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Anabela Mota Ribeiro

Pompeia

02.07.18

Visitar Pompeia é remontar ao ano 79 d.C., ver um lugar soterrado pela cinza do Vesúvio. Goethe visitou-a no século XVIII e ficou com a impressão de ser um “infeliz lugar”, sujeito durante séculos ao esquecimento e, uma vez descoberta, ao saque. O que podemos ver hoje? Uma cidade extraordinariamente organizada, próxima das nossas cidades, especialmente bela no rosso pompeano, o vermelho que persiste nos frescos.

 

O anfiteatro foi a última coisa que vi em Pompeia. E então ficou uma impressão de espaço imenso. Escutei a fantasia de 20 mil pessoas, massa ululante em redor. Rugidos de pessoas e bestas. O desalinho, a alegria, a ameaça, uma panóplia de emoções que vem das bancadas. Leões, gladiadores, penachos, o drapeado das túnicas. Na fantasia.

As bancadas desenham um risco oval, hoje estão meio comidas pela relva, erodidas pelo tempo e vento. Está o que resta do que foi engolido pelo Vesúvio. Como toda a cidade. Olha-se em volta e vê-se a pedra, o verde e muitas papoilas. Ou não são muitas, mas a cor é tão intensa que se avista ao longe e faz delas muitas. Não deixa de ser espantoso que sejam papoilas, flor do campo e de gente simples, a irromper por ali. Sem pedir licença, sem pedir cuidados. Nascem e pronto. Nascem e não se deixam apanhar – logo fenecem. Extremamente frágeis, orgulhosas, independentes (se é que isto se pode dizer de uma flor..., mas vai bem com o lugar).

Não se chega às papoilas porque há uma corda que delimita o espaço. Não se pode senão estar na arena, olhar em volta e ver um muro sólido que ainda resiste, a copa de pinheiros mansos, o céu. E na arena, uma exposição com o mais impressionante de Pompeia.

Mais impressionante do que os frescos desbotados, e ainda sim vivos, do que as colunas do templo de Apolo, que não se poderiam abraçar com dois braços, por não serem suficientes; mais impressionante do que tudo são os corpos apanhados pela morte enquanto faziam a vida de todos os dias, fixados no preciso instante em que uma chuva de pedras e cinzas os atingiu.   Ano de 79 d.C. Era Agosto.

A descrição de Plínio (jovem sobrinho-neto do grande naturalista Plínio, o Velho): “Choviam pedra-pomes e rochas vulcânicas incandescentes. De muitos pontos do Vesúvio cintilavam chamas e altos incêndios, acentuados pelas trevas da noite. [...] Ouviam-se gritos de mulheres, choro de jovens, brados de homens. Havia quem, por medo de morrer, invocasse a morte. Muitos levantavam os braços para os deuses, outros tantos afirmavam que já não havia deuses, que aquela noite seria eterna, a última noite do mundo.”

A cidade que hoje vemos é o que resta da última noite do mundo.

A dois passos do anfiteatro, frutifica hoje a vinha, relva compacta cobre o caminho, oliveiras, ciprestes, e sempre pinheiros, pinheiros tosquiados em forma de nuvem. A vida parece que começou a despontar aí, nessa zona mais recuada de Pompeia, onde também fica o cemitério (chamemos-lhe assim de modo simplificado). As árvores ou as flores quase não existem na parte da cidade por onde se entra, ponto nevrálgico da vida quotidiana, dominado pelos grandes espaços públicos, lojas, casas, o mercado ou as termas.

Pode ser que o verde, essa ilusão de vida, de continuação do dia de ontem, torne mais impressionante os corpos petrificados, os movimentos de tensão, medo, recusa que podemos identificar ou adivinhar (sem efabular muito).

Portanto, quando se começa a visita a Pompeia, aparecem as termas, as ruas iguais às nossas, casas e pátios, os mercados. Vemos ânforas, objectos de todos os dias, a réplica de um mosaico, uma estátua. Colunas do que foi um templo, vestígios. Vemos até um ou dois ou três corpos apanhados pela lava, dispostos ao lado das ânforas. E o Vesúvio sempre a seguir-nos, para onde quer que se olhe. Depois passamos pelo teatro pequeno, lugar de música, pelo teatro médio, adequado ao teatro. A Natureza impõe-se mais e mais, e não esperamos aquele impacto de morte que é ver os corpos, dezenas, no anfiteatro.

Há um adulto que brinca com uma criança, atira-a ao ar. Parece ter dois anos. Há outra criança – andaria pelos oito? – que se aninha junto a este adulto. Podem ter formado uma família. Há um casal de pernas entrelaçadas. Há um corpo estirado, num esgar de sofrimento. Há um homem que parece chorar, joelhos no peito, cabeça enfiada. Há pessoas que levam os braços ao céu, o que coincide com o desespero descrito por Plínio. Há os que se recolhem sobre si, numa posição fetal. Há outros que não fazem nada.

A descoberta destes corpos é posterior à descoberta de Pompeia e consequência de uma fabulosa solução de Giuseppe Fiorelli. Este arqueólogo liderou o trabalho de escavação entre 1860 e 1875, elaborou um primeiro mapa da cidade, que ainda hoje é seguido, experimentou um sistema de moldes de gesso que preenche o espaço oco de corpos e objectos encontrados. É uma forma de dar espessura e forma ao que existia apenas de modo fragmentado, ao que era parte de um todo. Resulta uma inteireza tosca, cor de cinza petrificada, que permite encontrar uma cidade – e os seus habitantes – nos instantes que precederam o fim.

A comoção que sinto quando vejo aqueles corpos é imediata. Penso que resulta de os seus gestos serem gestos que reconheço, que todos reconhecemos. De ser evidente neles o sofrimento e ao mesmo tempo a banalidade. Colocamo-nos no lugar daquela criança que é atirada ao ar pelo pai ou pela mãe, ou na outra, mais crescida, que junto às pernas procura protecção.

Há um laço que se estabelece e que tem escrito empatia.

Depois há o cataclismo, a aflição. Um som e uma temperatura a interromper este correr de vida normal. Um calor de 400 graus. O ribombar do vulcão. Plínio, que estava na baía de Nápoles, fornece os elementos: “O mar parecia engolido pelo seu próprio remoinho, como se o terramoto o afugentasse e, em terra, uma nuvem preta e assustadora, rasgada pelo relampejar do fogo, fendia-se em longas tiras de chamas, parecidas com raios, se possível ainda mais impressionantes. [...] Finalmente, a fuligem dispersou-se e dissipou-se em fumo e nuvens. Amanheceu, e quando o sol brilhou era tão pálido como durante um eclipse. Aos nossos olhos, ainda hesitantes, tudo parecia transformado e coberto por um manto de cinzas como se fosse neve”.    

Pompeia virou cidade soterrada, da qual se perdeu a memória. Foi descoberta acidentalmente quinze séculos depois. E as escavações começaram, e com elas o assombro.

Volto ao princípio da viagem, à Pompeia que hoje se calcorreia. Antes mesmo de transpor a Porta Marítima, tenho a impressão de ser transplantada para um dia banal de um tempo longínquo. As coordenadas da cidade são as que reconhecemos como nossas. A organização do espaço e os hábitos quotidianos manifestam a proximidade, propiciam a identificação. Aí ficam as termas, de decoração majestosa. Uma primeira forma de spa, frequentada por todos (excepto escravos), habitualmente pelas quatro da tarde. No frigidarium (sala fria), as paredes são de estuque, imitam o mármore. Noutra sala, há uma gruta artificial, um mosaico com pasta de vidro que reflecte a água e jogos de luz. No vestuário há frescos eróticos, explícitos, que aludem aos serviços aí prestados. Não diferem dos frescos do lupanar, que fica umas quantas ruas mais à frente.

(Lupanar: palavra que deixou de se usar. A mim soa-me a lua e a sonho. Mas o significado é menos etéreo.)

Num caso e noutro, os frescos não se comparam aos que estão no Museu Arqueológico Nacional, reunidos num cabinet secreto. Estes têm uma condição exemplar, os que se encontram nas paredes de Pompeia são de qualidade deficiente.

Convém esclarecer desde já que para visitar Pompeia no seu esplendor é indispensável visitar o museu em Nápoles. Numa linha: visitar Pompeia obriga a uma visita em duas partes. Resulta incompreensível que boa parte dos turistas ignore Nápoles e resuma a cidade à sujidade e ao perigo. O Museu Arqueológico reúne uma prodigiosa colecção de mosaicos, frescos, esculturas, objectos de todos os dias recolhidos nas localidades atingidas pelo Vesúvio (Pompeia e Herculano, sobretudo, mas também Boscoreale). Além do mais, estão aí o descomunal Hércules vindo das termas de Caracala e o Touro Farnese, um complexo escultórico que parte do maior bloco de mármore que se conhece. Miguel Ângelo trabalhou nele. Repetirei as vezes necessárias que considero o Museu Arqueológico Nacional um dos melhores museus do mundo. Tem manifestamente pouco dinheiro, e talvez pouco esmero na organização da colecção, mas a qualidade das peças suplanta largamente estas dificuldades. E as peças são os tesouros que resistiram ao tempo e à pilhagem de Pompeia.

Na cidade, em si, quase tudo o que vemos é uma reprodução. Por exemplo, o mosaico da batalha de Alexandre e Dário, as estátuas de Apolo e Diana: os originais estão a salvo em Nápoles. Em Pompeia, sujeitos à intempérie ou ao calor que queima, estão boas réplicas. Em qualquer dos casos, chama por nós o olhar febril do jovem imperador, Dário ansioso, os cavalos, o desalinho de lanças em combate.

Depois deste excurso, retomo a visita guiada. O caminho até à muralha faz-se sobre basalto vesuviano. Um caminho de dois mil anos que nos leva, pouco mais à frente, à praça principal. Ampla, concentra o poder político, religioso, administrativo. O Vesúvio, que fica a 23 quilómetros dali, parece fazer parte do recorte da praça, tão próximo quanto os templos de Vénus, de Apolo, a basílica (onde se administrava a justiça). O mercado de tecidos fica à direita. À esquerda, o mercado de hortaliças e fruta. A guia, uma jovem que combina firmeza e suavidade na voz, explica que vinho e azeite eram transportados em ânforas, e que a urina era usada como lixívia.

Contratar um guia não é um luxo. Há visitas em diferentes línguas, os grupos têm composição diversa. As explicações de Elena (vou chamar-lhe assim por me ter lembrado os personagens da escritora napolitana Elena Ferrante) retiraram um manto, um manto de cinza ou neve, como o descreveu Plínio, à Pompeia que agora vive à superfície. Doutorada em arqueologia, trouxe uma nitidez à viagem, tornou possível o movimento da máquina do tempo.

Elena diz quase nada sobre as obras que delimitam casas e passeios, a não ser que há anos estão assim. É omissa em relação aos comentários de que a Camorra controla sindicatos e grandes obras (“Imagine que os funcionários de Pompeia decidem fazer greve, dias e dias, seguindo indicações superiores, não forçosamente oficias... Está a ver o poder da Máfia?, está a ver o modo como se infiltram em todos os sectores?”, tinham-me dito.) Elena fala de Pompeia. Por vezes, tinha um tom vibrante, de quem ama o lugar.

Prossegue o passeio. As casas ricas não distam muito do foro. A mais sumptuosa é a do Fauno, assim chamada por ter uma pequena escultura de um fauno (tão gracioso) a embelezar um tanque. Ocupa 3000 m2, pertenceu seguramente a uma pessoa culta, o que se percebe por a casa ser uma imitação de um palácio helenista. Voltada para magníficos jardins interiores, assente em colunas coríntias, de capiteis estucados, tem a inscrição latina “Have” – ou seja, Avé – a dar as boas vindas.

Outras casas particulares: a vila dos Mistérios. A casa dos Vetii. A casa do Poeta Trágico. A casa dos Amantes Castos (assim mesmo).  

A casa de Ifigénia faz-me pensar em Goethe, que apelidou Pompeia de “cidade mumificada”. O poeta alemão reescrevia a peça Ifigénia na Táurida por altura da viagem a Itália, em 1787. O mito do resgate de Ifigénia conheceu várias representações. No museu de Nápoles há um fresco impressionante que ilustra a tragédia e que provém de Pompeia.

Goethe escreve na Viagem a Itália que achou a cidade acanhada. “Ruas estreitas, embora direitas e com passeios laterais, casas pequenas sem janelas, os quartos iluminados, a partir dos pátios e das galerias abertas, apenas através das portas.” A mim ficou-me uma impressão contrária. Pode ser que tenhamos visto coisas diferentes. Afinal, as escavações estavam longe de estar concluídas no século XVIII. Ainda hoje, de resto, permanece uma parte por desenterrar. Sobretudo, pode ser que eu tenha ficado estonteada com o tamanho da casa do fauno e tenha feito desaparecer o rasto dos compartimentos exíguos, as ruas onde apenas cabe um carro de bois.

A minha guia faz-me parar à sombra, entrar no mais famoso dos thermopolia. Ou seja, estabelecimentos onde se vendiam bebidas e comidas quentes. Ou seja, um snack-bar. Com um balcão de esquina, orifícios de onde saía o calor, uma sala interior onde se comia sentado, o larário com um fresco. (O larário era o pequeno espaço de culto, dedicado aos deuses que protegiam a casa.)

Do outro lado da rua há um fresco com propaganda política. A inscrição é ténue, e não consigo perceber exactamente o que se diz. Elena é que conta que há paredes onde se pode ler “Vota em mim”.

Mais adiante fica o pequeno teatro, destinado a 1000 pessoas. Um pequeno teatro destinado a 1000 pessoas? O grande leva 5000. No anfiteatro cabem 20 000. Em qualquer deles, as pessoas sentavam-se de acordo com o estatuto social. Junto à arena, os magistrados, num plano médio, os burgueses, nas camadas superiores, o povo. Parece que há coisas tão antigas quanto a vida.

Estou novamente no lugar onde comecei o texto, na arena onde estão dezenas de corpos petrificados. Abandono o espaço a pensar no encontro com a noite última do mundo que não o foi. No milagre das flores, da vida que continua. Cá fora sugerem excursões ao Vesúvio. Não desta vez.

Até à porta de entrada há um quilómetro e meio debaixo da sombra dos pinheiros. Nas imediações há um parque de estacionamento chamado Zeus. Em Roma, tinha visto um café Fauno. E há limões do tamanho de cabaças. Vai uma granita al limone? Para matar o calor, como fariam em Pompeia?

 

 

GUIA PRÁTICO

Pompeia fica a meio hora de comboio de Nápoles. Se usar a auto-estrada Roma-Nápoles (cerca de duas horas e meia, se não houver trânsito, o que acontece às sete da manhã), sai numa rotunda devidamente identificada e sai já nas imediações da cidade, a desenterrada Pompeia. Há tendas com souvenirs, há autocarros com mais orientais do que alguma vez viu, há até um parque de campismo.

A visita a Pompeia demora, no mínimo, três horas. Conte com um número considerável de turistas em qualquer época do ano. Se for no Verão, é indispensável usar protector solar, chapéu ou guarda-chuva (os orientais usam-no muito com a função de guarda-sol). O calor é abrasador.

Se não quiser contratar guia, há um bom mapa e prospecto explicativo, em diferentes línguas. Não há em português.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

 

Nápoles

02.07.18

É fácil não gostar de Nápoles. Mas depois há Caravaggio.

Mas depois há aquela jovem mulher que dá o peito a um velho homem. Cena perturbantíssima. Alimenta-o, misericordiosa. Um homem que podia ser o seu pai. Dizem os estudiosos de Caravaggio que é o pai. Como podem saber? A possibilidade torna a pintura mais inquietante.

Só por causa desta cena, para a ver de perto, vale a pena ir a Nápoles.

No mesmo quadro há um morto retirado de um cenário de peste, cores tenebrosas, perplexidade. Anjos feitos de uma carne que apetece tocar. O mundano a imiscuir-se no espaço do sagrado. A Bíblia está no meio de nós, poderia dizer Caravaggio, defendendo-se. E há uma macieza voluptuosa nos tecidos. Pescadores, batoteiros, brigões. Forasteiros a quem se mata a sede e saram as feridas. Músculos, estranheza, espanto.

Só por causa de Caravaggio já vale a pena ir a Nápoles. Ir a Nápoles é entrar num quadro de Caravaggio.

Vamos por partes. Caravaggio chegou a Nápoles em 1606, condenado à morte. Morreu sem honras fúnebres em Porto Ercole, enquanto esperava. Febre amarela, presume-se. Nos anos de fuga – quatro – errou por Nápoles, Sicília, Malta. Sobretudo Nápoles.

Era, como a cidade, litigante, frequentador de casas de má fama, impetuoso. O tipo de pessoa que dorme com a adaga debaixo da almofada. Que a usa se necessário. (Matou um homem numa taberna – dívidas, jogo – e daí a condenação). E que conhece de perto as coisas impensáveis da vida (como uma filha matar a fome ao pai dando-lhe leite do seu peito).

A tela é gigante e foi feita para a igreja Pio Monte Della Misericordia. Está no altar principal. Ao lado há Ribera, Giordano, outros artistas, arquitectura barroca.

Há outras telas de Caravaggio pelas quais vale a pena ir a Nápoles. O Martírio de Santa Úrsula, que consta ser a última obra que pintou, e que pode ser vista como jóia única no centro cultural de um banco, quase a chegar à Piazza Plebiscito, ainda na Via Toledo. Ou o Cristo flagelado, sensual como um herói, quase demasiado bonito para um Cristo flagelado, em exposição no Museu Capodimonte.

A Flagelação ocupa o ponto nevrálgico de uma sequência de salas. Quando se olha de longe, é ainda reconhecível o corpo luminoso de Cristo, a emergir de um fundo escuro. Apesar do título e dos carrascos que o ladeiam, não é um corpo mortificado. O movimento podia ser o de uma dança triste.

Caravaggio buscou em Nápoles, sob a alçada do vice-rei espanhol, distância e protecção. É acolhido pela família Colonna. Confia que em Roma o Cardeal Scipione Borghese, sobrinho preferido do Papa Pio V e coleccionador de arte, possa interceder por ele. Espera o perdão papal.

Enquanto isso vive como pinta. A inversa também é verdadeira. E Nápoles é o cenário perfeito para esse balanço desregrado, profundamente desrespeitador. Partilham uma têmpera que em nada se parece com o ambiente lustroso de Roma. Os pintores maneiristas, as convenções, a representação de anjos rubicundos pertencem ao passado. O ar que se respira é ameaçador e sexual ao mesmo tempo. Contagia, como uma peste a que não se quer resistir. Parte do fascínio da cidade está aqui, nesta tensão. No medo e no sexo. Caravaggio soube captá-lo, traduzi-lo.

É difícil não gostar de Caravaggio. Através dele, é fácil gostar de Nápoles. 

A cidade não mudou tanto assim desde os primeiros anos do século XVII. Fora já não ser uma das mais poderosas cidades do mundo, como foi no período dos Bourbons. (Há retratos da família real pintados por Goya no Capodimonte.)

O carácter indómito, que não chamou Caravaggio a Nápoles, mas que lhe assentou como uma luva, mantém-se. Mais o orgulho. As caras das pessoas, agrestes, fustigadas, curtidas, coincidem com as que Caravaggio pintou (estão nos carrascos do Cristo flagelado). Ostentam uma rudeza passional que não se encontra em mais nenhuma Itália.

As ruas também são assim. E o chão, escuro, vulcânico, irregular. As fachadas denotam a passagem de espanhóis, italianos, normandos. Séculos de sedimentos, riqueza civilizacional. A imponência do Vesúvio, erguido sobre o golfo, traz a memória de Pompeia, do que é destruído.

Tudo pode estar prestes a entrar em erupção. Tudo se passa na rua. Sem cerimónias. A roupa pendura-se no pátio. A vida íntima fica disponível para inspecção. A exaltação é assumida como um atributo honroso. “Putana” é uma palavra para gritar bem alto. A abjecção, que por natureza não é palpável, é palpável – e não é forçosamente má.

Nápoles é isto. É fácil ter medo. É fácil não gostar.

Contudo, o mundo está ali concentrado. O mar, a terra, a fertilidade, as pessoas. O frémito da morte. Na Odisseia de Homero há versos que falam de a costa estar pejada de sereias. Goethe escreveu: “Consigo entender bem todos aqueles que perdem a cabeça em Nápoles, e lembrei-me emocionado do meu pai que ficou com uma impressão indelével precisamente daquelas coisas que eu agora vejo com os meus próprios olhos. E, do mesmo modo que se diz que quem alguma vez viu um fantasma nunca mais tem alegria, também dele se poderia dizer o contrário, que nunca mais poderia ser infeliz porque se lembrava sempre de Nápoles” (Viagem a Itália, 1787).

O que toda a gente sabe de Nápoles: elevado grau de pobreza, as mortes da Camorra, a sentença que pende sobre Roberto Saviano (que descreveu a organização mafiosa no livro Gomorra). As greves de recolha de lixo. A imundice geral. A densidade populacional que faz que a privacidade seja um luxo. Os carros invariavelmente amolgados, raspados. As motas que surgem do nada e que têm prazer na poluição sonora. Os gritos ferozes de mulheres desavindas, os cabelos rodados como crinas. A feiura que não se tenta disfarçar.

Mas depois há Pompeia, ali o lado.

Outra porta para entrar em Nápoles: o Museu de Arqueologia, na Piazza Cavour, onde estão os tesouros de Pompeia.

É incompreensível que milhões de pessoas visitem o parque arqueológico de Pompeia e não o Museu de Arqueologia de Nápoles. É certo que em Pompeia se tem uma noção de escala que não se pode ter senão lá. E tem aquelas figuras que foram apanhadas pela lava enquanto faziam vida de todos os dias. Um casal abraçado. Um homem que chora, dobrado sobre os joelhos. Um cão. Vê-los petrificados é uma experiência estranhamente comovedora.

Mas os frescos, os mosaicos, as estátuas, pequenos artefactos, estão no museu.

Para se saber, antes mesmo de ir, que aquele é um dos melhores museus do mundo (palavras bem medidas) só é preciso ir ao youtube e ver uma sequência de Viaggio in Italia, de Roberto Rossellini.

Ingrid Bergman, então mulher do realizador, visita o museu e é guiada por um homem de sobretudo. Começa por ver o grupo de dançarinas, esculpidas em bronze, a harmonia dos seus movimentos. Têm diferentes posições; uma aperta o vestido, como se o vestido tivesse subitamente descaído; outra, segundo o guia, “tem a expressão da minha filha Mariana”. São caras como aquelas que encontramos na rua. Por acaso, têm 2200 anos.

A visita prossegue. Um sátiro de uma vila de Pompeia, divindade pagã, perigosa criatura dos bosques. Outro sátiro, este embriagado, imagem do deboche. A seguir dois atletas, em posição de corrida. Estão colocados, no filme de há quase 50 anos e agora, ao nível dos nossos olhos, e têm um olhar penetrante. A impressão que causam é a de uma interpelação directa, quase intimidatória.

Depois são apresentados os imperadores. Caracala, cujo busto veio das termas com o seu nome; testa franzida, expressão enigmática. “Este é Nero, deve ter ouvido falar dele. Tem a cara de um bebé, mas era um louco. Incendiou Roma, matou a família inteira, até a mãe”, explica. Tibério, que passou uma boa parte da vida na vizinha ilha de Capri.

Para o final da sequência, as duas peças mais importantes do museu, já então: o Touro Farnese e Hércules a Descansar (também da colecção Farnese).

O Touro é a maior peça da Antiguidade feita a partir de um único bloco de mármore. Uma verdadeira montanha onde são esculpidos dois homens valentes, uma mulher suplicante, cães que ladram, personagens que assistem. Foi restaurada por Miguel Ângelo e diz-se que é pesada demais para ser mexida. Veio das termas de Caracala, não é fácil descortinar como. 

No lado oposto da mesma sala, Hércules é a encarnação da virilidade. Colossal, músculos desenhados, pernas elegantes. É arriscado usar a palavra encarnação quando se descreve uma estátua. Mas a este Hércules apetece acariciar. E também a mão dele parece pronta a acariciar. 

Rossellini filma-o de cima para baixo, fá-lo desmesurado. Ingrid observa-o, seduzida, “oh, it’s wonderful”. E só depois se mostram as maçãs que Hércules guarda na mão, atrás das costas, num gesto delicado. As maças, três, tornam Hércules mais humano. Apesar da força. É uma escultura prodigiosa e há quem tenha vontade de ir a Nápoles só para a ver. (Sim, sou eu.)

A Viagem a Itália de Rossellini, que leva o título do livro de Goethe (a personagem de Ingrid lê-o estirada ao sol), e que é adaptado por Scorsese no documentário A Minha Viagem a Itália, não mostra outros tesouros do museu. Nomeadamente os frescos e os mosaicos.

O mais famoso dos mosaicos ocupa uma parede e retrata Alexandre na batalha de Isso. Bucéfalo parece galopar. Alexandre tem na cara o ímpeto que o fez ser O Grande.

O mais intacto dos frescos ilustra O Sacrifício de Ifigénia, mito da Antiguidade, posto em tragédia por Eurípedes. 

Há o retrato da poetisa Safo. A cabeça de Sócrates ou Homero. Um casal burguês que posa para a posteridade. Aves e peixes e vegetais. Peças de vidro azul, verde-água, amarelo.

Há o gabinetto secreto. Ninfas e sátiros em animado forrobodó. Serviços anunciados à porta de lupanares. Gladiadores em pose priápica. Amuletos com forma de pénis. Casais a copular. Até 1967 era proibido vê-los.

Os vigilantes do museu conversam entre si como se estivessem a comer um panini ou a discutir o génio de Maradona. Que importam os frescos? Ouve-se o barulho dos carros. Dá a sensação de estarmos no que o edifício originalmente foi: um palácio onde podem ser vistas maravilhosas peças de arte, e não um museu. 

A rua é outro mundo. Na rua está-se no teatro da vida.

A dois passos fica o centro histórico, o emaranhado de ruas onde quase tudo acontece. Uma igreja em cada quarteirão (é lá que fica a tela de Caravaggio). Palazzos arruinados onde vivem vinte famílias. Ruas estreitas. Spaccanapoli, a artéria interminável que corta a cidade ao meio. Mercearias onde prometem “vera mozzarella di bufala”, e azeite e vinagre e especiarias para la pasta. Pequenas fábricas de limoncello. E apesar dele, pastelarias onde o babá é embebido em rum. Babá mini, normal, gigante como um falo gigante (os napolitanos são como aquelas pessoas que dizem uma brejeirice e piscam o olho). Bolo delicioso, o babá.

E as pizzas. As melhores pizzas do mundo, na Sorbillo, por três euros e meio.

E a pasta. Um linguine com courgette e queijo, feito em dez minutos, no ristorante E Come Sarà (abriu há pouco na Via S. Chiara. Marilisa, a cozinheira, é uma jovem arquitecta).

E as pessoas hiperbólicas. As que transformam um carrinho de bebé num carrinho de venda ambulante. As obesas, desdentadas cedo demais. As que sucumbem a uma sociedade que rouba e desfigura. As que vivem em clã (todas!). As que fazem da transgressão um modo de vida, como os seus pais e os seus avós, e os pais e os avós destes. (Goethe ouviu a um homem: “Se vocês fazem novas leis, nós temos de começar de novo a pensar como é que as podemos infringir; com as velhas, já há muito tempo que o sabemos”.)

E as que vivem “numa espécie de abandono extático” – como resumiu o poeta alemão – e que são todas, também.

Totò personifica esta gente. Lembram-se dele?, aldrabão e adorável, irrompia pelo ecrã a gritar: “I io pago!” De Filippo e a commedia dell’arte personificam esta gente. Intoxicante, enigmática. De quem é fácil não gostar.

Mas depois as caras perpetuam-se na nossa memória. Continuamos a ouvir as discussões que presenciámos. O merceeiro que respondeu com uma canção quando comentámos que fazia frio – che freddo fa a Napoli! A imagem de Capri a meia hora de barco. A ideia de Pompeia a 20 minutos de comboio. O barco que parte para a Sicília todas as noites. O caminho sinuoso da costa amalfitana, a dois passos. O Vesúvio que se vê de todo o lado. Dois homens que se cumprimentam como n’ O Padrinho, em pleno meio dia. O olhar desdenhoso de Marilisa em relação aos italianos do norte – tudo na forma, pouco na substância. (Goethe anotou: “As pessoas vêm todas para a rua, ficam sentadas ao sol enquanto este brilha. O napolitano julga estar de posse do paraíso e tem das terras do norte uma ideia muito triste: é só neve, casas de madeira, grande ignorância, mas dinheiro não lhes falta.”) 

Ninguém citou a mais famosa das frases sobre a cidade: “Vedi Napoli e poi muori”. Vê Nápoles e depois morre. Talvez não se possa falar de Nápoles sem falar de morte. Deve ser porque já se pode morrer depois de ver a vida de perto. 

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2012

 

Costiera Amalfitana

02.07.18

Nao havia rosas em Paestum. Mas a Primavera despontava nas colunas do templo de Neptuno. 

Tento imaginar quantas pessoas seriam precisas para abraçar uma coluna, se as colunas pudessem ser abraçadas. Não podem. Uma cerca de madeira protege os templos, barra o acesso. Porém, a vegetação irrompe por entre a pedra carcomida, e isso é visível do sítio onde estou. Os templos impõem-se na extensão de terra plana, com o mar à esquerda e os montes à direita, como uma pessoa majestática. 

Parece que o poeta latino Virgílio fala das rosas de Paestum. Nunca li a Eneida e não era o perfume das rosas que perseguia. Só mais tarde soube da riqueza do húmus, das rosas que seguiam dali para Roma. O meu enredo era o dos templos. Comecei a viagem rumo à costa amalfitana em Paestum por causa dos templos, e não das rosas. A Primavera estava a despontar. Davam chuva para o fim do dia.

Quando se olha para o mapa, Paestum (diz-se "pestum") fica uns 80 quilómetros a sul de Nápoles. Primeiro apanha-se uma auto-estrada que parece a estrada nacional 1 até Salerno. Na fila que antecede a portagem, comprei uma gravação pirata do Pino Daniele. Há Paolo Conte? Não. Então Pino Daniele. Cinco euros. O gamanço começava. O esquema era ilegal, mas consentido.

Depois segue-se por uma estrada nacional, ignora-se a construção alarve, põe-se a cabeça de fora para perguntar: Paestum? Sempre em frente. Espreitam das casas anúncios a mozarella de búfala. Gente que trabalha o campo faz pausa para almoço. Vendem-se alcachofras, belas como rosas, na beira da estrada. Sempre em frente. Quando se avista o primeiro dos três templos, esquece-se a demora. 

A Magna Grécia passava por ali. Paestum ou Poseidonia. Em honra do deus Poseidon. O maior dos três templos é-lhe dedicado. A cidade foi erguida no século sexto antes de Cristo. Há vestígios de um anfiteatro, casas e quartos e salas, o fórum, a piscina. Um vaso soberbo relatando o mito O Rapto de Europa e outros artefactos expostos do outro lado da rua, no museu. Frescos elegantes.

Os mais famosos revestiam a tumba do mergulhador. Ficaram assim conhecidos por causa do mergulho na eternidade das águas - especulou-se - do seu protagonista. Estado impecável. Outro fresco retrata cinco homens num banquete, dois amantes trocam carícias, um terceiro observa-os com ironia, os outros olham na direcção oposta.        

Os guias apontam os factos importantes: cidade portuária, seis quilómetros de extensão, posição geográfica privilegiada, amostra do esplendor helénico. Goethe visitou-a na sua célebre Viagem a Itália, escrita em jeito de diário.

Tenho a página aberta no dia 23 de Março de 1787. "Sem saber bem se andávamos sobre rochedos ou ruínas, distinguimos algumas grandes massas alongadas e rectangulares que já tínhamos notado à distância, e verificámos serem os restos de templos e monumentos de uma cidade em tempos rica". Paestum havia sido descoberta há poucos anos quando o poeta alemão a visitou. 

Vendem-se em todas as línguas livros com o antes e o agora. Vendem-se as coisas que se vendem junto a parques arqueológicos - tralha. Do que não se fala: do solo liso como uma folha, revestido a verde. Das fileiras de ciprestes e pinheiros. Dos sardões pequenos, com a cauda mais verde do que o corpo, que atravessam o caminho. Do dourado das colunas dóricas sob a luz das duas da tarde. 

Subi pela litoreana. Uma estrada que acompanha o litoral, como o nome indica, frequentada por prostitutas e camionistas. No Verão deve ter enxames de banhistas, pessoas que apanham barcos com a facilidade de quem apanha o autocarro. O mar estaria ao alcance da mão, não fossem as árvores entrelaçadas. É uma linha quase recta, antes do famoso serpenteado da costiera amalfitana. A planura acaba-se uma vez que se passa Salerno, a grande cidade. 

A palavra costiera dá mais do serpenteado, e soa bem. Por costiera amalfitana entende-se o percurso entre Salerno e Sorrento, 50 quilómetros. A primeira coisa que impressiona é que a terra seja tão fértil e que tenha um corpo tão bravio. Marcas de um solo vulcânico, rente ao Mediterrâneo. O Vesúvio, que submergiu em lava Pompeia e Herculano, mas que não chegou a Paestum, não se vê deste lado da costa. Mas na baía de Nápoles vê-se de todo o lado. Até chegar lá, percorre-se uma estrada de precipícios, caprichosa. 

O Pino Daniele já se calou. O disco chama-se La grande madre e não ouso dizer que é la grande porcaria. Mas anda lá perto. Uma réstia de respeito pelo compositor do E po che fa amolece-me a sentença. Digamos que a guitarra eléctrica, tão pirosa quanto o cabelo cor de palha do Pino, me desconcentra. E o tom napolitano, pigarreado, passional, não vai bem com a paisagem. Volto a encontrar-me com ele nas ruas imundas do centro histórico. 

Nápoles não se parece com nada, a não ser, em certos traços de carácter - o orgulho, o mistério - com Palermo. São como duas primas que partilham uma herança familiar, mas que assumiram naturezas distintas. As costas, também. O Etna, o vulcão siciliano a que Homero chamou "monte ígneo" (num tempo em que se usavam palavras como ígneo), é desmesurado e arruma com o Vesúvio a um canto. É nas imediações do Etna que fica na Odisseia a Riviera dos Ciclopes, e no mapa Taormina, com a sua beleza irreal. Mas a costa parece-me menos acidentada do que esta que agora atravesso, de carro, rumo a Sorrento.

A costiera amalfitana lembra-me um amante que não se rende. Requer tempo e persistência. Obriga a caminhos sinuosos para chegar ao seu âmago. Enfeitiça por ser insolente, e por ser tão bela, é claro. 

Já a conhecia vagamente do mar, dos barcos grandes como carreiras, que ligam as localidades que têm mais de doze habitantes. No Verão de há dois anos conheci-a num barco pequeno, junto a Positano. (Obrigada, Raffaella!) Não tenho ideia de alguma vez ter visto um azul assim. Um azul cobalto? Às vezes safira? Um azul que reflectia o sol de Agosto e que chamava para o mar.

Nesse Verão, eu ainda não sabia nadar. (Agora sei nadar cinco metros. No próximo Verão espero ter coragem para saltar para a piscina.) Em todo o caso, não era preciso saber nadar para saber que nadar naquele mar é o paraíso. Os turistas endinheirados que congestionam a costiera durante o Verão acham o mesmo. Sendo que nadam e saltam para a piscina. E fazem vida de barco, grande ou pequeno, veloz ou nem tanto.

As praias têm a extensão de uma toalha de praia e a areia é escura e tem calhaus em vez de areia. Outras são recônditas, de acesso difícil; prometem ser mais macias, mas se calhar é só a sugestão da água transparente. O que não vi: um areal digno desse nome, como o que conhecemos das praias portuguesas.

A perspectiva da costiera é completamente diferente quando se está nas alturas. Começa-se a subir logo depois de Salerno. Vêem-se casas de cores cálidas (pêssego, terracota, amarelo), escadas no lugar de ruas (é assim em Positano). Cúpulas de igrejas, mosteiros, torres de vigia. Miradouros onde mal cabem duas pessoas e um carro. Intermináveis campos de limões. Jardins de glicínias. E uma assombrosa sequência de mar, penhascos e vida em estado bruto.

Há aldeias tão pequenas que não aparecem no mapa. Celebra-se a chegada a Amalfi como se se chegasse a uma grande metrópole (é verdade que foi uma grande potência, antes de ser destruída por um tremor de terra, no século XIV; mas hoje é uma cidade mínima). Segue-se a placa que diz Ravello e começa-se a subir a pique. Há outras placas e informação contraditória. A distância estará entre os cinco e o oito quilómetros. Não importa porque parece bem mais. Como se fossem os nossos joelhos e não o carro a fazer o esforço da subida.

Porque é que toda a gente vai a Ravello? Porque de Ravello se vê o mundo. Eu não vi, mas vi ver. Ou ouvi dizer. Em Ravello já era evidente que a previsão meteorológica estava certa. A única incógnita era a hora a que o manto cor de chumbo chegaria a Sorrento. (Nessa noite acordei com o trovão. Parecia que a Terra e todas as aldeias da costa se iam desmoronar.)

Ravello tem vistas para as quais não há adjectivos. E talvez por estar tão no cimo do mundo parece inexpugnável. Os guias estão cheios de nomes famosos que a escolhem. No Lonely Planet pode ler-se que era o "playground" da Jackie Kennedy. Que Gore Vidal passa lá uma parte do ano. O coração da casa, partindo do princípio que as vistas para a costiera são o terraço, é a piazzeta. Tão adorável quanto a piazzetta de Capri. E como esta, ocupada por esplanadas onde se assiste ao cortejo de pessoas bonitas.

Pedi uma água San Pellegrino, que é capaz de ser a melhor água do mundo. Eu só preciso de beber San Pellegrino para me sentir em Itália. Além de que é um prazer fácil de sustentar.

O gamanço institucionalizado é uma praga que assola a costiera, sobretudo nos meses de Verão. Um capuccino custa o preço de um espumante. Um bilhete de barco, quinze minutos, entre Sorrento e Capri, custa 15 euros. Um bed and breakfast modestíssimo custa, 70/100 euros. Ficar depenado três dias depois de chegar é comum.

O outro gamanço é um modus vivendi, sobretudo em Nápoles. Notas falsas, é mato. No caso de receber uma, siga o conselho dos locais: pague com ela na vez seguinte! É favor não interromper a cadeia. Contas saldadas. (Na véspera, em Nápoles, perguntara à recepcionista do hotel se era seguro deixar o carro na rua, de modo a poupar a fortuna que pediam pelo parque. Ela olhou-me com uma expressão que estava entre a piedade e o divertimento: "Aqui roubam-nos". Não era a primeira vez que estava em Nápoles, nem sequer a segunda; mas era a primeira em que usava um carro.)

Para arrumar já a questão: se não é um condutor excepcional, NÃO se atreva a guiar um carro em Nápoles. E mil cuidados na costiera. A ultrapassagem (conhecem o filme de Dino Risi Il Sorpasso?) é um exercício potencialmente perigoso. Os napolitanos guiam como vivem: transgredindo. São sobreviventes, frequentemente belicosos, transbordantes. O carro é só uma extensão do corpo. Seria até estranho que a condução fosse diferente. Para um alemão, deve ser uma coisa suicidária.

Há um comboio rápido entre Roma e Nápoles (demora apenas uma hora e dez), barcos de meia em meia hora para todo o lado, autocarros e comboios (entre Nápoles e Pompeia, são 20 minutos).

E há vespas. E famílias inteiras empoleiradas em duas rodas, e playboys como nos filmes, e mafiosos como nos filmes, e pessoas com a pele curtida pelo sol e pela vida agreste. É normal não usar capacete e contar com a complacência da polícia. É normal buzinar, esbracejar, praguejar. Como num interminável dia de Verão.       

E agora Sorrento. "Quando quero escrever palavras só me vêm imagens aos olhos, da terra fértil, da amplidão do mar, das ilhas olorosas, do monte fumegante, e faltam-me os órgãos próprios para dar expressão a tudo isto". Goethe descreveu as coisas melhor do que ninguém e socorro-me dele para transportar o leitor para a vista do hotel. O monte fumegante é o Vesúvio que já não fumega. As ilhas olorosas são Capri à esquerda, Ischia e Procida na outra ponta do golfo de Nápoles. A fertilidade da terra e a amplidão do mar continuam a inundar-nos os olhos. A costa mantém a beleza hipnótica. Ninguém quer pôr cera nos ouvidos, como Ulisses, para resistir ao chamamento das sereias. Tenho de ler essa passagem da Odisseia para encontrar no texto as coisas que os meus olhos viram.

Para já, o meu guia é a Viagem a Itália.

Goethe ilumina zonas sombrias, cria perplexidades, partilha experiências de todos os dias. Fala dos dramas que por altura da viagem estava a trabalhar. Ifigénia na Táurida e Tasso.

Sobre Ifigénia e o seu sacrifício, uma referência: há um belíssimo fresco no museu de arqueologia de Nápoles, vindo de Pompeia.

Sobre Torquato Tasso: poeta do século XVI, nascido em Sorrento, sangue do sangue de Goethe (confessou este, na velhice). Temeu ter vendido a alma, e por isso fez-se examinar pela Inquisição. Uma daquelas figuras inadaptadas, que sempre procuram o absoluto, como no-lo revela Maria Filomena Molder na introdução à edição portuguesa do texto de Goethe. Os Artistas Unidos encenaram a peça há uns anos, a partir de uma tradução do texto feita por João Barrento.

Tasso está em estátua no centro da vila. Alguém lhe tinha posto flores. A partir da praça que tem o seu nome, bifurcam-se os caminhos. São estradas pedonais e estreitas. As lojas de souvenir vendem cerâmica, caixas de música, tarecos. Vendem limoncello (que dizem ter descoberto). Vendem sandálias feitas à mão. Colares e pulseiras e brincos feitos de coral. E camafeus. Vendem gravatas de seda a preços módicos. Em Sorrento não há Prada ou Missoni. Mas em Capri, sim. Em Sorrento, o sapateiro vai almoçar a casa. Em Capri, vendem as mesmas sandálias ao dobro do preço porque a Jackie, a Brigitte ou outra qualquer dessas levou um par de cada. 

Sorrento tem o hotel mais bonito, pelo menos, da costiera amalfitana. Mas pode ser do mundo. O Excelsior Vittoria acolheu casamentos de aristocratas, cabeças coroadas em férias de Verão, artistas em fase crepuscular (Caruso viveu lá perto do fim). No Excelsior batem à porta e perguntam: "Permesso?". Devemos responder: "Avanti!", como no filme do Billy Wilder. (Avanti é um filme hilariante, rodado na região: não percam). O Excelsior tem um luxo que não agride, objectos art deco que apetece levar para casa, frescos nas paredes, cadeirões onde se passa a tarde a ler. Tem um terraço com uma vista que é o seu maior tesouro.

Ficar no Excelsior custa uma exorbitância. Tomar um bellini com vista para o Vesúvio, não. O jardim tem limoeiros, oliveiras, pinheiros. E de novo glicínias. Não vi rosas. Mas a ladear o caminho havia camélias.      

 

 

Publicado originalmente no Público em 2012