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Anabela Mota Ribeiro

À volta dos livros: Flip, Feira do Livro do Porto, Saramago

17.07.18
Este ano vou estar novamente na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, a moderar uma conversa entre a sensacional Leila Slimani e o André Aciman, autor do livro (tão delicado quanto o filme) "Call me by your name". Também no programa oficial, vou falar com a escritora russa Liudmila Petruchevskáia, nascida em 1938, que estou a ler com assombro. Todos estes autores estão publicados em Portugal. Obrigada à curadora da Flip, Josélia Aguiar, pela renovada confiança em mim e convite para mediar estas duas mesas. 
Paralelamente vou estar na casa da Sesi - SP Editora, falando das Mulheres em Machado de Assis com o José Luiz Passos, estudioso de Machado, professor da Universidade da Califórnia (UCLA). 

E vou dar autógrafos dos meus livros "Paula Rego por Paula Rego" (Temas e Debates) e "A Flor Amarela - Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis" (Quetzal) na livraria da Travessa de Paraty, depois da sessão com a Leila e o Aciman. 

Em Setembro, estarei no Porto, na Feira do Livro de que sou curadora com o José Eduardo Agualusa. Divulgaremos a programação em breve. É de 7 a 23, o autor homenageado é José Mário Branco.

Em Outubro, entre as iniciativas previstas para celebrar os 20 anos da atribuição do Nobel ao escritor português, está a publicação de um livro meu, "Por Saramago", com entrevistas a José e a Pilar e outros textos. À semelhança de "Paula Rego por Paula Rego", com o qual este livro tem afinidades formais, tem a chancela da Temas e Debates, e dezenas de fotografias da Estelle Valente (uma beleza!). Obrigada a tantos por ajudarem a que isto seja possível, em especial à Pilar, à editora Guilhermina Gomes, à Paula Barreiros, à Fundação José Saramago. 

 

Millôr Fernandes

16.07.18

Tudo se passou em três semanas de Agosto. Primeira dificuldade: encontrar o número certo para falar com Millôr Fernandes. Passo seguinte: deixar recados no gravador ao longo de dez dias. Diários. Sem resposta. O gravador atendia assim: “Fale ou fax”. Num tom de sentença. Numa voz de velho irado. Uma vez atendeu. Que maluca era eu que lhe entupia o gravador com um pedido de entrevista que ele iria recusar? Iria oferecer-me um cafezinho, e era tudo. Decidi ser assertiva: “Vai dar-me a entrevista, sim!” E Millôr obedeceu: “Adoro mulheres autoritárias, se chegar muito perto peço você em casamento…”. Após o que nos escangalhámos a rir, que era a única coisa a fazer. Houve ainda aquela angústia do guarda-redes antes do penalty, sentada na entrada, ao lado do segurança, e o Millôr atrasado, atrasado quase uma hora. Finalmente chegou: “Ah, você veio mesmo?”

Ele manda e-mails nos quais assina: O Millôr. Porque o O é um personagem. Millôr é uma daquelas figuras que só poderiam ter nascido no Rio de Janeiro. Cartoonista, caricaturista, humorista, escritor, dramaturgo, jornalista, tradutor, director de revistas míticas da história brasileira do século XX. Autor de frases famosas.

“A verdade é que na vida nos dão muito enredo e muito pouco tempo”. A vida dele tem enredo para uma telenovela de cinco mil novecentos e quarenta e oito capítulos, pelo menos. Porque, além do que acima se disse, foi um amoroso. Queria ter sido atleta. Não quis ser atleta sexual. Mas da fama não se livra. Deu-se com toda a gente, pertence a uma geração mítica de sul-americanos que viveram muito intensamente.

Já escreveu o seu epitáfio: “não contem mais comigo”!

 

 

Ouvi dizer que chegava ao Pasquim e vangloriava-se de ter comido cinco mil. Confirme ou desminta.

O termo vangloriar é inexacto. Tinha dado cinco mil trepadas. E não estou me vangloriando, não. O homem casa, come aquela mulherzinha dele, e depois não está mais nem aí. Sempre fui uma pessoa, sob este aspecto, livre. Nessa altura, [do Pasquim], tinha apenas 30 anos de sexo. Se botar uma incidência sexual de três vezes por semana, que não é nada de extraordinário – quando tem 15, 18, 20, 30 anos às vezes faz isso numa noite – se fizer três em 30 anos, no fim de um ano tem 150, no fim de dez anos tem 1500, no fim de 30 anos tem cinco mil.

 

Pensei que se vangloriava de ter comido cinco mil mulheres.

Imagina!, imagina. As pessoas assumem as coisas pelo lado vulgar. Não estou interessado, nem nunca estive, em ser atleta sexual. O meu interesse foi sempre, e consegui isso inúmeras vezes, comer a alma da mulher.

 

Comer a alma da mulher…

Um homem com algum dinheiro: se quiser uma mulher de 20 anos, olho azul, paga duzentos, e ela está aqui, às sete horas da noite. Resolve o problema de alguém? O problema anímico, o problema maior, não. Passaram pela minha vida mulheres extraordinárias, e não foram cinco mil.

 

Isto, no fundo, é um intróito, um preliminar...

Então esquece, apaga! [risos]

 

O sexo, na escrita ou sob a forma de caricatura, surge como linha principal daquilo que faz. O que me interessa é saber o que é tem de irresistível para comer tanta mulher. E porque é que o sexo é a linha principal.

A linha principal, não. Não sei qual é a linha principal. Uma das linhas principais, tenho a palavra exacta em inglês, é contempt [desprezo]. Eu não sou conquistador, mas não sou mesmo. Ou por outra, sou conquistador quando, estando diante de uma mulher, se me sinto atraído, sem querer faço gracinha, sem querer sou interessante. O Vinicius de Moraes?, o Vinícius é um amador! Quem quer casar, tem cem mulheres! Para mulher, “casar” é uma palavra mágica, até hoje. Não me lembro de ter falado em casamento com nenhuma mulher.

 

É casado.

O primeiro casamento da minha vida, eu preservei: me livrou de todos os outros!

 

Porque é que casou?

Eu era muito jovem, fazia parte da prática. As mulheres com quem tive coisas intensas são minhas amigas, a vida inteira.

 

Amigas é um eufemismo para dizer “lovers”? Amantes.

Amantes durante um certo período, sem nenhuma promessa de fixação, de casamento. Chega um momento em que uma pessoa se cansa, naturalmente; porque aparece um mais curioso, um mais bonito. Sofre. Mas uma pessoa como eu acha que isso faz parte do jogo.

 

Sofrer por amor? Cansar-se do outro?

Sofrer por amor só existe quando a pessoa, de uma forma ou de outra, é afastada, é abandonada. Agora cansar-se do outro, meu Deus do céu, é universal! Não há hipótese! Eu tenho uma frase que é muito aplicada a isso: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!” O casamento é isso. Como é que um casal, duas pessoas, se sustentam vivendo num quarto e sala conjugado? No fim de um mês, um quer matar o outro! Evidente.

 

Não há relações sem esse enfastiamento? Felizes.

Quando entra o valor do espírito. Quando tem um outro tipo de relação em que o sexo passa a ser uma coisa ocasional – porque um homem sofre de problemas hidráulico-mecânicos. [risos] Mas aquela mulher se estiolou, se exauriu para ele.

 

Iniciou-se aos 15 anos. Como é que um rapaz do subúrbio, há 70 anos, se iniciava sexualmente?

Eu sou do Meyer. Vivi lá até aos 12 anos. Com 15, já vivia na cidade [Rio], em pensão. A relação sexual: ou começava com uma pessoa muito inferior, que eram as empregadas domésticas, ou na prostituição.

 

Vamos lá à história da sua vida…

Se você quiser eu mudo!

 

Inventa já outra biografia?

Uma outra...

 

Você mente?

Não. Meu pai era espanhol, minha mãe era de família italiana. Eu podia ter nascido em Madrid, em Nápoles, e meus avós vieram trepar aqui, para que eu nascesse aqui. O meu pai veio muito moço da Espanha, com 24 ou 25 anos, era formado em engenharia – não que fosse engenheiro, mas quando chegou tinha um aparato intelectual maior do que o dos nativos. Ele devia ser muito malandro... Sabe o que é malandro?

 

Dê-me a sua definição de malandro.

O malandro antigo era o vagabundo que andava com navalhas. O malandro é aquela pessoa que percebe a realidade do mundo, que dá um jeitinho nas coisas. Meu pai, com esse aparato…, nós éramos de classe média por causa dele. A nossa casa no Meyer era muito boa, com um belo terreno; devia ter sete, oito metros de frente por vinte de fundo, quatro quartos enormes. Tenho muitas fotografias do meu pai – tinha, na gaveta; ele próprio se fotografava. Com uma farda bonita, branca.

 

O seu pai era garboso?

Era. Quando morreu, aos 36 anos, descemos para o proletariado. Na família, se fala que foi envenenado. Encontraram o cofre da firma comercial aberto, tinham roubado coisas. Mas essas lendas de família, sabe como é que se formam... Por outro lado, dizem que teria morrido com uma intoxicação alimentar, que naquela época era coisa séria. Eu tinha um ano, ou não tinha nem um ano.

 

A imagem do seu pai foi-lhe passada pela sua mãe, pelos familiares?

Não tenho essas recordações ou relatos romanescos. Não tinha ninguém proustiano na minha casa! Minha mãe tinha 27 anos, quatro filhos; que educação é que ela tinha? Nenhuma. Então, começou a costurar para fora e alugou metade da casa a uma irmã. Com isso, nos sustentava. Essa irmã trouxe minhas primas, com quem muito cedo entendi que prima não é irmã! Já começa... Aquelas experiências vagas, mas já começa!

 

A sua mãe morreu muito cedo, também. Tinha 36 anos.

Por exorcismo, não se falava da doença. “Deu uma coisa, deu um tumor nela...”. Possivelmente teria sido câncer.

 

Quem é que se ocupou das crianças?

Minha irmã casou, foi viver a vida dela, e levou a [irmã] menor. Eu, eu comecei a trabalhar na imprensa com 13 anos. Curiosamente isso está registado na minha carteira de trabalho. Era um menino louco, eu era louco...

 

É surpreendente que não tenha querido saber exactamente de que morreram os seus pais.

Acho que as pessoas morrem. Depois disso, fui morar com um tio num subúrbio bem mais distante. Era um tio pobre, também. Evidentemente, eu comia mal… Fui para o cemitério, não chorei. Voltei para casa, depois do enterro, entrei em baixo de uma cama, numa esteira; lembro que era fim de semana, normalmente se lavava a casa, o chão estava húmido. Ali, comecei a chorar. Mas feito um desesperado. E sentindo a injustiça do mundo. Dizia “Que Deus… Sem mãe, sem pai, não tenho nada”. Senti uma coisa que designei de a paz da descrença.

 

Habituou-se a não desejar nada? A não esperar nada, senão aquilo que ia conquistando?

Nunca pensei o que é que ia ser quando crescesse. Nunca pensei qual seria a minha profissão. Quando vi, estava trabalhando nos jornais. Já é uma fortuna extraordinária fazer aquilo que gosto de fazer. Cada vez mais me convidam para fazer uns negócios, e eu faço.

 

Gosta de ser adulado?

Desde que comecei, sempre fui tão adulado que me acostumei. E só penso: “E se não fosse? E se cessasse de repente?”. É feito o telefone: toca, às vezes toca o tempo todo; e se não tocasse? A pessoa que envelhece, está sozinha em casa, o telefone toca, ele vai a correr, e a pessoa fala: “É engano!”

 

Está a falar de solidão. Mas sempre andou muito acompanhado…

Vou te contar uma história: eu estava em Roma, na casa de um amigo; algumas semanas depois, a mulher do meu amigo pegou o avião e veio para cá, para se entregar para mim. Pensa que é uma doidivanas, uma louca? Pensa que fiz alguma graça especial? Não! Eu estava lá, simplesmente vivendo.

 

O que é que fez? Deu-lhe atenção?    

Não, não é atenção. Tem um escritor, que morreu há alguns anos, morreu jovem, Carlinhos de Oliveira, pequenininho, vesgo: impressionante o número de mulheres que teve. Porque ele tinha vontade! E aquela vontade reflectia.

 

O que é que disse à mulher do seu amigo quando ela desembarcou no Rio?

Não disse nada, fui vivendo com ela. Um tempo assim adobedebeubeudedede... Porquê não sei. Vamos mudar de assunto. Isso aqui vai ficar uma conversa que é uma parte pobre da minha personalidade. Já me pediram para escrever a minha biografia, me ofereceram dinheiro – eu não quero. Tenho umas notas que escrevi através da vida. Não toco no assunto mulher pelo seguinte: qualquer coisa que diga a respeito de uma pessoa estou, sem querer, ferindo outra.

 

Vamos voltar ao menino que chora, zangado com o mundo, e depois conhece a paz. Foi a primeira vez e a última que chorou? Parece uma coisa diluviana, definitiva.

É, eu não choro. Mesmo quando tenho um sentimento que me levaria a chorar, não choro. Quando comecei a trabalhar, ganhava cem reais por mês – não dava… Com essa coisa que eu tinha de menino louco, não tendo ninguém por trás de mim, um dia cheguei na empresa e disse: “Só fico se me derem trezentos reais”. Aí, deram.

 

Antes dos jornais: como é que aprendeu a ler e a escrever?

Estudei em colégio público; no meu tempo e na minha recordação era muito bom. Tudo o que sei, aprendi no curso primário. Tinha uma professora velha, velha, que depois descobri que tinha 21 anos! Mulata, uma criatura de uma ternura formidável. Me lembro do dia em que ela me ensinou, no relógio, como os ponteiros marcavam as horas; foi um deslumbramento! Tinha uma varanda que circundava o colégio e eu saí pela varanda para ver os outros relógios; de repente percebi que um relógio não era igual ao outro, e que aquilo era o tempo que passava [risos]! Se me perguntar quais são as preposições, eu digo. Definição: deve ser clara, breve, geral e verdadeira. Não é bom?

 

São princípios que seguiu a vida toda?

Pois é. Uma frase deve ter sujeito, verbo, predicados na ordem directa – a ordem indirecta deixa pró Camões. Fiquei uns dois anos ou três sem estudar, fui morar na cidade. Quando recomecei, ganhava já trezentos reais. A primeira coisa que fiz: entrei para colégio nocturno. Eu trabalhava das oito da manhã às seis da tarde, sábado também. Pagava para estudar. Quando saía do colégio, andava um quilómetro até pegar um bonde, andava uns três, quatro quilómetros de bonde, depois andava num trem uns vinte minutos até chegar em casa. Eu me chamava a mim mesmo de “piscina”, porque chegava, batia na parede e voltava para o trabalho!

 

Já nessa altura produzia as frases, os aforismos que foram ficando famosos pelos anos?

É, é uma coisa natural. Eu não paro e digo: “Vou fazer uma frase”. Ou faço ou não faço. Fazia, sem querer.

 

Era um menino espirituoso, que fazia rir os colegas? Como é que era quando a sua mãe era viva? E depois?

Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, minha recordação com ela é uma recordação de carinho.

 

Duas frases: “Mãe, que é a carreira mais difícil do mundo e para toda a vida, não precisa de exame psicotécnico, nem curso de faculdade nem atestado de bons antecedentes.” “Super mãe é uma mulher que corta um “petit-pois” [ervilha] em dois para o filho não ter que mastigar.”

Tou achando bom!

 

A sua mãe fazia-lhe isto?

Não tenho ideia como é que escrevi isso. Não sou muito biógrafo, não. (Olha, e antes que me esqueça: considero o Ivo Pitanguy o homem mais realizado que conheço. Ele percorreu o mundo de cima para baixo. O pai dele já era médico, era prestigiado; Ivo entrava no palácio de Buckingham para operar uma terceira prima da rainha, e quando entrava, era esperado, era o Dr. Ivo! Ele fazia tudo, fazia esporte, fazia natação… Na casa dele, tem Picasso, Dalí… Mas não comprou, não: Dalí deu pra ele.)

 

Falamos mais tarde da geração notável a que pertence e das pessoas com quem se deu, entre eles Pitanguy. Mas sobre o seu pai, escreveu: “O Noel Rosa diria hoje que o vizinho rico morreu. Eu tinha um ano”. Noel é um dos maiores compositores da história da música brasileira. O seu bairro era Vila Isabel, e o vosso era ao lado.

Meu pai morava na Rua Teodoro da Silva. Noel era um homem pobre, baixa classe média. Chegou a estudar. Era um génio.

 

Evoco o seu pai e a sua mãe para perguntar pelas suas memórias de infância.

Tenho fotografias, uma ou outra, poucas com minha mãe. Me lembro de uma coisa de afecto, de carinho. Também tinha muita tia, porque meu pai trouxe duas irmãs; depois que envelheceram ficaram reaccionárias, chatas, e nunca mais quis ver. Você fica falando de relação com mulher e eu vou te dizer: minha avó materna foi a primeira mulher realmente apaixonada por mim.

 

Como sentiu esse amor?

Ela tinha 72 netos e bisnetos, teve dez filhos. Quando fiquei nessa fase de miséria, e fui morar nessa casa longínqua, com meu tio, eu tinha um quarto no quintal. Essa mulher largou tudo e foi morar comigo. Quando eu chegava, a altas horas da noite, às vezes sem comer, dizia: “Milton...” – me chamava Milton – “Tem uma sardinha no fogão”. Reservava uma sardinha para mim. De onde é que vem isso? Porquê essa preferência? É misterioso.

 

E nesse gesto sentiu o amor da sua avó.

Quando você é um menino, como se diz em inglês, “take for granted” [toma como garantido]. Foi o que foi. A relação com mulher: uma prima de 18 anos ia tomar banho ali; tinha um daqueles guarda roupas com um espelho enorme, não tinha nem banheira, era uma bacia; ela ficava se ensaboando e eu ficava para morrer! Mas para morrer! Para mim, aquilo era o mundo!

 

Mais tarde, desenharia muitas mulheres nuas. Quando começou a trabalhar, desenhava. Como era O Cruzeiro, a famosa revista onde se iniciou?

A revista era uma sala, a sala teria três metros por seis ou sete; isto era O Cruzeiro. Foi meu primeiro emprego. A revista vendia dez mil exemplares por semana, quando vendia dez mil e quinhentos era um sucesso. Eu era contínuo, carregador, ia fazendo tudo o que aparecia; e do lado – para ver a pobreza – tinha o director da revista, no fundo tinha uma prancheta em que o desenhista fazia o que se chama hoje design. Isto me deu uma grande oportunidade.

 

Como?

Eles não tinham dinheiro nem para comprar envelope, e recebíamos envelopes bonitos, de companhias americanas, que mandavam fotografias. Eu pegava as fotografias, arquivava, e nos  envelopes botava “Praia”, botava “Moda”, botava “Políticos”. Não vai acreditar: isto se transformou no maior arquivo da América do Sul! Foi crescendo, crescendo. A revista explodiu. Aparecia uma história de quadradinhos para traduzir, e eu traduzia.

 

Como é que um rapaz do Meyer aprendia inglês?

Dicionário!

 

Anos mais tarde traduziu Shakespeare. Como é que aprendeu inglês?

Sei lá como é que a gente aprende! Como é que a gente aprende as coisas? Devo ter lido dez mil livros. Eu não sei nada, eu aprendo lendo. Inclusive, esta é a minha definição de cultura – sei que vai concordar com ela... “Cultura é aquilo que amplia a nossa ignorância”. Não estou fazendo uma frase, não. O idiota que leu duas coisas acha que sabe tudo! A nossa ignorância é maravilhosa.

 

O Cruzeiromudou a sua vida, porque lhe deu espaço para aprender, expandir o seu mundo.

Assim como eu tive a sorte de perder os pais...

 

A sorte de perder os pais?

É, não fui massacrado pelo sistema familiar, não fui massacrado pelo sistema religioso.

 

Deu-se com toda a gente, conhece toda a gente.

Pois é. Uma das primeiras pessoas que vi entrar, [Dorival] Caymmi, dizia que a primeira pessoa que conheceu fui eu. Era menino, chegou, foi procurar um desenhista que o iria apresentar ao director da Rádio Tupi, também baiano, para dar uma oportunidade para ele. Outra pessoa, Gago Coutinho! O Gago Coutinho, no ano 40, tinha atravessado o Atlântico; era almirante, com aquele dólman, aqueles botões; fez uma entrevista. Mais tarde é que vi a importância dele. Em dez anos, a revista estava vendendo 750 mil. Todas as pessoas, as vedettes, as pessoas importantes, não há um nome da imprensa brasileira, actualmente, que não tenha passado por lá.

 

Foi um sobrevivente, com uma vontade de aço.

Não era vontade. Eu estava vivendo. Eu ambicionei ou a vida me arrastou? Não sei.

 

Não sabe? O que é que aconteceu aos seus irmãos? Tiveram uma carreira tão fulgurante quanto a sua? Uma vida tão entusiasmante quanto a sua?

Fulgurante, gostei! Minha irmã trabalhou no Ministério de Educação; a minha irmã menor era uma mulher bonita e se casou com um diplomata equatoriano; e Hélio, meu irmão, que era mais aventureiro do que eu, pegou um jornal chamado Tribuna de Imprensa, do político Carlos Lacerda, e escreve editorial todo o dia.

 

Num dos seus livros, faz uma dedicatória à sua irmã: que continua a acreditar na bondade do ser humano. Quando é que deixou de acreditar na bondade do ser humano?

Quem deixou de acreditar na minha bondade foi você! Pelo contrário: a coisa que mais admiro no ser humano não é a cultura, não é o carácter, é a capacidade de ser bom. Mas quando encontro uma pessoa boa, quando acredito que ela é boa, a bondade já está fugindo.

 

Qual é a sua definição de bondade?

Não é Madre Teresa de Calcutá – essa é uma exploradora da bondade, não toma banho e cheira mal; aquilo é o cheiro da santidade; quer ser boa em Calcutá, depois quer ser boa em Nova Iorque…

 

Sobre a bondade.

Quero ver o que é que eu disse!

 

Num livro que reúne as mil citações mais famosas diz o seguinte: “Pode ser engano, mas pela situação do mundo parece que o leite da bondade humana azedou de vez”. Estava num dia mau…

Não, não...

 

“O génio do ser humano não é o talento, é a bondade”. E ainda: “Só vi a bondade uma vez, tem muitos anos”.

O facto de estar decepcionado por não encontrar a bondade, não quer dizer que não preze isso.

 

Que vez foi essa, há muitos anos, que encontrou a bondade?

Não sei! Deve ser poético! [risos]

 

Definição de bondade: respondeu com uma negativa, disse que não é a Madre Teresa de Calcutá. Nesta tarde, neste momento, que definição de bondade é que lhe ocorre?

Quer que eu seja definitivo…

 

Ao contrário: se é a definição para esta tarde, para este momento, só pode ter um carácter pontual.

O que está mais perto da bondade é uma coisa que se chama humanismo. Por exemplo, todas as pessoas que trabalham comigo, trato como se fossem pessoas da minha casa. Talvez por isso consiga conviver com elas tanto tempo. Não gosto da palavra respeito, mas há esse sentimento humano. (Como é que vai ouvir isso depois?

 

Ouço, transcrevo e edito.

Sabe que tenho horror de dar entrevista? A pessoa vai me ouvir duas ou três vezes e vai passar a me odiar, não vai mais nem me cumprimentar...

 

Há quanto tempo não dava uma entrevista assim?

Há muito tempo.

 

Obrigada. Decidiu-se por causa da minha persistência?

Foi a sua persistência, e porque é em Portugal. Aqui não, aqui tem uma repercussão negativa). Então você quer saber do desenho e da escrita… Fui fazendo. Nunca tive essa consciência de “vou ser escritor”. Derivando um pouco, há uns duzentos anos descobri o haikai [forma poética oriental]; peguei o haikai e comecei a fazer haikai à minha maneira. A noção de desconstruir é minha, sempre. Você pega os idiotas que continuam a fazer haikai falando de Primavera, de colibri, de pirilampo… Eu peguei e fiz um negócio carioca! Fiz mais de 400 haikais, mais do que o Bashô [poeta japonês]! Fábulas? Fiz mais de 300 fábulas. O que é o instinto…

 

Fez por instinto? Começou por ser só um instinto de sobrevivência?

Uma naturalidade minha. Pode pegar as fábulas: não tem uma fábula moralista!

 

Muito me surpreenderia se resultasse de si alguma coisa moralista.

Pega La Fontaine, pega os outros, são todos moralistas. O desenho: eu tinha dez anos quando apareceram aqui no Rio as histórias em quadrinhos que começavam a fazer sucesso nos Estados Unidos. Como é que se chama em Portugal?

 

Banda desenhada.

E apareceu aquela figura... Foi a maior relação do desenho intelectual comigo: Flash Gordon! Eu copiava aquilo. Era um desenho infantil, claro. Minha irmã, durante anos, guardava, depois se perdeu. Gostaria muito de ver hoje.

 

E foi assim que começou a desenhar? Copiando o Flash Gordon.

É. Para mim, a minha coisa mais essencial, mais orgânica, é o desenho. Desenho a bico de pena. Fazia árvores de dois metros a bico de pena, fiz meia dúzia. Tem mais de 30 anos que não faço exposição. Para quê expor? Expor porquê? Tenho horror, acho muito engraçado: o ser humano sacrifica a sua vida toda, fica quatro, cinco anos estudando um salto, para brilhar um minuto. Não quero sacrificar a minha vida.

 

Viveu a vida muito intensamente?

Sim. Fazia tudo quanto era esporte. Comecei a praticar depois dos dez anos, quando já era tarde. Antes, não tinha tempo nem ocasião.

 

Correr na praia é gratuito.

Sim, mas naquela época eu morava no Meyer, não tinha praia... E era tudo muito longe.

 

O que é que representou para si a vinda do Meyer para o Rio?

Era uma cidade pacífica. Não foi um grande acontecimento. Vim morar numa rua que não existe mais, Rua São Pedro, onde é a Avenida Presidente Vargas, numa pensão. Uma pensão muito boa: tinha uma sala ampla, tinha comerciários, tinha motorista de táxi e tinha empregadinha deliciosa...

 

Ficou sozinho? Ou já antes tomava conta de si?

Enquanto minha mãe era viva, era ela. Não me vem ideia nenhuma de sofrimento. A vida era cheia, fazendo coisas, estudando. Entrei no Liceu de Artes e Ofícios; o curso era de seis anos, estudei quatro ou cinco. Saí, porque, entre aspas, já era famoso, e não tinha mais sentido estar naquele colégio... Se quiser saber do meu temperamento, não posso lhe dizer. Esse colégio era um edifício art noveau, tinha umas escadarias de mármore; uma noite, um professor, no meio do patamar das escadas, com todos os alunos ouvindo, me parou e disse assim: “Olhe aqui, nunca mais me faça isso na aula, o que você fez é imperdoável, você zombou do seu colega”. O pessoal riu e ele achava isso imperdoável.

 

Alguma vez se riram de si?

Que eu sentisse, não. Quando se faz humor, provoca-se o riso. É uma matéria muito delicada, sobretudo quando nos pomos nesse lugar, o do alvo... Existe uma frase que acho idiota: “Você perde um amigo, mas não perde uma piada.”

 

Nunca tomou essa frase como sua?

Não tem nenhuma necessidade.

 

Está muito mais dócil do que eu imaginaria. Esperei encontrar o Millôr de faca espetada!

Mas de maneira nenhuma.

 

O que é que fez de si famoso? O humor?

A grande coisa que tenho é a capacidade de processamento. Qualquer coisa que me falam, sou capaz de processar de dez maneiras diferentes. Com meu irmão, que é muito hábil também, começávamos a brigar, e quando a briga chegava a um certo ponto, ele falava: “Agora vem para o meu lado e eu vou para o teu!”

 

Quando é que deixou de ser o Milton para passar a ser o Millôr?

Precisei tirar uma carteira. Devia ter 17 ou 18 anos, e vi que estava Millôr na certidão. O tabelião escreveu Milton na boa caligrafia daquele tempo: o R, com a rapidez de escrever, ficou solto, o N ficou solto, e traçou o T em cima do O. Millôr, não tem mais dúvida. Todo o mundo passou a me chamar de Millôr!

 

Como é que a sua mulher lhe chama?

Eu já era Millôr... Ninguém me chama de Milton. Quem me chamava, morreu. É isso. Não tenho mais nada a dizer, já que descobriu que não sou aquilo que você pensava...

 

Quero que me conte o seu encontro com o Walt Disney.

Normal, normal. Nesse tempo, não havia essa coisa desta estrela ou aqueloutra. Aquilo era uma tropa de elite. As pessoas eram as pessoas que se conheciam do botequim ou da praia. Fui para os Estados Unidos, estive três vezes lá, tinha 24 anos. Eu era famoso – como dizia você – e fui fazer algumas entrevistas. Quando cheguei a Los Angeles, Hollywood, o Vinicius de Moraes, que já conhecia daqui, era cônsul; o César Lattes, cientista, ficou meu amigo, e duas ou três vezes fomos para casa da Carmen Miranda.

 

Carmen Miranda era uma espécie de embaixatriz da comunidade brasileira em LA. Eram amigos?

Jogávamos cartas com ela. Uma noite olhei para uma estante e vi 13 volumes pequenos, livros de capa dura, com A História Universal do Humor. “Você me dá?” Está aqui, nessa estante. São livros ingleses, perfeitos, têm cem anos e ela me deu. Nadava na piscina dela com César Lattes, ele nadava melhor do que eu. Atravessei os Estados Unidos de onibus, parava onde queria, descia no Grand Cannyon. Vim de navio de lá para cá, demorava 12 dias; namorei uma moça alemã, e a viagem foi tão divertida que o comissário de bordo me emprestou o apartamentozinho dele para conversar melhor com a moça! [risos]

 

Pergunto-lhe pelo Walt Disney e acaba por falar das moças… A punchline são sempre as moças.

Eu já disse: até a minha avó, porquê me preferiu? Não tenho a menor ideia.

 

O Cruzeiro, O Pasquim, O Pif Paf são grandes momentos da sua vida ligada à comunicação social. Foram os anos gloriosos?

Posso te botar a Veja, entrei na Veja no início.

 

Além das revistas e jornais, onde fez caricatura, cartoonismo e escreveu, fez peças de teatro e tradução. Face a esta versatilidade, importa saber se a qualidade é constante, ou se considera que algumas destas coisas são menores.

Não acho que seja bom em tudo, talvez eu seja melhor em tudo... Vamos falar de teatro: pensa que eu queria fazer teatro? As pessoas dizem: “É apaixonado por teatro...”. Não sou.

 

Porque é que fez teatro?

Um casal de actores chegou ao pé de mim e pediu para fazer uma peça. Como sou uma pessoa gentil, aceitei e fiz a peça. E como sou uma pessoa muito gentil, para não ficarem envergonhados, fiz uma peça boa! [risos] Depois fiz outras.

 

Entra o brio…

Brio é uma corruptela de brilho? Comecei a fazer teatro, chegou um amigo ao pé de mim e me pediu para traduzir uma peça. Traduzi. Era um trabalho profissional, porque o teatro tinha um público razoável e a gente recebia pela bilheteira. Fiz essa tradução, depois fiz outra; em pouco tempo, no panorama de teatro, tinha 30 peças, cinco com traduções minhas. [O encenador] Gianni Ratto me pediu que traduzisse “A Megera Domada” do Shakespeare.

 

“A Fera Amansada”, em Portugal.

Como é que é?, “The Taming of the Shrew”. “Negócio de traduzir essa peça, não sei...” – para você ver a minha atitude. À terceira vez, ele jogou na minha prancheta a peça, “Quem vai traduzir é você!”. Peguei 20 traduções já existentes, em várias línguas, incluindo português; fiquei impressionado com a mediocridade das outras, a mediocridade pretensiosa, uma merda aquilo tudo. Se pegar a peça e comparar, vai ver que a minha é mais perto do original do que a deles.

 

O tamanho do génio do Shakespeare não foi dissuasor?

Chega um momento em que não tenho medo do Shakespeare. Comecei a traduzir. “Hamlet” vendeu 80 mil, “A Megera Domada”, não sei, o “King Lear” 60 mil...

 

Não tem medo do Shakespeare. Não se deixa intimidar por ninguém?

No papel, não. Se aparecer um negão, tenho medo!

 

Quem é que admira?

Literatura, não sou especialista, não quero ser. O meu negócio é uma opinião de pessoa que lê. Só gosto do que gosto. Não tem esse negócio de fulano. Pode ser Confúcio, pode ser quem for. No Brasil, quais são os grandes escritores? Guimarães Rosa, Euclides da Cunha. Machado de Assis não é meu preferido. Tenho uma tendência natural para escritores difíceis. Eu escrevia no jornal Brasil e botei um Top: “Amor nos Tempos de Cólera”, de Garcia Márquez, é um livro admirável, “Memorial do Convento”, de José Saramago, é definitivo. Gosto muito do Saramago, Rubem Fonseca, João Cabral de Melo Neto, Drummond. Portugal tem poetas sensacionais.

 

“Requiem: Quem matou Millôr Fernandes? Perguntará a manchete do dia, enquanto o assassino vai ao enterro disfarçando a alegria.” Disse isto em 1971. Como é que imagina a sua morte?

Tenho grande dificuldade em imaginar a minha morte porque não sou muito bom em ficção!

 

Escuda-se nos aforismos, não é?

Não! O que é que vou dizer? Que estou chorando? Não sei.

 

Está com 84 anos, pensa muito na morte?

Talvez. Quem sabe se chego aos 85... Sabe aquelas pessoas de 80 anos que ficam indignadas porque um cara botou no jornal que estava com 81? Que diferença faz um ano?

 

E faz?

 Ué, talvez seja o último! Não faz diferença quando uma pessoa tem 18 anos, ou 30, 40. Na verdade, nem gosto de falar nisso. Aquelas figuras admiráveis do Cruzeiro, meninos como eu, quase todos morreram. Você está sendo esperado, a qualquer momento… Como é que vai ser? Conhece aquela coisa anedótica, que diz assim: César morreu, Jesus Cristo morreu, Lincoln morreu, e eu não estou me sentindo muito bem!

 

Quando é que o dinheiro e a necessidade deixaram de ser uma coisa premente na sua vida?

Não posso dizer nada, porque eu estava vivendo. Primeiro, não tinha dinheiro, não tinha dinheiro para comer. Com exactamente 20 anos, fui morar na Avenida Atlântica com um amigo meu chamado Fred; tinha dinheiro para morar num apartamento de seis quartos, eu ficava com os dois de baixo. Lidando comigo todo o dia, foi meu admirador até ao fim da vida. Uma vez, apareceu lá um jornalista, brilhante esse jornalista, ele se voltou, na frente de todo o mundo: “Oh Artur, você pensa que é muito brilhante?, eu também sou! Mas não vai se comparar com o Millôr, não!”

 

A Avenida Atlântica é a mais cara e exclusiva do Rio. Confere status. Ganhava bem, tão jovem?

Ganhava o maior salário da imprensa. Passei desses cem para doze e quinhentos, que nem sei nem o que é que é. Dava para comprar automóvel, que ninguém tinha na época, dava para ajudar as minhas irmãs (pagava um apartamento para morarem).

 

O dinheiro muda a vida das pessoas?

Muda, mas apesar do tempo breve, muda paulatinamente. Você conhece todo o mundo. A cidade era pequena, amabilíssima; chegava às dez horas da noite, sabia qual era o bar em que os amigos estavam. O Di Cavalcanti, que era o grande pintor, tinha uma namorada muito bonitinha, e comecei a namorar ela. A irresponsabilidade do jovem: eu ia para o estúdio dele e ficava namorando com ela na frente dele! Um dia ele me botou para fora! Achei que era um açougueiro! Mas é isso, dona Ana... Sabe que traduzi cento e dez peças? Quando as pessoas levam cinco anos para traduzir o “Hamlet”, eu sou bonzinho de julgamento: acho que o cara é bicha, que o cara é homossexual. Eu tinha um ímpeto de fazer. Enquanto isso estava jogando frescoball na praia – que fui eu que inventei.

 

Desportista era o que gostaria de ter sido?

Atleta, né? Talvez fosse correr. Quando a polícia proibiu o frescoball, comecei a me aborrecer. Eu corria oito quilómetros todo o dia, na praia, porque eu morava em frente. Está bem, senhora Anabela?

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

Millôr Fernandes morreu em 2012

 

 

A casa de Frida e Diego

15.07.18

Viva Frida!, viva a pintora mexicana, que viveu um período de efervescência cultural e política. Viva Diego, o muralista famoso, o amante que lhe provocava o tumulto e a devolvia inteira (para usar palavras de Frida). Viveram numa famosa casa azul, em Coyoacán. Uma casa museu que permite conhecer a vida de Frida, a de Rivera, a dos dois.

 

É uma casa mexicaníssima. Talvez não o fosse quando foi habitada pelos pais de Frida e a sua história se resumia a uma casa térrea de paredes brancas. Há uma fotografia que a mostra assim, nessas primeiras décadas do século XX. Uma fotografia a preto e branco onde tudo parece pálido. Sobretudo porque agora submergimos num azul profundo, de um pigmento puro. Lá chamam-lhe azul anil.

Foi Diego que a pintou desta cor magnética. Não é só não conseguir deixar de olhar quando estamos lá. Aquele azul vem à ideia quando pensamos nisso, já noutra latitude. Uma cor não é uma coisa menor – nunca. E aquela era uma casa de artistas.

Uma definição aproximada: dizer que é um azul cobalto. Azul profundo, que já usei, sugere um mergulho. Instala-nos noutra temperatura, numa essencialidade que nada tem que ver com a vida da rua. A rua Londres que cruza com a Ignacio Allende.

Foi nessa casa que Frida Kahlo nasceu. Estava hipotecada quando a pintora se mudou com Diego Rivera para lá. Os pais de Frida haviam sido obrigados a esta operação para fazer face às avultadas despesas médicas da filha.

O tremendo acidente de Frida foi tão tremendo que virou lendário. Ela era uma menina que seguia num autocarro e acabou com uma perfuração pélvica e a coluna partida em três. Em Setembro de 1925. Uma parte dela ficou incapacitada para o resto da vida. A impossibilidade de gerar filhos resultava daqui. A dor lancinante, também. Há um desenho, por exemplo, que parece um esboço de anatomia, cravado de setas. Frida desenhou-o para falar dos pontos do corpo em sofrimento. Um mapa triste, repleto de linhas que se cruzam.

Ademais, tinha poliomielite desde criança. O corpo não era um aliado. Foi notável o modo como o superou, como se inventou. Tem-se uma ideia rigorosa disso quando se vê uma página do diário, escrita e desenhada logo depois de lhe amputarem uma perna. Diz assim: “Piés para qué los quiero, si tengo alas pa´volar”, 1954. Asas para voar... O limite?, o que seria? Asas para voar...

Morreria nesse ano.  

Portanto a casa estava hipotecada. A primeira coisa que Diego fez foi reverter o processo, a dívida, comprar a casa. Os pais de Frida eram vivos e continuaram a viver ali. Mas aquela passou a ser a casa deles. Passou a ser a casa azul.

Hoje há uma parede transformada em pequeno altar, abençoado por deuses aztecas, altar onde se lê: “Frida y Diego vivieron en esta casa – 1929-1954”.

A casa azul fica num bairro do tamanho de uma pequena cidade na imensa Ciudad de México. Coyoacán é uma zona plana, gizada com régua, copas de árvores a tocar nos telhados. A burguesia vive confortavelmente neste perímetro, algo silencioso e discreto se comparado com o carácter sempre excessivo da capital. É o tipo de lugar que tem um coreto na praça principal. As fachadas das casas são muitas vezes intensas, de cores de Frida. Há uma harmonia que é manifesta, a pairar.  

É a casa-mundo de uma pessoa que não cabe no mundo e que, por isso, inventa um à sua medida. O processo de criação de si parece mais involuntário que voluntário. Em qualquer caso, é consciente. Era preciso sobreviver ao que a martirizava e estreitar o canal de comunicação com a vida. Era preciso afirmar a vida. Não esquecer nunca que o último quadro de Frida é uma natureza morta suculenta, de uma frescura que apetece, melancia cortada em pedaços. Tão simples como um dia de Verão. Pintado por uma mulher em agonia que deixa a inscrição “Viva la Vida!”. Como recado último. Apesar dos desenhos de cactos, fetos, corações que sangram, vida que está seca ou a deixar de ser que abundam na sua obra e de que há imensos vestígios nesta casa.

Singular é uma palavra que vai bem com Frida. Embora não chegue. Nem o superlativo singularíssima chega. Frida era singularíssima, pessoa inteira, maior do que o sofrimento. Tudo nela é uma epopeia. A começar no amor com Diego. “Es Diego nombre de amor”, disse ela. Epopeia no dicionário: poema de longo fôlego acerca de assunto grandioso e heróico. Diego para ela, dito como quem escreve uma carta de amor: “Colectiva e individual é a arte de Frida. Realismo tão monumental que no seu espaço todo possui inúmeras dimensões; em consequência, pinta ao mesmo tempo o exterior, o interior e o fundo de si mesma e do mundo”.

A relação foi conflituosa, tortuosa, todos os adjectivos desta família. E de outra: iluminante, instigadora. O que se vê na casa é uma fénix que renasce. Lá está Frida, transmutada em heroína que sobrevive ao acidente, politizada até à medula, amante. Ave fabulosa, emplumada de tonalidades raras, híbrido de dia e noite, alegria e morte, homem e mulher, folclore e Surrealismo. Frida e Diego.

E lá está Diego, homem imenso que a mãe de Frida comparava a um elefante (a filha, por oposição, era uma pomba). Vinte anos mais velho. A força vulcânica que teima: porque é que um mexicano não pode ser um grande artista? Um grande tão grande quanto os grandes que confluíam em Paris, onde Diego também esteve, anos a aprender, a discutir, a pintar primeiro imagens inócuas, e depois temas que incendeiam, a política. Regressou ao México depois da revolução zapatista para perguntar, justamente depois da revolução: “O que é ser mexicano?”. A sua obra é uma resposta a esta questão complexa, nunca completamente satisfeita. O ser mexicano é ser povo, é lutar pelo povo, é estar do lado desses. (Num documentário, a primeira mulher de Diego, mãe da sua filha, diz assim: “A única coisa que admirava em Diego era o amor que sentia pelo povo. E mais nada”.)  

É o povo que aparece nos murais, no México, nos Estados Unidos. O povo e quem o guia. Caso do famoso mural que foi destruído por causa da aparição de Lenine. Há limites – pensou Rockefeller – que contratava. Não há, não – pensava Rivera, o artista que reivindica liberdade ilimitada no acto de criação. Acabou destruído, o mural.

Ser mexicano é coleccionar adereços da vida simples de todos os dias. Uma taça pintada com singeleza. Diabolitos (esqueletos que simbolizam Judas e que hão-de ser queimados no Dia dos Mortos) nas paredes. Máscaras, estátuas, artefactos pré-colombianos. (No mesmo documentário, conta-se que num dia de tempestade conjugal, a primeira mulher de Diego partiu em cacos certas peças de arte pré-colombiana e as serviu no prato, no lugar da sopa. Aquele era o jantar. Para doer.)

Frida, que apareceu mais tarde, fez com ele esta revolução, ergueu a bandeira. Pintou a foice e o martelo no corset que usava para segurar a coluna, em inúmeras telas, pintou retratos de Marx, Estaline, todos os inspiradores. A luta era pelo povo.

A casa de Frida e Diego era um lugar de tumultos, constelação de pessoas bizarras, de estrelas, espécie de panteão privado, também de pessoas vivas. Toda a gente desaguava na casa azul. Trotsky que ali viveu meses. André Breton de passagem (disse dela: “Candura e insolência, crueldade e humor”). A pintora Georgia O’Keeffe e a fotógrafa Tina Modotti, com quem Frida teve romances (manda o bom senso botar “alegadamente teve romances”, ainda que a informação circule por tudo quanto é sítio). O cineasta russo Eisenstein, os fotógrafos Edward Weston ou Álvarez Bravo, o revolucionário Pancho Villa.  

Naquela casa de jantar, enorme, de chão amarelo e figuras pré-colombianas nas estantes, estava sempre alguém. Não há memória de terem jantado sozinhos. A mesa fez-se para os amigos e para a discussão. Eram os anos 40, era urgente mudar o mundo.

Pensemos ainda no panteão privado de Frida. Quem faz parte? Na tela «Moisés» (1945), estão Nefertiti, Lenine, deuses aztecas, Freud, Alexandre, Buda, deuses egípcios, Apolo, Cristo, e, em especial, o Sol, centro de todas as religiões e criador da vida.

O milagre em Frida era a maneira como fazia dialogar estes e os anónimos, ligando-os numa genealogia que só ela saberia estabelecer.

Ela mesma tinha uma genealogia incomum, filha da velha Europa e de um México a reinventar-se. A melhor apresentação está num quadro que Frida pintou e que se encontra, em jeito de legenda, numa das primeiras salas da casa: “Pintei o meu papá Wilhelm Kahlo de origem húngara-alemã, artista, fotógrafo de profissão. De carácter generoso e inteligente e fino e valente, porque padeceu durante 60 anos de epilepsia. Mas nunca deixou de trabalhar. E lutou contra Hitler. Com adoração, a sua filha Frida Kahlo”.

A mãe tinha a cor tisnada das mexicanas que crescem ao sol, a pilosidade abundante que Frida, não só herdou, como cultivou e transformou em estilo. Num álbum de família surge vestida de tehuana, ataviada de folclore e anos de história popular. Anos mais tarde, Frida pintar-se-á assim. Mas na mãe a tehuana era uma aparição única para a fotografia. Em Frida, o estilo tehuano era uma exaltação do que era povo e raízes. Era uma forma de agradar a Diego, era uma forma de esconder as mazelas do corpo, era sobretudo um gesto político.

A casa: é onde Frida e Diego viveram, mas o letreiro diz apenas museu Frida Kahlo. É para a ver que milhares de pessoas fazem fila. Diego é um grande pintor, mas Frida não pertence a nenhuma categoria. É tão fora do baralho que continua a falar connosco, a olhar-nos de uma maneira perturbadora passados todos estes anos. A pintura de Rivera é devedora de uma força diferença. O seu carisma, também. A diferença entre eles talvez esteja naquela linha de Rivera que já citei: ela pinta o fundo dela e nisto pinta o fundo do mundo. Rivera pinta o mundo em revolução, a cratera terrestre que mexe. A sua pintura é eminentemente um discurso, uma expressão de uma ideal político. Frida pinta (demasiados) retratos de Estaline, mas pertence a outra estirpe. O mais tocante nos seus quadros reside numa qualquer coisa que ela consegue captar e os outros não. Num mundo subterrâneo. Num olhar de quem está mudo e é capaz de comer o mundo.

Então, a casa é mais dela. O seu espaço de trabalho está lá, os seus dois quartos também, as suas cinzas dentro de um pote pousado no toucador, em forma de rã (uma referência a Diego que se designava assim: a rã), também. Diego trabalhava num atelier próximo, tinha uma outra casa próximo.

A casa azul tem uma estrutura em U e é virada para um jardim. De um lado, os muros azuis que dão para a rua. Do outro, vidraças e luz, um pequeno tanque de chão de mosaico e dois sapos a nadar. O jardim, uma pequena pirâmide que imita a pirâmide do sol, esta desmesurada, as estátuas.

Os compartimentos principais são o atelier de Frida e os seus dois quartos. Os espaços formam um contínuo, dão a ilusão de corpo único. Estão lá a cadeira de rodas em frente ao cavalete, as peças pré-hispânicas, os livros de Filosofia, literatura, o trabalho de artesãos populares. A paleta de cores e o significado de cada uma: azul, um certo azul, representava a electricidade e a pureza, o amor; o azul marinho era a distância, e podia ser também a ternura. O amarelo era a loucura, a doença, o medo, parte do sol e da alegria. O verde era a tristeza e a ciência; “a Alemanha inteira é desta cor”.

Os quartos eram dois porque Frida precisava de descansar durante o dia, próximo do atelier, e de um quarto para dormir, à noite. Os dois são dominados por camas com uma estrutura de madeira e um tecto onde está um espelho (numa) e borboletas (noutra).

A cama com um espelho no tecto era uma solução antiga. Praticada desde o tempo do acidente, para resolver as horas, os meses que Frida passava imobilizada. Há fotografias que a mostram a olhar-se ao espelho, a pintar-se, um olho na tela outro na imagem reflectida. Alguns críticos pensam que o olhar opaco e distante dos auto-retratos têm que ver com esta relação com o espelho. O que pinta é o que é devolvido no reflexo. O olhar é quase inexpressivo. A dor e o assunto do quadro quase nunca são dados pelo olhar mas pelo que Frida pinta em torno de si, pela circunstância em que está. Especula-se também que a dimensão reduzida dos quadros passa por esta limitação física. Era preciso que fossem portáveis, que lhe coubessem facilmente nas mãos.

Na outra cama, o tecto tem borboletas. Belas, já metamorfoseadas, a voar. Nos dois quartos há fotografias de Marx, Lenine, Estaline, desenhos eróticos. O mais importante para Frida?, a política e o sexo como motores de vida?

Lá estão também as muletas. E noutra parte da casa a prótese que usou depois de lhe amputarem a perna. As adoráveis botas cor de rosa, pé talvez de tamanho 35, com bordados. As botas com salto desigual por causa da poliomielite. Os corpetes em que Frida fazia desenhos, a foice e o martelo, inscrições amorosas, e que assim eram menos colete de forças. Uma força precisa para segurar a coluna em desequilíbrio.

Este é um espaço quase secreto e aberto há pouco anos. Diego exigiu que estes adereços da privacidade de Frida fossem mostrados tarde, muito tarde. Vinte anos depois da morte da amiga que ficou cuidadora da casa-museu. Grande gesto, penso eu, de respeito pela mulher amada.

É uma série de pequenas salas de luz diminuta, onde estão as roupas, as jóias, objectos pessoais, o perfume francês. Em nenhum outro lugar como aí se percebe o sofrimento físico em que viveu esta mulher. E como era valente: não permitiu que isto – que nada – a derrotasse. Ou sequer que isto fosse o centro do seu discurso. Ao contrário, tudo parecia ser uma exortação à vida. Viva la Vida!, viva Frida!

A visita a esta casa possibilita o mergulho no azul – eléctrico, terno, puro – da vida de Frida e Diego. Se exceptuarmos a cozinha e o “comedor” (sala de jantar) dominado por um amarelo girassol, é o azul que nos envolve, em forma de U. Os objectos revelam uma vida voltada para o coleccionismo (sobretudo de peças pré-colombianas e de arte popular), a política, a arte. Há também alguns quadros de Frida, desenhos, fotografias, a almofada bordada onde se lê “despierta corazon dormido”, os dois relógios na sala de jantar. Um cujos ponteiros pararam quando Frida e Diego se separaram (dessa vez, a relação adúltera de Diego foi com a irmã de Frida). O outro relógio tem um tempo que recomeça a contar, quando de novo se casaram.

Esta casa de Coyoacán tem semelhanças com as casas ligadas de San Angel, um bairro vizinho. As casas ligadas são, na verdade, dois estúdios ligados. Uma tem o azul anil e pertence a Frida, a outra é cor de sangue e terra, um rojo por definir, e pertence a Diego.

Frida abandonou este estúdio, zangada com Diego, um dia. Todo o seu material de trabalho foi transferido para a casa de Coyoacán. Diego trabalhou aqui, o seu cavalete e pincéis e brinquedos e peças de arte e tudo o que aparece no seu caleidoscópio, permanecem aqui.  

As duas casas estão ligadas por uma ponte, um canal que lembra a artéria que liga os dois corações do quadro As Duas Fridas. Duas pessoas que se alimentam na sua especificidade, na diversidade, que se preenchem. Se a transfusão parar, uma delas morre?  

Frida morreu em 1954. O féretro foi acompanhado de cânticos da Internacional, cortejos de mulheres vestidas de tehuana, a bandeira comunista a cobrir o caixão, Diego inconsolável. O mito já estava vivo. Qualquer coisa nela não morre nunca.

  

Coyoacán está para a Cidade do México como Estoril está para Lisboa. Ou seja, pequena localidade, hoje engolida pela grande urbe. Ritmo de vida diferente. Para ir a Coyoacán, o mais fácil é apanhar um táxi. Não deve custar mais do que 20 euros. Não deve nunca apanhar um táxi na rua, por questões de segurança. Peça no hotel que chamem ou apanhe num ponto de táxis. A casa de Frida tem sempre uma fila para entrar. Pode ser de meia hora. Há autocarros que param aqui, é um dos pontos mais visitados do México. Enquanto se espera, há vendedores ambulantes que nos abordam. Podem vender vestidos bordados ou marcadores para livros, feitos em madeira. Uma senhora que me abordou, benzeu-se depois de lhe ter comprado marcadores. Outra fez o mesmo quando comprei barras de amaranto, um cereal muito comum e nutritivo.

Dentro da casa de Frida, há uma loja onde vendem adereços semelhantes aos que a pintora usava. Xailes, brincos, blusas. Preços bem razoáveis. Sobre horários de funcionamento e demais informações práticas, ver www.museofridakahlo.org.mx

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015 

Frida Kahlo

13.07.18

Frida Kahlo chora copiosamente. Chora o corpo martirizado, esventrado, prestes a desconjuntar-se, suspenso por uma coluna romana. A coluna (a espinha), igualmente em processo de desmoronamento, mantém-se erguida com a ajuda de um corset feito em aço. Esta mulher llorona, envolta num cenário de desolação_ a terra fracturada, o céu carregado de chuva_, retratou-se assim em 1944. O quadro «A coluna partida» pertence ao domínio do onírico, da liberdade absoluta dos Surrealistas que agitavam a Europa; mas Frida esclarece: «Eu nunca pintei os meus sonhos. Pintei sempre a minha realidade».

A realidade, então: Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón nasceu em 1907 numa famosa Casa Azul em Coyoacán, Cidade do México, onde passaria o essencial da sua vida. Filha de um imigrante alemão, fotógrafo e amante de livros de arte, que idolatrava Schopenhauer, Goethe e Schiller; mantinha com ele uma relação estreita: retocava as cores das fotografias que saíam do seu estúdio e fazia de enfermeira nos ataques de epilepsia. A mãe era uma mestiça mexicana que dedicava à Virgem uma devoção efusiva, mas que era pouco dada a manifestações de afecto. Quando a filha penou na cama do hospital, na sequência de um acidente brutal, afectada pelo choque, não foi capaz de a visitar.

A herança é complexa. Frida será sempre uma tehuana de pilosidade abundante, de estilo “incultivado”, adornada pelas cores intensas da pátria. Será sempre a artista revolucionária que lê Marx, impressiona André Breton, se envolve amorosamente com Trotsky. É redutor pensar nela como uma intérprete avant la lettre de um realismo mágico que emergiu na literatura pela voz de García Márquez _ a despeito da profusão de referências pré-colombianas que é possível encontrar na sua pintura. A educação de Frida é enformada pelo que está em voga na Europa. Lê os clássicos, (Homero, Dante, Platão) que o filósofo e político revolucionário José Vasconcelos disponibiliza aos alunos do secundário. Admira a pintura de Botticelli ou Bronzino. O primeiro auto-retrato que pinta, em 1926, é devedor dos renascentistas: a figura é alongada, os gestos são delicados. Assume uma herança impura, sincrética, uma herança dual.

Mas tudo em Frida é dual: vida e morte, claro e escuro, masculino e feminino, antigo e moderno, México e Europa. Estes são os seus termos, e a síntese, peculiaríssima, é a sua vocação.

Ainda a realidade: em Setembro de 1925, Frida seguia num autocarro com um colega de escola, Alejandro. O aparatoso acidente que sofreram incapacitou-a para o resto da vida. É já lendária a perfuração do pélvis que terá ocorrido, a coluna vertebral partida em três, ou os nove meses em que permaneceu imobilizada na cama do hospital. Foi durante esse período que começou a pintar. Para escapar ao mutismo interior? Frida praticava desde cedo, e de modo exaustivo, a solidão. Quando lhe perguntaram porque pintava auto-retratos, ela respondeu que passava muito tempo sozinha, entregue a si. Bem vistas as coisas, ela era a pessoa que conhecia melhor.

Desde o acidente, a dor e a consciência da fragilidade do corpo passaram a fazer parte do seu quotidiano. A desintegração progressiva do corpo, a precariedade da vida, a mortalidade passaram a ser a sua coroa de espinhos. A morte rondava, e nestas condições impunha-se uma fúria de viver. O ímpeto com que pintou, amou, viveu são expressão de uma tentativa desesperada de se manter viva, de se saber viva. A sobrinha da artista, ouvida pelos curadores da exposição na Tate Modern, transmite essa impressão: «A minha tia Frida era apaixonada pela vida! Nas ocasiões boas e nas más, era muito positiva. Dizia sempre: «Viva la vida, viva!» 

O segundo dos acidentes que irromperam pela vida de Frida Kahlo foi, nas palavras da própria, Diego Rivera, o reputado muralista com quem casou duas vezes, a primeira das quais em 1929 e a segunda em 1940. A relação entre os dois amantes foi tumultuosa. Diego, 20 anos mais velho, de tamanho desmesurado, adúltero compulsivo, era «o seu Deus, o seu filho, o seu pai». Era a sua flor de obsessão, carnívora. A mãe de Frida, que nunca simpatizou com o genro, dizia do par que era o encontro de uma pomba com um elefante! Mas Frida, em cuja biografia a mãe é personagem ambivalente, passou a vida a tentar possuí-lo, certa de que a monogamia era um projecto absurdo. Lidou tão bem quanto possível com as infidelidades constantes. Verdadeiramente, só a relação que ele teve com Cristina, a sua irmã mais nova, conduziu ao divórcio.

Foi um período negro, auto-destrutivo. Despedaçou a farta cabeleira de que Diego tanto gostava num sinal de retaliação e de auto-mutilação, e numa tela exígua de 40 por 28 centímetros pintou-se assim: pelona. Andrógina. (A bissexualidade de Frida era antiga, e crê-se que a primeira experiência foi vivida com uma professora, ainda no liceu. Supostamente teve affairs com a pintora Georgia O’Keefe ou a fotógrafa Tina Modotti, para apontar apenas dois nomes sonantes.) Também é verdade que nesses anos se entregou à bebida e que, segundo Diego, pintou alguns dos seus melhores quadros. O mais famoso é «As duas Fridas».

Nessa tela de grandes proporções, Kahlo representa a dualidade da sua personalidade. De um lado, a Frida amada, vestida com o traje tradicional das tehuanas e com o coração intacto; na mão, segura um retrato do artista Rivera quando jovem, muito jovem. Do outro, tem o coração cortado ao meio e veste um traje colonial; o vestido está coberto de flores que esmaecem e se transformam em sangue. As duas Fridas estão ligadas por uma artéria, que parte da fotografia de Diego, se enreda no corpo, e termina abruptamente num bisturi. (Uma fotografia tirada quando o quadro parecia já completo, permite perceber que o pormenor das flores e do bisturi foi acrescentado mais tarde.) Frida sangrava, e a sua dor maior era o desamor.         

Quem é Frida Kahlo? A resposta, as respostas, podem ser encontradas na sua obra. Entre 1926 e 1954, a artista mexicana produziu pouco mais de uma centena de quadros em que explora aspectos relacionados com “o corpo, a genealogia, a infância, as estruturas sociais, a pátria, a religião, os contextos culturais, e a natureza”, como se lê no catálogo da exposição. Todos remetem, de modo quase sempre directo, para a sua vida. 

Frida é um ícone improvável, mistura explosiva de política, sofrimento e introspecção, combinação única de “candura e insolência, crueldade e humor” (Breton). Pintora de auto-retratos, inscreveu a sua biografia no centro da sua obra. Pintora de narrativas que deixam entrever uma cosmogonia privada. Em «Moisés» (1945), Nefertiti, Lenine, deuses aztecas, Freud, Alexandre, Buda, deuses egípcios, Apolo, Cristo, Hitler, (a quem chama “A criança perdida”), e, em especial, o Sol, como centro de todas as religiões e criador da vida, integram o seu panteão. Pintora de naturezas mortas, de frutos suculentos, entreabertos e explicitamente sexuais, narradores do seu amor pelo México, símbolos de fecundidade e do ciclo da vida.

Observemo-la nos auto-retratos. O olhar parece desconfiado, distante, inalterável. Frida pintava-se ao espelho, e esta circunstância pode explicar a “distância” dos auto-retratos. O que pinta é o que é devolvido no reflexo, e não o que lhe sai de dentro. O arrebatamento ou a dor raramente são dados pelo olhar, mas pelo espaço envolvente.

Cada quadro funciona como fragmento de uma anotação diarística, síntese da realidade vivida. Exemplo disto são dois quadros famosos, pintados na sequência de acontecimentos trágicos. Em 1932, no espaço de quatro meses, sofreu um aborto espontâneo e assistiu à morte da mãe.

O aborto revelou-se um momento especialmente traumático. Consta que quis ver o feto, que devorou livros de anatomia, que desenhou infatigavelmente até produzir «Henry Ford Hospital», o quadro que a expõe ensanguentada, a segurar o bebé, a zona pélvica, entre outros símbolos relacionados com a experiência. Alguns críticos consideram que o amor de Kahlo pelos animais (um cão irrequieto que levava o nome de um deus azteca, um macaco que se enredava no seu pescoço...) são uma solução possível para a impossibilidade de ter filhos. O corpo frágil da artista não consentia tamanhas aventuras...

A morte da mãe, ocorrida pouco depois do regresso de Frida ao México, impulsionou «O meu nascimento». É um quadro blasfemo, no qual quebra dois tabus: a exibição do sangue vaginal e da sexualidade da mãe. Um lençol branco tapa a cara da parturiente e uma Virgem dolorosa contempla a cena, da parede. Os dois quadros aproximam-se: cruzam a morte e a vida, a natalidade e a mortalidade. 

Mas há outros quadros que ilustram páginas do seu diário. Como aqueles que pintou nos anos em que viveram na América. Nesse tempo, gringos como Rockefeller estavam fascinados com Rivera, e Frida era “a mulher do artista, que também pinta”_ um papel que ela reclamava para si: quando retrata o casal em 1931, surge minúscula, com uns pés invisíveis que quase não tocam no chão; e ele é um gigante que segura na mão uma paleta com pincéis. Ela era a excêntrica a quem os miúdos perguntavam quando passava na rua: «Onde é o circo?». Era la mexicana, figura que adoptou depois do casamento para agradar ao marido e como declaração política_ viveu fervorosamente os ideiais da Revolução, a ponto de alterar a data de nascimento para 1910 de modo a coincidir com a data da Revolução mexicana.

Na América pintou o folclore mexicano, pintou as filas de desempregados, pintou Mae West que Diego adorava. Mas morria de saudades, e regressaram para viver na Casa Azul.

A casa era um museu vivo, pejada de objectos, retablos, e tralha, tralha que contava a história do México, as suas raízes e tradições. E acolhia refugiados políticos como Trotsky. Por lá passaram, também, o cineasta russo Eisenstein, os fotógrafos Edward Weston ou Álvarez Bravo, o revolucionário Pancho Villa.      

A Casa Azul assistiu ao recasamento de Frida e Diego e à morte da artista em 1954, aos 47 anos. Os últimos anos haviam de ser especialmente penosos. Em 1950 passou nove meses no hospital, durante os quais foi operada duas vezes à coluna, e em 53 foi-lhe amputada a perna direita. Apesar do sofrimento físico, Frida insistiu em comparecer à sua primeira, (e única em vida) exposição individual no México, em 53. Recebeu os convidados deitada na cama, plantada no meio do espaço expositivo. No convite escreveu: «Estes quadros que pintei, pintei-os com as minhas mãos. Eles esperam por si para lá destas paredes, para agradar, tal como planeei».

 

Nota: a exposição recém inaugurada na Tate Modern, em Londres, é a maior alguma vez dedicada a um artista latino-americano em Inglaterra. Aconselha-se a compra antecipada de bilhetes e o aluguer do guia áudio. Além da informação relativa aos quadros em questão, mostra num pequeno ecrã fotografias da pintora, quadros e estátuas que serviram de referência a algumas obras ou imagens da Casa Azul. A mostra quase integral é especialmente bem montada, em salas amplas e  inclui inúmeros desenhos. É emocionalmente forte, como a pintura de Frida. O merchandising da exposição é atraente: pulseiras, cintos, ganchos para o cabelo, inúmeros postais e bibliografia abundante. Caro. Disponível até 9 de Outubro.

 

 

Publicado originalmente na revista Grande Reportagem do Diário de Notícias em 2005

Patrícia Pascoal

13.07.18

Patrícia Pascoal é sexóloga. Fala de fenómenos como as MILF (mothers I would like to fuck) ou de o sexo anal ser mais do que um jogo de dominação. Da hiper-vigilância em relação ao nosso corpo – “Ai, será que estou a ficar molhada”. Da instantaneidade e democratização no acesso a conteúdos sexuais. Usa palavras como “peniano” ou “socialização para o género”. A ela não a apanham a dizer que uma mulher deve vestir uma lingerie sexy e desinibir-se. Como num título de Woody Allen, eis um ABC do Sexo.

Fez a licenciatura e o mestrado em Psicologia Clínica em Coimbra. Uma pós-graduação em Estudos Femininos em Amesterdão. Outra pós-graduação em Sexologia Clínica na Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. É responsável pela primeira consulta de Sexologia Clínica na Faculdade de Psicologia de Lisboa. Está empenhada no doutoramento. Colabora com a imprensa (teve, por exemplo, um programa no extinto Rádio Clube Português com Aurélio Gomes). Dá aulas. Dá consultas. “Temos de perceber o passo gigantesco que é para as pessoas chegarem à consulta. Quando estava a coordenar uma linha de atendimento telefónico, as pessoas diziam que não conseguiam falar disto numa consulta. O enquadramento anónimo permitia-lhes falar, mas a ideia de ir, e dar a cara, era sempre complicada”. O sexo é ainda um tema complicado? E continua a ser o mais apetecível?

Patrícia Pascoal dá algumas respostas, levanta muitas questões, gosta de desinstalar o que está instalado. É casada e tem filhos.   

 

 

Numa sociedade hiper-sexualizada como a nossa, o sexo continua a ser uma obsessão colectiva? Nunca o sexo esteve tão visível, no cinema, na televisão, nas revistas, nos conteúdos veiculados nas redes sociais. Mas isto não conduz a uma banalização. Os conteúdos sexuais são sempre os mais vistos, os mais lidos, os mais procurados.

O sexo sempre esteve visível. O que talvez esteja [mais visível] são os genitais, a cópula, a nudez. Até na invisibilidade víamos alguma coisa. Tornou-se tudo muito mais rápido, à distância de um clique. Há consumo de informação, uma instantaneidade e uma democratização no acesso. Se procurar imagens de nudez, encontro. Mas se procurar informação sobre práticas sexuais seguras, locais de atendimento, linhas de informação, também encontro. A expansão não é só para a parte mais fácil, banal, espectacular. O difícil é perceber que critérios [usar para filtrar]. É o drama dos pais – os miúdos têm acesso à pornografia, à perversão, à informação. As pessoas procuram mais ajuda nesta área. Têm mais vocabulário para designar as coisas, questionam o que lhes é dito.

 

Exemplos.

“Existe mesmo um ponto G?”, “Não tenho orgasmo, será que tenho um problema sexual?”. Há dez, 20, 30 anos era inegável que isto seria um problema; hoje questiona-se. Há uma série de outros discursos que aparecem, comportamentos, testemunhos; e a partir deles as pessoas questionam-se. A sexualidade masculina está a mudar imenso. As pessoas dizem: “Agora há mais homens com falta de desejo”. O que há é mais homens a dizer quer têm falta de desejo.

 

O que era impensável. Um homem estava sempre pronto. Tinha sempre vontade.

Claro. Mas se um homem está sempre pronto, e a sua vida sexual não está ligada aos afectos, por que é que há tantos anúncios de prostituição a dizer “carinhosa, doce, meiga, conversadora”?

 

Há ou não Ponto G?

Parece haver uma forte evidência para a não-existência. Se meto o dedinho e vou lá à procura, aumento a probabilidade de me estimular, e de atribuir isso ao Ponto G. Será que as mulheres mais velhas são mais incompetentes e não o encontram, ou será que as mulheres mais novas encontraram nomes para dar às coisas? O que é que realmente interessa? É que as pessoas se permitiram procurar, estimular-se, tocar-se. A parte menos saudável disto é a procura da sensação máxima que nos torna hiper-vigilantes acerca do nosso corpo.

 

Em relação ao seu funcionamento, à prestação sexual?

E às sensações. “Ai, será que estou a ficar molhada?”, e verifico. “Será que os meus mamilos estão a ficar erectos?”. Mais vigilância em relação às sensações do próprio, mas também em relação às do outro. “Está a gemer; será porque está a gostar, será que estou a magoar?”.  

 

Aquilo que as pessoas procuram reproduzir ou praticar é o receituário disponível nesta enorme quantidade de informação.

É. Sou contra essas receitas. Mesmo em termos de terapia sexual, posso dizer: “Existe esta técnica, que tem uma taxa de eficácia alta, é feita assim. Mas vamos pensar se é esta a questão. Se implementar esta técnica e passar, por exemplo, a ser possível a penetração (porque antes não era), o que é que acha que vai mudar na sua vida, no seu prazer, na sua satisfação?”.

 

As receitas são bastante taxativas (e prometedoras…): dez passos para ter um sexo melhor…

Ou dez conselhos para comunicar no casal. Não consigo imaginar coisa mais anti-qualidade da comunicação do que seguir um receituário. “Não diga não”. Não diga não porquê? “Não acuse”. Não acuse porquê? Podemos evitar magoar o outro, mas também podemos pedir desculpa.

 

Quais foram, para mulheres e homens, as mais notórias conquistas das últimas décadas?

O pensar da sexualidade para além da genitalidade. O prazer já não é só sinónimo de orgasmo (para algumas pessoas eventualmente ainda é). A ideia de prazer ou satisfação é muito mais ampla. O verbalizar, o escrever sobre isso, é uma noção nova. A procura mais rápida de experiências intensas é também um ponto-chave. E passámos de um modelo em que as mulheres não têm vida sexual para um em que têm ejaculação feminina, Ponto G, multi-orgasmos, conseguem fazer sexo tântrico, têm prazer com o sexo anal...

 

O modelo dominante ainda é o monogâmico, do casaram-se e foram felizes para sempre. Mas a taxa de divórcios é altíssima. As pessoas não ficam na relação a qualquer preço. Apesar dos filhos.

Há o modelo da relação monogâmica, tida durante muito tempo e da qual se espera que venha tudo o que é bom. Há pessoas a quem isso não satisfaz; ou satisfaz durante um período da sua vida e depois deixa de satisfazer.

 

Este modelo não é forçosamente excludente de um outro: o da procura do prazer, da novidade, da transgressão.

É legítimo perguntarmo-nos se a banalização, o excesso, não leva a que as pessoas se tornem mais insatisfeitas, mais à procura da intensificação da experiência. Numa lógica consumista, faço com o sexo o que faço com os carros ou com os restaurantes: quero cada vez mais o extremo, o que me dá as sensações mais fortes.

 

Para elas, o sexo continua a ser o caminho a percorrer para chegar ao afecto e à relação companheira? Eles têm de as entreter com basófia amorosa para chegar ao que verdadeiramente querem, o sexo? Esta visão maniqueísta, redutora, deixou de vigorar ou não?

Há um cartoon que resume isso: “Faço sexo porque te amo, amo-te porque fazemos sexo”. O tipo ama a mulher porque faz sexo com ela, ela faz sexo com ele porque o ama. Se desmontarmos isso, temos de perguntar: a mulher que quer um amor companheiro, tem que ser para a vida toda? E se o sexo deixar de ser bom, quer ficar na mesma? O que é que espera disso? Se calhar uma mulher de 40 anos já não está à espera de ter uma grande vida sexual, porque não é representada nem se vê a ela própria como uma bomba que vai ter sexo muito bom.

 

No livro Sex, lançado nem há 20 anos, Madonna fazia a encenação das suas fantasias sexuais. Numa das fotografias, estava ao espelho a ver o genital. Na altura parecia uma cena especialmente audaz, provocadora.

E continua a ser. Onde é que vê genitais de mulheres hoje em dia? Só na pornografia. É escondido. Os próprios manuais têm quase sempre desenhos.

 

Porque é que se vêem os dos homens? E aí, pelo contrário, é quase sempre numa posição priápica.

Podemos dizer que é porque estamos numa sociedade falocêntrica. Porque está à vista. Porque é fácil. E depois, sempre foi condenada a expressão sexual das mulheres. Se emergisse, seria de uma forma desorganizada, histérica. Apesar dos anticoncepcionais orais, e do acesso à protecção do preservativo, feminino ou masculino, os riscos, os custos maiores são para as mulheres.

 

Por causa de doenças e porque engravidam.

E por causa da punição social que ainda existe.  

 

Se a pessoa apanhada no quarto de hotel em Nova Iorque fosse Anne Sinclair, e não Strauss-Kahn, a penalização social seria muito maior.

Claro. Nem conseguimos pensar nisso. Essas mulheres que têm carreiras em áreas tão masculinas são muito dessexualizadas, a começar pela forma como vestem. E normalmente, quando chegam a esses cargos, são mais velhas. Rapidamente passam o prazo de validade.

 

Os filhos são uma questão fundamental para a mulher de 40 anos. E é cada vez mais nessa idade que os têm. Depois da maternidade, tendencialmente deixa de ser a bomba sexual para passar a ser a mãe. Uma expressão muito sintomática disso: dentro do casal, o marido, pai das crianças, passa a chamar-lhe mãe.

O pai, as senhoras na maternidade, na escola…, deixa-se de ter nome. Passa a ser a mãe da Joana, a mãe do Carlos. E há uma pressão ainda maior sobre as mulheres. “Foi mãe há três meses e retoma a sua forma esplêndida”, “Mais sexy do que nunca agora que teve dois rebentos”. Porque é que tem que ser mais sexy? Os corpos, estes de que estamos a falar, das maternidades, que são tantas vezes dessexualizados, são muito erotizados nas representações antigas. As bacantes têm ancas largas e barriguinhas.

 

Mas isso hoje não é considerado sexy.

Voltámos à Lolita.

 

Isso de que falou é um símbolo da matrona, do que resulta da maternidade.

Há homens que desejam mulheres curvilíneas, com barriguinha. É engraçado olhar para os géneros na pornografia. Encontramos as MILF (mothers I would like to fuck). Dirige-se a um número de pessoas que sente desejo por corpos e mulheres que não são as teens, que é outro subgénero.

 

Quais são os grandes grupos, neste momento, na pornografia?

Gay, lesbian. Ebony (que é interracial). Os gang bang (as mulheres com múltiplos parceiros, em simultâneo). E depois os pequenos subgéneros, lesbian MILF, ebony MILF. Há uma indústria paralela, alternativa, com mulheres realizadoras, algumas ex-actrizes porno, outras não. Em termos das técnicas cinematográficas, não usam sempre o grande plano, andam entre o óbvio que não é óbvio, com temáticas, com narrativas.

 

É interessante que dêem a ver coisas diferentes, que romantizem o filme fazendo dele um objecto menos explícito.

Mas não tanto como estava à espera. Continuamos a estar no domínio, mesmo entre as mulheres realizadoras, dos jovens, belos, saudáveis, bem sucedidos e glamorosos.

 

Alguém que tem 60 anos, que observa ao espelho o seu corpo flácido, numa sociedade que faz o culto da juventude, quer ver num filme pornográfico outro como ele?

O que a pornografia e a observação da pornografia fazem aos homens em relação ao tamanho do pénis! Como a maior parte dos actores pornográficos tem pénis muito acima daquele que é o tamanho mais comum, muitos homens usam como referência aquela proporção; isto é causador de grande sofrimento. Mais do que a questão da imagem corporal global, que é a das mulheres, nos homens há uma preocupação com a barriga, com o tamanho do pénis. Há uma oferta de pornografia em que isto não acontece, e é mais tranquilizador. Mas há também muitos sites amadores, que cresceram imenso.

 

Porquê? As pessoas têm a ideia de que os filmes desses sites são mais “normais”?

Além da componente exibicionista de quem põe, diria que os sites cresceram porque as pessoas se identificam. O cinema facilita a identificação. O facto de não ser um tipo todo musculado, todo depilado, para muita gente é apelativo. Porque é mais próximo da vida que têm. Dá-lhes algum poder, sentem-se empowered.

 

A pornografia é olhada desde sempre como uma transgressão e uma explicitação de algumas das fantasias mais correntes. É interessante perceber quais são os géneros que aparecem. Dá-nos uma ideia do que paira na cabeça das pessoas.

O que é que é uma fantasia sexual? Todos temos uma espécie de entendimento sobre o que é isso. É um desejo recalcado? É uma ideia perseverante, só se quer fazer aquilo? Do que é que estamos a falar?

 

De um objecto não-concretizado ou concretizável?

Tenho muitas dúvidas. Diferentes fantasias nos filmes pornográficos? Aquilo não tem nada de fantasioso! Todos estes géneros são extremamente rígidos.

 

Mas são uma forma de consumação, e dão visibilidade a preferências.

Preferências, cenários, práticas. Não têm que ser necessariamente fantasias. Temos muitos discursos sobre fantasias, alguns culpabilizadores. Há pessoas que se sentem mal porque têm poucas fantasias, porque acham que a sexualidade boa é a de quem tem muita imaginação. Ou sítios muito exóticos, e muitas posições. A fantasia, uma definição possível: é um pensamento, uma ideia de conteúdo sexual, que pode ser, até, não necessariamente boa.

 

Essa definição parece do dicionário. Asséptica. Traduza isso.

Posso dar comigo a ter uma imagem de mim própria a ser violentada, que é uma coisa que não quero. Ou a violentar alguém. Nem todas as fantasias são sentidas pelas pessoas como boas. E muitas pessoas auto-observam-se e têm um deleite, gostam de falar sobre as fantasias que têm e não estão a pensar concretizá-las. Tentar perceber qual é o significado daquela fantasia, isso sim, é importante.

 

Duas das fantasias mais comuns, apontadas por homens e mulheres quando se fazem as inevitáveis listas, são, no caso delas, o sexo com desconhecidos, e que implique alguma força. Li um testemunho de um prostituto que dizia que recorrentemente as mulheres lhe pediam que criasse um quadro de quase violação, inescapável para elas. No caso deles, a fantasia apontada era ver duas mulheres.

E depois eles aparecem para aquilo ser bom!, só as duas não é bom [riso]. Os homens fantasiam com duas mulheres, mas fantasiam-se a eles em acção.

 

O homem é o salvador daquelas desviantes, aquele que finalmente pode dar prazer àquelas mulheres incompletas – é com isso que fantasiam?

Sim, são incompletas porque não têm o prazer da penetração do pénis. Outra ideia subjacente a essa fantasia é a das múltiplas fontes de prazer. Duas mulheres implicam uma variedade de estímulos em diferentes zonas do corpo.

Além da questão do falo reparador – o pénis que vai ali resolver o problema – também há a questão do poder. É um bocado difícil dissociar a sexualidade do poder. Isto leva-nos à fantasia das mulheres que apontou. Aquelas mulheres querem ser violentadas no sentido em que são agredidas? Ou pode ser interessante uma prática que, sendo imposta por fora, legitime que elas a façam?

 

Desculpabilizam-se porque foram forçadas. E por causa disso permitem-se fazer o que, em condições normais, não aceitariam.

É o descontrolo. As pessoas sabem que quando estão excitadas, e não estão demasiado controladas, deixam-se ir, deixam-se fotografar, fazem uma série de coisas incautas. O estado de excitação implica alguma perda de consciência, e legitima: “Ao princípio não queria, mas depois…”. Isto só é possível num contexto de duplo padrão moral. O discurso da sexualidade da mulher é muito pensado em função dos desejos masculinos. Isso continua a acontecer mesmo nos discursos mais libertadores. “Liberte-se, faça surpresas ao seu marido. Vista uma lingerie sexy para lhe agradar, seja ousada”. Isto é que é a liberdade? Libertar as mulheres é dizer-lhes como têm que ser?

 

Como têm que ser para agradar aos homens.

A socialização para o género ensina-nos a dizer: “Não consigo fazer amor se não estiver apaixonada. Não consigo ter prazer se não for com uma pessoa de que gosto”.

 

O que é a socialização para o género? Concretize.

Pequeninos. Se mexe as perninhas, e é rapaz, vai ser futebolista. Se mexe as perninhas, e é menina, vai ser fresca. Está a ver a diferença? Uma menina de quatro anos que ande a levantar as saias: “Tem que se ter mão nela”. Um rapaz que não queira jogar à bola, que não goste de jogos de competição com outros rapazes, vai ser maricas ou a mulher vai mandar nele. Nisto temos todos um papel. Montei uma consulta de sexualidade no espaço Diferenças, encaminhavam-me vários casos, alguns deste tipo. O menino tinha que ir à psicóloga porque não gostava dos brinquedos de rapaz, fazia desenhos com temática de menina. Fala com os pais, tenta perceber: “Mas a criança é feliz? É”. Então onde é que está o problema? Está a fazer aquisições, é autónomo. O problema está nesta ideia. Isto está tão enraizado que os homens dizem: “Tenho uma parte feminina, gosto de decoração”.

 

As mulheres são educadas para a monogamia, para a relação estável e duradoura.

Sim. Não se diz: “Quando fores crescida vais encontrar imensos homens de quem vais gostar, vais ter montes de experiências sexuais diversificadas”. Procurar actividade diversificada não é aceitável. Até porque vai ser mãe. Há todas estas ramificações, contágios. Está a construir um passado.

 

A reputação parecia um fardo pesadíssimo, do qual a mulher se libertou depois da pílula, da emancipação económica e profissional, quando caiu o fantasma da virgindade. Mas com as redes sociais voltámos à situação em que há um passado que nos persegue, sendo nós cúmplices desse processo: porque “postamos”.

“Posta” quem “posta”. Somos voyeuristas. No princípio era o olhar. Gostamos de ver ou imaginar o que poderíamos ver.

 

Isso é para ver como são os outros ou para nos confirmarmos na nossa normalidade/particularidade?

Por um lado isso – “Não sou assim, nunca faria aquilo”. Tapam-se os olhos com os dedos abertos [riso], para ver bem. “Postar” algo da intimidade de uma pessoa é uma violência enorme. Associa-se o prazer à violência.

 

Porquê esta associação? É a sensação de estar para lá dos limites?

Há um número restrito de pessoas que associa prazer e dor. Outra coisa são as pequenas agressões que as pessoas usam no seu erotismo. Os pequenos chupões, as mordidelas, a pancadinha no rabinho.

 

Quando vemos filmes dos anos 70, posteriores ao Maio de 68, à pílula, ao divórcio, assistimos a códigos libertinos, à experimentação. Um exemplo: festas nas quais se deixa a chave à entrada e se sai, não com o par, mas com outro cuja chave foi tirada à sorte. Estas imagens são a espuma de um tempo? Os filhos desses são mais conservadores?, procuram sexo com intimidade, encontros menos fortuitos?

As pessoas que punham as chaves para trocar de casal, se calhar também tinham relações íntimas. Não será isto um preconceito? Esta ideia de que a intimidade tem que ser a dois. Estou só a pensar, não estou a responder. Existe a norma, e a norma é sempre o caminho mais fácil. É mais fácil se uma pessoa se apresenta como casal; não é só socialmente, financeiramente também. As pessoas que optam por não seguir esse caminho têm que se confrontar com algumas dificuldades. E outras não optam, aconteceu assim. Hoje em dia isto não tem que ser tão pesado. Antigamente ficar solteirona era uma coisa horrível, era um atestado de incompetência.

 

As que ficam solteironas, se calhar não têm o mesmo atestado de incompetência; mas não sentirão culpabilidade por ter falhado uma dimensão importante nas suas vidas? Ou que a sociedade lhes ensinou que era importante nas suas vidas.

Sim. Como as mulheres que não têm filhos. É difícil perceber se realmente é o que querem ou se pensam que é o que querem porque lhes foi dito [que era assim que devia ser]. A pessoa sabe que não cumpriu o guião que esperavam de si, na sua intimidade, nas suas relações. Ao mesmo tempo, não sabe o que é que a vida lhe reserva; se calhar pertence a outros guiões e a outras histórias.

 

Essa diversidade de enredos ainda causa uma enorme estranheza nos próprios e nas pessoas à volta. O que é notório, por exemplo, quando alguém aos 30, 40, 50 anos revela ou descobre que tem uma orientação sexual diferente.

Ou tem ou mudou.

 

Muda-se? Também existe o preconceito de que essa orientação sempre esteve lá, a pessoa é que não tinha coragem para a assumir.

O que me parece é que há muitas sexualidades. Criámos esta divisão, homossexual, heterossexual, com a qual muita gente se identifica.

 

Os bissexuais, mais do que indecisos, são considerados pouco determinados ou incapazes de fazer uma escolha.

As histórias de vida das pessoas são muito mais ricas e diversificadas que estas divisões. Podemos encontrar pessoas que sempre se identificaram como heterossexuais e que têm práticas ou fantasias com o seu parceiro heterossexual que incluem a ideia de que estão a ter sexo com alguém do mesmo sexo. O que é isto? Será que aquela pessoa tem uma homossexualidade recalcada?

 

Dizer que uma pessoa tem uma determinada orientação sexual é um rótulo que se lhe cola. Ao colar o rótulo, o que se quer é que ela seja sempre a mesma coisa, uma coisa com a qual podemos contar?

O que se quer é uma cristalização. E há muitas pessoas que não são assim. Pensamos que uma pessoa, porque tem uma orientação sexual que não é maioritária, tem um problema associado. Depressões, que já tentou suicidar-se, deve ter sofrido muito. São anos e anos de processos internos da pessoa, da família, dos companheiros, da sua história de vida. Por outro lado temos tendência para pensar que se se libertou, se assumiu a sua identidade, agora está tudo bem.

 

E não está?

Esta questão dos rótulos é complicada. Dizemos não-heterossexual e estamos a dizer que o heterossexual é que é bom. Dizemos homossexual e estamos a utilizar um termo que foi utilizado para dizer que as pessoas são doentes. Mas um heterossexual pode ter problemas na sua sexualidade, pode ter dificuldades na sua intimidade, pode ter prazer, pode começar e acabar relações. Hoje em dia defendemos que é a pessoa que se auto-define.

 

Ainda na pornografia, uma das constantes é o sexo anal. Porquê?

É um género. A leitura mais imediata é a da dominação – colocar o outro no lugar do dominado e sentir-me como dominador. Mas se pensarmos bem, tem a ver com uma visão do que é o sexo anal – com o outro de costas para mim. Esta visão tem associado o não haver contacto visual, que é um aspecto que não podemos descurar. É um grande mistério, se por parte das mulheres que praticam, lhes dá ou não prazer. Há dados pouco conclusivos acerca disto, e muito contraditórios. É algo que se faz porque sabemos que dá prazer à outra pessoa, ou não? É uma prática de difícil execução. É difícil o relaxamento do esfíncter, e a contracção involuntária também.

 

Difícil, doloroso? Estamos a falar num quadro heterossexual, homossexual?

Em qualquer um. É uma prática que exige algumas condições, ao nível da intimidade, dos cuidados de higiene, da comunicação, para ser praticada; e que pode facilmente ver-se associada à violência, à agressão. É preciso o outro estar muito relaxado e muito à vontade para não ser desagradável.

 

O sexo anal e o sexo oral eram, aos olhos de uma prática conservadora, coisas que não se faziam com as mulheres legítimas. Por aí não passa de todo a procriação. Umas coisas faziam-se em casa, outras faziam-se com as amantes ou com as prostitutas. Isto faz ainda algum sentido?

Com a libertação de que falámos, com a igualdade do prazer, vimos a introdução dessas práticas dentro do contexto relacional, como potenciadoras do prazer, do conhecimento do outro e do próprio. O aparecimento do HIV mudou radicalmente o discurso da sexualidade para a liberdade, para a diversidade e para a experiência. Vemos isso na pornografia, começam a aparecer preservativos, fazem testes aos actores. Muita gente dentro da indústria morreu por infecção. E vimos práticas mudar. Vingou a ideia de que o sexo oral é seguro. A probabilidade, de facto, é muito diminuída, comparativamente ao coito. Então, algo [como o sexo oral], que se fazia depois de se conhecer a pessoa com quem se está, hoje em dia acontece antes.

 

Pratica-se como se fosse um preliminar?

Não é só um preliminar. Muitas pessoas que iniciam a sua vida sexual com penetração já fizeram sexo oral antes. Não é quando as duas pessoas estão juntas, é em termos de história da própria pessoa. As pessoas estavam muito focadas na virgindade, no romper ou não romper o hímen. Passavam essa barreira e depois começavam a explorar outras coisas. Hoje em dia o coito, a penetração, como tem mais riscos associados, fica para o fim. Não conheço os estudos feitos cá, mas no Canadá e nos Estados Unidos é isto que tem sido encontrado.

 

O sexo num quadro de conjugalidade é diferente daquele que se tem quando se tem relações avulsas.

Porquê?

 

Tenho ideia que uma das queixas mais recorrentes dos casais tem a ver com a falta de desejo, e isso muitas vezes acontece porque se cai na rotina.

Falta de desejo ou insatisfação? Tem-se confundido as duas coisas. Dizem que pode haver entre dez a 60 por cento de mulheres sem desejo.

 

O que é que pergunta para saber se as pessoas têm desejo?

Tem falta de desejo em relação a quê? Ao que gostaria de ter, ao que tinha no passado, ao que tinha com outro companheiro? Ao que o seu companheiro ou companheira tem, ou espera que tenha? Em relação ao corpo e à vida que tem? Às doenças e não doenças que tem? É preciso perceber isto. Há pessoas que gostariam que o desejo fosse exactamente como nos primeiros três meses de namoro.

 

Não é crível, apesar de desejável.

Falam da rotina, mas o que acontece é o acesso. O outro está ali, acessível. Não há a criação de expectativa. E depois, a própria sexualidade vai mudando de papel dentro da vida das pessoas. E há muitos encontros e desencontros. Como naquele verso do Sérgio Godinho: “À espera do comboio na paragem do autocarro”. Às vezes é mesmo isto. Estou à espera de ter um desejo imenso quando não me sinto desejada, ou quando a minha relação está deserotizada.

 

O que é que se faz quando as relações estão deserotizadas, ao cabo de dez anos de casamento e com dois filhos? Ter dois filhos que podem entrar no quarto dos pais num domingo de manhã inibe, por exemplo, a utilização de brinquedos sexuais?

Claro que altera, por isso mesmo não se pode ter o mesmo desejo que se tinha quando não havia putos. Se já não é a mesma coisa, que seja como pode ser. Se os putos podem entrar no quarto e mexer nos brinquedos, temos de os meter num sítio onde não estejam à mão. Ou vamos ter que ter relações quando não estão ali ao lado e sabemos que nos vão bater à porta de três em três minutos. É o ideal? Há um americano que diz: “The good enough sex”. Até acho um bocadinho conformista. Não podemos é, perante a dificuldade, cristalizar.

 

Muitas situações de separação e divórcio resultam de as pessoas não serem capazes de fazer aquilo que entendem como uma concessão em relação ao que é o seu ideal. Não se conformam que as coisas não sejam tão gloriosas como já foram, ou consentâneas com o que idealizaram. E vão ter relações extra-conjugais, vão ter relações virtuais, qualquer coisa que lhes dê essa dimensão que lhes falta em casa.

Isso é a tal questão da insatisfação. O divórcio ou a separação é muitas vezes visto como um fracasso, porque temos a ideia de que uma boa relação é a que dura sempre. Consideramos que a permanência na relação é o principal indicador de sucesso. E foi bom? Ou tinham uma relação muito boa, de grande qualidade, e quando começou a perder alguma qualidade acharam que era melhor acabar? As pessoas da terapia familiar muitas vezes dizem que quando os casais as procuram já estão muito perto do fim, que querem salvar o animal quando o animal está morto ou moribundo.

 

Porque não perceberam antes que estava moribundo? É porque um deles já decidiu que está morto e o outro quer ainda que ele ressuscite?

Pode ser. Às vezes há uma pessoa muito motivada para a reconstrução do casal e da conjugalidade, e outra pessoa que já fechou. É preciso perceber quando é que acabou a relação amorosa enquanto projecto. A relação não acabou quando começou o divórcio.

 

Outro cliché: o sexo continua a ser um excelente indicador da saúde do casamento?

Dizem que a sexualidade é o barómetro. A satisfação com a vida sexual e a satisfação relacional estão muito relacionadas uma com a outra. É a história do ovo e da galinha: não sabemos se as pessoas têm vidas sexuais melhores se têm relações mais satisfeitas, ou se, por as relações serem melhores, têm relações sexuais mais satisfatórias. Há pessoas que têm uma relação altamente sexual, e há pessoas que têm poucas metáforas sexuais, actividade, frequência, mas que têm uma óptima relação.

 

O que é que é ser bom na cama?

Não faço ideia, não sei responder a isso. Mas posso dizer uma coisa: há tanta coisa que os homens e as mulheres têm em comum… Uma delas é o medo da incompetência sexual.

 

Eles e elas acham que não são bons o suficiente? Que o outro os deixou porque não são bons o suficiente, que o outro já não lhes liga porque não são bons o suficiente?

Acham que é muito importante ser competente sexualmente.

 

Vivemos sob o jugo da competência. Temos que ser competentes profissionalmente, competentes a ganhar dinheiro, competentes a criar uma família. E competentes na cama.

Estamos sempre sob avaliação. Portanto, fizemos, qual é o nosso rating?

 

“É melhor do que alguma vez foi? Se comigo for melhor significa que gosta mais de mim, que sou especial”?

Isso é uma coisa um bocado narcísica, de competição. Todos queremos sentir-nos especiais em alguma coisa. Adoro o título do Stieg Dagerman, A nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer. Sentimo-nos únicos e precisamos que o meio nos confirme isto. O meio não confirma nada disto. E então há pessoas que têm que confirmar isto. Que são reparadoras, validantes. Isto muda todo o discurso do prazer, do hedonismo, do sozinho.

 

Porque a confirmação vem do outro? Não nos bastamos.

Sim. Só sou bom se for avaliado por alguém. Temos Narciso estarrecido a olhar para a sua imagem, que é tão bonita. A analogia seria uma pessoa que tem a masturbação, só, a quem não interessa mais nada. Mas de uma forma geral ser bom é ser bom para o outro, implica sempre a relação, o feedback. Isto é vivido com angústia.

 

Muitas imagens do que é ser bom na cama, a que é que isso corresponde, são veiculadas pelo cinema e pela publicidade. No Nove semanas e Meia, Kim Basinger parece ter imenso prazer, mas sob o ponto de vista anatómico aquelas posições dificilmente provocam um prazer intenso; por exemplo, porque não há fricção clitoriana.

Estamos a falar de artes circenses, malabarismo, contorcionismo. Digo assim: “Alguém foi para a cama com alguém”. Quais são as imagens que tenho na cabeça? A cama. E que estão deitados. Não disse que estavam deitados. Temos estes guiões, muito reforçados por estas imagens repetidas constantemente nos filmes. As pessoas tentam diversificar, experimentar posições que são desconfortáveis, à procura do tal sexo perfeito.

Além do cinema e da publicidade, há uma coisa importantíssima, as pequenas narrativas dos videoclips. Observo as camadas mais jovens através destas coisas. Há micronarrativas muito sexualizadas, uma série de trejeitos corporais, quase um doutrinamento. O problema é que temos poucas narrativas e representações alternativas. Lembro-me de ter visto duas coisas em cinema que achei geniais. Uma é no Carne Trémula, do Pedro Almodovar; um indivíduo com deficiência motora a dar prazer a uma mulher. E outra no Fiel Jardineiro; ela está grávida mas é apresentada como uma mulher desejável, aparece no banho e ele está altamente estimulado pela sua nudez, e durante todo o filme ela é referida como alguém que podia ter tido uma relação extra-conjugal, durante a gravidez. Isto é raríssimo.

 

O Nove Semanas e Meia leva-nos para os tipos de orgasmos femininos. A mulher pode ter prazer se não houver um contacto clitoriano?

Não gosto de dizer coisas que levam as pessoas a andar à procura do Santo Graal. Se acontece, é muito difícil. Implica um treino muscular muito específico, uma grande concentração. Mas prazer e orgasmo não têm que ser sinónimos. O orgasmo é muito bom e as pessoas não devem desistir de ter, de procurar ter, de querer ter. Há a ideia conformista do “não tenho sempre, mas não faz mal”.

 

Os homens sentem-se incapazes pelo facto de elas não terem orgasmo sem estimulação manual ou fricção clitoriana? Como se a penetração não fosse suficiente para lhes dar prazer ou as fazer ter orgasmos. Como se eles não bastassem.

Só com a penetração é difícil. Por isso é que se sentem mal.

Os primeiros brinquedos sexuais, de uma forma geral, tinham uma forma de pénis. À medida que nos despimos dessa crença (que com a penetração a coisa vai lá), até os brinquedos sexuais mudaram. Hoje em dia temos uma série de estimuladores que têm a função de dar prazer às mulheres e que não têm nada da forma peniana.

Pode haver motivos muito diferentes que conduzem à sensação “não chego para ela”. Um pode dizer isso porque está aflito com o tamanho do pénis. Outro pode dizer isto porque ela sozinha masturba-se e com ele não consegue ter prazer. Ou pode ser uma pessoa que tem um problema de ansiedade social, de avaliação e desempenho, em todas as áreas, e esta é mais uma. Se calhar é um tipo que acha que tem de ouvir de todas as pessoas com quem está, 20 vezes: “És o máximo”. Ou que acha que dez vezes por noite é que é e só consegue cinco. O que é que está ali por trás?

 

 

Publicado originalmente no Público em 2011

 

Fla-Flu no Maracanã, c/ Nelson Rodrigues

11.07.18

No último domingo de Agosto [de 2008], fui ao Maracanã ver o Fla-Flu. Na verdade, fui à bola com Nelson Rodrigues – que era tudo o que me interessava. Porquê? Porque o Nelson Rodrigues escreveu coisas deste calibre: “Pelé põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha”. “Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: “Como vai, colega?”. Ainda sobre Pelé: “Vá jogar assim no diabo que o carregue”. Cinquenta anos depois de Nelson ter eleito Pelé o seu personagem do ano, eu peguei no pesado livro de crónicas e sentei-me na bancada. A vibrar com o Nelson, a sonhar ver um Pelé.

Primeira coisa: por quem torcer? O futebol não tem graça se não nos fundirmos com o “time”, com a “torcida”. Para mim, o futebol não tem graça se não olhar para a cara das pessoas, para ver como se transformam em animais. Para assistir aos “espasmos colectivos que só o Tolstoi de “Guerra de Paz” ousaria descrever”. Eu preciso de detectar as “náuseas de pavor homérico”. De perceber como “sob o estímulo da pusilanimidade, tubarões e pé-rapados largam a mesma baba, elástica e bovina”. Perguntaram-me de quem eu era – é-se de alguma coisa, e o sentimento de pertença é vigoroso, exclusivista, definitivo. Mário Filho, irmão do Nelson, jornalista desportivo que deu o primeiro nome ao estádio do Maracanã, dizia que se podia mudar de país, de mulher, de emprego; menos de clube de futebol. Eu respondi: “Sou Flu”. Serei redundante se disser que torci pelo clube do Nelson Rodrigues.

Estava desde logo em desvantagem. Porque o Flu estava no fundo da tabela (no momento em que escrevo, está em penúltimo lugar…), e porque a torcida do Fla é a maior do planeta. Mas o futebol interessava-me muito pouco; para ser franca: não me interessava absolutamente nada. Desconhecia em absoluto o nome dos jogadores, mas fiquei enfeitiçada com as categorias em que se subdividem: volantes são o quê?, zagueiros são os que fazem ziguezague pelo campo?, goleiros são guarda-redes – essa até eu entendo. Desconhecia as canções, mas fiz um esforço para aprender: “Eu canto ‘Nense quando o time está bem/ eu canto ‘Nense quando o time está mal/ um gol sofrido não vai me abalar/ não vou parar de cantar”. A dos outros era mais enfática e exortava à vitória: “Somos Flamengo/ Vamos ser campeão/ Vamos Flamengo/Amor e paixão”.

Desconhecia os insultos, mas rapidamente fiquei inteirada: vai tomar no cu é forte e é capaz de ser equivalente ao nosso filho da puta. Não é que não se use o filho da puta, mas essa não é uma fórmula de insulto preferencial.

Uma mulata que estava atrás de mim quase partiu as cordas vocais de tanto berrar. Ainda a estou a ouvir a pronunciar caralho, sílaba após sílaba, como se a estivessem a matar e ela cuspisse nos seus assassinos. Chamar-lhe histérica seria pouco. Estava endemoninhada. E nem o exorcismo do golo ou a sensualidade dos jogadores a acalmou. Fazia de caralho um sufixo, para gritar coisas tão simples quanto: solta, corre, chuta. Uma menina fina confidenciou-me em surdina: “Estava a pensar dar-lhe qualquer coisa para dormir… um pouco de veneno mesmo!”. Não era o facto de debitar o palavrão de forma incontinente que transtornava a bancada. Era porque a criatura impedia que cada um dissesse alto o seu palavrão – e que se ouvisse. E o palavrão tem um efeito libertador. Uma catarse que essa mulata não podia impedir. A outra razão, talvez principal, para que a bancada inteira lhe rosnasse, era a mulata torcer pelo Fla numa zona ocupada pelo Flu.

Para quem não sabe, e eu não sabia, “nenhum clássico se compara, em alma, chama, personalidade, ao Fla-Flu”. Era assim em 1958, e os adeptos do Benfica-Sporting deste fim de semana devem dizer o mesmo. Na verdade, equivalem-se: o Flamengo, como o Benfica, é o clube popular, sanguíneo. O Fluminense, como o Sporting, é o clube elitista, fleumático – se é que o adjectivo pode ser usado quando se fala de futebol; é aquele que tem classes AB, como as estratificam na televisão. É o clube dos intelectuais, que dominam a verve e que são capazes das maiores grosserias. Muito mais aterrador do que o caralho da mulata foi ouvir a claque gritar, a um minuto do fim, com vantagem no marcador: “Favela, favela, silêncio na favela!”. Um australopiteco levantou-se ainda para a última marretada: “Vai passar fome!”. Vermelho, ufano, fascista. Uma pessoa engole em seco e tem vergonha de torcer pelo Flu, apesar do Nelson… E não consegue não aplaudir quando “o Flamengo persegue a bola com fanática disposição” e marca golo logo a seguir. A justiça (social) divina, vinda do Cristo Redentor, que se via de todo o lado, ou dos Céus mesmo, repôs a igualdade. (Repôr a igualdade é tudo o que eu sei dizer em futebolês).

Nelson tinha simpatia pelo Flamengo. É muito estranho constatar isto. Não se imagina um adepto do Benfica a ter simpatia pelo Sporting. Conheço um troglodita que diz que não quer que o Sporting ganhe, quer é que o Benfica perca… Mas é normal que no futebol todos se transformem um pouco em trogloditas e digam idiotices chapadas. Quanto mais trágicas, espasmódicas, um pouco pulhas mesmo, as coisas que se dizem, tanto melhor. Menos saem cá fora, no emprego e na família. E se vamos ver o espectáculo, ao menos que ele contenha pathos

Mas Nelson Rodrigues, além de escritor genial, tinha gestos magnânimos. Poucos, mas tinha. E tinha simpatia pelo adversário. “A raiva dos 22 homens deu um colorido muito especial à batalha”. Oh, que saudades dos tempos em que o relvado era um campo de batalha, em que se jogava com raiva… Nunca vi o Cristiano Ronaldo jogar com raiva, mas posso estar a precisar de ir ao oftalmologista. Vi-o jogar com brio, com peneiras, com empenho. Mas nunca com raiva. Mourinho, que é tu cá tu lá com a raiva, sabe bem da importância de puxar pela besta que há em cada jogador. E pela do torcedor. É por isso que o Mourinho é o Mourinho. (Não levem a sério que eu nunca vi um jogo do Mourinho, mas é o que me parece numa análise comportamental de trazer por casa).

Como o Nelson, a mim interessam-me mais os estados de alma do que a condição física. “Uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocupou de uma dor-de-cotovelo que viesse a acometer um jogador e a incapacitá-lo para atirar um vago arremesso lateral. (…) Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse frequentado, previamente uns cinco anos, o seu psicanalista”. Ou seja, senhores técnicos do Benfica e do Sporting (não tenho ideia quem sejam): ponham os rapazes no divã que é tão importante quanto a marquesa e o relvado. Os rapazes podem estar machucados, mas é preciso saber se estão magoados.

No Maracanã, alguns jogadores saíram machucados, num carrinho que parece um papa-móvel. Eu gostava mais quando, na minha aldeia, se espatifavam todos no solteiros contra casados e iam de maca, a verter sangue, para os balneários. Ninguém diz que um jogador está magoado – porque isso seria dizer que ele tem os sentimentos feridos. Nem tão pouco aleijado – porque isso seria dizer que estava incapacitado (manco, estropiado, perneta, coisas assim).

Eu saí a cantar o “Cant take my eyes off you”, que o Flamengo adaptou. E cheia de sede. Por uma razão que não consigo descortinar, as mulheres não são obrigadas a passar pelo detector de metais – onde já se viu uma mulher usar arma de fogo??? – mas não podem levar para o interior do recinto uma garrafinha de água. Saí desiludida por não ter visto um jogador como aqueles que Nelson descreve: “Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”. Me desculpem, pô, depois de uma frase dessas não consigo escrever mais nada…

Apesar disso, consigo seguir o coração: desci as escadas e fui posar junto ao busto do irmão de Nelson, Mário Filho. Muito perto estavam as pegadas de Pelé e Garrincha. Muito perto estavam os milhares de pessoas que foram à guerra (uma guerrinha…) e voltaram. Extenuados. Felizes. Pais e filhos. Maridos e mulheres. Amigos e amigos. Muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Muita “camiseta” do Fla – eles são mais do que as mães. Os candidatos às eleições municipais aproveitaram para encher o ar com a sua música estridente. Silenciou-se a bateria do samba. Na verdade, o que ali se passou foi uma dança. Tribal.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008. 

 

 

 

 

 

Dolores Aveiro

11.07.18

Dolores Aveiro é a mãe de Cristiano Ronaldo, como toda a gente sabe. Tem uma história de pessoa humilíssima que sonhou o sonho de ser feliz. O discurso oscila entre o pungente e o cru. De uma violência de que parece não se dar conta ou, simplesmente, com que aprendeu a viver. E depois aconteceu um sonho.

Podemos chamar-lhe apenas D. Dolores? As coisas simples vão bem com ela.

Em resumo, foi esta a sequência: D. Dolores chega a casa, passa um iogurte grego e uma gelatina ao neto. Não tira os saltos de uns dez centímetros, apesar de ser fim da tarde e do cansaço. Pergunta: “Vai ser longa, a história? Por causa da garganta. E quero ver o jogo”. Não viu o jogo. O Real Madrid ganhou por quatro a zero, Ronaldo não marcou mas assistiu dois golos. A história, a entrevista foi longa. Estava quase sem voz. Continuou com a voz abafada quando terminámos, hora e meia depois.

Não parece ter 60 anos. A pele é bonita, lisa. Não exibe os sulcos de uma vida pobre e triste. Nem se apagou um sorriso e uma candura que pareceriam impossíveis (atendendo ao tanto por que passou, o orfanato, os maus tratos, a carestia). Há nela, quando fala do gosto de lavar o quintal, de mangueira, descalça, uma espécie de milagre. Como uma criança que chapinha na água e que não conhece maior prazer. A água da sua mangueira, o seu quintal. Qualquer coisa que é sua depois de uma vida espoliada.

Espoliar: tirar ilegitimamente.

Foi espoliada pela vida (passe o tom melodramático da frase). Então lutou, quase desistiu, lutou. O seu testemunho é um retrato do que a pobreza faz. Do que é sobreviver a partir do chão. Há nele uma humanidade que comove e que se sobrepõe ao grito, à urgência, ao rude.

No final da entrevista prestou-se às fotografias. Foi uma moça divertida com este papel. Uma vez ou outra brincou com o neto. “Como é que o pai faz quando marca um golo?” E o menino de quatro anos desliza pelo chão, de joelhos, como o pai, o melhor jogador do mundo, desliza pelo relvado, e culminam, um e outro, a celebração com um gesto de braço e punho erguido. Cristiano também imitou a pose do pai, aquela pose de gladiador, que antecede a marcação de um livre. Pernas abertas, cara furiosa, a arfar. A avó delirava. Este menino e o pai deste menino são os seus meninos d’oiro.

Não falámos de Messi nem de rivalidades. Não falámos dos outros filhos (além de pequenas referências). A entrevista foi combinada com as editoras da Matéria Prima, que lançou o livro Mãe Coragem, escrito por Paulo Sousa Costa. Foi com uma delas que chegou a casa, e seguiu directa para a cozinha e o iogurte e a gelatina. A outra estava lá, à espera. Vinham de um evento, fora de Lisboa. Tinha chorado um pouco e os olhos estavam esborratados. Não chorou nunca na entrevista.

No Facebook, onde é seguido por mais de cem milhões de pessoas (é mesmo isso, cem milhões de pessoas) Ronaldo escreveu, ao lado dela, erguendo o livro: “A minha mãe é, sem qualquer dúvida, uma mãe coragem. Sinto-me muito grato e orgulhoso por ser filho dela e tê-la na minha vida”.

Eis aqui a D. Dolores, esta terça-feira [de Dezembro de 2014, pouco antes do Natal].

 

Comecemos por uma recordação da infância do Ronaldo. Uma brincadeira consigo. Uma história. O que é que lhe ocorre?

[muito prontamente] Quando ele era pequenino, eu chorava muito pela vida que levava. Ele dormia na minha cama. Dizia: “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. E foi verdade.

 

Quantos anos tinha quando dizia isso?

Uns cinco, seis anos. Foi uma coisa que me marcou para sempre.

 

Já dizia que ia ser um grande futebolista?

“O que é que queres ser quando fores grande?” “Quero jogar à bola.” Mas nunca julguei que chegasse ao patamar a que chegou. Com o passar do tempo é que vi que o meu filho tinha dom para o futebol. Vi que ia dar alguém. Às vezes penso que é um sonho.

 

E ele, imaginava que ia chegar onde está?

Não, não. Diz que se eu não o deixasse vir para cá [Lisboa] não dava jogador. Trabalhava na construção civil ou aprendia uma arte. Como o irmão mais velho. O irmão trabalhava em alumínio. Fazer janelas, portas.

Dizia que ia jogar à bola, ganhar muito dinheiro e ajudar a mãe. Mas nunca lhe passou pela cabeça. Dizia por dizer.

 

O que quero saber: ele sempre acreditou? Vemos hoje que tem, como dizia o meu colega fotógrafo, Nuno Ferreira Santos, “um querer gigante”. Todo ele é força de vontade...

E trabalha muito. Quando veio aos 12 anos, passou por muito. A maneira de ele falar: gozavam.

 

Este sotaque que tem era o que ele tinha?

Sim, e talvez pior, como criança. Ele telefonava-me de uma cabine. Falava e chorava. “Mãe, vou desistir.” “Filho, se é disso que gostas, luta. Luta, que a mãe não te vai cortar [as pernas].” Ele foi percebendo aquilo que ele era. Havia um treinador que era da Madeira e comunicava-me: “O Ronaldo é um grande jogador. Tem vontade. Acaba o treino e vai outra vez para o ginásio. Criar músculo.” Quando ia à Madeira, de férias, pegava em baldes cheios de pedra para fazer musculação. Punha meias grossas cheias de pedra que amarrava contra as pernas [aponta para barriga da perna].

 

É uma mistura de talento, vontade e trabalho?

São essas três coisas. Ele é uma pessoa que quer sempre mais. Trabalha para mostrar sempre mais.

 

Para mostrar a quem?

A todo o mundo. A ele próprio. A pensar: “Sou capaz, vou fazer”.

 

Nunca duvida?

Não. Ele mete na cabeça que é capaz e consegue.

 

Quando é que foi inseguro?

No princípio, quando chegou aqui. Para se adaptar. Na escola. Eu dizia-lhe: “A mãe vai aí no fim de semana, vais ficar bem”. “Venha, venha ver o jogo.” Vinha. Ficava comigo à noite. Já ficava calmo. A vontade de querer vencer, mesmo: foi a partir dos 15, 16 anos.

 

Já foi duas vezes o melhor do mundo e agora está numa de bater records. Ser o melhor marcador... Fala desses objectivos?

Fala. Comigo, com os irmãos. O ano passado disse assim: “Bem, marquei 31 golos. Tenho esperança de receber a bota [de ouro]. Para o ano, a ver se consigo marcar mais.” A prova disso: ainda não está a meia volta dada e já tem 25 golos.

 

Sempre tiveram uma relação assim íntima? Para ele sempre foi fundamental tê-la por perto?

Sim. Um rapaz assim que tenha ao lado um bom pilar, ajuda muito. É um homem feito, hoje. Tem os pés assentes na terra. Mas gosta que esteja ao lado dele.

 

Porque é que acha que ele nunca se deslumbrou?

Porque dá valor aquilo por que passou. Foi uma criança que viu os outros ter coisas melhores do que as dele. Sabia que tinha consoante aquilo que eu podia dar. Tanto que disse: “Mãe, vou ser pai. Quero que a mãe dê uma educação ao meu filho como aquela que me deu a mim”.

 

Quando é que ele soube do tanto que a senhora passou na sua infância?

Sempre contei. Os meus quatro filhos e eu, à noite, quando se estava na cama, cantava para eles. Cantava músicas tristes. “Menina que estás fazendo, sentada no cemitério, sozinha...” Essas coisas assim. O Ronaldo sabia que eu tinha madrasta. Tratava-a por mãe, mas ele sabia que não era a minha mãe verdadeira. Nunca escondi nada dos meus filhos.

 

Dê-me um momento da sua infância com a sua mãe, feliz. Ela morreu quando tinha cinco anos.

Era bordadeira. Bordava com vizinhas, muitas senhoras. As toalhas eram muito grandes. Cada uma bordava numa ponta. Sentia-me feliz quando a minha mãe bordava e me punha no meio das pernas dela. Elas a cantar e a bordar. A minha mãe não tinha tempo de dar colo. Trabalhava muito para sustentar os filhos. O meu pai nunca foi um pai... São coisas da vida.

 

Sendo diferente, acabou por acontecer o mesmo consigo. Era a D. Dolores que levava o barco, que ganhava.

Pois. O meu marido não ganhava muito. Além de que, o pouco que ganhava, bebia. O ir para o Ultramar..., ficou revoltado. Tínhamos uma filha com um ano. Depois fiquei logo grávida do meu filho. Foi quando ele foi. Depois do 25 de Abril, quando a gente pensava que já não ia mais tropa. Para Angola. Treze meses. Foi o suficiente.

 

Era um homem que falava ou que metia para dentro?

Falava. Quando estava lá, escrevia-se telegramas. Chegou a escrever muita tristeza nos telegramas. “Dolores, fui a tal sítio.” Era primeiro cabo. “Fui buscar uma coisa e estava embrulhada a cabeça de uma pessoa.”

 

Conta no livro “Mãe Coragem” que sempre foi um bom pai.

Nunca foi de maltratar os filhos. Eu é que batia nos meus filhos. Quem dá o pão dá o ensino. Era assim: eles faziam qualquer asneira e eu castigava-os. Como trabalhava muito, sentia-me revoltada e batia.

 

Como é que lhes batia se tinha apanhado na infância?

Se tivessem de levar uma estalada na cara, levavam. Não era assim como eu levei, pancadas. Não tem comparação. Às vezes calhava tirar o cinto. Cheguei a dar, cheguei. Eu achava que se desse com o cinto, eles melhoravam, [aprendiam]. Para eles, os castigos eram piores do que o bater.

 

Que castigos?

Fechados dentro do quarto. A fazer os trabalhos da escola. Se o Ronaldo quisesse jogar a bola com os amigos do bairro, não deixava.

Quando lhes batia, acabava por me arrepender. “Credo! Levei tanta porrada, porque é que vou bater nos meus filhos?”

 

Levou sobretudo da sua madrasta. E no orfanato, das freiras?

Pelas freiras, nunca fui maltratada. Eram castigos. Davam com urtigas no rabo quando fazia xixi.

 

([Entra o neto Cristiano]

A avó está a falar com a senhora. Não pode brincar contigo. Vai lá para dentro.)

 

Os castigos: limpar os quintais. No ditado, se passava de cinco erros andava com o caderno pendurado nas costas toda a tarde. Para os outros colegas verem os erros. Ia-se à missa todos os dias, à tarde. Dava-me o sono. Na sala do convívio das crianças, punham-me num cantinho, com um saco de papel na cabeça. Como quem diz: “Dormiste na igreja, agora dorme aí nesse canto”.

 

Foi recentemente visitar o orfanato, com o seu neto. Como é que foi?

Gostei! Lembrou-me. Além de eu ser castigada, matei as saudades. Muita coisa mudou. O quarto de dormir existia. Era para vinte e tal. Agora só tem seis camas. A minha cama ficava ao pé da janela. Coisas felizes? Quando chegava a Páscoa, tínhamos uns saquinhos de amêndoas. Torrões de açúcar. O convívio. Quando chegava o domingo e não tinha visitas, as minhas amigas tinham, e dividiam aquilo que recebiam. Comigo e com a minha irmã.

 

O menino consegue perceber o que foi a sua infância?

Não. Com quatro anos, ainda não dá para explicar. Faz cinco em Junho do próximo ano.

 

No fundo, era pouco mais velha do que ele quando foi internada no orfanato.

A minha mãe morreu a 13 de Dezembro e fiz seis a 31 de Dezembro. Olho para ele e penso muito. Nos netos todos. Vou partir um dia. Quero vê-los grandes [para ter a certeza de] que não passam aquilo por que passei. Que ficam bem.

Mas, com a idade do Cristiano, lembro-me da minha mãe. Por exemplo, a minha mãe foi uma mulher que casou aos 16 anos. Ficou viúva duas vezes. O [primeiro] marido era pescador e morreu no mar. Casou segunda vez. O marido morreu no mar, também. Eu era criança e ouvia-os a falar. A minha mãe tinha cara de sofredora. A força que eu sinto, a mulher que hoje sou, tem a ver com a minha mãe.

 

Explique melhor isso.

A minha mãe foi para o hospital com o seu juízo. Morreu com a dor de deixar cinco filhos menores. Acho que pediu pela gente. Como eu era a mais velhinha, talvez tenha transmitido a força dela para mim. Ela apareceu-me. Dizia-me: “Olha sempre pelos teus irmãos.” Foi o que fiz.

 

Conte do momento em que ouviu a voz dela.

Foi no orfanato. Ouvi uma voz à distância. As freiras, no princípio, não acreditaram. No fim acreditaram. Quando fui para casa do meu pai é que passei a vê-la. Aquela voz: quanto mais me aproximava mais a ouvia falar. Era um eco.

 

Via-a como?

Na casa do meu pai não existia água canalizada. Íamos à fonte. Vi um vulto ao longe. Aproximava-se. De blusa branca e xaile escuro. O cabelo muito apanhado. A minha mãe usava assim. Dizia ao meu irmão: “Não estás a ver? É a mãe!”. E ele: “Que nada!” Ele não via. Mas acreditava pelo espanto que eu fazia. Em casa dizia ao meu pai. O meu pai batia-me. Um dia comentou: “A miúda, para estar sempre a dizer aquilo, é porque vê alguma coisa”. Falou com o padre. O padre disse que podia ser verdade. Para eu dizer: “Mãe, põe-te a sete léguas de distância, diz-me o queres e não me metas medo”. A minha mãe disse-me assim: “Diz ao teu pai para ir a Machico pagar um litro de azeite à Senhora dos Milagres. A mãe pediu, morreu e não pagou [a promessa]”. Fomos a Machico na altura da festa. O meu pai pagou. E dessa altura para cá nunca mais vi a minha mãe.

 

A sua mãe morreu aos 37 anos com um ataque de coração.

Deu-lhe uma dor e ficou muito negra. Levaram-na para o hospital. Morávamos no Caniçal. Chegar ao Funchal demorava muito tempo. Morreu três ou quatro dias depois de estar internada. Eu estava no quintal da minha avó a brincar. Uma vizinha disse assim: “A tua Matilde já lá foi”. Percebi o que tinha sido. O meu pai nunca foi um homem responsável pela vida. O padre da freguesia quis levar-nos para o orfanato. O meu pai: “Fico com o mais velho. Os outros quatro, o senhor padre faça o favor de os internar”. Comigo ficou a Laurentina. A Florentina e o Jorge ficaram noutro orfanato por causa da idade.

 

Nunca pensou desistir?

De?

 

Da vida.

Pensei. Passou-me pela cabeça dar fim à vida. Depois de ser mãe. Também quando vivia com a minha madrasta e ela me deu uma sova de fio de luz [com o fio eléctrico]. Pôs-me com o corpo todo cortado. Tive uma infância triste. Casei aos 18 e pensei que ia ter uma vida feliz. Depois não foi. Tinha uma filha, ia ter o segundo filho... Depois pensei: “Não. Não pedi para vir ao mundo, também não vou pedir para morrer”. Vou lutar enquanto puder.

 

A maior parte da sua vida foi de muito sofrimento.

É verdade. Só depois de o Ronaldo ir para Manchester é que a nossa vida mudou.

 

Antes de Manchester. Conte do tempo em que veio viver para Lisboa, para tomar conta ele.

Ele tinha 16 anos. Eu tinha 46. “Mãe, vou para a equipa A, a equipa principal. Vou ganhar mais qualquer coisa. Vai dar para orientar a nossa vida aqui e na Madeira”. Vivíamos numa casa da Câmara. “A mãe passa-me a ferro. Já não fico no Sporting. Tenho aquela coisa de ter ao meu lado a mãe.” Vim para este apartamento. Ele ia treinar. Vinha e tinha o almoço feito. Eu ia ao [centro comercial] Vasco da Gama às compras. O meu passatempo: bordava. Não foi fácil deixar o meu trabalho e pôr-me aqui, onde não conhecia ninguém.

 

A comida que fazia, almoço e jantar, era a sua comida ou tinha de ser de acordo com as indicações do clube?

Não, era a minha comida. O clube nunca disse o que é que ele devia ou não devia comer. Sempre tive boas mãos para cozinhar. O Ronaldo gosta de um bacalhau à Brás, cozido à portuguesa, feijoada à minha maneira.

 

Ainda continua a cozinhar?

Sim. Em Madrid, quem faz o meu comer sou eu. Vivo numa casa separada da do Ronaldo. Quando faço uma coisa diferente, vem à minha casa. “Filho, a mãe vai fazer bacalhau. Apetece-te?” “Faça, mãe. Faça que tenho saudades.” Ele agora tem mais cuidado com a alimentação e nem sempre come o que faço. É um atleta de alta competição.

 

E uma coisa é ter 18 anos, outra é ter 28.

Faz 30 para Fevereiro. Ele agora tem os empregados, que fazem [as refeições]. Cheguei a viver na casa dele. Em Manchester vivi com ele. Nunca tive empregados.

 

Naqueles anos, já de milhões, não tinha ninguém que a ajudasse?

Não! Não porque eu tinha que ocupar o tempo. Não sabia falar inglês, não conhecia ninguém. Sentia-me bem a fazer a minha vida. A empregada da casa era eu.

 

E hoje?

Tenho uma empregada que faz tudo em casa, mas o comer, eu faço. O meu comer é sagrado. Eles fazem o comer típico de Espanha. Eu faço à portuguesa. E faço a sopa para o meu neto como fazia para o Ronaldo. Uma massinha, um arroz.

 

Já viu a felicidade de ter um neto que é um filho, com esta idade...

É uma alegria. Não está o tempo todo comigo. Vai para a escola de manhã. Sai às quatro da tarde. Está um pedaço com o pai. Está um pedaço comigo. O Ronaldo está muito tempo ausente. E então fica comigo. Ele sente a minha falta. Quando vou à Madeira dois ou três dias noto o menino triste. Falamos ao telefone: “Anda. Senão não és mais a minha avó”. Magoa-me muito.

 

Ele às vezes chama-lhe mãe?

Não. Mas diz assim: “A minha mãe está no céu. E tu és a minha mãe. Podes ser minha mãe e avó”. Digo que sim.

 

A que é que ele gosta de brincar consigo?

À bola. Para fazer a vontade ao meu neto, vou dando uns pontapés na bola.

 

E com o Ronaldo, jogava?

Jogava.

 

Como é que lhes chama?

O neto é Cristiano, o filho é Ronaldo.

 

Cristiano ou Cristianinho?

Cristiano.

 

São os dois muito parecidos consigo.

Acha?

 

Acho. Sobretudo a boca.

Digo ao Ronaldo: “Estás dentro do campo. A cara que fazes lembra-me a minha cara”. Ele responde: “A senhora queria, mas não sou parecido consigo!” “Mas és parecido com a mãe...”

 

Gosta que ele seja parecido... Que cara faz dentro do campo que é parecida com a sua?

Quando marca o golo e faz aqueles gestos. Ou aquela cara carrancuda. Ou aquela cara de mau. Lembra-me de quando eu era jovem.

 

Mudaram-se para Manchester em 2003. Em dez anos, a vida deu uma volta.

Quando foi para Manchester, começou a ganhar bem. Com o primeiro ordenado que recebeu mandou-me escolher uma casa. Para comprar a casa à mãe, como tinha prometido. Não foi escolhida por mim, foram as minhas filhas que andaram vendo.

 

O que é que quis que a casa tivesse? Espaço?, uma vista bonita?

Tenho uma boa vista, mas não pensei nisso. Pensei num bom conforto. O conforto era ter casas de banho com chuveiro, que não tinha. Na casa onde vivia era preciso aquecer a água no fogão e tomar banho numa banheira. Sonhava ter uma casa de banho e tomar banho de chuveiro. Ter uma banheira. Um quarto de dormir grande. Ter uma cozinha grande. Adoro cozinhas grandes! Uma cozinha com azulejos. Ter a coisa de limpar os azulejos. A brilhar. O conforto vale muito.

 

A sua cara muda quando fala disso. Ilumina-se.

Ter aquele quintal que posso lavar de mangueira, descalça. Sentia um prazer enorme ao lavar o meu quintal. São coisas que não esquecem. A primeira casa que o Ronaldo comprou: a minha filha mais velha é que vive lá. Chego e se for preciso ligo a mangueira e lavo o quintal. No Natal, no Verão. Agora é raro. Mas no princípio fazia isso. Matava as saudades.

 

Já está habituada a esta vida de conforto em que o dinheiro não é um problema?

Claro que agora já posso ir jantar. Em jovem nunca ia jantar. Trabalhava na cozinha do hotel mas nunca tinha ido a um restaurante. Vou à Madeira e ligo a uma amiga: “Queres ir jantar comigo? Vai-se à espetada”. Pago de bom agrado. Posso. Se tiver de fazer bem, faço. Porque posso. Mas penso no dia de amanhã. Não sou mulher que abre a mão e derrete tudo. Podia comprar uma bolsa cara, e não faço isso.

 

Esta sua bolsa cara (a Birkin da Hermès), que está sobre o balcão o cozinha, quem é que a comprou?

Foi o meu filho. Tenho coisas de marca. Que eu compre?, não compro. Não tenho coragem. O Ronaldo amanhã vai fazer a vida dele. Penso que ele não muda, mas às vezes uma mulher muda um homem. Poupo. Não se sabe o dia de amanhã. O meu filho não me deixa faltar nada. Nada mesmo. Se me der mil euros, gasto 500 e guardo 500. Vai para o escuro! Está guardado no escuro, ninguém vê! [riso] De hoje para amanhã vou partir e tenho os meus netos para ficar [com o que poupei]. Têm alguma coisa para a universidade deles... Penso nisto. Ele diz: “Devia gastar mais. Gozar”. “Mas a mãe é assim.” A boca leva tudo.

 

“A boca leva tudo”?

Quer dizer: há pessoas que ganham cem e gastam 110. Eu vou ao supermercado e escolho as coisas mais baratas.

 

Compara preços para poupar dez cêntimos aqui, 30 acolá?

Faço isso. É a minha maneira de ser.

 

Pensei que procurasse os produtos de que gosta, independentemente do custo.

Antigamente dava aos meus filhos iogurtes naturais. Nem tinham sabor nenhum. Hoje não faço isso. Vou ao supermercado e compro aos meus netos iogurtes com aromas bons. Um bife: compro carne melhor do que antigamente. Mas o que puder poupar, poupo.

 

Ficou uma marca muito grande da fome e da pobreza.

Pois. E acontecendo alguma coisa – oxalá que não! [bate no sofá três vezes] – tenho ali o que poupei. E se acontecesse alguma coisa ao meu filho, ia buscar tudo o que poupei e dava-lhe. Tudo o que tenho ali foi ele que me deu. Digo aos meus filhos: “Está escondido em tal parte. Se acontecer alguma coisa à mãe, dividam por todos”. O Ronaldo oferece-me jóias de muito valor. Digo às minhas filhas: “Já têm a vida organizada. Se eu morrer, dêem aos vossos filhos. Não é para vocês!”. Já tenho tudo destinado.

 

Porque é que fala tanto da morte? Está a dias de fazer 60 anos.

Eu estava com aquela coisa que aos 37 morria. Ultrapassei. Faço 60. Agora vive-se um dia de cada vez.

 

Já lutou contra um cancro da mama. Teve muito medo de morrer?

Tive. Já era uma mulher feliz. Foi em Inglaterra que o descobri, fui operada na Madeira e vim fazer o tratamento ao Porto. “Meu Deus, tenho tudo agora. Será que Nosso Senhor se vai lembrar de mim e vou embora?”

 

Era muito injusto.

Pois era. Mas graças a Deus estou aqui. O Ronaldo diz que aguento até aos 90!

 

O que é que hoje lhe dá mais felicidade?

Os netos. Os filhos, bem ou mal, criei-os.

 

Acha que criou bem ou mal?

Criei bem. Porque lutei pelos meus filhos. Trabalhava as minhas horas de trabalho, chegava a casa e ainda ia a casa dos vizinhos passar a ferro, lavar quintais. Não era dinheiro o que me davam. Eram restos de comer deles. Sobras. Um quarto de quilo de massa. Duas ou três batatas. Umas cenouras. Para mim, tinha valor. Lutei para que nunca faltasse nada aos meus filhos. E para que eles nunca tirassem nada a ninguém. Os meus filhos às vezes iam para as fazendas roubar fruta. Também cheguei a fazer isso. Mas chamava-lhes a atenção [voz ríspida]: “O teu pai não tem fazenda!” Considerava um roubo ir a casa de uma pessoa roubar fruta.  

 

Está a dizer que se esforçou pelos seus filhos e lhes deu valores.

Sim. A coisa que eu mais queria era que estudassem. Essa era a herança que eu podia deixar – eles terem estudos. Qualquer um deles andou até ao nono ano. Não quiseram mais. Os dois mais velhos quiseram trabalhar porque eu não tinha televisão. Queriam ter melhor vida e ajudar-me a comprar coisas melhores para casa. Por isso considero-me uma mãe de coragem de lutadora.

 

O Ronaldo ainda passou por essas dificuldades?

Não passou tanto. Quando nasceu, as coisas já estavam melhor.

 

O seu pai e a sua madrasta ainda são vivos. Emigraram para a Austrália. Os seus filhos, o Ronaldo, perdoam-lhe o mal que (em especial a sua madrasta) lhe fizeram?

Perdoam! Ai, ele tem muita consideração pelos avós. Até eu, não tenho raiva à minha madrasta. Coitadinha. Hoje sou mulher: também lhe devo a ela. Quando saí do orfanato tinha onze anos. Além de ser maltratada, transmitiu-me muita coisa.

Quando dei a entrevista ao Manuel [Luís] Goucha e à Júlia [Pinheiro], o meu pai viu lá. “O pai gostou?” “Filha, estás tão bonita.” “O pai desculpe de eu ir buscar o passado.” “Não levo a mal porque aquilo que disseste é verdadeiro.”

Um dia disse à minha madrasta: “A mãe era muito má.” “Eu sei. Mas nunca me levantaste a mão. Nunca me faltaste ao respeito. E os meus próprios filhos já me faltaram ao respeito.” Para mim é um orgulho muito grande ela dizer isto.

 

O dia mais feliz da sua vida, qual foi?

Quando fui mãe. Todas as vezes. Falar a verdade: engravidei [quatro vezes] e nunca por vontade. Mas depois de dar à luz era a maior alegria. Quando vi o meu filho na selecção. Tocar o hino e vê-lo no meio daqueles jogadores. (Eu gostava, gosto do Luís Figo.) E o dia em que nasceram os netos.  

 

Conta no livro que pensou abortar quando estava grávida do Ronaldo. É muito duro para um filho ouvir isto.

Ele acha graça! Com o passar do tempo, viu o pai que tinha. Eu era muito maltratada. (Ele já morreu, não quero falar.) Quis abortar. Ele hoje diz, a brincar: “Já viste, mãe, tu quiseste abortar e eu agora é que os sustento a todos”.

 

Disse que isto tudo parece um sonho. Pesadelos, tem?

Não. Deito-me na minha cama tranquila. Se tiver de fazer bem, faço. Se tiver de dizer não, digo. Recebo muitas cartas a pedir ajuda. Quando vou à Madeira, vão muitas vezes a minha casa. Há pessoas que me fizeram mal que vêm à minha beira, pedir. Não esqueço. Digo que não. Para sentirem. Quando precisei viraram-me as costas. Deus não me castiga por causa disto.

 

Vou contar-lhe o começo desta entrevista. Foi em Junho. Em Nova Iorque, um taxista contou-me que o seu filho tinha pago a operação a uma criança. Que tinha bom coração. E pensei na mãe que o tinha educado. Foi então que pedi para a entrevistar.

Ele tem bom coração. Quando foi para Manchester, saía em muitas revistas que fazia isto e aquilo. Às vezes era mentira. Ganhou muito dinheiro em processos. Dizia: “Não quero este dinheiro. Pegue nele e faça o quiser.” Dei-o a instituições.

 

Quais são os maiores defeitos do seu filho? Só temos falado das qualidades.

O maior defeito dele é não gostar de perder.

 

Porque é que isso é um defeito?

Tem de compreender que não pode ganhar sempre. Estou dizendo uma coisa, e sei que tenho razão, e ele entende que é como ele está a dizer: teima! Tem que saber perder dentro e fora do campo. Era muito teimoso, muito teimoso.

 

E vaidoso?, que é aquilo de que as pessoas o acusam.

Vaidoso? Gosta de se arranjar. Se tem possibilidades de ter tudo de bom, porque é que não há-de ter?

 

Não é vaidoso em relação à imagem. É a maneira como no campo...

Sente orgulho quando marca. O Ronaldo não é essa coisa que dizem. O Ronaldo é muito humilde. Sente vaidade de mostrar aquilo que sabe. E que consegue fazer melhor do que fez.

 

E os seus defeitos, são quais?

Sou também muito teimosa. Sou amiga do meu amigo, mas quem me magoar no dedo mindinho que saiba que me magoa no resto [mostra a mão toda]. Perdoo. Mas não sou a pessoa que era dantes.

 

Quais são os seus medos?

O meu medo é morrer e deixar os que mais amo na vida.

 

O Natal, como é que vai ser? Imagino que vá para a cozinha...

Vou! E vão as filhas. Não passo o Natal com o Ronaldo. Ele vai para o Dubai, passá-lo com a namorada e o filho. Ele disse-me para ir, mas não vou. Quero passar o Natal na minha terra. O frio lembra-me o Natal. No Dubai está quente. Já estive lá. Gostei. O fim do ano também passo na Madeira. Depois então vou para Madrid, com ele. Faço os anos na Madeira.

 

Grande festa?

Ele já organizou a minha festa. É surpresa mas eu já sei. Vai ser num barco, em alto mar.

 

Chega aos 60...

Espero chegar. Como diz o outro, para morrer basta estar vivo.    

 

Chega aos 60 uma mulher feliz?

Sim, sim.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

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