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Fernando Pessoa (p/ Sr. Moitinho)

Vestia-se nos melhores alfaiates de Lisboa. No entanto, metia vales à caixa ou vendia livros para pagar as despesas. A Mensagem permitiu-lhe pagar todas as dívidas.

No escritório tratavam-no por Senhor Pessoa. Ali era o seu lar. Ali escreveu, à noite, Tabacaria e parte da sua obra, na mesma máquina onde, de dia, redigia cartas e anúncios comerciais. (Por exemplo, o slogan para a Coca-cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”; mas o Director Geral de Saúde não autorizou a importação do produto).

Daquele escritório nasceram as personagens do Livro do Desassossego. A “Tabacaria do outro lado da rua” era a tabacaria que via da janela, a Havaneza dos Retrozeiros.

As tardes de trabalho eram marcadas pela ida ao Abel. Mas a verdade é que nunca ninguém o viu bêbedo.

Da sua vida íntima pouco se sabe. Pouco se sabe da sua relação com Ofélia Queiroz, o único caso amoroso que se lhe conhece.

Talvez Fernando Pessoa fosse um anjo. Um ser assexuado. Assim o define Luis Pedro Moitinho de Almeida, advogado, uma das poucas pessoas ainda vivas que privaram com o poeta. Filho de Carlos Moitinho de Almeida, o patrão de Fernando Pessoa, o Patrão Vasques do Livro do Desassossego, tornou-se seu amigo e admirador.

Em 32 Moitinho editou o livro de poemas «Acrónios», prefaciado por Pessoa e que encerra do seguinte modo: «São estas as considerações que submetto a Luiz Pedro, que m’as pediu. Submetto-as também a várias outras pessoas, que se esqueceram de m’as pedir».

Aos 91 anos, Moitinho de Almeida fala do convívio com Pessoa, do funeral deste com pouquíssima gente, dos percursos feitos até à Rua Coelho da Rocha onde o poeta habitava; mas onde, apesar da amizade entre os dois, o advogado nunca entrou.

 

A entrada era pela Rua da Prata, pórtico partido para o impossível. Consagrou a si mesmo um desprezo sem lágrimas. Um desprezo ainda escrito com S e circunflexo sobre o E.

Os versos que falam deste desespero, desta demissão, foram escritos numa Royal, a máquina que então dividia com Luís. A janela do gabinete era a terceira ou a quarta, qual delas?, seguramente a terceira ou a quarta, atirava para a Rua dos Retrozeiros, e a luz marcava um traçado rectilíneo sobre o passeio. Uma luz argêntea, uma luz baça, do candeeiro da frente ou da lua que seguia os passos de transeuntes tardios.

Pessoa conquistara o crédito do patrão, do Patrão Vasques, fora-lhe confiada a chave do escritório. Avançava pela noite debruçado sobre a máquina. Quando Luís irrompia pelo escritório, acompanhado de uma luz branca, as pontas de charutos denunciavam-lhe a presença do poeta na noite anterior.  

A tabacaria Havaneza ocupava nesse tempo o espaço da Casa Pampas, na quina da Rua da Prata com a Rua dos Retrozeiros. Mirava-o de frente, implacável na sua mudez e quietude pétrea. Em frente a ela começou por escrever num longuíssimo poema:

«Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».

Quando Luís conheceu Pessoa, o Senhor Pessoa, a que hoje, volvidos os anos, e o subsequente peso dos anos, chama Fernando Pessoa, sempre que se lhe refere, era um rapaz. Teria 11 anos, o outro 35. Contas arrendondadas, o encontro terá sido em 23.

O Senhor Pessoa que dividia com ele o teclado da Royal era notado nos círculos. Quando ganhou o prémio do Secretariado Nacional, com a Mensagem, pagou dívidas, ganhou reconhecimento. O mancebo, que já lhe tinha afecto, experimentou admiração; laborava sobre os apontamentos da faculdade no escritório do pai, a juventude corria, fizera-se um homem dedicado às leis. Dactilografava com afinco, e assistia ao cortejo que visitava Pessoa para discutir política. Um cortejo reduzido, que quotidianamente acorria ao escritório.

Quando foi a enterrar, a meia dúzia de sempre circundou-lhe a campa. António Botto, Ferreira Gomes, Raul Leal, João Gaspar Simões. Bem como a irmã, o cunhado Coronel, a família confinada ao espaço físico da Rua Coelho da Rocha.

Luís estava já formado, visitava antigos colegas na faculdade de Direito, no Campo Santana. Corria que Fernando Pessoa falecera, o funeral seria nesse dia. Ainda pôde lançar-lhe terra.

Não há memória de lágrimas, estava pouquíssima gente. Novembro ia adiantado, o dia parece que era claro.

 

«Senhor Pessôa: 30 escudos. 22 de Junho de 1935». A grafia do guarda livros fazia cair sobre o O de Pessoa um acento circunflexo. O papel ordinário do escritório tem as pontas previsivelmente amarelecidas. Mas a rubrica que confere o assentimento do Patrão Vasques surpreende por manter uma cor viva, um vermelho cereja, posto a lápis de pau.

Luís não presenciou nunca os momentos em que o Senhor Pessoa, à rasca de massas, metia vales à caixa. Conserva numa pasta de papéis antigos as sucessivas notas que eram passadas no escritório. Afiança que o dinheiro, a massa, nunca lhe era recusado. Não esclarece do intrincado da relação: Pessoa dirigindo-se ao patrão, directamente, Pessoa dirigindo-se ao guarda-livros, na expectativa do visto do patrão.

O pai depositava nele uma confiança ilimitada. O pai de Luís, Carlos Moitinho de Almeida, homem avisado que não dissimulava a desconfiança em relação ao mundo, nele, no poeta, depositava confiança ilimitada, mercê do tino comercial que lhe era reconhecido. «O meu pai rendeu-se ao êxito de Fernando Pessoa. Os clientes e agentes admiravam o modo como lidava com a correspondência, louvavam o teor das cartas». Enalteciam a sua capacidade argumentativa, importante para as epístolas de carácter comercial. O pai sabia que Pessoa era um homem cheia de qualidades. Todavia, ignorava o seu talento literário. Não tinha ideia que ele pudesse ter escrito:

«Tudo isto é sonho e fantasmagoria. (...) Tudo o que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impresão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituimos nossos próprios espectadores activos».

Ou que Pessoa pudesse ver nele, que rubricava os vales a cor de cereja, que pagou a conta do Hospital de S. Luiz dos Franceses, a Vida. «O meu pai era o “Patrão Vasques”, evidentemente não era um intelectual». Não se sabia monótono e necessário, mandante e desconhecido. Anónimo.

O pai entregou na mão de Pessoa a chave do escritório, avalizava os papéis que o rapaz do escritório trocava por escudos, desapertava o laço da corda na garganta. Pessoa era tido em grande conta, confiavam absolutamente nele; entrava sem pedir licença e tomava a Royal para si pela noite adentro. A despeito dos livros e da cama e da irmã e do cunhado que habitavam o número 16 da Coelho da Rocha, o escritório era o seu lar.

 

Estes são os vales: 20 escudos, 30 escudos, 50 escudos. Sucessivos vales. Amontoados os papéis, o total de parcelas perfaz 510 escudos. «Não sei mesmo se chegou a pagar. A relação com o dinheiro era horrível. Como sabe, ele andava sempre à rasca de massa». Pessoa apoquentava-se com a falta de dinheiro e com as tempestades. Impressionava-se, sensibilizava-se. Todos os verbos são usados por Moutinho de Almeida para descrever a relação; por fim, recorre a sucumbir. Sucumbido pela falta de massa.

Os vales cobriam o luxo dos fatos talhados nos melhores alfaiates de Lisboa. Lourenço e Santos era um deles. Falta apurar se a carta da Procural a reclamar o pagamento de uns fatos era ratificada pela Lourenço e Santos. A Procural era uma agência que cobrava dívidas, um cobrador do fraque do início do século, quando a actividade era permitida.

Tinha a extravagância dos fatos e dos livros. Os livros, comprados em livrarias de Lisboa ou encomendados a estrangeiros, «Talvez contactos das traduções que fazia para vários escritórios», eram pagos a pronto, na urgência de serem comprados. Os fatos alinhavam pela moda dos anos 20, uma moda masculina a que chamavam Papo Seco. Casaco comprido, muito chegado ao corpo, calças apertadas e curtas. Usou sempre esses fatos, estruturados a três quartos, todo ele meticuloso. O vinco perfeito, a camisa impoluta. Era vaidoso com os fatos; os sapatos estavam sempre engraxados. Combinava-os com uma gabardina coçada, que envergava com displicência. Ou então era o dinheiro que não esticava - que é o mais certo. Displicente não vai bem com o formalismo de Pessoa.

Se vistas uma a uma, as folhas rubricadas a cereja permitem perceber os momentos de aperto. Moitinho desconhece o modo de pagamento; se à semana, se ao mês, quanto valia então o dinheiro. Para que serviam 30 escudos? Todos os meses, mais do que uma vez por mês, os vales eram submetidos à gerência. Quando recebeu o prémio do Secretariado Nacional de Informação pagou tudo. «Era um homem de contas direitas, o que não tinha era dinheiro».

 

«Você bebe que nem uma esponja...». Senhor Pessoa aguentava o embate da aguardente pelo meio da tarde. Levantava-se com ar solene e anunciava: «Vou ao Abel». Pegava no chapéu, compunha os óculos, não chegava a esboçar um sorriso.  

O Abel era uma sucursal do Abel Pererira da Fonseca. Uma fotografia tirada por Manuel Martins da Hora mostra-o «Em flagrante delitro», (assim se dedicou a Ofélia Queiroz no verso do exemplar que lhe ofereceu). Atrás de si as garrafas estão alinhadas em sucessivas prateleiras, ao encontro da cintura percebem-se os tonéis; uma mão apoia-se no bolso, a outra empurra o cálice de aguardente. Não se imagina que balbucie além do estritamente necessário com o empregado, dois dedos de trela. O empregado habituou-se ao modo solipsista dos botões da camisa de Pessoa. Estender-lhe-ia um cálice, outro ainda, então até mais logo? Ou as palavras seriam polidas, seixos de forma precisa, escrupulosamente escolhidos na imensidão da praia? Mas nunca além do estritamente necessário. «Era um novelo enrolado para o lado de dentro, como disse de si através de Álvaro de Campos».

Depois regressava ao escritório. Moitinho de Almeida tinha 16 anos, aos olhos de Pessoa era ainda o Luís, o outro era para ele o Senhor Pessoa. O senhor bebe como uma esponja... «Como uma esponja? Como uma loja de esponjas com armazém anexo!».

Era um irónico, resquícios da educação britânica. Tinha uma graça inusitada disfarçada de aparente sisudez. Nunca ninguém o viu bêbedo.

A verdade é que as repetidas idas ao Abel lhe deram cabo do fígado. «Não sei se a causa da morte foi cirrose, mas foi qualquer coisa ligada ao fígado». Contudo, não se lhe ouvia um queixume. Só dizia o que era preciso.

Uma vez almoçaram juntos na Rua do Comércio, senão essa, uma rua paralela à Rua da Prata. Trocaram olhares e impressões difusas. «Ele comia para se manter. Tenho a impressão que não era um gourmet».  

Sobre esse almoço pende um nublado de memórias imprecisas, Moitinho de Almeida procura-as, vasculha, não chega a encontrar o sabor do que comeram. Mas tem recortada a ausência de comentários, a improbabilidade que seria Pessoa dizer «Vou no peixe, disseram-me que está bom».

«Sei isso muitas vezes,

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram

Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio,

Mas trouxeram-mo frio.

Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio».

 

O senhor Pessoa quer boleia até casa?

Luís Moitinho de Almeida era conduzido pelo motorista. O pai esmerara-se na sua educação, mandara-o para o Suíça um Verão aprender francês.

O Senhor Pessoa era de bom trato. Um gentleman educado em Durban, experiência de que não chegava a falar, a não ser para contar a seguinte história: um tipo atirou um tijolo à cabeça de um preto e o que se partiu foi o tijolo! Era a única história que contava da sua infância. Uma história disparatada de que podia rir-se um menino circunspecto.

Partilhavam a Royal e apertos de mão. A princípio era só simpatia, recorda Moitinho, «não me tinha apercebido da grandeza do Fernando Pessoa. Depois do meu quinto ano do Liceu, em contacto com meios literários, onde sabia que ele pontificava e era já consagrado, é que comecei a admirá-lo em grande». A relação respirava uma franqueza que ainda hoje agrada a Moitinho; o advogado respeitou a reserva do poeta. Sabia-o introvertido, não estranhava que no discurso não pontuasse nunca a mãe, a família, a infância na África do Sul. «Ele não era pessoa que se abrisse sobre os seus pensamentos íntimos». Não lhe causa por isso perturbação que, a despeito da proximidade que tinham, nunca o convidasse a subir. Só conheceu o espaço depois de ele se transformar em Casa Fernando Pessoa, anos após a morte do poeta.   

O carro parava frente ao número 16. Vivia com a irmã e o cunhado no primeiro andar direito.

«Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura»

Moitinho vê-o sair do automóvel e dirigir-se à porta de entrada. Desconhece a arca, desconhece o ser estilhaçado, desconhece o oceano ignoto que o habitava por dentro.   

Sabe da vastidão que desconhece depois da morte de Pessoa, aquando das descobertas arqueológicas que o revelaram no seu infinito.

O tamanho de Pessoa parece-lhe reconhecível, a partir do rectângulo de vidro da janela. Estava conectado com o Senhor Pessoa, tinha ao alcance da mão um número que o fazia comunicável. 41350. Chamam ao telefone o senhor Pessoa!

A vizinha do lado, Dona Virgínia Sena Pereira, era a mãe de Jorge de Sena. No cartão de apresentação que Pessoa distribuía podia ler-se: Pedir o favor de chamar, vírgula, ao lado, vírgula, o senhor Fernando Pessoa, Rua Coelho da Rocha, 16, 1º direito. A nota está escrita numa letra miúda e desenhada, quase feminina. No verso deste cartão, o nome e a morada do cunhado coronel, a direcção do hotel eborense onde ficava, iludiam quanto à possibilidade de encontrar Pessoa, descobrir Pessoa, saber dele, da vida que levava.

 

Ofélia. Não soube de Ofélia até todos saberem de Ofélia.

Olhou-a nas fotografias da exposição do S. Luiz, no livro que a sobrinha desta lhe dedicou.

«Achei-a bonita? Não achei nada. Não impressionava? Nunca a conheci pessoalmente. Que ela excitou o Fernando Pessoa, excitou. Se não fosse isso, não havia os beijinhos na escada. Ela trabalhava no escritório do Félix Ribeiro e ele fazia lá traduções. Mais do que isso, não posso dizer. Era uma mulher vulgar. Também ele, por fora, era um homem vulgar. Uma figura enigmática. Não acredito que fosse homossexual. O que era, era um ser assexuado».

O mais certo é que Ofélia não tenha tido um vislumbre de Pessoa. Entregavam-se a beijos na escada do escritório, e é tudo. Nenhum frémito o tomou. A voz continuou sumida, sobre o baixo, pausada. Uma voz de pessoa tímida que usa as palavras com solenidade.

«Quem é feliz? “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Como todos os poetas, ele sofria. Os seus momentos de felicidade? Quando lhe deram o diploma na África do Sul e quando ganhou o prémio do Secretariado Nacional. São dois momentos positivos para a vida dele. Fui eu que percebi, ele nunca o disse, nunca expressava alegria».

 

 

 

Texto de Anabela Mota Ribeiro com Susana Sena Lopes, publicado originalmente na revista Tabacaria

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