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Nuno Artur Silva (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

Inquietação criativa em fundo de equilíbrio zen.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

A bondade.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

A beleza. E a bondade.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

Cumplicidade e confiança.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

Indecisão.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

Vaguear.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

Céu azul. Varandas brancas sobre o mar. Flores e frutos. Família, amigos. Livros, música, artes...

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

A invalidez dos que amamos, dos filhos, mais que tudo.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

Gostaria de continuar a ser eu, mas gostaria de experimentar ser eu noutras épocas e noutras circunstâncias.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

Poderia ser aqui. Mas com uma cultura diferente, com um país diferente. Que fosse um exemplo de civilização e alegria.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

Borges.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

Pessoa.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

O Rapaz de O Que Diz Molero. E Dom Quixote.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

Tom Jobim.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

Da Vinci e Picasso.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

Os heróis anónimos ou desconhecidos.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

Da crueldade.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

Talento musical.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

Velho e em paz.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

Não.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

As faltas por incapacidade.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

Não sou supersticioso. Pôr ideias em movimento.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

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