Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Catarina Portas e Nuno Portas

Nuno Portas tinha 35 anos quando nasceu a sua terceira filha, Catarina. Viveram juntos apenas seis anos. Mas cresceram juntos, descobriram juntos, construíram zonas de intimidade. A história deles, contada por um e por outro, lê-se nas próximas páginas.

O gravador já estava desligado quando Catarina disse o seguinte: “Ele nunca estava aqui, (não vivia na mesma casa que eu); mas sempre que precisei, estava lá”. E ficou decidido que essa frase tinha de entrar. “Essa frase vai-me safar”, comentava, trocista, o pai… Essa ficou gravada. Mas não ficou aquela que Catarina disse na rua e que se resume basicamente nisto: ele sempre lhe deu imensa corda e sempre a levou a sério. Foi sempre uma relação entre iguais.

Funcionou como constatação, umas três horas depois de tudo ter começado.

Antes disso, havia o atraso dos dois (“O meu pai está atrasado uma hora ou uma hora e meia”, avisava ela ao telefone uma hora antes). Quando Nuno finalmente chegou, quis saber se a filha já tinha chegado há muito tempo… “Porque ela atrasa-se mais do que eu”. Essa foi a primeira coisa que quiseram dizer que tinham em comum: uma relação particular com o tempo. Depois, foram as fotografias na loja de Catarina, A Vida Portuguesa. “É preciso posar?, eh pá, vou ser gozado por esta…”.

A conversa cúmplice já tinha começado. A cumplicidade é imensa. Tratava-se de saber de que forma, (com que pudor), ela ia ser revelada.

Por fim, sentaram-se lado a lado, beberam vinho branco e cerveja, comeram pão e acepipes. E conversaram. 

 

 

Trouxeram, cada um, um papel com notas… porquê?

CP – O meu pai estava muito preocupado, ontem… Achava que isto podia cair no mero elogio.

NP – Numa entrevista destas, com as relações afectivas que há, estamos muito na defesa. A nossa prestação é capaz de ser muito marcada por uma grande admiração mútua. Não é só uma questão de amizade, de relação pai-filha. A pouco e pouco, há uma cumplicidade, uma relação directa. Não estou a ver tabus especiais que me ponham em cautela… A Catarina nasceu em 69, e nesse ano eu estava a fazer – no que a mãe dela me ajudou muito – a tese para as Belas Artes, aqui no Chiado. Na noite em que ela nasce há um terramoto…, uma brincadeira de terramoto, mas existiu. À volta do 25 de Abril…, quando é que foste para Inglaterra?

CP – Em 75. E para Paris em 78.

 

Vamos devagar. A vossa história começa quando?

NP – Antes de 78, quando fui para Madrid três anos, a Catarina tinha nove anos. E quando vim de Madrid fui directo para o Porto. Nessa altura já havia uma separação entre nós.

CP – Entre a mãe e o pai.

NP – Entre a mãe e o pai, não com ela. Pacífica, mas dolorosa. 

 

Viveram junto quanto tempo?

CP – Seis anos. Nós, o Miguel, a tia Isabel… Continuo a viver na mesma casa e pergunto-me como é que cabia lá aquela gente toda. 

NP – Do período em que ela era muito pequena, não tenho muitas memórias. Eram coisas muito convencionais: passear, e tal. Quando ela começaria a ter mais interesse, mais conversa, eu já estava a caminho de outro sítio. Como a mãe dela.

CP – Mas sempre nos vimos muito. Há uma coisa importante: a intensidade desses momentos. Porque não nos víamos todos os dias.

NP – Tinha de ser tudo combinado.

CP – O meu pai ia a Paris, ou eu ia de férias [com ele].

NP – Neste contexto está o Miguel que vivia comigo, o Paulo que vivia com a mãe. Ao princípio era difícil o Paulo estar com a Catarina. O Miguel tinha optado por ficar comigo. Tiveram educações diferentes, escolas diferentes e...

CP – Resultados diferentes, como se nota.

NP – Podia ser tudo ao contrário, mas a verdade é que é assim. O Miguel tinha 11 anos quando nasceu a Catarina. O 25 de Abril foi muito turbulento para os casais portugueses. Foi uma coisa muito libertária.

 

Como é que conta a vossa história? E como é que, pequena, olhava para este pai, com um percurso errático, mas forte.

CP – Uma das imagens que tenho de pequena, é de o meu pai chegar das viagens, trazer-me presentes, e mandar-me postais.

NP – Que agora não envio…

CP – Lembro-me de um postal do Babar, escrito a vermelho, com aquela letra muito engraçada que ele tem. Acho que ainda o tenho. O pai sempre viajou muito.

NP – Porque me internacionalizei muito cedo. A mim chamavam-me como teórico, ao Siza chamavam por causa da obra.

 

A sua mãe também é arquitecta?

CP – É, paisagista.

NP – Foi minha aluna na escola. Mas também trabalhava no jardim de infância onde estava o Miguel… Foi numa reunião em Marrocos que a gente se conheceu mais propriamente. Uma reunião sobre o habitat dos países do Terceiro Mundo. Eu estava a trabalhar no LNEC nessa altura. O Teotónio Pereira, depois do 25 de Abril, fechou o atelier, considerando que “agora” não era altura de arquitectura, era altura de revolução! Só o Teotónio é que se lembraria disto. Achava que havia prioridades históricas.

CP – O meu pai estava sempre em trânsito, mas nunca me senti com falta de pai.

NP – Eu não senti complexos de culpa.

CP – Fui para a escola em Inglaterra. E depois fui para uma escola em Paris e não sabia francês e tive que aprender. Não há nada que nos faça melhor do que esse tipo de choques. Que nos obrigam a reagir. Em vez de estarmos comodamente no mesmo sítio.

NP – Saint François Xavier, não era?

CP – Era o nome da minha escola. Nas idas a Paris do meu pai, íamos ao cinema. Via filmes que não eram para crianças. Eric Rohmer e Nicholas Ray, gosto por causa do meu pai.

 

Tratou-a sempre como adulta?

CP – Sim. 

NP – Eles ficaram todos cinéfilos, no sentido exacto do termo: o gosto em estar no cinema a ver um filme.

 

Tinha uma parte de família convencional, com os Natais e as festas na escola?

CP – Sim, e com os meus avós. Era uma coisa importante, as férias em Vila Viçosa com os meus avós. Vila Viçosa tornou-se “a terra”. Foi onde o meu pai nasceu, onde o meu avô foi presidente da câmara. E isso leva-nos a outra coisa: ao sentido de comunidade. Se alguma coisa passa na família, é esse sentido de pertencermos a uma comunidade, de não estarmos aqui sozinhos.

NP – Todo o tempo em que o meu pai não estava a trabalhar nas pedreiras – era engenheiro de minas – ia para a casa do povo. Não interessava se eram fascistas ou não; era um homem totalmente dedicado aos outros.

CP – No funeral apareceram pessoas que não conhecíamos de lado nenhum e que diziam: “O seu avô emprestou-me dinheiro para comprar uma bicicleta. Graças a isso consegui ir trabalhar para a pedreira de não sei das quantas e sustentar a família”. 

 

O avô é uma figura fundamental na família?

CP – Fundamental.

NP – O Paulo está sempre a falar nele. Era muito sereno. Mesmo no período do divórcio, nunca… Estávamos a tratar de uma separação litigiosa, de pessoas e bens, que dividiu os nossos amigos; uns defendiam a Helena [Sacadura Cabral], outros defendiam-me a mim. Depois, felizmente, o juiz declarou que as culpas eram iguais. O meu advogado era o Jorge Sampaio. Foi a minha primeira fuga ao casamento católico…

 

A maneira como fala do seu divórcio, é como se ele fosse vivido por toda uma geração, sobretudo por aqueles que tinham uma formação católica.

NP – Isso está bem documentado no filme sobre o Nuno Bragança.

CP – “O homem que dava pulos”. Ah, não vi.

NP – O Frei Bento [Domingues] diz que passa por uma série de casais católicos uma grande perturbação É numa altura em que começam a casar os padres!, o que é uma coisa estranha: só eles queriam casar, nós queríamos descasar! Os famosos padres progressistas, os católicos progressistas... Estávamos no mesmo grupo com o Pedro Tamen, o Nuno Bragança, a Helena Vaz da Silva.

CP – Mas eu não fui baptizada.

 

Porquê?

CP – A minha mãe achou que havia duas coisas que eu devia fazer quando eu achasse. Baptizar-me e furar as orelhas! Furei as orelhas mais tarde, mas não me baptizei.

 

Tudo isso tem que ver com a escolha. É outra atitude em relação aos filhos.

NP – Curiosamente a Margarida esteve no Graal, (aquele grupo a que pertencia a Maria de Lourdes Pintasilgo).

CP – Sempre nos foi atribuída uma grande porção de responsabilidade na nossa vida. [virando-se para o pai] É verdade, isto. Nunca houve na minha educação – e na dos meus irmãos também não – o momento: “Se tiveres boas notas tens uma bicicleta”. Era: “A tua obrigação, no mínimo, é teres boas notas”. 

 

O que é que aconteceria se incumprissem?

NP – Tu tiveste más notas numa certa fase.

CP – No Liceu Francês. Eu já sabia o que é que queria e desleixei imenso as disciplinas de ciências; aquilo não me interessava nada.

NP – E o passo seguinte, isso é que eu tenho na cabeça…

CP – O que é?

NP – Quando a Catarina diz…

CP – Que ia fazer chapéus?

NP – Não. Embora as duas coisas estejam ligadas. É quando ela diz: “Não vale a pena porem-me na universidade”.

CP – A mãe até hoje… [gargalhada]

NP – A mãe tem essa atravessada, mas eu não tenho. Achei que a Catarina tinha uma cultura tão evoluída para a idade, que a universidade…

CP – Isso é a história da leitura. Quando fui cortada dos meus amigos e fui parar a Paris, embora tivesse os meus primos, comecei a ler em francês e descobri que havia livros incríveis. Basicamente, a minha actividade entre os seis e os 16 anos – que foi quando comecei a namorar – foi ler.

 

Numa das fotografias antigas que nos cedeu, está enfiada a ler, numa cadeira, e todos à volta estão a fazer qualquer coisa.

NP – À volta dos teus 14 anos, 15 anos, comecei a ver que tinhas uma enorme apetência por coisas de carácter artístico, romanescas…

CP – A verdadeira razão por que não fui para a universidade foi por causa das médias do Liceu Francês. São muito mais baixas.

(NP – Ela é mais ou menos do ano da Inês de Medeiros.

CP – A Inês é um ano mais velha). Não tinha média para entrar em História de Arte na Universidade Nova.

 

Porquê os chapéus? Numa família de intelectuais, não é a escolha mais obvia…

CP – Acho que foi o meu gesto de rebeldia.

NP – Sempre gostou muito de moda.

CP – Ainda fiz testes para a St. Martin’s, em Londres. Desisti dos chapéus porque não me interessava nada essa parte da criatividade da moda. Do que eu gostava era da actividade manual. Sempre adorei bordar. A minha avó ensinou-me a fazer tricot. Quando se está a coser, por exemplo, quando se tem uma actividade repetitiva, quase monótona, isso deixa a cabeça muito à solta. Para pensar, para ter ideias. E gostava muito dos chapéus da minha avó. Outra coisa: o marido da minha mãe é um coleccionador de objectos e de arte. Sempre cresci a ir com o Afonso aos antiquários. E ia aos livros perceber o que tinha visto. Quis ser arqueóloga e antiquária.

 

De certo modo, as duas estão presentes no que agora faz, ainda que as buscas, as pesquisas sejam outras.

CP – É incrível olhar para trás e perceber que estava lá tudo! Eu queria ser arqueóloga e antiquária, mas tinha a certeza que ia acabar em arquitectura. Inventando umas distracções, digamos, mas era óbvio que a coisa ia acabar ali. E depois, afinal, não foi.

NP – Ela tem uma grande propensão para descobrir aquilo a que os economistas chamam nichos. Os chapéus eram um nicho. Eram uma coisa em decadência completa.

CP – Eu sabia que se aprendesse as técnicas de chapelaria com as duas últimas modistas de alta costura de Lisboa, ia ser a única pessoa em Lisboa a saber fazer chapéus. Trabalhei com a Dona Virgínia (da Laura Sobral de Sousa) e com a Maria José que fazia os chapéus do Ayer. 

 

Tinha a preocupação de ser autónoma?

NP – Foi viver com o Miguel, na casa que era minha.

CP – Fui muito sossegada, mas aos 16 deu-me uma rebeldia.

NP – Expliquei à mãe: “Deixa-a ficar aqui”. Onde é que eu estava?

CP – No Porto. Foi tudo combinado entre a minha mãe e o meu pai.

 

Porquê essa rebeldia? Era o desejo de quê?

CP – Fiquei com uma pressa muito grande viver. Lembro-me de olhar para o mundo e de pensar: mas que estranho. Isto tudo é tão pouco consequente, ao contrário dos livros.

 

Apaixonou-se aos 16? Pelo menos começou a namorar aos 16.

CP – Também.

NP – Era o Jorge, não era?

CP – Foi o Nuno, depois o Jorge.

 

Nuno…

CP – Também se chamava Nuno, é verdade [risos]. Mas a minha vida não foi nada facilitada. Fiquei a receber a pensão de alimentos que o meu pai dava à minha mãe e a minha mãe pagava-me o passe e os almoços do liceu. “Ai é, queres ser independente? Então vai lá experimentar”. O meu irmão Miguel obrigava-me a pagar a minha parte das despesas. Não tinha um tusto. O meu único luxo era comprar a Marie Claire francesa uma vez por mês.

NP – Depois foste para O Independente.

CP – Tinha acabado o liceu e queria ir para fora. Para Lovaina fazer História de Arte ou para St. Martins fazer chapéus.

 

O “não vou para a universidade” tinha sido um statement inconsequente?

CP – Eu não queria ir para a Universidade em Portugal. Foi uma atitude um bocadinho snobe… Entretanto aconteceu O Independente. Comecei a dar ideias e o meu irmão Paulo disse: “Faz tu”.

 

Como era a sua relação com o Paulo?

CP – Óptima. Passámos férias muito divertidas em Vila Viçosa, construíamos cidades inteiras! Talvez por termos um pai urbanista. Fazíamos prédios, ruas, praças, cinemas… Desenhávamos os edifícios em papel e colávamos sobre cartolina.

NP – O Paulo fazia jornais desde pequeno. Sempre desenhou muito. É muito minucioso a fazer e a pensar as coisas dele. Suponho que foi uma das razões por que se revelou um ministro eficaz. Nunca fez a tropa, foi Ministro da Defesa e deu-se bem com os generais e os coronéis. Consideraram-no sempre. Até pessoas que não concordavam com ele, e que eram meus amigos, diziam: “O teu filho é uma surpresa… Quem diria que ele conhece os dossiers dos militares e discute como se fosse um militar?”. Para mim não era surpresa porque eu já sabia que ele era um trabalhador incansável. Podia-se discordar das ideias dele, mas tinha-se admiração por ele. O Miguel também, mas o Miguel é mais disperso.

 

Porque é que saiu d’ O Independente?

CP – Como sempre li muito, escrever era muito fácil. Nunca pensei nisso como uma profissão. Queria uma coisa que me desafiasse mais. Era um sítio onde me sentia demasiado protegida. Tinha um irmão director, um namorado director gráfico, vários amigos. Estava demasiado amparada.

NP – Já vamos na terceira reviravolta da Catarina. Que ela toma por ela. Está sempre a pensar no passo seguinte. Não se acostuma.

CP – Foi sempre um problema na minha vida não tolerar a rotina. Mas isso tem a ver consigo…

 

Por ter aprendido a viver neste carrossel?

NP – Sempre fiz muitas coisas. De arquitecto propriamente dito, depois de investigação (que era uma coisa que não se fazia na arquitectura), depois voltei à escola onde me tinha formado; fiz concurso para entrar, porque, por razões políticas e outras, nunca entraria na escola. Estranhamente entrei. A PIDE não levantou problemas.

 CP – Lembro-me de a PIDE ir lá a casa. Lembro-me das botas, e de haver um grande nervosismo. A minha mãe disse que me ia levar à escola. Havia umas listas do Miguel e a minha mãe pegou nelas e meteu-as atrás do contador.

NP – Suponho que iam atrás de documentação do Miguel. Que era dirigente da UEC.

CP – Embora menor.

NP – Talvez também atrás de mim. “O senhor está aqui acusado de ter ido clandestinamente a Cuba”. “Não, tenho muita pena, mas não fui”. E dizia-me o pide: “Talvez seja melhor o senhor corrigir e não dizer que até tinha pena…”. [gargalhada] Este sinistro homem foi o que matou o [Humberto] Delgado. Chefe Tienza. Foi o executor. Era de Elvas. Foi escolhido por conhecer muito bem o território do lado de lá da fronteira. Foi a minha única experiência directa com a PIDE. O resto era no aeroporto, “dispa-se”, livros, tirar o rolo da máquina fotográfica, essas coisas.

CP – Onde é que íamos?

 

Na terceira revolução da Catarina.

NP – A Catarina muda não por uma questão de inconstância mas no momento certo em que pode mudar. “É disto que vou fazer a minha vida?” A Catarina não diz isso. “Agora vou fazer isto, e depois logo se vê”.

CP – Mas levei o jornalismo muito a sério.

NP – Ela fez coisas, para a idade dela… As entrevistas que ela fazia na Marie Claire… Por exemplo, ao Siza.

 

Mandava as entrevistas ao seu pai para ele ler e dizer se gostava?

CP – Não. Mas a entrevista ao Siza foi um bocadinho cunha do meu pai… Quer dizer, não foi cunha, mas quando liguei ao Siza, o Siza sabia que eu era filha do meu pai.

NP – A melhor entrevista que o Siza deu.  

 

Tinha o desejo de que o seu pai aprovasse as coisas que estava a fazer? No fundo, que a admirasse.

NP – Sempre tivemos uma grande admiração mútua – mas isso também com os irmãos. Segundo, uma confiança nas escolhas sucessivas que o outro ia fazendo – mesmo quando me cheira “isto vai dar gato”. Mas não faço disso um drama.

CP – Havia essa história de o meu pai nunca estar. Mas sempre que eu quisesse ligar, falar, estava sempre presente, disponível. E sempre me ouviu. Não criticou antes de ouvir.

NP – Raramente critiquei. Num caso ou noutro posso ter dito: “Cuidado”. Faço umas voltas…

CP – Nunca, nunca disse: “Que disparate imenso, isso é uma asneira”. Era de um modo muito subtil: “Mas tens a certeza?”. É aberto.

 

Há poucos anos, trabalhou num documentário sobre a obra do atelier de Teotónio Pereira. O que implicou trabalhar sobre a obra do seu pai.

CP – Soube que ia ser feita uma exposição no CCB e propus-me, com a Joana Cunha Ferreira, fazer os filmes dessa exposição. Trabalharam juntos durante anos.

NP – Dezassete.

CP – Tinha um enorme interesse por arquitectura.

 

Como se estivesse à procura do pai de outra maneira? Era outro olhar, outro ângulo.  

CP – Claro que houve isso. Mas eu já tinha tido um momento assim quando fiz um livro com a Helena Torres,“Olivais: História de um Bairro”.

NP – [As torres dos Olivais] foram os meus primeiros projectos com o Teotónio quando saí da escola.

 

Quando vai à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, prémio Valmor em 75, olha para ela como uma obra do seu pai ou como uma peça de arquitectura?

CP – Olho para aquilo como uma peça de um atelier. Mas há coisas que sei reconhecer de onde vêm… A utilização do mármore, por exemplo. O meu avô, uma das coisas que fez foi desenvolver a indústria do mármore em Vila Viçosa. Filmámos uma conversa entre o meu pai e o Teotónio e isso iluminou-me uma série de coisas na vida do meu pai e no meu entendimento da arquitectura.

 

Porque é que não era importante para si, e ainda muito novinha, ter a opinião do seu pai acerca do que fazia?

CP – Mas perguntava! O meu primeiro texto publicado foi…, como é que se chamava a revista, pai?, aquela de urbanismo que o pai tinha?

NP – Ah, era a Cadernos Municipais. 

CP – Escrevi uma redacção sobre uma cidade – não se lembra? E o pai achou muito gira! (tão querido, tão babadinho…) Eu tinha 12 ou 13 anos e ele publicou! Mas sempre tive um certo receio… Só não submeti mais vezes as coisas à aprovação porque tinha receio. O meu pai é um hiper-crítico.

NP – Quando foi o livro de Goa, li [a primeira versão]. Fiquei preocupado porque achei que estava um pouco desleixado.

CP – Desleixado? A utilização desse adjectivo é o quê? [risos]

NP – Já se passou há muitos anos. A tua mãe dizia o mesmo. Não era bem desleixado. Era a história, talvez…

 

Muda um trabalho quando o seu pai diz uma coisa destas?

CP – O meu pai apontou-me coisas, e eu não estava muito de acordo. Ouvi-o. Não quer dizer que tenha mudado. Hoje percebo melhor a crítica dele do que percebi na altura [em relação ao livro de Goa].

 

Discutiram muito a vida toda?

NP- Nós rimos.

CP – Temos opiniões muito diferentes uns dos outros.

 

Essa é a imagem que se tem da família Portas.

CP – Mas nós não discutimos! Há uma abertura de espírito muito grande. Estamos sempre prontos a aceitar que os outros tenham ideias diferentes, e essas ideias podem ser discutidas. Não quer dizer que discutamos uns com os outros. Antes de qualquer outra coisa, somos esta entidade-família.

NP – Como no Alentejo. A minha família, o meu pai, os meus irmãos, sempre funcionámos como um clã que se auto-protegia. Apesar das diferenças. O meu pai era dirigente da União Nacional. Era um salazarista convicto. Nunca ganhou nada na vida com isso. Era mais uma das dedicações que tinha à causa pública. O meu irmão esteve quase um mês em Caxias e ele não meteu cunhas para o libertar. E um dia, já tarde, disse-nos: “Vocês tinham razão numa coisa e é a única crítica que faço ao Salazar. Não ter deixado discutir a questão colonial”.

 

Significa que esta diversidade…, e esta trapalhada – vamos dizer assim – já vem de trás?

CP – [risos] Já, já.

NP- Pelo menos na minha família. Depois há a família da Margarida, os Sousa Lobo. O tio dela foi o chefe de gabinete do Vasco Gonçalves. Nunca foi PC na vida. Simplesmente era muito eficiente e o Vasco Gonçalves era acima de tudo em engenheiro militar. Antes de o MFA ser de tipos muito à esquerda e especialmente do PC, a maioria eram engenheiros militares. Isso explica muita coisa…

 

Lembra-se de ouvir estas histórias deste sempre? Ficava, como agora, a ouvir atentamente e a aprender?

CP – Divirto-me muito, porque o meu pai conta histórias extraordinariamente.

NP – Encaixo muitas histórias umas nas outras e a dada altura já não sei onde estou.

 

Não teve a sensação de estarem todos ocupados com a política, com as grandes questões, e não lhe darem atenção a si ou aos seus assuntos?

CP – Não. Nas viagens para Vila Viçosa – que eram um clássico das nossas vidas – aquilo era: o meu pai ao volante, o Miguel, o Paulo e eu. E eles não se calavam!, a discutir política, nhonhonho, e eu ouvia. Eu tinha menos actividade política do que eles, para não dizer nenhuma. Aliás, acho que fiquei vacinada.

 

Para o Miguel e o Paulo, era uma maneira de se digladiarem?

CP – Sim. Mesmo agora, quando estamos juntos, estamos sempre a falar uns em cima dos outros.

 

Tinha vontade de participar? Era uma maneira de se fazer ouvir.

CP – Nunca acreditei muito na política. Não da forma em que os meus irmãos acreditam. Acho que as pessoas devem ter uma atitude política, mas a actividade partidária nunca me seduziu. Quando cheguei aos 20 anos, o Cavaco estava no poder. Nada daquilo me parecia interessante.

 

Nesse campo e noutros, não sentiu a pressão do apelido? Não sentiu que tinha de honrar o apelido Portas? Era um exemplo de excelência.

CP – Nunca dessa forma – honrar o apelido Portas. Os meus irmãos ainda não tinham entrado na vida pública. Mas sim, havia o exemplo do meu avô, do meu pai. Não tenho um especial respeito pelo dinheiro. Isso vem do meu pai.

NP – Sempre vivemos com o justo.

CP – Obviamente precisava de dinheiro para viver, mas nunca tomei decisões na minha vida em função de: vou ganhar muito dinheiro.

NP – Acontece assim: quando ganhamos mais dinheiro ficamos tão admirados que procuramos gastá-lo depressa!, [risos] em coisas que há muito tempo sonhamos fazer. Seja na política, seja na cultura há um elo comum nisto tudo: um certo sentido de militância, às vezes até excessivo. As pessoas podem não entender. “São chatos, estão sempre com estas coisas”.

CP – Ele é muito inquieto e irrequieto. Herdámos todos do meu pai esta enorme curiosidade sobre o mundo, e a vontade de o pensar e comunicar isso. De alguma forma, essa é a nossa matriz.

 

Reconhece-se nisto?

NP – Eu nunca estive ligado a uma ideologia política dura, como o Miguel se ligou ao PC, ou o Paulo na fase em que andou a estudar todos os teóricos do pensamento liberal. Tirando a militância católica, que era mais ética do que de ideológica política, em vez de ter crescido em dogmatismo, fui perdendo o dogmatismo. Fui ganhando um sentido relativista. Nesta altura não tenho nenhum absoluto do ponto de vista político e social. Tenho aquilo a que o Giddens chamaria um pensamento reflexivo. Estou sempre a fazer o feed back, a voltar atrás. Não tenho dogmas. Nem do ponto de vista social, nem estético, nem urbanístico. O que faz com que as pessoas desconfiem, pelo facto de eu ter muitas dúvidas. Não é por ter muitas dúvidas: é por assumir a incerteza. Como lidar com a incerteza?, é a minha preocupação teórica em matéria de urbanismo de há dez, quinze anos para cá.

 

Na prática é: como viver na instabilidade?

NP – No fundo é. A instabilidade é uma condição.

CP – Sempre foi, nas nossas vidas.

NP – É uma condição e não um azar, um falhanço. São escolhas que se vão fazendo. Significa também que hoje a sociedade é mais individualista do que colectivista. Que os modos de vida são mais diversificadas, e eu aceito isso. Isto é uma vida de uma instabilidade consentida, mental, física, monetária. Ao fim de 50 anos, vivo da reforma. Os meus colegas enriqueceram. Eu nunca enriqueci. Mas não me queixo. Eles [os filhos] é que podem ter perdido com isso, porque agora podia dar-lhes dinheiro e não tenho. Mas também se habituaram a viver sozinhos e por conta deles. É raríssimo pedirem-me dinheiro. Num caso ou noutro, numa aflição, já se sabe que se pode contar com isso e que eu arranjo mais facilmente do que eles. 

 

Foi assim com o seu pai?

NP – Para o bem e para o mal, é igual ao que era com o meu pai. Eles não se têm dado mal com isto. Não me criticam por isto.

 

Porque é que nunca teve sentimentos de culpa? Olhando para este quadro seria fácil pensar que teria sentimentos de culpa.

NP – Como o resultado não foi um desastre… [riso]

 

Mas quando eles eram pequenos não sabia qual seria o resultado. E disse no começo da entrevista que não sentia culpa.

NP – Pois não, não sabia. Pisei o risco. E aí, foi uma sorte a Catarina ter tido a mãe que teve, ou o Paulo ter tido a mãe que teve.

CP – Ele era mais inseguro.

NP – Já o Miguel teve de se aguentar mais sozinho porque viveu comigo. Mas ganhou logo o conforto de um partido que era uma espécie de super-mãe! Uma super-mãe dura.

 

Não teve uma grande dúvida sobre se seria um bom pai?

CP – O meu pai tornou-se muito mais atencioso à medida que foi envelhecendo. Começou a ligar mais frequentemente, a ficar mais preocupado.

NP – Quando decidi ir viver com a mãe da Catarina, estava a auto-excluir-me da Igreja. Para um católico de toda a vida, de colégio de jesuítas, foi um acto muito difícil. Seguramente, aí tremi nas decisões. Foi inseguro, fui imaturo. Tive muita sorte, encontrei pessoas que me ajudaram e sem as quais não teria podido fazer o que fiz. Nem sair das fronteiras, nem ter feito as obras que fiz como arquitecto e investigador, e o que fiz como professor (que é o que valorizo mais). Mudei tanto de vida, de job, e com risco, como a Catarina.

 

Onde se reconhecesse nela é sobretudo nessa procura?

NP- A Catarina já é o começo da geração que faz auto-educação, que deve menos aos pais do que aquilo que lhes parece.

 

Em que é que se sente que é absolutamente filha do seu pai – que a marca está lá?

NP – É melhor eu ir-me embora… [levanta-se e vai embora]

CP – Em termos físicos, tenho as sardas do meu pai (temos todos). E as olheiras. As minhas decisões são sempre viradas para: “Em que é que me posso enriquecer intelectualmente com isto? O que é que posso aprender? Em que é que isto é excitante?”. Isto tem imenso a ver com a cabeça do meu pai. Ele adora pensar. Assistimos à última aula dele e foi incrível. Para ele, falar de arquitectura nos anos 50 é falar do Rossellini, como é falar do jazz… consegue entrançar isso tudo. A música e o cinema também vieram dele. Foi o meu pai que me fez ouvir o “The River” do Bruce Springsteen, no walkman dele.    

 

E as vossas zonas de tensão?

CP – Não tive os conflitos com o meu pai que tive com a minha mãe. Com a minha mãe eu estava todos os dias. Quando as pessoas crescem, para perceberem quem são, têm de se opor a alguém. Como não estamos tantas vezes juntos quanto gostaríamos, queremos tanto gozar os momentos em que estamos juntos, que passamos por cima de alguma coisa mais susceptível. Acho que se passa o mesmo com os meus irmãos.

 

Têm uma relação íntima?

CP – Falamos mais de ideias do que das nossas intimidades. Tanto eu como o meu pai e os meus irmãos. É verdade que às vezes até falamos com algum pudor. Estar menos tempo com uma pessoa não quer dizer que a relação é menos rica – pelo contrário.

 

[Nuno chega]

 

Estava a perguntar à Catarina se têm uma relação íntima?

CP – Agora vou eu! [e sai]

NP – Não tanto. Nem com os irmãos. Não é um problema de ser rapariga. Pode ser acanhamento. Há coisas que não se perguntam. Há muitas coisas da vida da Catarina acerca das quais não tenho a mais pequena ideia. Nem quero saber. Não ando preocupado com isso. Se for importante e se quiser contar, ela conta. E eles também não me fazem perguntas sobre a minha vida íntima.

 

[Catarina volta]

 

Falam muito?

CP – Sim. Sempre que o telefone toca à uma da manhã eu sei que é ele. Por causa da distância, falamos muito ao telefone.

NP – “Viste o que disse o Paulo hoje?” – coisas deste género.

CP – O meu pai está sempre em trânsito. Não sei como ele aguenta! Eu não aguentaria. Apanha para aí três aviões por semana.

NP – O Miguel também se mexe muito. O pior é o Paulo. Mas é tudo cá dentro, de feira em feira! – como lhe chama a malta!

 

 

Publicada originalmente na Revista Pública, em Março de 2009

 

 

 

 

   

 

 

 

 

Em destaque

Entradas recentes