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Manuel António Pina (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

            Quem não necessita de ser amado?

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

            A bondade.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

A bondade.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

            Fidelidade. Passo bem sem a ternura de amigos e amigas (até me embaraçaria) e sem o seu charme.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

            Quanto a vontade sou como Alexandre O’Neill: fraco mas forte. Mas tenho dificuldade em dizer não.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

            Não fazer coisa nenhuma. Ou fazer o que fizer sem planos ou expectativas.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

            “Vivir quiero conmigo (…)/ a solas, sin testigo,/ libre de amor, de celo,/ de odio, de esperanza, de recelo” (Frei Luís de Leon).

 

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

            Não sei se será (provavelmente não é) a maior das desgraças, mas a infelicidade de alguém que se ama deve ser insuportável.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

            Aos 13 anos, se bem me lembro, gostaria de ter 40. Agora convivo perfeitamente comigo (enfim, a maior parte das vezes…).

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

            Algures entre as florestas do Gerês e os gelos da Islândia.

 

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

            O nome que logo me ocorre é Borges (o contista e o ensaísta, o poeta menos). Mas, se pensar um pouco, ocorrem-me também Dostoiévski. Melville, Conrad…

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

            Tantos! Rilke, Eliot, Ruy Belo…

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

            Heitor. E, em certos dias, o ursinho Winnie-the-Pooh.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

            Tem dias. Às vezes Wagner, às vezes Mahler, às vezes Chopin…

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

            Talvez Rubens, talvez Van Gogh, talvez Mondrian… Também tem dias.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

            As mães.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

            Não gosto de gente satisfeita consigo mesma.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

            Talvez, sei lá, a indiferença.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

            Morrer sem saber que se morre é provavelmente uma morte aceitável.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

            A maior parte das vezes diverte-me.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 

            As do coração (as dos outros, não as minhas).

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

Nada me faz correr, não tenho pressa. Quanto a lemas, talvez o dos estóicos: nec spe nec metu, isto é, não desejar nada e estar pronto para tudo.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010 

 

 

 

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