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A minha tara

A minha taradice maior, sem dúvida, é a arrumação. Lamento se a um segundo de expectativa sobreveio uma decepção mortal.

Au revoir aos que ficam por aqui.

Posso alimentar a curiosidade e dizer que também tenho uma grande tara por Nápoles, que é a cidade mais caótica que conheço. Suja, ameaçadora, visceral. A cidade onde senti, assim que cheguei, que podia viver. Podia mesmo mudar-me no dia seguinte, apesar da Máfia e dos problemas da recolha de lixo.

O que é que Nápoles tem? Tem o Vesúvio que se vê de todo o lado. Tem Capri ao fundo. Tem evidentemente as melhores pizzas do mundo. Tem o Hércules no Museu de Arqueologia, tem a Ingrid Bergman no filme do Rossellini a ver o Hércules no Museu de Arqueologia. Tem no mesmo museu o mosaico de Alexandre, o Grande, e o suor que se percebe na cara de Alexandre; suor da intensidade e do vigor, mesmo que a cara seja de pedra.

Talvez, por via da contradição, consiga prender o leitor.

Não queria parecer enfadonha, e até insuportável, como são aquelas pessoas que alinham as folhas na secretária antes de começar a trabalhar. Que têm a roupa organizada meticulosamente.

Eu sou desse tipo. Tenho de contrariar-me quando, sem querer, corrijo a posição dos cabides, de modo a que fiquem todos virados para o mesmo lado. Um horror. Taradice a esse ponto.

E a ponto de não suportar uma casa com uma vista soberba sobre Lisboa porque tem uma tal profusão de linhas, uma tal desorganização arquitectónica, que me causa claustrofobia. Esquinas a mais para quem gosta de linhas regulares. Uma espécie de quadro cubista dentro da minha cabeça. Invivível.

Esta taradice da arrumação está ligada a outra, que as pessoas à minha volta consideram uma qualidade inestimável, mas que não o é exactamente: dar tudo o que tenho. Dou livros, sabonetes, figos, roupa, postais, chá, chocolates – são as coisas que me lembro de ter dado a semana passada.

Não é exactamente uma qualidade porque na raiz deste comportamento está, tão forte como o desejo de partilhar, uma necessidade invencível de me desfazer de coisas. Não aguento tê-las comigo. Não consigo ser um contentor de tralha, tarecos, memorabilia, objectos de estimações, pedaços de uma vida – aquelas coisas que se dizem.

Tenho um único objecto da minha infância e tenho a certeza matemática de que um destes dias vai voar.

É-me estranha (incompreensível) a relação emocional com objectos. Se um cataclismo se abatesse sobre a minha vida, em forma de dilúvio ou fogo de Verão, sentiria uma certa pena de não poder ver mais a capa deste livro da Adriana Varejão que agora tenho à frente. Mas não pensaria no assunto uma segunda vez.

Não guardo um jornal no qual tenha escrito, um programa de televisão que apresentei, uma emissão de rádio que tenha feito. Não guardo bilhetinhos, fotografias, lembrancinhas, nhonhozices. Sou uma desgraça para o coleccionismo. A única coisa que alguma vez tentei coleccionar foi caleidoscópios, e estou sempre a dá-los, também. E livros do Nelson Rodrigues, que venero, e que trata de matérias pouco assépticas (para falar eufemisticamente de sexo e morte). Frequentemente pergunto-me: onde está aquele livro com as 1000 melhores frases do Nelson?, ah pois, dei-o. Dou tudo, mesmo aquilo de que gosto e que me interessa muito.

Mas que fazer?, só me interessam as coisas (imateriais) que posso guardar dentro de mim. 

Porque é que isto está ligado à taradice da arrumação? Elas quase assumem, para mim, uma mesma forma. Porque preciso de limpeza, caminhos desimpedidos, clareza, espaço para a novidade e a surpresa. (Borges falava das “esquinas desamparadas” de Buenos Aires; é bonito. Sobretudo no Borges. Na tal casa cubista, não). Preciso de estar sempre pronta para partir. Preciso de me sentir livre. E leve, já agora. Com objectos e objectos empilhados, sem saber em que prateleira os arrumo, à espera de catalogação num futuro próximo, não consigo.

Como ficou provado, esta tara contamina a minha vida toda. E tem um lado sinistro. Como não quero ser uma tara perdida, chegou o momento de irmos para Nápoles.

É como se o destino, em forma de cidade, me arrebatasse. Goethe, que sabia tudo, dizia que lhe faltavam os sentidos para falar de Nápoles. (Excusare o name dropping). Não encontrei melhor definição. O que ali se passa é de um domínio que a palavra não pode intermediar. Não é possível abordar Nápoles com precisão cirúrgica. E Goethe, um alemão, sabia isso. Só é possível perdermo-nos, e gostar. Sem medo.

Nápoles é como esta capa da Adriana Varejão, que tenho à frente e que me surpreende que ainda aqui continue (momento para risos e troça). A obra da artista brasileira é uma superfície fria, com a temperatura e o rigor geométrico do azulejo, cujas vísceras vêm por fora, o coração, o fígado, a tripalhada toda à mostra. Um nojo.

Nápoles está nas vísceras. Eu aparentemente estou na superfície fria. Só aparentemente. Talvez esteja mais em Nápoles. Mas dessas taras, do que uma cidade como Nápoles desperta em nós, não se pode falar.

A minha maior taradice, a maior taradice que podia cometer, seria mudar-me para Nápoles. Outra vida. Talvez quando me reformar, que é uma boa altura para se ser desarrumado.

E agora, aos que ficaram comigo, au revoir. Em italiano, como diria Lauro Dérnio, arrivederci.   

 

 

Publicado originalmente no jornal "i"

 

 

 

 

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