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Havana

Pôr do sol no Hotel Sevilla

“Vou deixar a chave do meu quarto no lavatório. Quinto andar no Seville-Biltmore. Vá lá directamente às dez da noite. Assuntos a discutir: dinheiro, etc. Que mau cheiro! Não pergunte por mim na portaria”. Em “O Nosso Agente em Havana”, o livro de Graham Greene publicado em 1958, a relação entre um agente dos serviços secretos britânicos e um comerciante que vendia aspiradores começou assim. Passados 50 anos, o Sevilla mantém a aura misteriosa e a beleza de inspiração arabesca. Paredes revestidas a azulejos, pequenas pedras incrustadas, colunas de cores intensas, tectos trabalhados, plantas bojudas entre os sofás e as mesas. Retratos de famosos que por ali passaram: Josefine Baker, Al Capone, Gloria Swanson, Enrico Caruso.

O último andar está transformado em sala de refeições. É um espaço amplo, com janelas que atiram para o Malécon (a avenida marginal), o Capitólio (do outro lado), as casas assombradas do Vedado (antigo bairro opulento, hoje em estado de degradação), a academia de ginástica, que agora acolhe a escola de dança; foi lá que se filmou uma das mais belas cenas do filme “Buena Vista Social Club”, de Wim Wenders. Um pianista toca Michel Legrand, Cole Porter, clássicos da música americana.

O pôr do sol contrasta com a cor esmaecida da cidade. É uma assombrosa bola de fogo, quase tangível, que se recolhe, primeiro delicadamente, depois aceleradamente, antes os nossos olhos. Imperdível.

www.hotelsevillacuba.com

 

O Quarto de Hemingway

Ernest Hemingway viveu intermitentemente sete anos na habitación 511 do hotel Ambos Mundos. Foi entre os anos 1932 e 1939. O quarto está intacto, como se o escritor (que se suicidou em 1961) pudesse assomar-se à janela, entrar de rompante pela porta, sentar-se à secretária. É um espaço pequeno, de configuração irregular, com um pé direito altíssimo. Coincide com uma das extremidades do edifício, na bifurcação das ruas Obispo e Mercadores.

A vista que hoje existe não difere muito daquela de que Hemingway usufruía. Não há novas construções, a música ouve-se do bar de esquina e da varanda do vizinho, o Atlântico chega com mansidão ao porto de Havana. Mais perto, fica a praça onde agora se vendem livros usados e vasta iconografia da revolução que Che Guevara e Fidel fizeram há 50 anos.

As paredes do quarto são pálidas, quase brancas, o chão de mosaico tem cores harmoniosas. As cortinas são transparentes e deixam passar uma luminosidade intensa; as gelosias estão semi-serradas e desse modo criam a ilusão de se estar num mundo à parte.

Sobre a cama está aberta uma velha edição da Cosmopolitan onde o escritor publicou “Across the River and into the trees”. Na secretária, disposta em frente a uma das três janelas, está a máquina de escrever Royal, com as letras do teclado comidas pelo uso; há também um envelope, um telegrama, um lápis.

Na estante há agora livros como “Por quem os sinos dobram” ou “O Velho e o Mar” em diferentes línguas e traduções. E por cima, uma réplica do barco onde ia à pesca, o Pilar. À entrada do quarto, numa reentrância protegida por um vidro, encontra-se uma mala Louis Vuitton com vestígios de autocolantes, uns sapatos de homem de pele castanha, uma jaqueta e uns mocassins da sua última mulher.

Havana Vieja.

 

Yoani Sánchez

Há quem pense que é agente da CIA. Há quem olhe para ela como uma Joana D’Arc dos tempos modernos. A revista Time considerou Yoani Sánchez uma das 100 personalidades mais influentes do planeta. O canal que esta filóloga usa é o blogue Generación Y. Foi criado em Abril de 2006 como forma de exorcismo pessoal, para reflectir uma realidade que Yoani não encontra nos jornais (dominados pelo aparelho) que se publicam em Cuba.

Escreve sobre a opção de casar ou não casar com o companheiro com quem vive, sobre a euforia de haver uvas frescas, sobre os humildes para os quais se fez a revolução socialista, sobre “a pobreza ser um caminho que leva à obediência”, sobre o primeiro sol de 2009.

Generación Y é um fenómeno global. Estima-se que cinco milhões de pessoas acedam todos os meses e tem tradução em japonês, finlandês ou búlgaro (são treze línguas no total). Em 2008 foi-lhe atribuído o Prémio Ortega Y Gasset para Jornalismo Virtual. O regime cubano não consentiu que Yoani se ausentasse do país para o receber.

Tem 33 anos, um filho de 13, ganha a vida como guia turística. É contactável (para quem quiser conhecer a Havana dos cubanos e a cidade nostálgica que parou no tempo…) no seu blogue.

www.desdecuba.com/generaciony/

 

Habana 1791

Há frascos old fashion, de vidro transparente, grandes como frascos de laboratório. Há vitrais lindíssimos que nos devolvem a impressão de estar sob um céu de pétalas; tom dominante: o amarelo. A madeira confere um ambiente antigo e acolhedor.

Nada nesta loja tem a sofisticação dos perfumeiros franceses ou italianos. Tem, ao contrário, uma aparência tosca e artesanal. Numa sala das traseiras pode ver-se o borbulhar de um líquido cor de violeta, como se in loco assistíssemos à manufactura destas fragrâncias. 

Sobre o balcão estão sucessivos tubos de ensaio. Há um verde forte que cheira a vetiver, um amarelo limão que cheira a limão, um rosa claro que cheira a rosas. As fragrâncias são puras e podem ser combinadas. Limão com vetiver – sugere a empregada – produz uma sensação de frescura; a flor de jasmim deve ser aspergida com parcimónia, porque persiste horas sem fim. Uma vez escolhida a essência ou a combinação de essências, um pequeno frasco é posto na boca de uma torneira e enchido em segundos. Por fim, se a rolha é de cortiça, vai ao lacre para ter a certeza de que fica estanque.

Habana 1791 conheceu clientes famosos, como Bonaparte, e o perfume composto para si vende-se à parte. Há também à venda sacos para pôr entre a roupa, com cheiro a lavanda, outros com aparas de madeira, outros com pétalas de rosa. Leve esponjas de banho, óptimas para fazer esfoliação. Os preços são irrisórios. www.habana1791.com

 

Habana Vieja

É o coração da cidade, com ruas pedonais onde tudo pode acontecer: uma velha espírita lê as cartas do tarot, velhas negras fumam puros de manhã à noite, uma criança toca percussão à entrada de casa, um homem pobre e insano dança ao som de maracas… Há ruas de nomes poéticos como Amargura ou Amistad. Há lojas e feiras de artesanato. Há jovens que se tocam com lascívia em plena rua. Há roupa dependurada nas janelas. Músicos tocam no rádio do primeiro andar, músicos cantam ao vivo nas esplanadas. Faz-se fila para o pão. Duas escolas primárias dividem as paredes com estabelecimentos comerciais. Uma família de pai, mãe e dois filhos equilibra-se sobre uma moto. Vizinhos espiam das janelas e varandas. Frases revolucionárias continuam escritas nas paredes: Patria o muerte! Na catedral, pede-se à senhora do Loreto uma casa digna. Há muitas casas recuperadas, de traçado hispânico, com pátios interiores e escadas íngremes. As paredes são brancas e de um azul que só existe em Cuba. Vive-se sobretudo da contribuição do turista e do que ele possa aportar. Gente calorosa.

 

Daiquiris ou Mojitos?

A dois passos da catedral, fica a Bodeguita del Medio, onde todo o mundo vai e rabisca o nome na parede (de Errol Flynn a Pablo Neruda). É como uma tasca, de salas que se metem umas dentro das outras, sempre cheias de turistas. A cinco minutos a pé, fica a Floridita, onde Hemingway tomava daiquiris pela manhã; para os mojitos preferia a Bodeguita. A Floridita serve também mojitos, cuba libre e sandwiches duvidosas; tem uns belos cortinados de veludo vermelho e uma formação jazzística latina.  

A base de uma e outra é o rum, bebida cubana por excelência. Mistura com soda, hortelã e lima, no caso do mojito, com sumo de limão e muito gelo, no caso do daiquiri. E açúcar, em ambos. Uma bomba, uma delícia!

 

Onde comer?

Houve um tempo em que era normal ir comer a casa de uma família. Essa forma improvisada de restaurante deu lugar aos paladares: mantêm a informalidade no trato, e podem muito bem funcionar no pátio lá de casa, entre paredes de alumínio. Há restaurantes que o são desde sempre – o que não quer forçosamente dizer que se coma melhor; são apenas mais caros e sofisticados.

Não há prato mais cubano do que arroz com feijão. Pode funcionar como acompanhamento para carne ou peixe. Não é raro haver lagosta, pescada nas costas da ilha, bem como espadarte ou atum.

El Templete, junto ao Malécon, é um restaurante de mariscos e peixes famoso.

Prepare-se para ter música non stop. O que não é mau: a qualidade média dos músicos de jazz latino é francamente boa. Não esquecer que alguns músicos do mítico “Buena Vista Social Club” levaram a vida engraxando sapatos e cantando em restaurantes. Há outros como eles…

 

Como circular?

Olha um Chevrolet, olha um Plymouth, um Ford, um Buick…  A todo o instante passam carros de cores inverosímeis, se pensarmos nos dias de hoje – como laranja, amarelo, azul-bebé, lilás… O parque automóvel cubano instala-nos num fotograma de um filme dos anos 50. São, na verdade, carros dos anos 50, anteriores à Revolução Cubana e ao embargo americano.

Há-os descapotáveis, há-os com duas filas de bancos, com bancos corridos, com a tinta a descascar, com o farol preso com fita-cola, com o motor a roncar, com a carroçaria de uma marca e o motor de outra…

Circular é um problema central na vida dos cubanos. Os autocarros são escassos, e os carros, mesmo decrépitos, não estão ao alcance de todos. Vê-se imensa gente à boleia. Vê-se imensa gente a pé.

Para os turistas não resta outra hipótese senão apanhar um táxi. São também dos anos 50 e representam a possibilidade de alugar uma fantasia: viajar no tempo!

 

Onde ficar?

O hotel Inglaterra e o Telégrafo ficam lado a lado, na praça central de Havana; estão recuperados. O clássico Hotel Nacional acolheu Nat King Cole ou Kate Moss, reuniões de mafiosos, uma cena d’”O Padrinho”, e estrelas do cinema americano; tem um jardim soberbo virado para o oceano. No meio de Havana Vieja, não perca os vitrais do Hotel Raquel: são estonteantes.

 

O que comprar?

Compre artesanato local: pintura, roupa de algodão, instrumentos musicais. Tudo é muito pobre e rudimentar. Havana é um daqueles sítios onde, mais do que comprar, apetece dar. Leve consigo sabonetes, gilettes, pasta dos dentes, champô, pensos rápidos, aspirinas, todo o tipo de bens de primeira necessidade. São raríssimos ou inexistentes nas “lojas para cubanos” (sujeitas a caderneta de racionamento) e nas “lojas para turistas” têm um preço exorbitante.

 

Publicado originalmente na revista Máxima  

 

 

 

 

                                                       

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