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Jorge Silva Melo

“E os dias que não estive junto deles, a decifrar-lhes a letra miudinha, como os recuperar? Porque gostava de ser lembrado como alguém que, como os gatos, se passeou, um «flâneur». E gostava de escrever com a independência do Garret das «Viagens», também «flâneur», apenas porque me faltou a rosa da juventude”.

Jorge Silva Melo escreveu-se assim, frente ao espelho dos dias de 98. Uma biografia sumária perfumada pelo hálito da sua flor. Carnívora, passeante. Na infinita tentação do desejo. Na desmesurada vertigem da partida; ou seja, da dissolução. Perdeu-se amando. Como aprendeu com Camilo, que tanto ama. Como ama Pavese, Minelli, Brecht, Sara Montiel. O de fragrância mais intensa, não forçosamente pura, forçosamente impura, conspurcada de vida, do traço da quotidianeidade. 

Numa manhã de Junho, ele acordou pelas cinco e meia ou seis. O de sempre. Foi ver as pessoas à rua, assistir ao acordar das hordas inflamadas de patriotismo. O de sempre – quero dizer, o interesse pelas pessoas. As que dizem «Ou vai chover, ou então não sei», e as que festejam a glória e a felicidade da pertença.

Eu cheguei cedo, sem que fosse tão cedo. Sentámo-nos no recanto da sala onde, em menino, se instalava a pista de comboio. Esta é a casa da sua infância.

Experimentou outras casas, outras vidas. A pergunta é sempre: «Quantas vidas leva uma vida?». E no caso dele, há ainda vidas extra. As do teatro, vivenciadas ao correr do texto e da emoção – talvez não seja substancial, a diferença, em relação às vidas verdadeiras.

Jorge Silva Melo, 56 anos. Como apresentá-lo numa linha? Dizer que é encenador, que é realizador, que fundou a Cornucópia, que habita os Artistas Unidos? Que é um estrangeirado amante das artes? Um tutor? Um aglutinador? Um passeante? Coitado do Jorge, que ergue o corpo, espartilhado pelo fascismo, para acalmar a fúria da portada. Coitado do Jorge, que não soube nunca dançar. Coitado do Jorge, que espera ser abraçado e não consente que lhe expressem ternura. 

Numa das próximas páginas, diz-se que a conjugalidade com ele seria impossível. Mas é certo que os nossos dias não seriam os mesmos sem ele.

 

 

Usou como epígrafe no filme “Coitado do Jorge” um verso de Ruy Belo: “Triste é no Outono descobrir que era o Verão a única estação”. A ideia de nostalgia é essencial em si.

É uma daquelas hesitações que tenho sempre: porque é que vim parar a esta minha vida?, que escolhas fui fazendo?, não terei falhado as escolhas principais? Quando fundei a Cornucópia com o Luís Miguel [Cintra] e desisti de trabalhar no cinema, terei feito a escolha certa? Não teria sido o cinema o meu Verão, não teria sido a minha única estação? Quando saí da Cornucópia fiz bem, fiz mal? Essa vida que não vivi é a vida que me preocupa e o “Coitado do Jorge” era sobre esse assunto. Era sobre um homem de trinta e cinco anos, burguês, professor, casado, bem instalado, com uma bela moradia. De repente, há um miúdo que assalta a casa dele e ele fica perturbadíssimo.

 

O que é que mais perturba este professor?

A ideia de poder ser outro. Porque é que este rapaz faz isto, porque é que eu não podia ser ele? Essa ideia entusiasma-me também no teatro. Se calhar podia ter feito outro gesto, mas o gesto que fiz determinou-me. Acho que fiz escolhas certas. Mas, quando anoitece, (aquele quadro da Sofia Areal é sobre o anoitecer), às vezes penso: e se tivesse ficado em Paris, se tivesse arranjado trabalho com o Peter Stein?

 

O que é que, em última instância, define a escolha? Acossados até ao limite, o que é que nos faz decidir?

Não chego a perceber. Todos os filmes que fiz eram sobre o momento da escolha. É esse o momento que me interessa: aqueles 30 anos onde o resto da vida vai ficar definido. Tem a ver com um autor que muito amo, o Pascal, e sobre a hipótese de apostar. Eu aposto que vai ser assim. Aposto que existe Deus; se existir ganho, se não existir não perco.

 

Se não tiver a comprovação, não importa nada.

Não importa nada. Essa ideia da vida como uma aposta é muito importante. Como é que chego a ela? Não sei, vou chegando. Há determinantes e as escolhas são cada vez menos possíveis. Neste momento já não é possível voltar à Cornucópia, viver em Paris, viver em Berlim. A vida vai limitando as muitas hipóteses que tive a sorte de ter.

 

Mas essa obliteração de cenários, que é uma ideia muito heideggeriana, acarreta nostalgia ou até frustração?

É mais inquietação. Há uma frase no Rilke que a Glicínia [Quartin] cita muito: “Uma profissão é pouco para uma vida inteira”. Não esgota uma vida inteira. Tenho tentado viver assim. Este ano faço 56 anos e realmente não tive uma profissão. Fui jovem empresário quando fundei a Cornucópia, fui estagiário, fui bolseiro, escrevi uns artigos para os jornais, só no CCB é que tive um vago contrato de trabalho, durante quatro ou cinco anos.

 

Profissão itinerante.

Dessa ideia gosto, de ser vagabundo nestas coisas, não me fixar, não me determinar. Ver ao espelho, não uma determinação, mas uma série de possibilidades. Gostava que fosse assim.

 

Mas é muito «flâneur», naquele sentido baudelairiano de estar sempre entre a multidão...

Adoro estar na multidão.

 

... e de encontrar, apesar de tudo, a sua singularidade e um espaço para a dobra que lhe permite ver, retratar, situar a multidão. Não está nunca imerso e essa é também a dor.

Sim. Esse é o problema, não poder estar imerso. Lembro-me perfeitamente do primeiro 1º de Maio de 74: estava tão contente no meio daquela multidão, mas as cantigas que estavam a ser cantadas eram horríveis! Só pensava por que é que não se cantava a “Ode à Alegria” do Beethoven. Esse lado de não pertença é uma coisa que me marca.

 

Mas essa não pertença é essencialmente estética?

É muito estética e, pela estética, moral. Mas, olhando para o meu nariz, se calhar tem a ver com as heranças hebraicas de tudo isto, com este lado de incerteza.

 

A marca da genealogia?

Isso com certeza. Há uma incerteza e uma espécie de dúvida permanente. A cultura portuguesa é tão estranha, os nossos fundamentos, entre árabes e judeus, a mistura de tudo isto... A minha mãe tem origens no Algarve, o meu pai no Minho.

 

É capaz de me apresentar esta casa, a sua vida a partir destes corredores?

Os meus pais tinham estado em Angola, Silva Porto. A minha irmã é 12 anos mais velha que eu, entrou para a faculdade e vieram para aquilo a que se chamava metrópole. Nessa altura eu tinha cinco. Conheci os colegas de faculdade da minha irmã, que vinham aqui para casa estudar ou com quem ela ia ao cinema: o Pedro Tamen, o João Bénard da Costa, a Buchholz e todo esse ciclo cultural; o Manel de Brito, que era livreiro ali na Escola Politécnica, onde a minha irmã comprava os cadernos. O meu pai era funcionário dos correios, depois montou um negócio. A minha mãe era professora primária. Não eram católicos, embora eu tenha ido para os Maristas, aqui em frente, porque era uma boa escola. Como morávamos mesmo em frente do colégio, acabou por ser uma casa de convívio de todos os meus colegas. Brincávamos aqui, neste quarto, com um comboio eléctrico que ainda tenho ali guardado. Mas este prédio era engraçado! Aqui em cima morava o Senhor Muznick, pai da Esther Muznick.

 

Judeu.

Chefe da comunidade israelita. Mais em cima morava a família San Payo de Lemos, de onde vem a Vera. Vivia ali ao fundo a família do Arons de Carvalho. Havia também uma senhora belga, Francine Benoir, amiga do Lopes Graça, professora de piano; a Maria João Pires, o Emmanuel Nunes andavam por aqui a estudar. E o Almada [Negreiros] vivia um bocadinho abaixo. Havia o Liceu Francês, frequentado pela grande burguesia, mas também pelos filhos dos intelectuais que não queriam uma educação salazarista. É um bairro como uma certa tradição de modernidade.

 

É uma genealogia geográfica, que influencia, também.

Havia esta atmosfera um bocadinho cosmopolita. Depois havia dois colégios religiosos muito importantes, as Doroteias e os Maristas. E as madames. Aqui em cima, no terceiro andar, vivia uma senhora francesa, que dava aulas na Alliance Française.

 

Aprendeu a ler com a sua mãe?

Aprendi com ela e sozinho. Cheguei à escola a saber ler e o primeiro livro que li foi «Os Lusíadas», a edição de estudo da mesma, que era da minha irmã. Tinha quatro, cinco anos. A minha irmã estudava Germânicas, pertencia a movimentos de libertação colonial, aos Agostinhos Netos e Amílcares Cabral. Tudo o que ela fazia me interessava. Muito cedo fiquei a ver os livros sobre os campos de concentração que chegavam cá a casa. Queria imenso saber o que eram aqueles livros que eu não conseguia ler, os livros em alemão. Portanto, muito novinho, sabia o que eram os concertos onde a minha irmã ia, o Cineclube Católico... Nos Maristas, fui colega de alguns jovens, o principal foi o Zé Ribeiro da Fonte, que me levou para o São Carlos, tinha para aí oito anos, nove anos.

 

Tudo isso são referências culturais. Na relação com a sua irmã, onde é que cabem os afectos? Isso de que fala é qualquer coisa que consigo encontrar nos textos que escolhe, nos textos que escreve, e que até vão ao encontro da vida de todos os dias. Mas existe um pudor em falar de um modo mais explícito ou do sexo ou dos afectos.

Sim.

 

É evidente a relação de admiração pela sua irmã. Contudo, admirar é uma coisa, amar é outra.

A minha irmã, sendo de Germânicas, era alemã de espírito. O afecto era uma coisa que não existia em minha casa. Era disciplina, rigor, autoridade. Afecto havia com a minha mãe, que era muito calorosa. Só que eu estava numa posição extraordinária! Podia jogar com o poder das duas mães, ora estava zangado com uma, ora estava bem com a outra.

 

Elas disputavam a sua atenção e o seu afecto?

Isso com certeza. O meu pai era muito presente, regular, rigoroso e foi importante no amor aos livros. Tinha poucos estudos, era muitíssimo inteligente, de uma geração republicana que leu todo o Victor Hugo, o Zola, os grandes romances humanistas e que tinha uma biblioteca que comprava a muito custo, boa, sólida. E falava com entusiasmo do empenho do escritor em transformar a vida. Lembro-me, com muito afecto, de ele me falar de livros e de cinema. Nas horas vagas de Lisboa, quando era novo, tocou piano a acompanhar cinema mudo para ganhar uns tostões. Falava da sua actriz preferida, a Barbara Stanwick.

 

É, em si, uma cena muito cinematográfica: o seu pai a acompanhar filmes mudos ao piano. Ocorre-me um dos filmes mudos mais belos de todos os tempos, «Sunrise», de Murnau. Como é que um filme, como este, pode ser tão explicitamente emocional sem ser piegas? Para as pessoas que têm pudor em abordar os afectos deve ser a grande questão: como fazê-lo?

Os afectos não são piegas. Adoro chorar no cinema, no teatro não consigo; só de raiva, quando é muito mau. Adoro o “Esplendor na Relva”. Nunca consegui ver o final, vejo uma espécie de nevoeiro à minha frente. É sobre o mesmo assunto do Ruy Belo, aqueles dois perceberam que o Verão tinha sido a única estação e que a perderam. Gosto mais de analisar do que empolgar.

 

Porquê?

Tenho muito medo de empolgar e gosto de ver como é que as pessoas se aproximam, se afastam, se encontram, de um certo ponto de vista, que Nietzsche dizia que era “a meia encosta”. A meia encosta é que é ponto de observação certo, nem alto demais porque é longe, nem perto demais porque se está misturado na turbulência. Lucrécio também fala do ponto certo para se ver o barco na tempestade. Se estamos no barco e na tempestade não vemos nada, se estamos na costa, muito refastelados, vemos o acontecimento. É isso também o teatro. Gosto de estar sentado num sítio e ver, à minha frente, digladiarem-se forças opostas, que não se vêm meter comigo. Tenho algum receio quando os actores se vêm meter comigo. Daí uma certa frieza. Embora, pense que é uma frieza muito cálida, que deixa um espaço para a ternura.

 

Quando é que conseguiu abandonar a posição do voyeur e diluir-se?

Nunca consegui. Nunca consegui dançar. Nunca consegui embebedar-me sequer, por muito álcool que beba. Existe um controlo racional que me deixa muito pouco entregar-me.

 

E a dança?

Não saber dançar é a mesma coisa; ou seja, não permitir que o ritmo venha de outro. Sou eu que imponho o ritmo, não admito que seja a dança ou a música a dizer qual é o ritmo.

 

Há uma cena de dança no «Agosto», filmada no Portinho da Arrábida, também num Verão, num cenário que convoca uma perdição. O que é que pediu às pessoas que dançavam?

Eu adoro ver dançar. Foi dos dias mais felizes de filmagem que tive. Adoro filmar bailes. É muito imponderável o que pode existir no baile: fogem-nos do enquadramento... A dança é um jogo sexual muito nítido, mas também muito social, contido, condicionado perante as aparências.

 

Se fosse capaz de dançar, dançaria com quem?

Dançava com toda a gente. Devia ser a coisa que mais gostava de fazer.

 

No que estou a pensar é no amor, evidentemente. Na força do amor, que pode ser redentora e que permite o afogamento.

Acho que nunca me aconteceu e que nunca pensei muito nisso. Pensei sempre em relações de trabalho e em relações de cumplicidade. Porque a minha família é de professores, pensei sempre no ensino. Por ter sido um estrangeirado desde sempre, por ter tido esta educação entre o germanófilo e o francês, senti sempre muita culpa. Quando vou a um café em Lisboa e o empregado me trata mal, sinto-me culpado. A culpa é minha, fui eu que não o eduquei suficientemente bem. Se é um francês que me trata mal, não sinto culpa nenhuma. Lisboa é o sítio da minha culpa. Onde os passeios estão sujos, do cocó dos cães, sinto-me sempre culpado.

 

Não militou civicamente o necessário?

Exactamente. Esse é o meu sentido de pátria. A minha pátria é a minha culpa. O O’Neill diz isso: “O remorso de Portugal é o remorso de todos nós”. Há na cultura portuguesa uma vocação didáctica permanente. Vem de todos os estrangeirados que vão lá fora e depois dizem como é que há-de ser: escrever versos, fazer teatro, fazer cinema, portar à mesa. Isto marcou-me sempre. Liguei a vida dos afectos com a vida do trabalho, e nela me resolvo, ou com a vida do ensino. Um dos momentos mais felizes da minha vida foi quando fui com o Manuel Mozos ou o Edgar Pêra, que foram os meus primeiros alunos da turma, a formações e passarem afectos entre nós os três. Este é para mim o sentido do amor. Tem a ver com não encontrar pessoas da minha idade com quem me dê e gostar de partilhar tudo o que sei.

 

Nunca se deu com os da sua idade?

Dei-me com os da minha idade, mas sempre fui professor. Devo ter sido muito chato. Comecei a escrever sobre cinema aos 15 anos, no Juvenil do Diário de Lisboa, e depois n’“O Tempo e o Modo”, aos 16. Os meus pais, a partir dos sete anos, perguntavam-me: “Qual é o filme que devemos ver este sábado à noite?”. E só se zangaram comigo uma vez, quando os mandei ver o «Quanto mais quente melhor”; não gostaram nada porque não gostavam de comédias, gostavam de filmes para chorar.

 

Não chegou nunca a ser uma criança convencional?

Ainda sou. Sou muito infantil em aspectos de não entrada num mundo adulto, na vida prática; sei mal ir a uma repartição de finanças, é muito confuso. Mas desde muito cedo pus-me a dizer como é que devia ser. Em Silva Porto, morava numa moradiazita e ao lado vivia o bispo. Eu dizia que queria ser bispo. Se calhar, era para mandar nos outros. Não queria ser padre nem sacristão. O senhor era muito simpático, cordial, mas a ideia de saber e poder dar ordens, entusiasmou-me.

 

Sendo que as duas estão ligadas. O conhecimento revela uma superioridade e pode confirmar uma ascendência sobre o outro.

Acho que foi isso que imaginei desde muito novinho. No Juvenil devo ter escrito um poema ou dois; acima de tudo, escrevia textos sobre cinema. Havia uma vocação didáctica e de intervenção no gosto. Era mais uma vocação ensaística do que a expressão dos meus sentimentos juvenis de amor ou não sei quê. Manias como outras quaisquer.

 

Sobre o que é que fala com a Glicínia?

Falamos de tudo.

 

Uma coisa são os afectos, resguardados pelas referências culturais, pela atitude prosélita. Mas, com uma amiga tão íntima, com quem fala todos os dias, fala de quê?

Fala-se de tudo. E com a Glicínia é um prazer, porque ela contraria sempre. Basta eu dizer: “Hoje está a chover”, e ela diz: “Não, estou a ver aqui nuvens a afastarem-se”. Uma das coisas que mais nos entusiasmam nos últimos tempos é aquilo de que está a falar. Eu tenho realmente um corpo salazarista, fui educado dentro do salazarismo. A minha sensualidade é espartana, muito austera. O republicanismo dos meus pais, o catolicismo dos Maristas também marcaram isso. Um dia estávamos a ensaiar, a Glicínia veio para o balcão e os rapazes estavam a fazer uma dança qualquer no palco. E ela diz-me: “Estes corpos não podiam existir quando eras novo”. Ou seja, a sensualidade viva, vital era uma coisa que não podia existir. E ela dizia muito assim: “Isto é que foi a grande conquista do 25 de Abril, estes corpos estão livres, não são corpos salazaristas”. E é verdade. O meu corpo não é um corpo livre. Nasci em 48, no apogeu do Estado Novo e da educação muitíssimo puritana. Nunca consegui ultrapassar esse puritanismo.

 

Com a culpa dos católicos?

Vivo com a culpa de, se calhar, ser esse o meu Verão. Se soubesse dançar, se soubesse cantar... Eu adorava ser como o Dean Martin e cantar canções italianas em americano!

 

Adorava ser o Dino, o estróina do «Kiss me, stupid» do Billy Wilder, que o Dean Martin interpreta!

Adorava. Provavelmente era esse o meu Verão. E olho para o mundo sempre com essa hipótese.


No fundo, o seu Verão era «E se eu fosse livre».

E se eu fosse livre. Se eu tivesse sido livre.

 

Quando é que teve a impressão de que já não tinha essa possibilidade?

Foi para aí aos 35 anos. Houve dois anos absolutamente atrozes na minha vida, passados aqui em casa. Tinha estado a trabalhar na Alemanha, depois fui para França, fiz cinco ou seis espectáculos em França. A certa altura não conseguia viver mais entre Lisboa, Paris, não ter casa, a idade a avançar... Eu queria estar num sítio e continuar alguma coisa. E vim para Lisboa. Estive dois anos e meio no mais completo desemprego. Nem um artigo para o jornal, ninguém me aceitava nada. Vivi do que os pais me tinham dado. Foi assim até 96.

 

Sentiu-se proscrito?

Senti que tinha chegado ao fim, que não tinha utilidade para nada. Estava aí sentado no sofá, via televisão, esperava pelo programa da Teresa Guilherme, às sete da tarde, adormecia depois do programa, esperava pelo dia seguinte.

 

Na depressão absoluta.

Na depressão... Mata.

 

Foi antes do «António, um rapaz de Lisboa».

Foi antes de fazer o «António». Foi o Manel Wiborg quem me ajudou imenso, com a sua juventude e vitalidade.

 

Como é que o encontrou?

Foi o João Pedro Rodrigues, que fez os castings para o filme “Coitado do Jorge”. Eu não queria estar nos castings, é uma situação de que não gosto; fico com imensa simpatia pela pessoa que lá está, escolho logo o primeiro que me aparece porque me encanta. Nesse dia ele veio excitadíssimo, “Encontrei um com nome estrangeiro que me parece muito engraçado”. Curiosamente, Wiborg, ascendência norueguesa, a família morava também aqui durante a minha infância. O Manel estava no Conservatório, a Joana [Bárcia] estava no Conservatório, encontrava-me com eles uma vez por semana, a inventar uma história que dava origem ao “António, um rapaz de Lisboa”. E senti-me tão obrigado a fazer isso...

 

A fazer exactamente o quê?

A fazer uma coisa para eles. E volta a necessidade didáctica. Senti-me tão responsável por estar a afundar-me numa depressão e não estar a fazer nada para que os melhores anos da vida do Manel e da Joana pudessem ser filmados ou trabalhados... Conseguimos que a Gulbenkian pagasse, (agora veja o meu valor), sete mil contos, para fazer o “António”, que era um espectáculo de 30 actores! Nessa altura, um espectáculo normal, de seis, sete actores, era orçamentado em 12 mil e 13 mil contos! Se não tivesse agarrado a ocasião e se o Manel, a Joana, a Lia [Gama] não tivessem estado comigo, estava completamente acabado. Foi daí que voltei a fazer e que consegui impor uma série de jovens actores e uma série de outros valores dentro da modernidade portuguesa. Fiquei muito contente.

 

Não soçobrou e arrancou-se à sua depressão bebendo da juventude deles.

Nisso sou um vampiro. Encontrava-os: “O que é que faço, que peça é que hei-de fazer?”, “Eu quero escrever uma história para ti”. Eram as conversas. Se não houvesse um outro a quem queria dedicar o meu trabalho, não tinha feito nada.

 

Era a consciência do “Eu já não vou a tempo, já não tenho aquela juventude”.

Era.

 

Se penso no Wiborg, na Joana Bárcia, no Miguel Borges a ideia que me ocorre é a de explosão. Eles podem estilhaçar-se e estão sempre na iminência de o fazer. São «borderline». No fundo, quis estilharçar-se também, com eles.

Sim, aprendi isso com o Brecht. O Brecht nunca fez nada sozinho na vida, nem sequer escreveu uma peça, que é uma coisa bastante íntima, que se costuma fazer à máquina, mas que ele fazia com as namoradas. O diálogo é tão estimulante que estar sozinho é uma perda de tempo. Perceber o que é a vontade de vida do Manel, da Joana, do Miguel, do Zé Airosa e conseguir dar-lhes matéria para prosseguirem a sua arte, encanta-me. Permitir-lhes a libertação e aconchegar-lhes espaços. Mas também é isso que me dá um enorme conforto.

 

Sabe que me parece que é a mãe deles todos, e não o pai. A sua atitude é a da mãe.

É possível. Herdo muito da minha mãe, que era divertida e que adorava ter a casa cheia de gente. E há uma coisa que, de certeza, herdei da minha mãe e que tem a ver com o teatro: ela adorava nos sábados em que não tinha nada que fazer responder aos anúncios de casas para alugar; e íamos passar o sábado todo, ela e eu, a ver as casas. Sem nenhuma intenção de alugar, só para ver como é que a nossa vida seria se a sala de jantar fosse ali, que mobília é que compraríamos.

 

Esse exercício é extraordinário!

Mas fiz imensas vezes, a certa altura já estava farto de fazer aquilo. Ao domingo, no passeio, com o meu pai, a minha irmã, era o assunto da conversa: “Encontrámos uma casa muito gira na João XXI, mas tem cortiça até ali, tínhamos que mudar o quarto...”. Foi tal e qual o que andei a fazer na Capital. [espaço no Bairro Alto, sede dos Artistas Unidos até ao despejo]. Era um prédio vazio, andei a pôr as mobílias, a decorar aquilo e foi um dos momentos felizes da minha vida. É isso que gosto no teatro e no cinema. Só filmei duas vezes em estúdio e detestei, porque está lá aquilo que quero. O que é engraçado é debater-me com o que não quero. Era isso que a minha mãe fazia, “Como é que seria o Verão se a minha vida tivesse sido nesta casa e não na Artilharia Um?”.

 

Nunca houve nesta casa os fantasmas da solidão?

Já, já. Sempre. Vivo quase sempre sozinho, mesmo desde pequenino. Filho de pais mais velhos do que seria normal, a minha mãe tinha quarenta e tal quando nasci. Sempre rodeado de miúdos, a minha mãe fomentava uma espécie de companhia e colonização permanentes. Mas sempre também não me ligando. O meu amigo mais antigo é o Miguel Lobo Antunes.

 

Essa dificuldade em ligar-se às pessoas, em diluir-se, radica nesse espaço de solidão? Em estar sempre com outros sem conseguir estar completamente com outros.

O que tenho procurado e não tenho conseguido encontrar é interlocutores com quem possa discutir. É muito fácil fazer rupturas comigo, é muito difícil haver antagonismo. Tenho encontrado maravilhosos colaboradores com quem tenho conseguido trabalhar, mas que se fartam porque estão apenas a obedecer. Ou que se sentem presos pela demasiada protecção que eu, mãe judia, lhes dou. Tenho encontrado muito poucos a quem digo: «Gostava que fosse assim», e com quem fico a discutir até às cinco da manhã que podia não ser assim.

 

Tirando a Glicínia.

Mas a Glicínia é um exercício de discussão sem responsabilidades, é a conversa diária da contradição. Agora, no trabalho, quer com o Luís Miguel, quando dirigimos a Cornucópia, quer agora com os Artistas Unidos, tenho poucos interlocutores. Há uma opressão que exerço e que leva as pessoas a afastarem-se de mim com muita violência. As rupturas comigo são muito violentas, há imensa gente que não me fala e me acha a pior das pessoas. Amparo demasiado e abafo, não dou a liberdade de existir.

 

Uma vida conjugal consigo, não no sentido mais estrito, mas no sentido de ser quotidiana, de açambarcar todos os aspectos...

É quase impossível. Já estou resignado que não irá acontecer. Mas aquilo a que aspiro... Vou buscar uma citação do Montaigne: “Se tivesse a certeza que havia alguém que estava perto, que me era próximo, de certeza que iria o mais longe possível para o encontrar, pois a doçura de uma companhia não tem preço. Ai de um amigo...”. Li no domingo passado e tocou-me forte. O amigo que eu quereria seria um contraditor activo. Aquela ideia de estarem duas pessoas a olhar para o mesmo ponto, terem opiniões diferentes do mesmo ponto, mas conseguirem agir em relação a esse ponto...

 

Permanecerem nesse lugar apesar da discordância, não o abandonarem...

Exactamente.

 

É a coincidência na discordância?

Não abandonarem nem se sentirem menorizadas ou superiorizadas. Isto tem a ver com os cowboys. A minha educação é também feita pelos westerns e pelo Howard Hawks. A diferença que há entre o Dean Martin e o John Wayne no «Rio Bravo»...; mas perante uma acção específica, (combater os maus), embora venham de mundos diferentes, os dois estão do mesmo lado.

 

O seu papel é o do John Wayne, que quer redimir o amigo bêbedo Dean Martin.

E o bêbedo não quer ser redimido, é esse o meu problema. Mas nos filmes ele queria ser redimido.

 

Posso voltar à sua irmã, que tinha mais 12 anos e uma enorme ascendência sobre si? O que procurava era estar à altura dela?

Ela pôs-me sempre. Puxou por mim para dar opiniões, para eu dizer...

 

Ela considerava a sua opinião? Com que intenção é que pedia a sua opinião? Era para puxar por si ou estava realmente interessada no que pudesse dizer?

Muito cedo, dez,12 anos, já era para saber a minha opinião, mesmo para coisas práticas, como a escolha de filmes. Nas outras era para puxar por mim, com certeza.


Insisto: qual é a intenção? Porque fazem isto por nós? Consideram-nos realmente ou fazem-no numa atitude vampiresca, procurando aí a sua redenção?

A atitude vampiresca procurando a redenção sou eu, de certeza.  


Amá-los-ia da mesma maneira se não estivessem à altura?

Com certeza.

 

Mas eles duvidariam disso.

Claro. Mas isto desde sempre, mesmo no Juvenil. “Porque é que este gajo gosta de mim, porque é que me dá confiança? É um grande sacana, está-se a aproveitar de mim”. Porquê, porquê, porquê, é um assunto que me segue sempre

 

Ensina, ensina, ensina. Mas com quem é que aprende?

Em livros. A hipótese que tive de conhecer muitas línguas, pessoas muito engraçadas, como o Jacques Tati...

 

Deu-se com o Jacques Tati?

Conheci o Tati por sorte e graças à PIDE. Fui preso em 68 e quando saí da cadeia, o meu pai abraçou-me fortemente, muito honrado e comovido por eu ter estado preso; e eles rapavam o cabelo. Vejo no Diário de Notícias que havia uma recepção ao Jacques Tati, que vinha estrear o «Play Time». Despeço-me rapidamente dos meus pais e vou para a embaixada francesa! Não sei porquê, deixam-me entrar, não tinha convite. Estavam lá todas as velhas glórias de Portugal e o Tati olhou para mim, viu um homem completamente careca e achou-me mais graça do que às múmias que lá estavam. Não deu entrevistas a mais ninguém, só a mim e à Maria Antónia Palla. Durante os quatro dias que esteve em Lisboa estive sempre com ele.

Então, aprende com Tati, com Pascal, com Montaigne, com todos os filmes e com todos os livros.

Com o Peter Stein. Com o Giorgio Strehler. Os meus professores extraordinários: o Mário Dionísio, o João Bénard da Costa, a minha irmã, o Fernando Belo, o Padre Manuel Antunes.

 

A sua irmã foi sua professora? Ai que situação tão constrangedora.

Quanto aos afectos: vivíamos aqui em casa os dois e não me diz que vai ser minha professora. Entro às oito e meia, num sítio completamente desconhecido, ela faz a chamada, aluno número um, número dois, número três, número dezasseis, sou eu, tive que me apresentar, chamo-me Jorge Silva Melo, venho dos Maristas, como se ela não me conhecesse. Os meus colegas só descobriram três ou quatro aulas depois que era a minha irmã.

 

Chegou a fazer-lhe algum teste?

Sim. Sei que foi o António Reis do PS que teve a melhor nota, eu e o Miguel Lobo Antunes tivemos a seguir.

 

Confesse que ficou furioso porque outro foi melhor.

Não, não.

 

Não confessa?

Não confesso.

 

Para que é que lhe serve saber?

Para amar. Para dar. Para planificar.

 

E à Glicínia, o que é que lhe ensina e o que é que aprende com ela?

Ensinar muito pouco. O que aprendo com ela é uma liberdade de pensamento única que é essa capacidade de contradição, de análise, de respeito pelo outro e de indignação.

 

E o lado mais corriqueiro? Goldoni, que tanto ama, proclamava no século XVIII: «Tudo pode ser teatro». O que põe no teatro é a vida corriqueira. Mas essa vida corriqueira, existe deveras na sua vida?

Esse lado corriqueiro é muito solitário. É mesmo meu, só. Adoro ir à rua, é um acontecimento e vou sozinho. Adoro passear, sentar-me em cafés.

Porque é que vive solitariamente esse lado corriqueiro?

Tenho muito pouco contacto com outras pessoas. Afundei-me no trabalho. Se calhar o Verão era a última estação, se calhar não me devia ter afundado no trabalho. Comecei a trabalhar muito novinho, com responsabilidades. Fiz a Faculdade de Letras, depois fui para Londres fazer a escola de cinema. Quando voltei trabalhei em traduções. Fundei a Cornucópia em 73.

 

Quando fundou a Cornucópia achava-se ainda no Verão?

Eu achava que o Verão estava a vir, que ia vir, que ainda vinha. Estávamos no fascismo, sentia que os ventos estavam a mudar, preferi voltar para Lisboa a continuar em Londres. O Luís Miguel fez o curso mais ou menos ao mesmo tempo, mas ficou lá mais tempo.

 

O Luís Miguel foi o que mais se aproximou do interlocutor que procurava? Do interlocutor que está à sua altura, que discute e permanece, apesar da diferença?

Sim. Também a minha irmã foi professora do Luís Miguel, ainda eu não conhecia o Luís. Era o meu rival. Porque a minha irmã dava-me sempre como exemplo o Luís. Chegava a casa e dizia: “Ah, o Luís é que fez uma redacção maravilhosa. Ele é que sabe inglês, ele é que não sei quê...”. Já não podia com o homem!

 

Em suma, quis ser melhor que o Luís.

Não...

 

Tinha um misto de admiração e respeito...

Um enorme respeito, uma enorme admiração. Mas comecei logo a dar-lhe aulas! A primeira relação que tive com o Luís Miguel foi pedir-lhe uma redacção sobre os «Chapéus de Chuva de Cherburgo».

 

Que era protagonizado pela Catherine Deneuve. Tinha paixão por ela?

Absolutamente. Mas isso tem a ver com a tal frieza em relação às emoções. Sempre a achei uma actriz fantástica, o ideal de Hitchcock, que para mim era o mestre máximo. Foi o encontro falhado: como é que o Hitchcock nunca filmou com a Deneuve, quando sempre sonhou com a Deneuve?

 

E então?

Já não havia tempo. Nos últimos filmes dele, ela já existe, mas era muito novinha.


Já agora, se me puder esclarecer como é que Hitchcock filma com a Doris Day, agradeço. A Doris Day!!!

A Doris Day é horrorosa. Mas o filme é lindo. Ele devia achar graça filmar com a banalidade. Tem a ver com o tal lado corriqueiro. A Doris Day é a piroseira inglesa, embora seja americana.

 

É uma dona de casa.

É uma dona de casa que afinal é perversa.

 

A Doris Day é para aqui chamada porque me interessa a sua atracção pela vulgaridade. Quando assiste à conversa trivial do café, da senhora que pede o queque, embrenha-se nisso para elaborar a partir daí? Pergunta-se se a senhora é perversa?, se o vai surpreender?

Não. Isso seria o Hitchcock. O [Harold] Pinter tentaria observar nesses gestos a perversidade. Eu acho que é mais o calor e a vontade de comunicação. Nunca mais me esqueço, meti essa frase no «António»: um dia ia a descer a Rua do Salitre, era um fim de tarde, havia uma velhota que estava à janela e que disse: “Ou vai chover..”, pausa, pausa, pausa, pausa, “ou então não sei.” Acho genial que uma pessoa abra a boca para dizer uma coisa que não é nada.

 

De que é que está sempre à espera? É de ser abraçado?

Absolutamente. Mais do que beijado, é ser abraçado de corpo inteiro, de fundir. Não é abraçar, é ser abraçado. Abraçar, abraço muito. Deve ser muito difícil abraçarem-me. Sei que espero, mas não acontece.

 

Porquê? Sente-se em perigo e foge?

Não sei dizer. Devo ser muito desagradável se alguém quer manifestar ternura.

 

Espreita algures, por aí, o puritanismo, o catolicismo?

O que é importante no catolicismo, que é a descoberta da responsabilidade perante o outro, não foi dado pelos meus pais. A ideia de amar o outro como a si próprio, a ideia de que há um próximo. Trabalho nas margens do catolicismo, trabalho na profissão mais odiada dentro do dogma católico, o teatro. Porquê?

 

Porquê?

Porque os corpos se metem uns nos outros, porque é demasiado próximo como matéria. Os padres da Igreja não queriam nem por nada que houvesse teatro, a Igreja proibiu o teatro.

 

Também porque é uma exposição a nu?

É uma exposição a nu e é uma exposição democrática. Os padres sempre gostaram de cinema. Há imensos prémios católicos de cinema, imensos cineclubes católicos. No cinema a luz vem do alto, como na igreja. No teatro estamos em comunidade, é uma comunicação política, da cidade, laica. Quando os padres na Igreja não gostavam daqueles arraiais que o teatro produzia não era só pelos maus costumes; era por esse sentido comunitário, sem Além. O teatro é terreno.


Viveu sempre mais ou menos arredado da força do dinheiro. Nunca teve o desejo de ganhar dinheiro?

Tenho uma péssima relação com dinheiro, não sei ganhá-lo. Tem a ver com uma infantilidade permanente. Como o meu pai tinha ganho algum dinheiro e me deixou numa posição relativamente confortável, nunca amadureci o suficiente. Continuo a viver à sombra dos meus pais. A casa foi comprada com o dinheiro deles. Se fui responsável, por exemplo, pela escolha do fim-de-semana de prazer dos meus pais, («Tu é que escolhes os filmes que vamos ver»), fui poupado, excessivamente, às coisas da vida prática. Havia empregada, não sei fazer a cama.

 

Se o reconhecimento do outro é uma ideia forte do catolicismo, a redenção não o é menos.

A redenção e o perdão. Nunca seria protestante, onde não há perdão! A ideia de ser perdoado por amor é inultrapassável. Arrepender, redimir, e isso ser a força criadora. Há no catolicismo um pensamento prático extraordinário, que é esse. Uma pessoa sente-se mal, fez uma data de coisas mal feitas, como é que há-de resolver? Sofrer sozinho como o protestante? Porquê? Dizer a outro: “olha, fiz mal”, já é o seu próprio perdão.

 

Gostava de ter uma morte católica?

Agora tenho pensado mais na morte, antes não pensava muito. Sempre disse que gostava de morrer devagarinho, precisamente por causa disso.

 

Para ter tempo para a reconciliação?

Sim, gostava de me preparar muito bem. Agora já não sei, já tenho mais medo da brutalidade da doença, da invalidez. Não gostaria..., mas também não tem qualquer importância..., não gostaria de morrer sozinho. Mas se morrer, também não me arrependo.

 

Esteve a vida toda a lutar contra o facto de estar sozinho. Esteve sempre rodeado de pessoas, mas sozinho.

Não gostava nada de ser como os elefantes que vão lá morrer escondidos. Não gostava que a morte fosse uma vergonha. A morte é um acto de vida.

 

Porque implica transição?

Implica transição, implica mudança.

 

Está a pensar na reencarnação, em vida depois da morte?

Não, não. Pertence à minha vida. Não é uma vergonha, não me vou esconder para essa parte mais frágil da minha vida.

 

Há sempre o exemplo muito tocante da Amália, que quando tem medo de morrer, vai para os Estados Unidos porque não quer que a pátria a encontre morta. Sobretudo morta de um modo despudorado.

É como os elefantes.

 

Depois, é maravilhoso que seja resgatada novamente para a vida pelos filmes do Fred Astaire.

Essa é genial!

 

No seu caso, também há um pudor em relação a esse momento?

Há. Ao mesmo tempo, a morte do Fernando Assis Pacheco na Livraria Buchholz... Uma pessoa que vai ao seu lugar de todos os dias e morre no seu prazer maior que é andar a ver livros... São as mortes mais teatrais a que não posso deixar de apreciar o lado público e sentimental.

 

O Luiz Pacheco, n’«O Libertino», pergunta-se como será a morte: síncope, loucura súbita... Quanto a si?

Morrer é devagarinho, como adormecer. Pensava sempre como uma lenta incapacitação, a pouco e pouco ir-me apagando. Pode ser que isso seja extremamente doloroso e extremamente doloroso para os outros. E como não tenho outros que me sejam próximos, imagino a complicação que não iria criar às poucas pessoas que ainda me aturarem por esses anos...

 

Já teve tantas estações, a sua vida em Paris, em Milão, em Berlim, a sua vida anterior à Cornucópia, os anos da Cornucópia, de 95 para cá, desde o «António», os Artistas Unidos...

É, mas ainda tenho medo de ter férias, por exemplo. Em Junho foram as férias de 90 por cento das pessoas da companhia e fui fazer uma peça só com três actores porque tenho medo. Sim senhor, podia ir de férias para o estrangeiro, mas não estou nada a ver-me sozinho a andar pela Grécia. Um mês? Para onde? Que chatice. Antes, ficaria excitadíssimo. Mas isto tem já a ver com um medo atroz de ficar sozinho. Sim, isto vincula-me à vida.

 

Já pensou matar-se?

Não.

 

Nem quando estava muito deprimido, na fase anterior aos Artistas Unidos?

Não. Aí só pensava em dormir, ver a Teresa Guilherme, dormir e esperar telefonema. Era a angústia. Com os Artistas Unidos e com o que precedeu os Artistas Unidos adquiri uma espécie de velocidade cruzeiro da felicidade. Por muito doloroso, dorido, combativo e às vezes insultuoso que tenha sido o meu percurso, sobretudo nestes últimos dois anos e meio, por muitas mentiras que me tenham feito, há uma espécie de “Eu não abdico de ser feliz”. Sei que tenho razão, e essa tranquilidade...

 

Chega a amargar?

Não. Então com A Capital, a ideia de amargura desaparece. Mesmo que me tratem mal, mesmo que não sei quê. Quando estive preso na PIDE, partiram-me a cabeça, meteram-me na carrinha ali na Almirante Reis, estava cheio de sangue e a primeira preocupação que tive foi encostar a cara ao vidro, para que as pessoas na rua vissem como eles tratavam. Há sempre um distanciamento em relação a mim ou à minha própria dor para testemunhar. Eu estava cheio de orgulho, estava como nos filmes, os filmes que mais amava. Sentia que o Rosselinni estava ali para me filmar e conseguia tratar os pides com desprezo. Eu tinha razão. É um sentimento de serenidade que nunca mais esquecerei.


E de orgulho.

De serenidade. Por mais miserável que estivesse, e estava em condições fisicamente também dolorosas, há uma dignidade que não é tocada. Naquela cadeia de Caxias, durante três semanas, contávamos anedotas nas celas e ríamos, ríamos. Isto é o que gosto nas pessoas: a capacidade de sobreviver.

 

E a vergonha?

A vergonha tem-se, e às vezes tenho muita vergonha. Vergonha de ser emocional.

 

O que suscita a vergonha?

Em certa despedida, o gesto que foi feito, e que não tem retorno. Ter sido fora do tom.   

 

 

Publicado originalmente no DNa, Diário de Notícias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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