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Beatriz Batarda

Ela insiste que não pensou alguma vez que pudesse ser actriz. Até perceber que já era. No teatro da Cornucópia, no cinema de Manoel de Oliveira. Tinha resvalado dos vinte anos há pouco, era vagamente conhecida no meio. No Conservatório de Lisboa não seria suficiente anónima para falhar todas as vezes necessárias. Cortou com a vida de menina de boas famílias (sim, é filha do pintor Eduardo Batarda), e instalou-se em Londres, em 97 para estudar representação. É uma nómada.

Betariz Batarda tem 29 anos. É uma actriz fabulosa. Brevemente vai surgir nos ecrãs portugueses como Ana, uma flor perturbada no novo filme de José Álvaro de Morais. Filmado entre Manteigas e a Dinamarca, «Quaresma» foi apresentado no último Festival de Cannes. Os elogios a Beatriz foram consensuais.

 

 

Formou-se na prestigiada Guildhall School of Music and Drama, onde se distinguiu como a melhor aluna do curso. Ter conquistado a medalha de ouro numa escola de onde sairam nomes como o Ewan McGregor ou os irmãos Fiennes inflacionou as suas perspectivas de carreira?

O que aconteceu, e que nunca pensei que acontecesse, foi despertar o interesse de agentes. Não me agradava a ideia de ficar em Inglaterra a fazer papéis completamente secundários ou irrelevantes, sempre de estrangeira. Um americano não toparia, você não toparia, mas um inglês topa que não sou inglesa. Tenho a sorte de poder fazer várias nacionalidades, o meu sotaque não é definível. Isso permite-me fazer de francesa, espanhola, brasileira, italiana, russa, sérvia, portuguesa… Percebi uma coisa: os papéis que me interessam, vou fazê-los em Portugal. Porque é difícil representar noutra língua.

 

Fale-me dessa barreira.

A palavra mãe e a palavra mother. É diferente dizer uma e outra. Trata-se de ressonância, de não haver emoção, de não haver passado nas palavras.

 

Mudou-se para Londres há 6 anos. Não começa a ter um depósito de emoções para as palavras inglesas?

Absolutamente. Saí de Portugal com 23 anos, com muitos preconceitos em relação a certas palavras, como por exemplo «amo-te». Quando se tem 15 anos, «amo-te» não é uma coisa que se diga ao namorado. Diz-se «gosto muito de ti», «adoro-te». «I love you» tem um duplo sentido, é mais abrangente, é gostar muito daquela pessoa, e é o amor intenso também. «Amo-te» é mais específico e determinante. Em todo o caso já fiz as pazes com a palavra «amo-te»...

 

A ressonância emocional resulta de uma vivência da língua. As suas emoções ligadas ao inglês estão sobretudo ligadas à escola. Funcionaram como uma família?

Sim, com todas as tensões que as famílias também têm. Guerras de poder, rivalidades, paixões. As figuras-mãe, as figuras-pai, tudo isso. A maioria dos alunos (éramos vinte) estavam a viver fora de casa pela primeira vez, no primeiro ano ficámos todos na Residencial de Estudantes. É como os escuteiros ou a tropa: cria-se uma ligação inquebrável. Partilhámos dor, partilhámos alegrias. Ninguém da minha família partilhou aquilo comigo, homem nenhum com quem eu viva sabe o que foi aquilo. Foi um marco muito grande na vida de qualquer uma daquelas pessoas.

 

Porque é que foi estudar teatro?

Sou muitas vezes tida como uma pessoa desequilibrada, de flutuações. Fui muito inconstante. Nunca sabia o que queria, o que não queria. Tinha uma dificuldade horrorosa em tomar decisões. Fazia as coisas até à última, furiosa, dramática, de ficar destruída, de rastos. O meu avô materno preocupava-se muito com esta minha forma de estar, e eu dizia-lhe: «As pessoas não se medem pela quantidade de vezes que caem, mas pela rapidez com que se levantam».

 

O que é que a faz reerguer-se?

Sou uma mulher orgulhosa, infelizmente. O que me provoca é o orgulho. O que me fez estudar teatro? Quando tinha 20 anos e me estreei fiquei muito picada com o comentário de um crítico que me descreveu como de uma inépcia total, dizia que não me ouviam a partir da 3ª fila... E tinha toda a razão. Como sou uma menina mimada, filha única, reagi assim: «Ai é? Vou provar, vou fazer!». Reajo quando as pessoas não gostam de mim, quando acham que não estive bem.

 

Mas esse ímpeto furioso pode levá-la onde? Dê-me uma história exemplificativa.

No fim do curso há um último exercício na Noite dos Agentes. Vêm só agentes e directores de elenco (casting directors), que trabalham com encenadores. São peças de 2 minutos, e naqueles 2 minutos é preciso agarrar o agente, é a safa. É o actor que escolhe a peça, a personagem que quer fazer, a imagem com que quer aparecer. Fiz um monólogo, «Alice in Wonderlessland», de um contemporâneo do Pirandello. Era a história de uma jovem casada, com uma vida muito certinha, que começa a ter uma espécie de diálogo interno acerca do que seria libertar-se.

 

Que empatia estabeleceu consigo esse texto? O que a fez escolhê-lo?

Eu era uma pessoa com uma vida organizada, que contrariou a maré. Não só o facto de ter uma família burguesa, instalada, mas também o ter uma carreira que estava a crescer em Portugal e que interrompi e contrariei. No final do espectáculo, cantávamos todos uma canção. Eu cortei o cabelo. Comprei um fato de homem, que mandei apertar às costureiras do teatro, e uns grandes saltos altos. Entrava em cena, trau, trau, trau, o cabelo muito curto, todo espetado com cera. Não me sentia masculina, sentia-me muito feminina e poderosa. «Ai é? Então tomem-me lá!». É pegar o touro pelos cornos, é não ter medo. Quer dizer, eu estava borrada de medo, do desconhecido, do que aquilo era, do que aquilo poderia dar!

 

Que faces o medo pode assumir?

O abismo. O não haver retorno. É difícil para mim tomar decisões porque tenho muito medo de não poder voltar atrás. Aquilo podia ser um sucesso do caraças, ou podia destruir completamente a minha auto-confiança.

 

O risco tem o tamanho do medo? Perante o medo arrisca tudo.

Exactamente. Tenho tendência para, quando confrontada com o medo, fazer a escolha mais arriscada. Em vez de jogar pelo seguro. Quando estou bem, quando estou estável, jogo pelo seguro.

 

Se o actor não for, ele mesmo, uma pessoa sólida não incorre no risco de ficar desestruturado com as invasões permanentes dos vários personagens que interpreta?

Ainda não descobri como é que isso funciona. É muito giro os actores dizerem: «Eu fico a personagem». Ficam a ser assim umas pessoas especiais que mudam de personalidade. Mas se fosse mesmo assim, tinham de estar internados, porque isso é uma espécie de acting out que pode degenerar em esquizofrenia.

 

Fala dessas coisas com a sua mãe, que é psicóloga?

Falo, falo. Dantes falava muito. Quando tinha muitas perguntas. Depois aprendi a procurar eu. Uma grande percentagem dos actores têm borderline personality. Um deles é o Daniel Day-Lewis, que é um dos meus preferidos, e que já foi internado várias vezes. Ele é fabuloso porque é maluco. Patológico. Antes do «Gangs of New York», esteve valentes anos sem representar.

 

Contava-se que estava como sapateiro na Toscânia.

Cerâmica, olaria, carpintaria, uma coisa dessas. É um desses casos em que os actores ficam possuídos. Como num diálogo de Platão. Sócrates tenta provar a Íon, (um actor vaidoso que se dizia muito especial), que o poder não é dele, que o poder é das musas inspiradoras.

 

Como é que compõe uma personagem? É possuída pelas musas?

Sou duplamente vaidosa. A vaidade dir-me-ia: «Não, sou eu que crio tudo». Mas a dupla vaidade, que é o self conscious sobre isso, diz-me: «Não posso ser vaidosa, tenho de parecer boa pessoa e dizer que são as musas». Recolhe de ambas. Eu não sou uma actriz nata. Não acredito que tenha nascido para ser actriz. Fiz-me e estou a fazer-me. Limito cada vez mais a possibilidade de sair desta profissão. Invisto cada vez mais. Até não ser capaz de fazer mais nada. E depois não há retorno.

 

Insisto na composição da personagem.

Quando estudo um texto tentar abstrair-me da personagem e perceber a história. O segundo passo é perceber qual é a função da personagem naquela história. Porque é que ela existe? O que é que ela vai fazer? As personagens que tenho tendência a fazer (são também as que gosto de fazer) são as perturbadoras. A existência delas é muito palpável: mudam, provocam, transformam.

 

São um agente provocador.

Sim. É importante retirar informação escrita no texto sobre a personagem. O que é que ela diz de si própria? O que é que diz dos outros? O que é que os outros dizem dela? Quando é bem escrito, isto define uma personalidade. Depois começa a dar-me gozo pensar na fisicalidade daquela pessoa. Que tipo de tensões tem? Para isso preciso de saber de que tem medo, o que anseia. É descontraída ou desistente? Passiva ou activa? Agressiva ou tímida? Essas coisas estão na fisicalidade das pessoas.

 

Gosta de imaginar a fisicalidade. Mas em si mesma há uma recusa mais ou menos evidente da feminilidade.

Pois. Não sei responder. Irrita-me a mulher-objecto. Cresci num contexto em que o que é valorizado é o espírito. Mas depois sou incrivelmente vaidosa e sofro horrores se engordo ou emagreço! Estou sempre consciente da minha forma, mas é completamente disfarçado. A profissão exige o corpo perfeito, a beleza perfeita; «Ai é? Então vou contrariar». A energia de reacção é adolescente, é essa. É uma defesa também... Não fui uma criança bonita, não fui uma adolescente bonita. Sou uma mulher muito normal.

 

Quando se vê nos filmes acha-se bonita?

Não.

 

É uma sensação de irreconhecimento?

Às vezes é. A Ana [personagem que interpreta em «Quaresma»]... Falo na Ana como se a Ana existisse de facto. Foi a única personagem em que isso aconteceu. A maneira como foi filmada é tão poética, é tão profundamente frágil... Comoveu-me. E aí pensei: «Que bonito, que olhar...». Mas isso só depois de ver o filme 3 vezes! Antes, desvio a cara, abro a boca, estou a bater-me toda, aos murros.

 

Recentemente usou aparelho nos dentes. Foi uma contingência profissional?

Gostei de ter os dentes tortos nos últimos anos. Criou uma personagem simpática, que não é perfeita, que cultiva mais o lado da emoção. Os directores de fotografia passam a vida a resmungar, têm de fazer uma luz especial porque a menina parece que fica desdentada.

 

Em Inglaterra falaram-lhe disso?

Muito. E cá também. Quis endireitar os dentes. Muita gente à volta se fartou de dizer que era uma palermice, que eu tinha uma beleza comum e que era precisamente a minha dentadura desajeitada que me dava graça... A personagem do filme do João Canijo, («Noite Escura»), passou a ser a Carla Boca-de-Aço!; a história passa-se numa casa de alterne, portanto o nome tem uma série de conotações sexuais, de mutilação, etc. Mas depois não aguentei. Era um aparelho fixo em cima e em baixo, que me cortava a boca toda. Quando acabou o filme, tirei-o. Isso e as extensões no cabelo, para me descartar da personagem.

 

Fez parte do elenco fixo da «Família Forsyte», que passou durante meses na televisão inglesa. Foi suficiente para passar na rua e ser reconhecida?

Não. Mas isso nunca me acontece. No outro dia fui jantar com uns amigos de uns amigos; tinham visto o «Peixe Lua», «A Caixa», e não me reconheceram. Ninguém se lembra. A vaidade fica um bocadinho ofendida, verdade seja dita. Tanto trabalhinho para nada! Ninguém sabe quem eu sou! Tem uma belíssima vantagem, que é nunca ter o estatuto de estrela – que eu não quero absolutamente!

 

Nunca sonhou com isso?

Não. Sou filha de uma psicóloga, esquece-se! O que gosto na representação é a mudança, é a transformação, é viver na pele de outra pessoa, é pensar num ritmo diferente, é ter uma lógica de vida diferente da minha. O que me dá gozo é a psicologia da coisa. Por isso nunca me daria bem num cinema conceptual ou num teatro conceptual.

 

A produção de uma série como a «Família Forsyte» tem uma dimensão considerável. Trabalhou num esquema substancialmente diferente do que existe em Portugal.

Em Portugal e mesmo em Inglaterra. Aquilo foi uma experiência, uma espreitadela num mundo a que não pertenço. Posso fazer parte, posso entrar e sair, mas não sou daquele grupo.

 

Porquê?

Não tem a ver com aceitação. Tem a ver com a maneira de estar. É uma outra forma de encarar a vida. Joga-se muito alto. É um preço muito alto. E não tenho estaleca. Eu preciso de acalmar, de ir ali a casa da minha avó, de comer sardinhas na Trafaria...

 

Precisa de conviver de perto com a realidade portuguesa, é isso?

Vir a Portugal fazer filmes devolve-me a auto-confiança que eles me tiram. Sinto-me completamente em casa, domino a cultura, o ambiente, conheço as pessoas. Estou mais do que nunca nómada. A minha vida é indefinida, não é catalogável. As pessoas não percebem se vivo aqui, se vivo em Londres.

 

E então?

Eu vivo nos dois sítios. Não faz sentido esse tipo de raciocínio. Encenadores ou realizadores cá: «Ah, não a vamos convidar que ela está em Londres». Estou em Londres, estou a duas horas de Lisboa! Vou a Londres fazer uma audição se surge uma coisa interessante para fazer. Meto-me num avião e vou. Sai caro, mas é um investimento. É o que pago para não me sentir limitada. Não quero encontrar-me numa situação de ter de trabalhar para sobreviver. Ou seja, em que não tenha escolha.

 

Seria terrível para si fazer televisão em Portugal?

Fazer qualquer coisa porque não tenho escolha, seja televisão, teatro, o que for, é terrível. É uma coisa que já tive de fazer em Londres. Estranhamente, em Londres estou disposta a fazer. Porque tenho outras mais-valias. Tenho a possibilidade de crescer, de aprender, da abertura, do ambiente, da diversidade.

 

Porque é que fez o anúncio da Coca-Cola Light?

Tem-me criado inúmeros problemas esse anúncio, devo dizer. Fi-lo em Inglaterra, há dois anos. Lá não tenho rede de trapezista, estou por mim. A gente tem mesmo de pagar a conta... E é puxada. Estou saturada da desumanidade dos preços em Londres. Raramente faço audições para anúncios. Fico sempre com a auto-estima muito por baixo... As pessoas que estão sentadas para fazer os anúncios são modelos, lindas de morrer, com uns olhos rasgados, 1,90m. Fiquei confiante quando soube que era para a Coca Cola. É uma história contada em 30 segundos, bem filmada e bem iluminada.

 

Os problemas de que fala traduzem o preconceito que há em relação à publicidade?

Em Portugal tenho tido o luxo de defender um rótulo de actriz séria. Permite-me escolher aquilo em que acredito verdadeiramente. Fazer anúncios não compactua com o rótulo de actriz séria... A não ser que seja o Harvey Keitel a fazer um anúncio para o Barckleys. Estas são as regras do jogo. Ou se pertence ao grupo das novelas ou ao grupo do teatro, ou ao grupo do cinema; mas a que grupo do cinema? Faço filmes com o Manoel de Oliveira e o Zé Álvaro de Morais ou faço filmes com o Luís Filipe Rocha e o Joaquim Leitão? Admiro-os a todos e não gosto dessa rotulação. Uma vez o Jorge Silva Melo disse que a melhor escola de actores era a televisão. Fazer uma novela seria uma experiência interessante, mas sei que não posso brincar.

 

Demoraria anos a recuperar a imagem?

Pois. É por isso que o anúncio provoca alguma reacção: estou a representar o papel da menina perfeita e depois, nas costas, faço igual aos outros...

 

 

Publicado originalmente na Revista Elle

 

 

 

 

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