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Jorge Silva Melo (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

Gostava que fosse a capacidade de admirar. Gosto de ser eu quem ama.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

A disponibilidade. Surgir quando alguém nem sabe que precisa de outro. Como Dean Martin surge sempre que John Wayne precisa, no Rio Bravo.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

A disponibilidade. Surgir quando alguém nem sabe que precisa de outro. Como Angie Dickinson surge sempre que John Wayne precisa, no Rio Bravo.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

A surpresa, a contradição.

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

Querer voltar para casa cedo, quando podia ainda ficar com os outros.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

Trabalhar, digo eu.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

Andar pela rua, sem saber bem para onde, ao deus-dará, como se diz, até os pés doerem e o sol se pôr.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

“No outono descobrir que era o verão a única estação”, disse tão bem o Ruy Belo.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

Em miúdo, ao perguntarem-me o que queria ser em grande, chorava e dizia: “Quero ser filho.”  Mais tarde, corrigi: “Quero ser velho.” Ou seja, teimoso, rezingão, caturra. Exercito-me para isso. Todos os dias.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

Tinha de ser aqui na minha rua. Mas não gostaria de amores sempre correspondidos, parece-me sensaborão. Diria que a minha rua haveria de um dia ficar numa terra onde se conquistam as correspondências, onde se conquista a ternura, também. Sem luta, não queria.

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

Agora, ontem, pus-me a ler Colette – e estou encantado, já quase acabei “La Vagabonde” e vou continuar com “Chéri”, que já lá está na mesa de cabeceira. Não será a minha escritora preferida, mas hoje é, com certeza.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão. Cesário.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

Ficção: o capitão Achab, os protagonistas de Stendhal, ah, o Fabrice del Dongo da Cartuxa de Parma... Figuras históricas: Rosa Luxemburgo, os heterodoxos do comunismo do princípio do século XX.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

Mozart aos meus 13 anos. Mozart, hoje. Verdi quase sempre. E Beethoven. E Joseph Kosma, claro, les feuilles mortes/ se ramassent à la pelle...

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

Ainda há dias estive no Prado e de novo me perdi a olhar Velasquez.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

Os meus actores. Sempre. Os de hoje, os de ontem, aqueles com quem trabalhei, tantos com quem gostava de trabalhar e ainda não chegou a hora, etc, os actores.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

De ter sono, sono, tanto sono.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

Afinação, para poder cantar, cantar, cantar.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

Sem dor. Nem minha nem alheia.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

Sonolência, sim.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

As que não noto. Aquelas em que não reparo.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

A vida. Ou seja, a morte. Ou seja, o medo, tanto medo de perder “ a única estação”.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

 

 

 

 

 

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