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Maria Filomena Mónica (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

Ser amada e odiada, em doses iguais.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

A beleza física.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

A cabeça.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

A lealdade.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

Não. Os meus principais defeitos são a fraqueza física e a ansiedade.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

Ler.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

Conversar com os amigos.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.  

Ver morrer um amigo.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

Aos 13 anos, Tom Sayer; aos 64, é tarde para me por a ter sonhos projectivos.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?  

Gostaria de viver em Inglaterra, devido à beleza do seu campo, ou em Itália, devido à cor das suas casas.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

Turgeniev e Eça

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

Cesário Verde

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

O Heathcliff de «O Monte dos Vendavais»

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

Verdi e Bruchner

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

O meu pintor favorito é Fra Lippo Lippi. Com muito poucas excepções, não gosto de arte moderna.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

Nenhum professor me marcou o suficiente para se transformar num herói. Aliás, sou pouco dada a êxtases deste género. Admiro contudo George Orwell.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

O fascínio pela Razão.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

Ter bom ouvido, o que me teria levado a prosseguir as lições de violoncelo.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.  

Com um ataque de coração, a meio do sono.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

Mais livre do que há alguns anos.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

Não sou condescendente nem comigo nem com os outros.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

Não sou supersticiosa e nunca tive um lema na vida.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

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