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Rui Tavares (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 Curiosidade.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 Ser leal.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 Ser aventureira.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 Sagacidade.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 Falta-me espírito de sacrifício.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 Preguiçar.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 Estarem todos vivos.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 Para além das desgraças íntimas, viver sob opressão.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 Aos 13 anos, provavelmente Indiana Jones ou Chalana. Aos 20 anos, ninguém em concreto.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 Há vários países reais onde gostaria de viver, e apenas uma vida. Mas gosto do país onde nasci, e de outros ainda.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 Gogol, Tolstoi, Capek.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 Pessoa.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 Aos treze, Huckleberry Finn ou João Sem Medo. Aos vinte, o barão Cosimo de Rondó de O Barão Trepador, romance de Italo Calvino.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 Satie, Carlos Paredes, e mais recentemente Andrew Bird.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 Rembrandt, certamente. Os mestres minóicos anónimos, talvez. Há muitos outros: Dürer, Altdorfer, Caravaggio e Goya. Dos vivos: James Turrell.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 Os leitores não os conhecem. São da família.

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 O combate contra o pensamento.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 Acima de tudo, invejo os músicos.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 O mais tarde possível, de forma rápida e indolor. O resto é irrelevante.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 Intrigado. Pensar em quem sou intriga-me.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

 Sou condescendente por natureza e opção temperamental.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 Mais um dia, e não morri.


 

 Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

 

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