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Adriana Molder (em Berlim)

À porta do atelier, está uma página de revista com um vestido lindíssimo da Dior. Uma imagem antiga. Adriana Molder gosta de vestidos antigos e de imagens a preto a branco. Desenha num papel amarrotado a tinta da China. Os seus trabalhos parecem sempre um imenso “mar negro” – a expressão é sua. Estudou no ARCO. Ganhou o prémio revelação CELPA/ Vieira da Silva em 2003. No final de 2006 inaugurou uma exposição no Museu de Belas Artes das Astúrias, ao lado do Príncipe Filipe. Mudou-se para Berlim há anos. Desde então, muita coisa aconteceu...

 

 

A exposição “Der Traumdeuter” ilustra um ciclo de vida em Berlim. Resulta da residência artística que fez no Bethanien ao longo do último ano. Que história é a desta exposição?

Este espaço funcionou como hospital até aos anos 60 do século XX, e desde o século XIX. Era um hospital muito inovador, limpo, protestante – o lema da higiéne e do caminho para deus eram fundamentais. Cheguei em Dezembro, em pleno Inverno. A primeira coisa simultaneamente atraente e assustadora foi pensar que estava a dormir num hospital! Será que no meu quarto morreram pessoas?, nasceram pessoas?, curaram-se?

 

Por companhia, num espaço ameaçador, escolheu as histórias fantásticas...

Vi muitos filmes alemães, sobretudo do Murnau: “Fausto” impressionou-me imenso. E li histórias do Ludwick Tiec. São histórias de fantasmas. Ou os personagens começam a duvidar e essa dúvida faz com que aconteçam coisas terríveis! Esse lado dos alemães – de o desejo fazer com que a vida toda fique destruída – foi muito apelativo. No caso do “Fausto”, o diabo é a dúvida. Estas imagens começaram a aparecer e tive vontade de as desenhar.

 

Mas uma figura domina esta série de desenhos: um homem a que chamou Leo Stern.

Inventei essa personagem: um homem que caiu doente, que teve uma espécie de febre, acordou aqui no Bethanien e teve imensas visões. Essas imagens, que ele não conseguia distinguir, é que o impediram de morrer. Porque esteve entretido a vê-las. Como se estivesse a ver um filme dentro da sua cabeça. Quis que essas imagens viessem ter comigo. Gosto da ideia do artista como médium. E gosto de inventar que a inspiração me vem de uma pessoa que esteve aqui doente, neste espaço onde estou a dormir, a desenhar e a cozinhar.

 

Porque é que se mudou para Berlim? Vive cá há quase dois anos.

Concorri várias vezes à bolsa do Bethanien e não ganhei; mas decidi vir de qualquer modo. Vim cá pela primeira vez em 99 e voltei em 2003. Berlim tem um conjunto de qualidades que não se encontram facilmente noutras capitais. Tem uma oferta cultural quase idêntica a de Londres ou Paris; aqui não há tanto cinema, mas há boas exposições, óptima ópera, óptima dança contemporânea. Tem espaço. Espaço para me mover, para viver, para pensar. E é uma capital em que posso ter uma boa vida: é barata. Há imensas galerias e artistas que estão a viver aqui por todas estas razões.

 

As mudanças são já visíveis no seu trabalho?

Berlim também é uma cidade um pouco adolescente... Não sou só eu a sentir isso... Mesmo a música que ouço, voltou a ser a que consumia no fim dos anos 80. Berlim puxa por essa liberdade. Puxa por um lado que achava que tinha ultrapassado como mulher adulta. Sinto que os meus desenhos estão diferentes, e que são mais livres. Por acaso, têm a ver com coisas que fiz no princípio da minha carreira. E estas têm sempre a ver com filmes.

 

O cinema e a literatura são influências nucleares do seu trabalho. Porquê?

Na minha adolescência e também na infância vi muitos filmes. Muitos mesmo! Ia muito à Cinemateca. Depois fiz uma espécie de intervalo. Há sempre qualquer coisa na minha memória que tem a ver com essas imagens do cinema e da literatura.

 

No cinema, as pessoas já têm uma cara, as cidades já têm uma configuração. Na literatura, os personagens não têm um rosto definido. O seu Leo Stern é completamente inventado.

Sim, crio uma cara. Mas não me interessa encontrar uma cara que venha apenas da minha imaginação. Gosto que seja um encontro entre a minha imaginação e uma coisa que já existe. Não gosto nada de trabalhos livres! [risos].

 

Embora faça cada vez mais cidades e interiores, os retratos domimam os seus desenhos. Fale-me do fascínio pelo rosto humano.

O meu mundo vem muito da fotografia. Coisas que vi, como os retratos da Diane Arbus, foram muito importantes no meu crescimento. Há qualquer coisa que procuro sempre num rosto... Não sei explicar porque é que os faço... Sei porque faço, agora, cidades e interiores – este candelabro, por exemplo, que está aqui à nossa frente. Procuro que sejam tão intensos quanto os retratos, e isso é uma dificuldade, um obstáculo que tento ultrapassar. Acho que consigo encontrar alguma intensidade nos rostos. E procuro o mesmo nos interiores.

 

Os momentos de transição, por vezes de agonia, são lugares onde se sente confortável. Não é à toa que os personagens que mais lhe interessam sejam, na literatura, os de Schnitzler, situados numa Viena decadente, de fim de Império, ou estes agora, que transbordam da realidade para a fantasmagoria.

Se calhar, a vida também é um momento de transição. Sinto-me bem com essa ideia da não-permanência. É isso que me inquieta, que nos inquieta a todos [risos]. Gostei muito de trabalhar no Bethanien com estas personagens que me vinham observar, que eram fantasmas, no fundo.

 

Dias depois de inaugurar a exposição no Bethanien, recebeu o prémio de Herbert Zaap, entregue na Feira de Arte de Berlim. Que distingue o melhor jovem artista do ano.

Foi uma enorme surpresa. É fantástico ganhar um prémio sem ter concorrido contra ninguém. Um dos membros do júri viu o trabalho do Bethanien e gostou. A exposição foi muito visitada por pessoas muito diferentes. O público aqui vai mesmo ver as exposições, não finge que não fizemos uma coisa. Em Lisboa não vão ver porque ficam mais preguiçosos. Eu mesma, lá, fico mais preguiçosa. Vou ficar em Berlim. As pessoas estão a dar-me valor. Não é que não dessem em Lisboa – não estou a queixar-me. E volto sempre a Portugal. Mas se estou aqui nem há dois anos, e fiz a residência e ganhei um prémio, acho que devo ficar mais algum tempo.

 

Publicado originalmente na revista LA Mag em 2007

 

 

 

 

 

 

 

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