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André Carrilho (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

Também tenho a necessidade de amar… Além de simplesmente ser amado.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

A lealdade.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

Nas mulheres gosto de encontrar sentido de humor. O que, para mim, é o mesmo que dizer inteligência. A escolha de Proust, na minha perspectiva, é universal, não se aplica só às mulheres.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

Franqueza, honestidade. Talvez também ternura, porque não?

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

Não creio que partilhe dos seus defeitos. Sou talvez egocêntrico e introvertido. Não gosto que me incomodem…

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

Tentar abstrair-me da minha própria mortalidade, o que vai dar ao mesmo…

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

Olhar para trás e não me arrepender de nada.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

A maior desgraça seria nunca ter amado. E nisso, como Proust, posso incluir a minha mãe.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

Aos 13 gostaria de ser crescido. Agora, gostaria de ter 13. Sem ter que ir à escola.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

Gostaria de viver num país onde não houvesse nacionalidades.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

Gosto de Dostoievski, Boris Vian e Philip K. Dick

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

Leio pouquíssima poesia. Mas simpatizo com o Alexandre O’Neill.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

As figuras históricas serão talvez as maiores figuras de ficção… Mas terei que escolher o Corto Maltese, sem dúvida.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

Carlos Paredes e Jimi Hendrix.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

Escolheria Francis Bacon, Lucien Freud, Paula Rego, David Hockney.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

A minha mãe.

 

Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

Da hipocrisia.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

Gostaria de ter certezas.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

Gostaria de morrer sem nunca ter perdido a capacidade de viver.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

Sem dúvida. Mas também alguma curiosidade…

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

Perdoo a ingenuidade, não a ganância ou a desonestidade.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

Citando Godard, gostaria de “tornar-me imortal e depois morrer.”

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

 

 

 

 

 

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