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Anabela Mota Ribeiro

50 anos de Bossa Nova

29.07.18

Dezembro de 1966. Chamam ao telefone o senhor Jobim. Não foi bem assim. No Veloso ele era “Seu Tom” e não se apregoavam frases de cafés lisboetas. O negócio era outro. E Arménio, o dono do boteco de esquina, conhecia-o de outros carnavais, de muitas rodas de chope. Ia dizer “Senhor António Carlos Jobim, estão lhe chamando ao telefone?” É verdade que Frank Sinatra estava do outro lado do fio. O maior cantor do mundo. Mesmo assim. Seu Arménio anunciou apenas: ligação dos Estados Unidos. Tem um gringo aí querendo falar. Foi então que Frank, Frankie, the voice, anunciou a boa nova:

- “Quero fazer um disco com você e saber se você gosta da ideia”.

Sinatra não falava português, mas Tom falava inglês. A resposta terá sido:

- “It’s an honor, I’d love to”.

Imaginemos um dia esplendoroso, como só podem ser os dias de Dezembro no Rio de Janeiro. Seu Tom estava de regresso ao Brasil e tomava chope pela tarde. Não é possível dizer cerveja, porque dizer chope já introduz toda outra coisa. O Verão a estourar, Tom prestes a fazer 40 anos, a Bossa Nova como um acontecimento de um passado longínquo, e Sinatra a acenar it’s now or never.

É provável que Tom ficasse para a história, e não apenas para os compêndios musicais, sem este encontro com Sua Eminência. “The Girl from Ipanema” tinha merecido 40 versões só no primeiro ano de vida. Nat King Cole tinha cantado no Copacabana Palace com Sylvinha Telles, a maior cantora do movimento. Miles Davis tinha assistido à apresentação formal da Bossa no Carnegie Hall. A Bossa não era mais Nova. Tinha sido dada como extinta no Brasil. Mas no resto do mundo, estava apenas a despontar. Num esplendoroso dia de Dezembro, Tom Jobim sabia que não era trote quando lhe disseram que Frank Sinatra queria falar. Talvez um génio saiba mesmo que é um génio.

Tudo começara muito antes. No Rio. Ou talvez em Juazeiro, terra recôndita da Baía, onde nasceu o homem que, mais do que Tom Jobim ou Vinícius de Moraes, revolucionaria a história da música brasileira. Os especialistas da Bossa Nova são os primeiros a prestar vassalagem ao génio de Jobim, a equipará-lo a Cole Porter ou aos irmãos Gershwin. É consensual que “Eu sei que vou te amar” é um hino do tamanho de “Everytime we say goodbye”. Mas o que mudou radicalmente o que até então se fazia foi a batida do violão de João Gilberto, em Juazeiro. A batida sincopada da Bossa Nova – como anos mais tarde diria Aloysio de Oliveira, em síntese.

Ruy Castro, biógrafo da Bossa Nova, começa o seu livro pelo altifalante pendurado num poste da Rua Apolo, em Juazeiro. A música era “Naná”, de Orlando Silva. Orlando Silva era quem João Gilberto queria ser. Como é que cantava Orlando Silva? Como cantavam os cantores da rádio desse tempo. Voz de veludo, cabelo lustroso, um punhal junto ao peito. Antes de João cantar do jeito manso que o mundo lhe conhece, por exemplo, quando cantava com o grupo vocal “Os Garotos da Lua”, ele cantava do jeito de Orlando Silva. Algumas fitas manhosas desse período atestam isso mesmo.

O altifalante, segundo Castro, passava de tudo um pouco; mas o tudo que passava era bom pra cacete. Tommy Dorsey (para os que estão muito fora, talvez dizer que Sinatra era o crooner da sua orquestra…), Duke Ellington, Charles Trenet, Carmen Miranda, Dorival Caymmi. Selecção irrepreensível, eclética. Os moços juntavam-se debaixo da árvore para tocar violão.

Ficaria bem no postal dizer que Joãozinho tocava violão e cantava às moças. Seria tão idílico quanto dizer: “Champanhe, mulheres e música, aqui vou eu” – que, segundo Ruy Castro, foi o seu grito de guerra quando rumou a Salvador. Mas não se lhe conheceu uma namorada na sua terra natal. Dir-se-ia que tocava e cantava para si próprio. Pelo prazer de tocar e cantar. O que não faz dele um monge. Antes de casar com Astrud, e depois com Miúcha, e depois com, e depois com, e agora com (de quem tem uma filhinha de três anos), João namorou com Sylvinha Telles, Marisa, e seguramente com outras mocinhas.

Era um sedutor de modos elegantes. Seduzia uma plateia com duas frases e uma canção, conquistava o pessoal dos hotéis e restaurantes ao fim do segundo pedido. (Consta que, durante os anos em que viveu em hotéis, quer dizer, muitos, e até há muito pouco, fazia das faxineiras, arrumadeiras e garçons os seus convidados de primeira fila nos raríssimos shows em que se apresentava).

Enquanto isso. Em 1949 e nos anos seguintes, ouvia-se Dick Farney. Nas boites, não nos puteiros – expressão insubstituível usada por Ruy Castro para definir os lugares em que Jobim se atirava ao piano. Dick Farney era o Sinatra brasileiro. Farney fez uma incursão nos Estados Unidos e dava-se com Stan Kenton, o director de orquestra venerado pelos meninos que cruzavam Copacabana e Ipanema. Mas também com Mel Tormé, Anita O’Day, e Sinatra, him self. “Aí eu disse ao Frank…”. Dick Farney era, além de cantor excepcional – para os que não tiveram ainda o prazer de um encontro, aconselha-se uma corrida imediata a uma loja online e subsequente encomenda – um grande pianista de jazz. Todo o universo, como facilmente se percebe, era o do jazz americano. Mais ou menos puro, mais ou menos duro. Mais para menos puro e duro.

Dick Farney não podia ser deixado fora da história da Bossa Nova porque ele era idolatrado pelos músicos que a fizeram. Pianistas como Johnny Alf (ainda vivo, também cantor, compôs “Eu e a Brisa”) ou João Donato (vivíssimo, com carreira pujante no Japão, autor do eterno “A Rã”/”The Frog”) seguiam-no com a um astro. No caso de Donato, apelidado de Judas Escariotes pelos outros meninos, seguia Dick Farney como seguia Lúcio Alves.

Ou se era de um ou se era do outro. Donato era dos dois. Depois de desfeitos os clubes de fãs que promoviam a rivalidade, também João Gilberto. Mas não foi por outra razão senão estar na Baía enquanto os garotinhos do Rio se entretinham com estas disputas. Acontece que João Gilberto tinha bom gosto musical e não podia prescindir de nenhum dos dois. Quando o seu primeiro disco foi gravado, quase dez anos depois do pico da rivalidade Farney-Alves, ele procurou Lúcio. Insegurança? Não. Este é um daqueles casos em que o génio sabe desde o começo que é um génio. Era, simplesmente, o desejo de receber a aprovação e o afago no pêlo do seu ídolo.

Porque é que ainda não se falou, senão de relance, da “Garota de Ipanema”? Um facto para arrumar desde já a questão: até que Vinícius e Tom celebrassem a beleza de Helô Pinheiro, de corpo dourado do sol de Ipanema, muitas canções foram escritas. Tom e Vinícius formaram a dupla mais celebrada, mas bota no pacote Carlinhos Lyra, Newton Mendonça, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal. Maysa e Nara ficam para mais tarde, quando se tratar da cisão da Bossa Nova e quisermos saber porquê – cherchez la femme, como sempre.

Para os que estão perdidos na genealogia, para quem a Bossa Nova é uma musiquinha gostosa, que combina com o fim de tarde, um drink ou um elevador, aqui ficam alguns factos históricos: A Bossa Nova surgiu há 50 anos. O Brasil celebra a efeméride com o mesmo empenho que usa para assinalar a chegada da Côrte. Compilações distribuídas pelos jornais aos domingos, palestras em cada auditório, concertos irrepetíveis (como o de Caetano Veloso e Roberto Carlos, esta sexta feira, numa evocação de Tom Jobim).

Se estiver na situação do pai de Nara Leão, “Onde é que está a bossa? E o que essas músicas têm de diferente?”, a resposta pode ser arrancada das páginas de O Cruzeiro, a revista que vendia 700 000 exemplares e que estava interessado em saber como tudo tinha começado. O jornalista e compositor (e namorado de Nara, e flatmate de João Gilberto e mais tarde marido de Elis Regina) Ronaldo Bôscoli respondeu assim: “Filosoficamente, Bossa Nova era um estado de espírito”. A cantora Alayde Costa foi mais precisa: “Eu acho que Bossa Nova é toda a música em que entram bemóis e sustenidos”. A melhor é a do poeta Schmidt: “A Bossa Nova é o reencontro do Homem de hoje com o Homem eterno”. Se continua na situação do pai da Nara – o que é compreensível – talvez ir à etimologia da Bossa. Ruy Castro escreve no seu livro “Chega de Saudade”: “A palavra “bossa” estava longe de ser nova: era usada pelos músicos desde tempos perdidos, para definir alguém que cantasse ou tocasse diferente. (…) A origem da expressão nunca ficou esclarecida de todo e gastou-se mais papel e tinta com esse assunto do que ele merecia”.

A Bossa Nova era, então, uma música nova. Uma reacção à música interpretada por Anísio Silva ou Sílvio Caldas. Os cantores de que as empregadas lá de casa gostavam. Os que exumavam a dor de corno numa canção. Os que lastimavam “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amorrrrrrr”. Tudo dito num tom gongórico, pré-apopléctico, vertido com lágrimas. Noir, roufenho, como numa rádio onda média. Acompanhava com copos de uísque e cigarros fumados em boquilha – piteira, como se diz no Brasil. A mulher, essa malvada, espalhava os seus encantos e os seus venenos à noite, alta noite.

Jobim podia tocar em bares e puteiros – tinha uma guerra com o “aluguel” e uma família para cuidar. Jobim podia até perguntar com genuíno interesse a Vinícius quando este lhe falou de uma colaboração: “Tem um dinheirinho nisso aí?”. Mas a noite era uma contingência.

No dicionário de figuras de Ipanema, Ruy Castro descreve-o do seguinte modo: “Ele foi o paradigma do bairro, moleque de praia, adepto de esportes, homem de enorme beleza física, aberto à natureza e à vida, sedento de livros e de conhecimento, bom de copo, inestancavelmente criativo e com um senso de humor ideal para a grande especialidade de Ipanema: conversa fiada”. António Carlos Jobim foi criado com a Lagoa Rodrigo de Freitas aos pés, nadava do Arpoador a Copacabana e voltava. O cheiro a maresia corria numa veia paralela, atravessava-lhe o corpo todo. A sua música não podia deixar de reflectir isso. Deslizava de Copacabana, sombria, nocturna, para o bairro de Ipanema, solar, salgado.

O encontro desse moleque com um homem do mundo, um diplomata que abominava a burocracia, um poeta formado em Oxford, mudou o curso deste rio. No mesmo dicionário, Castro resume o one man show Vinícius de Moraes: “Encarnou a coexistência entre o [Palácio do] Itamaraty e o [bar] Veloso, o uísque e o chope, o asfalto e o morro, a poesia e a letra de samba. A influência dessa dualidade sobre os jovens que conviveram com ele em Ipanema nos anos 50 e 60 foi tremenda”. Do folclore em torno de Vinícius são obrigatórias frases como: “O uísque é o melhor amigo do homem: é o cachorro engarrafado”. Ou os seus nove casamentos. Ou o facto de receber todo o mundo, conhecidos ou não, na banheira.

Esta bandalheira ainda não era permitida quando a Bossa Nova se anunciou. Vinícius era o poeta diplomata que outorgava ao movimento o prestígio do Itamaraty e de Oxford. Versos pueris como: “Pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca” não eram menos que a sua alta poesia, já escrita. Eram, pelo menos, um indicador: No more blues.

Na família Bossa Nova, Bôscoli, Menescal, Nara, Lyra, podem ser lidos como os primos muito chegados e muito novos. Falemos de grana para falar de Nara. Parece injusto que a associação comece por ser esta. Mas a verdade é que este ramo da família não teria sobrevivido se não fosse o apartamento gigante que Nara tinha na Avenida Atlântica. Uma sala de 90 m2, um pai advogado e beneplácito, uma irmã (Danuza) que aos 15 anos tinha Di Cavalcanti por melhor amigo. Millôr Fernandes ia lá jogar póquer uma vez por semana; e nessa altura os meninos pegavam no violão e iam fazer Bossa Nova para outro lado. Fora isso, a casa era um entra e sai permanente.

Tom e João não estavam sempre lá – tinham mais que fazer, nomeadamente ganhar a vida. João vivia encostado na casa deste e daquele, meses e meses, até que simpaticamente, ou nem tanto, lhe apontavam a porta da rua. Não tinha um vintém. A ponto de bater à porta do abastado Menescal e perguntar: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa?”. A ponto de usar uma camisola de Bôscoli na fotografia de capa de “Chega de Saudade”. Vivia na absoluta penúria.

Não ganhava a ninharia que os outros ganhavam porque não se dispunha a fazer figuras tristes – ainda fez algumas, apesar de tudo, como cantar fantasiado num programa de televisão. Diz-se que chegou a passar fome. As excentricidades de João são antigas, e não fazia nada que não faça hoje: levantava-se e ia embora quando faziam barulho na assistência, fumava maconha e esquecia-se das horas, exasperava orquestras e maestros por séries ininterruptas de gravação, e atrevia-se a dizer a Tom: “Puxa Tom, como você é burro”, porque Jobim não detectava o erro colossal (?) que aquele acorde continha.

Arrastava a fama de génio de ouvido absoluto. Tinha uma fala mansa. “A voz de João Gilberto era um instrumento (…). O homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade não parecia cantar – dizia as palavras baixinho. (…) Para Menescal e Bôscoli, naquela noite, João Gilberto era a realidade encarnada do que até então, eles vinham procurando às cegas”. (“Chega de Saudade”). Tom pensou que João “deixara de ser o discípulo de Orlando Silva, com toques de Lúcio Alves. Cantava agora mais baixo, dando a nota exacta, sem vibrato, estilo Chet Baker, que era a coqueluche da época. Mas o que o impressionou foi o violão. Aquela batida era uma coisa nova”. O mundo inteirinho enchia-se de graça e ficava mais lindo por causa de João Gilberto. Muitos anos mais tarde, Caetano resumiria isto no verso: “Melhor do que o silêncio só João”.

Assistia-se a uma epifania. Mas pouco antes, o pai de João sentenciava a morte do género: “Isto não é música. Isto é nhém-nhém-nhém”. Talvez o abastado senhor Oliveira ainda tivesse esperança de ver o filho doutor, como vira todos os outros. Mas o altifalante de Juazeiro tocou mais alto.

“Canção de Amor Demais”, da “enluarada” Elizete Cardoso, materializou em vinil a novidade. A Bossa. Integralmente assinado por Tom e Vinícius, a álbum tinha como plus João Gilberto a tocar violão em duas faixas. Elizete era uma cantora da velha guarda, e o disco anunciava formalmente a mudança. Por causa do repertório. Elizete cantava à moda antiga, e um exercício eficaz para se perceber o que é a Bossa Nova e o que é o génio de João Gilberto é ouvir a versão que um e outro fizeram de “Chega de Saudade”. Três meses depois da diva, João gravou o seu 78rpm com “Chega de Saudade” de um lado e “Bim Bom” do outro. Pediu um microfone para o violão e outro para a voz – o que nunca tinha sido pedido. E fez uma novela em sucessivos capítulos da simples gravação das duas canções. Os jovens da Zona Sul, endinheirados e ensolarados, já conheciam “aquilo”, mas agora tinham um disco a partir do qual podiam tocar, tocar, tocar, até aprender.

Demorou até pegar. Mas transformou-se num fenómeno que não cabia na praia de Ipanema nem na de Copacabana. Dois meses depois, em Janeiro de 59, saiu o primeiro LP (long play, como se dizia, e é o que significa). O habilíssimo Tom Jobim, que além de bares e puteiros tinha um emprego fixo na editora Odeon, escreveu para a contra-capa de “Chega de Saudade” que João “em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. (…) João acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura. (…) P.S.: Caymmi também acha”. Ary Barroso, também. Cyro Monteiro, também.

O melhor da velha guarda “entendia” o que estava a acontecer. Lúcio Alves gravou um disco inteiro com composições desses garotos, Bôscoli/Menescal. A Elenco, editora dissidente da Odeon, do veterano Aloysio de Oliveira, lançava no mercado pérola sobre pérola. O grafismo era depurado, monocolor. Mas o que parece ser uma aposta arrojada resulta da escassez de dinheiro. Tudo em ebulição, portanto.

As canções eram tocadas por todos, compostas por Tom/Vinícius, Tom/Mendonça, Bôscoli/Menescal, e por Bonfá e Carlinhos Lyra. As canções eram cantadas por todos. Sylvia Telles (ao ouvi-la, é fácil perceber porque é que Marisa Monte a venera) gravou dois LP em quatro meses, com 24 canções. A safra era de cortar a respiração. “Samba de uma nota só”, “Dindi”, “Samba do Avião”, “A Felicidade”, “Desafinado”, “Insensatez” – por exemplo.

O disco da consolidação chamou-se “O Amor, o sorriso e a flor”. João Gilberto sugeriu a Jobim: “Tomzinho, essa coisa de “um cigarro e um violão”. Não devia ser assim. Cigarro é coisa ruim. Que tal se você mudasse para “um cantinho, um violão”?”. Ruy Castro explica as razões deste desconforto: “João tomara-se de tal horror pela maconha que passara a responsabilizá-la por todos os seus fracassos iniciais”. Ficou um cantinho e um violão (esse amor e uma canção, pra fazer feliz a quem se ama).

O que lhes aconteceu a seguir? Antes do grande cisma, uma nota sobre Helô, que inspirou “Garota de Ipanema”. Ao contrário do que se diz, não foi no bar Veloso, mais tarde denominado de Garota de Ipanema, que a música foi escrita. O que é facto é que Tom e Vinícius viam ali passar aquela garota, que coisa mais linda mais cheia de graça. Mas foi nas suas casas, e em separado, que criaram a celebérrima canção. Estava-se em 1962, e só anos mais tarde Helô soube que o seu balançado parecia um poema. Era filha de um general e tinha um noivo ciumento. Ia ao Veloso comprar cigarros para a mãe. Teve um destino de dona de casa, uma vida sem ponto de exclamação. Só quando os dias se amarguraram como um bolero dos anos 50, conheceu a libertação; e então pousou nua para a Playboy, cumprindo com décadas de atraso o sonho de muitos amantes da Bossa Nova. Hoje aparece na Caras a festejar o aniversário, estereotipada e loura, com sorriso postiço e corpo enxuto.

Quando Stan Getz, Astrud e João gravaram um disco para a Verve, e com ele bateram a beatlemania, ninguém poderia acreditar que poucos anos antes João Gilberto batia à porta de um desconhecido a perguntar se havia ali um violão. Ninguém apostaria que Astrud ficaria nos Estados Unidos até hoje a fazer carreira no circuito jazzístico. Em 1962 a Bossa estava moribunda, exaurida. Era um troço auto-fágico. Basicamente, já não se podiam aturar uns aos outros. As brigas tinham um aspecto raivoso e diluviano (como diria Nelson Rodrigues). Os namorados e as namoradas eram trocados de uns braços para outros. O dinheiro era incerto. O alcoolismo grassava em todas as frentes. Existia um excesso consanguinidade. E como é sabido, há um momento em que todas as famílias começam a apodrecer.

O concerto no Carneggie Hall deu o toque de debandada, e depois dele o núcleo duro da Bossa Nova “exilou-se” entre Manhattan e a Califórnia. Mas no seio da “turminha” a cisão aconteceu antes e, como seria de esperar, por um assunto de saias.

Primeiro, uma cantora extraordinária de nome Maysa anunciou no aeroporto, perante jornalistas, que ia casar com Bôscoli. Depois Nara rompeu com Bôscoli e decidiu não cantar os temas que ele tinha composto para ela. Por fim, ou se estava com Nara ou se estava com Bôscoli. Sequência: Nara reaproximou-se de Carlinhos Lyra, que já tinha rompido com Bôscoli, e fez uma abordagem à música do morro e à canção de protesto. Renegou tão enfaticamente o seu passado e a turminha que acabou zurzida de cima a baixo. O disco que punha o último tijolo no movimento e na relação foi “Opinião de Nara”. Continha sambas, marchas de Carnaval, canções de protesto. “Chega de Bossa Nova, chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro que tem muito mais a dizer. (…) Se estou me desligando da Bossa Nova? A Bossa Nova me dá sono” (Nara em entrevista, citada no livro do Ruy Castro). Foi acusada de ingratidão. Mas a pobre menina rica, sentia no ar o fim de um tempo. Esboroava-se a rêverie dos anos Kubitschek, o progresso estancava.

Longo sono. Um sono de Bela Adormecida.

Foram precisas décadas até que a Bossa Nova fosse reabilitada no Brasil. No circuito internacional, de modo irregular, sempre se ouviu e praticou. Em especial pelos parentes próximos do jazz. Moacyr Santos, o maestro que compôs obras primas como “Coisas”, fez toda a sua carreira nos Estados Unidos. Sérgio Mendes também. Para já não falar de Tom e João que viveram pelo menos 20 anos fora. Vinícius acabou expulso do Itamaraty – “expulsem esse vagabundo”, dizia o telegrama, corre a lenda. Por mau comportamento. Má imagem. Alcoolismo entre outros pecados – para dizer depressa.

Morreu antes de Tom.

Tom morreu antes de João.

João celebra esta noite os 50 anos da Bossa Nova no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Pensará nos outros dois antes de entrar em palco? Sentirá falta daquele longo e interminável dia das suas vidas? Um dia que durou alguns anos.

 

Publicado originalmente no Público em 2008

Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (s/ Brasil)

29.07.18

Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling quiseram, não “contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história”. Traçar uma biografia, destacar personagens que habitam uma casa grande (e não apenas os senhores), apontar datas fracturantes, movimentos subterrâneos, convulsões que mudam o mundo de lugar. Violência, mestiçagem, desigualdade, liberdade são alguns dos vocábulos centrais. “Brasil: uma Biografia” é um livro que nos permite olhar para o Brasil actual e perceber heranças, continuidades e rupturas.

  

“Deus é brasileiro”, como diz o ditado? O que quer isto dizer?

Lilia – Como diz Roland Barthes num livro chamado “Mitologias”, todo o povo é profundamente etnocêntrico. Os brasileiros também são. O ditado vem da ideia de que esse é um país sem furacões, terramotos, maremotos. Uma terra abençoada por Deus. O problema desse provérbio, que é muito usado no Brasil, é que pode causar uma grande acomodação. Não é preciso fazer muita coisa. Tudo se resolve no poder mágico das ideias.

 

É contar com uma força providencial, no fundo.

Lilia – É. Só muito recentemente os brasileiros se têm dado conta de que Deus pode não ser brasileiro.

Heloísa – Essa ideia de um país com uma natureza que tudo resolve, com a ausência de qualquer tipo de exigência porque tudo vai cair do céu, produz um povo que não actua no sentido de construir a sua própria história.

 

Qual foi o momento de viragem? Quando é que os brasileiros começaram a sentir que Deus podia não estar pondo a mão, resolvendo tudo?

Lilia – A noção de um país pacífico é um dos grandes mitos nacionais. O Brasil nunca foi pacífico. Vejamos o extermínio dos indígenas no primeiro encontro/desencontro com o mundo ocidental. Vejamos o sistema escravocrata que naturalizou um regime de trabalho forçado, cuja base é a violência. Existiram revoltas o tempo todo. O Brasil fez esse caminho inconcluso – a democracia é um projecto sempre em melhoramento, como Heloísa me ensina. Vem vivendo anos de democratização e isso tem dado aos brasileiros a oportunidade de vivenciar os seus direitos civis. Entrámos tarde na linguagem dos direitos civis, do direito à diferença na igualdade.

Heloísa – Construir uma democracia não é fácil.

 

Em nenhum país.

Heloísa – O povo brasileiro viu-se diante de algumas questões. Saiu de uma ditadura [1964/85], fez uma longa transição. O período dos dois últimos governos militares, do general Geisel [74/79] e do general Figueiredo [79/85], é muito engenhoso. A sociedade teve de se haver com uma escolha: ou temos um governo autoritário ou vamos ter que nos responsabilizar [por nós mesmo]. Foi um momento importante para deixar de pensar que Deus é brasileiro. O segundo momento: ao se deparar com a democracia, o povo tem que se reconhecer dentro de um catálogo de direitos em que todos são iguais. O que, para uma sociedade que tem uma raiz escravista, que passou séculos lidando com o privilégio, é dificílimo. Esta experimentação significa, já no século XXI, ter de reconhecer como meu igual as camadas pobres da população, o negro.

Lilia – É um país que continua sendo campeão de desigualdade. Que continua praticando homofobismos.

 

Sob vários pontos de vista, nomeadamente em questões ligadas aos costumes, é um país conservador.

Lilia – Muito conservador. É também um país de problemas ecológicos seriíssimos. Que faz uma discriminação silenciosa e perversa. O jogo de lidar com a experiência virtuosa da democracia... As eleições têm sido resolvidas na urna, absolutamente fiáveis, os resultados saem em poucas horas. As instituições democráticas estão consolidadas. Mas é um país com problemas de res-publica muito fortes.      

Heloísa – Talvez Deus tenha deixado o seguinte: “Vou ali, não volto já e deixo no meu lugar a democracia e a república para vocês se virarem”.

Lilia – E o jeitinho não funciona mais.

 

Não? Em Portugal usamos uma palavra equivalente ao jeitinho: desenrascanço (em que os portugueses são pródigos). Muitas das coisas que escrevem sobre o Brasil poderiam ser sobre Portugal. Por exemplo, a dificuldade em planificar, organizar, contar com uma presença salvífica, encarnada em Deus ou numa entidade exterior, que tudo resolve.

Lilia – Há um livro fundamental no nosso livro, do Sérgio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”, escrito em 1936. Parte da nossa origem portuguesa. E parte da figura do ladrilhador e do semeador. Usa estes termos dicotómicos que mostram certas tendências. É um modelo de colonização de que não se sai de forma incólume. Há muito em comum. Para voltar ao Sérgio Buarque de Holanda: brasileiros e portugueses têm um inflacionamento da esfera privada em detrimento da pública.

 

Aqui, tudo é fulanizado, tratado como se fosse uma questão pessoal.

Lilia – É o império da pessoa, do diminutivo.

 

Escrevem no livro que no Brasil até os santos são tratados pelo diminutivo.

Lilia – Exactamente. Os presidentes são chamados pelo primeiro nome.

Heloísa – Há um outro autor que também chama a atenção para a influência dos portugueses que incorporámos, o Raymundo Faoro. N’ “Os Donos do Poder” mostra o tipo de Estado – patrimonialista – que se produz a partir da relação com Portugal. Aqui também deve ser forte a burocracia. A quantidade de papel. O documentar tudo.

 

Traduz-se num controlo absoluto sobre todos os passos.

Heloísa – É uma dimensão importante, que não é exclusiva do brasileiro, e que mostra sociedades que tiveram um longo caminho para começar a pensar a democracia. A democracia é problemática para esse tipo de sociedade. Essa coisa de todo o mundo ser igual é muito complicada na cabeça dessa sociedade.

 

Ainda se ouve dizer, a propósito da igualdade: idealmente, sim, na prática, ainda não estamos preparados para isso?

Heloísa – No Brasil não se ouve mais isso. Mas ou essa cultura política começa a atravessar o quotidiano das pessoas, e nunca vai estar pronta porque a democracia não tem fim, e novos direitos vão ser colocados em cena, ou não vai caminhar.

Uma coisa [relacionada com a forma como os políticos são tratados]: os ditadores não têm um diminutivo.

 

Porque são figuras distantes, inacessíveis?

Heloísa – Exacto. Nenhum ditador foi chamado pelo primeiro nome. Nenhum deles tem apelido [alcunha].

 

Em Portugal, os políticos homens são tratados pelo apelido de família, as mulheres pelo primeiro nome. Normalmente é assim. A ministra das Finanças é a ministra Maria Luís. O seu predecessor era o ministro Vítor Gaspar.

Lilia – A Dilma [Rousseff] é Dilma. A Marina [Lima] é Marina.

Heloísa – O Aloizio é Aloizio Mercadante. O Levy é o Joaquim Levy.

Lilia – Não tem muita regra. Mas não é como com os militares.

 

Desigualdade, violência e mestiçagem são palavras nucleares para compreender a biografia do Brasil dos últimos 150 anos?

Lilia – Vamos aumentar essa conta.

Heloísa – Com este livro, o esforço que a gente fez foi dizer que o Brasil não é uma coisa ou outra. O Brasil é uma coisa e outra. Concordo com você: o Brasil tem uma sociedade muito violenta, muito desigual e isso tem a ver com a mestiçagem. Mestiçagem nas suas duas faces – que é um conceito importante que a Lilia trabalha de uma maneira nova. O que está faltando [nessas palavras nucleares] é que, simultaneamente, essa é uma sociedade que desde a sua origem, desde o encontro com os portugueses, luta desesperadamente pela construção da liberdade.

 

E são diferentes conceitos de liberdade.

Heloísa – Nas minas, no século XVIII, era autonomia. Em 1940, são os direitos civis. A forma como a liberdade vai aparecer, o nome que ela vai receber varia no tempo. O conteúdo é dado pelo tempo e pelas demandas das pessoas. Mas a liberdade é um traço de permanência.

Lilia – A mestiçagem é uma questão fundamental. Durante muito tempo, a noção oficial de mestiçagem teve a ver com mistura. É uma perspectiva. Eu acho que não há mestiçagem sem separação. É próprio da mestiçagem acumular mistura e separação.

 

Pode explicitar esses aspectos?

Lilia – O Brasil carrega modelos de inclusão muito claros. Sobretudo em termos culturais, somos um produto mestiçado. Desde que o Brasil não é Brasil. Desde antes de os portugueses chegarem. Essas populações praticavam a antropofagia, que era o contacto entre diferentes grupos que levava a um produto diferente. Antropofagia era um contacto ritual, comer o inimigo significava comer a sua alma, comer a sua força e deglutir algo novo. A entrada dos africanos de maneira compulsória (o Brasil recebeu de 40 a 48% das populações africanas que saíram para trabalhar nas plantações da América), gerou outro tipo de mestiçagem. Houve uma mestiçagem cultural desde esse momento? Claro que sim. Veja a nossa linguagem. Veja a nossa culinária. A nossa religião é profundamente mestiça. O candomblé não veio directamente de África, modificou-se no Brasil. A capoeira é uma criação brasileira resultado da mistura.

Ao mesmo tempo, excluiu-se muito. Não há como negar que a sociedade do açúcar é pautada pelo trabalho escravo. Isto criou sociedades profundamente divididas. O universo da casa grande: o Brasil exportou uma determinada arquitectura que separa rigidamente os espaços sociais dos espaços do serviço.

Heloísa – Tem no Brasil, até hoje, elevador de serviço.

 

Em Portugal, os prédios de há 50 anos tinham elevador de serviço.

Lilia – Nós continuamos a exportar [esse modelo]. Em Miami, onde estão os brasileiros agora, estão introduzindo o elevador de serviço.

Heloísa – Nos prédios que os brasileiros endinheirados estão fazendo em Miami, há o quarta da empregada e o elevador de serviço.

 

Como é que os empregados eram e são chamados no Brasil? Aqui, houve um tempo em que eram “criadas de servir”. Agora são “empregadas”.

Lilia – Nos inventários são os “bens semoventes”. Os bens eram divididos em bens imóveis (propriedades), móveis (ouro) e semoventes (os escravizados, com o gado). Os escravos podiam ser leiloados, penhorados, segurados, mortos.

Não se fala criado, hoje. É doméstica. O trabalho doméstico não era registado, não tinha limite de horas, a pessoa vivia no mesmo local mas apartada (na área de serviço).

 

Foi uma grande cartada de Dilma, no período que antecedeu as últimas eleições: o estatuto da empregada doméstica. Milhões de mulheres foram tocadas pela medida.

Lilia – Foi uma grande cartada da democracia. É um projecto que fomos criando no sentido de limitar o horário das empregadas domésticas.

 

É importante perceber como é que essa matriz se foi metamorfoseando nas últimas décadas. A abolição data de 1888. Na Constituição não há qualquer espaço para falar de escravidão. Mas há uma herança que está longe de desaparecer. Não podemos entender estes tumultos recentes sem perceber o subterrâneo, a história que lhe dá origem.

Heloísa – A escravidão continua. Não a escravidão do século XVIII, mercantil. Mas continua a ter formas de trabalho escravo no interior do Brasil. Há um esforço da polícia no sentido de o detectar.

Lilia – O trabalho com a borracha era um trabalho escravo. E era pós-abolição. Os trabalhadores eram colocados em locais isolados da Amazónia, sem nada, em regime de escravidão. Dito isto: 1888 foi nada? Não. Foi a lei mais curta e mais popular que existiu no Brasil.

 

Lei revolucionária. Não tendo resolvido tudo, marca um antes e um depois.

Lilia – Concordo totalmente. Sabe-se hoje que Pedro II não estava no Brasil e que fez isso tentando garantir um terceiro reinado para Isabel. Não conseguiu. Na batalha pela República, os negros foram leais a Isabel. “Sabemos que a Monarquia nos deu a abolição. Não sabemos o que a República fará.” O problema é que durante muito tempo essa lei foi vendida pelo Estado como um presente!, e não como um processo de luta. Muitas das cartas de alforria eram compradas pelo próprio escravo. E sabe qual era a primeira condição para ser reconduzido à escravidão? A infidelidade. A linguagem da dependência e a linguagem do favor perpetuou-se na lei da abolição. Isso sem esquecer os racismos que começam logo após.

 

O que é que fica de uma sociedade esclavagista, mais do que tudo?

Heloísa – Fica o nó da origem escravista. Que reaparece no Brasil contemporâneo das mais diferentes formas. Tem uma canção que Chico Buarque fez recentemente com João Bosco. “Sinhá”. Profundamente dolorosa. É bem o Chico filho do Sérgio Buarque falando.

 

Como é?

Heloísa – Chico flagra o momento anterior à tragédia. O escravo vai ter os olhos furados pelo senhor porque viu a mulher branca no açude. O escravo diz: “Não faz isso, não”. No final da canção, a gente descobre que o escravo é filho da senhora, da Iaiá.

Há um censo feito pela Lilia em que as pessoas dizem: “Eu não sou racista”. “Conhece alguém racista?” “Sim. Meu pai, minha mãe, minha avó...”. Todo o mundo é racista, menos o próprio.

 

O racismo é uma herança óbvia da escravatura, desse período. É a principal?

Heloísa – O racismo e a violência. A violência que, na sociedade brasileira, está cada vez mais escancarada. Não é que tenha aumentado. Está é para quem quiser ver.

 

As pessoas têm embaraço em dizer que são racistas?

Lilia – Nessa pesquisa, 97% diziam não ter preconceito e 99% diziam que conheciam alguém que tinha. O detalhe é que não pedíamos nomes, as pessoas é que queriam dar. E eram todos próximos. “A minha avó não entra no elevador com [um negro]”: era um clássico! O racista é o outro.

As acções afirmativas não têm, por milagre, a possibilidade de acabar com o racismo num país que sempre foi racista. Mas é inegável que trouxeram isto: não é mais possível dizer “Eu não tenho esse problema”. Este é um turning point no Brasil. As acções afirmativas trouxeram o estudo de África nas escolas. “Para quê estudar África?” Houve um momento em que a elite achou que era desnecessário. Mas o Brasil é um país negro e mestiço, também.

 

E muito. Cerca de 60% a 70% da população é constituída por negro e pardo. Por pardo, deve entender-se mestiço?

Lilia – Não. É et cetera. Esse é um país que se define por cores. O que já é um problema. O Brasil é branco, até há pouco tempo era vermelho (agora é indígena), amarelo (os orientais), preto (negro). E aí vem essa quinta categoria que é pardo. Pardo: ninguém é. É categoria de acusação. Ninguém se autodefine como pardo. De novo, é o racismo silencioso. Pardo é: nenhuma das anteriores. Todos nós sabemos que pardo é moreno. Só que os morenos não dizem: “Sou pardo”. Dizem: “Você é pardo”. “Não, você é que é.”

Heloísa – Nas notícias policiais, até há pouco tempo, o criminoso era sempre pardo. Não era mestiço, não era mulato. Era pardo.

Lilia – Pardo vem de pardal. Pássaro vagabundo, sem cor.

 

A palavra que me ocorreu quando estavam a descrever pardo foi pobre. Pode ser o que sobra de todas as categorias e que, sobretudo pela pobreza, não cabe em nenhuma delas. Faz sentido?

Lilia – Todo.

Heloísa – Pardo e pobre: as duas coisas estão associadas.

Lilia – A sociedade constrói marcadores para determinar hierarquias. Se diz: “Só estudo o racismo”, está cristalizando o problema. Essas marcas de diferença estão associadas a outras. Raça associa-se com frequência a género e a classe social. Se fizer uma política de bónus (não de quotas), como fizemos na Universidade de São Paulo... “Pessoas que durante três anos estudaram na escola pública, ganha tantos pontos”...

Heloísa – Se fizer isto, muda a cor da universidade.

Lilia – Serão pessoas de classe social mais pobre e serão negros.

Heloísa – Em Medicina, você não via negro. A partir de políticas [de promoção dos que vêm] da escola pública, mudou a fisionomia.

Lilia – A convivência com a diferença não é só uma obrigação: é uma vantagem. Aumenta o seu repertório.

 

O outro, sobretudo se é pobre, sendo negro, sendo amarelo, é visto normalmente como uma ameaça. A atitude dominante não é a de achar que aumenta o meu repertório.

Heloísa – O desconhecido, o estranho é sempre uma ameaça.

Lilia – É uma ameaça, também, porque ele tira a minha vaga. Concordo com a ideia de que raça, existe uma, a humana. Raça é um conceito biologicamente falacioso. O que os homens fazem é construir em cima de raça, e constroem raças sociais.

 

Há uma canção escrita por Chico e Caetano e interpretada por Tom Jobim, Miúcha, também Chico e Caetano, “Vai levando”. Quando se olha para a fúria das manifestações recentes, a esperança de que “a gente vai levando”, já não funciona. Sobretudo depois de 20 milhões de brasileiros ascenderem à classe média. Parece que estamos numa situação pré-cataclísmica, que qualquer coisa vai mesmo ser mudada de lugar.

Heloísa – A gente só tem noção da História depois que ela passa. Mas quero arriscar dizer: talvez o Brasil esteja vivendo nesse momento o início de um novo capítulo da História do Brasil. Em 2013, as primeiras marchas talvez sejam o ponto de inflexão. O processo que começou em 88 com a redemocratização encerrou-se. O passado não é mais. Mas o futuro não é ainda. É para este tempo que os brasileiros têm que construir uma agenda – com ferramentas que a democracia os obriga a manipular. Como você disse, tem 20 milhões de brasileiros que saíram de uma posição...

 

Que querem manter.

Heloísa – Querem direitos. Que é que estava se reivindicando em 2013? Transportes, saúde. Que é que estava se dizendo? Que há um profundo gap entre o governo e a população.

 

O génio saiu da lâmpada, não quer voltar mais para o interior. E uma vez cá fora, exige direitos.

Lilia – Quem chegou num lugar, não volta [atrás]. Falamos tanto da ascensão da classe C... Tem consequências. Tem um filme muito bom, “A Família Braz” (de Dorrit [Harazim e Arthur Fontes], que acompanha uma família que faz esse caminho. Sai da favela, passa a comer comida japonesa, viaja para o exterior pela primeira vez, anda de avião pela primeira vez, entra na universidade pela primeira vez. Tem acesso. Tem o sonho da casa própria, o sonho do carro, o sonho da mobilidade.

Heloísa – Havia uma discussão recente que dizia assim: “Esses milhões de pessoas foram incorporados como consumidores”. Desde 2013 estão mostrando que não são consumidores. São cidadãos. Isso significa que querem que a agenda de direitos se expanda e se complete.

 

Os direitos têm que ver com o básico, a vida de todos os dias.

Heloísa – O transporte nas grandes cidades brasileiras é de facto apavorante. Lembro uma classe média tradicional nervosa, dizendo: “A gente agora vai para o aeroporto, parece rodoviária”. Mas não estamos lidando só com consumidores. O que é positivamente bom é o facto de estas pessoas se comportarem como cidadãos.

 

Brasil faz parte dos BRIC’s. No passado recente, o comportamento dos países emergentes tem sido muito diferente. O crescimento do Brasil não é o mesmo que era não há muitos anos. Por causa destas questões sociais e desta convulsão, há quem comece a desconfiar seriamente que o Brasil possa chegar onde prometia. Há um custo social que entra na equação de uma maneira muito forte.

Lilia – Sabe que há um bom tempo que dou aula nos Estados Unidos. Comecei em Brown, depois Columbia, agora Princeton. Vi essa emergência do Brasil e essa queda vertiginosa. Acho que não é nem o céu nem o inferno. Quando comecei a ser chamada para dar aula no exterior, eu causava uma profunda decepção. Não sou morena, não tenho tatuagem, não tenho pena no cabelo, não sou exuberante. Esperavam um Brasil exótico. A imagem do Brasil, antes dos BRIC’s, era a do país da capoeira, do candomblé.

 

E era uma imagem muito sexualizada? De corpo exposto.

Lilia – Muito. Sobretudo da mulher.

Heloísa – Era a mulata.

Lilia – A visão comum é a de que toda a brasileira tem uma coisa sensual. Depois disso virámos o país das favelas e só se falava da violência das favelas. Não digo que não somos. Assim como não digo que não somos o país do candomblé. Ao contrário: o meu argumento é que somos. Mas não somos só. Depois foi a voga dos BRIC’s. De repente, o país das favelas virou o país da solução. De repente éramos a solução criativa para o mundo. Eu já dizia que isso era uma bolha que ia estourar... Veja o movimento pendular. As pessoas não prestavam atenção ao facto de não termos enfrentado os problemas estruturais. Transportes, saúde, educação, desigualdade.

 

Portanto, o Brasil crescia, prometia, mas era um gigante com pés de barro.      

Lilia – Exactamente. Não tinha jeito de não estourar. Junto com isso, uma grande promoção do Brasil.

 

Com a Copa, as Olimpíadas.

Lilia – Parte das manifestações era para dizer: “Não queremos estádios, queremos dinheiro para professor”.

 

Também se considerou que, uma vez que havia esse comprometimento com o exterior, pelo menos até 2016, não havia outro remédio senão crescer. E que a bolha ia rebentar a seguir.

Lilia – A verdade é que a maquilhagem não dá conta. Para construir isso tudo, é preciso tirar de algum lugar. O cobertor era curto. O Brasil fez uma promoção para o exterior sem que existisse a compensação...

Heloísa – E não contaram com o povo brasileiro. Tem uma população que vai colocar uma agenda de direitos no lugar do estádio de futebol. Foi essa equação que, quando se vendeu o Brasil para a Copa ou para as Olimpíadas, não se considerou.

 

Grande erro?

Lilia – Penso que sim.

Heloísa – E teve consequências para os governos.

 

O livro é uma biografia do Brasil. Pensemos que é uma biografia de uma família. Quem é quem?

Lilia – O Brasil é a família composta e complexa. Este Brasil que estamos trazendo como biografia compõe o mando, géneros, gerações e trabalho.

Heloísa – E traz tanto os grandes personagens, o pai e a mãe, os personagens médios, os filhos, como traz os personagens que estão ao rés do chão, e que vão ser determinantes no momento em que o país tiver que fazer escolhas.

Lilia – E, como toda a biografia, traz a trajectória do imponderável. Terminamos desconfiados.

Heloísa – Por isso dizemos que achamos que vai começar um capítulo novo. O máximo que pode pensar é o seguinte: há uma agenda a ser construída. As questões dessa agenda estão colocando uma desfasagem entre o Estado e a sociedade. Os direitos. A luta contra a corrupção.

 

Por onde é que essa agenda vai?

Heloísa – Eu espero que vá pelos valores republicanos.

Lilia – Há um movimento (a gente é contra), que é forte, pelo impeachment, pela direita, pelo governo militar. Isto é muito plural.

 

Está tudo a acontecer – essa é a noção que fica.

Lilia – E isso é impressionante. Esses lados todos que não são convexos. O livro está em primeiro lugar no top de vendas há dez dias. Estando dividindo o primeiro lugar com os livros de colorir! [riso] Acho que é um livro republicano, indignado. E é um livro de duas mulheres. Os nossos historiadores são todos homens.

Heloísa – Vou roubar uma frase da Lilia. Ela fala que o nosso presente está carregado de passado. O passado fornece as ferramentas. Talvez o facto de o livro estar a receber essa aceitação do povo brasileiro tenha a ver com o momento que esse povo está vivendo e o desejo de saber mais da sua História. O Guimarães Rosa dizia que um livro é quase sempre maior do que a gente. Não sei se esse é maior. Se for, uma parte do tamanho dele vem de poder oferecer a um público não académico alguns elementos para pensar a sua própria história.

Lilia – Não é o [Jacques] Le Goff que diz que os historiadores voltam ao passado com as perguntas do seu tempo? Então acho que a gente está voltando com perguntas, que são minhas e da Heloísa, mas que são do nosso tempo.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2015

 

 

 

 

Tom Jobim

29.07.18

A conversa sobre a morte não era recorrente. Tom Jobim falava de bichos, música, chopp, papo furado. Falava sobre árvores, que um dia apresentou ao filho como se apresentam pessoas. Sobre o mundo, o Brasil, o Rio, (cidade linda e dissipante, como um dia a descreveu). Mas em 1980, em entrevista à revista Manchete, Tom Jobim declarou: “O que deve preocupar as pessoas é o medo de morrer sem ter feito nada. Agora, esse negócio de ter medo da morte, claro que tenho. Todo o mundo tem. “Tenho medo de ônibus, de ficar impotente, de comer chocolate”.

Jobim morreu no dia 8 de Dezembro de 1994, em Nova Iorque. Embolia pulmonar. Havia confidenciado à irmã Helena antes de partir: “Se Ary Barroso e Villa-Lobos morreram, eu também posso morrer”. E muito antes disso, na sequência da partida de Vina, Vininha, seu poeta, disse: “Foi a morte de Vinicius que me deu a convicção de que não somos imortais”.

De Moraes morreu em 1980 e Tom preferiu não comparecer no cemitério. Nas rodas de chopp, nos bate-papos, passou a usar a expressão “neste resto de vida” para se referir ao que estava por viver. E desde a morte de Vinicius, tanto estava ainda por viver. Um filho, uma filha, uma Banda Nova, o disco de originais Passarim. Lembranças: “A areia de Ipanema era tão fina, que cantava no pé – quando você corria na praia, a areia fazia cuim, cuim, cuim” (Tom/tom nostálgico, no documentário A Casa do Tom)

“Ninguém esperava muito”, diz Ana Lontra Jobim em entrevista exclusiva à Pública. “O Tom estava com medo, sim. Estive com ele desde a hora do diagnóstico. Passou por muitas coisas, teve de fazer uma operação maior. Todos nós temíamos alguma coisa, mas a operação [ao cancro na bexiga] tinha sido um sucesso, a recuperação estava sendo óptima. Teve um ponto cego qualquer, baixou-se a guarda – digo: dos médicos – e ele escapou. O coração não aguentou”.

No dia seguinte, o Correio da Manhã escreveu em título “Apagou-se o sol”. Reeditou-se, como um epitáfio, o célebre: “Quando eu morrer, enterrem meu coração nas areias do Arpoador”. António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, nascido em 1927, falecido em 1994, jaz no Cemitério São João Batista, no Rio.

Três da tarde de uma tarde anterior ao dia aziago, 8 de Dezembro. “Lá se vão quinze anos. E aí, tem que lutar, não é?”, atira Ana num desabafo, ou numa espécie de suspiro, resignado, de quem botou a vida para a frente. Expressão brasileira, animista, vitalista, positiva. Ana Jobim botou inclusive a vida para a frente depois da morte do seu filho mais velho com Tom Jobim. “O estudante João Francisco Jobim” – como se escrevia nos jornais – “morreu num acidente de carro três anos e meio depois da morte do pai”. Mas o assunto não é abordado.

Falámos de Tom Jobim, seu marido, dias antes do dia que assinalava os quinze anos da sua morte. Numa casa que nunca foi a casa do Tom.

A sala é imensa e o piano de cauda continua a ocupar um lugar essencial. Sobre ele, duas fotografias famosas, a preto e branco, com Tom e Ana, Tom, Ana e as crianças, João Francisco e Maria Luíza recém nascida. São fotografias famosas na memorabilia de Tom Jobim. Mas para ela, Ana, essas são as fotografias que ilustram a sua vida. E aquela é a sua família. Tom Jobim não é uma figura de ficção, idolatrada nos quatros cantos do mundo, autor de A Garota de Ipanema. Tom Jobim é o marido, o pai dos filhos, a pessoa concreta; é o sol em torno do qual a sua vida gira (retire-se a conotação pirosa à última frase, pense-se no sol como aquele que irradia, que ilumina, que é iluminado). E a sua vida gira em torno dele porque deixou de fotografar para se dedicar à preservação do legado de Tom. “Faço a gestão da Jobim Music. Tem também a Corcovado Music, nos Estados Unidos. E fundei uma editora com a minha filha, a Das Duas. Maria Luíza está com 22 anos, está fazendo arquitectura e estudando música”. 

Ao lado do piano há um trabalho gigante de Beth, filha do primeiro casamento de Tom, artista plástica a viver em Nova Iorque. Quando o pai era vivo, Beth era uma das cinco “jobinetes”, as cantoras que o acompanhavam na Banda Nova.

Do outro lado da sala, há uma aguarela feita em papel de arroz, na qual já deu fungo, cujas cores vão esmaecendo, e que reconhecemos da capa de Terra Brasilis. “Foi o Tom que escolheu esse desenho. A gente foi para Nova Iorque, gravou esse disco. A Warner tinha um designer, um capista. Um chinês, alto, jovem. Estava a pensar numa orquídea, elegante como a música do Tom, para aquela capa. “Terra Brasilis, uma orquídea?”. Não coincidia com o que ele tinha na cabeça. O Tom, em relação aos seus discos, sabia exactamente o que queria. Então pediu ao Paulo, filho dele, que desenhasse. “Quero os bichos, a onça, a cobra, o urubu, o gavião…”. O Paulinho fez esse trabalho, que é lindo”. O Paulinho, quando o pai era vivo, integrava também a Banda Nova. É músico.

A geografia onde nos encontramos é a de Tom. Ana mudou-se para Ipanema em 2001 e alugou a casa mítica que os dois construíram no “sovaco do Cristo”, no alto do morro do Jardim Botânico. “Vim para cá para a vida ficar mais leve”. Do outro lado da rua, é a Praia de Ipanema. Ao fundo, à esquerda, avista-se a pequena praia do Arpoador. À direita, o morro dos Dois Irmãos.

É um lugar diferente daquele que ele conheceu. “Ele contava que Ipanema era um areal, poucas casas, um bairro pequeno, onde as pessoas todas se conheciam. Era uma vida bucólica. De um lado a Lagoa [Rodrigo de Freitas], do outro o mar, as montanhas”.

A descrição de Tom incluía taínha, robalo, areia e conchas. Infância e mocidade feliz. “Nada contra viver na Califórnia e Côte d’Azur...”. Mas Ipanema. “Hoje, todo o mundo sabe o que é Ipanema, por causa da Garota. Qual é o sentimento universal? Uma garota linda que passa, você para e olha a moça. Talvez por isso a canção tenha furado. As garotas continuam indo até à praia e estão cada vez mais bonitas. Mas nesse tempo da Garota não íamos mais à praia. A gente tomava chopp. Intelectual não vai a praia, intelectual bebe”, diz n’A Casa do Tom.

Duas ruas atrás da casa de Ana, no bairro de Tom, nas cercanias, fica a padaria Rio-Lisboa. “Todos os dias ia à padaria, comprava jornal, tomava uma média [meia de leite] e pão com manteiga. Pão na chapa! Fazia as coisas todas de carro. Era tão fácil encontrar Tom em Ipanema!, no Leblon, na farmácia, no jornaleiro…”. No Plataforma, onde almoçava diariamente. Uma espécie de atracção turística. “Algumas pessoas iam lá para ver o Tom Jobim ao longe. E à Cobal, uma feira, com barracas que vendem legumes, peixes, e alguns barzinhos. Ele era sempre muito delicado”.

Epítome do bairro, Tom é apresentado do seguinte modo por Ruy Castro no dicionário de Ipanema Ela é Carioca. “Moleque de praia, adepto de esportes, homem de enorme beleza física, aberto à natureza e à vida, sedento de livros e de conhecimento, safo, excêntrico, bom de copo, inestancavelmente criativo e com um senso de humor ideal para a grande especialidade de Ipanema: a conversa fiada”.

Tom Jobim gostava de dizer: “Você já viu que 99% das coisas que a gente fala não têm a menor importância?”.

Tardes de conversa fiada. Cerveja sem fim. “Bebo desde os 15 anos de idade 30 chopes por dia”. Música solar, pele tostada ao sol. “Cada canção que fiz foi uma moça que não comi” – lê-se na biografia de Sérgio Cabral. Ou: “Troco qualquer sinfonia de Beethoven por uma boa erecção”. A parte folclórica. Que não desfaz ou descentra do essencial: a música. Uma música que chega a todos – ambição maior. “Sou um mestiço de popular e erudito. Sou um eruditinho”.

Uma música que ficou.

Tom sabia que a música de Jobim ficaria. Ana recorda que “detestava falar de negócios, do business, da edição. Mas sempre teve preocupação com a obra, com o património, como é que isso ia ficar. Deixou uma vida absolutamente organizada. Salvou as edições. No Brasil e na América Latina controlamos mais de 80% da sua obra. Tem coisas importantes com as quais temos problemas. Estamos movendo uma acção contra a Universal Music Publishing por causa das versões [das músicas originais]. Não queria ver a obra dele explorada de qualquer jeito, e mexida. Durante anos participou. “Garota de Ipanema, quero assim. Meditação, quero assim. Insensatez, quero assim”. Empenhava-se a fundo. No inglês. Para que ficasse com a ideia original, e não uma coisa “exotique”. Era uma pessoa suave, não era ríspido. Mas firme. Sabia exactamente o que queria. E não deixava que fizessem do jeito que ele não queria”.

Quando Tom conheceu Ana, ele tinha quase 50 anos e nos jornais Drummond de Andrade chamava-lhe “sabiá-mor, vulgo Tom Jobim”. Salvé, salvé. Ela era uma moça de 19 anos, filha de militar. Estudava, tinha um namorado. Tom dizia: “Não quero plantas nem bichos”, como quem diz que não quer amarras. Sobretudo, como quem diz: “Já fiz tudo isso”. “Por outro lado, eu tinha apenas 22 anos quando nos casámos. “Eu vou querer ter filhos”. Ele foi muito feliz por ter tido essa coragem, de partir para uma vida nova, de ter tido crianças”.

Na biografia escrita por Sérgio Cabral fica a saber-se que, para a conquistar, Tom teve de oferecer-lhes discos do Chico Buarque... “E livros do Drummond [de Andrade]!”, acrescenta Ana.

E resistia, na sua vida normal, quotidiana. Não acreditava que ele realmente estivesse interessado nela. “Achava que fazia aquilo por graça”. Mas ficaram amigos. “Ele fazia perguntas. Era muito curioso. Queria saber de você”.

Uma pergunta típica do Tom.

“Tem algumas. “Você fala francês?”. Perguntava pelas raízes, a mistura do sangue; se as suas raízes eram espanholas, italianas, se tinha sangue nordestino. (Ele tinha sangue nordestino)”. Não perguntava pelos livros que o outro lia, pela música. “Procurava mostrar aquilo de que gostava. No meu caso, mostrou-me os poetas: Neruda, Drummond. Nessa época, ele lia muito Castañeda. Era realmente um admirável mundo novo, para mim!”

Para Tom, talvez Ana representasse, também, um admirável mundo novo. Para trás existia um casamento de quase 30 anos com Thereza, que acabara, por erosão. E uma crise de quem está no mezzo del camino. “Quando ele me conheceu e se apaixonou por mim, andava muito desanimado da vida. Estava querendo mudar muita coisa. Desanimado com a saúde, e até com o trabalho. Tudo isto gerou um novo élan para a vida dele. Devia ser muito assustador! Tão assustador quando desejável. É uma história bonita, profunda, de muito amor, mas com muitas dificuldades. Não foi fácil para os dois lados, embora tenha sido muito bom”.

Com Ana, fecha-se um ciclo, inaugura-se um novo. Já não era o tempo das grandes parcerias, com Newton Mendonça (Samba de uma Nota Só), Vinicius de Moraes (a lista é interminável…), Chico Buarque (Sabiá, Anos Dourados, Lígia). Já não era o tempo da vida boémia, cigarro, bebida, noites que acabavam de manhã, uísque despejado na pia – acto desesperado! – pela mulher de Tom e pela de Vinicius (o vídeo com os dois, podres de bêbedos, contando a história, está no youtube). Houve períodos em que anunciava: estou há nove meses sem beber.

As sequelas persistiam. Estava pançudo. Mas isso era o menos. “Quando eu era garotinho, magrinho e bonitinho, as mulheres saíam correndo de mim. Hoje, elas chegam, batem na minha barriga e dizem: “Ô, Tom Jobim, aparece lá em casa para tomar um uísque”. Galhofava. Auto-ironia, constante. Falava do problema circulatório, das carótidas entupidas, exagerava, numa atitude hipocondríaca. Isto é o que se deduz das entrevistas da época, citadas na biografia de Sérgio Cabral. Mas Ana não o recorda assim.

“Quando passou a se cuidar, fazia uma atenção enorme! Começou a fazer ginástica, a caminhar, a não viver mais de madrugada. Seria totalmente incoerente se ele se casasse de novo e continuasse se maltratando. O movimento natural era o contrário. O playground (que era o bar, a boémia) não se misturava com a vida pessoal. Eram espaços distintos. Por uma questão de saúde, por ter criado uma nova família, ter filhos pequenos. É claro que eu interferia, que não gostava de vê-lo beber mais do que devia. Mas há gente que pensa que era uma coisa assim…”

No livro de Cabral, diz-se que Tom bebia às escondidas. “Não abusava quando Ana andava por perto, pois seria repreendido severamente. Ainda assim, contava com a cumplicidade dos garçons e se encontrava com eles no banheiro dos homens para beber chopp ou outra bebida escondido da mulher”.

Ana sorri. “Ele adorava fazer esse número! Não sei se para mim se para os amigos em volta. O número: “A megera está chegando! Ela não deixa fazer, por isso vou para casa!”. Está escrito no poema [auto-biográfico Chapadão]: “Vou criar um mundo novo e criar nova megera”. A mulher era para ele uma megera? A que toma conta? “Megera nesse sentido”.

O poema Chapadão demorou oito anos a ser composto. Como uma longa canção. “Vou viver na minha casa/Vou viver com a minha gente/ Vou viver vida comprida/ Pra não morrer de repente (…) Minha casa é por aí/ É no mundo, monde, mondo”.

Com a Banda Nova, voltou a rodar pelo mundo. A formação da banda permitia satisfazer duas necessidades. A música, e estar em família. “A Banda foi assim: juntava duas pessoas lá em casa, fosse filho, fosse filha, e começava-se a cantar. Eu não cantava. Nunca cantei profissionalmente. Cantava com ele. Nas festas, todo o mundo cantava. Reuniões, aniversários, a gente estava ali, à volta do piano, ele mostrando o que estava fazendo, cantando músicas de outros compositores. Acho que nunca houve uma festa que não terminasse em cantoria. Fora isso, o dia a dia: “Ah, canta isso para mim, canta isso comigo”. A Banda foi meio isso. Havia o conjunto vocal Céu da Boca, de que faziam parte a Maúcha [Adnet] e a Paulinha [Morelenbaum]. Ele gostava muito daquela rapaziada jovem, cantando. Quando surgiu a oportunidade de fazer um show em Viena, começou a dizer: “Quero levar meu filho. Quero botar vozes femininas. O Danilo Caymmi é um óptimo flautista ”. O maestro em Viena queria só o Tom! Ele foi levando… A banda dele sozinho terminou com 11 membros! O que ele privilegiava era estar com pessoas da família. A coisa começou em casa, e daí foi expandindo.”

Dessa formação, que reunia a mulher, os filhos, os amigos e as mulheres dos amigos, Tom dizia: “São cinco moças, cinco moços, e um velho safado!”.

“Como criou esse contexto familiar, estava super à vontade. Parecia que estava na sala lá de casa. Foi uma forma de protecção para ir para o mundo. O Tom não era de viajar. A única vez que fizemos uma viagem de lazer, à Baía, foi um caos! Ele teve dor de dentes, não saía do hotel, brigámos. Com a Banda, uniu-se o útil ao agradável. O pessoal era super-divertido, todo o mundo muito amigo. Ele, em dia de show, não saía. Não gostava de misturar a vida social com o trabalho. Sabia tudo, tudo dos sítios! Mas não queria ir à praia em Recife porque estava em Recife, não queria visitar um templo budista porque estava no Japão. Não estava nem aí. Temperamento dele. Jeito dele. Não tinha a curiosidade de ir. Tinha a curiosidade da mente dele. Era completamente antenada. Livros, o tempo todo”.  

Algumas notas de um samba de uma nota só.

Dinheiro. “Grana? Não precisava de muito para viver, e não era uma pessoa que precisava viver contando dinheiro. A vida da gente era muito simples. O Tom brincava assim: “Para quê muito dinheiro? Chega uma certa idade em que você não pode comer mais do que um bife por dia!”.

Nos anos 80, Jobim negociou com a Coca-Cola a utilização de Águas de Março num anúncio. Foi zurzido de pau (e talvez pedra…), como se diz no Brasil. Mas, face às críticas, lembrou que Michael Jackson tinha ganho cinco milhões de dólares num anúncio da Pepsi e com esse dinheiro comprado a obra completa dos Beatles. “Se eu ganhasse um dinheirão desses, compraria a obra de António Carlos Jobim”.

Vinicius. Uma carta começa assim: “Vina, meu amor”. Quando Tom e Ana se casaram, a relação com Vinicius era muito próxima. Quando Tom e Vinicius se conheceram, Ana não era nascida. Mas a narrativa sobre o encontro dos dois, e a sua relação, eram constantes. “Vinicius já era o Vinicius de Moraes. O poeta, o diplomata, o cara do mundo. O Tom era bem mais jovem. Um músico que estava dando os primeiros passos em direcção ao sucesso. Criou-se uma relação de afinidade, companheirismo, uma irmandade. A tónica daquela relação era muito lúdica. Eram noites e dias, almoços que se estendiam para jantares, cantorias. Já não compunham mais juntos. Mas havia uma cumplicidade. Um casamento, mesmo”.

Ecologia. “Tom foi pioneiro na preocupação ecológica. Uma vez um americano disse que ele era ecologista. Tom nunca tinha escutado essa palavra. Foi ver o significado e percebeu que não tinha que ver com eco [risos], com som, mas com a casa, com o habitat do Homem”.

“Olha um pássaro, ai, tá cantando”, diz Tom, entre parêntesis, entre frases, para a câmara de Ana Jobim. “Olha as narinas conspícuas do urubu. Ele sente o cheiro. Cheira venenos. Voa do Alasca a patagónia, via Brasil. Urubu Jereba”. “Toda a minha obra é inspirada na mata atlântica”. Tinha paixão por Guimarães Rosa. Comungavam ambientes, personagens, ambientes fantasiosos.

E com ar rufia, mascando uma folha verde: “Só os matreiros, descendentes de índios, como eu, podem comer as plantas selvagens. Porque elas são venenosas”.

Tom, pertença do mundo. Amante de um Rio luxuriante. Preocupado com o Brasil e o futuro que gerações vindouras vão habitar. O mar, a natureza, o lugar, sempre estiveram lá. “Eu era um peixe. Caía no Arpoador e ia a nado até Copacabana e voltava”.

E anos depois, nesse pedaço de terra, compunha músicas de sal, sol, sul. Latitude exacta: um cantinho, um violão. Longitude: a onda que se ergueu no mar. Compôs todas as canções que fazem a biografia de um tempo. Entre Ipanema e Copacabana.

“Quando o piano chegou na casa dele, era para Helena [irmã] estudar”, recupera Ana. Ruy Castro escreve que durante a adolescência “a música não estava ainda entre os seus dois ou três principais interesses – esses eram as caçadas, as pescarias e talvez o desenho, com vista a uma futura carreira de arquitecto”.

Mas aí, prossegue Ana, “ele se interessou. E foi, foi. O Dr. Celso [padrasto], deu-lhe um piano porque ele vinha mostrando um talento, vinha estudando”.

Dr. Celso: o amoroso padrasto de Tom.

O Pai: homem atormentado, ciumento, que se separou na mãe, e morreu cedo. Tom tinha nove anos.

Dona Nilza: a mãe que o teve aos 16 anos. “Uma mãe forte, de muita fibra, personalidade. Tinha um amor por ele tremendo. Tom foi cercado de muito carinho e amor”, recorda Ana.   

Ruy Castro escreve em Chega de Saudade, biografia do movimento Bossa Nova, que Tom era “hors concours”. Unanimemente o homem mais bonito da sua geração, e o mais talentoso. Um génio.

“Se ele sabia que era um génio? Pergunta difícil”. Foi por aí que começou a conversa com Ana Jobim, na sua casa, no Rio. Tom, nota só, perpassou toda a conversa. Outras notas entraram, mas a base foi uma só. O pretexto era a saudade. (Saudade não tem fim, felicidade sim. Escreveu Vininha, o irmão, parceiro, De Moraes. As saudades que o mundo tem de Tom. Há quinze anos.) “Acho que ele sabia que era especial. Não viveu muito, mas viveu o suficiente para saber como se repercutiu a obra dele no mundo. Não diria que sabia que era um génio, mas sabia que era diferente”.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2009 

 

Millôr Fernandes

29.07.18

Tudo se passou em três semanas de Agosto. Primeira dificuldade: encontrar o número certo para falar com Millôr Fernandes. Passo seguinte: deixar recados no gravador ao longo de dez dias. Diários. Sem resposta. O gravador atendia assim: “Fale ou fax”. Num tom de sentença. Numa voz de velho irado. Uma vez atendeu. Que maluca era eu que lhe entupia o gravador com um pedido de entrevista que ele iria recusar? Iria oferecer-me um cafezinho, e era tudo. Decidi ser assertiva: “Vai dar-me a entrevista, sim!” E Millôr obedeceu: “Adoro mulheres autoritárias, se chegar muito perto peço você em casamento…”. Após o que nos escangalhámos a rir, que era a única coisa a fazer. Houve ainda aquela angústia do guarda-redes antes do penalty, sentada na entrada, ao lado do segurança, e o Millôr atrasado, atrasado quase uma hora. Finalmente chegou: “Ah, você veio mesmo?”

Ele manda e-mails nos quais assina: O Millôr. Porque o O é um personagem. Millôr é uma daquelas figuras que só poderiam ter nascido no Rio de Janeiro. Cartoonista, caricaturista, humorista, escritor, dramaturgo, jornalista, tradutor, director de revistas míticas da história brasileira do século XX. Autor de frases famosas.

“A verdade é que na vida nos dão muito enredo e muito pouco tempo”. A vida dele tem enredo para uma telenovela de cinco mil novecentos e quarenta e oito capítulos, pelo menos. Porque, além do que acima se disse, foi um amoroso. Queria ter sido atleta. Não quis ser atleta sexual. Mas da fama não se livra. Deu-se com toda a gente, pertence a uma geração mítica de sul-americanos que viveram muito intensamente.

Já escreveu o seu epitáfio: “não contem mais comigo”!

 

 

Ouvi dizer que chegava ao Pasquim e vangloriava-se de ter comido cinco mil. Confirme ou desminta.

O termo vangloriar é inexacto. Tinha dado cinco mil trepadas. E não estou me vangloriando, não. O homem casa, come aquela mulherzinha dele, e depois não está mais nem aí. Sempre fui uma pessoa, sob este aspecto, livre. Nessa altura, [do Pasquim], tinha apenas 30 anos de sexo. Se botar uma incidência sexual de três vezes por semana, que não é nada de extraordinário – quando tem 15, 18, 20, 30 anos às vezes faz isso numa noite – se fizer três em 30 anos, no fim de um ano tem 150, no fim de dez anos tem 1500, no fim de 30 anos tem cinco mil.

 

Pensei que se vangloriava de ter comido cinco mil mulheres.

Imagina!, imagina. As pessoas assumem as coisas pelo lado vulgar. Não estou interessado, nem nunca estive, em ser atleta sexual. O meu interesse foi sempre, e consegui isso inúmeras vezes, comer a alma da mulher.

 

Comer a alma da mulher…

Um homem com algum dinheiro: se quiser uma mulher de 20 anos, olho azul, paga duzentos, e ela está aqui, às sete horas da noite. Resolve o problema de alguém? O problema anímico, o problema maior, não. Passaram pela minha vida mulheres extraordinárias, e não foram cinco mil.

 

Isto, no fundo, é um intróito, um preliminar...

Então esquece, apaga! [risos]

 

O sexo, na escrita ou sob a forma de caricatura, surge como linha principal daquilo que faz. O que me interessa é saber o que é tem de irresistível para comer tanta mulher. E porque é que o sexo é a linha principal.

A linha principal, não. Não sei qual é a linha principal. Uma das linhas principais, tenho a palavra exacta em inglês, é contempt [desprezo]. Eu não sou conquistador, mas não sou mesmo. Ou por outra, sou conquistador quando, estando diante de uma mulher, se me sinto atraído, sem querer faço gracinha, sem querer sou interessante. O Vinicius de Moraes?, o Vinícius é um amador! Quem quer casar, tem cem mulheres! Para mulher, “casar” é uma palavra mágica, até hoje. Não me lembro de ter falado em casamento com nenhuma mulher.

 

É casado.

O primeiro casamento da minha vida, eu preservei: me livrou de todos os outros!

 

Porque é que casou?

Eu era muito jovem, fazia parte da prática. As mulheres com quem tive coisas intensas são minhas amigas, a vida inteira.

 

Amigas é um eufemismo para dizer “lovers”? Amantes.

Amantes durante um certo período, sem nenhuma promessa de fixação, de casamento. Chega um momento em que uma pessoa se cansa, naturalmente; porque aparece um mais curioso, um mais bonito. Sofre. Mas uma pessoa como eu acha que isso faz parte do jogo.

 

Sofrer por amor? Cansar-se do outro?

Sofrer por amor só existe quando a pessoa, de uma forma ou de outra, é afastada, é abandonada. Agora cansar-se do outro, meu Deus do céu, é universal! Não há hipótese! Eu tenho uma frase que é muito aplicada a isso: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!” O casamento é isso. Como é que um casal, duas pessoas, se sustentam vivendo num quarto e sala conjugado? No fim de um mês, um quer matar o outro! Evidente.

 

Não há relações sem esse enfastiamento? Felizes.

Quando entra o valor do espírito. Quando tem um outro tipo de relação em que o sexo passa a ser uma coisa ocasional – porque um homem sofre de problemas hidráulico-mecânicos. [risos] Mas aquela mulher se estiolou, se exauriu para ele.

 

Iniciou-se aos 15 anos. Como é que um rapaz do subúrbio, há 70 anos, se iniciava sexualmente?

Eu sou do Meyer. Vivi lá até aos 12 anos. Com 15, já vivia na cidade [Rio], em pensão. A relação sexual: ou começava com uma pessoa muito inferior, que eram as empregadas domésticas, ou na prostituição.

 

Vamos lá à história da sua vida…

Se você quiser eu mudo!

 

Inventa já outra biografia?

Uma outra...

 

Você mente?

Não. Meu pai era espanhol, minha mãe era de família italiana. Eu podia ter nascido em Madrid, em Nápoles, e meus avós vieram trepar aqui, para que eu nascesse aqui. O meu pai veio muito moço da Espanha, com 24 ou 25 anos, era formado em engenharia – não que fosse engenheiro, mas quando chegou tinha um aparato intelectual maior do que o dos nativos. Ele devia ser muito malandro... Sabe o que é malandro?

 

Dê-me a sua definição de malandro.

O malandro antigo era o vagabundo que andava com navalhas. O malandro é aquela pessoa que percebe a realidade do mundo, que dá um jeitinho nas coisas. Meu pai, com esse aparato…, nós éramos de classe média por causa dele. A nossa casa no Meyer era muito boa, com um belo terreno; devia ter sete, oito metros de frente por vinte de fundo, quatro quartos enormes. Tenho muitas fotografias do meu pai – tinha, na gaveta; ele próprio se fotografava. Com uma farda bonita, branca.

 

O seu pai era garboso?

Era. Quando morreu, aos 36 anos, descemos para o proletariado. Na família, se fala que foi envenenado. Encontraram o cofre da firma comercial aberto, tinham roubado coisas. Mas essas lendas de família, sabe como é que se formam... Por outro lado, dizem que teria morrido com uma intoxicação alimentar, que naquela época era coisa séria. Eu tinha um ano, ou não tinha nem um ano.

 

A imagem do seu pai foi-lhe passada pela sua mãe, pelos familiares?

Não tenho essas recordações ou relatos romanescos. Não tinha ninguém proustiano na minha casa! Minha mãe tinha 27 anos, quatro filhos; que educação é que ela tinha? Nenhuma. Então, começou a costurar para fora e alugou metade da casa a uma irmã. Com isso, nos sustentava. Essa irmã trouxe minhas primas, com quem muito cedo entendi que prima não é irmã! Já começa... Aquelas experiências vagas, mas já começa!

 

A sua mãe morreu muito cedo, também. Tinha 36 anos.

Por exorcismo, não se falava da doença. “Deu uma coisa, deu um tumor nela...”. Possivelmente teria sido câncer.

 

Quem é que se ocupou das crianças?

Minha irmã casou, foi viver a vida dela, e levou a [irmã] menor. Eu, eu comecei a trabalhar na imprensa com 13 anos. Curiosamente isso está registado na minha carteira de trabalho. Era um menino louco, eu era louco...

 

É surpreendente que não tenha querido saber exactamente de que morreram os seus pais.

Acho que as pessoas morrem. Depois disso, fui morar com um tio num subúrbio bem mais distante. Era um tio pobre, também. Evidentemente, eu comia mal… Fui para o cemitério, não chorei. Voltei para casa, depois do enterro, entrei em baixo de uma cama, numa esteira; lembro que era fim de semana, normalmente se lavava a casa, o chão estava húmido. Ali, comecei a chorar. Mas feito um desesperado. E sentindo a injustiça do mundo. Dizia “Que Deus… Sem mãe, sem pai, não tenho nada”. Senti uma coisa que designei de a paz da descrença.

 

Habituou-se a não desejar nada? A não esperar nada, senão aquilo que ia conquistando?

Nunca pensei o que é que ia ser quando crescesse. Nunca pensei qual seria a minha profissão. Quando vi, estava trabalhando nos jornais. Já é uma fortuna extraordinária fazer aquilo que gosto de fazer. Cada vez mais me convidam para fazer uns negócios, e eu faço.

 

Gosta de ser adulado?

Desde que comecei, sempre fui tão adulado que me acostumei. E só penso: “E se não fosse? E se cessasse de repente?”. É feito o telefone: toca, às vezes toca o tempo todo; e se não tocasse? A pessoa que envelhece, está sozinha em casa, o telefone toca, ele vai a correr, e a pessoa fala: “É engano!”

 

Está a falar de solidão. Mas sempre andou muito acompanhado…

Vou te contar uma história: eu estava em Roma, na casa de um amigo; algumas semanas depois, a mulher do meu amigo pegou o avião e veio para cá, para se entregar para mim. Pensa que é uma doidivanas, uma louca? Pensa que fiz alguma graça especial? Não! Eu estava lá, simplesmente vivendo.

 

O que é que fez? Deu-lhe atenção?    

Não, não é atenção. Tem um escritor, que morreu há alguns anos, morreu jovem, Carlinhos de Oliveira, pequenininho, vesgo: impressionante o número de mulheres que teve. Porque ele tinha vontade! E aquela vontade reflectia.

 

O que é que disse à mulher do seu amigo quando ela desembarcou no Rio?

Não disse nada, fui vivendo com ela. Um tempo assim adobedebeubeudedede... Porquê não sei. Vamos mudar de assunto. Isso aqui vai ficar uma conversa que é uma parte pobre da minha personalidade. Já me pediram para escrever a minha biografia, me ofereceram dinheiro – eu não quero. Tenho umas notas que escrevi através da vida. Não toco no assunto mulher pelo seguinte: qualquer coisa que diga a respeito de uma pessoa estou, sem querer, ferindo outra.

 

Vamos voltar ao menino que chora, zangado com o mundo, e depois conhece a paz. Foi a primeira vez e a última que chorou? Parece uma coisa diluviana, definitiva.

É, eu não choro. Mesmo quando tenho um sentimento que me levaria a chorar, não choro. Quando comecei a trabalhar, ganhava cem reais por mês – não dava… Com essa coisa que eu tinha de menino louco, não tendo ninguém por trás de mim, um dia cheguei na empresa e disse: “Só fico se me derem trezentos reais”. Aí, deram.

 

Antes dos jornais: como é que aprendeu a ler e a escrever?

Estudei em colégio público; no meu tempo e na minha recordação era muito bom. Tudo o que sei, aprendi no curso primário. Tinha uma professora velha, velha, que depois descobri que tinha 21 anos! Mulata, uma criatura de uma ternura formidável. Me lembro do dia em que ela me ensinou, no relógio, como os ponteiros marcavam as horas; foi um deslumbramento! Tinha uma varanda que circundava o colégio e eu saí pela varanda para ver os outros relógios; de repente percebi que um relógio não era igual ao outro, e que aquilo era o tempo que passava [risos]! Se me perguntar quais são as preposições, eu digo. Definição: deve ser clara, breve, geral e verdadeira. Não é bom?

 

São princípios que seguiu a vida toda?

Pois é. Uma frase deve ter sujeito, verbo, predicados na ordem directa – a ordem indirecta deixa pró Camões. Fiquei uns dois anos ou três sem estudar, fui morar na cidade. Quando recomecei, ganhava já trezentos reais. A primeira coisa que fiz: entrei para colégio nocturno. Eu trabalhava das oito da manhã às seis da tarde, sábado também. Pagava para estudar. Quando saía do colégio, andava um quilómetro até pegar um bonde, andava uns três, quatro quilómetros de bonde, depois andava num trem uns vinte minutos até chegar em casa. Eu me chamava a mim mesmo de “piscina”, porque chegava, batia na parede e voltava para o trabalho!

 

Já nessa altura produzia as frases, os aforismos que foram ficando famosos pelos anos?

É, é uma coisa natural. Eu não paro e digo: “Vou fazer uma frase”. Ou faço ou não faço. Fazia, sem querer.

 

Era um menino espirituoso, que fazia rir os colegas? Como é que era quando a sua mãe era viva? E depois?

Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, minha recordação com ela é uma recordação de carinho.

 

Duas frases: “Mãe, que é a carreira mais difícil do mundo e para toda a vida, não precisa de exame psicotécnico, nem curso de faculdade nem atestado de bons antecedentes.” “Super mãe é uma mulher que corta um “petit-pois” [ervilha] em dois para o filho não ter que mastigar.”

Tou achando bom!

 

A sua mãe fazia-lhe isto?

Não tenho ideia como é que escrevi isso. Não sou muito biógrafo, não. (Olha, e antes que me esqueça: considero o Ivo Pitanguy o homem mais realizado que conheço. Ele percorreu o mundo de cima para baixo. O pai dele já era médico, era prestigiado; Ivo entrava no palácio de Buckingham para operar uma terceira prima da rainha, e quando entrava, era esperado, era o Dr. Ivo! Ele fazia tudo, fazia esporte, fazia natação… Na casa dele, tem Picasso, Dalí… Mas não comprou, não: Dalí deu pra ele.)

 

Falamos mais tarde da geração notável a que pertence e das pessoas com quem se deu, entre eles Pitanguy. Mas sobre o seu pai, escreveu: “O Noel Rosa diria hoje que o vizinho rico morreu. Eu tinha um ano”. Noel é um dos maiores compositores da história da música brasileira. O seu bairro era Vila Isabel, e o vosso era ao lado.

Meu pai morava na Rua Teodoro da Silva. Noel era um homem pobre, baixa classe média. Chegou a estudar. Era um génio.

 

Evoco o seu pai e a sua mãe para perguntar pelas suas memórias de infância.

Tenho fotografias, uma ou outra, poucas com minha mãe. Me lembro de uma coisa de afecto, de carinho. Também tinha muita tia, porque meu pai trouxe duas irmãs; depois que envelheceram ficaram reaccionárias, chatas, e nunca mais quis ver. Você fica falando de relação com mulher e eu vou te dizer: minha avó materna foi a primeira mulher realmente apaixonada por mim.

 

Como sentiu esse amor?

Ela tinha 72 netos e bisnetos, teve dez filhos. Quando fiquei nessa fase de miséria, e fui morar nessa casa longínqua, com meu tio, eu tinha um quarto no quintal. Essa mulher largou tudo e foi morar comigo. Quando eu chegava, a altas horas da noite, às vezes sem comer, dizia: “Milton...” – me chamava Milton – “Tem uma sardinha no fogão”. Reservava uma sardinha para mim. De onde é que vem isso? Porquê essa preferência? É misterioso.

 

E nesse gesto sentiu o amor da sua avó.

Quando você é um menino, como se diz em inglês, “take for granted” [toma como garantido]. Foi o que foi. A relação com mulher: uma prima de 18 anos ia tomar banho ali; tinha um daqueles guarda roupas com um espelho enorme, não tinha nem banheira, era uma bacia; ela ficava se ensaboando e eu ficava para morrer! Mas para morrer! Para mim, aquilo era o mundo!

 

Mais tarde, desenharia muitas mulheres nuas. Quando começou a trabalhar, desenhava. Como era O Cruzeiro, a famosa revista onde se iniciou?

A revista era uma sala, a sala teria três metros por seis ou sete; isto era O Cruzeiro. Foi meu primeiro emprego. A revista vendia dez mil exemplares por semana, quando vendia dez mil e quinhentos era um sucesso. Eu era contínuo, carregador, ia fazendo tudo o que aparecia; e do lado – para ver a pobreza – tinha o director da revista, no fundo tinha uma prancheta em que o desenhista fazia o que se chama hoje design. Isto me deu uma grande oportunidade.

 

Como?

Eles não tinham dinheiro nem para comprar envelope, e recebíamos envelopes bonitos, de companhias americanas, que mandavam fotografias. Eu pegava as fotografias, arquivava, e nos  envelopes botava “Praia”, botava “Moda”, botava “Políticos”. Não vai acreditar: isto se transformou no maior arquivo da América do Sul! Foi crescendo, crescendo. A revista explodiu. Aparecia uma história de quadradinhos para traduzir, e eu traduzia.

 

Como é que um rapaz do Meyer aprendia inglês?

Dicionário!

 

Anos mais tarde traduziu Shakespeare. Como é que aprendeu inglês?

Sei lá como é que a gente aprende! Como é que a gente aprende as coisas? Devo ter lido dez mil livros. Eu não sei nada, eu aprendo lendo. Inclusive, esta é a minha definição de cultura – sei que vai concordar com ela... “Cultura é aquilo que amplia a nossa ignorância”. Não estou fazendo uma frase, não. O idiota que leu duas coisas acha que sabe tudo! A nossa ignorância é maravilhosa.

 

O Cruzeiromudou a sua vida, porque lhe deu espaço para aprender, expandir o seu mundo.

Assim como eu tive a sorte de perder os pais...

 

A sorte de perder os pais?

É, não fui massacrado pelo sistema familiar, não fui massacrado pelo sistema religioso.

 

Deu-se com toda a gente, conhece toda a gente.

Pois é. Uma das primeiras pessoas que vi entrar, [Dorival] Caymmi, dizia que a primeira pessoa que conheceu fui eu. Era menino, chegou, foi procurar um desenhista que o iria apresentar ao director da Rádio Tupi, também baiano, para dar uma oportunidade para ele. Outra pessoa, Gago Coutinho! O Gago Coutinho, no ano 40, tinha atravessado o Atlântico; era almirante, com aquele dólman, aqueles botões; fez uma entrevista. Mais tarde é que vi a importância dele. Em dez anos, a revista estava vendendo 750 mil. Todas as pessoas, as vedettes, as pessoas importantes, não há um nome da imprensa brasileira, actualmente, que não tenha passado por lá.

 

Foi um sobrevivente, com uma vontade de aço.

Não era vontade. Eu estava vivendo. Eu ambicionei ou a vida me arrastou? Não sei.

 

Não sabe? O que é que aconteceu aos seus irmãos? Tiveram uma carreira tão fulgurante quanto a sua? Uma vida tão entusiasmante quanto a sua?

Fulgurante, gostei! Minha irmã trabalhou no Ministério de Educação; a minha irmã menor era uma mulher bonita e se casou com um diplomata equatoriano; e Hélio, meu irmão, que era mais aventureiro do que eu, pegou um jornal chamado Tribuna de Imprensa, do político Carlos Lacerda, e escreve editorial todo o dia.

 

Num dos seus livros, faz uma dedicatória à sua irmã: que continua a acreditar na bondade do ser humano. Quando é que deixou de acreditar na bondade do ser humano?

Quem deixou de acreditar na minha bondade foi você! Pelo contrário: a coisa que mais admiro no ser humano não é a cultura, não é o carácter, é a capacidade de ser bom. Mas quando encontro uma pessoa boa, quando acredito que ela é boa, a bondade já está fugindo.

 

Qual é a sua definição de bondade?

Não é Madre Teresa de Calcutá – essa é uma exploradora da bondade, não toma banho e cheira mal; aquilo é o cheiro da santidade; quer ser boa em Calcutá, depois quer ser boa em Nova Iorque…

 

Sobre a bondade.

Quero ver o que é que eu disse!

 

Num livro que reúne as mil citações mais famosas diz o seguinte: “Pode ser engano, mas pela situação do mundo parece que o leite da bondade humana azedou de vez”. Estava num dia mau…

Não, não...

 

“O génio do ser humano não é o talento, é a bondade”. E ainda: “Só vi a bondade uma vez, tem muitos anos”.

O facto de estar decepcionado por não encontrar a bondade, não quer dizer que não preze isso.

 

Que vez foi essa, há muitos anos, que encontrou a bondade?

Não sei! Deve ser poético! [risos]

 

Definição de bondade: respondeu com uma negativa, disse que não é a Madre Teresa de Calcutá. Nesta tarde, neste momento, que definição de bondade é que lhe ocorre?

Quer que eu seja definitivo…

 

Ao contrário: se é a definição para esta tarde, para este momento, só pode ter um carácter pontual.

O que está mais perto da bondade é uma coisa que se chama humanismo. Por exemplo, todas as pessoas que trabalham comigo, trato como se fossem pessoas da minha casa. Talvez por isso consiga conviver com elas tanto tempo. Não gosto da palavra respeito, mas há esse sentimento humano. (Como é que vai ouvir isso depois?

 

Ouço, transcrevo e edito.

Sabe que tenho horror de dar entrevista? A pessoa vai me ouvir duas ou três vezes e vai passar a me odiar, não vai mais nem me cumprimentar...

 

Há quanto tempo não dava uma entrevista assim?

Há muito tempo.

 

Obrigada. Decidiu-se por causa da minha persistência?

Foi a sua persistência, e porque é em Portugal. Aqui não, aqui tem uma repercussão negativa). Então você quer saber do desenho e da escrita… Fui fazendo. Nunca tive essa consciência de “vou ser escritor”. Derivando um pouco, há uns duzentos anos descobri o haikai [forma poética oriental]; peguei o haikai e comecei a fazer haikai à minha maneira. A noção de desconstruir é minha, sempre. Você pega os idiotas que continuam a fazer haikai falando de Primavera, de colibri, de pirilampo… Eu peguei e fiz um negócio carioca! Fiz mais de 400 haikais, mais do que o Bashô [poeta japonês]! Fábulas? Fiz mais de 300 fábulas. O que é o instinto…

 

Fez por instinto? Começou por ser só um instinto de sobrevivência?

Uma naturalidade minha. Pode pegar as fábulas: não tem uma fábula moralista!

 

Muito me surpreenderia se resultasse de si alguma coisa moralista.

Pega La Fontaine, pega os outros, são todos moralistas. O desenho: eu tinha dez anos quando apareceram aqui no Rio as histórias em quadrinhos que começavam a fazer sucesso nos Estados Unidos. Como é que se chama em Portugal?

 

Banda desenhada.

E apareceu aquela figura... Foi a maior relação do desenho intelectual comigo: Flash Gordon! Eu copiava aquilo. Era um desenho infantil, claro. Minha irmã, durante anos, guardava, depois se perdeu. Gostaria muito de ver hoje.

 

E foi assim que começou a desenhar? Copiando o Flash Gordon.

É. Para mim, a minha coisa mais essencial, mais orgânica, é o desenho. Desenho a bico de pena. Fazia árvores de dois metros a bico de pena, fiz meia dúzia. Tem mais de 30 anos que não faço exposição. Para quê expor? Expor porquê? Tenho horror, acho muito engraçado: o ser humano sacrifica a sua vida toda, fica quatro, cinco anos estudando um salto, para brilhar um minuto. Não quero sacrificar a minha vida.

 

Viveu a vida muito intensamente?

Sim. Fazia tudo quanto era esporte. Comecei a praticar depois dos dez anos, quando já era tarde. Antes, não tinha tempo nem ocasião.

 

Correr na praia é gratuito.

Sim, mas naquela época eu morava no Meyer, não tinha praia... E era tudo muito longe.

 

O que é que representou para si a vinda do Meyer para o Rio?

Era uma cidade pacífica. Não foi um grande acontecimento. Vim morar numa rua que não existe mais, Rua São Pedro, onde é a Avenida Presidente Vargas, numa pensão. Uma pensão muito boa: tinha uma sala ampla, tinha comerciários, tinha motorista de táxi e tinha empregadinha deliciosa...

 

Ficou sozinho? Ou já antes tomava conta de si?

Enquanto minha mãe era viva, era ela. Não me vem ideia nenhuma de sofrimento. A vida era cheia, fazendo coisas, estudando. Entrei no Liceu de Artes e Ofícios; o curso era de seis anos, estudei quatro ou cinco. Saí, porque, entre aspas, já era famoso, e não tinha mais sentido estar naquele colégio... Se quiser saber do meu temperamento, não posso lhe dizer. Esse colégio era um edifício art noveau, tinha umas escadarias de mármore; uma noite, um professor, no meio do patamar das escadas, com todos os alunos ouvindo, me parou e disse assim: “Olhe aqui, nunca mais me faça isso na aula, o que você fez é imperdoável, você zombou do seu colega”. O pessoal riu e ele achava isso imperdoável.

 

Alguma vez se riram de si?

Que eu sentisse, não. Quando se faz humor, provoca-se o riso. É uma matéria muito delicada, sobretudo quando nos pomos nesse lugar, o do alvo... Existe uma frase que acho idiota: “Você perde um amigo, mas não perde uma piada.”

 

Nunca tomou essa frase como sua?

Não tem nenhuma necessidade.

 

Está muito mais dócil do que eu imaginaria. Esperei encontrar o Millôr de faca espetada!

Mas de maneira nenhuma.

 

O que é que fez de si famoso? O humor?

A grande coisa que tenho é a capacidade de processamento. Qualquer coisa que me falam, sou capaz de processar de dez maneiras diferentes. Com meu irmão, que é muito hábil também, começávamos a brigar, e quando a briga chegava a um certo ponto, ele falava: “Agora vem para o meu lado e eu vou para o teu!”

 

Quando é que deixou de ser o Milton para passar a ser o Millôr?

Precisei tirar uma carteira. Devia ter 17 ou 18 anos, e vi que estava Millôr na certidão. O tabelião escreveu Milton na boa caligrafia daquele tempo: o R, com a rapidez de escrever, ficou solto, o N ficou solto, e traçou o T em cima do O. Millôr, não tem mais dúvida. Todo o mundo passou a me chamar de Millôr!

 

Como é que a sua mulher lhe chama?

Eu já era Millôr... Ninguém me chama de Milton. Quem me chamava, morreu. É isso. Não tenho mais nada a dizer, já que descobriu que não sou aquilo que você pensava...

 

Quero que me conte o seu encontro com o Walt Disney.

Normal, normal. Nesse tempo, não havia essa coisa desta estrela ou aqueloutra. Aquilo era uma tropa de elite. As pessoas eram as pessoas que se conheciam do botequim ou da praia. Fui para os Estados Unidos, estive três vezes lá, tinha 24 anos. Eu era famoso – como dizia você – e fui fazer algumas entrevistas. Quando cheguei a Los Angeles, Hollywood, o Vinicius de Moraes, que já conhecia daqui, era cônsul; o César Lattes, cientista, ficou meu amigo, e duas ou três vezes fomos para casa da Carmen Miranda.

 

Carmen Miranda era uma espécie de embaixatriz da comunidade brasileira em LA. Eram amigos?

Jogávamos cartas com ela. Uma noite olhei para uma estante e vi 13 volumes pequenos, livros de capa dura, com A História Universal do Humor. “Você me dá?” Está aqui, nessa estante. São livros ingleses, perfeitos, têm cem anos e ela me deu. Nadava na piscina dela com César Lattes, ele nadava melhor do que eu. Atravessei os Estados Unidos de onibus, parava onde queria, descia no Grand Cannyon. Vim de navio de lá para cá, demorava 12 dias; namorei uma moça alemã, e a viagem foi tão divertida que o comissário de bordo me emprestou o apartamentozinho dele para conversar melhor com a moça! [risos]

 

Pergunto-lhe pelo Walt Disney e acaba por falar das moças… A punchline são sempre as moças.

Eu já disse: até a minha avó, porquê me preferiu? Não tenho a menor ideia.

 

O Cruzeiro, O Pasquim, O Pif Paf são grandes momentos da sua vida ligada à comunicação social. Foram os anos gloriosos?

Posso te botar a Veja, entrei na Veja no início.

 

Além das revistas e jornais, onde fez caricatura, cartoonismo e escreveu, fez peças de teatro e tradução. Face a esta versatilidade, importa saber se a qualidade é constante, ou se considera que algumas destas coisas são menores.

Não acho que seja bom em tudo, talvez eu seja melhor em tudo... Vamos falar de teatro: pensa que eu queria fazer teatro? As pessoas dizem: “É apaixonado por teatro...”. Não sou.

 

Porque é que fez teatro?

Um casal de actores chegou ao pé de mim e pediu para fazer uma peça. Como sou uma pessoa gentil, aceitei e fiz a peça. E como sou uma pessoa muito gentil, para não ficarem envergonhados, fiz uma peça boa! [risos] Depois fiz outras.

 

Entra o brio…

Brio é uma corruptela de brilho? Comecei a fazer teatro, chegou um amigo ao pé de mim e me pediu para traduzir uma peça. Traduzi. Era um trabalho profissional, porque o teatro tinha um público razoável e a gente recebia pela bilheteira. Fiz essa tradução, depois fiz outra; em pouco tempo, no panorama de teatro, tinha 30 peças, cinco com traduções minhas. [O encenador] Gianni Ratto me pediu que traduzisse “A Megera Domada” do Shakespeare.

 

“A Fera Amansada”, em Portugal.

Como é que é?, “The Taming of the Shrew”. “Negócio de traduzir essa peça, não sei...” – para você ver a minha atitude. À terceira vez, ele jogou na minha prancheta a peça, “Quem vai traduzir é você!”. Peguei 20 traduções já existentes, em várias línguas, incluindo português; fiquei impressionado com a mediocridade das outras, a mediocridade pretensiosa, uma merda aquilo tudo. Se pegar a peça e comparar, vai ver que a minha é mais perto do original do que a deles.

 

O tamanho do génio do Shakespeare não foi dissuasor?

Chega um momento em que não tenho medo do Shakespeare. Comecei a traduzir. “Hamlet” vendeu 80 mil, “A Megera Domada”, não sei, o “King Lear” 60 mil...

 

Não tem medo do Shakespeare. Não se deixa intimidar por ninguém?

No papel, não. Se aparecer um negão, tenho medo!

 

Quem é que admira?

Literatura, não sou especialista, não quero ser. O meu negócio é uma opinião de pessoa que lê. Só gosto do que gosto. Não tem esse negócio de fulano. Pode ser Confúcio, pode ser quem for. No Brasil, quais são os grandes escritores? Guimarães Rosa, Euclides da Cunha. Machado de Assis não é meu preferido. Tenho uma tendência natural para escritores difíceis. Eu escrevia no jornal Brasil e botei um Top: “Amor nos Tempos de Cólera”, de Garcia Márquez, é um livro admirável, “Memorial do Convento”, de José Saramago, é definitivo. Gosto muito do Saramago, Rubem Fonseca, João Cabral de Melo Neto, Drummond. Portugal tem poetas sensacionais.

 

“Requiem: Quem matou Millôr Fernandes? Perguntará a manchete do dia, enquanto o assassino vai ao enterro disfarçando a alegria.” Disse isto em 1971. Como é que imagina a sua morte?

Tenho grande dificuldade em imaginar a minha morte porque não sou muito bom em ficção!

 

Escuda-se nos aforismos, não é?

Não! O que é que vou dizer? Que estou chorando? Não sei.

 

Está com 84 anos, pensa muito na morte?

Talvez. Quem sabe se chego aos 85... Sabe aquelas pessoas de 80 anos que ficam indignadas porque um cara botou no jornal que estava com 81? Que diferença faz um ano?

 

E faz?

 Ué, talvez seja o último! Não faz diferença quando uma pessoa tem 18 anos, ou 30, 40. Na verdade, nem gosto de falar nisso. Aquelas figuras admiráveis do Cruzeiro, meninos como eu, quase todos morreram. Você está sendo esperado, a qualquer momento… Como é que vai ser? Conhece aquela coisa anedótica, que diz assim: César morreu, Jesus Cristo morreu, Lincoln morreu, e eu não estou me sentindo muito bem!

 

Quando é que o dinheiro e a necessidade deixaram de ser uma coisa premente na sua vida?

Não posso dizer nada, porque eu estava vivendo. Primeiro, não tinha dinheiro, não tinha dinheiro para comer. Com exactamente 20 anos, fui morar na Avenida Atlântica com um amigo meu chamado Fred; tinha dinheiro para morar num apartamento de seis quartos, eu ficava com os dois de baixo. Lidando comigo todo o dia, foi meu admirador até ao fim da vida. Uma vez, apareceu lá um jornalista, brilhante esse jornalista, ele se voltou, na frente de todo o mundo: “Oh Artur, você pensa que é muito brilhante?, eu também sou! Mas não vai se comparar com o Millôr, não!”

 

A Avenida Atlântica é a mais cara e exclusiva do Rio. Confere status. Ganhava bem, tão jovem?

Ganhava o maior salário da imprensa. Passei desses cem para doze e quinhentos, que nem sei nem o que é que é. Dava para comprar automóvel, que ninguém tinha na época, dava para ajudar as minhas irmãs (pagava um apartamento para morarem).

 

O dinheiro muda a vida das pessoas?

Muda, mas apesar do tempo breve, muda paulatinamente. Você conhece todo o mundo. A cidade era pequena, amabilíssima; chegava às dez horas da noite, sabia qual era o bar em que os amigos estavam. O Di Cavalcanti, que era o grande pintor, tinha uma namorada muito bonitinha, e comecei a namorar ela. A irresponsabilidade do jovem: eu ia para o estúdio dele e ficava namorando com ela na frente dele! Um dia ele me botou para fora! Achei que era um açougueiro! Mas é isso, dona Ana... Sabe que traduzi cento e dez peças? Quando as pessoas levam cinco anos para traduzir o “Hamlet”, eu sou bonzinho de julgamento: acho que o cara é bicha, que o cara é homossexual. Eu tinha um ímpeto de fazer. Enquanto isso estava jogando frescoball na praia – que fui eu que inventei.

 

Desportista era o que gostaria de ter sido?

Atleta, né? Talvez fosse correr. Quando a polícia proibiu o frescoball, comecei a me aborrecer. Eu corria oito quilómetros todo o dia, na praia, porque eu morava em frente. Está bem, senhora Anabela?

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

Millôr Fernandes morreu em 2012