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João Tordo

João Tordo nasceu em 1975. Quando se fala do futuro do romance português, fala-se dele. Estudou Filosofia e Escrita Criativa. É guionista. Viveu em Nova Iorque, regressou a Lisboa. Com o terceiro livro, ganhou o prestigiado Prémio José Saramago.

 

 

Recebeu o Prémio José Saramago com o romance "As Três Vidas". O que é que isto representa para si?

O prémio representa muitas coisas. Para além da felicidade que é recebê-lo, é também uma responsabilidade enorme, uma vez que, a partir de agora, o nome mais importante das letras portuguesas associa-se, de alguma maneira, ao nosso, e é nosso dever não defraudar as expectativas.

 

Pode falar das afinidades com a escrita do Nobel português?

A minha afinidade com a obra de Saramago é completamente emocional, no sentido em que sou grande admirador dos romances, em particular "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e "O Homem Duplicado", dois dos livros que mais me marcaram e me converteram num "saramaguiano". O primeiro pela magnífica efabulação do heterónimo de Pessoa e o percurso solitário pela melancolia portuguesa, o segundo pela demonstração de um thriller sobre o tão difícil problema da identidade.

 

No seu romance, fala-se de funambulismo; porquê o interesse pelos que andam na corda bamba? Escrever/viver é um exercício de equilíbrio e desequilíbrio?

Achei que era uma bela metáfora para a vida daquelas personagens e também para o próprio exercício da escrita, quando este é feito na forma de uma confissão. O livro é confessional, e o narrador duvida constantemente da sua capacidade de levar aquela história a bom porto. A pergunta que fica no ar é: o que leva alguém a querer atravessar o vazio numa corda bamba, caminhando no limite do imperfeito? Julgo que a vida pode ser entendida como algo parecido, sobretudo quando as estruturas desta são abaladas e a própria existência é colocada em questão.

 

Camila, a personagem feminina, é uma espécie de anjo da desgraça? Uma encarnação do sonho, da ameaça, do intangível?

 Neste caso, até acho que a Camila é a personagem principal. É ela que coloca a narrativa em movimento no sentido emocional (Millhouse Pascal, o seu avô, cumpre o mesmo papel mas pelo lado intelectual). E sim, julgo que é uma espécie de anjo da desgraça, sendo que a desgraça se abate sobre ela própria. Mais do que as mulheres serem uma força motriz, acho que representam um enigma, não no sentido racional (aí acho que os homens têm algum ascendente) mas no sentido emocional que, uma vez mais, é o que faz mover o ser humano.

 

Grandes acontecimentos da história do século XX (como o 11 de Setembro ou a Guerra Civil de Espanha), servem de pano de fundo e condicionam a vida dos personagens. Há também uma dispersão geográfica (passa pelo Alentejo ou por Nova Iorque). Há indivíduos de diferentes idades e de diferente condição social. Qual é o fio condutor essencial?

O fio condutor vai-se encontrando na procura, uma vez que o romance é uma aventura que percorre muitos anos da vida do narrador e várias épocas históricas. Talvez o problema da morte seja aquilo que, no final, acaba por determinar a narrativa: como resistir à morte, sobretudo à segunda morte, aquela que acontece quando já não há ninguém que se lembre de nós? O Javier Cercas falou uma vez disto, dessa segunda morte, dizendo que a literatura o que faz é resgatar os mortos. Esse é o sentido da narrativa n’ “As Três Vidas”: o resgate daquelas personagens que determinaram a vida do narrador e, uma a uma, pereceram sem deixar outro rastro que não as memórias. Por isso, a literatura é memória e, nesse caso, auto-conhecimento retrospectivo, construído a partir da memória.

 

Publicado originalmente na revista Máxima

 

 

 

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