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Anabela Mota Ribeiro

A Casa de Saramago

13.06.18

A última grande erupção foi no século XVIII e durou seis anos. Foi nas Montanhas de Fogo de Timanfaya, um lugar estranho que nos faz andar na Lua e onde dormem cerca de 300 vulcões. A cor de Lanzarote é a de um tição apagado numa lareira. Os elementos mexem connosco. Deve ter sido também por isso que José Saramago sentiu que aquela podia ser a sua terra. Mudou-se para esta ilha das Canárias em 93. Morreu em Junho de 2010. A casa e a biblioteca podem ser visitadas.

 

Em 2006, a oliveira era tronco fino e folhagem pobre que ameaçava não medrar. Nesta terra vulcânica, que é tão preta que parece pintada, que medra? Lanzarote é chão de calhaus, vulcões a serpentear o horizonte, a montaña blanca muito erguida e orgulhosa. Passaram dez anos e a oliveira cresceu a ponto de estar mais alta que a casa onde estão os livros, a biblioteca. E a sua força é sólida o suficiente para dançar ao vento, um vento que arranca as pessoas do solo e as faz deslizar. Dança, cresce.

José Saramago já não a vê assim. Morreu em 2010.

Esta é a oliveira que ocupa o rectângulo de entrada da biblioteca. Há outra que está na casa-casa, a de dormir e tomar o pequeno almoço, que cresceu quase tanto quanto a outra. As duas cresceram mais do que o marmeleiro plantado por causa do filme de Victor Erice "O Sol do Marmeleiro", que continua uma promessa de árvore, assim como a romãzeira, que não vingou. Só cresceram as palmeiras e as oliveiras. Tanto que já não se vê o mar ao fundo, a dois ou três quilómetros, daquele ponto do jardim onde ele, quieto, recolhia para olhar. É um lugar assinalado: há uma cadeira de madeira e uma pedra vulcânica com tamanho de meteorito, para pousar os pés ou para nada, simplesmente para existir, existência bela.

As árvores são folhas, raízes, pilar-tronco. Saramago quis ser raiz, espraiar-se, movimento orgânico de corpo que não pode estar quieto e se move no subterrâneo.

Apontamento romântico: uma folha de árvore assinalou no calendário, durante anos, o dia em que o escritor conheceu a mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río. Começou por estar no 11 de Junho, era afinal no 14. E talvez porque a atenção não fosse toda, quando trocaram palavras pela primeira vez ao telefone, e ele não sabia como ela era, anotou mal o nome e escreveu Pilar de los Ríos.

Foi há 30 anos. Saramago tinha 63, Pilar 36.

A oliveira veio para Tías há 10. Tías está entre a aldeia e a vila, olhando no mapa fica a meio da costa este de Lanzarote, o número de habitantes anda pelos cinco mil. Em José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que acompanha quatro anos de vida do casal, podemos ver como a oliveira era mirrada, quase murcha. Chegou no mesmo par de meses em que chegaram os livros, milhares, que hoje ocupam a larga biblioteca, e com eles terra, memória, lugar, criação. A oliveira vinha da Azinhaga, a aldeia ribatejana do escritor, começo de mundo que cola com este fim do mundo onde Saramago se sentiu numa infância reencontrada.

Lá iremos, à biblioteca e à infância. Agora recuamos no tempo, a antes da oliveira e dos contentores de livros. Recuamos ao ano em que se mudaram para Lanzarote, depois do abominável veto do condecorado Sousa Lara à escolha de O Evangelho Segundo Jesus Cristo para Prémio Literário Europeu. Polémica assaz intragável, hoje como então abstrusa. Lanzarote pareceu uma terra-solução para lidar com a revolta, lugar de tranquilidade e tempo para escrever.

José e Pilar tinham estado na ilha no final de 91, foram à praia de Famara no dia de Natal. Mesmo no Inverno, um calor moderado invade os dias. A água talvez faça tiritar, num primeiro encontro, mas depois passa. As fotografias desbotadas mostram uma família numa nesga de areia grossa e escura, e uma meia lua de pedra vulcânica que forma um murete e protege do vento. Estavam com eles a irmã de Pilar, María, a sétima numa escada de 15 filhos (Pilar é a mais velha), e o marido, o arquitecto Javier Pérez-Fernández Fígares, que moravam na ilha.

Era a primeira vez que visitavam Lanzarote e, apesar da adesão instantânea ao lugar, não podiam imaginar que, não longe daquele Natal, aquele ponto das Canárias seria casa. O impacto da ilha, a força agreste, a aridez lunar foram traduzidos em desabafos de felicidade. E a vida seguiu em Lisboa. E depois foi o choque e a tristeza do veto. E da noite para o dia, surgiu Lanzarote como possibilidade, coisa efectiva, materialização do desejo e necessidade de ir para um outro planeta que ficasse ali ao lado. A mudança fez-se em Fevereiro de 93.

No jardim não havia árvores e os caminhos eram de terra pedregosa. Quando se vê as imagens de regresso a casa, depois de ser anunciado o prémio Nobel mas ainda antes do seu recebimento, em Estocolmo, José e Pilar aparecem junto ao muro branco, envolvidos em flores, sorrisos e vento. E uma paisagem de quase nada à volta.

Foi também esse quase nada à volta que os seduziu. Queriam uma vida de palavras primitivas, centrada no essencial, pétrea. Com silêncio e dias sem interrupção.

Fizeram-se casas irmãs para as duas irmãs e suas famílias. Tudo branco, preto e vermelho. Não há casa que não seja branca em Lanzarote, imposição governamental. E a pedra oscila entre a cor do tição já apagado numa lareira e aquele vermelho que vem da terra muito ferrosa; vermelho ou, para ser exacta, cor de tijolo. Transposto o portão, uma nova porta dá acesso às duas casas. Num ângulo recto, a de María e Javier é a da direita, a de José e Pilar em frente.

Entra-se. O espaço é dominado por luz e pedra, pela clarabóia de vidro fosco que emana uma luz branca e por um tapete de pedra vulcânica, pedra porosa e organizada em riscos diagonais que faz as vezes de tapete de material macio e caro.

A casa, assim designada desde sempre, e com o artigo, é hoje uma casa-museu com visitas diárias durante a manhã. O que permite ver? Tudo. Os passos, as rotinas, a modéstia, a memorabilia, os encontros com personagens e fragmentos que vivem na casa como pessoas de verdade (por exemplo, Blimunda, por exemplo, a passarola do Memorial do Convento), a surpresa com a dimensão (como cabiam as pernas tão compridas de Saramago naquele quarto de média-pequena dimensão?), as fotografias da filha Violante e marido e filhos, as fotografias da tribo del Río coladas com íman no frigorífico, as fotografias do Nobel, pompa e maravilhosa circunstância, a gravura de Ilda Reis, sua primeira mulher, as pedras trazidas de todos os lados e reunidas numa espécie de caixa de vidro, canetas e esferográficas oferecidas em salões e academias, uma até com diamantes, os cavalos, os elefantes, os objectos dos que quiseram demonstrar a Saramago que foram tocados pelas suas alegorias, pelos mundos que eram inventados e que eram iguais aos seus, pelo desejo de afagar o semblante triste do menino que via cavalos no Ribatejo e não tinha condição de os montar, do escritor que, para além gostar de cavalos, inventou o cão das lágrimas e um elefante que faz um caminho longo, longuíssimo, e acaba com a pata transformada em recipiente de sombrinhas e bengalas, oco, destituído, apetrecho banal.

Saramago disse uma semana após o anúncio do Nobel, com urgência: "Quero é recuperar, saber, reinventar a criança que eu fui. Pode parecer uma coisa um pouco tonta, um senhor nesta idade estar a pensar na criança que foi. Mas eu acho que o pai da pessoa que eu sou é essa criança que eu fui. Há o pai biológico, e a mãe biológica, mas eu diria que o pai espiritual do homem que sou é a criança que fui" (entrevista a Alexandra Lucas Coelho). Machado de Assis disse-o de outra maneira em Memórias Póstumas de Brás Cubas: "O menino é o pai do homem". A ideia da criança que é pai espiritual daquele que escreve está expressa no livro As Pequenas Memórias, começado anos e anos antes e que conheceria publicação em 2006. A epígrafe: "Deixa-te levar pela criança que foste".

Esse pai espiritual alimentou-se como pôde. Tarde e bem. Recupero as suas palavras (retiradas de uma entrevista que lhe fiz): "Os meus pais sacrificaram-se muito e deram-me estudos para ir para a universidade? Não, tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou."

Na casa podem ver-se os livros, os escritores, ou seja, a família em que ele também se fez pai de família de um, criança-escritor. Há uma gravura de Bartolomeu Cid dos Santos que representa Fernando Pessoa em criança, num triciclo, uma estranha imagem de Camões com os dois olhos e sem a pala, alinhados na vertical estão Tolstoi, James Joyce, Kafka, Proust, Lorca na parede em frente, Pessoa no traço oblíquo e definitivo de Júlio Pomar, Pessoa a contracenar com Cesário Verde e a paisagem, Pessoa omnipresente, Pessoa que o levou a todo o lado, até a Pilar. Não esquecer que O ano da morte de Ricardo Reis é o ano do começo com Pilar. "Nunca o tinha visto, foi tudo por telefone. Não era tanto para o conhecer, mas sim para lhe agradecer o prazer que me tinha proporcionado [a leitura de O ano da morte de Ricardo Reis]. Combinámos ver-nos, tomámos um café, fomos visitar a campa de Fernando Pessoa, eu vinha com o meu Livro do Desassossego, e pronto." Quando é que percebeu que a sua vida tinha mudado? "Quando nos encontrámos. No dia seguinte telefonou-me para pedir a minha morada. Na época tinha um meio-namorado, e quando cheguei a Espanha disse-lhe que já não o queria ver mais. Fiquei livre, sem relações, sem amante. Sabia que algo ia acontecer. E aconteceu. Uns meses depois, José chegou, sem que tivesse havido uma carta, uma comunicação, nada. Apareceu em Sevilha. Eu sabia que ia aparecer, mais tarde ou mais cedo." (Da minha entrevista a Pilar, em 2010.)

Pilar anda pela casa. Não mora nesta casa-museu, mas em Lisboa. Porém, demora-se temporadas em Tías, onde o tempo escorre mais devagar. Vive como pode a tragédia da perda, decidida a cumprir o desejo dele: continuá-lo. Às vezes exprime a zanga pela injustiça. A injustiça de José já não estar para ver a beleza. José já não estar para ver as bocas dos vulcões do parque nacional de Timanfaya, conhecidos como montanhas de fogo, e onde a terra arde mesmo, lá no fundo. É um território de tormenta onde se experimenta uma estranha tranquilidade. Como se andássemos debaixo de terra e isso não fosse claustrofóbico.

Pilar recorda-se do último passeio de José a este lugar que é Lua e Marte. Foi na primavera de 2008. Ele era um fio de voz e uma carga de ossos, demolido pela doença em tudo menos na vontade e na imaginação. Passeou por ali um pouco, não muito. Comentou que já não esperava ver aquela beleza de inferno arrefecido. Meses antes estivera à beira do precipício, não caiu ao poço porque Pilar o segurou pelas golas do casaco, outros o seguraram, os médicos, os amigos, a família, ele próprio. E agora estava ali, a ver, a dar o passeio, a pensar, a traduzir o mundo em palavras.

Mas agora é 2016 e Pilar guia-me sozinha pelo território saramaguiano. Ocorre-me a letra que Manuela de Freitas escreveu para a voz de Camané e que encerra o filme de Miguel Gonçalves Mendes. Chama-se "Já não estar" e declina esta certeza seca do escritor: "Não penso na morte. Ou melhor, todos pensamos na morte. A morte para mim não é tanto isso de morrer; é mais simples, e ao mesmo tempo mais duro. A pessoa estava e já não está – isso é que é o pior de tudo. [...] Daqui a duas ou três semanas, quando voltar a casa, posso chegar à varanda, olhar para o jardim e pensar: “Agora estou aqui, vejo os meus cães, a minha mulher e depois já cá não estou”. Mas é assim para todos, animais, vegetais. Tudo o que nasce morre."

A letra de Manuela de Freitas:

 

Se às vezes numa rua num lugar

Eu penso que um dia hei-de morrer

Sei que tudo o que tenho vou deixar

Aqui onde hoje estou deixo de estar

E tudo quanto sou deixo de ser

 

Medo da morte não consigo ter

Mas outros mais humanos e banais

Medos que a gente tem mesmo sem querer

Como o medo que eu tenho de morrer

 

Só por querer viver um pouco mais

Se consigo a meu modo estar no céu

Mesmo vivendo neste chão de inverno

Se apenas sou árvore que cresceu

No espaço e no tempo que é o meu

Para que havia eu de ser eterno

 

Mas como as minhas cinzas vão ficando

Debaixo de uma pedra de jardim

Meu amor tu sabes onde me encontrar

E uma flor sobre a pedra vais deixar

De cada vez que te lembrares de mim

De cada vez que te lembrares de mim

 

José Saramago já não está. Mas está em absoluto na obra, na casa, nos símbolos. Nas relações que são visíveis. Nos gostos e obsessões. Na firmeza, na coerência. Está em todos os compartimentos e está mais no escritório onde escreveu o Ensaio sobre a Cegueira, por exemplo, anos antes de a casa se expandir para o outro lado da rua e de ali ser construída a biblioteca (a que tem os milhares de livros e a oliveira à entrada), onde escreveu A Viagem do Elefante e Caim numa corrida pela vida mais do que contra o tempo. Uma corrida para satisfazer ainda o desejo de fazer, de se sentir vivo, adiar a derradeira partida de xadrez e dizer: espera, guarda a gadanha, tenho coisas para tratar, gozo para sentir, abraçar a minha mulher, ver pela última vez o lagarto verde que via na minha infância.

É nesse escritório de poucos metros quadrados que está o desenho onde mais está José Saramago: aquele em que o avô Jerónimo se abraça às árvores e chora e se despede e abraça o que ama. Escreveu n' As Pequenas Memórias: “Terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”.

O avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”, como ficou dito no discurso do Nobel. A avó Josefa: “Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. […] E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém” (escreveu numa carta em 1968). O avô Jerónimo e a avó Josefa: não esquecer os nomes, não esquecer o fundamento.

A visita à casa de Saramago termina na cozinha. De muitas maneiras, percebemos que estamos numa casa de portugueses. No serviço Vista Alegre, num bule para o chá que tem a forma de um ananás e que é de Bordalo Pinheiro, nos copos tradicionais da Marinha Grande, no café Delta que é oferecido aos visitantes. As flores continuam a ser mudadas todos os dias. Pastora trata da casa e da loja, um rapaz guapo rega o jardim, a veterinária e amiga Marga aparece para um café, Graça, a médica que passou o atestado de óbito de José, está ao alcance de um telefonema, Juanjo (o filho de Pilar) é uma das pessoas que fazem visitas guiadas à casa. Tudo gente amiga, raízes daquela árvore. No jardim aninham-se dois gatos. Os cães Camões e Greta também já partiram.

À cabeceira da mesa, virado para sul, sentava-se Saramago. Estão dois livros abertos nos Cadernos de Lanzarote, abertos como diários. Junto está uma miniatura da árvore-símbolo da casa, uma oliveira-símbolo de paz e sabedoria.

Desta oliveira vamos para a outra, a primeira de que comecei por falar, chegada em 2006, que cabia entre as pernas de José. Recebem-nos nesse espaço a oliveira e um elefante que podemos acariciar como se fosse um cão, de pequeno porte e aqueles olhos tristes e sumidos que os elefantes sempre têm. Cinco passos depois entra-se na casa feita de livros, a biblioteca. Ao lado, a loja, a mesa comprida onde se fazem reuniões, o apartamento no andar de cima onde ficavam as visitas, a ampla zona de refeições. Maria Kodama, a viúva de Borges, ficou ali, Susan Sontag preferiu hospedar-se no hotel de Arrecife. As conversas sobre o disparate irresistível que é o mundo foram ali. Tratando-se de Saramago, as conversas nunca são apenas sobre os livros, ou Deus, ou os direitos e deveres do homem, ou o comunismo. As conversas são como os livros: são o próprio mundo a contorcer-se, a tentar encontrar um sentido, um caminho.

Sempre chegamos aonde nos esperam: frase já batida e indissociável do elefante Salomão.

"Pilar, encontramo-nos noutro sítio", prometeu José, fitando a câmara, meio sorriso todo triste, no filme que os conta.

As suas cinzas estão sob uma oliveira centenária vinda da Azinhaga à frente da Casa dos Bicos, sede da Fundação, em Lisboa.

Tudo levantado do mesmo chão.  

 

 

Guia:

Para voar até Lanzarote, o melhor é apanhar um voo da Binter, uma low-cost que liga Lisboa a Las Palmas e Las Palmas a Lanzarote duas vezes por semana, à quinta e ao domingo. Não há voos directos a partir de Portugal, é preciso sempre fazer escala em Las Palmas. De Las Palmas a Lanzarote são nem três quartos de hora de voo, e os insulares usam o avião como quem usa o comboio ou o autocarro. Comprado com alguma antecedência, não é caro; ou seja, pode custar, ida e volta, cerca de 200 euros.

Lanzarote é a mais oriental das sete ilhas das Canárias. Tías, onde fica a casa de Saramago, está entre Arrecife e Puerto del Carmen. São uns 15 minutos, no máximo, entre o aeroporto (em Arrecife) e a casa. Tudo é pequeno. As visitas são entre as 10 da manhã e as 14.30. Fazem-se em várias línguas e há áudio-guias. Todos os dias, excepto domingo.

Convém alugar um carro. Não só para este percurso como para as excursões ao Parque Nacional de Timanfaya. É indispensável fazer o roteiro do artista plástico César Manrique: além da casa-museu, há que visitar os Jameos del Agua, o Jardim dos Cactos, o miradouro do rio, ver as esculturas movidas a vento que estão dispersas pela ilha.

As estradas são boas. Come-se um peixe delicioso, batatas cozidas com pele gretada pelo sal, um estufado de grão que alimentou gerações e gerações de espanhóis. Preços módicos.

Conte com bom tempo e vento vento vento. O corta-vento tem de andar sempre na carteira.

 

 

Publicado originalmente no Público em Junho de 2016

 

 

Ana Luísa Amaral

13.06.18

Publicou o primeiro livro com 33 anos. Minha Senhora de Quê. “Não estou nada arrependida de não ter publicado aos 18, 19 anos, coisa muito comum”. Tem 55 anos, acaba de publicar dois livros. Próspero Morreu, uma peça de teatro em verso e o livro de poesia Vozes. Ana Luísa Amaral é uma poeta que pode dizer ao mesmo tempo: “Não quero mudar de país. Portugal precisa das pessoas aqui, para tentarmos resistir. (Não incomoda o cigarro?)”; e no instante a seguir falar de cebolas e de Emily Dickinson.

Marcou encontro no Círculo Universitário do Porto. Palácio belíssimo na rua do Campo Alegre, a dois passos da casa que foi a da infância de Sophia. O Círculo tem um jardim e um espaço que deve ter sido uma estufa e onde agora se almoça. Cá dentro, além das madeiras e dos móveis de bom gosto, pode-se fumar. Fuma muito. Como denota a voz espessa que tem. Pelo meio acabou-se a pilha, e ela ocupou esse interregno para saber se a filha, em viagem, estava bem. A filha é constante no discurso e também aparece na poesia. 

Ana Luísa Amaral é professora associada no departamento de estudos anglo-americanos da Faculdade de Letras do Porto. Tem um doutoramento em Emily Dickinson. As suas áreas de interesse são a literatura inglesa e norte-americana, a literatura comparada e os estudos feministas. Traduziu diversos poetas. É autora de vários livros de poesia e infantis.

 

Na autobiografia curtíssima do livro Vozes fala de beijos e cebolas. Assim de repente, parece uma combinação esdrúxula.

Pois. Posso pensar? Não é uma pergunta simples. Sempre achei que o texto tem a ver com a vida. O que existe é uma espécie de deflexão. Como com um lápis dentro de água: não é reflectido, é deflectido. O que fica da vida, do mundo, é um rasto. Mas esse traço está lá mais ou menos fingido. A mão que escreve tem um braço, esse braço tem um corpo, esse corpo pertence a alguém. Esse alguém vive, ama, odeia, tem sentimentos, e é do seu tempo. Desse poema, não posso escamotear a minha própria vida. Estou a arranjar uma maneira inteligente de evitar entrar pela minha vida, falando de beijos e cebolas… 

 

Já no primeiro livro fala de cebolas.

“… armários e cebolas perturbantes” – é a imagem. [Diz o poema de cor] Sei quase todos os meus poemas de cor. Decoro os meus e os dos outros, não sei bem como. Em contrapartida não sei números.

 

Porque é que tem dificuldade em falar dos beijos e das cebolas?

Porque os beijos são reais, e encaminham-me para uma dimensão pessoal, de relação amorosa, de que não queria falar. Que não interessa muito, ou não interessa nada.

 

As cebolas: são as várias camadas?

Sim. As várias camadas de que o mundo é feito, as várias camadas de que uma pessoa se compõe, os diferentes sentidos de que um poema se pode revestir.

Esse poema elabora sobre esta ideia: quanto menos vida mais poesia. “Ah, quando eu escrevia de beijos que não tinha, e cebolas em quase perfeição!”. 

 

Mais adiante, diz: “… se não fossem os beijos que não tinha, não havia poema”. O que quer dizer que sem vida, não há poema.

Pode querer dizer, também, que com muita vida amorosa não há poema. 

 

Em felicidade amorosa não se produz, é isso?

É. Creio que é o Maiakovski que diz que a literatura e a felicidade não se coadunam. Quando se está num estado de paixão assolapada, devastadora, a poesia surge como um excesso, uma excrescência. Não é talvez tão necessária. Acho que a poesia preenche falhas. Não significa que escreva em profunda tristeza, angústia, desânimo.

 

Alguns poemas são profundamente tristes.

Alguns. Outros, profundamente irónicos. Outros, eufóricos. Essa relação entre poema e vida realmente faz-se, mas em certa medida a poesia pode funcionar como um substituto para a vida. Embora isto pareça uma contradição em termos – se a pessoa estiver morta, não escreve. Mas pode funcionar como um catalisador.

 

Indo às cebolas: foi educada para ser uma menina bem comportada? As cebolas remetem-nos para a cozinha, para o universo feminino. A pessoa com quem estou a falar é uma feminista.

Sou filha única e fui educada para cumprir determinadas expectativas. Uma das coisas que mais chocaram o meu pai foi a caderneta do colégio de freiras, que dizia: “A menina é inteligente, mas muito indisciplinada”. O meu pai queria que eu fosse engenheira química. Letras, jamais! A minha vida – posso começar por aí? Nasci em Lisboa. Vivi até aos nove anos em Sintra. Gosto desse pormenor da minha vida: Sintra não é tão central quanto Lisboa. Vivia num prédio onde, de manhã, na sala, se via o nevoeiro a levantar. Pequenos pormenores: o meu pai, de braços abertos, na varanda, eu a dizer: “Voa, voa”, e o meu pai: “Não, parece que hoje não”. Eu acreditava que ele podia voar. Fui sempre crédula.

Aos nove anos mudámo-nos, não para o Porto, mas para Leça da Palmeira.

 

Mais uma vez, para uma localidade que não é o grande centro.

Mudámo-nos com os meus avós e padrinhos, com quase 80 anos.

Em 1965, fazer Porto-Lisboa demorava oito horas. O meu pai conhecia pessoas que faziam a viagem em dois dias, que pernoitavam em Coimbra. Mudei a meio da quarta classe. Era a lisboeta. Não me senti menorizada, senti-me não amada. Os jogos eram diferentes.

Mas tinha com o meu pai todas as conversas. Ainda hoje me faz uma falta imensa. Falávamos sobre o universo, sobre música, sobre filosofia. O meu pai era o meu grande companheiro.

 

O que é que ele fazia?

Era gerente de uma firma. O que fazia não tinha nada a ver com a pessoa que ele era. Não gosto de usar a palavra falhado, porque a acho triste, e porque ele não o era; mas o meu pai tinha um dom, o do piano. A minha avó tocava piano, o meu pai tocava piano. Não sei tocar uma nota. O meu pai era muito mais permissivo do que a minha mãe. Embora tenha ficado zangado com o “indisciplinado”. A minha mãe é que disciplinava.

Fui seguindo o meu pai. Que era um homem conservador. Um conservador que me ensinou valores de solidariedade que eu, que sou de esquerda, muitas vezes não encontro em pessoas que se dizem de esquerda (e que têm gestos que contrariam a ideologia que dizem professar). Era uma pessoa contraditória. Gosto da contradição. Nunca vi no meu pai jactância pelo facto de ser conservador. Nunca disse: “Eu sou melhor”. 

 

Jactância era uma palavra que o seu pai usaria?

Era. É uma palavra estranha, mas que dá jeito. Nunca pensei nisso, nas palavras que ele usaria, engraçado…

 

Estou no fundo a perguntar da relação dele com as palavras. Das palavras que ele escolhia para traduzir o que via e vivia.

As palavras tinham muita importância para ele. Nunca me chamou outra coisa que não “minha querida filha”. A minha relação com as palavras faz-se muito cedo. A minha mãe ensinou-me, enquanto cozinhava, poemas. Entrei numa escola privada, mista, aos quatro anos. A minha mãe conta que eu olhava para as imagens e dizia os nomes das coisas; fingia que sabia ler. Olhava e via o desenho de uma pata de um animal, dizia “pata”. Uma vez enganei-me. Vi uma pipa e disse “barril”. Aconteceu no dia em que foi à escola um inspector e a professora queria mostrar este portento que já sabia ler… [riso] Lembro-me muito bem de a minha mãe dizer ao telefone: “Não se preocupe, que eu vou fazer o impossível”. Fazer o impossível? Coisa extraordinária. Ou de usar palavras como “outrora”. A minha mãe conta que eu dizia: “Está a chegar, está a chegar… Escreve, mamã”. 

 

A chegar a inspiração? Como quem recebe a visita da musa.

A minha mãe anotava. “Chegou o Outono. As folhas que outrora foram verdes…”. Tinha acabado de aprender a palavra outrora.

 

Quem é que lhe incutia a impressão de que aquilo tinha importância?

O meu pai sempre me dissuadiu de escrever poesia. Gostava de biografia. Ou História. Ou livros científicos. Não lia romances, não lia poesia. A minha mãe dizia-me poemas. A minha tia, Manuela Amaral, escrevia poesia. Quando aparecia, trazia coisas diferentes. Livros, jogos, roupa diferente. Tinha feito os Alpes de motorizada. Era considerada excêntrica.

 

Atravessa a sua poesia um veio nostálgico. Como se houvesse um outrora que foi um tempo de felicidade, um tempo onde tudo estava intacto, e a que só assistimos através da sua memória reconstitutiva. Muito do seu trabalho poético é feito sobre a memória.

É verdade. Foi uma coisa que passou a acontecer a partir de determinados livros. Deve ter a ver com a idade. Não sei se os primeiros têm isso… E talvez sim. Estou a pensar em poemas como Passado, sobre a escola. Sintra tem no meu imaginário um poder quase mágico. Que se liga às próprias histórias da minha mãe (que não queria vir para o norte). Recordo-me do espaço que era dado às mulheres. A minha mãe ia à pastelaria com as amigas, passeava. No norte não tinha amigas, e Leça tinha um único café, frequentado por homens.

 

O mar de Leça é agreste. O mar do sul é mais suave.

O caminho que conduz à Praia das Maçãs é a minha infância. As férias grandes eram três meses, e ia de eléctrico todas as manhãs com a minha mãe, uma amiga, a filha dela. Tenho um poema que fala de uma doçura que não existe no norte: “Era de noite, a chuva sem doçura…”. É a chegada a outro rio, ao Douro, ao norte.

 

Alguma vez ficou uma pessoa agreste?

Acho que não. Detesto que mandem em mim, detesto. E detesto mandar nos outros.

 

Essa natureza indómita, que a faz detestar que mandem em si, vem de onde?

Acho que é o meu lado indisciplinado. Esse lado de que as freiras se queixavam, que pratico de modo pouco visível.

Tenho muito medo da montanha russa. Andei uma vez nos EUA e fui ao engano, com a minha filha. Mas adoro filmes de terror. É algo abertamente menos perigoso do que a montanha russa. É como a subversão, que é, para mim, mais interessante do que a transgressão. Trabalhei sobre esses conceitos quando escrevi a minha tese de doutoramento sobre Emily Dickinson. No meu tempo, os doutoramentos eram relações de sete anos. Um casamento.

 

Há a crise dos sete anos, nos casamentos, nas relações, que Billy Wilder filmou em O Pecado Mora ao Lado. Não foi o seu caso com Dickinson.

Há o poema: “Sete anos de pastor/Jacob servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela, mas não servia o pai, servia-a a ela”. Ao fim dos sete anos… Isto era por causa do quê? Ah, o doutoramento. Continuo profundamente fascinada com Dickinson. As suas indisciplinas, e são muitas, não são feitas via transgressão. Não rompe, não fractura abertamente. Subverte. A subversão é construir uma versão sob a versão existente e fazer com que essa versão existente se esboroe. É a implosão, é a explosão dentro. Essa ideia de corrosão faz-se sentido. Depois, há um lado no qual não reparo muito, mas para que as pessoas à minha volta me chamam a atenção, e que interpreto como distracção. Uma falta de atenção a pormenores que passam pela aparência. Não sei se isto se interessa…

 

Estamos nas camadas da cebola. Nem todas importam da mesma maneira. Falou de Dickinson como quem fala de uma pessoa que se encontra e que muda a nossa vida.

Ah, sim, sim. O meu pai considerava românicas um curso subversivo. Se não era possível a engenharia química, que estudasse germânicas.  

 

Que estudasse alguma coisa relacionada com o poder? Germânicas correspondia a isso na cabeça de um homem conservador como o seu pai?

Pois. Obedeci ao meu pai, de alguma forma. Estudei apenas inglês nos três primeiros anos, depois apanhei uma reforma do Sottomayor Cardia. Se não tivesse estudado essa variante, que escolhi sem querer, não teria encontrado Emily Dickinson. Acabei o curso e comecei a dar aulas na faculdade. Romantismo inglês, poesia inglesa contemporânea. Entretanto fiz provas – o equivalente ao mestrado – em King Lear. Acho Shakespeare talvez o maior génio da literatura. Quem me orientou foi a Maria Irene Ramalho, da Universidade de Coimbra, que muito admiro. Foi ela que um dia me disse, de uma forma aparentemente inócua: “Conhece?”. Como quem: “Conhece esta pessoa?”. E deu-me um livro de Emily Dickinson. O meu projecto inicial era fazer uma tese sobre Sylvia Plath, Anne Sexton, Elizabeth Jennings. Confesso que me foi difícil aderir. Mas depois li um poema que dizia assim: “Quando sob uma dor titânica, as feições ficam no seu lugar”.

 

Porque é que a deslumbrou?

Joga com as questões do ser e do parecer. A minha filha era pequenina , estava sozinha na sala, à noite, e lembro-me de ter sido uma coisa epifânica. Como se se tivesse desterrado uma cortina e eu tivesse visto para lá daquilo. Comecei a entender os poemas, a sentir uma grande, grande afinidade com aquela pessoa.

 

Fale mais dessa dor… tectónica?

Titânica.

 

Uma dor titânica pode ser uma falha tectónica.

Podia bem ser tectónica. A questão dos vulcões, dos tremores internos, muito mais do que externos… Os nossos temas de doutoramento, o que escolhemos para trabalhar, diz muito de quem somos. Falámos há pouco de subversão. O subterrâneo é fundamental na poesia de Dickinson.

 

Esse encontro, com uma poetisa, foi um cataclismo em relação à pessoa que era? Claro que isso acaba por ter uma tradução na poesia que escreve…

Em relação à pessoa Ana Luísa Amaral? Sim, absolutamente. O que é que muda em mim? Acho que me descobri, me revelei a mim mesma. Dickinson obrigou-me a pensar e a percepcionar-me de uma outra forma. Quando lhe falei de um momento epifânico, não o tive só em relação à poesia. Tive-o em relação ao que estava por detrás dos poemas, e que eu mal conhecia. Não sabemos muito dela. Sabemos pelas cartas. Mas as cartas são poesia, tudo se cruza, enfim. A subversão começou a assumir uma importância cada vez maior em mim.

 

O que é que pode ser um gesto subversivo?

Um polícia nunca diz a um motorista que estaciona mal: “O senhor subverteu”. É uma transgressão automobilística. Subverter seria estacionar num lugar onde fosse permitido, mas depois… pôr uma bomba. Os rastilhos e as bombas podem estar sob a aparência menos ameaçadora. Os vulcões de Dickinson não são vulcões a explodir. São vulcões que estão sempre num estado latente de ameaça. Isso é algo que me leva para outro caminho, e depois disso nunca mais fui a mesma.

Ao mesmo tempo, começo uma outra área: a dos estudos feministas. Outra revelação. O que eu não queria: ser uma menina bem comportada.

 

A transgressão é mais fácil do que a subversão. Mas primeiro é preciso identificar contra o que quer transgredir. Pode identificar a raiz do mal estar? Aquilo com que não lidava bem.

Mas continuo a não lidar bem. Tenho 55 anos. Não me considero infeliz, não é isso. Mas não me considero uma pessoa em bem estar. Não sei se a palavra sobressalto se me aplica… Mas quem é que pode estar em bem estar? Vemos à nossa volta tudo a tombar, a desabar. Fui sempre muito insatisfeita, sobressaltada. Não sou deprimida, nunca fui.

 

A poesia deu-lhe uma iluminação para essas zonas de angústia?

Talvez. E uma forma diferente de ver o mundo. Quando passei a identificar determinados pontos críticos onde o poder se exercia – estou a pensar nas mulheres – não lhe posso dizer que passei a ser mais feliz. Passei a ser ainda mais angustiada. Mas pelo menos mais lúcida. Isso é muito importante.

 

Aprende-se tudo nos livros?

“Não me chega o saber de experiência feito, e o outro, o dos livros, sobra-me.” Um livro pode ser… Creio que era o Napoleão que dizia: “Tenho mais medo de um jornal do que de cem baionetas”. Um livro pode levar-nos a sítios desconhecidos e pode ser uma bomba. Pode ser um rastilho para as coisas certas e estáveis do mundo.

 

Há um rastilho que tem um efeito detonador, para a maior parte das pessoas, mais poderoso do que o dos livros: o amor. Num dos poemas cita em epígrafe Bocage: “… que assim desarranjaste a minha vida”.

A ideia de desarranjo está em todos os meus livros. 

 

Desarranjo, caos, imperfeição. Palavras constantes. Imperfeição está também no poema autobiográfico do Vozes.

O desarranjo pode ser a força motriz. Essa espécie de revolta por dentro, essa rebeldia… O desafiar. O recusar o dominante. Dickinson e o feminismo deram-me isso. Quando falo de feminismo, não falo de homens contra mulheres, não digo que os homens são uns algozes e as mulheres umas desgraçadas. Não tem nada a ver com isto. É uma questão de direitos humanos. Não há nenhuma razão científica ou de bom senso pela qual um ser humano deva ser discriminado pelo facto de ter nascido com uma determinada configuração anatómica. Que a discriminação existe, existe. Estas problemáticas levaram-me a outras e foram-me radicalizando. Se fizer uma retrospectiva, percebo que estou cada vez mais radical. Mais intolerante. Mais impaciente.

 

Porquê essa rebeldia e radicalização? Normalmente essa incapacidade para condescender corresponde aos verdes anos.

É verdade. Depois a gente aburguesa-se. Comigo foi ao contrário. Porque tudo me chegou um pouco tarde. Mesmo a minha rebeldia política. Chegou-me quando os meus colegas de faculdade estavam mais calmos.

 

Quando é que passou a ser de esquerda?

Começo a ter simpatias pela UDP no meu quarto ano de faculdade, em 1978. Escrevi um poema péssimo então, que nunca publiquei: “Sacrifique-se a vida ou mate-se um burguês”. De um primarismo atroz! [riso] No 25 de Abril não fui extremamente activa e empenhada.

 

Há nos poemas alusão a criaturas mitológicas e a animais. Harpias, dragões, panteras.

Gosto de tigres. Gosto mais dos tigres do que dos leões. Os leões são criaturas mais sérias. Pertencem à categoria dominante. O tigre é mais selvagem, está em extinção. Sou uma pescadora, adoro pescar. Pescava trutas enormes quando vivia nos Estados Unidos. Há um poema lindo da Elizabeth Bishop que se chama The Fish. Uma vez apanhei uma insolação porque estava à espera de uma truta. A minha filha, pequenina, dizia: “Ó mãe, vamos embora”. Quase morri,

 

Em alguns poemas fala da sua filha. É praticamente a única pessoa concreta que traz para os seus poemas.

Há um poema sobre o meu pai, Que escada de Jacob, que escrevi depois da morte dele. Depois da morte dele. 

 

No poema Testamento diz que, se morrer, quer que a sua filha se lembre de si.

Que não se esqueça de mim. Esse poema acaba a falar de batatas íntegras. Não há batatas íntegras, há pessoas íntegras. Há dois conceitos que vemos desbaratados ou espezinhados: a integridade e a bondade. A palavra bondade é uma palavra que já não se usa. Parece que é uma palavra antiga, demodé. Fala-se de pessoas muito inteligentes, valoriza-se a inteligência. Mas uma pessoa boa é rara. A bondade é também a solidariedade para com o outro. É a “com-paixão”. É a simpatia no sentido “sentir com”. Dos nossos políticos, está muito arredada. A integridade também parece um valor esquecido.

 

Como é que faz a justaposição das batatas e de um valor como a integridade?

“… as batatas no saco esquecidas e íntegras”. No resto do poema escrevo: “… em vez de lhe ensinarem contas de somar e a descascar batatas”. E as horas, “o horário certo”. Trata-se de uma filha, e não de um filho. Ou seja, estamos a falar de papéis.

 

Está a falar de competência para a vida? Competência de género (a que sabe descascar batatas) e competência social (a que cumpre as horas).

Dessas duas competências. Em vez dessas duas competências, tentei passar à minha filha a importância do íntegro. A minha filha aparece na minha poesia porque é a pessoa mais importante da minha vida.

Eu não ia falar da relação mãe-filha. Pode haver homens tão ou mais cuidadores do que as mulheres, e quando um juiz dá a custódia de uma criança a uma mãe partindo do princípio de que ela é uma melhor cuidadora do que o pai, isto significa um peso social enorme, para um homem como para uma mulher. A relação com os filhos é uma relação para a vida.

Mas nem tudo o que está nos poemas é verdade. Num poema digo que a minha filha partiu uma tigela na cozinha, e ela nunca partiu uma tigela na cozinha. E cumpria horários certos, não jantava uma vez às seis da tarde e outra à meia-noite.

 

Que palavras é que a sua filha apontaria como sendo as suas palavras nucleares? Assim como lhe perguntei se jactância seria uma palavra do seu pai.

Quer lhe que telefone a perguntar? [riso] Indignação, talvez. Inquietação, outra. E espero que amor.

 

E cebolas?

Ah, eu adoro cozinhar. Há agora uns refogados que se compram feitos. Sim, sim, a cebola picada que se despeja para a panela, e já está o estrugido – como se diz no norte – feito. Um disparate.

 

A cozinha não apouca as mulheres, como diziam algumas feministas?

Ah, não!, credo. A cozinha apoucava-as porque significava o espaço doméstico e a exclusão de outros espaços, do espaço público, do espaço político. O que apoucava as mulheres não era serem chefes de cozinha (normalmente, esses eram os homens); era serem as que proviam o bem estar da família através do cozinhado.

 

O seu pai gostaria desta mulher em que se transformou? Sendo ele um conservador e tendo-a educado para outro destino.

Acho que sim, acho que teria muito orgulho. Discutíamos brutalmente. Não podíamos falar de política. Em relação à política, era irredutível. E em relação às minhas posições políticas tenho a certeza que se distanciaria, e criticava-as. Mas depois, no essencial… O essencial são as pessoas. Sabe o que acho? Este tempo que vivemos, é tão curto… E não temos outro sítio para onde ir, só temos este planeta. Porque não tentar viver o melhor possível? O que conta, de facto, são os laços que nos aproximam. Se soubéssemos cuidar da nossa espécie já era bem bom. Faz-me impressão a ambição desmedida, o querer possuir muita coisa. Outra palavra que a minha filha me ouve dizer muitas vezes: impunidade. Como é possível? A violência é uma coisa contra a qual me revolto. E já não subverto, mas transgrido. Devemos falar, falar sem medo.

 

O livro Próspero Morreu não tem nem um mês. O seu fascínio pel’ A Tempestade de Shakespeare fê-la, por exemplo, escrever um livro infantil que parte da peça.

Próspero já estava noutros poemas, e Caliban [personagens d’ A Tempestade]. É uma peça de teatro em verso em que estava a trabalhar há anos. Já foi feita uma leitura encenada. Era para ser o Paulo Eduardo Carvalho – outra pessoa que estruturou a minha vida, uma perda – [a fazê-la]. A Tempestade é para mim a peça mais poética de Shakespeare. As figuras de Próspero e Caliban vão ser usadas para interpretar as relações de poder que estruturam o chamado mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido. Boaventura de Sousa Santos faz isso. Próspero é o colonizador, Caliban é o colonizado; é dissimulado, mas a sua subserviência é uma estratégia para a sobrevivência.

No meu texto, há personagens que não são d’ A Tempestade. Penélope e Ariadne. Bárbara, a Escrava, e Camões, e Teseu. Ariadne tem de casar com Teseu, mas a grande paixão dela é Caliban.

 

Lê-se na contracapa: “Mas sabe, minha filha do risco que é amar (…) E a vida é o assombro que assombra e amedronta”. 

Há um outro verso de que gosto: “Sem liberdade, é o poder um monstro de braços bifurcados, onde se aloja lei sem pensamento e se torna viscoso o coração”. Portanto, é também uma peça sobre como podem liberdade e amor conviver. 

 

Quis ser mais Ulisses do que Penélope?

Jamais. Porquê?

 

Porque Ulisses é o que empreende a viagem. E Penélope fica a fazer e refazer a sua teia, à espera.

Mas Penélope escolheu isso. Esperar e fazer a teia é a sua opção. A possibilidade de escolha nunca pode ser uma coisa negativa. A liberdade não pode nunca ser uma coisa negativa. O que me assusta é um discurso que privilegia a escolha e uma prática que a desmente e onde impera o medo, o receio. O discurso da cautela faz-me impressão. Não sei ser cautelosa. Não sei ter cuidado com o que se deve dizer. Mas se não me sei defender muito bem, ainda bem. As pessoas que se sabem defender muito…

 

As das horas certas de que fala no seu verso.

Exactamente. São pessoas que não arriscam. E é sempre um risco tudo aquilo que fazemos.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011