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Clara Ferreira Alves (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

Nunca responder a perguntas como esta.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

Proust não percebia nada de homens. «Charme masculino» digo eu.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

Inteligência sustentada pela força e a generosidade. Proust percebia  de mulheres.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

Lealdade.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

Não partilho. A não ser que ele se referisse à incapacidade de entender Deus e/ ou o cosmos. O meu defeito é a incapacidade de esperar em silêncio.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

Amar não é uma ocupação é uma fatalidade. A minha é ler, mesmo Proust.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

Não existe a felicidade, a não ser para os beatos. Existem instantes absolutos em que se tem o mundo na mão e se é imortal. Duram pouco. O meu projecto de felicidade é aguentar esses instantes sem sucumbir quando acabam.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

Perder o que mais se ama.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seriam diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

Aos 13 anos queria ser a noiva do Paul McCartney. Mudei de opinião, entretanto. Agora? A Madonna, em certos dias. É uma Marlene Dietrich melhorada.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

Não. Se existisse seria o Brasil sem a pobreza. Uma cobertura em Ipanema e o Chico Buarque parecem-me bem.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

Muitos. Quase todos mortos. Dos nossos, Pessoa. Dos vivos, o Roth, o Coetzee e o Amis júnior. Dantes odiava o Roth, que escreveu o melhor livro dele aos 70 anos. Há esperança…

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

Não distingo muito escritores de poetas. Homero, Poe, Eliot, Larkin, Pound às vezes. Rimbaud, Verlaine e Baudelaire. Pessoa e O´Neill. Drummond e Bandeira. Chico e Caetano. O poema da minha vida é «The Love song of Alfred J.Prufrock» do T S Eliot. O da minha morte «Aubade», de Philip Larkin.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

Lawrence da Arábia, no filme do David Lean.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

Não é o Paul McCartney. Bach, pela pureza, Mozart, pela alegria, Beeethoven, pela violência.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

Esses e muitos  mais. Caravaggio. Gauguin. Os meus quadros  são «O Homem dos Olhos Cinzentos» de Tiziano (Uffizi) e «Noite Estrelada», de Van Gogh (MOMA).

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

Os que resistem. E não desistem.

 

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

Ter medo dentro dos aviões.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

Saber ganhar dinheiro.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

Viva. Sem tubos.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

Nenhum. Não se responde a isto com estados de espírito.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 

A megalomania e a mitomania.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

A passadeira do ginásio.

Lema? O da Ordem da Jarreteira:«honni soit qui mal y pense».. Eduardo III sabia o que fazia.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

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