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Mega Ferreira (Quest. Proust)

[Respondo, mas sob protesto. Esta de confrontar as opiniões de um jovem francês de 20 anos, na viragem para o século XX, com as de um português de 58 anos, em pleno século XXI … Ele,  um futuro (e glorioso) escritor, eu, um escritor doublé de gestor já sem Recherche à vista: ele ainda tinha a obra gigantesca que o esperava à esquina da vida; eu quero acabar à viva força a minha biografia do padre José Agostinho de Macedo, que me consome o juízo vai para 20 anos. Francamente!]

 

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

Quanto a ser cuidado, amado, “apaparicado” (é disso que Proust fala), dispenso – sou muito independente. Característica mais marcante? Se me têm perguntado isso aos 20 anos, talvez a resposta fosse mais fácil…

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

Nada disso. A capacidade inata de arruinar a vida por uma obsessão (uma causa, uma ideia, uma mulher) é o que mais aprecio nos homens. Também os lastimo por isso.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

Franqueza? O que é isso se não comporta uma parte de jogo (de sedução, de conquista, de projecção de si nos outros)? Do que eu mais gosto nas mulheres: da capacidade inimaginável de sacrifício – e isso é uma forma nobilíssima de determinação.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

A inteligência e o sentido de humor. Nenhum dos meus amigos se leva inteiramente a sério.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

Nem um nem outro – e ele também não, aliás. Só pode ter dito isso antes de escrever os sete volumes de À la Recherche du Temps Perdu. O meu maior defeito? A intolerância – de vez em quando. E a tendência para um certo isolamento melancólico.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

Ler, digo eu. A dele é uma resposta “género escritor”, que só se dá quando se tem 20 anos.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

Ainda não sei – ou já me esqueci.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

Ficar cego – tendo a consciência de que não sou Borges.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

Aos 13 (sei-o perfeitamente) queria ser um advogado brilhante, para poder defender os presos políticos em Tribunal Plenário. Agora, dou-me por satisfeito com o que sou. E, no entanto…

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

Claro que não. Mas acho que não me importaria (é uma forma de expressão) de viver (algum tempo) em Itália.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

Stevenson, Nabokov, Borges são três primeiríssimos candidatos. E Cervantes. E Stendhal. Camilo. Sebald. E Calvino…(isto não é pergunta que se faça!)

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

Wallace Stevens, Paul Celan e Pessoa. S. João da Cruz. E Rimbaud. Homero, se tivesse existido.

                                                  

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

Jim Hawkins, de A Ilha do Tesouro; Ana Karenina; e D. Quixote.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

Outra pergunta obscena! Tem dias: Handel, Mozart, Beethoven. E Schumann. E Strauss (Richard). Verdi, Wagner. E John Coltrane. E Elvis Costello. E Caetano. E Jarrett, nos melhores momentos. Paolo Conte, absolutamente. E Bach, todos os dias.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

Eu gosto de Rafael e de Caravaggio. De Velasquez. Dos auto-retratos (todos) de Rembrandt. E de Matisse (muito) e Hopper. E de Pollock. E de Kiefer (muitíssimo).

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

O que é a “vida real”? Casanova? Churchill? Mário Soares? Ou Rómulo de Carvalho, que até foi meu professor?

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

Das piores qualidades dos outros. São muitas e são péssimas.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

Génio musical para poder ser o que não pude ser: um músico genial.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

De repente, para não ter tempo para pensar nisso.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

Por acaso, estou divertido. O que é curioso nestes questionários: se respondesse amanhã, as respostas seriam diferentes. O que quer dizer que não sou exactamente eu quem responde neste momento.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 

As profissionais, que são mera circunstância. As de carácter é que tramam tudo.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

“Rien ne fera que je ne me sois amusé »  (Casanova)

 


Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010


 

 

 

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