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Francisco José Viegas (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

Sobreviver, não perder o gosto pela aventura e cuidar dos meus.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

A capacidade de não ceder ao sentimentalismo fácil. Prezo muito a ironia sem sarcasmo. Detesto o romantismo de pacotilha e os homens que se comportam como vítimas do mundo.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

É problema delas. Para mim, valem a beleza, o riso, o sentido de justiça.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

Ternura, sim, provavelmente. Mas sobretudo humor, ou ficarmos à mesa.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

Sim, custa-me deixar de fumar. Tenho um catálogo privado à disposição, mas é para uso pessoal.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

Estar com a família, com os amigos, acordar, comer, ver o céu. (A resposta de Proust é tão cretina, não é?)

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

Estraga-se se for posto em palavras, é verdade. Mas sim, tem a ver com o que imaginam, seja o que for.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

Ser como Proust seria uma grande desgraça, sim. De resto, não gostaria de perder a visão, de ficar doente, de ser sócio do Benfica ou de ter escrito a “Recherche”...

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seriam diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

Aos treze, gostaria de ter sido Phileas Fogg na sua viagem pelo mundo, ou Teofilo Cubillas, cujos golos tantas vezes festejei. Hoje, não me importo de ser eu mesmo. Uma pessoa vai reduzindo as expectativas.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

Proust era realmente aborrecido. Gosto de boa parte de Portugal. Gostaria de viver de novo no Brasil, por exemplo. Ou na Argentina, Buenos Aires. Ou em certo lugar do México. Mas estou bem – um país não garante ternura nem sentimentos; limita-se a fornecer-nos uma casa, uma gastronomia e um dicionário.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

Autores, não «escritores»: Georges Steiner e Montaigne, por exemplo, para pensar o mundo. Camilo Castelo Branco para saber o que é a literatura. Presentemente, Eça de Queirós, Fernando Pessoa ou Rubem Fonseca para me reencontrar com a minha língua. Camus, Le Carré, Melville, para ler. Shakespeare para tudo o resto.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

Os de sempre: os clássicos (gregos, chineses e japoneses); Yeats, W.H Auden, e os da minha língua: Camões, Cesário, Pessoa, O’Neill, Nemésio, Vasco Graça Moura.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

Tenho vários e não resisto: George Smiley, de John Le Carré, elogio da humildade, capacidade de sofrimento. No capítulo das mulheres, a senhora condessa de Gouvarinho, de “Os Maias” é uma das minhas preferidas, juntamente com Margarida Dulmo, de “Mau Tempo no Canal” e Elizabeth Bennet, de “Orgulho e Preconceito”. Gosto de Edmond de Dantès, o Conde de Montecristo. Falstaff, de Shakespeare. Sancho Panza. E Philip Marlowe.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

Bach. E Barry White, para não me julgarem ingrato.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

Rembrandt, seguramente. E Gauguin. E Hopper. Acho Rothko um aborrecido, aliás.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

Os meus pais. Os meus avós.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

Dos meus erros; não gosto de nenhum. A ignorância é abominável. Mastigar de boca aberta ou não ter maneiras à mesa também me causam repulsa.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

Cantar. E tocar um de dois instrumentos: saxofone ou violoncelo. As outras coisas arranjam-se ou dispensam-se, mas a música é um relâmpago na nossa vida.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

Tranquilo. Sabendo que a minha família é feliz e fica bem.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

Não. Mas há um certo exagero em relação a «pensar em quem somos». Somos isto, isto mesmo. Objectos flutuantes, depende do dia da semana, depende do dia do mês. Somos isto, e não tem segredo nenhum. Não inventem, ó psicólogos de algibeira.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que não desculpa?

As que têm a ver com a ignorância, a preguiça ou a maldade.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

Não sou supersticioso, só não gosto de olhar para trás.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010


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