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Isabeli Fontana

“Essa coisa de tirar foto…, não é uma coisa que eu ame fazer. É uma coisa que eu sei fazer direito.” Isabeli Fontana nunca quis fazer foto. No começo, bem no comecinho, como ela diria, e como nós dizemos, reproduzindo o seu brasileiro com sotaque do Paraná, ela era apenas uma menina magra, que escondia “uma beleza que nunca ninguém viu”. Entretanto passaram 13 anos e ela é uma das modelos mais famosas do mundo.

Falámos das coisas de que habitualmente as modelos não falam. De dinheiro, de deslumbramento, de ambientes perniciosos, da gestão da carreira. Falámos durante uma hora, depois da sessão fotográfica.

Nessa altura, já vestia uns jeans que deixavam perceber que, mais do que magra, (que é muito), Isabeli é estreita; vestia também uma tshirt da Zara, imitação de uma Balmain, que ela poderia ter. Mas é poupada. E sabe que o verdadeiro segredo está em combinar. Claro que as bailarinas eram Chanel.

É muito simpática, faladora. “As pessoas que me seguem no Twitter adoram perceber que sou uma pessoa normal.” Não há vestígios da menina calada que durante muito tempo foi. Por fim, um pedido inesperado: “Você manda para mim uns cinco exemplares da revista? Minha mãe adora ver!”

 

 

Houve um tempo em que achava que o mais difícil era lidar com a fama. Ainda é assim?

Disse isso quando era anti-fama. Tinha uns 16 anos quando a minha carreira verdadeiramente começou; hoje estou com 27. Eu não queria ser famosa. Só queria ganhar o meu dinheiro e ir para casa. Não me vejo como uma celebridade. Vejo-me como uma pessoa normal que teve sucesso.

 

Porque é que passou a dar entrevistas?

Porque percebi o quanto os meus clientes ficam felizes. Muitas revistas queriam me entrevistar, porque era a modelo mais nova da Victoria’s Secret, e eu não queria. Morava em Florianópolis com meu ex-marido (quer dizer, nunca foi marido, mas é o pai do meu filho); me chamavam em S. Paulo, e não ia. Foi difícil convencer-me de que a fama e o modelo precisam andar junto.

 

No princípio, estava só o desejo de ganhar dinheiro? Foi isso que a fez começar?

Foi. Venho de uma família humilde. Sempre chamei muito a atenção na rua. Não gostava de ser muito magra, que me olhassem muito. Por isso jogava o cabelo todo na minha cara e usava três calças para fingir que era mais gordinha! Eu era a coisinha fechada, o patinho feio. ([O Blackberry acusa uma mensagem] Me dá um segundo. Desculpa.) Um dia, estava com minha mãe, levando meu cachorrinho no veterinário, e falando que queria ser veterinária, cuidar de cachorro; tinha 12 anos. Uma pessoa na rua falou: “Meu Deus, que menina linda. Você tem que ser modelo!”. Olhei para minha mãe... “Que é que modelo faz?”. “Desfila, tira fotos”. “Será que ganha dinheiro? E se eu fosse modelo, para a gente ganhar dinheiro?”.

 

A sua intenção era simplesmente ajudar a família?

Era. Minha família teve uma vida muito batalhadora. Meu pai era representante comercial de uma marca de roupa bem popular; vendia para lojas, fazia pedidos. Minha mãe trabalhava na firma de calçado que meu pai abriu. Eu via meus pais sofrendo para pagar as contas, as contas, sempre contas. O dinheiro nunca chegava. Três filhos, né? Eu via esse desespero. Inventava coisas para ganhar meu próprio dinheiro.

 

Como?

Um dia, peguei meu irmãozinho mais novo (o mais velho não queria, “imagina, eu vendendo…”) e fui batalhar de porta em porta com o mostruário do meu pai. A gente morava num condomínio gigantesco. São uns 20 prédios de quatro andares, dois por andar. Vendi um montão! Ganhei 200 reais, era muito dinheiro. Sempre fui à luta.

 

Essa consciência da situação da sua família, revela uma maturidade muito grande, numa menina de 10 anos. Acontece-lhe pensar nisso quando olha para o seu filho mais velho, que tem sete anos?

Nem tanto. Quero que ele entenda que o dinheiro é importante, mas que não é tudo. Em primeiro lugar vem o coração e a família. O meu filho adora comprar. “Filho, você não sabe como é difícil ganhar dinheiro…”. 

 

Mas o que surpreende é que diga que tinha obrigação de ajudar os seus pais.

Eu sentia isso: obrigação. Minha mãe andava com um Corsa antigão, a porta abria toda curva… Me lembro dela cheia de sapatos, que levava para a faculdade para vender às amigas. Ela queria estudar, ser psicóloga; a mensalidade estava sempre atrasada. Uma guerreira.

 

A vossa relação sempre foi cúmplice?

A nossa criação foi muito de amizade. Ela me explicava as coisas, me fazia pensar. Às vezes eu ia no que eu queria e quebrava a cara… Aprendi a prestar mais atenção no que minha mãe falava. A única coisa: era complicada para comer. Igual ao meu filho menor. Era magricela porque não gostava de comer, tinha preguiça de mastigar!

 

É parecida com a sua mãe?

A gente tem o mesmo carácter. Explosivas. Os sentimentos são à flor da pele. Muito directas. Não somos o tipo de pessoa rancorosa, que vai guardando. Alguma coisa acontece, e as cartas estão aqui na mesa, vamos resolver! Fisicamente, a minha mãe não é tão alta (eu tenho 1.77m, ela tem 1.68).

 

De onde vem o seu tipo físico? Como é que numa família de Curitiba aparece uma morena de olhos azuis, tão alta?

Engraçado, não é? Todo o mundo falava que eu era anormal de beleza, desde pequenina. “Isabeli tem uma beleza que não existe”. Deus foi bom comigo. Mas eu não ligava, era muito tomboy, muito menino… como é que fala aqui?

 

Maria-rapaz.

Eu era Maria-rapaz. Tenho dois irmãos, era moleque, não tinha amiguinha, não botava saia. Aprendi a ser feminina no meio da moda.

 

Quando vê o seu álbum de criança, reconhece-se? Era a mesma expressão, os mesmos traços?

Tudo igual. Você quer olhar? Tenho uma foto, que acabei de mandar no Twitter. [Mostra].

 

Disse no Twitter que está a dar a entrevista?

Não, não avisei. 

 

Nessa fotografia está irreconhecível. É só uma menina, morena.

Eu era muito levada!, gostava de ser engraçada. Na escola, os meninos não olhavam para mim porque era muito magra. [Continua a mostrar fotos no telemóvel] Veja só o olhão azul do meu filho!, igual ao meu, até mais claro do que o meu. Eu levei sorte de ter olho claro, porque o meu pai e a minha mãe têm olho castanho; o pai do meu pai tem o olho claro, azul-piscina – puxei a ele. A minha cara? Sou uma mistura da minha mãe e do meu pai. Tenho uma estrutura larga, que pode resultar andrógina nas fotografias, com uma luz mais escura.

 

Foi então descoberta na rua. O que é que se seguiu?

Minha mãe me colocou num curso de modelo para aprender boas maneiras. Eu andava corcunda! E tinha corpo de criança, 83 de quadril. As pessoas adoravam! Por isso peguei todos os desfiles quando comecei. Adolescente, passei para 87. Gostava de coisa gótica!, adorava pintar minha unha de preto. Sempre gostei de uma coisa meio-trash, meio-robótica, meio-dark. Não gosto da coisa bonitinha e perfeita.

 

A sua explosão profissional aconteceu com o desfile da Victoria’s Secret?

Antes disso, já tinha feito [um editorial para a] Vogue América. E fiz também os melhores desfiles de Nova Iorque.

 

O que é que você tinha? Que características eram as suas para ser tão bem sucedida? Há milhares de meninas bonitas que aparecem todos os anos.

Sabe que nunca me perguntei porque é que dei certo? A sorte bateu várias vezes na minha porta. Parei duas vezes, porque tive filhos, e voltei até melhor. Mas sei que cobro muito de mim mesma. Quero estar perfeita, em good shape. Eu me delapidei para estar onde estou. Quando comecei, era somente sexy. As pessoas me viam como a modelo que passa Versace. Queria mostrar que podia ser mais do que isso. Do que sempre gostei foi do fashion, andrógino, esquisito.

 

Tem uma atitude, quando desfila, que é confiante e sexy. Como é que tinha noção de potencial aos 16 anos?

Não tinha noção nenhuma! Não sabia andar rebolando. Quem me ensinou foi a Marcella Bittar, uma modelo que começou comigo. “Você tem que jogar para cá, jogar para lá…”

 

Rebolava correspondendo ao paradigma da brasileira, numa altura em que as brasileiras estavam em alta?

Sim, mas a minha ascendência é europeia. A minha avó é misturada de italianos com portugueses. Ela é Silva. A brasileira mesmo é índia.

 

Fotografou muito com Mario Testino, muito responsável pelo boom de brasileiras na moda?

Nem tanto. Comecei por trabalhar com Steven Meisel, mas não era a favorita dele. Com quem eu cresci foi com o David Sims, que trabalhava especialmente com a Vogue Francesa. Entrei nas graças do Guido, o cabeleireiro que ele mais escolhe. Eu era blasée num mundo onde toda a gente é puxa-saco.

 

Foi para Paris e depois para Milão, com a sua mãe atrás. Porquê?

De 14 para 15 anos fui morar em Milão. Minha mãe largou tudo. “Você não vai sozinha por esse mundo afora, com as pessoas mais loucas do mundo!”

 

Era o receio de quê? Sexo, drogas?

De tudo. Minha mãe fez muito bem.

 

Hoje faria o mesmo com uma filha sua?

O mesmo. Não a largaria. As meninas ficam deslumbradas.

 

Com o quê? Com o dinheiro fácil?, com a atenção de que são alvo?

Há uma passagem free para tudo quanto é canto. [Livre-trânsito] Todo o mundo quer uma modelo, uma menina bonita por perto. Todos os homens, os ricos, ficam de olho. O que chama a atenção das meninas, novinhas, é o dinheiro. Nunca foi uma coisa prioritária para mim. O meu lema é querer ser feliz de verdade. Não quero fingir que estou feliz porque estou com um cara que tem dinheiro… Sou batalhadora e quero fazer o meu dinheiro. O meu dinheiro! O do outro não é válido. Mas as meninas não pensam assim. “Vamos lá, nos divertir! Tudo pode”. É uma putaria. Tudo cheio de droga, bebida à vontade, tudo de graça. Se você dá, que é que querem de volta?

 

É uma pergunta que sempre se faz? O que é que querem de si na volta?

Sempre tem um interesse. Sempre tive amigos ricos que quiseram me comprar de uma tal maneira. “Eu te dou”. “Não, não, muito obrigada”. Sei que não é só isso que eles querem. Eles me querem. Então, não deixo nada em aberto.

 

Vinca uma enorme diferença entre ganhar o seu dinheiro e casar com um homem rico. Porquê?

A maior parte das modelos casam com homens ricos. Porque é que não sou assim? Há excepções, mas todas as pessoas ricas que conheci acham que o dinheiro é tudo. Para mim, o dinheiro nunca falou mais alto. Se comprar um palácio com o dinheiro dos outros, não vai ser bom para mim. Quero conseguir comprar porque é o meu mérito que mo permite. Agora, por exemplo, estou começando a construir a minha casa – depois de 13 anos de carreira. Em Florianópolis. Minha mãe fala: “É muito fácil bater continência com chapéu dos outros”. Significa usufruir da grana do outro, tranquilamente. Nunca quis.  

 

É inesperado que o dinheiro não a tenha deslumbrado, provindo de um meio carenciado, como é o seu.

Nunca gostei de ricos. Eles me deixam de pé atrás. São prepotentes, usam e abusam do poder. A arrogância [dos ricos] é a pior coisa do mundo. O que mais me horroriza é ver alguém menosprezar os pobres ou aqueles que são menos bem sucedidos. Ensino os meus filhos a serem educados com todo o mundo.

 

Foi mãe aos 19 anos. Aconteceu?

Sou assim: “Amo essa pessoa, quero ficar com ela o resto da minha vida, quero ter filhos com ela”. Minha psicóloga fala: “Você é muito careta”. Na verdade, engravidei sem querer.

 

Muito estava em jogo. Porque é que escolheu ter os filhos cedo?

Muita gente me falava: “Olhe para a sua carreira. Pense bem”. Muita gente falou para eu tirar esse filho. Não. Já amava aquela criança na minha barriga. Sempre quis ser mãe.

 

Já tinha ganho o dinheiro suficiente para não ter de se preocupar com o futuro?

Pensava: agora tenho um filho, tenho por que trabalhar. Nunca gastei dinheiro em roupas caras, em bullshit. Meu pai me incentivou a comprar propriedades. Ofereceu-me livros de auto-ajuda. “Pai rico, filho pobre”, foi o primeiro livro desses que li. Nunca joguei na bolsa.

 

Ganhou muito dinheiro?

Ainda estou à espera do meu contrato milionário. O mundo da moda mudou, e ninguém está querendo pagar milhões para uma modelo. Nos anos 90, sim. Escolho poucas coisas, e boas, para fazer. Tem certas coisas que você não pode fazer para continuar com um nível bom. Mas as besteiras é que dão dinheiro.

 

O que são besteiras?

São trabalhos para clientes que não são A. O que acontece depois é que o cliente A não vai contratar uma menina B. Nem a Vogue. Sem Vogue, você não consegue fazer certos trabalhos. Então, é uma gestão que tem de ser feita. Neste momento, estou fazendo uma parceria com a C&A, que investe barbaridades em mim e acredita que posso fazer moda. Estou desenhando Isabeli Fontana by C&A. Estou virando um nome, não sou apenas uma modelo.

 

Estima-se que em 2007 ganhou três milhões de dólares. É significativo.

Sim. Mas comprei um apartamento em NY que custou quase quatro milhões. Real estate [imobiliário] foi o lugar onde ganhei mais dinheiro.

 

Como assim? Dê um exemplo.

Ganhei 200 mil dólares. Como? Muita Victoria’s Secret. Tinha 17 anos. “Nossa, que é que vou fazer com esse dinheiro?” Usei esse dinheiro como entrada num apartamento de 700 mil. Revendi-o por um milhão e meio. Ganhei um milhão de dólares.

 

Quando é que começou a fazer terapia?

Faço desde os sete anos. A minha mãe descobriu que eu não falava na escola. Sempre fui muito tímida. Continuo fazendo todas as semanas, ainda que por vezes dê umas piradas! Saí muito desencantada do casamento com o Henri Castelli, o actor da Globo. Terapia me faz bem.

 

Onde é que é a sua casa?

Brasil. Moro em S. Paulo, a minha estrutura familiar está lá, meus filhos frequentam uma escola bilingue (inglês é fundamental). Fora de casa, preciso, para me sentir em casa, do meu telefone. Estou o tempo todo falando com a minha família e o meu namorado. Às vezes digo à minha agente: “Dá um jeito, que eu quero ir embora logo!”. Quando fico muito tempo nos Estados Unidos (duas, três semanas), tenho vontade de cancelar tudo. Preciso me restabelecer. Longe de casa fico chochinha.

 

O seu segredo de beleza, qual é?

Não tenho. Aprendi umas coisas. Primeira: que cada um tem um rosto. Segunda: você tem que ser feliz. Depois, amo massagem, amo comer bem, amo fazer exercício para revigorar. (Hoje em dia faço menos, estou querendo namorar mais…) Meu segredinho: o spray de água natural ajuda muito a pele.

 

Pensa muito no envelhecimento?

Penso. Deve ser bem doloroso… Sou totalmente a favor do botox!

 

   

Publicado originalmente na Revista Máxima em Junho de 2010

 

    

 

 

 

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