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Vasco Vieira de Almeida

A sensação é a de folhear um álbum de retratos, sentados à roda da mesa. Os retratos que aparecem são os de algumas das mais fascinantes figuras do século XX português. Os acontecimentos recuperados reconstituem a História, desta vez contada na primeira pessoa. Foi um tempo irrepetível, que hoje, contado aos netos, parece de tal modo distante e inverosímil que não se acredita. Que o avô não tenha ido à escola, e que tenha sido o seu pai a explicar-lhe o mundo em 25 folhas de papel, não parece possível. Ou que tenha sido marxista ortodoxo. Ou que tenha ficado rico aos 32 anos e depois sem nada. Ou que tenha andado de pistola à cinta, em Angola. 

Privou com todos os nomes que aparecem nos compêndios. Para ele, António Sérgio era “o Sérgio”, que rebatia nos chás de sábado à tarde. Jaime Cortesão ou Fernando Lopes Graça frequentavam a casa. O pai ensinava noções elementares de gramática portuguesa, e entre a sopa e a pêra explicava que Goethe “sabia tudo, mesmo quando não sabia” (frase definidora do génio alemão, do poeta brasileiro Paulo Mendes Campos). E havia Soares, Mário Soares, que ele conheceu quando tinha 14 anos. Agostinho Neto, de quem foi testemunha em tribunal. André Gonçalves Pereira, que lhe emprestou uma sala no escritório quando “estava teso” e seguia de autocarro para o trabalho. E Cupertino de Miranda, que lhe reconhecia o talento com lotes de acções. E a mulher, que acha que o melhor foi terem falido em 75. E os netos e netas, raguebistas e óptimas.

Vasco Vieira de Almeida percorre com grande entusiasmo os anos em que a vida fervilhava. Mudou de vida quando podia ter sido o que quisesse. Como canta António Variações, «Muda de vida, se há vida em ti a latejar». Foi o que fez.

Tem a ideia de que é um razoável amador de música e um advogado capaz. E que não é um homem de excepção. «Não vou deixar marca em lado nenhum, por essa razão que disse: tenho interesses tão variados que é impossível. Se me tivesse concentrado nalguma coisa... Mesmo assim podia não ter conseguido nada». Mesmo assim, é um homem raro.

 

 

Por que é que dá tão poucas entrevistas? Por que é que cultiva esse mistério?

Não cultivo mistério nenhum. As pessoas têm hoje uma grande preocupação em aparecer na comunicação social. Uma das poucas formas de elitismo que restam em Portugal é não aparecer.

 

É um pouco sobranceiro...

Não é. Só vale a pena aparecer quando se tem qualquer coisa de interessante a dizer, o que não acontece normalmente, e como não me preocupo muito com o que os outros pensam de mim, não tenho necessidade de estar sempre a aparecer.

 

Por que é que não se preocupa com aquilo que os outros pensam?

Porque me preocupo com aquilo que eu penso. Tenho um objectivo fundamental na vida, que é a minha independência total, a minha possibilidade de fazer e dizer aquilo que quiser.

 

Já é um grande projecto.

Tudo o que consegui devo-o em grande parte a factores que me são externos. Aos pais que tive; ao meu pai, especialmente, que era uma pessoa de enorme cultura, um homem fora de série e de grande carácter. Devo-o também à sorte - sorte profissional, sorte na família em que nasci e na família que arranjei quando casei. Sorte ainda nas pessoas que encontrei na minha vida e que me ajudaram. Aquilo que não consegui realizar, devo-o apenas à minha incapacidade.

 

É o discurso de um homem apaziguado com o seu destino, que reconhece a sua unicidade. Foi sempre assim?

Fui. Nunca tive ambições específicas, centradas num ponto. Há gente que na vida quer ser rica ou conhecida; nunca assim fui. Interesso-me por tanta coisa que não posso levar-me excessivamente a sério em nenhuma delas.

 

Arrasta consigo o facto de ser filho de um homem genial. Se isso é instigante e nos enforma, por outro lado, é uma sombra tremenda da qual demoramos tempo a libertar-nos. Confesso a vontade que tenho de saber do seu pai e da relação que mantinham. Mas imagino que esteja farto dos que lhe batem à porta para falar do seu pai e não de si.

Percebo o que está a dizer... A presença do meu pai foi fortíssima, mas nunca me inibiu fosse no que fosse. Tudo se passava numa base de grande camaradagem e abertura. Meu pai achou que eu devia ir estudar para França por considerar a universidade em Portugal má. Como conhecia muita gente (tinha sido professor de filosofia na Universidade de Colónia) falou na Sorbonne com alguém para que eu a frequentasse. À medida que se foi aproximando o mês de Julho, Agosto e Setembro, achei uma estupidez ir para França. Sabe porquê? Porque percebi que o contacto com meu pai era mais importante do que tudo o que pudesse aprender lá. Ainda hoje penso no meu pai quase todos os dias.

 

Há quantos anos é que ele morreu?

Em 62. Foi uma relação profundamente afectiva. Meu pai era monárquico e liberal. Eu era um marxista ortodoxo. Hoje sou marxista, mas não sou ortodoxo. Ele tinha uma capacidade de previsão, de conhecimento das pessoas, de evolução histórica. Tínhamos grandes discussões que ele incentivava. Não era uma relação de obediência nem de subalternidade. Olhando para trás acho hoje que eu tinha uma posição enfatuada, arrogante e estúpida. Falávamos em pé de igualdade, porque era assim que ele queria que fosse.

 

Esse marxismo ortodoxo não era uma forma de rebelião e de se afirmar?

Não. Na minha geração muitos de nós éramos marxistas pela necessidade de encontrar um quadro ideológico claro que nos permitisse dar um sentido ao futuro, e a liberdade formal era apenas um instrumento para o conseguir. Por outro lado, o único centro de resistência organizada era o Partido Comunista. Para além dele havia a acção de intelectuais, como o meu Pai que esteve preso duas vezes.

 

Foi militante? Tinha ficha?

Não, nunca cheguei a inscrever-me no Partido Comunista, mas participei de algumas acções. Uma das prisões tem que ver com isso.

 

Foi por alguma razão especial que não chegou a inscrever-se?

Nunca fui muito capaz de alinhar em grupos. O Vítor Cunha Rego, um grande amigo, dizia que no liceu havia o grupo salazarista, o grupo comunista, o grupo republicano, e o Vasco Vieira de Almeida. Sempre fiz o que entendi. Não tinha muita paciência para compromissos, nem para a disciplina partidária, da maneira como muitas vezes é entendida. Mas colaborei com o Partido Comunista com muito gosto. Quando digo que sou marxista, estou a referir-me à sua análise histórica na perspectiva do materialismo dialéctico, não estou a falar em termos de prática política. Mas hoje em dia põe-se na boca de Marx muita coisa que nunca disse.

 

Quando diz “sou marxista”, significa que ainda hoje aquela leitura do mundo faz sentido para si? Outra coisa é a prática e uma inevitável degenerescência da ideologia.

O marxismo como teoria do conhecimento, como forma de procurar interpretar uma evolução histórica, tem muitos aspectos válidos. E não encontro substituto para fazer essa análise. Sei que é “demodé” dizer isto, com o pseudo-fim das ideologias, mas, sempre tive essa visão.

 

Estávamos a falar do seu pai e as memórias de um tempo apareceram imediatamente. Mas também as da política. Já aí vamos. Para já, diga-me em que circunstâncias, em que termos pensa no seu pai.

É difícil definir. Penso nele com enorme ternura. Meu pai era intelectualmente invulgar. Foi o homem mais culto e inteligente que conheci. Mas era ao mesmo tempo uma pessoa simples e de enorme bondade. Eu costumava dizer que ele tinha nascido sem pecado original. Nunca fui para a escola primária. Meu pai achava que o ensino primário em Portugal era mau e fez um livrinho de francês com 20 e tal páginas, um de matemática com umas 30, um de gramática portuguesa igualmente pequeno, e eu e o meu irmão, durante quatro anos, aprendemos em casa com ele. A aprendizagem era permanente, porque independentemente disto ao jantar podia acontecer explicar-nos quem era o Goethe ou o Balzac.

 

Essa condensação do conhecimento em poucas páginas faz-me recordar uma das histórias mais famosas que se contam acerca do seu pai: que escreveu uma tese de doutoramento com 25 páginas e que o arguente se meteu no comboio pensando que as poderia facilmente ler durante a viagem, e deste modo preparar-se para a discussão da tese. Quando chegou a Lisboa, disse que, na verdade, não tinha condições para o fazer, que precisava de tempo para pensar em tudo o que ali estava contido.

É verdade. Há uma outra história divertida: o Ortega y Gasset veio fazer uma conferência à Faculdade de Letras e os alunos e professores pensaram que era um motivo para se fazer um grande frente-a-frente. O Ortega y Gasset foi apresentado ao meu pai e perguntou: “Es usted un profesor decano?”, o meu pai respondeu: “Não, não sou de cano, sou de ar livre!”. Sempre detestou tudo o que tivesse um ar pesado, sisudo e convencional.

 

É fácil imaginar que um filho se interrogue pelo lugar que ocupa na vida deste pai genial. E o que pode ser ao seu lado ou comparativamente.

Sempre foi tudo muito mais simples. A influência do meu pai nunca constituiu um peso na minha vida, nunca me limitou. Pelo contrário, foi sempre libertadora. O seu exemplo, tudo o que me ensinou, a forma de reagir perante as situações, foi o que me permitiu sempre ter asas próprias. Nunca me pus sequer o problema de dizer: “O que é que posso ser, com este pai?”. Meu pai foi o meu pai, a minha vida é a minha vida. Sou aquilo que quero ser, excepto que nunca poderei chegar ao que ele foi, ponto final. 

 

Para chegar aí é preciso auto-estima, segurança.

Tenho razoável e sempre tive. E há um lado lúdico na vida que para mim é essencial. E, se gosto de desafios e, se tenho respondido positivamente a muitos, nunca foi por querer provar o que quer que seja: é pelo prazer do desafio. Ou então, nalguns casos, por achar que tinha a obrigação de lhe dar resposta.

 

Obrigação de corresponder a quê, perante quem?

Quando me meto em actividades políticas antes do 25 de Abril é porque entendo que tenho obrigação de o fazer. Quando vou para o I Governo, sabendo que não duraria, foi porque a minha posição política anterior não me permitia não fazer nada. Mas também bati com a porta quando entendi a inutilidade da minha acção. Quando o general Costa Gomes me diz para ir para Angola para o Governo de Transição, achei que devia aceitar por sempre ter sido anti-colonialista. Conhecia e estava próximo dos dirigentes do MPLA, tinham sido meus companheiros na universidade, tinha sido testemunha no julgamento do Agostinho Neto no Porto.


Diz que a sorte é um elemento fundamental na sua vida. Diz sorte por modéstia?

Não, não. Uma pessoa com este ambiente familiar, que depois conhece o Cupertino de Miranda, que o convida para vir a ser director-geral de um banco... Eu não fazia a menor ideia de como funcionava um banco, nem sabia quem era o Cupertino de Miranda.

 

Não sabia quem era o Cupertino Miranda?!

Não. Nem sabia que existia o Banco Português do Atlântico. Estava a fazer o estágio de advocacia com o Dr. Mário de Castro.

 

Era também um personagem, Cupertino de Miranda.

Há uma história que já contei muitas vezes, quando, depois de ser preso, volto para o banco e vou ter com ele: “Senhor Cupertino, vou pedir a demissão, o senhor não pode ter aqui como director alguém que ajudou comunistas a fugir da prisão de Caxias”; ele responde-me: “Ó Vieira de Almeida, você é maluco, os depósitos até subiram, é preciso ficar cá”. Depois, encontro Manuel Bulhosa, um homem também excepcional, que me diz: “Vamos fazer um grupo industrial a sério”.

 

Como é que faz a transição, do senhor Cupertino para o senhor Bulhosa?

Eu achava que o Banco Português do Atlântico tinha crescido muito e devia envolver-se em projectos de desenvolvimento do país; e não, simplesmente, apoiar actividades industriais e comerciais. Manuel Bulhosa permitiu isso. Portanto, tive sorte. E sorte tive quando resolvi mudar de vida.

 

Por que é que mudou de vida, se a vida corria tão bem?

Eu estava a caminho de ficar rico. Tinha trinta e tal anos e achei que a minha vida estava a perder horizontes. Era uma ideia mortal pensar que ia estar toda a vida a ganhar dinheiro e a fazer a mesma coisa.

 

Sentiu embaraço por ganhar tanto dinheiro?

Não, nunca senti. Senti embaraço por achar que a minha vida tinha estabilizado cedo de mais.


Estou a pensar no embaraço à luz do seu passado marxista.

Não tem nada a ver.

 

Ou até daquilo que imaginaria valorizado pelo seu pai: provavelmente, um percurso político, intelectualmente sólido. Adivinha-se que ele valorizasse mais isso do que enriquecer cedo a emprestar dinheiro a juros.

Quando estive no banco, não pensei sequer muito no dinheiro que estava a ganhar. Todos os anos tinha acções que nunca negociei, nem vendi. No 25 de Abril tinha-as metidas num cofre. Quando vou para o governo, a primeira decisão que tenho de tomar é fechar a bolsa. Ou seja, impedir qualquer venda de acções. O banco foi nacionalizado e tudo aquilo desapareceu.

 

Que relação tem com o dinheiro?

Muito simples: o que tenho utilizo como bem me apetece. Já tive fases em que não tive nada. Quando veio o 25 de Abril fiquei falido. Resolvi sair da banca, não tinha fortuna pessoal, vivia numa casa alugada e fui fazer advocacia.

 

Porquê?

Pensei que era a única profissão que me permitia continuar a ter alguma independência de espírito e de actuação política. Trabalhei num gabinete que me emprestou o André Gonçalves Pereira, um grande amigo, porque eu não tinha sequer dinheiro para pagar o arrendamento de um escritório. Estive um ano à espera do primeiro cliente, que não me aparecia. Todos os dias saía com a minha pasta e ia de autocarro para o escritório. E passava o tempo a estudar porque não me apareciam clientes. Até que um dia surgiu a Renault que queria fazer uma fábrica de automóveis em Portugal.

 

Em suma, o seu dia-a-dia, a sua vida não é muito diferente se tem dinheiro ou se não tem.

As pessoas da minha geração foram habituadas a viver de uma maneira simples. Meu pai nunca teve dinheiro, como é óbvio. Para a primeira viagem que fizemos ao estrangeiro, ele teve que descontar letras no Banco Nacional Ultramarino - nunca mais me esqueço disso. Fomos a França.

 

Eram meninos?

Devíamos ter 15 anos. Para mim, ter dinheiro é importante se puder, por exemplo, ajudar na educação dos netos, se puder ter a certeza que a família tem uma vida razoável. Agora, a minha vida não mudou muito, e a minha mulher pensa como eu.

 

Fale-me dessa viagem a França. Foi uma descoberta surpreendente ou não o surpreendeu mais do que o mundo novo que se encontra nos livros?

Fomos a uma aldeiazinha nos Pirinéus, que meu pai conhecia; tinha lá estado quando era novo, e quis voltar. E foi a coisa mais simples que há, numa casita alugada na montanha. É uma região muito bonita, civilizada e bucólica, mas não foi um espanto extraordinário. Não tinha nada a ver com problemas sociais, que sempre me interessaram, mesmo na literatura de ficção.

 

Por exemplo?

Os grandes livros ou autores que me marcaram foram “Guerra e Paz”, do Tolstoi; “A tale of two cities”, do Dickens; “Cry, the beloved country”, do Alan Paton. Três livros ligados a conflitos sobre o que é o nosso destino, como é que nos integramos...

 

Em relação ao Tolstoi, é fácil pensar que seria mais marcado pelo “Guerra e Paz” do que pelo “Anna Karenina”.

Exactamente. Também é um grande romance, mas...

 

É, sobretudo, um ser social, e é dessa dimensão que temos falado. Ocorre-me a palavra privacidade... Volto à importância de reconhecer a sua individualidade e unicidade. 

Sou uma pessoa que tem poucos amigos. De resto, ninguém tem muitos amigos, no sentido que dou à palavra.

 

Incondicionais?, é o que quer dizer?

Sim, pessoas que têm que estar connosco em relação a tudo na nossa vida. Como o João Pulido Valente, que foi uma personalidade extraordinária.

 

Quando se fala do João Pulido Valente às pessoas da minha geração, do que se fala imediatamente é da sua coragem.

O João Pulido Valente era o homem mais corajoso que conheci. Depois, era leal, boémio, divertido, não-convencional e generoso. Era um herói mítico e um grande amigo. Mas houve outros amigos essenciais: o Vítor Cunha Rego, o Fernando Martins de Carvalho, o João e o Carlos Monjardino, o Arménio Ferreira, o Augusto Sobral, o Mário Soares - conheço-o desde os 14 anos.

 

Mas pelo facto de ele ser mais velho...

É um tipo de relação diferente. Conheci-o através do meu pai. E são essas amizades que também moldam a nossa vida pessoal. E isto não é público. A mistura que se faz hoje entre a vida individual e as posições políticas, sociais, ou meramente de relação, é inaceitável, são áreas que têm que estar separadas.

 

Em relação a que é que o senhor é vaidoso?

[Silêncio]

 

Muitas vezes, as pessoas aparecem por pura vaidade. Mas todos temos as nossas vaidades.

A única coisa de que tenho consciência, se quiser, de que tenho vaidade, é que eu sou, de facto, aquilo que sou. Se há coisa que consegui na vida foi ser plenamente eu próprio, para o bem e para o mal.

 

“O que fizeres, que supremamente o faças”, dizia Pessoa.

No fundo, estou bem comigo próprio, e devo isso muito à maneira como fui educado, à procura da liberdade interior, à ideia de que a pessoa não deve fugir se entende ter uma responsabilidade, um compromisso, ou um dever; mas também ao princípio de que não se deve pôr em bicos de pés. Isto tudo pacifica muito as pessoas por dentro. Não há problema pior do que ter consciência do fosso entre aquilo que se quer ou que se julga de si próprio e aquilo que se é. Isto deve ser um incómodo desgraçado. Quanto a mim, disperso-me por muitos interesses, há tanta coisa fantástica à minha volta, que era incapaz de me dedicar a uma só, o que é uma das linhas fundamentais da ambição.

 

Tendo interesses muito diversificados, podia ter tido várias vidas diferentes da que tem. Podia ter sido banqueiro, e foi suficientemente bom nisso, focado. A outra via era a política, e aí entra a herança familiar, o dever moral, o empenhamento cívico. Acabou sendo aquilo que é hoje, advogado. O que é que o fez decidir-se?

Tenho muito mais interesse pelas fases em que há uma luta a conduzir do que por aquelas em que as coisas estão estabilizadas. Quando fui para o banco, isso foi um desafio fantástico. A história que contei do Cupertino de Miranda não podia ter-se passado noutro sítio. Enquanto a tarefa foi construir um grande banco foi divertido. Eu tinha um grande poder, geria o banco com enorme liberdade. No dia em que o objectivo foi atingido, perdi grande parte do interesse. E fui para o Crédito Predial tentar repetir o mesmo.

 

Mas é sempre pelo desafio? É para ter a certeza de que é capaz?

Gosto do desafio pelo desafio, há um lado lúdico. Não tem nada a ver com dramas interiores de querer provar o que quer que seja. 


Em relação ao Banco Português do Atlântico e à sucessão de Cupertino de Miranda, falava-se muito de uma disputa, de uma rivalidade “fraterna”, entre si e o Câmara Pestana. Eram discípulos dilectos e eram sucessores. Era uma coisa que o moía, esta competição?

Não. O Carlos Câmara Pestana foi meu colega na faculdade. É uma pessoa por quem sempre tive grande admiração. Somos a antítese um do outro. Tudo o que tenho de meio libertário, ele tem de concentrado. É profundamente católico, eu sou profundamente ateu. É uma pessoa para quem tudo envolve algum sofrimento, para mim tem de envolver um grande gozo. Ele estava no Porto, eu em Lisboa. Ele era muito bom, era excepcional, e continua a ser excepcional. O meu problema era: como vai ser a minha vida se aos 30 e tantos anos o banco está feito, se ganho o que para mim é muito dinheiro. Não conseguia ver-me até ao fim da carreira a emprestar dinheiro a juros. E o que tinha sido um desafio, passava a ser uma monotonia.

 

Não o atormentava a ideia de que uma figura, fascinante e paternal, como o Cupertino de Miranda, pudesse preferir um outro filho para a sua sucessão? Não o atormentava ser preterido?

Não. Estou convencido de que o Cupertino de Miranda queria que ficássemos os dois. Eu não saí por causa do Câmara Pestana, nem de preferências, nem de sucessão. Como disse, só saí porque o tipo de situação a que se tinha chegado não era o que me interessava fazer.

 

Foi, então, para o Crédito Predial.

Fui pegar no Crédito Predial, com o Manuel Bulhosa. Provavelmente, se tivesse continuado viria mais tarde a desinteressar-me. Por isso é que lhe digo que me atraem as fases de luta. Por isso quis participar no combate à ditadura. E posteriormente - tinha a história bem sabida -, não desconhecia o que é que acontece a um primeiro governo provisório. Bastava ver o que tinha sido o primeiro governo da República...

 

Mas não podia resistir... Era estar no centro da história.

Exactamente. Quando saí, e saí contra a corrente, fui ultrapassado pela esquerda. Encontrei muita gente cobarde, incapaz durante a ditadura de ir a uma reunião, de colar um papel, de correr um risco, e, de repente, apareciam como revolucionários! Achei que tinha a obrigação de colaborar, mas fui-me embora quando percebi a impossibilidade de fazer o que entendia necessário. A seguir fui para Angola, deu-se a guerra civil, com gente a matar-se uns aos outros, andava de pistola à cinta…

 

Tem fotografias com a pistola na cintura?

Toda a gente andava armada.

 

É que olho para si e parece irreal!

Toda a gente estava armada nos Conselhos de Ministros. A certa altura, pôs-se o problema de saber o que ia acontecer aos portugueses que lá estavam. E como Lisboa era a grande confusão e nada se decidia, vim ter com o general Costa Gomes e disse: “Ou este problema é resolvido ou vou-me embora; não quero colaborar nisto”. E fiz uma carta em que atacava os movimentos de libertação e a incompetência do governo. O Agostinho Neto ficou muito zangado comigo, porque também o tinha incluído - escrevi uma carta aos três movimentos. Não tinha nenhum interesse em fingir que andava a resolver a situação.

 

Também não queria ser um personagem secundário, não é verdade?

Eu podia não ter sido um personagem secundário, se quisesse. Em termos políticos, se me tivesse dedicado, estou convencido de que tinha tido...

 

Ficou um pouco titubeante... Se calhar não explorou devidamente essa via...

Não quis. A minha experiência mostrou-me que uma coisa é uma pessoa bater-se por uma causa que acha justa, e outra coisa é fazer política profissional. Ser político exige um tipo de qualidades que não tenho. O Mário Soares foi capaz de bater-se contra todas as incompreensões, fazer compromissos, avançar, recuar. Eu aí, tenho a impressão de que partia os laços mais cedo ou mais tarde. Lembro-me de que os primeiros decretos que fiz quando estava no governo foram tão discutidos e alterados que não os reconheci quando saíram. Cada um é para o que nasce, como diz o povo. Mas tem de haver quem faça essa tarefa, que é respeitável. Agora, a arte do compromisso não é aquilo que mais me atrai.

 

Quando voltou de Angola, ainda pensava que a política podia ser uma via? Ou nessa altura estava já decidido a arrumá-la?

Tive uma experiência má aqui. Além disso tinha um defeito que é a antítese do verdadeiro político: acertar nas previsões. E dizer a verdade antes de tempo é a morte de um político. Basta conhecer a história, conhecer razoavelmente as pessoas, e ter uma experiência de vida. Fui para Angola e vi destruir aquilo que podia ser um país fantástico por razões absurdas, muitas não políticas. Até a assassinatos assisti...

 

Assassinatos? Assistiu como?

No meu quintal. Tinha uma casa no Bairro do Saneamento e estavam dois homens a agredir dois negros. Desci a escada a correr e disse: “Neste quintal não deixo bater em ninguém, esta casa é minha”, “Ai não podemos?”, pegaram numa kalashnikov e abateram-nos.

 

Nesse período, teve medo?

Eu era um português que estava lá, que vinha embora. A não ser por acidente, não era o alvo de ninguém. Mas muitos angolanos foram. Num Conselho de Ministros, um deles estava muito enervado a ouvir num transístor um programa do MPLA em que se diziam as piores coisas da FNLA; ele estava a ouvir ser insultado ao pé de mim. A certa altura desligou o transístor, saiu, e voltou uma hora depois, absolutamente tranquilo, já com o transístor pousado. Sabe o que tinha feito? Tinha ido à estação emissora e tinha morto o locutor. Não lhe aconteceu nada.

 

Queria ainda falar de coragem, física e moral. O que é que pode acontecer a um homem se sente que lhe falha a coragem, se comete um acto desonroso? O que é que lhe poderia acontecer se fraquejasse?

Há bocado estava a perguntar-me em que é que tenho algum orgulho. Julgo ser razoavelmente corajoso. Já vivi situações muito complicadas. A minha casa em Luanda foi destruída com rockets, comigo lá metido dentro. Foi um tanque buscar-me a casa. Mas nunca tive verdadeiramente medo. Em Lisboa a PIDE nunca me torturou, mas nunca me passou pela cabeça denunciar ninguém. Se isso me acontecesse, tenho a impressão de que alguma coisa se esboroava dentro de mim.

 

Suicidar-se-ia? O que estou a perguntar é se conseguiria viver com a vergonha.

Dificilmente conseguiria. Mas é uma hipótese que não me pus. Não posso ter a arrogância de dizer que nunca me poderia acontecer, porque nunca fui confrontado com situações limite. Ter coragem não é uma qualidade, é uma consequência de ter convicções; se são suficientemente fortes permitem que uma pessoa tenha coragem.

 

Há uma palavra recorrente no seu discurso, que é “fantástico”. Julgo que não é só um bordão; realmente privou com pessoas fantásticas, viveu situações fantásticas. Mas todos temos um lado sombrio, onde aparecem os medos, os tormentos, a perversidades.

Tenho medo de que a minha família, de que as pessoas de quem gosto, possam sofrer - medos desse tipo, todos temos. Sou completamente a-religioso. Não ponho grandes problemas sobre o que é o “after-life”, mas quero dar um sentido à minha vida. A vida perde completamente o sentido, se não estiver assente em escoras fundamentais. Tenho a sensação desagradável de que a vida é um acidente, (termos nascido ou não), e que a única forma de lhe dar sentido é ser capaz de, cada um à sua maneira, estabelecer as regras do jogo consigo próprio; daí decorre tudo o resto. Decorre a coragem, a coerência, a liberdade, a afectividade.

 

Mas é preciso esse momento em que o sujeito se interroga e percebe o que é que o constitui.

É a única forma de dar um conteúdo ao facto de existir. Não posso deixar de cumprir as minhas regras. Simplesmente, cumpro-as, e acabam por ser naturais em mim. Isto faz-nos voltar outra vez à educação que tive.

 

Agora gostava de perguntar pela família que constituiu.

Tenho a melhor família do mundo! A minha mulher é uma pessoa excepcional. Também foi presa pela PIDE e fui advogado dela. Foi um conhecimento romântico! Estava presa ela e o irmão, o José Fonseca e Costa. Acompanhou-me sempre, e achou importante termos falido em 1975.

 

Como assim?

É verdade: dá-nos uma distância em relação às coisas e uma resiliência que de outra forma não se tem. E obrigou-me sempre a ter os pés assentes na terra. Tenho três filhos fantásticos, tenho uns netos fabulosos. Raguebistas, os rapazes. A seguir à educação formal, o râguebi é a actividade mais importante para dar carácter. Não tenha dúvida.

 

Para as meninas, parece simplesmente que um bando de rapazes anda às cabeçadas.

O râguebi tem que ser jogado por “gentlemen”. Com aquele contacto físico, já reparou que raramente há dramas de pernas partidas? O râguebi é uma escola fundamental de respeito pelos outros e de capacidade física de ir à luta e de combate. As minhas netas são fantásticas. 12 netos ao todo, e todos óptimos alunos.

 

Ainda tem os livrinhos a partir dos quais o seu pai lhe ensinou o mundo?

A minha mãe tem.

 

Não volta a eles? Nem sequer para explicar o mundo aos seus netos?

Não. Aquilo é uma coisa irrepetível e única. Já falei neles a alguns netos, que não acreditam que aquilo tenha sido possível.

 

Os livros são escritos à mão, têm imagens?

Escritos à mão. Cadernos pequenos, com uma capa de papel castanho, com o título também escrito à mão. Com explicações luminosas de pontos fundamentais, de pistas para nós puxarmos.

 

A música era outra das presenças daquele universo, e Freitas Branco um dos que frequentavam a casa. Ser pianista foi um destino que chegou a equacionar?

A minha mãe achava que eu tinha que ser pianista.

 

Ainda não tinha falado na sua mãe.

Já vou falar. Sempre lhe expliquei que havia um grande fosso entre o ter habilidade e muito gosto pela música e ter o talento necessário para profissionalmente ser pianista. E disse-lhe ser incapaz de viver só pela sensibilidade.

 

Ela encarnava a sensibilidade?

A minha mãe cantava Schumann, Schubert. Cantou muitas vezes em público. Maria Alice Vieira de Almeida. O Lopes Graça ia jantar todas as quartas-feiras lá a casa. Como vê, o meu ambiente familiar foi extraordinário... Só sendo muito estúpido, eu não faria depois qualquer coisa.


Considera-se um homem de excepção? Falámos de homens de excepção o tempo todo.

Não. De excepção, não. Considero-me um homem verdadeiro consigo mesmo, basicamente é isto.

 

Um homem de excepção é aquele que, mais do que cumprir o seu destino, é capaz de grandes gestos, que perduram.

Não vou deixar marca em lado nenhum, por essa razão que disse: tenho interesses tão variados que é impossível. Se me tivesse concentrado nalguma coisa... Mesmo assim podia não ter conseguido nada. Considero-me um razoável amador de música, um advogado capaz. Considero-me uma pessoa que tem regras para si próprio.


Quantos anos tem?

73. 

 

Tem um olhar muito vivo e parece mais novo.
Ah, ainda bem. Isso pode pôr.

 

Corou imenso! Ficou embaraçado.

Não fiquei nada!

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios 

 

 

 

 

 

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