvez tenha transmitido a força dela para mim. Ela apareceu-me. Dizia-me: “Olha sempre pelos teus irmãos.” Foi o que fiz.

 

Conte do momento em que ouviu a voz dela.

Foi no orfanato. Ouvi uma voz à distância. As freiras, no princípio, não acreditaram. No fim acreditaram. Quando fui para casa do meu pai é que passei a vê-la. Aquela voz: quanto mais me aproximava mais a ouvia falar. Era um eco.

 

Via-a como?

Na casa do meu pai não existia água canalizada. Íamos à fonte. Vi um vulto ao longe. Aproximava-se. De blusa branca e xaile escuro. O cabelo muito apanhado. A minha mãe usava assim. Dizia ao meu irmão: “Não estás a ver? É a mãe!”. E ele: “Que nada!” Ele não via. Mas acreditava pelo espanto que eu fazia. Em casa dizia ao meu pai. O meu pai batia-me. Um dia comentou: “A miúda, para estar sempre a dizer aquilo, é porque vê alguma coisa”. Falou com o padre. O padre disse que podia ser verdade. Para eu dizer: “Mãe, põe-te a sete léguas de distância, diz-me o queres e não me metas medo”. A minha mãe disse-me assim: “Diz ao teu pai para ir a Machico pagar um litro de azeite à Senhora dos Milagres. A mãe pediu, morreu e não pagou [a promessa]”. Fomos a Machico na altura da festa. O meu pai pagou. E dessa altura para cá nunca mais vi a minha mãe.

 

A sua mãe morreu aos 37 anos com um ataque de coração.

Deu-lhe uma dor e ficou muito negra. Levaram-na para o hospital. Morávamos no Caniçal. Chegar ao Funchal demorava muito tempo. Morreu três ou quatro dias depois de estar internada. Eu estava no quintal da minha avó a brincar. Uma vizinha disse assim: “A tua Matilde já lá foi”. Percebi o que tinha sido. O meu pai nunca foi um homem responsável pela vida. O padre da freguesia quis levar-nos para o orfanato. O meu pai: “Fico com o mais velho. Os outros quatro, o senhor padre faça o favor de os internar”. Comigo ficou a Laurentina. A Florentina e o Jorge ficaram noutro orfanato por causa da idade.

 

Nunca pensou desistir?

De?

 

Da vida.

Pensei. Passou-me pela cabeça dar fim à vida. Depois de ser mãe. Também quando vivia com a minha madrasta e ela me deu uma sova de fio de luz [com o fio eléctrico]. Pôs-me com o corpo todo cortado. Tive uma infância triste. Casei aos 18 e pensei que ia ter uma vida feliz. Depois não foi. Tinha uma filha, ia ter o segundo filho... Depois pensei: “Não. Não pedi para vir ao mundo, também não vou pedir para morrer”. Vou lutar enquanto puder.

 

A maior parte da sua vida foi de muito sofrimento.

É verdade. Só depois de o Ronaldo ir para Manchester é que a nossa vida mudou.

 

Antes de Manchester. Conte do tempo em que veio viver para Lisboa, para tomar conta ele.

Ele tinha 16 anos. Eu tinha 46. “Mãe, vou para a equipa A, a equipa principal. Vou ganhar mais qualquer coisa. Vai dar para orientar a nossa vida aqui e na Madeira”. Vivíamos numa casa da Câmara. “A mãe passa-me a ferro. Já não fico no Sporting. Tenho aquela coisa de ter ao meu lado a mãe.” Vim para este apartamento. Ele ia treinar. Vinha e tinha o almoço feito. Eu ia ao [centro comercial] Vasco da Gama às compras. O meu passatempo: bordava. Não foi fácil deixar o meu trabalho e pôr-me aqui, onde não conhecia ninguém.

 

A comida que fazia, almoço e jantar, era a sua comida ou tinha de ser de acordo com as indicações do clube?

Não, era a minha comida. O clube nunca disse o que é que ele devia ou não devia comer. Sempre tive boas mãos para cozinhar. O Ronaldo gosta de um bacalhau à Brás, cozido à portuguesa, feijoada à minha maneira.

 

Ainda continua a cozinhar?

Sim. Em Madrid, quem faz o meu comer sou eu. Vivo numa casa separada da do Ronaldo. Quando faço uma coisa diferente, vem à minha casa. “Filho, a mãe vai fazer bacalhau. Apetece-te?” “Faça, mãe. Faça que tenho saudades.” Ele agora tem mais cuidado com a alimentação e nem sempre come o que faço. É um atleta de alta competição.

 

E uma coisa é ter 18 anos, outra é ter 28.

Faz 30 para Fevereiro. Ele agora tem os empregados, que fazem [as refeições]. Cheguei a viver na casa dele. Em Manchester vivi com ele. Nunca tive empregados.

 

Naqueles anos, já de milhões, não tinha ninguém que a ajudasse?

Não! Não porque eu tinha que ocupar o tempo. Não sabia falar inglês, não conhecia ninguém. Sentia-me bem a fazer a minha vida. A empregada da casa era eu.

 

E hoje?

Tenho uma empregada que faz tudo em casa, mas o comer, eu faço. O meu comer é sagrado. Eles fazem o comer típico de Espanha. Eu faço à portuguesa. E faço a sopa para o meu neto como fazia para o Ronaldo. Uma massinha, um arroz.

 

Já viu a felicidade de ter um neto que é um filho, com esta idade...

É uma alegria. Não está o tempo todo comigo. Vai para a escola de manhã. Sai às quatro da tarde. Está um pedaço com o pai. Está um pedaço comigo. O Ronaldo está muito tempo ausente. E então fica comigo. Ele sente a minha falta. Quando vou à Madeira dois ou três dias noto o menino triste. Falamos ao telefone: “Anda. Senão não és mais a minha avó”. Magoa-me muito.

 

Ele às vezes chama-lhe mãe?

Não. Mas diz assim: “A minha mãe está no céu. E tu és a minha mãe. Podes ser minha mãe e avó”. Digo que sim.

 

A que é que ele gosta de brincar consigo?

À bola. Para fazer a vontade ao meu neto, vou dando uns pontapés na bola.

 

E com o Ronaldo, jogava?

Jogava.

 

Como é que lhes chama?

O neto é Cristiano, o filho é Ronaldo.

 

Cristiano ou Cristianinho?

Cristiano.

 

São os dois muito parecidos consigo.

Acha?

 

Acho. Sobretudo a boca.

Digo ao Ronaldo: “Estás dentro do campo. A cara que fazes lembra-me a minha cara”. Ele responde: “A senhora queria, mas não sou parecido consigo!” “Mas és parecido com a mãe...”

 

Gosta que ele seja parecido... Que cara faz dentro do campo que é parecida com a sua?

Quando marca o golo e faz aqueles gestos. Ou aquela cara carrancuda. Ou aquela cara de mau. Lembra-me de quando eu era jovem.

 

Mudaram-se para Manchester em 2003. Em dez anos, a vida deu uma volta.

Quando foi para Manchester, começou a ganhar bem. Com o primeiro ordenado que recebeu mandou-me escolher uma casa. Para comprar a casa à mãe, como tinha prometido. Não foi escolhida por mim, foram as minhas filhas que andaram vendo.

 

O que é que quis que a casa tivesse? Espaço?, uma vista bonita?

Tenho uma boa vista, mas não pensei nisso. Pensei num bom conforto. O conforto era ter casas de banho com chuveiro, que não tinha. Na casa onde vivia era preciso aquecer a água no fogão e tomar banho numa banheira. Sonhava ter uma casa de banho e tomar banho de chuveiro. Ter uma banheira. Um quarto de dormir grande. Ter uma cozinha grande. Adoro cozinhas grandes! Uma cozinha com azulejos. Ter a coisa de limpar os azulejos. A brilhar. O conforto vale muito.

 

A sua cara muda quando fala disso. Ilumina-se.

Ter aquele quintal que posso lavar de mangueira, descalça. Sentia um prazer enorme ao lavar o meu quintal. São coisas que não esquecem. A primeira casa que o Ronaldo comprou: a minha filha mais velha é que vive lá. Chego e se for preciso ligo a mangueira e lavo o quintal. No Natal, no Verão. Agora é raro. Mas no princípio fazia isso. Matava as saudades.

 

Já está habituada a esta vida de conforto em que o dinheiro não é um problema?

Claro que agora já posso ir jantar. Em jovem nunca ia jantar. Trabalhava na cozinha do hotel mas nunca tinha ido a um restaurante. Vou à Madeira e ligo a uma amiga: “Queres ir jantar comigo? Vai-se à espetada”. Pago de bom agrado. Posso. Se tiver de fazer bem, faço. Porque posso. Mas penso no dia de amanhã. Não sou mulher que abre a mão e derrete tudo. Podia comprar uma bolsa cara, e não faço isso.

 

Esta sua bolsa cara (a Birkin da Hermès), que está sobre o balcão o cozinha, quem é que a comprou?

Foi o meu filho. Tenho coisas de marca. Que eu compre?, não compro. Não tenho coragem. O Ronaldo amanhã vai fazer a vida dele. Penso que ele não muda, mas às vezes uma mulher muda um homem. Poupo. Não se sabe o dia de amanhã. O meu filho não me deixa faltar nada. Nada mesmo. Se me der mil euros, gasto 500 e guardo 500. Vai para o escuro! Está guardado no escuro, ninguém vê! [riso] De hoje para amanhã vou partir e tenho os meus netos para ficar [com o que poupei]. Têm alguma coisa para a universidade deles... Penso nisto. Ele diz: “Devia gastar mais. Gozar”. “Mas a mãe é assim.” A boca leva tudo.

 

“A boca leva tudo”?

Quer dizer: há pessoas que ganham cem e gastam 110. Eu vou ao supermercado e escolho as coisas mais baratas.

 

Compara preços para poupar dez cêntimos aqui, 30 acolá?

Faço isso. É a minha maneira de ser.

 

Pensei que procurasse os produtos de que gosta, independentemente do custo.

Antigamente dava aos meus filhos iogurtes naturais. Nem tinham sabor nenhum. Hoje não faço isso. Vou ao supermercado e compro aos meus netos iogurtes com aromas bons. Um bife: compro carne melhor do que antigamente. Mas o que puder poupar, poupo.

 

Ficou uma marca muito grande da fome e da pobreza.

Pois. E acontecendo alguma coisa – oxalá que não! [bate no sofá três vezes] – tenho ali o que poupei. E se acontecesse alguma coisa ao meu filho, ia buscar tudo o que poupei e dava-lhe. Tudo o que tenho ali foi ele que me deu. Digo aos meus filhos: “Está escondido em tal parte. Se acontecer alguma coisa à mãe, dividam por todos”. O Ronaldo oferece-me jóias de muito valor. Digo às minhas filhas: “Já têm a vida organizada. Se eu morrer, dêem aos vossos filhos. Não é para vocês!”. Já tenho tudo destinado.

 

Porque é que fala tanto da morte? Está a dias de fazer 60 anos.

Eu estava com aquela coisa que aos 37 morria. Ultrapassei. Faço 60. Agora vive-se um dia de cada vez.

 

Já lutou contra um cancro da mama. Teve muito medo de morrer?

Tive. Já era uma mulher feliz. Foi em Inglaterra que o descobri, fui operada na Madeira e vim fazer o tratamento ao Porto. “Meu Deus, tenho tudo agora. Será que Nosso Senhor se vai lembrar de mim e vou embora?”

 

Era muito injusto.

Pois era. Mas graças a Deus estou aqui. O Ronaldo diz que aguento até aos 90!

 

O que é que hoje lhe dá mais felicidade?

Os netos. Os filhos, bem ou mal, criei-os.

 

Acha que criou bem ou mal?

Criei bem. Porque lutei pelos meus filhos. Trabalhava as minhas horas de trabalho, chegava a casa e ainda ia a casa dos vizinhos passar a ferro, lavar quintais. Não era dinheiro o que me davam. Eram restos de comer deles. Sobras. Um quarto de quilo de massa. Duas ou três batatas. Umas cenouras. Para mim, tinha valor. Lutei para que nunca faltasse nada aos meus filhos. E para que eles nunca tirassem nada a ninguém. Os meus filhos às vezes iam para as fazendas roubar fruta. Também cheguei a fazer isso. Mas chamava-lhes a atenção [voz ríspida]: “O teu pai não tem fazenda!” Considerava um roubo ir a casa de uma pessoa roubar fruta.  

 

Está a dizer que se esforçou pelos seus filhos e lhes deu valores.

Sim. A coisa que eu mais queria era que estudassem. Essa era a herança que eu podia deixar – eles terem estudos. Qualquer um deles andou até ao nono ano. Não quiseram mais. Os dois mais velhos quiseram trabalhar porque eu não tinha televisão. Queriam ter melhor vida e ajudar-me a comprar coisas melhores para casa. Por isso considero-me uma mãe de coragem de lutadora.

 

O Ronaldo ainda passou por essas dificuldades?

Não passou tanto. Quando nasceu, as coisas já estavam melhor.

 

O seu pai e a sua madrasta ainda são vivos. Emigraram para a Austrália. Os seus filhos, o Ronaldo, perdoam-lhe o mal que (em especial a sua madrasta) lhe fizeram?

Perdoam! Ai, ele tem muita consideração pelos avós. Até eu, não tenho raiva à minha madrasta. Coitadinha. Hoje sou mulher: também lhe devo a ela. Quando saí do orfanato tinha onze anos. Além de ser maltratada, transmitiu-me muita coisa.

Quando dei a entrevista ao Manuel [Luís] Goucha e à Júlia [Pinheiro], o meu pai viu lá. “O pai gostou?” “Filha, estás tão bonita.” “O pai desculpe de eu ir buscar o passado.” “Não levo a mal porque aquilo que disseste é verdadeiro.”

Um dia disse à minha madrasta: “A mãe era muito má.” “Eu sei. Mas nunca me levantaste a mão. Nunca me faltaste ao respeito. E os meus próprios filhos já me faltaram ao respeito.” Para mim é um orgulho muito grande ela dizer isto.

 

O dia mais feliz da sua vida, qual foi?

Quando fui mãe. Todas as vezes. Falar a verdade: engravidei [quatro vezes] e nunca por vontade. Mas depois de dar à luz era a maior alegria. Quando vi o meu filho na selecção. Tocar o hino e vê-lo no meio daqueles jogadores. (Eu gostava, gosto do Luís Figo.) E o dia em que nasceram os netos.  

 

Conta no livro que pensou abortar quando estava grávida do Ronaldo. É muito duro para um filho ouvir isto.

Ele acha graça! Com o passar do tempo, viu o pai que tinha. Eu era muito maltratada. (Ele já morreu, não quero falar.) Quis abortar. Ele hoje diz, a brincar: “Já viste, mãe, tu quiseste abortar e eu agora é que os sustento a todos”.

 

Disse que isto tudo parece um sonho. Pesadelos, tem?

Não. Deito-me na minha cama tranquila. Se tiver de fazer bem, faço. Se tiver de dizer não, digo. Recebo muitas cartas a pedir ajuda. Quando vou à Madeira, vão muitas vezes a minha casa. Há pessoas que me fizeram mal que vêm à minha beira, pedir. Não esqueço. Digo que não. Para sentirem. Quando precisei viraram-me as costas. Deus não me castiga por causa disto.

 

Vou contar-lhe o começo desta entrevista. Foi em Junho. Em Nova Iorque, um taxista contou-me que o seu filho tinha pago a operação a uma criança. Que tinha bom coração. E pensei na mãe que o tinha educado. Foi então que pedi para a entrevistar.

Ele tem bom coração. Quando foi para Manchester, saía em muitas revistas que fazia isto e aquilo. Às vezes era mentira. Ganhou muito dinheiro em processos. Dizia: “Não quero este dinheiro. Pegue nele e faça o quiser.” Dei-o a instituições.

 

Quais são os maiores defeitos do seu filho? Só temos falado das qualidades.

O maior defeito dele é não gostar de perder.

 

Porque é que isso é um defeito?

Tem de compreender que não pode ganhar sempre. Estou dizendo uma coisa, e sei que tenho razão, e ele entende que é como ele está a dizer: teima! Tem que saber perder dentro e fora do campo. Era muito teimoso, muito teimoso.

 

E vaidoso?, que é aquilo de que as pessoas o acusam.

Vaidoso? Gosta de se arranjar. Se tem possibilidades de ter tudo de bom, porque é que não há-de ter?

 

Não é vaidoso em relação à imagem. É a maneira como no campo...

Sente orgulho quando marca. O Ronaldo não é essa coisa que dizem. O Ronaldo é muito humilde. Sente vaidade de mostrar aquilo que sabe. E que consegue fazer melhor do que fez.

 

E os seus defeitos, são quais?

Sou também muito teimosa. Sou amiga do meu amigo, mas quem me magoar no dedo mindinho que saiba que me magoa no resto [mostra a mão toda]. Perdoo. Mas não sou a pessoa que era dantes.

 

Quais são os seus medos?

O meu medo é morrer e deixar os que mais amo na vida.

 

O Natal, como é que vai ser? Imagino que vá para a cozinha...

Vou! E vão as filhas. Não passo o Natal com o Ronaldo. Ele vai para o Dubai, passá-lo com a namorada e o filho. Ele disse-me para ir, mas não vou. Quero passar o Natal na minha terra. O frio lembra-me o Natal. No Dubai está quente. Já estive lá. Gostei. O fim do ano também passo na Madeira. Depois então vou para Madrid, com ele. Faço os anos na Madeira.

 

Grande festa?

Ele já organizou a minha festa. É surpresa mas eu já sei. Vai ser num barco, em alto mar.

 

Chega aos 60...

Espero chegar. Como diz o outro, para morrer basta estar vivo.    

 

Chega aos 60 uma mulher feliz?

Sim, sim.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

Filipe Seems, um herói de BD

14.06.18

Os álbuns “Ana” (1993), “A História do Tesouro Perdido” (1994) e “A Tribo dos Sonhos Cruzados” (2003), escritos por Nuno Artur Silva e desenhados por António Jorge Gonçalves, fornecem um retrato de um herói enquanto jovem. Filipe Seems.

São a biografia de uma pessoa, que só por acaso não é de carne e osso; e de uma cidade, Lisboa, imaginada por ele.

A BD começou por ser publicada no semanário Sete. Depois em álbum. Depois fez-se a adaptação para teatro, na peça “Conspiração”. Primeiro protagonizada por Nuno Lopes, depois por Marco de Almeida. Os restantes cúmplices eram Sandra Celas e Kalaf, música de Armando Teixeira, coreografia de Amélia Bentes.

A peça deriva do terceiro tomo, “A Tribo…”, uma novela gráfica, mais do que um álbum BD. A versão vídeo, realizada por Pedro Macedo, está agora a ser lançada numa caixa que reúne todos os álbuns, o DVD e desenhos originais.

Muitos anos depois, fecha-se um ciclo. Formalmente fecha-se um ciclo. António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva já não são os mesmos. E Seems?

Por onde se começa? A compor uma ficção, a desvendar um mistério, a amar uma cidade. Talvez pela luz dourada sobre o rio, que é um mar. Pela vista esplêndida. Por uma cena assim: sapatos de detective pousados sobre a secretária, uma mulher óbvia e ondulante que entra pela porta, uma citação de Picasso. “D’abord on trouve, puis on cherche”. Primeiro encontra-se, depois procura-se. Este será o modus operandi deste detective.

Escolher o enigma e não a solução.

Seems, Filipe Seems. Parece que.

O ambiente de Seems: não há vestígios da soturnidade do film noir ou do romance à la Chandler. Mas melancolia, sim. Não há citações de Cesário, mas de Pessoa. (Há uma prancha em que se lê, no café, o Livro do Desassossego). Não há mortos. E é verdade que a primeira vez que alguém diz: “mãos ao ar”, o que se aponta é uma máquina fotográfica – arma dos tempos modernos, objecto conhecido e identificado.

Viramos a página. Subitamente, canais junto ao elevador de Santa Justa, gôndolas venezianas, escadas, escadas. Uma Lisboa impossível. Um objecto de desejo.

Começamos, de novo: o problema essencial é o problema de Seems. Que caminho seguir. Que escolha fazer. Qual é o fio da nossa história. Perante a bifurcação permanente, que narração escolhemos, de que narração fazemos parte. Tudo perguntas, tudo questões, deixadas em aberto. Não interessa a resposta, interessa o caminho para lá chegar.

O princípio mesmo. Lisboa, 1992. Dois amigos. Nuno Artur Silva, António Jorge Gonçalves. “Lisboa era uma cenografia pronta a receber histórias. Uma cidade com um potencial extraordinário. E havia histórias por contar e imagens para desenhar”, diz o argumentista.

Percorreram a cidade uma e outra vez. Fizeram repérage, como quando se prepara um filme. Mas a pensar em álbuns de banda desenhada. Escolheram décors, escolheram o ângulo, escolheram o absurdo que lhes apetecia. Por exemplo: “Acho que vou dar um mergulho”, e a seguir estão golfinhos a nadar no Tejo. Ou o Terreiro do Paço, completamente inundado, como se fosse S. Marcos em dias de maré-alta.

Tudo isto sem gastar dinheiro ou pedir autorizações. Ao contrário dos filmes. Coisas que a literatura permite. E também há, por falar em Lisboa absurda, a imagem poética da cidade coberta de neve. Neve espessa, de um branco opaco.

O cenário era este. Depois, era preciso um herói que ligasse os pontos, que lhes desse um sentido, que contasse uma história. Que a contasse à medida que a descobre. Descobrir, procurar – nesta ordem. Podia ser um poeta, mas é um detective. Faz o que fazem os detectives: segue as pistas. Outra citação, René Char: “Um poeta deve deixar pistas e não provas; Só as pistas fazem sonhar”.

Filipe Seems. “Em termos práticos, nasci em 1993, ano em que me inventaram. Mas as minhas histórias passam-se num futuro mítico. Será 2016, 2020? Se quiser, eu não tenho tempo, eu não tenho idade. Sou uma ficção, uma utopia. O que está por trás de mim é a ideia de que todos somos obras de ficção. Vivo numa cidade mas esta cidade não é só a cidade real. Aliás, esta cidade é sobretudo a cidade irreal. É a cidade que eu posso transformar. É a cidade em que, na esquina, posso ter aquele jacarandá e imaginar tudo o que quiser: gôndolas venezianas, naves espaciais. Esta cidade tem pessoas. Cada pessoa é uma obra de arte, uma obra de ficção. O meu cruzamento com essas pessoas tem que ser um cruzamento que provoque, que estimule, que inspire. Eu tenho que ter uma existência literária. Eu quero ter uma existência literária. Porque essa é a forma de viver inspiradamente”.

O excerto é retirado de uma entrevista de 2003, a única entrevista dada por Seems. Ou seja, por Nuno Artur e António Jorge a responderem na pele de Filipe Seems.

Da mesma entrevista.

“Qual é o seu passado? Que infância foi a sua?

- Que quer que lhe diga? Em miúdo, vivi num bairro típico de Lisboa, fui o miúdo do Molero [«O que diz Molero», Dinis Machado]. Joguei à bola no meio dos outros miúdos. Depois fartei-me de viajar sem nunca sair do bairro. Depois isolei-me. Fartei-me de ler, de ver filmes. Continuei a viver no mesmo sítio, mas virado para dentro da minha cabeça. Foi esse o lugar onde sobrevivi.

Tem mãe? Foi embalado?

- Não. Ou se tive, também foi uma ficção. Não esqueça que eu não tenho o problema de pagar a renda, não penso em dinheiro. Sou apenas uma personagem perdida num labirinto de possibilidades, condenada a errar eternamente nesse labirinto”.

Coisas, factos, imagens do labirinto: um passageiro numa noite de verão, um gato elegante que vai à frente. Passeia no telhado, sem que isso pareça um número equilibrista. Funambulismo não é uma palavra usada. Mas serendipidade sim. (Serendipidade: faculdade de fazer descobertas felizes e inesperadas, por acidente). Palavra essencial na música do acaso de Seems.

Há números de circo (e moda) na Basílica da Estrela. Uma evocação de Pessoa ao volante de um Chevrolet, numa estada de Sintra. Há pessoas que comunicam pelo computador antes de o skype ser uma ferramenta de todos os dias. Há sessões de psicanálise, amigos cientistas, uma guia que acha que o ideal é deixar que os seus turistas se percam. Prestidigitadores, visões caleidoscópicas. Um azul árabe. Esquinas, jogo de sombras, edifícios oblíquos. Gaivotas esparsas. Roupa dependurada na janela. Temperatura solar. E Jorge Luís Borges, omnipresente.

Mais factos: “Convidei-a para um pequeno-almoço, a luz da manhã invadia os telhados”. Era n’ A Brasileira, e A Brasileira era mesmo A Brasileira. O mesmo recorte. Não havia coisas estrambólicas – ao tempo – e que depois não seriam tão estrambólicas assim. Como o comboio a passar debaixo da ponte 25 de Abril. (De certa maneira, Seems apresenta também uma Lisboa premonitória).

Há bicicletas que andam no ar, com um balão. Um funicular liga a Baixa e o castelo de S. Jorge. Um eléctrico igual ao 28 que percorre as colinas de Lisboa e onde fanam carteiras aos turistas.

Detenhamo-nos no eléctrico. No primeiro álbum, “Ana”, é um funicular. No segundo, “A História do Tesouro Perdido”, há um bar que funciona num eléctrico chamado Desejo. (Sem Blanche Dubois à vista). No terceiro, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, o eléctrico é o mesmo, mas eles não. O eléctrico aporta numa estação soturna, com estalactites e estalagmites. (Cesário nunca vem ao caso). E por isso, o espaço que atravessa é subterrâneo, dark, perdido do seu sentido.

O fio principal: “O primeiro álbum tem a ver com o universo das histórias. É dominado pela errância do personagem e pela frase de Picasso. A partir daqui, quis fazer arte pop. Colagem, mistura, cruzamento, sobreposição. Tudo o que a BD permite, de modo simples e imediato. Misturar o universo borgesiano com Philip K. Dick. Cruzar um passado mítico e visões futuristas. A Costa da Caparica que aparece é a do [modernista] Cassiano Branco (de um projecto que nunca se chegou a concretizar). Tudo num só tempo”.

Tudo cheio de múltiplos sentidos, múltiplos fios. Um exemplo: Maria Kodama, dona de uma clínica de clonagem em “Ana”, é o nome da mulher de Jorge Luís Borges. Alice Lidell, que dá nome à clínica, é o nome verdadeiro da Alice do país das maravilhas.

Nada elementar, meu caro Seems.

Voltamos a Nuno Artur Silva e ao coração destas fábulas: “O António Jorge queria desenhar luz, luz, luz. Eu gosto de histórias de tesouros. Qual é o sítio mais improvável para enterrar um tesouro e encontrar um marinheiro? No meio do deserto”.

N’ “A História do Tesouro Perdido” mistura-se Casablanca e a “Ilha do Tesouro” de Stevenson, Corto Maltese e os Descobrimentos Portugueses, Al Berto aparece, himself, como director de um museu, há um misterioso casal de atlantes. Mas os andróides/atlantes/replicants vêm do primeiro álbum. Numa citação explícita de “Blade Runner”, e Harrison Ford cara a cara com Filipe Seems.

E o tesouro? “Mais importante é estar na pista do que encontrar no tesouro”, diz Nuno Artur.

Sempre a mesma ideia base.

Dez anos mais tarde, no terceiro tomo da trilogia, em vez de um tom luminoso e solar, há fantasmas por resolver. Tudo se passa no undergroung, nos subterrâneos dele próprio – Seems – e de Lisboa. Sombras e nevoeiro. Escuro cá dentro. Talvez seja sempre noite. Seems sem conseguir ver o dia. Cidade em escombros. Corredores e corredores de metro. A única imagem solar é a dos Jerónimos transformados em praia tropical. Bizarro.

E há um fio condutor, roubado a Chatwin, que por sua vez o roubou aos aborígenes do deserto australiano. Os tais que se guiam por canções e não por mapas. (Roubar é um modo de dizer.) Quando se muda o sentido, o caminho, o fio? Quando acaba a canção.

Filipe Seems deve, então, seguir a sua songline. Sair dos escombros. (Todo o cenário do último álbum, aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma rede terrorista faz atentados. A sociedade sucumbe a uma overdose de imagens e sons. É preciso chegar ao silêncio. Soterrado, soterrado. Filipe Seems precisa de abrir uma fenda no muro.

António Jorge Gonçalves: “N’ "A Tribo", somos outros a revisitar um lugar onde muito tinha acontecido”. Graficamente, é outro objecto. “Achei que era eu que estava a marcar demasiado a diferença por incapacidade de voltar a uma linguagem de "juventude"; mas a certa altura percebi que o Nuno também não era o mesmo, e que já tínhamos mudado de século, e que já tinha acontecido o 11 de Setembro, e que...”

E que coisas querem dizer? “Nos dois primeiros queríamos apenas jogar; no terceiro precisámos dizer. O meio da banda desenhada (essa pequena aldeia de irredutíveis) não aceitou muito bem essa diferença e acho que decepcionámos alguns fãs.

Mas para mim é límpida a supremacia do autor sobre o leitor numa obra (quer dizer: o autor fá-lo por necessidade, não escolhe. O leitor tem a liberdade de decidir se quer ou se não quer)”.

Onde começou a alucinação?

“A mulher que comigo agora se cruza é o meu grande amor e ambos ainda não o sabemos. O homem que saiu do táxi tem uma missão: vai salvar doze pessoas e ainda não sabe. O outro, que entrou no táxi, é um assassino, vai atrás da sua vítima, e sabe-o”.

Linhas, fios, histórias, enredos. Viver, literariamente, que é como vivemos, talvez se trate de encontro e desencontro. O problema talvez seja desencontrarmo-nos dos nossos passos, ou seja, da nossa ficção. Mas há sempre outra ficção…

Filipe Seems diz: “Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo”.

Faites vos jeux, os fios estão lançados.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2009

 

A Casa de Saramago

13.06.18

A última grande erupção foi no século XVIII e durou seis anos. Foi nas Montanhas de Fogo de Timanfaya, um lugar estranho que nos faz andar na Lua e onde dormem cerca de 300 vulcões. A cor de Lanzarote é a de um tição apagado numa lareira. Os elementos mexem connosco. Deve ter sido também por isso que José Saramago sentiu que aquela podia ser a sua terra. Mudou-se para esta ilha das Canárias em 93. Morreu em Junho de 2010. A casa e a biblioteca podem ser visitadas.

 

Em 2006, a oliveira era tronco fino e folhagem pobre que ameaçava não medrar. Nesta terra vulcânica, que é tão preta que parece pintada, que medra? Lanzarote é chão de calhaus, vulcões a serpentear o horizonte, a montaña blanca muito erguida e orgulhosa. Passaram dez anos e a oliveira cresceu a ponto de estar mais alta que a casa onde estão os livros, a biblioteca. E a sua força é sólida o suficiente para dançar ao vento, um vento que arranca as pessoas do solo e as faz deslizar. Dança, cresce.

José Saramago já não a vê assim. Morreu em 2010.

Esta é a oliveira que ocupa o rectângulo de entrada da biblioteca. Há outra que está na casa-casa, a de dormir e tomar o pequeno almoço, que cresceu quase tanto quanto a outra. As duas cresceram mais do que o marmeleiro plantado por causa do filme de Victor Erice "O Sol do Marmeleiro", que continua uma promessa de árvore, assim como a romãzeira, que não vingou. Só cresceram as palmeiras e as oliveiras. Tanto que já não se vê o mar ao fundo, a dois ou três quilómetros, daquele ponto do jardim onde ele, quieto, recolhia para olhar. É um lugar assinalado: há uma cadeira de madeira e uma pedra vulcânica com tamanho de meteorito, para pousar os pés ou para nada, simplesmente para existir, existência bela.

As árvores são folhas, raízes, pilar-tronco. Saramago quis ser raiz, espraiar-se, movimento orgânico de corpo que não pode estar quieto e se move no subterrâneo.

Apontamento romântico: uma folha de árvore assinalou no calendário, durante anos, o dia em que o escritor conheceu a mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río. Começou por estar no 11 de Junho, era afinal no 14. E talvez porque a atenção não fosse toda, quando trocaram palavras pela primeira vez ao telefone, e ele não sabia como ela era, anotou mal o nome e escreveu Pilar de los Ríos.

Foi há 30 anos. Saramago tinha 63, Pilar 36.

A oliveira veio para Tías há 10. Tías está entre a aldeia e a vila, olhando no mapa fica a meio da costa este de Lanzarote, o número de habitantes anda pelos cinco mil. Em José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que acompanha quatro anos de vida do casal, podemos ver como a oliveira era mirrada, quase murcha. Chegou no mesmo par de meses em que chegaram os livros, milhares, que hoje ocupam a larga biblioteca, e com eles terra, memória, lugar, criação. A oliveira vinha da Azinhaga, a aldeia ribatejana do escritor, começo de mundo que cola com este fim do mundo onde Saramago se sentiu numa infância reencontrada.

Lá iremos, à biblioteca e à infância. Agora recuamos no tempo, a antes da oliveira e dos contentores de livros. Recuamos ao ano em que se mudaram para Lanzarote, depois do abominável veto do condecorado Sousa Lara à escolha de O Evangelho Segundo Jesus Cristo para Prémio Literário Europeu. Polémica assaz intragável, hoje como então abstrusa. Lanzarote pareceu uma terra-solução para lidar com a revolta, lugar de tranquilidade e tempo para escrever.

José e Pilar tinham estado na ilha no final de 91, foram à praia de Famara no dia de Natal. Mesmo no Inverno, um calor moderado invade os dias. A água talvez faça tiritar, num primeiro encontro, mas depois passa. As fotografias desbotadas mostram uma família numa nesga de areia grossa e escura, e uma meia lua de pedra vulcânica que forma um murete e protege do vento. Estavam com eles a irmã de Pilar, María, a sétima numa escada de 15 filhos (Pilar é a mais velha), e o marido, o arquitecto Javier Pérez-Fernández Fígares, que moravam na ilha.

Era a primeira vez que visitavam Lanzarote e, apesar da adesão instantânea ao lugar, não podiam imaginar que, não longe daquele Natal, aquele ponto das Canárias seria casa. O impacto da ilha, a força agreste, a aridez lunar foram traduzidos em desabafos de felicidade. E a vida seguiu em Lisboa. E depois foi o choque e a tristeza do veto. E da noite para o dia, surgiu Lanzarote como possibilidade, coisa efectiva, materialização do desejo e necessidade de ir para um outro planeta que ficasse ali ao lado. A mudança fez-se em Fevereiro de 93.

No jardim não havia árvores e os caminhos eram de terra pedregosa. Quando se vê as imagens de regresso a casa, depois de ser anunciado o prémio Nobel mas ainda antes do seu recebimento, em Estocolmo, José e Pilar aparecem junto ao muro branco, envolvidos em flores, sorrisos e vento. E uma paisagem de quase nada à volta.

Foi também esse quase nada à volta que os seduziu. Queriam uma vida de palavras primitivas, centrada no essencial, pétrea. Com silêncio e dias sem interrupção.

Fizeram-se casas irmãs para as duas irmãs e suas famílias. Tudo branco, preto e vermelho. Não há casa que não seja branca em Lanzarote, imposição governamental. E a pedra oscila entre a cor do tição já apagado numa lareira e aquele vermelho que vem da terra muito ferrosa; vermelho ou, para ser exacta, cor de tijolo. Transposto o portão, uma nova porta dá acesso às duas casas. Num ângulo recto, a de María e Javier é a da direita, a de José e Pilar em frente.

Entra-se. O espaço é dominado por luz e pedra, pela clarabóia de vidro fosco que emana uma luz branca e por um tapete de pedra vulcânica, pedra porosa e organizada em riscos diagonais que faz as vezes de tapete de material macio e caro.

A casa, assim designada desde sempre, e com o artigo, é hoje uma casa-museu com visitas diárias durante a manhã. O que permite ver? Tudo. Os passos, as rotinas, a modéstia, a memorabilia, os encontros com personagens e fragmentos que vivem na casa como pessoas de verdade (por exemplo, Blimunda, por exemplo, a passarola do Memorial do Convento), a surpresa com a dimensão (como cabiam as pernas tão compridas de Saramago naquele quarto de média-pequena dimensão?), as fotografias da filha Violante e marido e filhos, as fotografias da tribo del Río coladas com íman no frigorífico, as fotografias do Nobel, pompa e maravilhosa circunstância, a gravura de Ilda Reis, sua primeira mulher, as pedras trazidas de todos os lados e reunidas numa espécie de caixa de vidro, canetas e esferográficas oferecidas em salões e academias, uma até com diamantes, os cavalos, os elefantes, os objectos dos que quiseram demonstrar a Saramago que foram tocados pelas suas alegorias, pelos mundos que eram inventados e que eram iguais aos seus, pelo desejo de afagar o semblante triste do menino que via cavalos no Ribatejo e não tinha condição de os montar, do escritor que, para além gostar de cavalos, inventou o cão das lágrimas e um elefante que faz um caminho longo, longuíssimo, e acaba com a pata transformada em recipiente de sombrinhas e bengalas, oco, destituído, apetrecho banal.

Saramago disse uma semana após o anúncio do Nobel, com urgência: "Quero é recuperar, saber, reinventar a criança que eu fui. Pode parecer uma coisa um pouco tonta, um senhor nesta idade estar a pensar na criança que foi. Mas eu acho que o pai da pessoa que eu sou é essa criança que eu fui. Há o pai biológico, e a mãe biológica, mas eu diria que o pai espiritual do homem que sou é a criança que fui" (entrevista a Alexandra Lucas Coelho). Machado de Assis disse-o de outra maneira em Memórias Póstumas de Brás Cubas: "O menino é o pai do homem". A ideia da criança que é pai espiritual daquele que escreve está expressa no livro As Pequenas Memórias, começado anos e anos antes e que conheceria publicação em 2006. A epígrafe: "Deixa-te levar pela criança que foste".

Esse pai espiritual alimentou-se como pôde. Tarde e bem. Recupero as suas palavras (retiradas de uma entrevista que lhe fiz): "Os meus pais sacrificaram-se muito e deram-me estudos para ir para a universidade? Não, tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou."

Na casa podem ver-se os livros, os escritores, ou seja, a família em que ele também se fez pai de família de um, criança-escritor. Há uma gravura de Bartolomeu Cid dos Santos que representa Fernando Pessoa em criança, num triciclo, uma estranha imagem de Camões com os dois olhos e sem a pala, alinhados na vertical estão Tolstoi, James Joyce, Kafka, Proust, Lorca na parede em frente, Pessoa no traço oblíquo e definitivo de Júlio Pomar, Pessoa a contracenar com Cesário Verde e a paisagem, Pessoa omnipresente, Pessoa que o levou a todo o lado, até a Pilar. Não esquecer que O ano da morte de Ricardo Reis é o ano do começo com Pilar. "Nunca o tinha visto, foi tudo por telefone. Não era tanto para o conhecer, mas sim para lhe agradecer o prazer que me tinha proporcionado [a leitura de O ano da morte de Ricardo Reis]. Combinámos ver-nos, tomámos um café, fomos visitar a campa de Fernando Pessoa, eu vinha com o meu Livro do Desassossego, e pronto." Quando é que percebeu que a sua vida tinha mudado? "Quando nos encontrámos. No dia seguinte telefonou-me para pedir a minha morada. Na época tinha um meio-namorado, e quando cheguei a Espanha disse-lhe que já não o queria ver mais. Fiquei livre, sem relações, sem amante. Sabia que algo ia acontecer. E aconteceu. Uns meses depois, José chegou, sem que tivesse havido uma carta, uma comunicação, nada. Apareceu em Sevilha. Eu sabia que ia aparecer, mais tarde ou mais cedo." (Da minha entrevista a Pilar, em 2010.)

Pilar anda pela casa. Não mora nesta casa-museu, mas em Lisboa. Porém, demora-se temporadas em Tías, onde o tempo escorre mais devagar. Vive como pode a tragédia da perda, decidida a cumprir o desejo dele: continuá-lo. Às vezes exprime a zanga pela injustiça. A injustiça de José já não estar para ver a beleza. José já não estar para ver as bocas dos vulcões do parque nacional de Timanfaya, conhecidos como montanhas de fogo, e onde a terra arde mesmo, lá no fundo. É um território de tormenta onde se experimenta uma estranha tranquilidade. Como se andássemos debaixo de terra e isso não fosse claustrofóbico.

Pilar recorda-se do último passeio de José a este lugar que é Lua e Marte. Foi na primavera de 2008. Ele era um fio de voz e uma carga de ossos, demolido pela doença em tudo menos na vontade e na imaginação. Passeou por ali um pouco, não muito. Comentou que já não esperava ver aquela beleza de inferno arrefecido. Meses antes estivera à beira do precipício, não caiu ao poço porque Pilar o segurou pelas golas do casaco, outros o seguraram, os médicos, os amigos, a família, ele próprio. E agora estava ali, a ver, a dar o passeio, a pensar, a traduzir o mundo em palavras.

Mas agora é 2016 e Pilar guia-me sozinha pelo território saramaguiano. Ocorre-me a letra que Manuela de Freitas escreveu para a voz de Camané e que encerra o filme de Miguel Gonçalves Mendes. Chama-se "Já não estar" e declina esta certeza seca do escritor: "Não penso na morte. Ou melhor, todos pensamos na morte. A morte para mim não é tanto isso de morrer; é mais simples, e ao mesmo tempo mais duro. A pessoa estava e já não está – isso é que é o pior de tudo. [...] Daqui a duas ou três semanas, quando voltar a casa, posso chegar à varanda, olhar para o jardim e pensar: “Agora estou aqui, vejo os meus cães, a minha mulher e depois já cá não estou”. Mas é assim para todos, animais, vegetais. Tudo o que nasce morre."

A letra de Manuela de Freitas:

 

Se às vezes numa rua num lugar

Eu penso que um dia hei-de morrer

Sei que tudo o que tenho vou deixar

Aqui onde hoje estou deixo de estar

E tudo quanto sou deixo de ser

 

Medo da morte não consigo ter

Mas outros mais humanos e banais

Medos que a gente tem mesmo sem querer

Como o medo que eu tenho de morrer

 

Só por querer viver um pouco mais

Se consigo a meu modo estar no céu

Mesmo vivendo neste chão de inverno

Se apenas sou árvore que cresceu

No espaço e no tempo que é o meu

Para que havia eu de ser eterno

 

Mas como as minhas cinzas vão ficando

Debaixo de uma pedra de jardim

Meu amor tu sabes onde me encontrar

E uma flor sobre a pedra vais deixar

De cada vez que te lembrares de mim

De cada vez que te lembrares de mim

 

José Saramago já não está. Mas está em absoluto na obra, na casa, nos símbolos. Nas relações que são visíveis. Nos gostos e obsessões. Na firmeza, na coerência. Está em todos os compartimentos e está mais no escritório onde escreveu o Ensaio sobre a Cegueira, por exemplo, anos antes de a casa se expandir para o outro lado da rua e de ali ser construída a biblioteca (a que tem os milhares de livros e a oliveira à entrada), onde escreveu A Viagem do Elefante e Caim numa corrida pela vida mais do que contra o tempo. Uma corrida para satisfazer ainda o desejo de fazer, de se sentir vivo, adiar a derradeira partida de xadrez e dizer: espera, guarda a gadanha, tenho coisas para tratar, gozo para sentir, abraçar a minha mulher, ver pela última vez o lagarto verde que via na minha infância.

É nesse escritório de poucos metros quadrados que está o desenho onde mais está José Saramago: aquele em que o avô Jerónimo se abraça às árvores e chora e se despede e abraça o que ama. Escreveu n' As Pequenas Memórias: “Terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”.

O avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”, como ficou dito no discurso do Nobel. A avó Josefa: “Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. […] E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém” (escreveu numa carta em 1968). O avô Jerónimo e a avó Josefa: não esquecer os nomes, não esquecer o fundamento.

A visita à casa de Saramago termina na cozinha. De muitas maneiras, percebemos que estamos numa casa de portugueses. No serviço Vista Alegre, num bule para o chá que tem a forma de um ananás e que é de Bordalo Pinheiro, nos copos tradicionais da Marinha Grande, no café Delta que é oferecido aos visitantes. As flores continuam a ser mudadas todos os dias. Pastora trata da casa e da loja, um rapaz guapo rega o jardim, a veterinária e amiga Marga aparece para um café, Graça, a médica que passou o atestado de óbito de José, está ao alcance de um telefonema, Juanjo (o filho de Pilar) é uma das pessoas que fazem visitas guiadas à casa. Tudo gente amiga, raízes daquela árvore. No jardim aninham-se dois gatos. Os cães Camões e Greta também já partiram.

À cabeceira da mesa, virado para sul, sentava-se Saramago. Estão dois livros abertos nos Cadernos de Lanzarote, abertos como diários. Junto está uma miniatura da árvore-símbolo da casa, uma oliveira-símbolo de paz e sabedoria.

Desta oliveira vamos para a outra, a primeira de que comecei por falar, chegada em 2006, que cabia entre as pernas de José. Recebem-nos nesse espaço a oliveira e um elefante que podemos acariciar como se fosse um cão, de pequeno porte e aqueles olhos tristes e sumidos que os elefantes sempre têm. Cinco passos depois entra-se na casa feita de livros, a biblioteca. Ao lado, a loja, a mesa comprida onde se fazem reuniões, o apartamento no andar de cima onde ficavam as visitas, a ampla zona de refeições. Maria Kodama, a viúva de Borges, ficou ali, Susan Sontag preferiu hospedar-se no hotel de Arrecife. As conversas sobre o disparate irresistível que é o mundo foram ali. Tratando-se de Saramago, as conversas nunca são apenas sobre os livros, ou Deus, ou os direitos e deveres do homem, ou o comunismo. As conversas são como os livros: são o próprio mundo a contorcer-se, a tentar encontrar um sentido, um caminho.

Sempre chegamos aonde nos esperam: frase já batida e indissociável do elefante Salomão.

"Pilar, encontramo-nos noutro sítio", prometeu José, fitando a câmara, meio sorriso todo triste, no filme que os conta.

As suas cinzas estão sob uma oliveira centenária vinda da Azinhaga à frente da Casa dos Bicos, sede da Fundação, em Lisboa.

Tudo levantado do mesmo chão.  

 

 

Guia:

Para voar até Lanzarote, o melhor é apanhar um voo da Binter, uma low-cost que liga Lisboa a Las Palmas e Las Palmas a Lanzarote duas vezes por semana, à quinta e ao domingo. Não há voos directos a partir de Portugal, é preciso sempre fazer escala em Las Palmas. De Las Palmas a Lanzarote são nem três quartos de hora de voo, e os insulares usam o avião como quem usa o comboio ou o autocarro. Comprado com alguma antecedência, não é caro; ou seja, pode custar, ida e volta, cerca de 200 euros.

Lanzarote é a mais oriental das sete ilhas das Canárias. Tías, onde fica a casa de Saramago, está entre Arrecife e Puerto del Carmen. São uns 15 minutos, no máximo, entre o aeroporto (em Arrecife) e a casa. Tudo é pequeno. As visitas são entre as 10 da manhã e as 14.30. Fazem-se em várias línguas e há áudio-guias. Todos os dias, excepto domingo.

Convém alugar um carro. Não só para este percurso como para as excursões ao Parque Nacional de Timanfaya. É indispensável fazer o roteiro do artista plástico César Manrique: além da casa-museu, há que visitar os Jameos del Agua, o Jardim dos Cactos, o miradouro do rio, ver as esculturas movidas a vento que estão dispersas pela ilha.

As estradas são boas. Come-se um peixe delicioso, batatas cozidas com pele gretada pelo sal, um estufado de grão que alimentou gerações e gerações de espanhóis. Preços módicos.

Conte com bom tempo e vento vento vento. O corta-vento tem de andar sempre na carteira.

 

 

Publicado originalmente no Público em Junho de 2016

 

 

Ana Luísa Amaral

13.06.18

Publicou o primeiro livro com 33 anos. Minha Senhora de Quê. “Não estou nada arrependida de não ter publicado aos 18, 19 anos, coisa muito comum”. Tem 55 anos, acaba de publicar dois livros. Próspero Morreu, uma peça de teatro em verso e o livro de poesia Vozes. Ana Luísa Amaral é uma poeta que pode dizer ao mesmo tempo: “Não quero mudar de país. Portugal precisa das pessoas aqui, para tentarmos resistir. (Não incomoda o cigarro?)”; e no instante a seguir falar de cebolas e de Emily Dickinson.

Marcou encontro no Círculo Universitário do Porto. Palácio belíssimo na rua do Campo Alegre, a dois passos da casa que foi a da infância de Sophia. O Círculo tem um jardim e um espaço que deve ter sido uma estufa e onde agora se almoça. Cá dentro, além das madeiras e dos móveis de bom gosto, pode-se fumar. Fuma muito. Como denota a voz espessa que tem. Pelo meio acabou-se a pilha, e ela ocupou esse interregno para saber se a filha, em viagem, estava bem. A filha é constante no discurso e também aparece na poesia. 

Ana Luísa Amaral é professora associada no departamento de estudos anglo-americanos da Faculdade de Letras do Porto. Tem um doutoramento em Emily Dickinson. As suas áreas de interesse são a literatura inglesa e norte-americana, a literatura comparada e os estudos feministas. Traduziu diversos poetas. É autora de vários livros de poesia e infantis.

 

Na autobiografia curtíssima do livro Vozes fala de beijos e cebolas. Assim de repente, parece uma combinação esdrúxula.

Pois. Posso pensar? Não é uma pergunta simples. Sempre achei que o texto tem a ver com a vida. O que existe é uma espécie de deflexão. Como com um lápis dentro de água: não é reflectido, é deflectido. O que fica da vida, do mundo, é um rasto. Mas esse traço está lá mais ou menos fingido. A mão que escreve tem um braço, esse braço tem um corpo, esse corpo pertence a alguém. Esse alguém vive, ama, odeia, tem sentimentos, e é do seu tempo. Desse poema, não posso escamotear a minha própria vida. Estou a arranjar uma maneira inteligente de evitar entrar pela minha vida, falando de beijos e cebolas… 

 

Já no primeiro livro fala de cebolas.

“… armários e cebolas perturbantes” – é a imagem. [Diz o poema de cor] Sei quase todos os meus poemas de cor. Decoro os meus e os dos outros, não sei bem como. Em contrapartida não sei números.

 

Porque é que tem dificuldade em falar dos beijos e das cebolas?

Porque os beijos são reais, e encaminham-me para uma dimensão pessoal, de relação amorosa, de que não queria falar. Que não interessa muito, ou não interessa nada.

 

As cebolas: são as várias camadas?

Sim. As várias camadas de que o mundo é feito, as várias camadas de que uma pessoa se compõe, os diferentes sentidos de que um poema se pode revestir.

Esse poema elabora sobre esta ideia: quanto menos vida mais poesia. “Ah, quando eu escrevia de beijos que não tinha, e cebolas em quase perfeição!”. 

 

Mais adiante, diz: “… se não fossem os beijos que não tinha, não havia poema”. O que quer dizer que sem vida, não há poema.

Pode querer dizer, também, que com muita vida amorosa não há poema. 

 

Em felicidade amorosa não se produz, é isso?

É. Creio que é o Maiakovski que diz que a literatura e a felicidade não se coadunam. Quando se está num estado de paixão assolapada, devastadora, a poesia surge como um excesso, uma excrescência. Não é talvez tão necessária. Acho que a poesia preenche falhas. Não significa que escreva em profunda tristeza, angústia, desânimo.

 

Alguns poemas são profundamente tristes.

Alguns. Outros, profundamente irónicos. Outros, eufóricos. Essa relação entre poema e vida realmente faz-se, mas em certa medida a poesia pode funcionar como um substituto para a vida. Embora isto pareça uma contradição em termos – se a pessoa estiver morta, não escreve. Mas pode funcionar como um catalisador.

 

Indo às cebolas: foi educada para ser uma menina bem comportada? As cebolas remetem-nos para a cozinha, para o universo feminino. A pessoa com quem estou a falar é uma feminista.

Sou filha única e fui educada para cumprir determinadas expectativas. Uma das coisas que mais chocaram o meu pai foi a caderneta do colégio de freiras, que dizia: “A menina é inteligente, mas muito indisciplinada”. O meu pai queria que eu fosse engenheira química. Letras, jamais! A minha vida – posso começar por aí? Nasci em Lisboa. Vivi até aos nove anos em Sintra. Gosto desse pormenor da minha vida: Sintra não é tão central quanto Lisboa. Vivia num prédio onde, de manhã, na sala, se via o nevoeiro a levantar. Pequenos pormenores: o meu pai, de braços abertos, na varanda, eu a dizer: “Voa, voa”, e o meu pai: “Não, parece que hoje não”. Eu acreditava que ele podia voar. Fui sempre crédula.

Aos nove anos mudámo-nos, não para o Porto, mas para Leça da Palmeira.

 

Mais uma vez, para uma localidade que não é o grande centro.

Mudámo-nos com os meus avós e padrinhos, com quase 80 anos.

Em 1965, fazer Porto-Lisboa demorava oito horas. O meu pai conhecia pessoas que faziam a viagem em dois dias, que pernoitavam em Coimbra. Mudei a meio da quarta classe. Era a lisboeta. Não me senti menorizada, senti-me não amada. Os jogos eram diferentes.

Mas tinha com o meu pai todas as conversas. Ainda hoje me faz uma falta imensa. Falávamos sobre o universo, sobre música, sobre filosofia. O meu pai era o meu grande companheiro.

 

O que é que ele fazia?

Era gerente de uma firma. O que fazia não tinha nada a ver com a pessoa que ele era. Não gosto de usar a palavra falhado, porque a acho triste, e porque ele não o era; mas o meu pai tinha um dom, o do piano. A minha avó tocava piano, o meu pai tocava piano. Não sei tocar uma nota. O meu pai era muito mais permissivo do que a minha mãe. Embora tenha ficado zangado com o “indisciplinado”. A minha mãe é que disciplinava.

Fui seguindo o meu pai. Que era um homem conservador. Um conservador que me ensinou valores de solidariedade que eu, que sou de esquerda, muitas vezes não encontro em pessoas que se dizem de esquerda (e que têm gestos que contrariam a ideologia que dizem professar). Era uma pessoa contraditória. Gosto da contradição. Nunca vi no meu pai jactância pelo facto de ser conservador. Nunca disse: “Eu sou melhor”. 

 

Jactância era uma palavra que o seu pai usaria?

Era. É uma palavra estranha, mas que dá jeito. Nunca pensei nisso, nas palavras que ele usaria, engraçado…

 

Estou no fundo a perguntar da relação dele com as palavras. Das palavras que ele escolhia para traduzir o que via e vivia.

As palavras tinham muita importância para ele. Nunca me chamou outra coisa que não “minha querida filha”. A minha relação com as palavras faz-se muito cedo. A minha mãe ensinou-me, enquanto cozinhava, poemas. Entrei numa escola privada, mista, aos quatro anos. A minha mãe conta que eu olhava para as imagens e dizia os nomes das coisas; fingia que sabia ler. Olhava e via o desenho de uma pata de um animal, dizia “pata”. Uma vez enganei-me. Vi uma pipa e disse “barril”. Aconteceu no dia em que foi à escola um inspector e a professora queria mostrar este portento que já sabia ler… [riso] Lembro-me muito bem de a minha mãe dizer ao telefone: “Não se preocupe, que eu vou fazer o impossível”. Fazer o impossível? Coisa extraordinária. Ou de usar palavras como “outrora”. A minha mãe conta que eu dizia: “Está a chegar, está a chegar… Escreve, mamã”. 

 

A chegar a inspiração? Como quem recebe a visita da musa.

A minha mãe anotava. “Chegou o Outono. As folhas que outrora foram verdes…”. Tinha acabado de aprender a palavra outrora.

 

Quem é que lhe incutia a impressão de que aquilo tinha importância?

O meu pai sempre me dissuadiu de escrever poesia. Gostava de biografia. Ou História. Ou livros científicos. Não lia romances, não lia poesia. A minha mãe dizia-me poemas. A minha tia, Manuela Amaral, escrevia poesia. Quando aparecia, trazia coisas diferentes. Livros, jogos, roupa diferente. Tinha feito os Alpes de motorizada. Era considerada excêntrica.

 

Atravessa a sua poesia um veio nostálgico. Como se houvesse um outrora que foi um tempo de felicidade, um tempo onde tudo estava intacto, e a que só assistimos através da sua memória reconstitutiva. Muito do seu trabalho poético é feito sobre a memória.

É verdade. Foi uma coisa que passou a acontecer a partir de determinados livros. Deve ter a ver com a idade. Não sei se os primeiros têm isso… E talvez sim. Estou a pensar em poemas como Passado, sobre a escola. Sintra tem no meu imaginário um poder quase mágico. Que se liga às próprias histórias da minha mãe (que não queria vir para o norte). Recordo-me do espaço que era dado às mulheres. A minha mãe ia à pastelaria com as amigas, passeava. No norte não tinha amigas, e Leça tinha um único café, frequentado por homens.

 

O mar de Leça é agreste. O mar do sul é mais suave.

O caminho que conduz à Praia das Maçãs é a minha infância. As férias grandes eram três meses, e ia de eléctrico todas as manhãs com a minha mãe, uma amiga, a filha dela. Tenho um poema que fala de uma doçura que não existe no norte: “Era de noite, a chuva sem doçura…”. É a chegada a outro rio, ao Douro, ao norte.

 

Alguma vez ficou uma pessoa agreste?

Acho que não. Detesto que mandem em mim, detesto. E detesto mandar nos outros.

 

Essa natureza indómita, que a faz detestar que mandem em si, vem de onde?

Acho que é o meu lado indisciplinado. Esse lado de que as freiras se queixavam, que pratico de modo pouco visível.

Tenho muito medo da montanha russa. Andei uma vez nos EUA e fui ao engano, com a minha filha. Mas adoro filmes de terror. É algo abertamente menos perigoso do que a montanha russa. É como a subversão, que é, para mim, mais interessante do que a transgressão. Trabalhei sobre esses conceitos quando escrevi a minha tese de doutoramento sobre Emily Dickinson. No meu tempo, os doutoramentos eram relações de sete anos. Um casamento.

 

Há a crise dos sete anos, nos casamentos, nas relações, que Billy Wilder filmou em O Pecado Mora ao Lado. Não foi o seu caso com Dickinson.

Há o poema: “Sete anos de pastor/Jacob servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela, mas não servia o pai, servia-a a ela”. Ao fim dos sete anos… Isto era por causa do quê? Ah, o doutoramento. Continuo profundamente fascinada com Dickinson. As suas indisciplinas, e são muitas, não são feitas via transgressão. Não rompe, não fractura abertamente. Subverte. A subversão é construir uma versão sob a versão existente e fazer com que essa versão existente se esboroe. É a implosão, é a explosão dentro. Essa ideia de corrosão faz-se sentido. Depois, há um lado no qual não reparo muito, mas para que as pessoas à minha volta me chamam a atenção, e que interpreto como distracção. Uma falta de atenção a pormenores que passam pela aparência. Não sei se isto se interessa…

 

Estamos nas camadas da cebola. Nem todas importam da mesma maneira. Falou de Dickinson como quem fala de uma pessoa que se encontra e que muda a nossa vida.

Ah, sim, sim. O meu pai considerava românicas um curso subversivo. Se não era possível a engenharia química, que estudasse germânicas.  

 

Que estudasse alguma coisa relacionada com o poder? Germânicas correspondia a isso na cabeça de um homem conservador como o seu pai?

Pois. Obedeci ao meu pai, de alguma forma. Estudei apenas inglês nos três primeiros anos, depois apanhei uma reforma do Sottomayor Cardia. Se não tivesse estudado essa variante, que escolhi sem querer, não teria encontrado Emily Dickinson. Acabei o curso e comecei a dar aulas na faculdade. Romantismo inglês, poesia inglesa contemporânea. Entretanto fiz provas – o equivalente ao mestrado – em King Lear. Acho Shakespeare talvez o maior génio da literatura. Quem me orientou foi a Maria Irene Ramalho, da Universidade de Coimbra, que muito admiro. Foi ela que um dia me disse, de uma forma aparentemente inócua: “Conhece?”. Como quem: “Conhece esta pessoa?”. E deu-me um livro de Emily Dickinson. O meu projecto inicial era fazer uma tese sobre Sylvia Plath, Anne Sexton, Elizabeth Jennings. Confesso que me foi difícil aderir. Mas depois li um poema que dizia assim: “Quando sob uma dor titânica, as feições ficam no seu lugar”.

 

Porque é que a deslumbrou?

Joga com as questões do ser e do parecer. A minha filha era pequenina , estava sozinha na sala, à noite, e lembro-me de ter sido uma coisa epifânica. Como se se tivesse desterrado uma cortina e eu tivesse visto para lá daquilo. Comecei a entender os poemas, a sentir uma grande, grande afinidade com aquela pessoa.

 

Fale mais dessa dor… tectónica?

Titânica.

 

Uma dor titânica pode ser uma falha tectónica.

Podia bem ser tectónica. A questão dos vulcões, dos tremores internos, muito mais do que externos… Os nossos temas de doutoramento, o que escolhemos para trabalhar, diz muito de quem somos. Falámos há pouco de subversão. O subterrâneo é fundamental na poesia de Dickinson.

 

Esse encontro, com uma poetisa, foi um cataclismo em relação à pessoa que era? Claro que isso acaba por ter uma tradução na poesia que escreve…

Em relação à pessoa Ana Luísa Amaral? Sim, absolutamente. O que é que muda em mim? Acho que me descobri, me revelei a mim mesma. Dickinson obrigou-me a pensar e a percepcionar-me de uma outra forma. Quando lhe falei de um momento epifânico, não o tive só em relação à poesia. Tive-o em relação ao que estava por detrás dos poemas, e que eu mal conhecia. Não sabemos muito dela. Sabemos pelas cartas. Mas as cartas são poesia, tudo se cruza, enfim. A subversão começou a assumir uma importância cada vez maior em mim.

 

O que é que pode ser um gesto subversivo?

Um polícia nunca diz a um motorista que estaciona mal: “O senhor subverteu”. É uma transgressão automobilística. Subverter seria estacionar num lugar onde fosse permitido, mas depois… pôr uma bomba. Os rastilhos e as bombas podem estar sob a aparência menos ameaçadora. Os vulcões de Dickinson não são vulcões a explodir. São vulcões que estão sempre num estado latente de ameaça. Isso é algo que me leva para outro caminho, e depois disso nunca mais fui a mesma.

Ao mesmo tempo, começo uma outra área: a dos estudos feministas. Outra revelação. O que eu não queria: ser uma menina bem comportada.

 

A transgressão é mais fácil do que a subversão. Mas primeiro é preciso identificar contra o que quer transgredir. Pode identificar a raiz do mal estar? Aquilo com que não lidava bem.

Mas continuo a não lidar bem. Tenho 55 anos. Não me considero infeliz, não é isso. Mas não me considero uma pessoa em bem estar. Não sei se a palavra sobressalto se me aplica… Mas quem é que pode estar em bem estar? Vemos à nossa volta tudo a tombar, a desabar. Fui sempre muito insatisfeita, sobressaltada. Não sou deprimida, nunca fui.

 

A poesia deu-lhe uma iluminação para essas zonas de angústia?

Talvez. E uma forma diferente de ver o mundo. Quando passei a identificar determinados pontos críticos onde o poder se exercia – estou a pensar nas mulheres – não lhe posso dizer que passei a ser mais feliz. Passei a ser ainda mais angustiada. Mas pelo menos mais lúcida. Isso é muito importante.

 

Aprende-se tudo nos livros?

“Não me chega o saber de experiência feito, e o outro, o dos livros, sobra-me.” Um livro pode ser… Creio que era o Napoleão que dizia: “Tenho mais medo de um jornal do que de cem baionetas”. Um livro pode levar-nos a sítios desconhecidos e pode ser uma bomba. Pode ser um rastilho para as coisas certas e estáveis do mundo.

 

Há um rastilho que tem um efeito detonador, para a maior parte das pessoas, mais poderoso do que o dos livros: o amor. Num dos poemas cita em epígrafe Bocage: “… que assim desarranjaste a minha vida”.

A ideia de desarranjo está em todos os meus livros. 

 

Desarranjo, caos, imperfeição. Palavras constantes. Imperfeição está também no poema autobiográfico do Vozes.

O desarranjo pode ser a força motriz. Essa espécie de revolta por dentro, essa rebeldia… O desafiar. O recusar o dominante. Dickinson e o feminismo deram-me isso. Quando falo de feminismo, não falo de homens contra mulheres, não digo que os homens são uns algozes e as mulheres umas desgraçadas. Não tem nada a ver com isto. É uma questão de direitos humanos. Não há nenhuma razão científica ou de bom senso pela qual um ser humano deva ser discriminado pelo facto de ter nascido com uma determinada configuração anatómica. Que a discriminação existe, existe. Estas problemáticas levaram-me a outras e foram-me radicalizando. Se fizer uma retrospectiva, percebo que estou cada vez mais radical. Mais intolerante. Mais impaciente.

 

Porquê essa rebeldia e radicalização? Normalmente essa incapacidade para condescender corresponde aos verdes anos.

É verdade. Depois a gente aburguesa-se. Comigo foi ao contrário. Porque tudo me chegou um pouco tarde. Mesmo a minha rebeldia política. Chegou-me quando os meus colegas de faculdade estavam mais calmos.

 

Quando é que passou a ser de esquerda?

Começo a ter simpatias pela UDP no meu quarto ano de faculdade, em 1978. Escrevi um poema péssimo então, que nunca publiquei: “Sacrifique-se a vida ou mate-se um burguês”. De um primarismo atroz! [riso] No 25 de Abril não fui extremamente activa e empenhada.

 

Há nos poemas alusão a criaturas mitológicas e a animais. Harpias, dragões, panteras.

Gosto de tigres. Gosto mais dos tigres do que dos leões. Os leões são criaturas mais sérias. Pertencem à categoria dominante. O tigre é mais selvagem, está em extinção. Sou uma pescadora, adoro pescar. Pescava trutas enormes quando vivia nos Estados Unidos. Há um poema lindo da Elizabeth Bishop que se chama The Fish. Uma vez apanhei uma insolação porque estava à espera de uma truta. A minha filha, pequenina, dizia: “Ó mãe, vamos embora”. Quase morri,

 

Em alguns poemas fala da sua filha. É praticamente a única pessoa concreta que traz para os seus poemas.

Há um poema sobre o meu pai, Que escada de Jacob, que escrevi depois da morte dele. Depois da morte dele. 

 

No poema Testamento diz que, se morrer, quer que a sua filha se lembre de si.

Que não se esqueça de mim. Esse poema acaba a falar de batatas íntegras. Não há batatas íntegras, há pessoas íntegras. Há dois conceitos que vemos desbaratados ou espezinhados: a integridade e a bondade. A palavra bondade é uma palavra que já não se usa. Parece que é uma palavra antiga, demodé. Fala-se de pessoas muito inteligentes, valoriza-se a inteligência. Mas uma pessoa boa é rara. A bondade é também a solidariedade para com o outro. É a “com-paixão”. É a simpatia no sentido “sentir com”. Dos nossos políticos, está muito arredada. A integridade também parece um valor esquecido.

 

Como é que faz a justaposição das batatas e de um valor como a integridade?

“… as batatas no saco esquecidas e íntegras”. No resto do poema escrevo: “… em vez de lhe ensinarem contas de somar e a descascar batatas”. E as horas, “o horário certo”. Trata-se de uma filha, e não de um filho. Ou seja, estamos a falar de papéis.

 

Está a falar de competência para a vida? Competência de género (a que sabe descascar batatas) e competência social (a que cumpre as horas).

Dessas duas competências. Em vez dessas duas competências, tentei passar à minha filha a importância do íntegro. A minha filha aparece na minha poesia porque é a pessoa mais importante da minha vida.

Eu não ia falar da relação mãe-filha. Pode haver homens tão ou mais cuidadores do que as mulheres, e quando um juiz dá a custódia de uma criança a uma mãe partindo do princípio de que ela é uma melhor cuidadora do que o pai, isto significa um peso social enorme, para um homem como para uma mulher. A relação com os filhos é uma relação para a vida.

Mas nem tudo o que está nos poemas é verdade. Num poema digo que a minha filha partiu uma tigela na cozinha, e ela nunca partiu uma tigela na cozinha. E cumpria horários certos, não jantava uma vez às seis da tarde e outra à meia-noite.

 

Que palavras é que a sua filha apontaria como sendo as suas palavras nucleares? Assim como lhe perguntei se jactância seria uma palavra do seu pai.

Quer lhe que telefone a perguntar? [riso] Indignação, talvez. Inquietação, outra. E espero que amor.

 

E cebolas?

Ah, eu adoro cozinhar. Há agora uns refogados que se compram feitos. Sim, sim, a cebola picada que se despeja para a panela, e já está o estrugido – como se diz no norte – feito. Um disparate.

 

A cozinha não apouca as mulheres, como diziam algumas feministas?

Ah, não!, credo. A cozinha apoucava-as porque significava o espaço doméstico e a exclusão de outros espaços, do espaço público, do espaço político. O que apoucava as mulheres não era serem chefes de cozinha (normalmente, esses eram os homens); era serem as que proviam o bem estar da família através do cozinhado.

 

O seu pai gostaria desta mulher em que se transformou? Sendo ele um conservador e tendo-a educado para outro destino.

Acho que sim, acho que teria muito orgulho. Discutíamos brutalmente. Não podíamos falar de política. Em relação à política, era irredutível. E em relação às minhas posições políticas tenho a certeza que se distanciaria, e criticava-as. Mas depois, no essencial… O essencial são as pessoas. Sabe o que acho? Este tempo que vivemos, é tão curto… E não temos outro sítio para onde ir, só temos este planeta. Porque não tentar viver o melhor possível? O que conta, de facto, são os laços que nos aproximam. Se soubéssemos cuidar da nossa espécie já era bem bom. Faz-me impressão a ambição desmedida, o querer possuir muita coisa. Outra palavra que a minha filha me ouve dizer muitas vezes: impunidade. Como é possível? A violência é uma coisa contra a qual me revolto. E já não subverto, mas transgrido. Devemos falar, falar sem medo.

 

O livro Próspero Morreu não tem nem um mês. O seu fascínio pel’ A Tempestade de Shakespeare fê-la, por exemplo, escrever um livro infantil que parte da peça.

Próspero já estava noutros poemas, e Caliban [personagens d’ A Tempestade]. É uma peça de teatro em verso em que estava a trabalhar há anos. Já foi feita uma leitura encenada. Era para ser o Paulo Eduardo Carvalho – outra pessoa que estruturou a minha vida, uma perda – [a fazê-la]. A Tempestade é para mim a peça mais poética de Shakespeare. As figuras de Próspero e Caliban vão ser usadas para interpretar as relações de poder que estruturam o chamado mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido. Boaventura de Sousa Santos faz isso. Próspero é o colonizador, Caliban é o colonizado; é dissimulado, mas a sua subserviência é uma estratégia para a sobrevivência.

No meu texto, há personagens que não são d’ A Tempestade. Penélope e Ariadne. Bárbara, a Escrava, e Camões, e Teseu. Ariadne tem de casar com Teseu, mas a grande paixão dela é Caliban.

 

Lê-se na contracapa: “Mas sabe, minha filha do risco que é amar (…) E a vida é o assombro que assombra e amedronta”. 

Há um outro verso de que gosto: “Sem liberdade, é o poder um monstro de braços bifurcados, onde se aloja lei sem pensamento e se torna viscoso o coração”. Portanto, é também uma peça sobre como podem liberdade e amor conviver. 

 

Quis ser mais Ulisses do que Penélope?

Jamais. Porquê?

 

Porque Ulisses é o que empreende a viagem. E Penélope fica a fazer e refazer a sua teia, à espera.

Mas Penélope escolheu isso. Esperar e fazer a teia é a sua opção. A possibilidade de escolha nunca pode ser uma coisa negativa. A liberdade não pode nunca ser uma coisa negativa. O que me assusta é um discurso que privilegia a escolha e uma prática que a desmente e onde impera o medo, o receio. O discurso da cautela faz-me impressão. Não sei ser cautelosa. Não sei ter cuidado com o que se deve dizer. Mas se não me sei defender muito bem, ainda bem. As pessoas que se sabem defender muito…

 

As das horas certas de que fala no seu verso.

Exactamente. São pessoas que não arriscam. E é sempre um risco tudo aquilo que fazemos.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011

 

 

Irene Flunser Pimentel

12.06.18

“Ser sempre contra é fácil. Construir é o mais difícil de tudo. Achávamos que éramos corajosos, heróicos, que íamos lutar pela vida de todos os outros. Eu pensava: “Se a ditadura um dia cair, lutamos contra quê?”

Esta era Irene quando Irene era (também) Rita. A historiadora, galardoada com o Prémio Pessoa em 2007, conta as memórias de uma menina bem comportada durante a ditadura.

A vida de Irene Flunser Pimentel nunca se pareceu com a das mulheres sobre as quais escreve livros de História. A cada Um o Seu Lugar, A política feminina do Estado Novo é o volume mais recente de uma série de estudos que vem fazendo sobre o período da ditadura em Portugal.

Enquanto investigadora, reclama uma distância em relação ao objecto de estudo. A pretexto do livro, fez o que nunca tinha feito numa entrevista: olhou-se imersa num movimento político, num tempo, falou dos excessos e das desilusões. A sua história enquanto dirigente de grupos de extrema-esquerda nunca havia sido contada.

Foi política até 1978. Como boa marxista-leninista, copiou “coisas do totalitarismo comunista, misturado com uma apetência pelo Surrealismo, uma cinefilia grande, o Maio de 68 e os valores meio anarcas e libertários” que marcaram uma geração. Aos 30 anos percebeu que não tinha casado, não tinha tido filhos, não tinha um curso. Licenciou-se em História em 1984. Não é casada, não tem filhos. Vive com duas gatas. 

  

Qual é a sua definição de herói?

É uma palavra que não uso muito. Mas ela existe e deve ser utilizada. Vou dar um exemplo: Aristides Sousa Mendes. Com todas as contradições, com todos os defeitos que certamente teve, naquele momento, em que podia ter salvo vidas, fê-lo. O herói é a pessoa que tem poder para decidir uma coisa, ou o seu contrário, e ao decidir aquilo que é o mais difícil, é bom para outro ser humano.

Uma palavra de que gosto muito é compaixão. Foi muito destruída, mas o que diz é “com paixão” pelo outro. Gostar do outro como gostamos de nós próprios.

 

Explique a associação mental que fez entre heroísmo e compaixão. Passou de um tema a outro.

Teve a ver com o exemplo do Aristides Sousa Mendes. Ele diz, já racionalizando: “Decidi dar vistos a todos os que os pedissem, independentemente da raça, religião, sexo ou fortuna”. Isso é uma atitude de verdadeira compaixão.

 

Quem eram os heróis da sua juventude?

Quando me virei para a política, herói era a pessoa que era presa e não falava na cadeia. Era a pessoa que arriscava a morte por uma ideia. Temos sempre aquelas manias, gostávamos de ter vivido numa determinada época… [Eu dizia que gostava de ter vivido] na Resistência francesa, na Segunda Guerra Mundial. Hoje acho isso um absurdo, ainda bem que não vivi. Se calhar tinha feito a escolha não-heróica, de ter fugido e não fazer nada, para safar a minha vida. Era inspirador o lado da resistência pura e dura.

A minha escolha, vendo a posteriori: fui mais anti-fascista do que comunista. Esses resistentes também matavam outros resistentes, ou porque desconfiavam deles, ou porque alguém dizia qualquer coisa. Houve uma altura em que, na organização, me colocaram a tarefa de ser polícia.

 

Para policiar o quê?

Tinha havido um roubo, entre camaradas e fui incumbida de investigar quem tinha sido o ladrão. Uma coisa horrível. O início do fim. Aquele outro lado sempre existiu, mas achámos que não. O sectarismo, o dogmatismo, coisas como o querer parecer mais radical que o outro, perante terceiros…

 

Aparecem as paixões humanas? A vaidade?

O ressentimento.

 

A tentação de poder.

Sim. Falávamos muito nessas questões, dizíamos: “Há oportunistas aqui”. Há sempre os maus e os bons. Tínhamos que ter sempre alguém contra quem lutar. E como o exterior não era demasiado radical, estávamos contra o interior. É por isso que as pessoas se comem umas às outras. Quanto mais pequena e sectarizada é uma organização, pior é. É o inimigo por dentro – aquilo que deu o nazismo e o estalinismo. Por isso é que gostávamos tanto, embora fosse uma falsidade, da revolução cultural chinesa. Ali tinham descoberto a forma de eliminar a burocratização do poder, a nomenclatura. Havia uma eterna revolução. Uma vez, em plena ditadura, levantei a questão: “Como é que pode haver oportunistas numa situação em que estamos a arriscar ser presos pela PIDE?”. Achava que não havia, de maneira ingénua. Fui-me apercebendo que havia, e de que maneira.

 

Na juventude, a experiência da China e da União Soviética traduziam uma aplicação da ideologia que professava. Como é que foi, nesse período, a justaposição destes dois planos? Só mais tarde é que se desacertaram?

É muito difícil falar para já, irei sempre mentir. Tenho uma característica, que não é só minha, outros ex-camaradas e companheiros, sobretudo mulheres, a têm: não tenho memória desse período. Muitas vezes sou a memória da outra pessoa, e essa outra pessoa é a minha memória. Contam-me coisas e digo: “Isso não se passou”. Tudo o que lhe vá responder não é como via as coisas.

 

Já se dava conta dos excessos em que incorriam? Alguma coisa desse tempo ajuda a compreender o seu desencantamento e afastamento?

Dava-me conta e – e isso é que o mais terrível de tudo – punha isso de lado. A célebre frase: “A revolução não é um chá dançante”, dá para tudo. Se não é um chá dançante posso morrer, ser morta, trair, ser traída. A pior frase de todas: “Os fins justificam os meios”. Não, “Os bens justificam os fins”. O Camus, que criticávamos tanto, tinha razão. Se os meios são aqueles, não interessa aquele fim.

Se havia contradições, coisas que não conseguíamos explicar, dizíamos que um dia ia ser maravilhoso. O comunismo era o Céu na terra. Nunca acreditei muito nessa utopia. De vez em quando dizia: “Não acredito nisto completamente”. E tinha esse problema relativamente a ser presa. Dizíamos que se fôssemos presos tínhamos que acreditar muito para resistir.

 

Fale-me da sua entrada na política. Quem insuflou em si a vontade de intervir?

Estive no liceu francês e era de uma família portuguesa rica, privilegiada. Como a minha mãe é suíça, conhecia antigos refugiados que tinham cá vivido no tempo da Segunda Guerra Mundial, e que ficaram. Concretamente uma alemã que se casou com um médico português, que era comunista. Os filhos deles foram meus colegas. A dada altura o pai dessa minha amiga é preso e tive uma terrível vergonha de o meu pai ser o que era – capitalista. Gostava que o meu pai tivesse sido preso. E aí começa tudo.

 

Uma mitificação do comunismo.

Exactamente. Vivíamos muito em função da PIDE. Mesmo nas famílias que não tinham atitudes políticas, sabia-se que havia aquilo. O telefone dos meus pais era escutado porque estavam a escutar as conversas dessa mãe da minha amiga. Fui marcada durante muito tempo pela culpabilização social.

 

Por ser uma menina bem nascida, meia estrangeira, com um pai que não se empenhava politicamente.

No liceu francês líamos Sartre, Simone de Beauvoir. Era outra sociedade à qual aspirávamos, mesmo quando era muito nova. A primeira vez que escrevi qualquer coisa foi sobre o racismo, já muito politizada. Também digo sempre que sou filha da Segunda Guerra Mundial. Nasci em 1950.

 

A sua mãe é judia?

Não, é protestante. A minha mãe casa-se com o meu pai em 1949, numa altura em que ele estava a fazer uma pós-graduação em Zurique. Toda a nossa geração é marcada pelo Holocausto. Primeiro pela maneira como se via a União Soviética, que nos tinha salvo, muito mais do que o Churchill (que hoje é mais focado, pondo-se em causa os estalinistas, mas na altura não). Ainda me lembro de um filme do Charlie Chaplin, Um Rei em Nova Iorque; às vezes a censura não traduzia, partia do princípio que ninguém sabia inglês. Há uma cena em que ele diz: My father is a communist, e na tradução a legenda era: “O meu pai é um ladrão!” [riso]. Foi através dos meus pais que fui para a política, apesar de eles serem tudo menos [políticos].

 

O seu pai era capitalista porquê?

O meu avô fundou o laboratório Sanitas. O meu pai era engenheiro químico farmacêutico e administrador da empresa. O relacionamento que tínhamos com os operários era de cima para baixo. O meu pai tratava-os por tu. Eu achava aquilo uma coisa inaudível. O tal senhor, que era mais velho que o meu pai, não tratava o meu pai por tu.

 

As criadas, que na altura se chamavam criadas, também eram tratadas por tu.

Por acaso em minha casa não eram porque a minha mãe confundia-se imenso com o tu e com o você, e dizia: “Olhe”. A primeira vez que tratei um operário por tu foi quando fui para Paris, aos 18 anos.

 

Mas já não era, como em Lisboa, a filha ou a neta do patrão.

Não. Em Paris inventei uma nova pessoa. Só agora é que o percebo. Fui para a Suíça estudar, a seguir ao 7º ano, Literaturas Comparadas. As pessoas que conheço eram todas anarquistas, hippies, em plena fase pós-Maio de 68.

 

Que, apesar de tudo, tinha contagiado a neutral Suíça.

Sim. Vim cá passar as férias do Natal, ia para a Suíça outra vez, de avião… e telefonei aos meus pais a dizer que ficava em Paris, que escusavam de mandar a polícia. Uns disparates. Fui para um grupo que dizia que devíamos ir para a fábrica – trabalho de massas. E os filhos de família mais. Como falava muito bem francês, e não falava como uma emigrante, tive de arranjar uma razão para falar tão bem francês.

 

Não contou a sua história, inventou realmente uma biografia?

Eu dizia que tinha estado na costura, em casa de umas francesas, em Portugal. E comecei a vestir-me de outra forma, de saias, em vez de calças.

 

Qual era a importância da saia?

Uma emigrante portuguesa não se vestia da mesma forma que uma menina de família que usava jeans. Outro dia fui ver um filme sobre a manifestação das mulheres a Salazar, em 1959, e é impressionante como está estampada a classe social. Hoje isso está esbatido.

Estava sempre a ser despedida. Ao fim de um tempo dizia assim: “Agora já é altura da revolta”. Revoltava-me, tentava que aquela malta toda fizesse greve, e ia para a rua.

 

O seu objectivo na fábrica era, mais que tudo, instigar à revolta?

Para lutar contra capitalistas que estavam a explorar aquelas operárias.

 

E experimentava realmente o que era ser operário. Não era só o lado da instigação.

Era a questão fundamental. A tarefa de uma comunista era instigar as pessoas à revolta, à greve, contra o patronato. Mas é evidente que era uma aculturação e uma reeducação através da classe operária. Não tínhamos dinheiro. Foi a primeira vez que comi pão com margarina. Até então comia pão com manteiga. E isto com uma enorme culpabilização. Durante anos tive uma coisa ainda pior: o arrependimento. E por outro lado: “Que estupidez aquilo tudo”. Nunca fizemos nada de mal, felizmente. Há pessoas que podiam ter morto outras pessoas, reconheço isso. O nosso grupo, se não fosse o 25 de Abril, e quase todos os grupos maoístas, estiveram à beira de passar para uma via mais radical.

 

Quanto tempo esteve em Paris?

Só um ano, porque depois mandaram-me para casa, os camaradas. Eu era legal. O grosso era clandestinos, desertores. Vim fazer política para cá. Para onde é que fui? Para casa dos meus pais. O que era a contradição máxima, ao fim de anos na Suíça e em Paris. E a viver à custa deles, porque ainda não tinha emprego. Para fazer trabalho político contra eles e contra a minha classe.

 

Quando é que eles, sobretudo o seu pai, deixou de ser “o inimigo”?

Alguns anos depois do 25 de Abril, quando saí destas coisas. Não falei aos meus pais durante algum tempo, durante o PREC. Famílias inteiras dividiram-se. Toda a gente era alguma coisa em política (que é uma coisa que hoje não percebemos). “Aquele é fascista, comunista ou capitalista?” Era isso que marcava a pessoa.

 

A questão de o pai e de a família serem olhados como o inimigo é importante, sobretudo quando vive essa culpabilização durante tantos anos. Se bem que o seu pai não fosse fascista, apelidou-o de capitalista. Havia uma perigosa aproximação entre os dois termos.

Sobretudo depois do 25 de Abril. Sobre esse período tenho imensa dificuldade em falar. É como se fosse uma nebulosa que durou meses em ritmo contínuo. Não sou capaz de falar, a não ser sobre o que pensei posteriormente, sobretudo para lutar contra esse arrependimento e o ressentimento.

 

O arrependimento pelo que tinha feito, pelos seus excessos?

Não estudei, não fiz nada. Cheguei aos 30 anos e não tinha curso. E tinha tido todas as hipóteses. Foi desbaratado. E os meus pais, isso, não aceitavam. 

 

Insisto neste tópico porque, anos mais tarde, profissionalmente, o período em que se centra é esse. Por exemplo, faz uma biografia de um inspector da PIDE, que, não por acaso, se ocupava do Partido Comunista, de combatente como essa que foi.

Nunca estive no Partido Comunista, estive sempre em organizações de extrema-esquerda. Dizíamo-nos comunistas, mas éramos marxistas-leninistas. Éramos os verdadeiros comunistas. O PC não era, era revisionista, tinha traído o seu objectivo ao não lutar pela revolução. Dá vontade de rir.

 

Era da FEC (m-l).

E d’ O Grito do Povo. O FEC (m-l) era uma frente eleitoral, só durou durante as eleições. Era uma frente da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa. A UDP era a frente do PCP (R). Houve umas fusões. Estupidamente fui para o PCP (R). Devia ter acabado logo ali, ainda durei [na política] até 1978.

 

Enquanto investigadora, faz um trabalho sobre essa área e os seus protagonistas. Por um lado, aqueles do lado de quem militou, e aqueles contra quem lutou. No espaço social e dentro de casa.

Preciso sempre de ter uma estranheza para conseguir estudar um objecto. O homem da PIDE é o cúmulo da separação. No Partido Comunista, nunca estive. (Sem o estudar não percebemos nada do Estado Novo.) Politicamente tinham chegado à conclusão de que era bastante avançada, sabia muito de teoria, e fui para controleira da célula. Depois baixei para a base porque não critiquei uma das camaradas que se tinha divorciado e continuava a dar-se com o ex-marido.

 

Uns puritanos. Havia uma carta de bom comportamento, como no MRPP?

Claro que havia. Não era tão excessiva como no MRPP porque gostávamos de beber. Havia aquela coisa: “As massas também bebem” [riso]! Eles achavam que, ou não se divorciava, porque na moral proletária convém manter a relação, ou, se se divorciasse, tinha que cortar relações com ele.

 

Estava a dizer que o PC é fundamental para perceber o que foi o Estado Novo, e por isso o estudou.

E porque não estive lá. O PC era aquela coisa dos pais dos outros, das minhas colegas, dos meus amigos. Era incapaz de fazer a história sobre o grupo onde estive. A carga subjectiva ia toda lá para dentro. Ou ia atacá-lo porque tinha contas a acertar, ou iria embelezar, desculpabilizar. Em História, uma das coisas que aprendemos é que aquilo foi para aquele lado mas podia ter ido para o outro. Sabemos que tudo podia ser diferente.

 

O que não percebo ainda é o que é que queria para a sua vida.

Também não sei muito bem o que é que queria. Há o lado da psicologia no meio disto tudo. Devo ter tido uma fase muito deprimida. Se fosse noutra época podia ter dado outra coisa, podia ter ido para a droga. Fui para a política, como muita gente da minha geração.

 

A política deu-lhe um sentido?

Completamente. Tínhamos muitos desequilíbrios, a sociedade possibilitava esses desequilíbrios. É-se educado para não ser queixinhas, e vive-se numa sociedade onde há o bufo. Havia muitas contradições em que estávamos metidos. Era uma passagem ao acto, a política. Especialmente a política radicalizada. A parte mais interessante da política fi-la mais tarde, no chamado trabalho de massas, a trabalhar nas colectividades. Mas do que gostávamos verdadeiramente era de andar a colar coisas à noite e ver se a polícia não aparecia.

 

Do clandestino, da transgressão. É uma coisa um pouco burguesa, não? As massas podem dar-se ao luxo de correr riscos?

Não. Aí é que está a grande diferença. Eu achava que tirar um curso era o cúmulo da burguesice. “Tirar um curso, ser a classe dirigente do futuro? Não, vamos ficar é aqui com uma boa consciência igualitária”. Por outro lado, é verdade que não tinha vindo de baixo, e tinha sempre um apoio, mesmo quando estava zangada.

 

Foi possível tirar o curso só em 1984 porque o essencial – ter uma casa onde recolher, uma mesa onde comer – estava assegurado.

Só os meninos burgueses é que se podiam permitir isso. Depois, por causa da deserção, da guerra colonial, muita gente, até de outras classes sociais, teve de ir para França, não podiam viver de outra forma. Nós fizemos uma escolha.

 

Tinham escolha, essa é que é a grande diferença.

Em Paris, a dada altura fui para uma fábrica de sapatos. Ao fim de uma semana fomos todos para a rua porque falávamos imenso. O emigrante não falava. Fomos todos, excepto uma amiga minha, que era a mais burguesa de todas, que estava grávida e não se podia permitir ser posta na rua. “Comigo não falam”.

 

Dá uma ideia do até onde é que era possível resistir. Como naquela frase de Marx: “A liberdade é o reconhecimento da necessidade”.

Liberdade – é a palavra de que gosto mais. A igualdade é fundamental com a liberdade. A liberdade, sozinha, acarreta a igualdade, e a igualdade sozinha não acarreta a liberdade. Prefiro sempre a palavra liberdade. Mas é tudo ao contrário do que achávamos. Qual liberdade?, a liberdade era a burguesia, para nós não havia liberdade. Estou agora a pensar consigo, não penso muito nestas coisas.

 

É curioso que só pense sobre os outros, que só faça a história dos outros.

Fiz psicanálise, mas é uma coisa que me cansa, que me maça.

 

O assunto da psicanálise é diferente do assunto político.

Digamos que iluminei o meu passado político, no sentido de perceber o que se passou, através da psicanálise. A ideologia estava ali, para toda a gente, como uma enorme escapatória. Por isso é que tinha de ser a ideologia totalitária, não podia ser uma coisa reformista, a democracia burguesa. Era o tudo ou nada. E tínhamos que ter explicação para tudo. Quando saí do partido, fui ter com uma amiga que estava de fora, e disse-lhe: “Percebi que pela primeira vez, desde há muito tempo, sou livre, e não sei o que é que hei-de fazer com esta liberdade”. Depois esqueci-me disto, ela é que mo lembrou mais tarde. Estava aterrada. Ia ser o meu próprio comité central. Tinha 28 anos. Tinha passado quase 10 anos com outras pessoas a decidirem melhor do que eu.

 

A ser política, a sua vida foi essa.

Só política. A minha vida privada foi toda marcada pela política. E falsificada pela política.

 

Estranhei que não tenha respondido, quando lhe perguntei o que é que queria fazer da vida, mudar o mundo. Pensei que essa seria a resposta.

Não. Queria a liberdade, por isso é que digo que era mais anti-fascista do que anti-capitalista, do que comunista. Para modificar a questão do fascismo e da ditadura tínhamos que passar para outro tipo de sociedade e de regime: a sociedade socialista. Nunca sei verdadeiramente o que pensava, mas lembro-me que tinha imensas contradições. Era visceralmente anti-ditadura, mas também não via bem aquela ditadura a desaparecer... Fiquei admirada com o 25 de Abril.

 

Com a forma como tão rapidamente se passou a um regime diferente?

No primeiro dia o nosso grupo dizia: “Isto é um golpe de direita, fiquem escondidos”. No segundo dia desobedeci, eu e outros. E de repente começo as ver as pessoas a falar, mesmo o povo. Houve uma transformação. De certa forma, desprezávamos as massas. Não tinham consciência política, não tinham consciência de classe.

 

Viviam escondidos?

Nunca tive vida clandestina, nesse dia é que estava [escondida] numa casa. Foi uma coisa que nunca percebi: como é que nunca me prenderam [riso]. E não consigo fazer a minha própria história porque desapareceu o meu arquivo da PIDE.

 

Pode ser porque é meia-estrangeira?

Ou por ser filha de quem era... Mas acho que não. A partir de 1971 iam atrás de toda a gente. Prenderam católicos, torturaram-nos, coisas que não aconteciam antes. Especialmente tudo o que fosse relacionado com a Guerra Colonial. Eu, a partir de determinada altura, estava só relacionada com a guerra. Estava numa célula de soldados – ridícula – e era a única não-soldado. Aquilo metia armas, desmontar armas, treino de armas. Era eu que escrevia os textos dos panfletos que eles introduziam nos quartéis. Deixava uns espaços para se pôr palavrões. “Então o que é que achas que se põe aqui?”. Escrevia com a ajuda da linguagem de caserna.

 

Conte uma história desse tempo.

Um tipo é preso, apanham-lhe armas debaixo da cama. Era um tipo que eu tinha ido pôr à fronteira; tínhamos tido um acidente em Leiria. (A primeira vez que conduzo à noite, tinha acabado de tirar a carta, chovia, e ia até Bragança levá-lo, onde havia um passador.) Em Leiria vai o Morris contra uma camioneta. Vamos para o hospital e dão-lhe uma injecção anti-tétano; mas ele já tinha levado uma na tropa. Estava clandestino, desertor, e ia morrendo com a injecção. Este tipo é preso e fala em mim. Diz o meu nome, Rita, e inventa que se encontrava comigo no Rato. Encontrávamo-nos sempre no Saldanha. Eu tinha um ar muito jovem, tinha 20 anos, ele dizia que eu tinha 16, e aquilo não bateu certo. Li, para a tese sobre a PIDE, o processo dele, e de repente aquilo era eu. E não me apercebi! Só ao fim de algum tempo. Até o nome tinha esquecido. Aquilo deu para o torto. Ele tinha uma paixão por mim, foi parar ao Miguel Bombarda, ainda preso. Só o volto a ver depois do 25 de Abril.

 

Que estranho, ler sobre si e não se reconhecer.

Eu própria achei estranhíssimo. Acho que acontece um pouco a todos os que estiveram metidos neste tipo de coisas. Aos clandestinos acontece imenso: olhar para si como se fosse uma terceira pessoa. Às vezes olho para o [meu] passado como se fosse uma terceira pessoa. Não sinto o mínimo de emoção relativamente a essa figura. Devia ter. Raramente conto esta história.

 

Quando preparava a entrevista, tudo o que encontrava era sobre a historiadora. Sabia que tinha tido um percurso político, mas a sua história não aparece.

Há coisas que também não conto. Eram circuitos muito fechados, não se podia sair assim... Aquilo que às vezes vemos nas máfias e nos gangsters, esse tipo de microcosmos. Quando saí, não tinha um único amigo, a não ser a Céu Guerra.

 

Qual foi a gota de água que a fez sair?

Foram várias. Éramos d’ A Voz do Povo, saí com o José Manuel Fernandes, o João Carlos Espada, o Henrique Monteiro.

 

Ainda não falámos da questão do género, que depois é um dos objectos do seu estudo. Ser mulher pesou em todo este percurso político? Não foi uma dirigente destacada.

Estive sempre na base. O máximo que atingi foi no trabalho de massas.

 

Porquê? Não tinha suficiente ambição política?

Não tinha nenhuma, mas também porque era burguesa. Um querido camarada, proletário, mais novo que eu, quis resolver esse problema – pediu para me casar com ele. Era proletário, dirigente. Aí, subia logo.

Em Paris apercebi-me pela primeira vez de uma maneira de funcionar que não conhecia (por estar no liceu francês, devido à minha família suíça). Numa reunião de célula, onde era a única mulher, um disse: “Hoje preciso de entrar numa delas”. Depois percebi que era numa mulher. Outro dizia: “Vais àquela americana que não há problema nenhum”. A mentalidade era a mesma do fascismo. As mulheres eram trituradas. Uma amiga que esteve clandestina no mesmo grupo que eu, a dada altura, ia com todos os homens porque os queridos camaradas precisavam de ter relações sexuais. Era uma das tarefas políticas. É uma coisa de que não se fala muito. Vou fazer um livro sobre as companheiras.

 

Por um lado há um enorme puritanismo em relação à vida familiar e à conduta que é preciso observar no dia-a-dia. Depois, a partir da sua descrição, estas mulheres servem de depósito.

É mesmo isso. Lembro-me ainda de outro a dizer: “Ó pá, abre um buraco na parede”. Isto é tudo gente de 19, 20 anos, que era o grosso destes microcosmos.

 

Quem eram estas mulheres? Não eram as mães dos filhos deles.

Ainda ninguém tinha filhos. Eram uma ou outra vez a namorada que podia ter ido com eles, mas normalmente eram estrangeiras. Isto em França. Aqui, na clandestinidade, eram as camaradas que estavam clandestinas com eles, que podiam gostar ou não. Elas eram as mulheres da limpeza e tratavam da casa, muitas ficaram analfabetas, nem se deram ao trabalho de as ensinar. Muitos daqueles dirigentes escolhiam: “Quero ir com aquela camarada para a casa clandestina”. E tiravam-nas aos namorados. Isto foi utilizado pela PIDE.

 

Era uma forma de provocar ciúmes, dissidências.

Há um caso típico, o Verdial, que denunciou todo o sector intelectual em 1964. Era casado com uma mulher, outro camarada quis essa mulher e colocou-a noutra casa clandestina. O homem pirou, ao fim de um tempo passou-se para a PIDE.

 

Contrariou o destino previsível que era casar, ter uma família, uma profissão. Não sei se a leitura da Simone de Beauvoir a alimentava nessa altura...

É a coisa mais horrível de dizer, mas não foi escolha nenhuma. Aos 30 anos, não estava casada, não tinha filhos, não tinha curso – sem escolher. Por isso é que anos depois estava arrependida.

 

Chegamos à fase da sua vida em que não tem heróis. A fase em que decide estudar e encontrar um outro rumo.

Tornei-me feminista nessa altura, quando estive envolvida na luta da CNAC pelo aborto. Tive que ir imediatamente para outra coisa, estava tão habituada a funcionar politicamente e em grupo… Não há praticamente feminismo em Portugal porque o marxismo-leninismo foi muito forte, abafou tudo. Quando vou para o feminismo, vou refazer outra vida e outras relações. Não tenho um único relacionamento do período da política, a não ser as minhas amigas de infância. Conheço-os todos, não me dou com ninguém.

 

Ao refazer essa teia há uma coisa subjacente: com que sentido?, para chegar onde?

Foi a primeira vez que me preocupei comigo. Não era nada para os outros. Tirar o meu curso era para ter uma vida um pouco melhor. O feminismo tinha a ver com isso, com a libertação daquelas cangas morais, proletárias, em que, no fundo, nunca tinha acreditado muito, mas que me tinha auto-imposto.

 

Foi nessa fase feminista que foi contestar um concurso de misses no Casino de Estoril? Era lutar contra o estereótipo da mulher-objecto que se quer bela, dona de casa, mãe de família?

Foi. Ainda que essa manifestação tenha sido em 1972. Estavam meia dúzia de pessoas.

 

Novamente o papel da mulher na sociedade: a sua mãe não era uma mulher comum, era uma estrangeira, protestante. Como é que isto era vivido por si, olhando para as mães das suas amigas?

As mães das minhas amigas também eram um bocado assim, muitas delas trabalhavam. A minha mãe é que mandava em casa, geria os amigos, as férias. O meu pai trabalhava fora de casa, estava ausente. Não tive um relacionamento muito facilitado com a minha mãe, e a minha ida para Paris é também para me libertar dos meus pais.

 

Está a editar um livro no qual fala do papel da mulher na sociedade do Estado Novo. Estudando aquele objecto, percebe que a sua mãe não encaixava naquilo de que está a falar.

Encaixava só no aspecto de não trabalhar e ser a dona do lar. Ainda há pouco tempo a minha mãe se lembrava que não podia sair do país sem autorização do meu pai. Mas seria impensável o meu pai não lhe dar a autorização. Tudo o que estudo tem que estar bastante separado de mim. A OMEN [Obra das Mães pela Educação Nacional] não tem nada a ver com a minha mãe. Eram umas senhoras que descobri que existiam quando trabalhei a Mocidade Portuguesa Feminina. Foi a primeira organização do Estado Novo, mas não teve sucesso nenhum.

 

As mulheres mandavam realmente em casa?

É uma questão complicada. A Natália Correia tinha essa teoria, da mátria. O próprio Salazar tem uma frase em que diz que nas casas são elas que mandam, e que a situação delas não é inferior. Elas mandavam, tinham o seu espaço de poder, o espaço privado. Tinham poder sobre os filhos e a formação dos filhos. E essa formação é muito importante. (No pós 25 de Abril, a Madalena Barbosa, que me marcou bastante, quis dar uma educação diferente aos filhos, e depois confrontou-se com uma coisa terrível: punha os filhos, homens, a lavar a loiça e a fazer as tarefas caseiras, como as filhas, e na escola eram ridicularizados.)

Tem de se dizer tudo: apesar de terem o poder de formar, estavam sempre sujeitas ao poder masculino. Ele mandava sempre.

 

Frases da época: “O teu pai é que manda. O teu pai é que sabe. Espera até o teu pai chegar e vais ver o que acontece”. A autoridade era o pai.

Segundo o código civil era o chefe da família. Essa coisa da mátria induz em erro. Ela [Natália Correia] dizia que as mulheres geriam o dinheiro em casa. Em certos lares tinham esse poder. Mas nunca são tratadas como um igual.

 

Foi sempre uma intelectual engajada. Mesmo agora, que não é política, continua a expressar a sua opinião política de forma inequívoca.

Não quero, mas estou sempre. Sou muito primária. Tenho sempre uma opinião sobre alguma coisa, sai-me automaticamente, ficou-me de uma leitura política.

 

Apesar destes anos de trabalho como historiadora, continua a haver uma imediatez irreflectida nas posições que assume? Como é que olha para isto em si?

É uma segunda pele. Há duas coisas que guardei: uma certa revolta perante determinadas situações muito injustas, e a tendência para achar que posso fazer alguma coisa. Mesmo na História, tive de me aperceber, porque me disseram, que tudo o que escolho é político.

 

Tiveram de lhe dizer? Como é que não tinha noção?

Não tinha. Quando escolhi a Mocidade Portuguesa Feminina achei que não era nada político! Política, a história política, interessam-me muito.

 

O seu trabalho enquanto historiadora, por causa das posições políticas que assume, e por causa dessa imediatez na sua reacção, pode ser penalizado?

Ultimamente, sim. Não estou arrependida, mas tenho que ter algum cuidado. Coisas que digo na blogosfera têm efeitos perversos, que não prevejo. E pode chegar uma altura em que misturem a minha atitude como política, como cidadã, a que tenho direito como qualquer pessoa, e o que digo na História. Tento ser o mais objectiva possível quando faço História, e tento que os meus valores não interfiram. Mesmo assim sou criticada. Por exemplo, pelo PCP, por ter pegado na figura do [inspector da PIDE] Gouveia. Isto na Alemanha era impensável. Então não se estudava o Hitler, ou, se se estudava, era-se automaticamente a favor do nazismo. Em Portugal estamos numa fase complicada, tudo o que se diz é virado ao contrário. Reconheço que isso é o triunfo das pessoas com uma mente totalitária. Para continuarmos com o nosso trabalho acabamos por nos demitir.

 

Consegue imaginar para si um regresso à política activa?

Não, jamais. Era incapaz de estar em reuniões políticas, ver o poder de um versus o do outro, ir para a assembleia, não ir para a assembleia. Hoje a política é isso. Com o meu primarismo, incompatibilizava-me logo com uma data de gente. Na política não se pode dizer algumas verdades. Não tenho esse espírito. Aquele tipo de política que exercia, muito radicalizado, era mais consentâneo com este tipo de primarismo.

Para todos os que estiveram neste tipo de coisas foi fundamental termos feito uma travessia no deserto, e termos posto em causa aquilo.

 

Sem condescendência?

Aquilo era totalitarismo puro. Há pessoas que acham graça a tudo o que defenderam, que me dizem ainda hoje que defendem o maoísmo. O maoísmo era um crime estatal que matou milhares de pessoas, destruiu a vida de outros milhares. Por acaso não chegámos a esse azar, de ter isso em Portugal. Mas essas mentalidades existem. Há outras pessoas que nunca fizeram essa travessia no deserto e que agora estão a voltar. É muito fácil ter atitudes simplistas nesta altura de crise.

 

Um herói pessoal, tem?

Não me ocorre nenhum. Não tenho, nem líder nem herói. É uma coisa que me chateia um pouco. Éramos tão felizes quando tínhamos heróis. Admirei imenso a Simone de Beauvoir, quando ela escrevia Mémoire D'une Jeune Fille Rangée. Sabemos que ninguém é perfeito, as pessoas podem ir para o mal e para o bem, é uma desilusão muito grande com a qual ficámos. Mas é interessante viver com isso: temos de ser mais perfeitos do que somos, para lutar contra a falta de heroísmo que existe por aí.

 

 

Publicada originalmente no Público, em Janeiro de 2012

 

Pág. 1/3