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Carlos do Carmo

 

Fale-me desse triângulo, que diz ser fundamental: peito, garganta e cabeça.

Eu diria coração, garganta e cabeça. Para cantar tenho que ter coração, senão seria um mero exercício de exibição. A garganta, como sou crente, [digo que] foi a que Deus nos deu, não escolhemos propriamente a voz que temos. Depois, a cabeça comanda a vida. Temos que perceber o que estamos a cantar, para quem estamos a cantar. Através da cabeça há públicos que nos arrepiam e outros não. A cabeça funciona numa área, o coração noutra e a garganta noutra.


Tenho a impressão de que, durante muito tempo, afirmou-se contra o seu passado, andou à procura de si. Quando é que se reconciliou consigo e uniu os vértices do triângulo?

Tudo isso se resolveu na morte do meu pai, porque fui, à força, obrigado a optar. Andava ali, menino protegido, de mãe e pai. Eu tinha 22 anos e estava convencidíssimo de que ia ser um engenheiro hidráulico de olhos azuis, director de uma unidade hoteleira no estrangeiro…


Foi educado para ser um príncipe.

Sim. E os meus pais trataram-me sempre como tal. Príncipe, mas muito ligado às questões populares. Vivi com muita honra no bairro da Bica. Se há uma frustração que tenho, não são muitas, é não ter podido viver lá o resto da minha vida – mudei quando me casei. Não havia condições, queríamos ter filhos e a casa era muito pequena. A minha raiz de bairro está muito viva ainda. Vivo nesta casa, de que gosto muito, há 35 anos, mas sinto isto como um dormitório, nunca consegui sentir isto como o bairro que amo.

 

O sentimento de pertença é o que tem em relação à Bica. Em que é que isso se traduz?

A Bica foi uma aldeia, onde aprendi valores, a fraternidade entre pessoas. Uma vida de porta aberta, sem chave na porta. Uma vida de comunicação entre as pessoas: faltam os legumes em casa e a vizinha empresta. Retomando a questão da resolução dos problemas: a morte do meu pai foi uma coisa brutal. Tínhamos uma excelente relação. Era criança, nove, dez anos, e ele lia-me o jornal, ao meu lado. E discutia as coisas que lia comigo; isso ajudou-me a construir um edifício mental, a olhar para a sociedade, para os ricos, para os pobres, a ser sensíveis às diferenças.

 

Com a morte dele, súbita, arcou com todas as responsabilidades.

Foi. Demorei anos a solucionar o desgosto da morte do meu pai. Não verti uma lágrima, não fui capaz de chorar. Foi um desgosto profundo, profundo. Depois fui-me reencontrando. O meu pai morreu e eu, 24 horas depois, era patrão de 23 pessoas. A partir daqui há uma responsabilidade assumida, há uma mãe ao nosso lado.

 

A sua mãe era a fadista Lucília do Carmo.

O gestor do trabalho era o meu pai e a minha mãe era a vedeta, a artista, a bilheteira. E pronto, está ali o miúdo. Só que o miúdo tinha um curso técnico de hotelaria, tirado na Suíça. Se estava preparado para gerir um hotel, mais preparado estava para gerir um pequeno restaurante. Foi uma luta. Foi dizer: «Não vou destruir o que os meus pais construíram, vou tornar isto melhor do que recebi em mãos». 

 

O sentimento de gratidão, só o sentiu profundamente nesse momento, ou já o tinha antes, mercê da expectativa que tinham em relação a si?

É muito interessante que pergunte isso, porque um dos meus sonhos, que nunca se concretizou, era dar uma velhice maravilhosa aos meus pais. Não pude fazer isso, magoou-me essa interrupção. Quando estou a falar desta gratidão, é preciso situarmo-nos no tempo. Os meus pais, depois de eu ter feito aqui a escola primária e o liceu, mandaram-me para um colégio de milionários na Suíça.

 

Eram ricos?

Não tinham dinheiro para isso, endividaram-se loucamente. Mas não se lamentavam: era uma meta, o filho era um grande investimento. Para além do mais, magoou-me que o meu pai não conhecesse o artista... Ele seria muito exigente comigo, de certeza absoluta. Foi fundamental na carreira da minha mãe. Toda a gente enaltecia a dicção da minha mãe: o meu pai dava-lhe lições de dicção em casa.

 

E o Carlos ouvia-as e aprendia também…

Claramente. Determinei-me com objectivos muito concretos: esta tem que ser a melhor casa de fados de Lisboa, e foi. Quando comecei a cantar disse: tenho que ter uma carreira sóbria, foi, e é. Tenho que cuidar da mãe, e fi-lo. Se houve coisa que me magoou, foi, algum tempo depois do 25 de Abril, por razões políticas, caluniarem-me dizendo que tratava mal a minha mãe, que a tinha saneado, que a deixava na miséria. Foi uma seta atirada ao meu coração. Quem o fez, fê-lo com muita maldade.

 

O devaneio do menino que está à procura de si acaba na contingência de ter que se fazer à vida. O que é interessante é que, por linhas tortas, se tenha encontrado com o melhor de si, com aquilo que fez de si um homem feliz.

Com um elemento chave que considero um factor de sorte na minha vida: ter encontrado a Maria Judite [a mulher].

 

Que idade tinha quando a conheceu?

Tínhamos os dois 24 anos. Casámo-nos seis meses depois. Ficámos os dois praticamente sem família, a família da Maria Judite quase toda morreu, a minha família quase toda morreu; reconstruímos, fizemos uma nova família com filhos. O modo como ela gere esta situação do marido ausente durante anos... Não lhe passa pela cabeça o que trabalhei! Cheguei a tê-la à minha espera no aeroporto com uma mala com roupa para o frio, porque vinha do Brasil e ia para o Canadá. Dois beijinhos, as crianças, a correr, e lá ia para outro avião. A vida toda, também ela se foi construindo, em simultâneo: o empresário, o marido, e o cantor.

 

Como é que começa a cantar?

Aos 23 anos comecei a cantar por brincadeira, e não me deixaram que fosse brincadeira. Gravei um primeiro fado com um amigo, o Mário Simões, e aquilo passava na rádio de manhã à noite. Nunca mais pude controlar a situação, tive mesmo que começar a aprender fados.

 

Não se sentiu inseguro? Deve ser uma coisa terrível para os filhos de pais famosos: deixar de ser o filho da Lucília do Carmo e passar a ser o Carlos do Carmo.

Nos primeiros anos, muita gente, com muita naturalidade e muita ternura, dizia-me assim: «O menino canta muito bem, mas sua mãe é que era». Não me sentia magoado, mas isto implicava ir buscar um caminho. Conseguimos, depois, naquela casa de fados, ter dois públicos que se iam conhecer um ao outro. Eram os mais velhos que ficavam fascinados a ouvir o miúdo e eram os mais novos que se fascinavam a ouvir a mais velha. E não havia competição.

 

A sua afirmação enquanto cantor, a escolha do repertório, até o modo de cantar, foi feito para vincar essa diferença?

Não. A minha mãe pertence a uma geração de fadistas, com algumas honrosas excepções, com uma exigência de repertório limitada. Eu pertenço a uma geração a quem os pais facultaram tudo. A minha inquietação estética começou cedo. Não era por acaso que me apareciam na casa de fados o Zé Cardoso Pires, o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira... A minha primeira abordagem ao Alexandre O’Neill foi uma coisa sensacional! O Ary dos Santos, quando chega, é a cereja em cima do bolo. Tudo isto foi acontecendo com ligações humanas, partindo dos poetas tradicionais. O autor das «Canoas do Tejo» e do «Por morrer uma andorinha», o Frederico de Brito, era um homem muito antigo.

 

Protagonizou essa mudança. Há um país que emerge e a sua música é expressão disso, dá expressão a isso.

Todas estas pessoas de quem falei tinham muito respeito pelo que estava para trás. Não gostavam esteticamente daquele fado, mas consideravam aqueles intérpretes grandes artistas. A isto tudo não era alheio o facto de ouvirmos outras músicas: Sinatra, Brell, Elis Regina, Ray Charles...

 

Quando é que se olhou ao espelho e disse: «Sou fadista, sou cantor antes de qualquer outra coisa»?

Essa questão não se me pôs assim. Considerei sempre as três frentes fundamentais. Quando a minha mãe começou a apresentar alguns sinais de fadiga, (mal eu sabia que ia culminar numa tragédia que é Alzeihmer), combinei com ela que a minha missão estava cumprida: tinha honrado o trabalho dela, tinha honrado a memória do meu pai, quando ela quisesse parar, eu saía ao mesmo tempo, acabava o empresário. Assim foi. Isto para lhe dizer uma coisa que, talvez por antecipação, seja interessante desabafar consigo: estou preparado para deixar de cantar porque tenho um outro lado de que gosto muito, o da família.

 

Acha que pode ser feliz sem cantar?

Isto [a família] é para durar até ao fim. O palco não pode durar até ao fim. O palco tem uma coisa perigosa, a decadência, e eu não a queria. Quero ver se Deus me dá essa lucidez. Porque a partilha que temos tido, as pessoas e eu, tem sido sempre superior. Gosto muito que as pessoas gostem de mim, gosto muito de gostar das pessoas. Mas não sou muito talhado para ídolo, sou mais talhado para afectos. Tenho cenas incríveis de afectividade. A primeira vez que saí à rua depois de ter vindo das operações de Houston, uma senhora muito bem posta estancou na minha frente e disse-me assim: «Não sonha o quanto rezei por si». Aquilo era genuíno, era do plano dos afectos. Eu jogo mais nisso.

 

Em fazer parte da família.

É. A maioria dos ídolos acaba mal, já reparou? Nos sítios mais variados aparece-me gente de 30 e poucos anos; foram massacrados porque os pais ouviam-me de manhã, à tarde e à noite; depois de os pais morrerem vêm ouvir-me para se reconciliar e contam-me isto cheios de ternura. Ou então os que me seguiram: «Habituei-me a ouvi-lo, desde pequenino, apesar de a minha música ser outra». E levam as crianças. É muito interessante porque passa para a terceira geração.

 

O disco que gravou depois de ter sobrevivido à doença, foi diferente? É evidente que a vida de um homem muda quando passa por uma provação tão grande. Mas, como é que isso se reflecte naquilo que ele faz, no modo como ele canta?

Pois, sabe que não foi a primeira vez, foi a segunda. Eu já tinha tido há 16 anos uma queda de um palco em Bordéus… Há um homem com uma saúde de ferro que aguenta estas coisas todas, as malas que se trocam, a vida mais desregrada de horários, boémio, cigarros, uísques (mas nunca fui bêbedo!). Esse homem, aos 50 anos, cai de um palco e parte o lado esquerdo do tórax, parte sete costelas, fura um pulmão, fica sem baço. Fica um homem diminuído, só que não aceita. O médico teve comigo uma conversa interessantíssima, «Agora, nada é como antes, atenção». Entrou por aqui e saiu por ali.

 

Como é que ignorou avisos tão sérios?

Eu tinha uma ambição do ponto de vista económico, que era dar um tecto a cada filho. Nunca quis ser milionário, mas sabe o que é? Continuei a trabalhar como se nada a fosse. Aos 60, o aneurisma foi tão violento... Mas entretanto, as metas estavam atingidas. O médico diz-me: «Nem pensar em fumar, nem pensar em álcool, vinho à refeição e ponto final. Muita água e uma vida mais higiénica». Tem sido esse o meu projecto de vida e sinto-me como nunca me senti, até a cantar tenho mais força. Depois disto, em que a morte foi muito clara, mais do que da outra vez, disse: «Bom, é giro ficar mais uns tempos».

 

A equação era viver ou deixar-se morrer.

É natural que esse homem tenha sido tocado pela finitude, pela insignificância, pela fragilidade. Esse homem reapareceu a cantar, gravou um disco. Tenho a impressão de que as pessoas não o terão percebido muito bem. Levei anos a dar entrevistas onde a última pergunta era sempre a mesma: «Acha que o fado vai acabar?». E eu respondia: «Enquanto houver quem toque e quem cante, o fado não morre.»

 

Hoje ninguém se lembraria de fazer uma pergunta dessas, tal o vigor do fado.

Foi muito natural querer fazer um disco de inéditos. Foi uma forma de dizer: «O velhinho está de volta, mas desculpem lá: sou inquieto, não estejam à espera que vá cantar outra vez a mesma coisa». Coisa que já não tem a ver com o projecto que tenho agora e que vou talvez executá-lo este ano: é com uma grande orquestra sinfónica, músicas tradicionais de grande peso e trabalhar nisso com poemas novos.

 

 

Publicado originalmente na revista Selecções do Reader’s Digest em 2005

 

 

 

 

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