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Jaques Morelenbaum (Quest. Proust)

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

 

Não posso lembrar de nada melhor que ser amado e cuidado para eleger como característica mais identificadora.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

 

A nobreza de ideias e intenções.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

 

A beleza.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

 

Mais uma vez Proust convence-me com impressionante facilidade de que “sabe das coisas”...

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

 

Completamente. A preguiça? Se isto é defeito...

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

 

Como discordar sem estar a enganar-me? Mas poderia acrescentar: ter os pés no chão, admirar a natureza, colher uma fruta do pé, ou até coisas banais como uma sessão de massagens, ou um passeio de bicicleta.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

 

Todo o conjunto contido em minha resposta anterior, e mais, muito mais.

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

 

Confesso que após muitos minutos a pensar no que seria mais sincero de minha parte ao responder esta pergunta, e resolvendo ser mais imediatista, poderia responder que minha maior desgraça seria a obrigação de responder a esta desagradável pergunta!

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

 

Aos 13 poderia citar: 1º um astronauta qualquer, desde que me fosse dada a chance de pisar na Lua. 2º. Paul MacCartney. 3º. George Martin. E agora? Eu mesmo. Mais jovem, mais magro, mais maduro, mais esperto, mais corajoso, dotado de uma capacidade muito maior de memorizar e perpetuar em mim todas as experiências vividas.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

 

Existe, fica na America do Sul, banhado pelo Atlântico, voltado para a África, foi colonizado por portuguêses, salvou os Morelenbaum de seu total desaparecimento[a família é de origem polaca e fugiu para o Brasil no advento da Segunda Guerra].

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

 

Guimarães Rosa, Luiz Fernando Veríssimo, os que me encontro no momento a degustar, parodiando Proust.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

 

Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa...

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

 

Aos 13, Super-Homem. Aos 53, estou mais interessado na realidade, já que dela resta-me tão pouco (apesar de pretender chegar aos 100...).

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

 

Não sei se tenho discernimento suficiente para dizer um nome. Posso iniciar minha lista assim: Antonio Carlos Jobim, Brahms, Ravell, Villa Lobos... e posso seguir para sempre.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

 

Van Gogh.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

 

Antonio Carlos Jobim, Caetano Veloso, Miles Davis, Claus Ogermann, Pablo Casals.

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

 

Da mentira.

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

 

Poder cantar com minha própria voz – e gostar!

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

 

Não gostaria...

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

 

Feliz por estar vivo.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

 

Sou supersticioso, sim, embora o deseje negar, mas não chego ao ponto de ter que omitir que desejo amar e entregar-me. Correr? No sentido literal: a determinação em manter-me muito vivo. Fugir? Da preguiça.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios no Verão de 2010

 

 

 

 

 

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