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Anabela Mota Ribeiro

Manuel João Vieira

09.07.18

Isto não é uma entrevista a Manuel João Vieira, isto é uma entrevista aos heterónimos de Manuel João Vieira. O músico, o candidato presidencial, o artista plástico. Uma destas tardes, apareceram todos lá por casa (do Manuel João, em Campo de Ourique). Ele é muitos.

Nada fica de fora. Sócrates e as escutas, Manuela Ferreira Leite por falar em leite. A pedofilia. Do que gostam os católicos. Educação sexual forçada na terceira idade. Palavras como “singelo” e móveis antropomórficos. Maio de 68 que afinal é Maio de 78.

Beckett não é chamado ao barulho. Apesar do absurdo. Mas Agnès Varda, sim, e Bocage.  

Há uma radiografia do país feita por Elvis Ramalho, Lello Minsk, Candidato Vieira e Orgasmo Carlos. Há uma biografia sumária do homem por detrás dos personagens, Manuel João. 

O que é fazer uma entrevista a um heterónimo? É seguir o fio. E provocar. Jogar no escuro.

Aqui e ali há pequenas incongruências (uma vez diz-se que Elvis Ramalho é o irmão mais novo dos irmãos Catita, outra que é Lello Minsk). E responde como um músico azeiteiro faria (“O papá catita era alguém muito severo”), ou um artista (Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante”).

A entrevista foi feita à tarde, depois de Manuel João dormir a sesta. Estado: absolutamente sóbrio. Com queixas de uma ressaca da véspera. A casa é a casa de um artista.

Bem vindo ao admirável mundo de Manuel João Vieira!

 

… O que interessa realmente nas entrevistas é identificarmo-nos com aquele que é entrevistado; saber por exemplo que é uma pessoa normal como nós. Muitas entrevistas tendem a ser como aquelas que se fazem aos ciclistas quando chegam à meta, ou aos futebolistas, esperanças para o futuro. Existe uma organização implícita.

 

Um enunciado?

Sim. As respostas também fazem parte de um pacto, e as coisas funcionam segundo esse código, e se funcionarem assim são entrevistas sérias.

 

Sérias porque ninguém fica defraudado?

Sérias porque é aquilo que é suposto fazer-se. Tudo corre como num filme de Hollywood: há um princípio, um meio e um fim, que é feliz.

 

Quem vamos começar por entrevistar para furar o enunciado?

Tenho comigo o Orgasmo Carlos, um génio da arte contemporânea, segundo ele próprio. Tenho o Candidato Vieira, que está a fazer uma travessia no deserto. Tenho dois cantores, um que canta nos Ena Pá 2000 e noutras bandas, o Lello Minsk; e um cantor da canção portuguesa, o Elvis Ramalho.

 

Vamos começar pelo autor da frase: “Se há coisa que me faz mal é a água mineral”.

Isso foi uma tradução que fiz para uma canção que se cantava nos Irmãos Catita. Posso falar imediatamente como Elvis Ramalho… No fundo sou um amante da canção latina como as que havia antigamente. Em Portugal tivemos aquele acidente que foi o Salazarismo, mas havia muita canção latina, lembro-me disso. E também era muito latino o facto de nos agarrarmos às canções anglo-saxónicas. Os Conchas, o Concerto Académico, todos esses, pegavam em músicas, tanto italianas como inglesas. A única coisa que me distingue do meu irmão, Lello Minsk, é o facto de me interessar por canções ainda mais foleiras do que ele. Já não o vejo há uns anos. Para mim, o importante é o sentimento, e vivo numa espécie de museu do lixo sentimental, rodeado das minhas próprias fotografias.

 

Narcisista, portanto.

Sim. Tenho fotografias minhas dos anos 70, em que ainda não pintava o cabelo, com um bigodinho. A minha vida, ao contrário da do Lello Minsk, tem sido uma bebedeira mais de martinis. Ele prefere o bagaço e o whisky, bebidas mais duras. Somos pessoas bastante transparentes. Como irmão dele, acho que é uma pessoa sem qualquer tipo de substância. É volátil como espuma do mar. É diferente de mim. Sou uma pessoa com mais carácter, um bocado mais de consistência.

 

Você, Elvis Ramalho?

Sem dúvida. Pelo menos foi o que me disseram. Estou a escrever as minhas memórias, mas não me lembro de nada. Quando começar a lembrar-me de qualquer coisa vou escrever. E tenho outro problema: não sei se estou vivo ou se estou morto, e se estou a sonhar ou se estou acordado.

 

Tiveram pai e mãe?

O Lello lembra-se disso. Sou o irmão mais novo, não me lembro. Vivíamos no Algarve. Somos familiares dos tipos do atum. O Atum Catita era uma parte da família que se dedicava à indústria conserveira; fez algum dinheiro, mas nunca deu um chavo à parte pobre da família, que éramos nós. Emigrámos muito cedo para Lourenço Marques para fazer fortuna, e conseguimos ter um lugar modesto dentro do meio vagamente analfabeto e mundano de Lourenço Marques. Depois voltámos para cá como artistas coloniais, mas nunca chegámos a ter qualquer sucesso.

 

Quando é que nasceram?

Quem é que se lembra de quando nasceu?

 

Há os álbuns do bebé, que ajudam a situar.

O papá Catita era alguém muito severo. Quando éramos muito novos, quatro anos de idade, dividíamos uma sardinha de uma lata entre 10 irmãos, e quando alguém tirava um bocado a outro, espetávamos um garfo na mão! É preciso dizer que houve fome em Portugal – há muita gente que não se lembra disso. Cresci e nasci para a música. Para mim, o mundo da canção e da música é mais importante do que a realidade. Na realidade vivo quando estou em palco (isto também se diz neste tipo de entrevista). O sentimento de entrega aos meus fãs seria o sentimento que normalmente um casal, que vive num filme de publicidade, tem um pelo outro. Imagine-se uma família num filme de publicidade, um pai, uma mãe, os filhos…

 

Um pai sem barriga, uma mãe com um pernão…

A característica em comum é a de serem todos lindíssimos, e estão todos numa casa que parece um catálogo da Moviflor. Para isso prefiro a vida de palco, e gosto de imaginar que vivemos num mundo maravilhoso. Ontem vi um filme da Agnès Varda, um documentário dos anos 60 sobre aquela região de Cannes e Nice; o meu mundo é assim: vivo nos anos 60, quando as cores da moda eram o azul e o amarelo.

 

Ficou aí cristalizado, no sol e no mar.

Sem dúvida, fiquei. E tenho muita sorte de não ter ficado cristalizado na Idade Média, como muita gente que anda por aí. Nesse aspecto considero-me mais avançado. Tenho o problema de achar que os móveis me ameaçam, que são antropomórficos, agressivos e cruéis, e vivo rodeado de móveis… De resto, sou uma pessoa normal.

 

Porque é que essa pessoa só existe no palco, ou só se sente bem no palco?

Existo também fora do palco, em fotografias, sobretudo dos concertos. Se for a minha casa, ela está habitada por imensas fotografias, referências, os meus discos de ouro, o meu toucador, as perucas, os bigodes falsos… Só eu é que não estou lá. Mas o que é uma pessoa senão os vestígios que deixa neste mundo?

 

Pergunta profunda. Qual é a resposta?

Quem sou eu para responder. Sou fundamentalmente uma pessoa muito modesta, de origens muito humildes, e apenas quero entreter as pessoas.

 

Lorpa: é acusado disso?

Há quem me diga que sou simples. Nunca me interessei pela complexidade. Gosto de coisas singelas. Acho o mundo um sítio maravilhoso, as crianças são maravilhosas, as mulheres são maravilhosas, Portugal é um sítio maravilhoso. Tenho a sorte e o privilégio de viver num dos sítios mais bonitos do mundo. E permita-me que lhe diga que a menina é muito bonita.

 

Um palavrãozito, nas suas canções, existe?

Sabe o que é? Tenho pessoas que me escrevem as letras, e às vezes sou obrigado a cantar aquilo. Não quer dizer que simpatize com esse tipo de utilização da língua portuguesa, embora entenda que exista essa tradição, desde a poesia medieval galaico-portuguesa, passando pelo Barbosa du Bocage. 

 

Quem é que escreve as letras?

As letras são do meu irmão, Lello Minsk. Eu sou só um cantor romântico. Já lhe disse que a menina é muito bonita? O Lello Mickey, acho-o repugnante!, é uma pessoa sem sentido moral, um bêbedo convulsivo. Tudo o que de mau aconteceu ao mundo, a partir de Maio de 1978, é de certa maneira encarnado nesse… Chama-lhe pessoa; não sei se é uma pessoa.

 

Antes de falarmos do Lello Minsk…

Ele é Minsk, mas às vezes gosta que lhe chamem Lello Mickey.

 

A idade mental dele não é a do Rato Mickey, ou é?

Não sei se o Rato Mickey tem uma idade mental. A idade mental do Rato Mickey é a idade mental de quem lê o Rato Mickey. E preferia não falar do meu irmão, se não se importa.

 

Têm uma relação assim tão atribulada? Temos aqui um Caim e um Abel?

Vivo num mundo maravilhoso e não me interessam as pessoas que vivem fora desse mundo. Pus uma cruz em cima delas. Ou as pessoas são maravilhosas e está tudo bem, ou se não são maravilhosas, com licença, tenho mais que fazer. Já tenho uma certa idade, já tive os meus sarilhos e neste momento gosto de cantar em bailes de debutantes e coisas assim.

 

Nunca fica com vontade de espreitar por baixo das saias das meninas?

Com certeza que também já fui jovem, e para dizer a verdade a beleza da mulher portuguesa é uma coisa que não pára de me confundir.

 

E uma trafulhice, nunca lhe passou pela cabeça?

Essas pessoas que pensam em trafulhices deviam emigrar para outros países. Acredito que as pessoas de bem devem entender-se e que o povo português é essencialmente gente trabalhadora e honesta.

 

Não reagiu quando o provoquei, querendo saber se estes dois irmãos tiveram uma contenda séria. Se se odeiam como Abel e Caim.

É um exemplo bíblico muito limitado, mas é um símbolo daquilo que existe de pior no ser humano, que é a luta fratricida. Quase todas as lutas são fratricidas, menos aquelas que não o são. Nunca entrei pela via da guerra. Sou diplomático a resolver as questões. O meu irmão: não falo com ele nem hei-de lutar com ele; quando muito contrato um tipo para lhe dar uma tareia.

 

Assim não suja as mãos.

Não, lavo as mãos, mesmo, como Pôncio. Ele é mais novo. Quando éramos novos talvez eu lhe tenha dado carolos a mais e arrependo-me de o ter feito. Mas agora é um pouco tarde. Ele nunca ultrapassou o facto de a mamã gostar mais de mim. Sempre foi um rebelde e eu sempre fui o atinado.

 

Você nunca ultrapassou o facto de ele se divertir mais.

Não sei se ele se diverte mais. Para começar acho que ele se droga e devia fazer uma desintoxicação.

 

Que tipo de substâncias tóxicas é que ele ingere?

Sei lá!, droga.

 

Mas drogas há muitas. Até as mães tomam drogas em forma de comprimidos para dormir e calmantes.

Parece que sim, ouvi dizer. Tínhamos na nossa família uma senhora que tomava comprimidos, mas eram receitados pelo médico.

 

Cante-me uma música que seja a preferida do Elvis Ramalho.

Uma original? ”Portugal, terra maravilhosa” [canta], “Portugal, terra maravilhosa, terra do bagaço e da sardinha, de Guimarães, de Vila Viçosa, do Patilhas e do Ventoinha. Portugal, terra de cães vadios, terra de meus pais e meus avós, courela de primos e de tios, de marrecos e de Bijagós”.

 

É um bocado palerma, desculpe-me o insulto.

É, mas sabe que a palermice é muito saudável e põe as pessoas mais alegres. O grande defeito do mundo contemporâneo é que as pessoas são demasiado sérias, demasiado negras. Essa negritude, não no sentido africanista do termo, é como a anedota do sonho que tem um pontinho vermelho do lado esquerdo. Conhece?

 

Qual é a canção mais odiosa do seu irmão, Lello Minsk?

São todas más. Oh, meu Deus, prefiro nem cantar. Há uma que detesto que se chama “Canção conjugal”.

 

Como é?

Já não me lembro. E há outra: “Ó cona, a quanto obrigas”, que acho lamentável. Manifesta uma revolta da parte dele, talvez tenha tido falta de carinho. Ele nunca foi um bebé muito bonito, sabe? Ao contrário da minha pessoa. Não é para me gabar, mas ganhei o concurso de Bebé Nestlé, em 1952.

 

A canção.

“Ó cona, a quanto obrigas, fazes sangue às raparigas” – veja lá. E depois tem um refrão: “Cona, tu és a nossa mãe, cona, de ti a vida vem, estrela peregrina, perfumada e purpurina, amas analfabeto e doutor, patrão, tropa ou ardina, tu és a nossa sina, ó fértil divindade do amor”. Um disparate total, um tarado.

 

A dita, nunca o obrigou a nada? Como é que lhe chama?

Nunca a trato pelo nome. Acredito que a mulher portuguesa, aquilo que traz de mais secreto e mais belo em si, não é susceptível de ser expresso com uma palavra. Essa palavra é de ouro e morre na boca de quem a pronuncia.

 

Você andou na escola, e teve boas notas a português.

Estive num orfanato.

 

Num orfanato? O que é que aconteceu aos seus pais?

Ai não lhe disse? Morreram muito novos. A minha mãe morreu com 15 anos.

 

E teve-o com 13?

Começou a ter filhos com 11. Desconfio que alguns dos meus irmãos são meios-irmãos, senão não era possível haver tantos. Olhe, não sei, prefiro não pensar nisso. Quando começo a ver que as coisas são um bocado complicadas, prefiro não pensar.

 

Quem é que está a pedalar na bosta há 26 anos?

O meu irmão. Ele é que fez um concerto com esse nome. Devido ao tipo de vida que leva também não vai demorar muito tempo a bater a bota. Tem menos dez anos do que eu e parece dez anos mais velho.

 

Tem um bocadinho de inveja do seu irmão, não?

Nada, nada, zero, tenho pena.

 

Imagine que isto era uma daquelas peças de teatro foleiras, em que estamos a falar de uma pessoa e ela bate à porta… Essa pessoa é o Lello Minsk.

Posso ir à casa de banho e chamo-o, ele está ali na sala de espera. (De qualquer maneira tenho mesmo de ir à casa de banho). Não se importa?

 

[Levanta-se e sai]

 

O Lello faz-se acompanhar da stripper Nelita Bate-me Uma, da Domadora de Sardinhas Menstruadas, da Barracuda Transmontana. É verdade?

Não sei onde é que foi buscar essa informação, mas há aí uma confusão qualquer, é tudo completamente falso. Como diz Bibi, não deve ser a minha pessoa.

 

Quem é Bibi?

Bibi é um homem que está preso no escândalo da Casa Pia. A primeira coisa que ouvi o homem dizer na televisão foi isso; gostei dessa frase. Toco com os Ena Pá 2000. Sim, temos de vez em quando algumas raparigas, dançarinas exóticas, que se envolvem no nosso número. Temos um número bastante interessante, sexo, drogas e rock and roll.

 

Vamos hierarquizar: do que é que gosta mais?

Nem só de drogas vive o homem! Há também o sexo e o rock and roll. É indiferente, é conforme. Também gosto de comer, tipo feijoada e chili com carne, e grandes costeletas de vaca.

 

Abrimos esta caixa?

Qual caixa? Não vivo dentro de caixas.

 

Lello Minsk, também chamado de Lello Marmelo. Marmelo é por causa da marmelada?

Eu, Lello, gosto de dar a mim próprio vários nomes, porquê? Porque me chateia ter só um. É só isso, mais nada. Marmelo é apenas porque rima com Lello.

 

Pensei que fosse o gosto pela marmelada.

Não gosto especialmente de marmelada, também gosto de geleia.

 

Não estou a falar dessa, claro.

Sou muito estúpido. Minsk era o grito do amor em Campo de Ourique, em 1977 ou 1979. Era o grito que se dava quando se via uma tipa muita boa. E é difícil. O Minsk tem de ser gritado a 50 oitavas acima do Ré de porco, que é bastante grave como sabe.

[exemplifica] É um grito mais de leitão. Porque é que não me faz perguntas simples?

 

Do que é que quer falar?

Sinto-me bem com a minha vida, gosto daquilo que faço. De resto não tenho grande coisa a dizer. Sou uma pessoa bastante vazia.

 

As pessoas pensam que é um malcriadão, um bebedolas que diz palavrões.

Sou apenas um personagem grosseiro, obsceno, algo aviltante. Tenho orgulho em ser um bruto “cervejudo”. Bebo cerveja, bebo tudo. Criámos os Ena Pá 2000 de uma maneira muito esquisita. A Virgem Maria apareceu a todos os membros, não me lembro quando, a dizer que tínhamos de formar um grupo de rock. Acordámos ao mesmo tempo, como se tivéssemos estado num transe hipnótico profundo, dirigimo-nos para a frente da Igreja do Santo Condestável, aqui em Campo de Ourique, com as guitarras, e começámos a fazer música.

 

De adoração à Nossa Senhora, de agradecimento pelo chamamento?

De adoração, não. Esta não é a principal profissão de Nossa Senhora. Ela tem a profissão de ser Nossa Senhora. Mas além disso também é uma pessoa que gosta de música, e como tal “interviu”.

 

“Interviu”? Você dá mostras de ler Camilo Pessanha e diz “interviu”?

“Interview” é uma revista muito boa. Não sei se ainda existe. Intervir, “interviu”?

 

Interveio.

Interveio-se, pronto, é isso mesmo.

 

Nossa Senhora interveio.

Interveio-se. “Interviu-se”.

 

Os católicos, nunca lhe cospem em cima, nunca lhe atiram pedras por dizer essas coisas sobre Nossa Senhora?

Sim e não. Falo sempre da Nossa Senhora com algum respeito. O que os surfistas chamam “respect”. Os católicos são normalmente as pessoas mais obscenas e que mais simpatizam com este tipo de linguagem.

 

Às escondidas.

Sim, às escondidas ou quando bebem um copo. Existem dois tipos de pessoas: as que existem de dia e as que existem à noite. As que existem à noite são o contrário das que existem de dia. Vamos lá ver se explico isto. Há um filme do Chaplin em que há um bêbedo milionário que ajuda o Charlot; bebem copos e divertem-se à grande, mas no outro dia de manhã, quando está sóbrio, não o reconhece. As pessoas são assim. E também não se reconhecem a si próprias quando estão bêbedas. Inclusivamente há conflitos interiores dentro das pessoas. Nós estamos a tentar espremer isso tudo como se fosse uma almôndega. A nossa sociedade precisa de nós.

 

“Nós”, Ena Pá 2000?

Sim, sim, falo em nome do grupo, até porque os outros estão fechados num armário e normalmente só se abre esse armário quando há um concerto.

 

Estão fechados na caixa?

Sim, uma caixa muito grande em forma de armário. Mas é um armário com televisão, com várias coisas interessantes lá dentro.

 

É o maestro desse grupo?

Tento organizar aquilo, mas nem sempre consigo.

 

Você é sempre quem manda?

Não sei. Lá por organizar não quer dizer que mande. Por exemplo, temos um Primeiro-Ministro, não é? Ele tenta organizar, mas será que é ele que manda?

 

Quem é que manda?

Segundo o Jerónimo de Sousa, é o poder económico. Se perguntar a outros políticos, dirão outra coisa qualquer.

 

O João Pereira Coutinho, o colunista, também diz que manda quem tiver o livro de cheques.

É a mesma coisa, nisso estão todos de acordo.

 

Sendo que o João Pereira Coutinho é de direita, e o camarada Jerónimo…

É de direita também. São todos de direita. Ou são todos republicanos, ainda não percebi.

 

Eu ainda não percebi se os Irmãos Catita se dão bem com os Ena Pá 2000.

Nós já mandámos esses todos para o hospital. Quem está nos Irmãos Catita é o Elvis. Tenho agora um grupo chamado 4444, de rock sinfónico.

 

Já convidaram o José Cid e o Tozé Brito para o grupo?

Não, foleirada não queremos, obrigado. Somos um grupo dos anos 70, mas não somos foleiros. O José Cid fez umas coisas boas quando fez rock sinfónico, mas depois começou a fazer música comercial, e o Tozé Brito também.

 

O José Cid é melhor do que o Elton John.

Ai é, porquê?

 

Porque o José Cid o disse. E porque eu acho que toda a gente é melhor do que o Elton John.

Se você o diz, quem sou eu? Preferia não falar de colegas, embora colegas sejam as putas. Somos todos umas putas, a verdade é essa.

 

Quando precisa, vai às putas? Tem uma mulher, várias mulheres? Como é que resolve essa parte?

Todos nós, portugueses, vamos às putas de vez em quando. Por alguma razão elas existem. É mais uma daquelas coisas que tentamos pôr debaixo da cama mas que aparecem, sobretudo com uns copitos. E é uma maneira fácil de resolver os problemas conjugais. É mais barato, moralmente, arranjar uma prostituta do que uma amante. Uma amante tem direitos. Ao passo que uma profissional…

 

Dá menos trabalho, custa menos dinheiro?

De maneira que as profissionais existem para alguma coisa e infelizmente não são dignificadas como deviam ser. Acho que também devia haver Mães profissionais, assim como há prostitutas. Há uma agência na Alemanha que tem pessoas que fazem de conta que são Mães para homens de negócios. Prostitutas sentimentais, não sexuais. São amas-de-leite, no fundo.

 

Só que em vez de dar leite, dão sentimentos.

Também podem dar leite, mas é mais caro.

 

Viu esta notícia nesse jornal?

Sim, fui eu que a fiz. Tenho um pequeno fanzine, feito em fotocópias. Chama-se “O escarro ilustrado”. A minha ideia é que vivemos num país livre e temos que experimentar até que ponto é que é livre.

 

Nunca apanhou pela frente Manuela Ferreira Leite, que diz que a liberdade de expressão está ameaçada neste país?

Portanto, continuamos a falar em leite... Ela tem razão, ou então não tem, ou tem mais ou menos. Isto é, não compreendo porque razão algum governante, neste tipo de estado democrático em que vivemos, se há-de chatear minimamente com qualquer afirmação, por mais irresponsável e atrasada mental que seja, da parte da imprensa ou da televisão.

 

Tem políticos na audiência dos seus concertos. Eles abordam-no? Outros políticos que não o Candidato Vieira.

Não directamente. Mas já fiz algumas campanhas para o “Dr.” António Guterres, tocámos em alguns comícios do partido socialista, aqui há 10 anos. Também já toquei para o Dr. Alberto João Jardim. Tenho imenso respeito pelo Candidato Vieira. Sei que representa interesses obscuros, mas quem é que não representa interesses obscuros? No fundo, será que a menina não representa os seus interesses obscuros de vez em quando? Se não representa talvez devesse representar. O que é que nós representamos? O que é representar?

 

Não tem filhos, Lello?

Tive oito, mas morreram todos.

 

Que pena. Morreram de quê?

Foram atropelados por um camião escolar. Eram gémeos. É verdade, sémen dos meus testículos. Adeus. Por outro lado fiquei aliviado, era uma certa carga que tinha. Oito gémeos, mesmo com amas-de-leite, é complicado. E a mãe morreu com eles, também estava a atravessar a rua.

 

Ficou livre?

Fiquei livre de quê? O que é a liberdade? O que é a liberdade, diria o meu irmão, sem repressão? Nada. O que é a repressão sem liberdade? Nada.

 

Isso já é palavreado do Candidato Vieira. Aprendeu com ele?

Antes de mais nada, Anabela, gostaria de lhe desejar uma boa tarde e dizer que gosto muito de si e respeito muito o seu trabalho. Não sou um homem, sou um político, sou uma máquina de fazer propaganda, e sou sobretudo uma pessoa que acredita.

 

Acredita em quê?

Acredito em si, Anabela, assim como acredito em todos os portugueses e portuguesas. Acredito que vocês são capazes de fazer deste país um país melhor. Vocês, com a minha ajuda, com a minha modesta contribuição.

 

Conte-me o que é que o faz ter tanta confiança em si e achar que as pessoas podem votar em si.

Porque vivemos num país livre, em primeiro lugar. Dois, porque sou o melhor candidato. Três, porque os portugueses têm uma confiança muito grande em mim. Sabem do que sou capaz, sabem que neste momento sou a única alternativa à política tradicional. Sabem que tanto em Portugal como ao nível da política internacional vivemos num estado de absurdo, e apenas um discurso mais absurdo, ou aparentemente absurdo, poderá salvar a nação. Tudo pela nação, nada contra a nação, eu sou a nação, eu sou Portugal. A minha vocação é dar às pessoas o que elas querem. Sou um servidor público, não quero nada para mim.

 

O que acaba de dizer é o maior pacote de lugares comuns que ouvi nos últimos tempos.

Fico muito agradecido. Não sei se leu o meu programa. O meu programa é muito simples, tem 320 pontos essenciais, e cada um desses pontos tem 10 pontos acessórios, o que multiplica por 10 as possibilidades. Tem este livro? Vou-lhe dar este livro? Cada português devia ter um livro destes em sua casa.

 

Estava mais magro na capa do livro Vieira, Só Desisto Se For Eleito.

É Photoshop. O dente a mais também é Photoshop.

 

“Quero uma democracia toda aberta”?

É a chamada inclusão.

 

“A sua vida vai mudar este livro. Dedico este livro a todos os portugueses de alma e coração e a todas as portuguesas aquele abraço”.

No fundo sou também um ser humano, também tenho sentimentos.

 

O que é isto na página 36, “Pamela, a secretária traidora”?

Ela é capaz de me ter traído. Este livro tem um pouco de tudo. Esta é a parte mais importante, são as ideias. Essas, são umas crónicas que escrevi para uns jornais de Economia. Isto é o meu “Visionário programa político e social para um Portugal de sonho”.

 

Aquele onde Elvis Ramalho acha que vive.

“A arte em Portugal deve estar sempre 20 anos atrasada” – é uma máxima. “O burro deve ser um animal sagrado para o português, como o Burro de Barcelos”. Tive várias ideias originais, biotecnologias, história, futebol, sexo.

 

O que é que o Candidato Vieira tem a dizer sobre o sexo?

Temos uma educação sexual forçada para a terceira idade.

 

Porquê, acha que é preciso?

O sexo visa o prazer e o prazer é soberano. Temos uma conferência na universidade do Pico que vai falar sobre isso. Vamos promover as variedades de sexo regional. Cada localidade portuguesa, assim como tem o seu traje folclórico, também tem o seu estilo sexual. Temos o “ Broche ó da Guarda”, “Broche à Nacional nº 1”, “Minete à transmontana”, “Sexo com leitões”, na Bairrada, “Sexo castiço”, “Sexo em coro alentejano”. Se calhar vamos abolir as provas orais, este ano.

 

Essas coisas ocorrem-lhe quando está sob o efeito do ópio?

Só bebo água do Luso. Quer um copo de água? Neste momento o que me está a custar é não me candidatar às próximas presidenciais. Não vejo que estejam reunidas as condições e a minha fé na democracia está a vacilar. Não sei se um levantamento militar, um pronunciamento militar, não seria mais favorável à nossa saúde económica, e mesmo à nossa saúde sexual.

 

Não me diga que tenho um protofascista à minha frente… 

Digamos que todos os meios são legítimos para alcançar o poder. Se a democracia está de tal forma viciada e não podemos atingir o poder pela via democrática, devemos tentar outras formas. Devemos levar a bom cabo as nossas ambições.

 

Quais são as suas ambições?

Quero ser presidente absoluto de Portugal. Vou só beber um bocado de água.

 

Tem preocupação em relação às conversas que tem ao telemóvel? Acha que um dia as suas conversas mais íntimas podem aparecer transcritas nos jornais?

Já foram. O facto é que estou sob escuta. As pessoas utilizam aquilo que ouvem nas minhas conversas telefónicas para as atribuir a outros políticos, que me copiam sem qualquer tipo de pudor. Estou a ser roubado e vou falar com a SPA para saber se as escutas telefónicas também podem ser objecto de protecção.

 

Relate uma conversa que tenha sido apropriada por algum político.

Todas. Principalmente algumas. Tudo aquilo que neste momento tem vindo a lume sobre o Primeiro-Ministro, sei que não é sobre ele, porque as escutas foram feitas à minha pessoa e apropriadas pelo Primeiro-Ministro e pelas pessoas que rodeiam o Primeiro-Ministro. Mesmo o caso do Freeport não envolve o Primeiro-Ministro, envolve-me a mim. Eu é que sou a pessoa corrupta! Aliás, fiz tudo: corrompi-me a mim próprio, paguei-me a mim próprio. As pessoas precisam de movimentações. Os deslizes judiciários, ilegais, estão a ser utilizados para distrair o povo.

 

Distrair de quê?

Da realidade. A realidade é que só há uma força neste momento que pode melhorar as condições de vida neste país, que é o Vieira e o “Vieirismo” puro e duro. Tenho ideias muito boas para Portugal. Por exemplo, mudar o nome da capital para “Vieirópolis”. O Santana queria fazer o mesmo com “Santanópolis”, ou quase o fez, na Figueira da Foz.

 

Gosta de fazer campanhas eleitorais, não desiste. Porque é que faz isso?

O meu sangue bombeia a uma maior velocidade quando estou na estrada, em comício, é verdade.

 

Isso é porque é adorado.

Não gosto de dizer isto, mas sou idolatrado pelas multidões. Gostaria aqui de dizer também: as eleições nunca foram legítimas (ninguém sabe isto), e os resultados, a percentagem ridícula que me deram, é manifestamente falsa. Fui roubado!

 

Quantas pessoas oficialmente votaram em si?

Oficialmente, nenhuma. Mas sei de fonte segura que dois milhões de portugueses votaram em mim.

 

Se não votaram, gostariam de votar.

Aí está. Porque não um sistema de voto mais simples para os portugueses? Um sistema de voto em que basta uma pessoa pensar para que o voto… O voto pela internet tem de ser imediatamente utilizado. Temos de acabar com os formalismos legais, com toda a papelada que é necessária para legitimar um candidato. 7500 assinaturas é ridículo, porque pressupõe que existe um aparelho, um secretariado. Essa burocracia está ao serviço dos partidos, nitidamente. O homem das salsichas Nobre conseguiu-o, com certeza.

 

O homem das salsichas Nobre?

O senhor António Nobre é um exemplo.

 

É Fernando.

Esse mesmo, o Manuel Nobre. Acho muito bem que o Nóbrega tenha conseguido. As pessoas têm de compreender que chegaram ao fim de um ciclo, ao fundo do poço, e que já não há água. Só eu lhes posso dar a chuva. Isto é um ano um bocado especial em termos de pluviosidade, os políticos nunca falam disto, mas está a chover muito.

 

Vi-o num programa de televisão a meter-se com um papagaio; pensou em matá-lo e fazer com ele um arrozinho de papagaio.

Isso é totalmente infundado e falso. É uma afirmação sem pés nem cabeça. Receitas brasileiras, não tenho nada a ver com isso. Com todo o respeito, não estamos a falar dos problemas reais do país. Os portugueses precisam de amor-próprio e de dinheiro. E de satisfação sexual e sentimental nas suas vidas. Isso tudo dá saúde, lá está. A alegria de viver dá saúde. Temos de descobrir os “Brasis”, mas esses “Brasis”, essas terras, estão dentro de nós próprios, e nós podemos encontrá-las. Somos uma nação riquíssima, somos conquistadores. Temos de começar por nos conquistar a nós próprios.

 

Por falar em Brasis, falemos do Orgasmo Carlos, que imagino que conheça.

Orgasmo Carlos é uma pessoa que tem evidentes afinidades com Portugal.

 

É afilhado do Roberto Carlos?

Não, é filho do Roberto e do Erasmo Carlos. É um artista contemporâneo dos PALOP. Tanto é um artista africano, como português, como macaense. É um artista cuja obra universal exprime a sua profunda lusitanidade. E é um homem que tendo feito exposições nos principais museus e galerias da Terra e Marte, escolheu Portugal para viver – o que é, para nós portugueses, muito lisonjeiro.

 

Como é que ele agora se junta à conversa?

Ó Orgasmo, podias fazer o favor de cá chegar?

 

E nisto…

Em primeiro lugar queria pedir desculpa por estar atrasado. Estou a ser seguido na rua. Não é só o Candidato Vieira. Há pessoas que me querem liquidar – pelo menos duas. Existe uma máfia na Art World que quer acabar comigo, talvez por ser o maior artista vivo da actualidade. Vivo, por enquanto. Não sei se saio daqui e sou morto em dois ou três minutos. Estão a apertar o cerco. Ainda bem que estou a falar consigo, porque pode ser a minha última conversa. Não sei se viu as minhas exposições.

 

Não vi as suas exposições. Mas vi as exposições de pessoas que julgo que aprecia, o Manuel João Vieira, o Pedro Proença, o Fernando Brito, o Xana.

Não tem nada a ver. São artistas portugueses da década de 80. Faz parte, marcou uma época, mas estão ultrapassadas. Hoje em dia existem coisas mais importantes. Não digo que a arte deva ser pedagógica, embora a minha arte seja, e seja de certa maneira “explicadista”. A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial e irradiante. Os raios de comunicação que partem desse sol central, que é a arte de Orgasmo Carlos, espalham-se um pouco em todas as direcções. Não como os tentáculos de um polvo, mas como os raios de um sol que contagia e inebria.

 

Como um orgasmo.

Um orgasmo é um momento.

 

Mas irradia.

Sem dúvida, é uma explosão. E vai tocar em vários pontos importantes. Já ouviu falar no orgasmo permanente? Gostava de ouvir falar? A noção de orgasmo permanente está na base das obras do Orgasmo Carlos; isto é, de mim próprio. E peço imensa desculpa, não consigo deixar de falar de mim próprio na terceira pessoa. Ajuda-me, porque não caibo em mim próprio. Recomendaria aos jovens artistas que olhassem para lá do seu mundo. Hoje em dia qualquer pessoa que pendura um cordel num armazém é um artista plástico. A vanguarda chegou a um extremo, chegou à fronteira do deserto. A vanguarda nunca acaba e a arte nunca deixa, como Saturno, de devorar os seus próprios filhos, e produzir nova arte. O canibalismo é arte, assim como o excremento é arte.

 

Gilbert & George fazem arte com o seu excremento.

Sim, e com algumas tecnologias um pouco mais modernas. O excremento é uma metáfora do corpo humano e do funcionamento do mundo da arte e da transmissão do conhecimento simbólico. Quando falo em irradiação, falo a todos os níveis. Quando, a partir do século XIX, se substituiu a religião oficial pela arte e pela literatura, (estamos a falar de uma elite), houve qualquer coisa que fracassou. Ainda existe um grande vazio na vida das pessoas a partir do momento em que Deus deixa de existir. Não é possível preencher esse vazio com obras de arte de nenhum artista, a não ser com as obras do Orgasmo Carlos. Não por ele ser um artista particularmente xamanista.

 

Particularmente o quê?

“Xamanistíco”. Ele é um xamã lusófono.

 

Xamã com “x”?

Com “sch”.

 

O que é um “schamã”?

É diferente de xamã com “x”. Eu diria mesmo que Orgasmo Carlos, em vez de “sch”, ou com “x”, será um “chamã”. Mesmo tipo “chamon”, porque é português e porque é lusófono. Toda a gente sabe que devemos ir às nossas raízes, porque são elas que nos permitem ser simultaneamente originais…

 

Estou um pouco embrulhada.

…e transcendermos essa originalidade e sermos universais.

 

Tem um discípulo que é um urso.

O Ricardo Rocha. É um jovem talentoso que encontrei nas montanhas, perto da Serra da Estrela. Estava preso a uma árvore e vivia mais ou menos de subterfúgios, pedia esmola. Eu estava a precisar de qualquer coisa de novo. Fui a Basel e não tinha nada. Não tinha um trabalho com profundidade suficiente e que ao mesmo tempo influenciasse as pessoas. Esse urso salvou uma parte da minha carreira. Nas nossas performances eu tocava realejo e o urso recitava de cor todos os textos de Marx. Isso tornou-se uma obra lendária no mundo da arte conceptual. Foi a partir daí que consegui reorganizar a minha carreira. Antes disso pintava velhos pescadores com cachimbo e mulheres nuas com vasos de flores.

 

Na parte das mulheres nuas com vasos de flores, m bocadinho como o Boticcelli?

Não, não, era mesmo muito mau aquilo que fazia.

 

O urso já participou naquela filmagem que fizeram no cemitério, em que havia uma stripper no lugar do morto? (Isto aconteceu.)

Esse filme é importante. Fala-nos da ressurreição, da morte, da vida e do amor. O script é simples: o herói vai ao cemitério colocar uma flor na campa dos pais, os pais ressuscitam, começam imediatamente a fazer amor, ele vai atrás deles, com o urso – aliás, o urso estava à espera na carrinha funerária. Os mortos vão para a carrinha funerária e vão circulando pela cidade de Lisboa enquanto fazem amor, no lugar do morto. Por acaso, o camião deita imenso fumo e essa parte é engraçada. (Depois vamos até à Gulbenkian, a uma exposição de arte moderna.

 

Não vos reconheceram e prenderam-vos.

Não, simplesmente ficaram inanes, e nós continuámos a desempenhar o nosso papel e a nossa performance até ao fim, e saímos sem qualquer problema). Foi um filme relativamente barato.

 

Concorreram ao subsídio?

Isso está viciado. Preferimos fazer as coisas por nós próprios, sem contar com ninguém. Conto com os fundos da Orgasmo Carlos Foundation, ou se quiser, da Colecção Orgasmo Carlos Foundation.

 

O Orgasmos Carlos é um pintor que se considera o maior do mundo, mas é também a cara de uma cooperativa de pessoas?

Não sei do que está a falar. O Orgasmo Carlos tem, é certo, como os anões do Pai Natal, ajudantes. Hoje em dia é raro o artista, o criador de obras de arte contemporânea, que utilize a sua mão nas suas obras; utilizam-se assistentes. O artista é uma espécie de general que fala com os coronéis e os tenentes para desencadear as operações militares.

 

O Orgasmo Carlos alguma vez fez alguma coisa com o urso?

Fez várias performances, e além disso há a história de vida do Orgasmo Carlos. A história, estamos a trabalhar nisso, os meus escritores estão a escrever. Tem uma estrutura parecida com “Assim falava Zaratustra”. Só que tem homens e ursos.

 

Não há relações bestiais?

Quase nenhuma. Mas o urso é pedófilo e de vez em quando anda com um ursinho de peluche mais pequeno que ele. O urso tem dois metros, anda com um ursinho para aí com 50 centímetros. Além de que ele é castanho-escuro e o outro é cinzento claro, quase azul. Eles viviam comigo numa vivenda no Algarve e cansei-me de ver aquilo à minha frente. “Meu amigo, se é para isso que estás aqui, se é esse o teu tipo de vida…”. Dei-lhe tudo, ensinei-lhe tudo, e ele começou a dar entrevistas e a falar da sua obra como se não tivesse havido qualquer influência da minha pessoa no seu trabalho.

 

Que relação existe entre estas pessoas com quem tenho vindo a falar e o Manuel João Vieira?

Nada. São exercícios de matemática, de xadrez, de álgebra, exercícios de natação.

 

Eles aparecem ao longo do dia do Manuel João Vieira, quando está a fazer uma torrada ou quando vai à fisioterapia?

Um dia é um holocausto, uma torrada é uma torrada. Eles desaparecem, aparecem. Às vezes tenho baratas em casa, não as tenho visto ultimamente. As baratas, as formigas, aparecem e desaparecem; essas pessoas também.

 

Os seus vizinhos, quando o encontram na rua, estão à espera de encontrar o Manuel João Vieira?

Não tenho vizinhos, vivo num hospital psiquiátrico há 20 anos. Estou a tentar sair daqui.

 

Agora estou a falar com quem?

Não sei.

 

Se quiser falar com o Manuel João Vieira, posso?

Olá Anabela, sou eu, está boa? Não tenho assim grande coisa para dizer, sou uma pessoa normal, vivo aqui neste sítio.

 

É verdade que não tem grande graça enquanto Manuel João Vieira?

É, lamento.

 

Dados biográficos do Manuel João Vieira.

Nasci em 1962, frequentei o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas Artes, e outros sítios. Sou sócio minoritário de um espaço nocturno [Maxime]. A única coisa que gosto mesmo de fazer é pintar, desenhar. Sou um tipo de Campo de Ourique como outro qualquer, estou cá há 44 anos. Gosto de beber uns copos ao fim-de-semana, como toda a gente, e toco ao mesmo tempo. Como uns amigos que se encontram numa garagem para ensaiar. A única diferença é que gosto de ensaiar ao vivo porque sempre ganho algum, é mais prático.

 

Nas Belas Artes encontrou um grupo de amigos e formaram os Homeostéticos. Seria outro se não tivesse encontrado aquelas pessoas?

Talvez esse seja um ponto de viragem. Na verdade queria fazer banda desenhada, e estive a trabalhar nisso até entrar nas Belas Artes. O meu pai, sendo pintor [João Vieira], encorajou-me e tentou explicar-me as vantagens da arte com “A” grande. Mas eu estava obstinado em relação à banda desenhada. Depois houve uma transição entre a banda desenhada e a pintura, que aconteceu naturalmente e com a influência desse grupo. Foi bastante interessante, mas já foi há muito tempo.

 

Quando se vê o documentário do Bruno de Almeida sobre os Homeostéticos, o que se percebe é que se divertiram à grande.

Sim, mas tínhamos idade para isso. Uma pessoa pode divertir-se em qualquer idade. O Pai Natal também se diverte, o Pai Natal tem umas amiguinhas…

 

Publicado originalmente no Público. 

Uma Nêspera no Cu

09.07.18

Pertence ao grupo de um milhão e duzentas mil pessoas que ouviram Uma Nêspera no Cu? Se sim, sabe que o podcast de Bruno Nogueira, Filipe Melo e Nuno Markl é um exercício de liberdade a que também se pode chamar uma grande maluqueira. Se não, é melhor saber desde já que no programa (disponível apenas na Internet), como na entrevista, eles estão sem filtro. Dizem palavrão do piorio – como se não tivessem um microfone à frente. Podemos teorizar e pensar nos limites do humor, ou mesmo no para que serve o humor. Mas isso resulta numa certa conversa de chacha que ilude o facto de eles gostarem de transgredir. E nós de transgredir com eles. Deve ser por isso que dois meses de Nêspera foi suficiente para criar um fenómeno.

 

Se há ocasião em que a palavra “destravado” se justifica, é esta. Os humoristas Bruno Nogueira e Nuno Markl e o pianista Filipe Melo não têm travão. Dizem as coisas que as pessoas não devem dizer e que, na prática, todas dizem mais ou menos. Esta entrevista, como o programa Uma Nêspera no Cu, passa-se num mundo onde a estupidez tem lugar. Um mundo onde é proibido proibir e os limites são quase nenhuns ou nenhuns mesmo. Um mundo onde se volta à criança que folheia uma revista pornográfica (que sacou, quiçá, na mesinha de cabeceira dos pais) e descobre que não é a única a fazê-lo.

Eles são amigos, trabalham episodicamente juntos. O espectáculo que os juntou, Deixem o Pimba em Paz, de Bruno Nogueira, volta ao Teatro São Luiz, em Lisboa, de 3 a 12 de Julho, de fato de gala e Orquestra Metropolitana. Os arranjos são de Filipe Melo e de Mário Laginha. Depois de lerem a entrevista vão poder imaginar as coisas que dizem na carrinha, nos camarins, a maluqueira que não pretende salvar o mundo mas que os diverte.

Última advertência: nas próximas páginas dizem-se coisas impensáveis. É melhor ir a outro balcão se não for gostar de gelado de nêspera.

 

 

Vamos começar com um dilema? Como fazem no vosso programa. O meu é: não poder rir nunca mais na vida ou viver para todo o sempre, não com uma nêspera, mas com uma nespereira no cu.

Nuno Markl – Espera: mas com as raízes metidas dentro? A folhagem cá fora? Isso é decisivo.

 

A folhagem para fora.

Bruno – Raiz por dentro? Nunca mais rir. Escolho nunca mais rir! Porque as raízes vão a sítios que ninguém imagina.

Markl – O não poder rir: era uma coisa biológica, ou vias uma coisa que faz rir e tinhas de [faz o som de engolir o riso]?

Bruno – Markl, não estás a perceber: a alternativa era teres uma nespereira no cu.

Markl – Tens razão. Eu não queria uma nespereira no cu.

Bruno – Mas o Filipe queria.

Filipe Melo – Estou a pensar que é possível viver sem rir. Olha o nosso presidente da República... E se ríssemos por acidente, nascia uma nespereira? Temos unanimidade: ninguém se ria mais.

Markl – Imagina, estás no cinema, a ver um filme que é cómico, começas-te a rir e nasce-te uma nespereira... E as pessoas: “Sai da frente”!

 

Cómicos?, pessoas que vivem do humor, que se fizeram no humor, escolhem não rir mais? Como é que podem passar sem rir?

Bruno – É difícil, mas a outra hipótese é viver com uma nespereira no cu. Uma nêspera, já é o que é. Ele [Filipe] é da música. Aguentava melhor do que nós.

Filipe – Ou não.

 

Estamos no mês das nêsperas. As nespereiras estão carregadas. Supunham que eu ia trazer uma nêspera (ou da família da nêspera) para começar a entrevista?

Markl – Não. Mas isto faz de ti uma séria candidata a estar no Uma Nêspera do Cu. No programa, já percebemos que sempre que uma das opções é meter alguma coisa no rabo, tentamos evitar essa.

 

Isso é uma piada homofóbica?

Todos – Não!

Bruno – Tenho muito respeito.

Markl – Eu, supositórios, já meti. Em que é que estão a pensar? Um supositório age mais depressa do que um comprimido (para certas coisas).

Filipe – Alka Seltzer, usas?

Markl – Já não uso supositórios há uns 20 anos. Ou 30.

 

Os dilemas de que toda a gente foge e que estão relacionados com ter alguma coisa no rabo: porquê?

Bruno – O título do programa surge de um dilema que envolvia, justamente, meter uma nêspera no cu. Há outros que envolvem inserir um pau de incenso. Nós fazemos isto em bolha. Não tínhamos noção da dimensão que ia ter. A única ideia era divertirmo-nos. Às vezes visamos pessoas, nos dilemas, com quem, depois, nos cruzamos. E é um bocadinho desagradável.

 

Já se cruzaram com a Júlia Pinheiro ou a Teresa Guilherme, com quem se metem num dos dilemas?

Markl – Já me cruzei com a Teresa Guilherme. Não toquei no assunto. Fiquei com a sensação de que ela não tinha ouvido.

Bruno – Penso que agora vai ouvir...

Markl – É interessante ver as reacções das pessoas. O Guilherme Leite teve grande fair play. O Fernando Pereira: nós achávamos que tinha tido grande fair play.

 

Convém esclarecer qual era o dilema que envolvia Fernando Pereira, o imitador.

Filipe – Esgalhar uma ao Fernando Pereira (tinhas direito a estar com um fato e uma máscara de ski). Contacto meio astronauta. Ou... Qual era a outra?

Markl – Não sei. O Fernando Pereira escreveu um texto engraçado no Facebook, que partilhámos. Mas estive com ele no 5 para a Meia-Noite, fui agradecer-lhe o fair play que tinha tido perante o nosso dilema e ele, sempre a sorrir, disse: “Gosto muito do trabalho dos humoristas, e respeito. Vocês têm um grande poder. Entristece-me quando o usam para a estupidez”.

Bruno – Respondeste bem.

Markl – “Ó Fernando, a estupidez às vezes também é precisa.” Acredito mesmo nisto.

 

Acreditas mesmo que a estupidez também é precisa?

Markl – Acho que sim.

Filipe – Senão não existia o Lord of the Voices, o espectáculo [de Fernando Pereira].

Markl – Filipe Melo o disse. Há muita gente que gosta de ouvir a Nêspera e comenta: “Aquilo é só cocó e xixi, rabo e não sei o quê. Podiam meter alguma crítica social”. O que eu respondo: “Não, não. O que é giro na Nêspera é ser infantil, estúpido, e sacar esse lado às pessoas”. Tipo ao [António] Zambujo e ao Rodrigo Guedes de Carvalho.

 

Como é que a Nêspera surgiu? A sementinha, é qual?

Filipe – Eu não tenho a pressão de vir do humor, não é?

 

És um respeitado pianista.

Filipe – Não propriamente respeitado. Sou um pianista. Na verdade, sou um erro de casting. Mas está tudo bem. A razão pela qual estou aqui é esta: nós estivemos a fazer um espectáculo, que foi uma ideia do Bruno, chamado Deixem o Pimba em Paz. O Nuno Markl tinha no espectáculo um número de strip-tease. Vinha connosco para a estrada no papel de striper.

Markl – Vamos deixar isto assim, sem mais explicações.

 

Eu vi. E não eras o George Clooney.

Markl – Não.

Filipe – As nossas conversas de carrinha eram dilemas destes. Foi o Nuno Markl que disse: “Isto daria um óptimo podcast”.

 

Explica aos info-excluídos o que é um podcast.

Bruno – Um podcast é uma emissão áudio de um programa que só é emitido na Internet. Descarregas e ouves na Internet.

Filipe – Tenho a impressão que nenhum de nós acreditava que isto dava um óptimo podcast. Estávamos cépticos.

Bruno – O “preferias isto ou aquilo”, tem décadas. É daqueles jogos que toda a gente joga. Não tem autoria, que se conheça, e ainda que alguns colegas nossos se tentem apropriar dela. Isto não tinha nada de original. E funcionava na carrinha. No nosso microcosmos. Depois o Markl insistiu e experimentámos. Correu bem. Acho que tem a ver com isso: não tem um objectivo. Não pretende salvar o mundo ou mudar o país. É desprendido de tudo.

 

É divertir o pagode?

Bruno – É para nos divertir a nós, acima de tudo.

Filipe – Sobretudo no meio em que o Bruno e o Markl se movimentam, o humor e a exposição mediática estão muito ligados a dinheiro. Nós, com este podcast, não ganhamos um tostão. Isso deu-nos uma liberdade... Eu sempre tive essa liberdade, mas eles, talvez por estarem mais ligados ao mainstream, não podem utilizar palavras ou expressões como arraial de cona. [gargalhada geral] Ou comedor de esmegma.

 

Onde é que foram descobrir essas expressões?

Bruno – Foi num almoço. Isto que o Filipe disse é muito importante. Nós não temos nenhuma marca associada.

Markl – Há uma sede de gozo.

Bruno – É-nos cedido o estúdio muito gentilmente pela TSF. A liberdade é total porque não temos de prestar contas a ninguém.

Markl – Houve algumas empresas que consideraram a possibilidade de patrocinar isto. E desistiram.

Bruno – Só pelo título.

Markl – Se algum dia tivermos um patrocínio, a nossa preocupação é pagar aquele que de nós tem mais trabalho, o João Pombeiro que faz as animações. Dá um trabalho imenso. Há uma versão só áudio no iTunes. As animações [visíveis na versão do Youtube] deram um certo carisma aos episódios.

Filipe – Os estudos e os interesses do João Pombeiro têm muito a ver com as artes plásticas. Embora pareçam umas animações absurdas, são feitas por uma pessoa que tem um cuidado extremo com aquilo, com o pormenor.

 

Não responderam: o comedor vem de onde?

Bruno – Comedor de esmegma. Tínhamos recebido algumas queixas no Facebook por causa do tipo de linguagem que usamos. Então decidimos fazer um aviso antes do episódio seguinte a dizer que não utilizaríamos termos tais como...

Markl – Foi uma lista! O processo de criação dessa lista foi fascinante. Enquanto almoçávamos num restaurante japonês, na Expo.

 

Fino.

Bruno – Finíssimo.

Markl – Estamos a comer sushi e a sugerir coisas porquíssimas.

 

São, para reproduzir as vossas palavras, reles, doentios, e usam palavreado do feio. Usam-no normalmente?

Markl – Sou bastante regrado a dizer palavrões. O que faz com que as pessoas fiquem muito surpreendidas. “Não sabia que o Markl dizia...”. Mas eles são porcos, não é?

Bruno – Eu uso muito. Alivia-me bastante.

Markl – O Filipe consegue conter-se até ao momento em que diz uma caralhada desumana. Mas és um tipo pacato.

Filipe – Na minha auto-análise, diria que digo muitos palavrões. O Bruno claramente ganha, na liberdade de utilização.

Bruno – É muito raro usar em trabalho. Na vida pessoal, dá-me prazer.

 

Vamos lá ver: toda a gente (ou quase) diz palavrões? Homens e mulheres, de todas as idades, de todas as classes sociais. Temos a ideia de que há palavras que não se dizem. Ensinamos às crianças que não se dizem asneiras. Logo, palavrão é asneira.

Bruno – Acho que toda a gente diz.

Markl – Há sempre uma altura em que sai qualquer coisa. Nem que seja quando uma pessoa se queima numa torradeira. Uma vez disse: “Foda-se” em frente ao meu filho. Logo a seguir: “Ah, atenção, isto não se diz”. Nesse mesmo dia, ele ia a deitar-se, deu uma cabeçada na cama e disse: “Foda-se”. Fez um cálculo: “Se há dor envolvida, pode-se dizer isto”.

Bruno – O palavrão não tem de ser só associado a situações de tensão. Na alegria também deve existir o palavrão. Conheces o texto do [Miguel] Esteves Cardoso sobre os palavrões? Há palavras que ditas com o termo técnico – por exemplo, pénis – são bem mais ofensivas do que...

Markl – Caralho.

Bruno – Portanto, eu uso em ambiente controlado.

Markl – Uma vez, numa estação de serviço, estavam a ouvir O Homem que Mordeu o Cão. A rir e a dizer: “Grande cabrão”. É muito português: insultarem as pessoas que as fazem rir. Talvez porque intrinsecamente sejamos um povo que está sempre triste. Então, quando há alguém que faz piadas, diz-se: “Filho de uma grande puta”. É quase um elogio.

 

Do que é que se gosta? Da transgressão? De alguém dizer o que aquele que está a ouvir não ousa dizer?

Bruno – O segredo da Nêspera é só este: é completamente livre. Sente-se, nos projectos que o Markl faz, que eu faço, que, por muito livres que sejamos, como estamos a trabalhar para um canal [de televisão] ou estação de rádio, há sempre uma barreira. Numa época em que está tudo muito formatado, em que é tudo muito previsível, o facto de se estar à beira de um abismo [é estimulante]. A mim, dá-me vontade de fazer.

Markl – Há as pessoas que ouvem porque se riem e gostam genuinamente. Há as pessoas que ouvem para se irritarem e porque têm o lado voyeurista do: “Deixa ouvir estes gajos que dizem coisas horríveis que não podem dizer em mais lado nenhum”.

 

Têm programas formatados na TSF (Tubo de Ensaio) e Rádio Comercial (O Homem que Mordeu o Cão). Estão sempre nos primeiros lugares do top dos mais ouvidos. Foram suplantados pela Nêspera.

Markl – [com tom de locutor sensacionalista] Também no Brasil!

 

Já lá vamos, ao Brasil. A pergunta: temeram que os vossos formatos de sucesso, confirmados pelo público, patrocinados pelas empresas, pudessem ser beliscados por este arraial de maluqueira?

Markl – Tu, Bruno, no Tubo de Ensaio, és mais terrorista do que eu. Eu tenho crianças a ouvir, que gostam muito do que faço. Também faço dobragens de desenhos animados [riso]. Há um lado explosivo... Pensei que se calhar ia perder trabalho. Ao mesmo tempo sentia que era uma coisa que valia a pena fazer.

Filipe – Um episódio real: no outro dia, a minha namorada estava num bar e falavam da Nêspera na mesa do lado. Diziam que era feito pelo Bruno Nogueira, pelo Nuno Markl e por aquele gajo que ninguém sabe quem é. Isto é uma grande vantagem: não tenho absolutamente nada a perder. Os meus amigos são humoristas ou estão dedicados ao humor. O Nuno Markl vejo-o mais como o grande defensor de todos os nerds. Um dia disse-lhe, quando estava verdadeiramente alcoolizado, não ele mas eu, que me surpreendia como é que tinha ascendido a uma posição de tanta exposição e continuava a ser um verdadeiro nerd. O Bruno, sendo um humorista, sendo alguém que me faz rir imenso, mesmo quando está fora do ar – é uma pessoa que tem graça natural...

Markl – É verdade.

Filipe – O que quero dizer: como tenho muitos amigos dedicados ao humor, tenho pensado, temos falado sobre o limite do humor.

 

Qual é o seu limite?

Filipe – O humor deixa de fazer sentido quando ofende alguém que não está a pedi-las. Ouço o Tubo de Ensaio. Vejo as coisas que o Markl mete no Facebook. É um nível de cascanço... Mas, se pensarmos bem, é sempre alguém que está a pedi-las. Nesse aspecto, o humor acaba por ser uma forma de fazer justiça. Passo a tempo a pensar nestas coisas, no limite.

 

É o intelectual do grupo? Também pensam nos limites do humor?

Bruno – É o intelectual, é. Olha a barba.

 

Cofia o bigode, como um personagem de um romance do século XIX.

Bruno – Põe cera.

Filipe – Não ponho cera.

Markl – A discussão sobre os limites do humor dá pano para mangas. Nunca se chega a uma conclusão. Se tem graça, realmente, é de fazer.

Filipe – E quando destróis alguém que não está a pedi-las?

Markl – Não é a minha corrente de comédia.

 

Mas o Bruno é o humorista que usa o bastão. Foi assim que apareceu, num espectáculo no teatro São Luiz, de bastão. Continua a fazer um humor demolidor.

Markl – O Bruno é um justiceiro.

Bruno – Em relação ao Tubo de Ensaio, [que faço] com o [João] Quadros [co-autor dos textos]: muitas vezes terei errado. Muitas vezes apontei ao alvo errado. Mas o que aquelas pessoas [visadas no programa] fizeram, e que deu origem ao Tubo de Ensaio, não é menos grave do que aquilo que ali dizemos. E em 90% dos casos, são ilibadas, o caso prescreve. Não sei se passamos tanto o limite ou não. Reconheço que esticamos um bocadinho a corda. Que fazemos uma coisa arriscada. Não direi que é justiceira. Nem é esse o nosso objectivo. Mas é por sermos um país conservador que isto é visto assim.  

Queria dizer outra coisa sobre os limites do humor... ah... já não me lembro.

 

A vossa mãezinha fala-vos dos limites? Ocorreu-me a mãe do Herman José que lhe dizia: “És um bom artista. Não havia necessidade”. A frase foi depois adaptada pelo próprio Herman no Diácono Remédios, como se sabe.

Markl – Não, não. A minha mãe adora ouvir a Nêspera. Faz likes na Nêspera.

Bruno – Ternurento. Os meus pais, também. O meu pai, curiosamente... Muito do meu humor vem do meu pai. Que é do norte, de Penafiel. Em relação à Nêspera disse: “Aquilo às vezes é um bocado forte, hã...”. Uma pessoa que já me ouviu a dizer de tudo!

 

Dizes de tudo à frente dos teus pais?

Bruno – Sim. Tenho imenso respeito, mas isso não interfere com a liberdade que sinto.

Filipe – A minha mãe gosta imenso. Tenho a impressão que a utilização da internet para o meu pai tem mais a ver com os forwards de fraude nas bombas de gasolina.

 

Que é isso?

Markl – São aqueles forwards que avisam: atenção há seringas infectadas nos bancos dos cinemas. O teu pai é um grande propagador disso.

Filipe – Sim, e de power points da natureza. Mas a minha mãe gosta da Nêspera. Nunca disserta muito sobre o assunto, mas sei que ouve.

Markl – Há o orgulho das mães, nisto.

 

Há mesmo? Não sentem embaraço quando vão ao café com as amigas?

Markl – Não. Conseguimos, neste curto espaço de tempo em que durou a primeira série de Uma Nêspera no Cu, criar uma espécie de mainstream do cu. Tornou-se estranhamente aceitável e não muito censurável que três pessoas e um convidado estejam ali a expelir aquele vernáculo.

Filipe – Não podem dizer: aquilo não tem graça. O nosso objectivo não é ter graça. Onde quero chegar: não há muito por onde atacar. Juntamo-nos para nos divertir-nos, e não obrigamos ninguém a ouvir, não é?

 

Há uns efeitos colaterais. Os visados da Nêspera. Já falámos de alguns.

Markl – As pessoas não levam tão a mal quanto isso. Ou então fomos nós que ainda não fomos suficientemente brutos.

Bruno – O Ricky Gervais diz que podes fazer comédia que vem de um sítio bom ou de um sítio mau. Aqui, verdadeiramente, vem de um sítio bom. Sim, há pessoas pelas quais não nutrimos assim tanta simpatia. Mas, regra geral, já envolvi pessoas em dilemas que... Nós também nos envolvemos.

Filipe – [Em tom de troça, para Markl] Ele é o Nilton, não é?

 

Nilton é apresentador, como Markl, do 5 para a Meia-Noite.

Markl – Dizerem isso, é um clássico. Nós começamos por nos sovar de uma forma agressiva uns aos outros. Sobretudo o Bruno. O Bruno é um grande bully que eu tenho. Vou para casa a pensar: “Devia ter respondido melhor. Tenho 43 anos e ele tem para aí 20”.

 

Tens quantos anos, afinal?

Bruno – Tenho 33. A idade do próprio. Fazemos isso porque há confiança e amizade entre nós. Ah, já sei o que é que ia dizer em relação aos limites do humor: ninguém pergunta quais são os limites da música, os limites das novelas. Lembro-me de um primeiro episódio de uma novela da TVI. O Pedro Granger estava numa cadeira de rodas, era homossexual e morria numa explosão. Não vi ninguém dizer que aquilo era contra os homossexuais, contra os deficientes motores... Na novela, como há o rótulo da ficção, pode-se fazer tudo. No outro dia, uma mulher tentava atropelar o pai. Que é que importa? Se fazes isso no humor, acham que estás a incentivar as pessoas a atropelar, a matar homossexuais que andam em cadeiras de rodas...

Markl – A discussão sobre os limites do humor não é muito fértil. Na cabeça das pessoas há uma associação entre comédia e maldade.

 

O humor já é o lugar da subversão. Tiveram necessidade de transgredir ainda mais, como se também o humor estivesse a ficar aprisionado ou formatado.

Markl – Sim, mas isto não foi uma decisão muito cerebral. Estou num formato e muito feliz nele, mas tenho cuidado. Não há qualquer pressão por parte da Rádio Comercial, não dizem: “Não fales sobre isto, sobre aquilo”. Sou eu próprio que penso numa família que me diz: “Gostamos muito d’ O Homem que Mordeu o Cão”, e na notícia sobre uma máquina de venda automática de vibradores...

 

Começas a ver o teu filho do outro lado, a ouvir sobre a máquina de venda automática?

Markl – Não sei se isto não é um macaquinho no meu sótão.

 

Miúdo pequeno, assistias a este palavreado? A Nêspera parece um grupo de miúdos que se diverte porque apanhou uma revista pornográfica...

Bruno – A ideia é essa.

Markl – Chegámos a esta idade a pensar: “Vamos lá outra vez abrir a Gina”.

 

A saudosa Gina?

Markl – Não é saudosa porque ainda há. E continua a ser muito cara.

 

Bruno, pensas nas crianças a assistir? Esse é o grande travão?

Bruno – Tenho esta vantagem em relação ao Markl. Pura e simplesmente não visualizo o lado de lá. Só tento divertir-me. Depois, como numa gelataria, há vários sabores. Não queres um, não és obrigado a comer. A Nêspera nem é um acto de rebeldia: é só um acto de liberdade. Podemos controlar do princípio ao fim aquilo que faríamos se não estivesse lá nenhum microfone.

Filipe – É também um exercício de criatividade. Semanalmente pensamos nos dilemas. Inventámos jogos – como o famoso Azar do Caralho.

 

Que jogo é esse?

Filipe – Foi um jogo inventado, mais uma vez, pela mente perversa e doente do Bruno Nogueira, quando estávamos nos camarins do Deixem o Pimba em Paz. Consiste em escolher um contacto aleatório do teu telefone. Tens de ligar a essa pessoa num prazo de 20 segundos e utilizar uma palavra dada.

 

Palavras inócuas, imagino.

Markl – O grande desafio está em arranjar palavras que não sejam javardice pura.

Filipe – Por exemplo, expectoração.

Markl – O Bruno teve de usar “berimbau” [instrumento musical].

Bruno – Faz-se assim: dás-me o teu telemóvel e eu faço um scroll na tua lista de contactos. Dizes stop, eu paro.

Filipe – Caso não ligues, tens de pagar uma coima.

 

Eu ligo e digo simplesmente “berimbau”?

Markl – Não, não. Tens de manter uma conversa normal.

Bruno – Ah, vamos jogar, vá lá! Dá-nos o teu telemóvel. Anabela, Anabela.

 

Continuando.

Markl – Imagina. Sai-te o Jardim Gonçalves. Tens de ligar do teu telemóvel. Ele atende: “Então, Anabela, como está?”

Bruno – E tu: “Estou com um bocado de expectoração”.

Markl – Disseste expectoração? Pumba, já ganhaste. Mas não podes desligar logo.

Bruno – Nem podes ligar de novo a explicar que aquilo era um jogo. O nosso próximo passo é fazer o Azar do Caralho by night. À meia-noite, fazer o mesmo jogo. E aí pareces um psicopata ou um tarado sexual.

Markl – Se receberes um telefonema nosso à meia-noite, já sabes.

Bruno – A reacção é estranha. Cerca de 90% das pessoas que te calham, são pessoas com quem não falas regularmente. Na tua lista tens oito ou nove pessoas com quem falas regularmente e a quem podes ligar a qualquer hora.

 

Qual é o número mais precioso da vossa lista de contactos? E o mais poderoso? O Cavaco?

Markl – Não tenho telefones de ninguém super poderoso. Não tenho mesmo. Tenho assim de algumas super vedetas. Ricardo Araújo Pereira. Bruno Nogueira.

Filipe – Nilton. [risos]

Bruno – O meu número mais precioso é o de casa. O mais poderoso, não sei.

Markl – O mais poderoso? Nuno Artur Silva, que é administrador da RTP.

Filipe – Eu tenho o número de telefone do Marante.

Bruno – Eu tenho do Nel Monteiro. Para além do número do Marante. Anabela, queres jogar ao Azar do Caralho?

 

Falem-me agora da criança que foram e que apanhou umas revistas pornográficas.

Markl – Tenho memórias vívidas de folhear a Gina, na Escola Secundária de Benfica. Havia um que comprava. Não havia Internet e íamos para umas arcadas comentar.

Bruno – Porque é que ias com um amigo teu?

Markl – Íamos – em grupo – para umas arcadas. Para não estarmos na escola. Folheávamos e dizíamos: “Eh, pá, olha para ela”. Virávamos a página. “Ehhh, olha o que está a acontecer aqui”.

Bruno – Enquanto faziam isso, tinham erecções, ou não?

Filipe – Havia esgalhanço?

Markl – Entre amigos? Não!

Filipe – Negas aqui e agora que houve esgalhanço colectivo? A minha mãe era presidente do conselho directivo quando tu andavas na Secundária de Benfica. Portanto isso passou-se sob o reinado dela.

Bruno – Eu lembro-me, eu lembro-me... [riso] Não sei porque é que vou contar isto. Eu passava as férias grandes na aldeia, em Mogofores. Terra do José Cid. A malta ia para becos esgalhá-la. Um aqui, um ali. Era a mesma coisa que ir a um bairro de drogados e, em vez de se estarem a injectar, estavam a...

 

Quando perguntei pela criança, não pensava que íamos dar a este sítio. Vamos tentar pôr alguma ordem nisto. Vocês não perdem nada com a Nêspera, mas eu tenho muito a perder.

Markl – Chegámos todos a um momento das nossas carreiras em que podemos fazer isto. As consequências não serão muito nefastas. Sim, vai haver alguém a dizer: “Isto não é para mim”. Senhoras. Mas isto deu-me uma certa aura punk.

 

A Nêspera é uma brincadeira de rapazes?

Markl – Tivemos, entre os convidados, a Rita Blanco.

 

Foi a única mulher. Há esse preconceito: fica mal (e a expressão é esta) a uma mulher dizer Uma Nêspera no Cu.

Filipe – Ainda existe?

Bruno – Por muito que queiramos ter mais mulheres, há esse lado. A própria convidada não se sente confortável para usar determinada linguagem. Mas há sempre maneira de contornar isso. Como? Não tens de usar palavrões.

Filipe – O conteúdo é muito infantil. Talvez por isso as pessoas achem graça e se identifiquem. E tem continuidade. Acaba o podcast e as pessoas estão no seu local de trabalho, começam a desenvolver os seus próprios dilemas. Fizemos com que todas as segundas-feiras se falasse daquilo.

 

O pior dilema de todos, para mim, foi o do gatinho. De um lado, havia um gatinho, ao qual tínhamos de nos afeiçoar, e por fim matar numa pedreira. Do outro, um tipo que tem a suástica desenhada na testa e que vai para a Cova da Moura.

Filipe – Para mim, também é o pior.

Markl – Eu sacrifiquei-me pelo gato.  

 

Este dilema, ao contrário de quase todos os outros, não tem palavrões, não tem que ver com sexo. É de longe o mais violento.

Markl – É sangrento e mau. Roça o evil.

Bruno – Gosto mais quando é um dilema elaborado e perverso. Dá-me mais quentinho aqui no estômago. Especialmente sabendo que eles adoram gatos.

Markl – A Rita Blanco também é defensora dos animais.

Bruno – Como eu sou. Mas a Rita tem animais. O Filipe tem dois gatos com Sida.

Markl – Têm a sida dos gatos. Mas está controlado.

Bruno – Não passa de gato para humano. Mas neste caso passou de humano para gato. [gargalhada] Eu tenho um cão. Gosto deste tipo de dilema. Os palavrões: só se servirem um propósito.

Markl – Quando vamos para a badalhoquice, a ideia é que, mesmo na badalhoquice, haja alguma imaginação.

 

Para não ser, simplesmente, um arraial de palavrão.

Markl – Sim. O Carlos Vaz Marques propôs duas opções. O efeito era o mesmo: em ambas acabávamos a levar no cu. A grande escolha era entre um humano e um máquina sofisticada. Este dilema podia ser só porco, e contado de forma resumida as pessoas ficam a pensar: “O Carlos Vaz Marques? Enlouqueceu. Um jornalista respeitado”. Mas teve tanta graça. É poética a maneira como descreve a máquina, o funcionamento. A imaginação... Isto faz da Nêspera uma jam session de disparate puro.  

 

Há uma certa recorrência nesse tema...

Markl – Por mais que se diga, acho que o cu é uma parte muito engraçada do corpo humano.

Bruno – [Em tom filosófico] Penso que sim. Se isto for uma psicanálise, somos capazes de descobrir coisas interessantíssimas. O título já puxa a dilemas que vão para esse lado.

 

De onde vem o título?

Markl – Brainstormamos muito por SMS. Lembro-me de chegar um SMS do Bruno que propunha: “E se fosse Uma Nêspera no Cu?”

Filipe – A produtora do espectáculo Deixem o Pimba em Paz estava a tentar arranjar algum tipo de apoio para esta ideia. Ao Bruno, dava-lhe gozo especial pensar que ela ia a uma reunião e que tinha que dizer que o título era Uma Nêspera no Cu.

 

Porquê nêspera?

Bruno – Porque gosto da palavra.

 

Sabem como se diz nêspera no Porto? Magnório.

Bruno – Um magnório no cu!

Markl – Podíamos fazer a versão nortenha disto só com convidados do Porto. Não sei explicar, mas é mais engraçado chamar-se assim, e não Um Ananás no Cu ou mesmo Um Pêssego no Cu.

 

Fizeram oito programas, após o que interromperam para pensar o futuro do programa (escreveram isto no Facebook). Estes programas foram ouvidos por quantas pessoas?

Bruno – Um milhão e duzentas mil. Não estávamos à espera. Na verdade, estávamos à espera de deitar isto cá para fora. O caroço.

Markl – Estar em primeiro lugar no iTunes do Brasil é bizarro.

Bruno – Agora não sei se estamos. Mas estivemos. Alguém falou disto. De repente, no Twitter comecei a ter uma série de seguidores brasileiros. Aos milhares por dia. Até que percebi que um tipo...

Markl – Anticast.

Bruno – ... que tem um podcast no Brasil (que está sempre no top), partilhou.

Filipe – Os brasileiros acham graça ao sotaque.

 

Já que falámos em Brasil, trago a Porta dos Fundos, cujo projecto começou por só existir na net. Há algumas semelhanças. É por não terem nenhum patrocínio, é por não estarem ligados a uma rádio ou televisão que podem fazer tudo o que quiserem. Sem compromisso. Inspirou-vos?

Bruno – Neste caso específico, não. Até porque a ideia inicial era ser só um podcast. Em qualquer caso, é incrível o poder que a Internet tem. Trata-se sempre de liberdade. Trata-se de saber, enquanto espectador, que aqueles artistas não estão condicionados.

Markl – A Nêspera representa a ideia de estarmos numa plataforma em que vale tudo. Se há sítio onde se pode experimentar e ter liberdade absoluta é o podcast. É quase como as rádios piratas nos anos 80.

Filipe – Verdade, boa comparação.

Markl – Eu estive numa rádio pirata nos anos 80.

Bruno – Com amigos?

Markl – Sim, fazíamos masturbação colectiva. [riso]

 

Quando é que volta a Nêspera?

Bruno – Em Setembro. Se calhar vamos profissionalizar um bocadinho a coisa.

Filipe – E o espectáculo ao vivo? É um plano que temos.

Markl – O ideal seria reiniciar isto com um espectáculo ao vivo. Uma coisa bonita, com quarteto de cordas. O Filipe tem bons contactos ao nível do quarteto de cordas.

 

E terminarmos com um dilema? Saído agora.

Bruno – Eh pá.

Markl – Não consigo. Demoro muito tempo a pensar.

(Alguma conversa fiada pelo meio)

Filipe – Já tenho um bom. Vocês são pais. A primeira opção: estão a fazer amor com a Alcione...

Markl – Onde é que ele vai buscar a Alcione?

Filipe – Ela abre os vossos braços, uma cena dominatrix, e vomita-vos em cima. A outra opção: vão ter de deixar durante dois dias os vossos filhos ao cuidado da Alcione.

Markl – Mas estamos com a Alcione todos os dias?

Filipe – Um dia, só. Mas vomita-vos na boca.

Markl – Na boca? Há bocado não disseste que era na boca.

Bruno – Na boca? Isto é uma entrevista! Eu escolho a primeira. Nunca deixaria a minha filha com a Alcione.

Markl – Eu também.

 

Amor de pai.

Markl – Tens de ter algum heroísmo pelos teus filhos.

Filipe – Fui muito hardcore?

 

 

Publicado originalmente no Público em 2015

 

Macau

09.07.18

Como é que se diz O Sole Mio em mandarim (ou cantonês)?

O gondoleiro veste calças pretas, camisa riscada, chapéu de palha e fita vermelha. Maneja o remo com destreza, desliza na água azul-piscina. Os passeantes abraçam-se como amantes de Veneza, sorriem, tiram fotografias. Têm uma felicidade atónita, o paraíso é mesmo ali. Talvez lhes falte o sol. O astro-sol, não o “sole”. Mio. Suo. O dia está ameno, com nuvens esparsas, de um branco algodão-doce. Um eterno dia de Primavera.

Talvez o céu seja o mais fictício dos céus, e o facto de as nuvens não nos acompanharem no caminho, não correrem (às vezes as nuvens correm), seja o mais perturbador daquele paraíso. Damos dois passos, três, olhamos para o céu. São duas da tarde, são dez da noite, o cenário mantém-se inalterado. O mesmo céu azul, com as suas nuvens esparsas, que devem ter sido escolhidas para fazer um bom contraste do branco com o azul. Se a intenção fosse a aproximação ao real, o céu seria idealmente limpo, sem a ameaça de nuvens, mesmo que brancas, mesmo que esparsas.

Ali, aquele paraíso, é a Veneza onde os gondoleiros cantam em mandarim (ou cantonês) o clássico que nos habituámos a ouvir por Pavarotti e pelos gondoleiros de braços vigorosos, tatuados, tisnados pelo sol de Veneza. E não é preciso saber como se diz  O Sole Mio em mandarim (ou cantonês, não consegui deslaçar o enigma). Um chinês que vem do fim do mundo, um indiano que vem do umbigo do mundo, um oriental acompanha ciao com um sorriso (muito mais exótico do que Ni Hao) e balança o corpo de cá para lá na altura do O Sole Mio. Os gondoleiros são das Filipinas, da Malásia, de um país pobre, e projectam a voz como um pássaro virtuoso. Cantam a letra toda em mandarim (quem diz mandarim diz cantonês) e O Sole Mio no original. Alguns prolongam-se nos trinados para gáudio da malta que passa (e dos passeantes que pagaram não sei bem quanto para andar de gôndola; se as minhas conjecturas estiverem certas, pagaram mais 20% do que pagariam em Veneza, a vera, a sereníssima.)

Ora aí está uma coisa que não cabe nesta Veneza que venho descrevendo: o adjectivo sereníssima. O epíteto da vera Veneza soa – não falso, mesmo num lugar onde tudo é falso – mas deslocado. Ou mesmo absurdo. Porque na Veneza do Venetian tudo é estridente, bling bling, cacófono. A discrição, o azul aristocrático, a rugosidade que vem com os anos e confere sapiência e distinção – nada disso cabe ali.

Deve ser igual na Veneza de Las vegas. Pelas fotografias, parece. Mas a essa nunca fui.

Se eu fosse Veneza, a vera, a sereníssima, eu ia a Macau exigir direitos de autor. Um americano entenderia isto. Um americano é sensível ao tema dos direitos de autor. Um americano processa por dá cá aquela palha às dez da manhã e conhece a sentença às três da tarde. Assim também eu poria processos por dá cá aquela palha. E se fosse Veneza, acharia duvidoso que me copiassem o palácios dos Doges, a ponte Rialto, o serpenteado dos canais, o ambiente de um quadro de Canaletto.

Mas esperem! Um americano não entenderia isto! Porque um americano copiou isto mesmo para a sua América – ou seja, para Las Vegas. E são estes mesmos americanos que chegaram a Macau e reproduziram ali o que já tinham feito em Las Vegas. O Venetian. Pois, pois.

Como é que se diz o mui portuense “estou p’ra minha vida” (ou um palavrão aceitável) em americano?

Portanto Veneza é quando um homem quiser – pensaram macaenses, americanos, o homem que sonha. E se vou a Veneza quero tudo aquilo a que tenho dinheiro – exigiram milhões de consumidores. Gondoleiro que canta O Sole Mio incluído.E já agora a Cartier e a Prada, as botas australianas Ugg (porque todas as actrizes de Hollywood as usam) e o Kentucky Fried Chicken (porque agora somos muito ricos e convém que tenhamos os problemas de obesidade dos países ricos).

Mas que digo? O Venetian é um entretém que não conta para nada. O centro comercial igual a Veneza, quero dizer. A gôndola é um entretém para casais recém-casados, e é a possibilidade que um miúdo de 12 anos tem de ver Veneza.

-      Já foste a Veneza?

-      Sim, a do Venetian.

Vero. E faz assim tanta diferença saber que aquilo é uma Veneza de fancaria?

Um entretém. O que interessa é o jogo. Macau faz 8.29 vezes as receitas de Las Vegas. Ou seja, Macau faz em quatro dias o que Las Vegas faz em 31. Um casino de Macau faz, por dia, 130 milhões de dólares. Um casino de Macau recebe por dia 80 mil pessoas. As receitas do jogo em 2013 foram de 45.2 biliões de dólares. O que interessa é a massa. Vai dar ao mesmo, mas são coisas diferentes. Joga-se por causa da massa e joga-se porque a vida é um jogo. Talvez não haja desafio maior do que fintar o destino, fazer-lhe xeque-mate de vez em quando. Os deuses, quando não estão do nosso lado, chamam a essa audácia descomedida hybris, e castigam-na. Pecado capital. Mas a Grécia Antiga e as suas tragédias pertencem a outro reportório, além de serem de outra geografia. Pode ser que entrem nesta se alguma vez se lembrarem de reproduzir o Parténon e fizerem casinos debaixo das colunas de mármore rosa. Não é (ainda) o caso.  

O Venetian, antes de mais. É, como todos os edifícios do Cotai, um complexo constituído por três partes: um hotel, um centro comercial e um casino. Os edifícios irrompem como plantas viçosas numa terra fértil. Há centenas de guindastes para onde quer que se olhe. (Já não via tantos guindastes desde a Expo 98.) Não são bem plantados, são mais implantados, os edifícios, as palmeiras, os canteiros irrepreensíveis.

A terra, ela mesma, aparece onde antes era nada. A frase é inexacta porque antes era ali água, água entre ilhas e o aeroporto. Agora há um aterro, um corredor largo que uniu Coloane e a Taipa. Daí o nome: Cotai, mix das duas ilhas. O aterro trouxe com ele o progresso e a construção, o desenvolvimento e a massa. Se o aterro fosse uma pessoa, seria a mais sôfrega que conheci. Assim, o aterro revela a intenção de pessoas, e continuam a ser as mais sôfregas que conheci. Pessoas que querem mais terra, e mais, e mais, e ali inventam o que se parece com um paraíso – para muitos.

Estou em frente ao Venetian e penso que sou uma das 14 mil pessoas a olhar pela janela e a ver o Venetian. Potencialmente uma das 14 mil pessoas. O meu hotel tem sete mil quartos, e se cada quarto tiver duas pessoas, estaremos 14 mil pessoas a olhar para os guindastes e as gôndolas. Potencialmente. Mas seremos poucos, entre os 14 mil, os que têm dois quatros no número do quarto. Um quatro, para um supersticioso, é um signo nefasto. Imaginem dois...

O meu quarto era o 3404 e é bem possível que tivesse sido recusado pelo seu número aziago. Como não sou supersticiosa achei o 3404 uma opção tranquila.  

Convém dizer que não jogo, nunca joguei e acho que nunca jogarei (só não sou mais peremptório no “nunca jogarei” porque pode dar azar, nunca se sabe...). Nunca joguei no computador, nunca tive uma consola, não jogo no Facebook, nem quando me convidam para jogar Mahjong como se estivéssemos num filme do Wong Kar Wai. Se estivéssemos, eu jogaria. Mas na realidade, sem os vestidos da Maggie Cheung e os cigarros do Tony Leung, não estou disponível. Só para amar.

Fui quase todas as noites ao casino, aos casinos, não jogar, ver jogar. Esclareço o plural de casinos: o Cotai deve ser entendido como um complexo de circulação fácil de bens e pessoas. Circula-se entre hotéis, shopping e casinos como se tudo fizesse parte do mesmo parque de diversões. (Tudo faz parte do mesmo parque de diversões.) No meu hotel, quando me dirigia ao pequeno-almoço, passava pela Gucci e pela Rolex, e um pouco mais à frente da sala de refeições, guardado por uns guardas de farda amarela, ficava o casino. Do meu hotel ao Venetian eram minutos a pé, do Sheraton ao Venetian eram minutos a pé, do Four Seasons ao Venetian eram minutos a pé. Tudo ligado por corredores internos, formigueiro onde nada é deixado ao acaso. Artificialidade absoluta. Mas uma artificialidade confortável, onde a música de fundo é Sinatra.

E tudo a funcionar non stop. Um casino é como Veneza: é quando um homem quiser.

Cada hotel tem o seu núcleo de lojas e casino. O Venetian é o Venetian pela sua excentridade. Talvez venha a ser destronado pelo Parisian. Com torre Eifell e tudo, bien sur, quando o Parisian abrir. Não há-de tardar muito, que time is money, pensam os americanos que põem processos por dá cá aquela palha e são sensíveis ao tema dos direitos de autor. Mas para já, O Sole Mio.

Até então, tudo o que eu sabia de jogo estava no filme de Jacques Demy A Baía dos Anjos. Depois daqueles dias em Macau, tudo o que me interessa no jogo está na cara das pessoas que jogam. É uma maneira de continuar dentro do filme do realizador francês; ou seja, na psicologia do jogador. Mas nos casinos do Cotai não há a Jeanne Moreau, com o cabelo de um louro branco e vestidos sumptuosos. Nem havia o glamour do rapaz que a segue, e dança com ela, e lhe empresta cem francos para jogar numa máquina de flippers, o Claude Mann.

No filme ele pergunta-lhe:

-      Porque é que estamos aqui, juntos, neste quarto?

-      Porque é que eu te arrasto como um cão de guarda? Porque me dás sorte. Como uma ferradura.

E neste momento ele parte-lhe a cara, que é o que acontece quando as pessoas estão descontroladas e se portam como idiotas desesperados. Não importa que da janela se visse o Mediterrâneo e o filme de passasse na Côte D’Azur. De que serve Nice?

Não há um excesso visível nos casinos do Cotai. Os jogadores têm cara de pedra, não se vislumbra inquietação. Não têm uma gestualidade exuberante, não beijam as fichas, são silenciosos. É raro ver um pequeno grupo à volta de uma mesa, a excitação sobre as suas cabeças, o som da alegria ou desapontamento. Nessa altura, sabemos que ali se passa qualquer coisa de atípico.

Atípico é melhor do que anormal. Porque normal é tudo, dentro de uma anormalidade que só é anormal para nós e para os nossos códigos. Querer jogar dois milhões de patacas, querer jogar 48 horas é normal. Jogar e respirar não são diferentes. Se se deixar de respirar, morre-se. Se se deixar de jogar, está-se morto. Que sopro é que os alimenta? Para quem joga é ganhar.  

As caras são de pedra, os corpos vão até ao canto mais próximo, beber chá, café, água. Não se consomem bebidas alcoólicas. (“Jogue de modo responsável” – dizem os avisos). Ninguém joga até ficar exangue. Quem são estes jogadores? São a empregada do escritório, o ajudante da oficina, agricultores, professores, farmacêuticos, burocratas, donas de casa enfastiadas, jovens com mais de 21 anos, a nossa avó (que  imaginaríamos pacatamente em casa), o melhor amigo do nosso pai. Pessoas como nós. Vestidas modestamente. Ao mesmo tempo, uma concentração de malas caras e relógios-jóia que não se vê em mais lado nenhum. (Nunca vi tantas malas Chanel ou Hermès como em Macau. Verdadeiras e falsas; sendo que aqui o falso – das malas – é mais verdadeiro que o falso do Venetian).

Há um movimento que me magnetiza, um gesto delicado, feito da esquerda para a direita, com a mão. É um modo de dizer:

- Rien ne vas plus.

Acabaram-se as apostas. A maior parte dos funcionários dos casinos faziam-no banalmente. Sem pose. Coisa genuína. Para mim, constituiu a parte mais bonita daquele cerimonial.

Não me lembro qual era o gesto para

- Faites vos jeux.

Façam as vossas apostas. É uma grande frase, uma porta aberta para a orgia em que o jogo se transforma, mesmo que se trate apenas de uns minutos de transe, aqueles em que dura o lance.

E que jogam eles? Baccarat, sobretudo baccarat. A roleta, a sua elipse que enfeitiça, é coisa para a Jeanne Moreau. Jogam baccarat e poderiam falar, como a Moreau, do fascínio, de uma existência idiota virada do avesso, de luxúria e de pobreza, do mistério dos números. Da sorte. Da felicidade de jogar que não se compara a nenhuma outra, explica ela quando ele lhe pergunta porque é que ela joga.

Como é sabido, em Macau joga-se. Na China talvez se jogue em todo o lado, mas oficialmente só se joga em Macau. O velho casino Lisboa, no velho centro de Macau, tem agora um novo edifício que se vê de todo o lado e que termina com uma flor de lótus. Se a poluição o permitir, vê-se a flor de lótus do Cotai. É raro. A poluição é tal modo pastosa que parece que estamos sempre com óculos sujos ou que o vidro é fosco. Problema sério.

O velho Lisboa ilumina-se à noite. Nos corredores da galeria comercial, depois da recepção do hotel e de um restaurante onde almoçam famílias, vêem-se prostitutas a andar em passo estugado. Andam em par, com um vestido curtíssimo. Muito jovens, impressionantemente jovens. São como bichos que andam em círculos, presas nas catacumbas, para trás e para a frente. Impressionantemente jovens e bonitas, muito bonitas. É a imagem que dói mais.

Fico a olhar para a flor de lótus no cimo do Lisboa. Lembro-me então dos comedores da flor de lótus, os lotófagos, que figuram na Odisseia e na Divina Comédia. As propriedades alucinogénias da planta são conhecidas, mas a mim sempre me impressionou que fosse também a flor do esquecimento, e que alguns dos que a comiam não se lembrassem mais do caminho para casa.

De repente fez-me mais sentido que a flor de lótus seja o símbolo de Macau. A alienação talvez seja a mesma que o jogo convoca. E ambos, de certa maneira, exilam a pessoa de si própria, a fecham na sua adição. Como é que encontram, depois, o caminho para casa?

Desci para o pequeno-almoço às oito da manhã. Era dia de ano novo, decidi comer catorze lichias (prefiro lichias a passas). Eram pequenas e rosadas. Em Portugal era meia-noite e estava a começar o ano novo. O meu 2014, apesar do quatro, será um ano bom. Terá mais oito horas e catorze lichias. Bom jogo à partida.

 

 

Guia prático

Há várias companhias que fazem Portugal-Macau ou Portugal-Hong Kong. Se optar por esta possibilidade, é importante saber que pode apanhar o ferry que liga HK a Macau directamente no aeroporto. É mais ou menos uma hora, num mar calmíssimo; servem uma refeição incomestível, mas a embalagem é engraçada.

A Emirates Airlines está a transformar o Dubai numa central importantíssima para ligar as duas partes do mundo. Às cinco da manhã tem um tráfego de estação de comboios em hora de ponta, mas luxuoso e eficiente. Os voos têm preços muito concorrenciais e os aviões são confortáveis; mas o melhor é o serviço. Simpatia profissional de nota máxima.

O voo está entre as 17 e as 18 horas, qualquer que seja a escala e companhia. Como em Macau são mais oito horas, o jet-lag não é um problema menor. Leve comprimidos para dormir (e não se vicie!). Valem a pena. Senão, os primeiros dias são dias perdidos em termos de energia.

A comida e o táxi têm preços razoáveis, talvez um pouco inferiores aos de Portugal. Mas o espaço é um bem precioso, e o preço dos apartamentos ou dos hotéis é fogo.

Para circular, é indispensável ter um cartão com a morada do sítio onde fica hospedado em cantonense. A maior parte dos taxistas não fala inglês nem faz um esforço para entender o cliente. Na verdade, só em hotéis ou restaurantes voltados para turistas falam inglês.

Todas as ruas, mas todas, têm uma inscrição em português e em mandarim. O mesmo com os estabelecimentos comerciais. A presença portuguesa é visível sobretudo aí. Há um restaurante Vela Latina..., mas serve comida asiática.

O roubo não é um problema sério (exceptuando carteiristas em zonas apinhadas). O crime está ligado, normalmente, a dívidas de jogo.

O que comprar? Pérolas lindas e caras, a dois passos do Leal Senado (um colar pode custar mil euros). Não se pode dizer, mas toda a gente compra carteiras e relógios falsos (em especial na vizinha Zhuhai, na China; nesse caso, precisa de visto. Para ir a HK, não é preciso visto.) Há imitações para todos os gostos e bolsas; quando são cópias perfeitas, custam cerca de 10% do valor da peça em loja.

Em Macau usa-se a pataca, em HK o Hong Kong dólar e na China remimbis. Se levantar dinheiro na máquina, a comissão é absurda! Atenção a isso.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014