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Filipa César (em Berlim)

Filipa César usa o vídeo para falar de coisas como a linguagem, expressão comportamental ou organização social. É como os flâneurs do século XIX que deambulavam pela cidade para a registarem nos seus suportes – eles na literatura, ela no video art.  É uma mulher atenta às pequenas encenações do dia a dia, à mecânica dessas relações.

Vive em Berlim há sete anos. Quando se despediu, partiu na sua bicicleta. Havia uma cadeirinha para a Rosa, a filha de quase dois anos. “Mas estamos em Berlim, aqui anda-se de bicicleta”. Quis ser fotografada no espaço Kunst-Werke, uma boa síntese da Berlim destes dias – cosmopolita, aberta, contemporânea. Ocupa um edifício e um pátio da velha zona oriental. O artista plástico Dan Graham colaborou na recuperação do café. Comemos paninis com queijo e legumes, e bebemos capuccinos uns atrás dos outros.

 

 

A cidade é um personagem central do seu universo criativo?

A cidade é um contexto, e este é particularmente enriquecedor. Porque está ela mesma em construção, em movimento. Desde há três, quatro anos está também a ser problematizada no cinema. Ou seja, o que é que é Berlim?, o que é que foi Berlim?, que mudança foi esta?

 

O filme «As vidas dos outros» é só um exemplo desse questionamento. Começa-se a mexer na ferida, no que aconteceu na Alemanha antes da queda do muro.

A cidade tem um protagonismo permanente. Mas é suficientemente grande para que cada um possa encontrar os seus passos. Tenho um atelier no cimo de um edifício na Alexander Platz. Estou no centro, mas estou isolada, não tenho contacto com ninguém se não quiser. Não fica muito longe de minha casa, mas não tem nada a ver com Prenzlauer Berg, com as suas casinhas e jardins de infância. Berlim é tão variada... Mudar de bairro é quase como mudar de cidade.

 

Quando se mudou, Berlim era um imenso estaleiro. Vivia na dupla condição de “infiltrada na cidade” e de parte activa na sua construção. A zona leste, sobretudo, estava num processo de renovação acelerado de que quis fazer parte.  Mas hoje, está mais acabada, feita. Por causa disso, é menos estimulante?

Não, é igualmente estimulante. Eu é que me sinto menos estranha nela, e começo a trabalhar de outra forma por causa disso. As observações que eu fazia, de pessoas em situação de espera, em estações..., agora tenho maior dificuldade em entrar nesta análise.

 

Uma das suas peças mais famosas consistia na observação de pessoas numa estação de comboios; tentava registar na cara delas a reacção ao facto de os seus transportes estarem atrasados ou terem sido cancelados. Havia tensão, espanto, ansiedade, dúvida.

Nas minhas primeiras peças, a cidade e a minha condição na cidade, eram tematizadas. Aquilo que me fascinava era analisar a cidade sob o ponto de vista de um estrangeiro. Mas vivo cá há sete anos, comecei a falar alemão, e isso altera a forma de pensar. A linguagem não é só tradução de qualquer coisa. Constrói pensamento também.

 

Não por acaso, a linguagem está cada vez mais no centro do seu trabalho.

Interessava-me sobretudo a linguagem que não era escrita nem falada – a linguagem comportamental. A minha questão base era: como é que a linguagem cinematográfica altera o comportamento do dia a dia no público? Essa relação entre ficção e realidade não é tão estanque. As minhas primeiras peças, não só analisam o cidadão na cidade, como remontam, reutilizam, reencenam depois essas situações. O alemão: aprendi-o depois dos 21 anos, ou seja, de uma maneira lógica. Não é como uma criança que aprende uma língua intuitivamente. Em 2005, numa peça que apresentei no Museu de Serralves, “Ringbahn”, trabalhei esse tema.

 

Observar continua a ser o verbo essencial?

Sem dúvida. Mas o momento fundamental é o seguinte, quando estou na sala de montagem a reorganizar aquilo que vi. O momento criativo é o da articulação. Podemos ter 300 câmaras a apontar para este café, mas o modo como esse material vai ser ordenado e articulado é que vai construir a mensagem.

 

O seu trabalho é muito conceptual. Mas as reacções que procura nas pessoas que filma são do domínio do instinto.

O próprio trabalho de montagem é muito instintivo. Joga-se muito com o acaso, com relações de imagem e som de que não estava à espera.

 

Se vivesse em Portugal, as suas ficções seriam diferentes? Ou seriam as mesmas questões, mas com outras respostas porque a cultura é diferente?

Aprende-se imenso quando se ouve estrangeiros a falar sobre Portugal. São coisas de que não estamos à espera, ou pormenores que nunca foram imporatntes para nós. Em Berlim é possível falar inglês durante dois anos. Estão imensas pessoas de fora e não aprendem necessariamente a língua. Misturam-se italianos, australianos, americanos... Este fenómeno é muito importante para a história alemã.

 

Uma certa miscigenação?

Quando vim, havia uma imagem dos alemães: frios, nazis, calculistas. Esse estereótipo ainda persiste. Mas a realidade está em mudança. Há mesmo um inter-câmbio cultural. Em Portugal, o que faria? Não sei. Fiz uma peça para a Gulbenkian; tematizei o edifício, os subterrâneos, a “vida escondida” num patamar onde vivem e trabalham funcionários. Mostrar os bastidores e o que está para além de: é o que está nessa peça.

 

O seu trabalho é muito focado na organização social e nos seus modos de expressão. Ter uma relação de pertença com Berlim, nem que seja porque é casada com um alemão e tem um filha que é bilingue, alterou alguma coisa?

Comecei a sentir na pele a burocracia!, de que antes não tinha noção. O facto de ter uma filha faz com que organize o meu tempo de maneira diferente. O tempo é muito mais precioso. Quando aos temas e ao olhar, não sei como se tem revertido no meu trabalho. Muitas destas coisas já estavam preparadas antes de a Rosa nascer... Não sei se vai haver uma redirecção do olhar.

 

Publicado originalmente na revista LA Mag em 2007

 

 

 

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