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Pedro Lomba (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

Também preciso de atenção. Até defendo que toda a gente tem um dever universal de delicadeza. Sou daquelas pessoas que se pelam por um bom-dia. Mas a minha característica mais marcante é talvez a queda para as contradições. Sou um contraditório e penso que ainda bem.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

A curiosidade. Sem curiosidade, nenhum homem se safa.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

Nas mulhere,s o bom carácter. As minhas amigas mulheres sempre foram mais francas comigo do que os meus amigos homens. Entre amigos homens há sempre vícios, desatenções, coisas simples que se perdoam. A amizade entre homens e mulheres é feita de uma pulsão diferente, uma espécie de erotismo nunca concretizado.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

Uma certa delicadeza, um certo sentido de humor, um certo à vontade com as suas próprias imperfeições. A amizade pressupõe a aceitação recíproca de imperfeições comuns.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

A instabilidade e a insatisfação. Somos muitos assim. Devíamos fundar um clube.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

Gosto de viver sentindo que está tudo certo, tudo arrumado, tudo normal, que não há problemas ou preocupações que perturbem a minha liberdade. Peço desculpa por esta frase ridícula.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

O George Steiner disse uma vez isto numa entrevista e eu aplico aqui. Um bom quadro de felicidade é, por exemplo, ouvir passos a subir as escadas do meu prédio e saber (sem o saber) que é ela. Bonito.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

A perda de alguma coisa que tenho comigo e que dou como garantida, porque nós damos sempre o que temos como garantido.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

Ao contrário: aos 13 eu queria ser eu mesmo, depois aos 20 pensei em ser outra pessoa, talvez o Benjamin Constant, um desejo um bocado patético. Hoje, penso que os 13 são uma idade mais realista.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

Não sei se existe. É uma pergunta irrespondível. Vivo aqui em Portugal, há coisas boas e más, não me queixo.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

Nenhum dos autores de Proust, nem o próprio Proust. Não é fácil escolher: Kafka, Pavese, Eça, Mark Twain, Nelson Rodrigues, Philip Roth, etc, etc.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

Os meus também fazem parte dessas listas: Yeats, Wallace Stevens, etc. Em Portugal, Alexandre O’Neill.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

Sempre preferi as personagens secundárias dos meus romances preferidos. Por exemplo, Levine na “Ana Karenina” ou Nick Carraway no “Great Gatsby”.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

O Leonard Cohen cumpre bem esse papel.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

Talvez o Lucian Freud. Tudo o que não seja arte contemporânea armada ao pingarelho.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

A minha vida real é quotidiana e nada heróica. Mas os meus pais foram heróicos em muitas alturas da vida. Devo-lhes isso.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

Não gosto nada de gente mal formada à minha volta.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

Eu podia ser mais alto e ter maxilares mais pronunciados. Não sei se o Proust sabia diss,o mas a beleza é uma questão de estrutura óssea. De qualquer forma, vivo bem com os talentos que tenho e não tenho.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

Gostava de morrer sobretudo deitado. Não podemos, com realismo, aspirar a mais.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

O questionário está a chegar ao fim, pena. Gosto de responder a perguntas sobre mim. Nunca percebi aquelas pessoas que sabem tudo sobre a muralha da China e nada sobre elas próprias.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 

O egoísmo nas questões amorosas.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

Não tenho lema nenhum. Se  agora dissesse que tinha um lema e dissesse qual é, os meus amigos passavam a desprezar-me e penso que com absoluta razão.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

 

 

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